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sexta-feira, 25 de março de 2011

EUA: O neopessimismo

Charles Simic

10/3/2011, Charles Simic, New York Review of Books, Blog 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Nem lembro quando ouvi, pela última vez, alguém se manifestar com genuíno otimismo sobre o futuro dos EUA. Descontem-se os políticos, os donos de bancos de investimento e os generais, porque esses são pagos para oferecer garantias para qualquer coisa, apesar da economia que degenera nos EUA e das guerras suicidas em que o país está envolvido, e os narcisistas de sempre, acostumados a dar as costas aos sofrimentos dos nossos irmãos de destino nos EUA. 

Até há bem pouco tempo, os anunciadores do apocalipse eram raros entre meus amigos e conhecidos. Sempre houve desses em maior número entre os mais velhos, cuja vida já acumulava considerável carga de tragédias e desilusões, o que bastava para que nos convencêssemos de que aquele pessimismo sombrio não seria aplicável a nós, os mais jovens. 

Há algum tempo, ainda se encontravam otimistas inveterados, idealistas e até alguns realistas Niebuhrianos [1]; hoje, só se encontram pessoas de todas as idades e contextos, sempre ansiosas para contar como tudo vai terrivelmente mal e, em registro mais pessoal, como a vida pessoal e familiar degringolou – e como lhes parece difícil, não só pagar as contas, mas, também, entender como o país que conheciam tornou-se tão completamente irreconhecível. 

Considere-se o assalto aos direitos dos trabalhadores pelo novo governador do estado de Wisconsin, Scott Walker e um grupo de senadores, sem qualquer discussão com a sociedade. A mesma abordagem espalha-se para outros estados dos EUA. Nesse país irreconhecível para os próprios norte-americanos, professores, sindicalistas, homens, mulheres e crianças, os desempregados e os desesperados são a causa de déficits insustentáveis; e prevalece uma filosofia de cão-que-devora-cão; e há quem espere que essa filosofia algum dia devolva a grandeza aos EUA. 

Hoje, deve ser difícil para quem ofereça jantar aos amigos nos EUA, conseguir que todos não façam outra coisa, ao longo de todo o jantar, além de repetir, uns aos outros, a quantidade espantosa de estupidezes e mentiras que todos ouviram pelas televisões ou leram nos jornais. À medida que o jantar avança, então, vai ficando cada vez mais difícil evitar que se desinteressem da comida, da bebida e do jantar, envolvidos todos no triste jogo de disputar quem ouviu a maior estupidez, a mais completa sandice, da imprensa. Sei que, quando me reúno com amigos, todos fazemos esforço consciente para falar de outros temas que não sejam filhos ou netos, reminiscências do passado e filmes a que assistimos, mas ninguém consegue, por muito tempo. E todos frustramos e entristecemos uns os outros, voltamos cada um para sua casa, incomodados e frustrados cada um consigo, como se sofrer pelo que está sendo feito contra nós não fosse assunto adequado à polidez das relações sociais. 

Nessa atmosfera de ansiedade e histeria crescentes, na qual as causas verdadeiras e a escala do desespero nacional dos norte-americanos são deliberadamente ocultadas e encobertas pelo e no establishment político e pela imprensa-empresa, não surpreende que o que mais cresce sejam a confusão e a fúria, por todos os lados. 

Como qualquer um que tenha viajado pelo país e conheça os EUA por conversar com os norte-americanos já sabe, os norte-americanos não são só mal informados; são doloramente ignorantes sobre praticamente todas as coisas que afetam a vida. 

Como seria bom se o presidente Obama falasse aos norte-americanos e nos dissesse que o déficit é provocado, principalmente, pelas guerras que lutamos no Afeganistão e no Paquistão, pelas centenas de bases militares que os EUA mantemos pelo planeta, pelos vergonhosamente baixos impostos que se cobram dos ricos, pelo ‘resgate’ de Wall Street. Como todos sabemos, não há sequer uma mínima chance de que isso algum dia aconteça. 

Pelas contas do presidente Obama, dizer a verdade aos cidadãos comprometeria sua campanha de reeleição, porque, se disser a verdade, ele não conseguirá arrecadar os bilhões de dólares de que precisa para reeleger-se. O tipo de gente que tem esse tipo de dinheiro e concordará em doá-lo para a campanha eleitoral sabe muito bem o que eleitores bem informados em democracia que funcione diriam a e fariam contra aquele tipo de gente, desde que os eleitores soubessem, com clareza, que eles, não nós, rasparam as caixas do Tesouro dos EUA e reduziram esse país à miséria, para enriquecimento deles, não dos EUA nem dos eleitores. 

Não há dúvidas de que o presidente Obama e seu partido farão o que puderem para esconder a verdade e oferecerão soluções atraentes – como o programa de assistência à saúde, que não só não aumenta a cobertura. mas é mais vantajoso para as empresas médicas que para os cidadãos doentes, e pouco reduz os custos médicos. 

O presidente Obama e seu partido contam com que essas medidas enganarão a maioria dos eleitores que não cuidam de procurar melhor informação sobre os detalhes. Além disso, são medidas que sinalizam claramente para os endinheirados que nada os perturbará muito gravemente. 

Quanto aos norte-americanos que continuam a repetir que há algo fundamentalmente errado numa democracia que não se preocupa com a desigualdade sempre crescente, que denunciam a loucura galopante das aventuras militares infindáveis em que os EUA meteram-se no Afeganistão, que veem a miséria em que vivem os doentes e os desempregados, que veem o sofrimento dos mais pobres, sempre tão perto, tão à vista... Esses serão tratados como incapazes de avaliar com objetividade a realidade. E são lembrados de que, com o outro partido no poder, as coisas seriam ainda piores. 

O motivo pelo qual os pessimistas e desesperançados multiplicam-se nos EUA é que todos desonramos a inteligência, o que esse país aprendeu da história, cada vez que nos recusamos a admitir que a corrupção é a fonte de todos os nossos males. 

Não é preciso grande esforço mental para perceber que não há forças políticas ativas nem em Washington nem nas pequenas comunidades, nem em lugar algum, capazes de corrigir as ilusões em que os EUA afundam-se, de que os EUA seriam os guardiões do mundo. Qualquer ideia de boa solução que surja, sempre será avaliada pelos lucros que traga a um ou outro grupo de interesses – e correspondentemente bombardeada, se não trouxer os lucros imediatos com que contam e dizem merecer. 

Diz o ditado, que o macaco se coça com a chave com que poderia abrir a gaiola que o prende. Há quem ache engraçado, há quem ache triste. Desgraçadamente para os EUA, somos o macaco na gaiola. 

NOTA
[1] Karl Paul Reinhold Niebuhr (1892-1971) foi teólogo norte-americano, conhecido comentarista de assuntos públicos. Orador poderoso e escritor sedutor, já foi descrito como o mais influente ator da política interna nos EUA nos anos 1940s e 1950s. É autor da teoria da “guerra justa”. Seus escritos têm sido citados como importante influência no pensamento de muitos políticos dos EUA, entre os quais Jimmy Carter, Madeleine Albright, Hillary Clinton, John McCain e, recentemente, Barack Obama. O próprio Obama já reconheceu a influência do pensamento de Reinhold Niebuhr em seu pensamento. De fato, o motivo real pelo qual Obama interessou-se pelo pensamento de Niebuhr parece ser a ideia de combinar uma compreensão realista da política e da natureza humana, com um idealismo de inspiração religiosa [NTs, com informações de Wikipedia].

segunda-feira, 14 de março de 2011

MICHAEL MOORE: Carta aos meus conterrâneos, de Michigan

Michael Moore

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Companheiros Michiganders (e Michiganders honorários em todo o mundo):

Estou convocando todos os que possam, para que tirem a 4ª-feira para isso e todos se dirijam ao Capitólio, em Lansing, capital do estado de Michigan, para protestar contra a legislação cruel, apavorante, que está sendo metida pelas nossas goelas abaixo.

O que mais chocou muita gente é que o novo governador, que concorreu contra o Tea Party e derrotou a ala da direita do seu partido nas primárias – e chegou à eleição geral como “um simples nerd de Ann Arbor”, moderado, não ideólogo – nos pregou um dos maiores golpes de Jekyll & Hyde jamais vistos na política eleitoral.

O Governador Snyder, imediatamente depois de eleito, arrancou a máscara de bom moço e revelou o que de fato é: multibilionário dedicado a destruir o estado de Michigam e entregá-lo aos seus camaradas de Wall Street.

Em apenas oito rápidas semanas, o governador Snyder:

* Conseguiu que Câmara e Senado aprovassem leis que lhe deram poderes para “gestão de emergência” – dentre outros, poderes para indicar uma empresa ou um executivo que pode, literalmente, dissolver governos municipais ou Comissões Escolares, demitir funcionários eleitos, anular qualquer lei local e governar todo o aparelho do governo estadual em Michigan. Essa empresa, em seguida, tem o poder para declarar nulos e cancelados todos os contratos coletivos de trabalho.

* Propôs imediato corte de 86% nos impostos devidos pelas empresas, e aumentou em 31% os impostos devidos pelos contribuintes pessoais! E a parte principal desses impostos pesam sobre – não estou mentindo! – sobre os mais idosos e os mais pobres! Diz que esses dois grupos, até agora, não “partilharam os sacrifícios” que todos nós temos sido obrigados a fazer. Então, no orçamento do estado, o governador Snyder propõe CORTE de $1,8 bilhão para as empresas e um AUMENTO de $1,75 bilhão para o resto da sociedade, a maior parte a ser pago pelos pobres, pelos idosos e pelos trabalhadores –, apesar de o 1% dos mais ricos em Michigan JÁ PAGAREM a menor taxa estadual de impostos de todo o país!

* Associado aos demais deputados, fez aprovar mais de 40 leis contra o trabalho só nos dois primeiros meses de mandato! Não perderam tempo! E apanharam desprevenidos a maioria de nós. Boa parte dessas leis foram aprovadas antes que tivéssemos tido tempo de ver o que acontecia e protestar.

São medidas catastróficas, que levarão o nosso estado, já tão terrivelmente sacrificado, para o fundo do poço. Precisaríamos agora de um líder inspirado, que nos ajudasse a reinventar o estado de Michigan, a encontrar meios criativos para gerar novos empregos e nos arrancar da depressão econômica.

O resto do país que chame o que estão vivendo de “Grande Depressão”. Nós, em Michigan, estamos vivendo “a Depressão num só estado”.

Sei que muitos estão desesperados, e nada mais justificável do que ter perdido todas as esperanças, hoje, em Michigan. Mas não podemos deixar que as coisas piorem ainda mais. É preciso levantar-se e lutar contra essas leis draconianas e essa escandalosa tentativa de nos roubar nossos direitos democráticos, fazendo do nosso estado mais um quintal dos assaltantes que vivem em Wall Street e nos EUA das grandes corporações. Veem nosso estado como uma grande liquidação – e mal podem esperar para por as patas no que ainda é estado rico em recursos naturais e em infraestrutura industrial.

Por favor, apareçam todos ao meio-dia da 4ª-feira, 16 de março, para nossa primeira manifestação-monstro contra essa insanidade.

Centenas de grupos já estão organizando comboios de carros e ônibus. Você pode, agora mesmo, declarar-se organizador e começar a convocar amigos e vizinhos para participar da manifestação-monstro em Lansing.

Se você trabalha, não há dia melhor para dizer que está doente do que na 4ª-feira, 16 de março (o que está acontecendo em Michigan É UMA DOENÇA).

Se você estuda e tem aulas, não há dia melhor que a 4ª-feira, 16 de março, para cabular a aula e começar a participar da democracia, nos EUA.

Temos de estar todos lá. Temos de fazer uma manifestação-MONSTRO – e faremos, se todos vocês simplesmente andarem até o Capitólio e tomarem posição.

Nas últimas semanas, muita gente tem prestado atenção ao que está acontecendo em Wisconsin. Poucos sabem do que está acontecendo aqui em Michigan. Rick Snyder é um Scott Walker cheio de esteróides. Jamais antes aconteceu contra nós, o que a AAAR  já descreveu como “ataque mortal” contra idosos e trabalhadores. 

Acreditem em mim. Vocês vão maldizer o dia em que ficaram em casa e nada fizeram para impedir que esses assaltantes travestidos de políticos roubassem de vocês o seu Estado dos Grandes Lagos.

Não permitam que aconteça! Estejam todos no Capitólio ao meio dia da 4ª-feira, 16 de março, para a maior manifestação de cidadãos que Michigan jamais viu!

Vamos Spartans! Vamos Wolverines! Vamos todos que ficam aí, nem um nem outro! 

Atenciosamente,
Michael Moore

quarta-feira, 9 de março de 2011

MADISON - O GRITO DE GUERRA DOS TRABALHADORES NOS EUA

Laerte Braga

Laerte Braga

O discurso do cineasta Michael Moore, em Madison, capital do estado do Wisconsin, diante de milhares de trabalhadores que protestavam contra o corte de direitos e benefícios assegurados em lei, é um dos mais importantes gritos dentro do território continental norte-americano contra a barbárie e hipocrisia que caracteriza aquele extinto pais, hoje, um conglomerado terrorista formado a partir de bancos, indústria bélica, grandes empresas e latifúndio. EUA/Israel Terrorismo S/A.

A crise econômica deste início de século levou milhões de norte-americanos a perderem suas casas, seus empregos, suas aposentadorias e pensões e todo o processo que Barack Obama chama de “recuperação da economia” se volta para o terror contra nações ao redor do mundo e o fortalecimento do mundo empresarial do seu país.

Os primeiros bilhões de dólares doados pelo governo à indústria, no início do governo Obama, boa parte deles, foi transformada em bônus para executivos de empresas falidas como a General Motors. O próprio presidente teve que intervir diante da repercussão negativa do fato e fingiu que mudava alguma coisa.

Diz Moore –

“ao contrário do que diz o poder, que quer que vocês desistam das pensões e aposentadorias, que aceitem salários de fome e voltem para casa em nome do futuro dos netos de vocês, os EUA não estão falidos. Longe disso. Os EUA nadam em dinheiro. O problema é que o dinheiro não chega até vocês, porque foi transferido, no maior assalto da história, dos trabalhadores e consumidores, para os bancos e portfólios d hiper mega super ricos”.

E, “hoje, 400 norte-americanos têm a mesma quantidade de dinheiro que metade da população dos EUA, somando-se o dinheiro de todos”.

“Vou repetir. Quatrocentos norte-americanos obscenamente ricos, a maior parte dos quais foram beneficiados no resgate de 2008 (ajuda às empresas) pago aos bancos, com muitos trilhões de dólares dos contribuintes, têm a mesma quantidade de dinheiro, ações e propriedades que tudo que 155 milhões de norte-americanos conseguiram juntar ao longo da vida, tudo somado. Se dissermos que fomos vítimas de um golpe de estado financeiro, não estamos apenas certos, mas além disso, também sabemos, no fundo do coração, que estamos certos”.

“Não é fácil dizer isso e sei por quê. Para nós, admitir que deixamos um pequeno grupo roubar praticamente toda a riqueza que faz andar nossa economia é o mesmo que admitir que aceitamos humilhados a idéia de que, de fato, entregamos sem luta a nossa preciosa democracia à elite endinheirada. Wall Street, os bancos, os 500 da revista FORTUNE (que listas os mais ricos do país) governam hoje essa República – e até o mês passado, todos nós, o resto, os milhões de norte-americanos nos sentíamos impotentes, sem saber o que fazer.”

“A loucuras que fizeram em Wall Street custou-nos milhões de empregos. O Estado está arrecadando menos. Todos estamos sofrendo como efeito do que os ricos fizeram”.

“Mas os EUA não estão falidos amigos. Wisconsin não está falido. Repetir que o país está falido e repetir uma enorme mentira. As três maiores mentiras da década são: 1) os EUA estão falidos; 2) há armas de destruição em massa no Iraque e 3) os Packers não ganharão o Super Bowl sem Brett Favre”.

E sobre políticos.

“A verdade é que há muito dinheiro por aí. MUITO. O caso é que os homens do poder enterraram a riqueza num poço profundo, bem guardado, dentro dos muros de suas mansões. Sabem que cometeram crimes para conseguir o que conseguiram e sabem que, mais dia, ou menos dias, vocês vão querer recuperar a parte daquele dinheiro que é de vocês. “Então, compraram e pagaram centenas de políticos em todo o país para conduzirem a jogatina em nome deles. Mas, para o caso do golpe micar já cercaram seus condomínios de luxo e mantêm abastecidos, prontos para decolar, os jatos particulares, motor ligado, à espera do dia, que sonham eles, jamais virá. Para garantir que aquele dia nunca chegasse, o dia em que os norte-americanos exigiriam que seu país lhes fosse devolvido, os ricos tomaram duas providências bem espertas:

1- controlam todas as comunicações (qualquer semelhança com o Brasil não é coincidência). Como são donos de praticamente todos os jornais e redes de televisão, espertamente conseguiram convencer muitos norte-americanos mais pobres a comprar a versão deles do Sonho Americano e eleger candidatos deles, dos ricos. Aqui é a América onde tudo pode acontecer, se você insistir e nunca desistir de tentar...”

“E convenientemente para eles, encheram vocês com os exemplos convincentes, que mostram que um menino pobre pode enriquecer, como um filho criado sem pai, pode ser presidente, como um rapaz que mal concluiu o ginásio pode virar cineasta de sucesso. E repetirão essas histórias, mais e mais, o dia inteiro, até que vocês passem a viver como se nunca, nunca, precisassem agitar a realidade – porque sim, você – você, você mesmo – pode ser rico/presidente/ganhar o Oscar algum dia!”

“A mensagem é clara: continuar a viver de cabeça baixa, nariz virado para o trilho, não sacuda o barco e vote no partido que hoje o rico que você será algum dia”.

Moore prossegue denunciando a “invenção” da crise e as versões fantasmagóricas que venderam ao povo, de perda de empregos, de economia em falência, bancos quebrando, no que chama de “super chantagem”, acusando as instituições financeiras de fazer uma pirâmide com o dinheiro do povo norte-americano.

Conhecemos essa história de pirâmide e sabemos como termina.

O terror foi tal, diz o cineasta, que as pessoas não se importavam que seu dinheiro estivesse sendo levado, no medo e no pânico de perderem tudo.

Sobre os técnicos, os economistas no poder, os que cortam orçamentos, assim se expressou Moore:

“Os economistas executivos, nas salas de reunião e nos fundos, rolavam de rir. De júbilo. E em três meses lá estavam eles entregando eles, uns aos outros, os cheques dos ricos bônus obscenos, maravilhados com o quão perfeita e absolutamente haviam conseguido roubar uma nação de otários. Milhões perderam empregos: pagaram pela chantagem e mesmo assim perderam empregos e milhões perderam casas, mas ninguém assim ninguém saiu às ruas. Não houve revolta.

ATÉ QUE,,, COMEÇOU EM WISCONSIN”

“VOCÊS ACORDARAM O GIGANTE ADORMECIDO – A GRANDE MULTIDÃO DE TRABALHADORES DOS EUA. AGORA A TERRA TREME SOB OS PÉS DOS QUE CAMINHAM E ESTÃO AVANÇANDO”

“A MENSAGEM DE WISCONSIN inspirou gente em todos os 50 estados dos EUA. A mensagem é basta. CHEGA” BASTA”.

“... NÃO SOMOS, NÃO QUEREMOS CONTINUAR A SER, OS ESTADOS DOS BUSINESS UNIDOS DA AMÉRICA!

“COMO FAZER ACONTECER? ORA, ESTAMOS FAZENDO AQUI UM POUCO O QUE O EGITO ESTÁ FAZENDO LÁ. E O EGITO FAZ LÁ, UM POUCO DO QUE MADISON ESTÁ FAZENDO AQUI”

“... O que está acontecendo é que os EUA não estão falidos. A única coisa que faliu nos EUA foi a bússola moral dos governantes. Viemos para consertar a bússola e levarmos o barco, nos mesmo”.
   
A íntegra do discurso de Moore, em inglês, pode ser assistida em “Não queremos ser os Estados dos Business Unidos”

E não me venham dizer que chamar Obama de branco engraxado de graxa preta é racismo. É não. Racista é ser Obama.

Que os líbios sejam poupados das humilhações impostas aos iraquianos, aos afegãos, aos colombianos (país ocupado pelos EUA com governo títere e controlado pelo narcotráfico). Que os povos europeus – os dos países da comunidade européia – entendam que não são nada, apenas colônias norte-americanas cercadas de bases da OTAN por todos os lados.

E que quando David Cameron se referiu ao fim do multiculturalismo, a possibilidade de paz entre diferentes, estava apenas refletindo o ponto de vista dos 400 bilionários norte-americanos que hoje controlam o suposto primeiro-ministro inglês, no duro mesmo, editor de Mein Kampf.

Nem o mais ousado autor de ficção, o mais imaginativo, foi capaz de pensar uma organização terrorista do porte de EUA/Israel Terrorismo S/A.

O que Moore afirma que começou em Madison e não pode parar, vale para o mundo inteiro, inclusive o Brasil onde Moreira Franco é Ministro de Assuntos Estratégicos.

E onde Ana Maria Braga quer saber “como está o ambiente aí, muito triste?”

Aqui, a mídia comprada chegou à conclusão que é mais fácil emburrecer colocando uma idiota a falar idiotices todas as manhãs, até que chegue a turma da tarde e tudo termine na glória eterna do JORNAL NACIONAL, com as verdades absolutas.

Mas nada de Madison. Para eles Madison não existe, como não existimos senão como escravos do processo político e econômico que nos governa.

terça-feira, 8 de março de 2011

“Não queremos ser os Estados dos Business Unidos”

Avante, Madison! Força! Estamos com vocês!

Michael Moore
5/3/2011, Michael Moore, “As três mentiras”, Madison, Wisconsin
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ao contrário do que diz o poder, que quer que vocês desistam das pensões e aposentadorias, que aceitem salários de fome, e voltem para casa em nome do futuro dos netos de vocês, os EUA não estão falidos. Longe disso. Os EUA nadam em dinheiro. O problema é que o dinheiro não chega até vocês, porque foi transferido, no maior assalto da história, dos trabalhadores e consumidores, para os bancos e portfólios dos hiper mega super ricos.

Hoje, 400 norte-americanos têm a mesma quantidade de dinheiro que metade da população dos EUA, somando-se o dinheiro de todos.

Vou repetir. 400 norte-americanos obscenamente ricos, a maior parte dos quais foram beneficiados no ‘resgate’ de 2008, pago aos bancos, com muitos trilhões de dólares dos contribuintes, têm hoje a mesma quantidade de dinheiro, ações e propriedades que tudo que 155 milhões de norte-americanos conseguiram juntar ao longo da vida, tudo somado. Se dissermos que fomos vítimas de um golpe de estado financeiro, não estamos apenas certos, mas, além disso, também sabemos, no fundo do coração, que estamos certos.

Mas não é fácil dizer isso, e sei por quê. Para nós, admitir que deixamos um pequeno grupo roubar praticamente toda a riqueza que faz andar nossa economia, é o mesmo que admitir que aceitamos, humilhados, a ideia de que, de fato, entregamos sem luta a nossa preciosa democracia à elite endinheirada. Wall Street, os bancos, os 500 da revistaFortune governam hoje essa República – e, até o mês passado, todos nós, o resto, os milhões de norte-americanos, nos sentíamos impotentes, sem saber o que fazer.
Nunca freqüentei universidades. Só estudei até o fim do segundo grau. Mas, quando eu estava na escola, todos tínhamos de estudar um semestre de Economia, para concluir o segundo grau. E ali, naquele semestre, aprendi uma coisa: dinheiro não dá em árvores. O dinheiro aparece quando se produzem coisas e quando temos emprego e salário para comprar coisas de que precisamos. E quanto mais compramos, mais empregos se criam. O dinheiro aparece quando há sistema que oferece boa educação, porque assim aparecem inventores, empresários, artistas, cientistas, pensadores que têm as ideias que ajudam o planeta. E cada nova ideia cria novos empregos, e todos pagam impostos, e o Estado também tem dinheiro. Mas se os mais ricos não pagam os impostos que teriam de pagar por justiça, a coisa toda começa a emperrar e o Estado não funciona. E as escolas não ensinam, nem aparecem os mais brilhantes capazes de criar mais e mais empregos. Se os ricos só usam seu dinheiro para produzir mais dinheiro, se de fato só o usam para eles mesmos, já vimos o que eles fazem: põem-se a jogar feito doidos, apostam, trapaceiam, nos mais alucinados esquemas inventados em Wall Street, e destroem a economia. 

A loucura que fizeram em Wall Street custou-nos milhões de empregos. O Estado está arrecadando menos. Todos estamos sofrendo, como efeito do que os ricos fizeram.

Mas os EUA não estão falidos, amigos. Wisconsin não está falido. Repetir que o país está falido é repetir uma Enorme Mentira. As três maiores mentiras da década são: 

1) os EUA estão falidos, 
2) há armas de destruição em massa no Iraque; e 
3) os Packers não ganharão o Super Bowl sem Brett Favre.

A verdade é que há muito dinheiro por aí. MUITO. O caso é que os homens do poder enterraram a riqueza num poço profundo, bem guardado dentro dos muros de suas mansões. Sabem que cometeram crimes para conseguir o que conseguiram e sabem que, mais dia menos dias, vocês vão querer recuperar a parte daquele dinheiro que é de vocês. Então, compraram e pagaram centenas de políticos em todo o país, para conduzirem a jogatina em nome deles. Mas, p’ro caso de o golpe micar, já cercaram seus condomínios de luxo e mantêm abastecidos, prontos para decolar, os jatos particulares, motor ligado, à espera do dia que, sonham eles, jamais virá. Para ajudar a garantir que aquele dia nunca cheguasse, o dia em que os norte-americanos exigiriam  que seu país lhes fosse devolvido, os ricos tomaram duas providências bem espertas:

1. Controlam todas as comunicações. Como são donos de praticamente todos os jornais e redes de televisão, espertamente conseguiram convencer muitos norte-americanos mais pobres a comprar a versão deles do Sonho Americano e a eleger os candidatos deles, dos ricos. O Sonho Americano, na versão dos ricos, diz que vocês também, algum dia, poderão ser ricos – aqui é a América, onde tudo pode acontecer, se você insistir e nunca desistir de tentar! Convenientemente para eles, encheram vocês com exemplos convincentes, que mostram como um menino pobre pode enriquecer, como um filho criado sem pai, no Havaí, pode ser presidente, como um rapaz que mal concluiu o ginásio pode virar cineasta de sucesso. E repetirão essas histórias mais e mais, o dia inteiro, até que vocês passem a viver como se nunca, nunca, nunca, precisassem agitar a ‘realidade’ – porque, sim, você – você, você mesmo! – pode ser rico/presidente/ganhar o Oscar, algum dia! 

A mensagem é clara: continuar a viver de cabeça baixa, nariz virado p’ro trilho, não sacuda o barco, e vote no partido que protege hoje o rico que você algum dia será.

2. Inventaram um veneno que sabem que vocês jamais quererão provar. É a versão deles da mútua destruição garantida. E quando ameaçaram detonar essa arma de destruição econômica em massa, em setembro de 2008, nós nos assustamos quando a economia e a bolsa de valores entraram em espiral rumo ao poço, e os bancos foram apanhados numa “pirâmide Ponzi” global, Wall Street lançou sua ameaça-chantagem: Ou entregam trilhões de dólares do dinheiro dos contribuintes dos EUA, ou quebramos tudo, a economia toda, até os cacos. Entreguem a grana, ou adeus poupanças. Adeus aposentadorias. Adeus Tesouro dos EUA. Adeus empregos e casas e futuro. Foi de apavorar, mesmo, e nos borramos de medo. “Aqui, aqui! Levem tudo, todo o nosso dinheiro. Não ligamos. Até, se quiserem, imprimimos mais dinheiro, só pra vocês. Levem, levem. Mas, por favor, não nos matem. POR FAVOR!”.

Os economistas executivos, nas salas de reunião e nos fundos rolavam de rir. De júbilo. E em três meses lá estavam entregando, eles, uns aos outros, os cheques dos ricos bônus obscenos, maravilhados com o quão perfeita e absolutamente haviam conseguido roubar uma nação de otários. Milhões perderam os empregos: pagaram pela chantagem e, mesmo assim, perderam os empregos, e milhões pagaram pela chantagem e perderam as casas. Mas ninguém saiu às ruas. Não houve revolta. 

Até que... COMEÇOU! Em Wisconsin!

Jamais um filho de Michigan teve mais orgulho de dividir um mesmo lago com Wisconsin! 

Vocês acordaram o gigante adormecido – a grande multidão de trabalhadores dos EUA. Agora, a terra treme sob os pés dos que caminham e estão avançando! 

A mensagem de Wisconsin inspirou gente em todos os 50 estados dos EUA. A mensagem é “Basta! Chega! Basta!” Rejeitamos todos os que nos digam que os EUA estão falidos e falindo. É exatamente o contrário. Somos ricos! Temos talento e ideias e sempre trabalhamos muito e, sim, sim, temos amor. Amor e compaixão por todos os que – e não por culpa deles – são hoje os mais pobres dos pobres. Eles ainda querem o mesmo que nós queremos: Queremos nosso país de volta! Queremos, devolvida a nós, a nossa democracia! Nosso nome limpo. Queremos de volta os Estados Unidos da América. 

Não somos, não queremos continuar a ser, os Estados dos Business Unidos da América!

Como fazer acontecer? Ora, estamos fazendo aqui, um pouco, o que o Egito está fazendo lá. E o Egito faz, lá, um pouco do que Madison está fazendo aqui.

E paremos um instante, para lembrar que, na Tunísia, um homem desesperado, que tentava vender frutas na rua, deu a vida, para chamar a atenção do mundo, para que todos vissem como e o quanto um governo de bilionários lá estava, afrontando a liberdade e a moral de toda a humanidade.

Obrigado, Wisconsin. Vocês estão fazendo as pessoas ver que temos agora a última chance de vencer uma ameaça mortal e salvar o que nos resta do que somos. 

Vocês estão aqui há três semanas, no frio, dormindo no chão – por mais que custe, vocês fizeram. E não tenham dúvidas: Madison é só o começo. Os escandalosamente ricos, dessa vez, pisaram na bola. Bem poderiam ter ficado satisfeitos só com o dinheiro que roubaram do Tesouro. Bem se poderiam ter saciado só com os empregos que nos roubaram, aos milhões, que exportaram para outros pontos do mundo, onde conseguiam explorar ainda mais, gente mais pobre. Mas não bastou. Tiveram de fazer mais, queriam ganhar mais – mais que todos os ricos do mundo. Tentaram matar a nossa alma. Roubaram a dignidade dos trabalhadores dos EUA. Tentaram nos calar pela humilhação. Nos tiraram a mesa de negociações!

Recusam-se até a discutir coisas simples como o tamanho das salas de aula, ou o direito de os policiais usarem coletes à prova de balas, ou o direito de os pilotos e comissários de bordo terem algumas poucas horas a mais de descanso, para que trabalhem com mais segurança para todos e possam fazer melhor o próprio trabalho –, trabalho que eles compram por apenas 19 mil dólares anuais. 

Isso é o que ganham os pilotos de linhas curtas, talvez até o piloto que me trouxe hoje a Madison. Contou-me que parou de esperar algum aumento. Que, agora, só pede que lhe deem folgas um pouco maiores, para não ter de dormir no carro entre os turnos de voo no aeroporto O'Hare. A que fundo do poço chegamos! 

Os ricos já não se satisfazem com pagar salário de miséria aos pilotos: agora, querem roubar até o sono dos pilotos. Querem humilhar os pilotos, desumanizá-los e esfregar a cara dos pilotos na própria vergonha. Afinal, piloto ou não, ele não passa de mais um sem-teto... 

Esse, meus amigos, foi o erro fatal dos Estados dos Business Unidos da América. Ao tentar nos destruir, fizeram nascer um movimento – uma revolta massiva, não violenta, que se alastra pelo país. Sabíamos que, um dia, aquilo teria de acabar. E acabou agora, já começou a acabar.

A mídia não entende o que está acontecendo, muita gente na mídia não entende.

Dizem que foram apanhados desprevenidos no Egito, que não previram o que estava por acontecer. Agora, se surpreendem e nada entendem, porque tantas centenas de milhares de pessoas viajam até Madison nas últimas semanas, enfrentando inverno brutal. “O que fazem lá, parados na rua, com vento, com neve?” Afinal... houve eleições em novembro, todos votaram... O que mais podem desejar?!”. “Está acontecendo algo em Madison. Que diabo está acontecendo lá? Quem sabe?”

O que está acontecendo é que os EUA não estão falidos. A única coisa que faliu nos EUA foi a bússola moral dos governantes. Viemos para consertar a bússola e assumir o timão para levar o barco, agora, nós mesmos. 

Nunca esqueçam: enquanto existir a Constituição, todos são iguais: cada pessoa vale um voto. Isso, aliás, é o que os ricos mais detestam por aqui. Porque, apesar de eles serem os donos do dinheiro e do baralho e da mesa da jogatina, um detalhe eles não conseguem mudar: nós somos muitos e eles são poucos!

Coragem, Madison, força! Não desistam! 

Estamos com vocês. O povo, unido, jamais será vencido.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Doutrina do Choque, Estados Unidos da América

Paul Krugman
By PAUL KRUGMAN, no New York Times – Shock Doctrine, U.S.A.
Published: February 24, 2011
Traduzido por Viomundo em: 28 de fevereiro de 2011 às 13:29

Aqui vai uma reflexão: talvez Madison, Wisconsin, não seja mesmo o Cairo. Talvez seja Bagdá — especificamente, Bagdá em 2003, quando o governo Bush colocou o Iraque sob o controle de autoridades escolhidas mais pela lealdade e confiabilidade políticas do que pela experiência ou competência.

Como muitos leitores vão lembrar, os resultados foram espetaculares — no mau sentido. Em vez de focar nos problemas urgentes de uma economia e sociedade destroçadas, que em breve mergulhariam em uma guerra civil assassina, os nomeados por Bush estavam obcecados com a imposição de sua visão ideológica conservadora. De fato, com saqueadores ainda soltos pelas ruas de Bagdá, L. Paul Bremer, o vice-rei americano, disse a um repórter do Washington Post que uma de suas maiores prioridades era “corporificar e privatizar as entidades estatais [iraquianas]“– palavras do sr. Bremer, não do repórter — e “afastar das pessoas a ideia de que o estado está presente em tudo”.

A história da obsessão privatista da Autoridade Provisória de Coalizão é central no best seller de Naomi Klein, “A Doutrina do Choque”, que argumentou que o Iraque fazia parte de uma tendência mais ampla. Desde o Chile nos anos 70, ela sugeriu, ideólogos da direita exploram crises para empurrar sua agenda, que não em nada a ver com a resolução das crises, mas tudo a ver com a imposição de uma sociedade mais dura, mais desigual, menos democrática.

O que nos leva a Wisconsin 2011, onde a doutrina do choque está sendo demonstrada em seu conjunto.

Em semanas recentes, Madison é o cenário de grandes demonstrações contra o orçamento do governador, que negaria o direito de barganha coletiva aos trabalhadores do setor público. O governador Scott Walker alega que precisa aprovar a lei para lidar com os problemas fiscais do estado. Mas seu ataque aos sindicatos não tem nada a ver com o orçamento. Na verdade, os sindicatos já deixaram clara sua posição de fazer substanciais concessões financeiras — uma oferta que o governador rejeitou.

O que está acontecendo em Wisconsin é, na verdade, uma jogada de poder — uma tentativa de explorar a crise fiscal para destruir o último contrapeso ao poder político das corporações e dos ricos. E a jogada de poder vai além de destruir os sindicatos. A lei em questão tem 144 páginas e há algumas coisas extraordinárias encondidas nela.

Por exemplo, a lei inclui linguagem que permitiria a autoridades nomeadas pelo governador fazer grandes cortes no seguro de saúde de famílias de baixa renda sem passar pelo processo legislativo normal.

E então há isso: “Sem considerar ss. 13.48 (14)(am) e 16.705 (1), o departamento pode vender qualquer usina de aquecimento, esfriamento ou hidrelétrica ou pode contratar entidade privada para a operação de tal usina, com ou sem concorrência pública, por qualquer valor que o departamento determinar ser o melhor para os interesses do estado. Apesar da ss. 196.49 e 196.80, nenhum aprovação ou certificação de uma comissão de serviço público é necessária para que uma empresa pública compre ou contrate para a operação de tal usina, e qualquer compra é considerada de interesse público desde que considere os critérios de certificação do projeto sob s. 196.49 (3)(b)”.

O que significa isso? O estado de Wisconsin é dono de um certo número de usinas que fornecem aquecimento, refrigeração e eletricidade a entidades estatais (como a Universidade de Wisconsin). A linguagem na lei do orçamento permite, na verdade, que o governador privatize qualquer uma delas. Não apenas isso, ele poderia vendê-las, sem concorrência, a quem ele escolher. E note que qualquer venda destas, por definição, seria “considerada de interesse público”.

Se parece a você a perfeita armação para compadrio e lucro — lembram-se daqueles bilhões sumidos no Iraque? — você não está só. Na verdade, existem tantas cabeças suspeitando da Koch Industries, de propriedade dos irmãos bilionários que jogam um papel decisivo na ofensiva do sr. Walker contra os sindicatos, que a empresa se sentiu forçada a emitir uma nota dizendo que não está interessada na compra das usinas. Você se sente seguro disso?

A boa nova de Wisconsin é que o ultraje público — ajudado pelas manobras dos democratas no Senado estadual, que se ausentaram para negar quorum aos republicanos — reduziu a marcha dos lerdos. Se o plano do sr. Walker era aprovar a lei antes que as pessoas tivessem noção de seus reais objetivos, aquele plano fracassou. E os eventos em Wisconsin podem ter impactado outros governadores republicanos, que pareciam a caminho de apoiar jogadas parecidas.

Mas não esperem que o sr. Walker ou o resto de seu partido mudem seus objetivos. Destruir os sindicatos e privatizar continua sendo prioridades e os republicanos vão continuar a esconder estas prioridades sob o discurso de “equilibrar o orçamento”.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

MICHAEL MOORE: Juntem-se ao meu “Jornal da Escola”!

Michael Moore

18/2/2011, Michael Moore
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Com agradecimentos, pela dica, ao I.C.L., nômade nascido no Brasil, que nos acompanha da Itália.

Caros Estudantes:

Que inspiração, a de vocês, que se uniram aos milhares de estudantes das escolas de Wisconsin e saíram andando das salas de aula há quatro dias e agora estão ocupando o prédio do State Capitol e arredores, em Madison, exigindo que o governador pare de assaltar os professores e outros funcionários públicos (PR Watch Live Blog Protest Rally in Madison, Wisconsin e foto (ótima!) abaixo)! 


Tenho de dizer que é das coisas mais entusiasmantes que vi acontecer em anos. 

Vivemos hoje um fantástico momento histórico. E aconteceu porque os jovens em todo o mundo decidiram que, para eles, basta. Os jovens estão em rebelião – e é mais que hora! 

Vocês, os estudantes, os adultos jovens, do Cairo no Egito, a Madison no Wisconsin, estão começando a erguer a cabeça, tomar as ruas, organizar-se, protestar e recusar a dar um passo de volta para casa, se não forem ouvidos. Totalmente sensacional!

O poder está tremendo de medo, os adultos maduros e velhos tão convencidos que que fizeram um baita trabalho ao calar vocês, distraí-los com quantidades enormes de bobagens até que vocês se sentissem impotentes, mais uma engrenagem da máquina, mais um tijolo do muro. Alimentaram vocês com quantidades absurdas de propaganda sobre “como o sistema funciona” e mais tantas mentiras sobre o que aconteceu na história, que estou admirado de vocês terem derrotado tamanha quantidade de lixo e estejam afinal vendo as coisas como as coisas são.

Fizeram o que fizeram, na esperança de que vocês ficariam de bico fechado, entrariam na linha e obedeceriam ordens e não sacudiriam o bote. Porque, se agitassem muito, não conseguiriam arranjar um bom emprego! Acabariam na rua, um freak a mais. Disseram que a política é suja e que um homem sozinho nunca faria diferença.

E por alguma razão bela, desconhecida, vocês recusaram-se a ouvir. Talvez porque vocês deram-se conta que nós, os adultos maduros, lhes estamos entregando um mundo cada vez mais miserável, as calotas polares derretidas, salários de fome, guerras e cada vez mais guerras, e planos para empurrá-los para a vida, aos 18 anos, cada um de vocês já carregando a dívida astronômica do custo da formação universitária que vocês terão de pagar ou morrerão tentando pagar.

Como se não bastasse, vocês ouviram os adultos maduros dizer que vocês talvez não consigam casar legalmente com quem escolherem para casar, que o corpo de vocês não pertence a vocês, e que, se um negro chegou à Casa Branca, só pode ter sido falcatrua, porque ele é imigrado ilegal que veio do Quênia.

Sim, pelo que estou vendo, a maioria de vocês rejeitou todo esse lixo. Não esqueçam que foram vocês, os adultos jovens, que elegeram Barack Obama. Primeiro, formaram um exército de voluntários para conseguir a indicação dele como candidato. Depois, foram as urnas em números recordes, em novembro de 2008. Vocês sabem que o único grupo da população branca dos EUA no qual Obama teve maioria de votos foi o dos jovens entre 18 e 29 anos? A maioria de todos os brancos com mais de 29 anos nos EUA votaram em McCain – e Obama foi eleito, mesmo assim!

Como pode ter acontecido? Porque há mais eleitores jovens em todos os grupos étnicos – e eles foram às urnas e, contados os votos, viu-se que haviam derrotado os brancos mais velhos assustados, que simplesmente jamais admitiriam ter no Salão Oval alguém chamado Hussein. Obrigado, aos eleitores jovens dos EUA, por terem operado esse prodígio! 

Os adultos jovens, em todos os cantos do mundo, principalmente no Oriente Médio, tomaram as ruas e derrubaram ditaduras. E, isso, sem disparar um único tiro. A coragem deles inspira outros. Vivemos hoje momento de imensa força, nesse instante, uma onda empurrada por adultos jovens está em marcha e não será detida.

Apesar de eu, há muito, já não ser adulto jovem, senti-me tão fortalecido pelos acontecimentos recentes no mundo, que quero também dar uma mão.

Decidi que uma parte da minha página na Internet será entregue aos estudantes de nível médio para que eles – vocês – tenham meios para falar a milhões de pessoas. Há muito tempo procuro um meio de dar voz aos adolescentes e adultos jovens, que não têm espaço na mídia-empresa. Por que a opinião dos adolescentes e adultos jovens é considerada menos válida, na mídia-empresa, que a opinião dos adultos maduros e velhos? 

Nas escolas de segundo grau em todos os EUA, os alunos têm ideias de como melhorar as coisas e questionam o que veem – e todas essas vozes e pensamentos são ou silenciadas ou ignoradas. Quantas vezes, nas escolas, o corpo de alunos é absolutamente ignorado? Quantos estudantes tentam falar, levantar-se em defesa de uma ou outra ideia, tentar consertar uma coisa ou outra – e sempre acabam sendo vozes ignoradas pelos que estão no poder ou pelos outros alunos?

Muitas vezes vi, ao longo dos anos, alunos que tentam participar no processo democrático, e logo ouvem que colégios não são democracias e que alunos não têm direitos (mesmo depois de a Suprema Corte ter declarado que nenhum aluno ou aluna perde seus direitos civis “ao adentrar o prédio da escola”).

Sempre fico abismado ao ver o quanto os adultos maduros e velhos falam aos jovens sobre a grande “democracia” dos EUA. E depois, quando os estudantes querem participar daquela “democracia”, sempre aparece alguém para lembrá-los de que não são cidadãos plenos e que devem comportar-se, mais ou menos, como servos semi-incapazes. Não surpreende que tantos jovens, quando se tornam adultos maduros, não se interessem por participar do sistema político – porque foram ensinados pelo exemplo, ao longo de 12 anos da vida, que são incompetentes para emitir opiniões em todos os assuntos que os afetam.

Gostamos de dizer que há nos EUA essa grande “imprensa livre”. Mas que liberdade há para produzir jornais de escolas de segundo gráu? Quem é livre para escrever em jornal ou blog sobre o que bem entender? Muitas vezes recebo matérias escritas por adolescentes, que não puderam ser publicadas em seus jornais de escola. Por que não? Porque alguém teria direito de silenciar e de esconder as opiniões dos adolescentes e adultos jovens nos EUA?

Em outros países, é diferente. Na Áustria, no Brasil, na Nicarágua, a idade mínima para votar é 16 anos. Na França, os estudantes conseguem parar o país, simplesmente saindo das escolas e marchando pelas ruas.

Mas aqui, nos EUA, os jovens são mandados obedecer, sentar e deixar que os adultos maduros e velhos comandem o show.

Vamos mudar isso! Estou abrindo, na minha página, um “JORNAL DA ESCOLA” [orig. "HIGH SCHOOL NEWSPAPER"]. Ali, vocês podem escrever o que quiserem, e publicarei tudo. Também publicarei artigos que vocês tenham escrito e que foram rejeitados para publicação nos jornais das escolas de vocês. Na minha página vocês serão livres e haverá um fórum aberto, e quem quiser falar poderá falar para milhões.

Pedi que minha sobrinha Molly, de 17 anos, dê o pontapé inicial e cuide da página pelos primeiros seis meses. Ela vai escrever e pedir que vocês mandem suas histórias e ideias e selecionará várias para publicar em MichaelMoore.com. Ali estará a plataforma que vocês merecem. É uma honra para mim que se manifestem na minha página e espero que todos aproveitem.

Dizem que vocês são “o futuro”. O futuro é hoje, aqui mesmo, já. Vocês já provaram que podem mudar o mundo. Aguentem firmes. É uma honra poder dar uma mão.

P.S. Podem começar já. Façam o Registro e inscrevam-se. (Podem inventar um nome, se quiserem, e não precisam declarar em que escola estudam).
Depois de inscritos, mandem tudo, blogs , música , vídeos  e mais a miscelânea que quiserem.

P.P.S. Se você recebeu essa mensagem e não é adulto jovem ou não está na escola, distribua a mensagem mesmo assim, para todos os estudantes e não-estudantes que você conheça.