quarta-feira, 29 de maio de 2013

Estranho amor: “Na Síria, Obama e a Al-Qaeda já dormem na mesma cama”

28/5/2013, Shamus Cooke, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Shamus Cooke
Para presidente que está executando a “guerra ao terror” de Bush contra a Al-Qaeda e “forças associadas” [1], parece estranho que o presidente Obama tenha escolhido para alvo de “mudança de regime” o governo secular sírio.

Igualmente estranho é que o mais forte aliado militar de Obama em solo sírio – a força combatente mais efetiva contra o governo sírio – seja a Frente Jabhat al-Nusra, grupo que já se declarou afiliado da al-Qaeda e que luta para converter a Síria em estado extremista islâmico, sob uma versão fundamentalista da lei da Xaria.

É difícil saber exatamente como al-Nursa recebeu suas armas, mas não é difícil supor, com boas chances de acertar. Por exemplo, o New York Times explicou (25/3/1013) em detalhe como a CIA está pondo em prática uma massiva operação de tráfico de armas que já canalizou milhares de toneladas de armas da Arábia Saudita e Qatar, para a Síria:

O papel da CIA na facilitação dos embarques [de armas] deu aos EUA um certo grau de influência sobre o processo [de distribuição das armas] (...) Funcionários norte-americanos confirmaram que altos funcionários da Casa Branca são regularmente informados sobre os embarques [das armas].

Para onde essa massiva operação de tráfico de armas encaminha as armas? Questão importante a investigar é: quais os “rebeldes” que recebem armas na Síria e quais não recebem?

O The Guardian noticia em 8/5/2013:  
Tema recorrente é a falta de armamento e de outros recursos, no Exército Sírio Livre, comparada à fartura que se vê na [jihadista] Jabhat al-Nusra (...) ‘Se você se junta à Frente al-Nusra, sempre há uma arma à sua disposição, mas as brigadas do Exército Sírio Livre não conseguem nem balas para seus combatentes’ (...) 3 mil homens do Exército Sírio Livre já se juntaram à Frente al-Nusra nos últimos poucos meses, sobretudo por causa da falta de armas e munição (...). Os combatentes da Frente al-Nusra raramente recuam por falta de munição (...).

Terroristas da Frente al-Nusra com a bandeira da al-Qaeda hasteada do lado direito
Embora seja difícil saber se as armas traficadas pela CIA vão diretamente ou indiretamente para a Frente al-Nursa, é extremamente provável que as armas estejam sendo entregues diretamente em mãos de primos ideológicos da al-Nursa, porque já se sabe que os “rebeldes” sírios estão hoje sob completo controle dos extremistas islamistas.

Por exemplo, quando a revista The Economist publicou um perfil dos mais importantes grupos que lutam na Síria [Who’s Who in the Syrian Battlefield /Quem é quem no campo de batalha na Síria], constataram, com lástima, que o único grupo não islamista importante estava nas áreas curdas, que é zona virtualmente autônoma. Quando ao grupo combatente secular apoiado pelos EUA, chamado “Supremo Comando Militar”, a revista The Economist teve de conceder que “na prática, tem mínimo controle em campo”. E não esqueçamos que a The Economist trabalha incansavelmente a favor de intervenção militar, por EUA-OTAN, na Síria!

Também o New York Times confirmou que os extremistas controlam completamente todo o campo “rebelde”:   
Em lugar algum, da parte da Síria controlada pelos rebeldes, vê-se qualquer força secular cuja presença se deva registrar.

Assim se vê que essa minoria de combatentes seculares não estão no controle da guerra civil e não chegarão ao poder, caso Assad seja derrubado. Em vez disso, sem Assad, os revolucionários sírios honestos cairão imediatamente vítimas de extremistas, os quais, também imediatamente, tratarão de livrar-se de seus aliados de antes.

Vê-se agora claramente que a política externa de Obama para a Síria está incentivando ativamente o terrorismo. Várias das áreas ainda controladas pelos “rebeldes” na Síria são hoje paraísos seguros para terroristas, e tem havido centenas de atentados terroristas contra o governo sírio, muitos dos quais contra áreas civis.

Enquanto os EUA fazem chover armas nas áreas controladas por jihadistas, os EUA também fingem não ver as atrocidades cometidas pelos seus “rebeldes”, que são fartamente documentadas em Youtube, documentação que inclui uma multidão de crimes de guerra, degola, execução de grupos de prisioneiros, limpeza étnica  e o recente episódio em que um afamado comandante “rebelde” faz-se filmar quando mutila o cadáver de um soldado sírio e come-lhe o coração. Vídeo a seguir:


Ao minimizar a barbárie, o governo Obama afirma e comprova que continuará, posto que os extremistas estão sendo fortalecidos pelo apoio dos norte-americanos e protegidos pela imprensa-empresa nos EUA, contra quaisquer pressões, inclusive políticas, internacionais.

Uma pergunta que a imprensa-empresa norte-americana nem pensa em propor é: De onde vêm esses extremistas islamistas e por que estão na Síria? A oposição sunita dentro da Síria sempre foi, historicamente, moderada. Deve-se concluir que os extremistas não são sírios: são estrangeiros.

A fonte ideológica de todo aquele extremismo são figuras religiosas da Arábia Saudita e aliados, que usam o Islã como ferramenta política para agredir nações “não amigas” da Arábia Saudita e dos EUA. O mais claro exemplo disso, no que tenha a ver com a Síria, foi a Fatwa (uma declaração religiosa oficial, com peso de lei) lançada por 107 doutores islamistas que denunciam o governo sírio e ordenam que os muçulmanos lutem contra ele. É declaração que estimula a jihad, embora a palavra não seja explicitamente citada. A declaração conclui:

É dever de todos os muçulmanos apoiar os revolucionários na Síria [contra o governo sírio] (...), para que completem com sucesso sua revolução e alcancem seus direitos e sua liberdade.

A hipocrisia dessa declaração é quase patente demais: os muitos sauditas que assinam o documento e clamam por “liberdade” na Síria, não clamam por qualquer liberdade na Arábia Saudita, de longe o país do mundo onde há menos liberdades.

Com a Arábia Saudita e o Qatar a fornecer armas aos “rebeldes” sírios – com a ajuda da CIA – os religiosos sauditas ligados ao regime saudita dão-lhes apoio religioso/político, ao mesmo tempo em que desencaminham levas e levas de muçulmanos devotos a marchar contra a Síria para atacar um país de muçulmanos. Assim inventam gigantescas divisões sectárias, como já se veem, em todo o mundo islâmico.

Vijay Prashad
A vasta maior parte desses confrontos sectários estão sendo exportados pela Arábia Saudita, que financia escolas islamistas radicais em todo o Oriente Médio, para as quais atraem os miseráveis de todos os países da Região, oferecendo-lhes alguns serviços sociais básicos inexistentes nos países onde implantam suas escolas, porque os respectivos governos não podem – ou não querem – oferecê-los. Há capítulo muito informativo sobre essa dinâmica, no excelente livro de Vijay Prashad, A People’s History of the Third World/Uma história do povo do terceiro mundo.

Atualmente, os países liderados por EUA-OTAN discutem se devem ou não armar com armamento sofisticado os “rebeldes” extremistas que dominam porções do território sírio. O governo Obama está pressionando a União Europeia  para que levante o embargo à venda de armas para a Síria, de modo que nova catarata de armas possa desabar sobre o país (aparentemente, as operações da CIA ainda não afogaram completamente a Síria, com suas armas).

Em resposta à questão de “levantar o embargo”, Oxfam respondeu com inteligência 
Enviar armas para a oposição síria não nivelará o teatro de guerra. Em vez disso, criará hordas de extremistas armados até os dentes, cujas vítimas são os civis sírios. Nossa experiência de outras zonas de conflito ensina que essa crise só se aprofundará e se estenderá no tempo, se mais e mais armas chegarem ao país.

Um diplomata da União Europeia retrucou com firmeza, ao ouvir a declaração do governo Obama, de que podia assegurar que as novas armas não cairiam em mãos erradas na Síria:

Seria o primeiro conflito em que alguém diz que estaria criando a paz, fornecendo cada vez mais armas. Se pensam que sabem até onde as armas chegarão, seria a primeira guerra da história em que alguém saberia antecipadamente. Já aconteceu na Bósnia, no Afeganistão e no Iraque. Armas não somem. E elas sempre reaparecem onde haja alguém interessado nelas.

Na Síria, todos os que se interessam por manter o conflito interessam-se por mais armas. Outra vez, em primeiro lugar, os extremistas da Frente al-Nursa, reconhecidos como a força mais efetiva dentre as que combatem contra o governo sírio: as armas irão diretamente, portanto, para eles.

Obama já levou a píncaros da mais completa irracionalidade a ideia segundo a qual “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Ao fazê-lo ajuda a produzir uma nova geração de extremistas islamistas que alimentarão para sempre a “guerra ao terror” inventada pelos EUA. A real intenção da Guerra ao Terror não é conter terroristas, mas destruir os estados-nação que se opõem à política externa dos EUA: Iraque e Líbia – como a Síria – eram países sob governos seculares, quando foram invadidos; o Afeganistão foi invadido, apesar de a vasta maioria dos envolvidos nos ataques de 11/9 serem da Arábia Saudita. Nunca houve problemas de terrorismo no Iraque, antes da invasão norte-americana. Tampouco jamais houvera problemas de terrorismo na Síria, antes de entrarem em cena os “rebeldes” apoiados pelos EUA.

É absolutamente óbvio para muitos norte-americanos, que Síria e Irã estão no topo da lista-de-matar de Obama: muito acima, como prioridade, que qualquer grupo terrorista. Por isso Obama tolera os terroristas que agem hoje dentro da Síria. Obama os está usando como ferramenta contra os alvos reais: a Síria e, em seguida, o Irã.

O povo sírio tem o direito de decidir, ele mesmo, sobre o próprio futuro. Os EUA são irremediavelmente incapazes de “ajudar” alguém, usando meios militares. Para prová-lo, aí estão, dolorosamente, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia. O movimento global antiguerra tem de exigir:

“EUA, fora da Síria!”



Nota dos tradutores

[1] Sobre o discurso de Obama em 24/5/2013, ver em: Pink Code a Obama (na lata): “Seus drones aumentam a insegurança nos EUA!”, The Real News Network, trechos do discurso em vídeo e comentários, traduzidos.  

terça-feira, 28 de maio de 2013

Esqueceram dos empresários




Publicado em 28/05/2013 por Mário Augusto Jakobskind [*]

Causou estranheza o fato de a Comissão Nacional da Verdade ao apresentar um balanço sobre um ano de atividades dedicasse pouca informação relacionada com a participação do setor empresarial na ditadura. Para se passar o país a limpo será necessário ir fundo nessa questão, porque muitos apoiadores do regime de força hoje se apresentam como democratas desde criancinha, na prática enganando a opinião pública.

A área de mídia também merece uma investigação profunda, porque muitos veículos além de silenciarem na época deram apoio ostensivo ao regime ditatorial. O Globo é um exemplo, embora alguns digam que o patrono da empresa, Roberto Marinho, tenha livrado a cara de jornalistas que não eram bem vistos pelo regime. Mas os mais críticos, em função da subserviência aos generais de plantão, não absolvem as Organizações Globo, mesmo se eventualmente o seu patrono tenha livrado a cara de um ou outro jornalista do seu quadro das garras da repressão.

Não há notícias de que as Organizações Globo chegassem a ceder veículos para o aparelho repressivo, como fez o grupo Folhas, de Octávio Frias, em São Paulo. Os veículos de comunicação dos Marinhos se limitaram a abrir seus espaços de forma áulica aos generais de plantão e seus seguidores.

É preciso que os brasileiros, sobretudo os das novas gerações, sejam informados sobre o que se passou nos anos de chumbo e como se comportaram alguns setores que hoje se dizem defensores da democracia.

No relatório apresentado pela Comissão da Verdade, alguns fatos tornados públicos não chegam a ser novidade, como, por exemplo, que os que pegaram o poder à força torturavam opositores logo depois da derrubada do presidente constitucional João Goulart.

A tortura, portanto, não foi instituída a partir de 1968 com a promulgação do AI-5, como alguns ainda hoje apoiadores do regime justificam. Esta gente, que navega nas ondas do Clube Militar, ao deturpar a história diz que o regime ficou mais duro para enfrentar a guerrilha. Omitem o que acontecia antes de 13 de dezembro de 1968. E que a ação do próprio regime fez com que alguns setores da oposição, de forma precária, partissem para a luta armada por entenderem que seria o único caminho para acabar com o estado repressivo.

Exemplo argentino - A Argentina tem dado exemplo de como ir fundo nas questões da repressão. Além de julgar agentes do Estado que fizeram barbaridades em matéria de violações dos direitos humanos, agora mesmo a Justiça processou três ex-diretores da filial da Ford no contexto de uma causa que investiga o sequestro de trabalhadores em uma filial da empresa norte-americana.

Por ordem da juíza federal Alicia Vence, os acusados, Pedro Muller, do setor de manufaturas, Guillermo Galarraga, da área de relações trabalhistas e Héctor Francisco Jesús Sibilla, ex-chefe de segurança da empresa estão respondendo na Justiça pelo sequestro de 24 trabalhadores da Ford, na localidade de Pacheco, próximo a Buenos Aires, ocorrida entre 24 de março e 20 de agosto de 1976.

Os três, segundo a juíza, facilitaram informações sobre os trabalhadores à repressão. Ou seja, eram dedos-duros, fornecendo até fotografias e os endereços particulares para que as autoridades os prendessem.

Embora os acusados tenham sido considerados “participantes primários dos crimes de privação ilegal da liberdade dos trabalhadores, duplamente agravada por ter sido cometida por abuso funcional, com violência e ameaças”, mesmo assim a juíza ordenou o embargo dos bens dos processados, até alcançar a soma de 750 mil pesos, correspondente a cerca de 143 mil dólares.

É bem possível que a Comissão da Verdade destas bandas esmiuçando arquivos e toda a papelada da repressão possa chegar aos dedos-duros que infelicitaram a vida de muitos brasileiros, ajudando inclusive o trabalho da repressão, e seguem por aí como se não tivessem nenhuma responsabilidade sobre os acontecimentos.

Em suma, não basta conhecer os 1.500 agentes do estado ditatorial brasileiro, sejam militares ou civis, que cometeram atrocidades, inclusive estupros de opositoras, como informa a Comissão Nacional da Verdade. Para virar a página definitivamente é preciso fazer o mesmo que está sendo feito na Argentina. 

Por lá, em um primeiro momento duas leis, Ponto Final e Obediência Devida, livravam a cara dos que cometeram violações dos direitos humanos. Bastou aparecer um Presidente com vontade política, como Nestor Kirchner, para que a lei de anistia fosse revogada em 2003. A Corte Suprema em 2005 confirmou a constitucionalidade da decisão e começaram os julgamentos.

Por aqui, a instância máxima da Justiça brasileira, o Supremo Tribunal Federal (STF), em um julgamento lamentável, confirmou a Lei da Anistia que deixa impunes agentes do Estado que cometeram crimes de lesa humanidade. E ainda não apareceu um Presidente que tivesse vontade política para levar adiante para o Congresso o mesmo que aconteceu na Argentina.
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Mário Augusto Jakobskind [*] é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Enviado por Direto da Redação


 

Jeremy Hammond, sobre as acusações às quais responde: “Hoje me declarei culpado”

28/5/2013, Campanha Free Jeremy Hammond!
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 

Jeremy Hammond
Jeremy Hammond (nascido dia 8/1/1985) é ativista político, desenvolvedor de páginas para internet e músico em Chicago. Foi acusado pelo governo dos EUA de ter divulgado arquivos de propriedade da agência privada de espionagem Stratfor, distribuindo-os pela página de WikiLeaks. É criador-fundador da página HackThisSite.org, para treinamento em segurança de computadores, criada em 2003, logo depois de Hammond ter concluído o ginásio na Glenbard East High School.

Aaron Swartz
Dia 20/2/2013, em declaração publicada em: Jeremy Hammond on Aaron Swartz & the Criminalization of Digital Dissent, por ocasião da morte de Aaron Swartz, Hammond escreveu:

Enfrento hoje várias acusações por conspiração e invasão de computadores, decorrentes de um suposto envolvimento que eu teria com Anonymous, LulzSec e AntiSec, grupos que descobriram e expuseram a corrupção reinante em instituições governamentais e empresas como Stratfor, The Arizona Department of Public Safety e HB Gary Federal.

A pena, para o meu caso, foi dramaticamente aumentada recentemente, porque a “Lei Patriótica” [orig. Patriot Act] alargou muito a definição legal do que seja “a perda” sofrida por essas empresas invadidas e cuja corrupção foi afinal exposta. Graças à nova lei, a empresa Stratfor pôde declarar que teria sofrido danos superiores a 5 milhões de dólares, incluídos aí o custo exorbitante que pagou para alugar serviços externos de proteção e empresas de “infosec”, para contratar novos servidores, 1,6 milhão de dólares de indenização por “perda potencial de lucros” durante o tempo em que seu website esteve fora do ar, e, até, as custas – 1,3 milhão de dólares – de um processo trabalhista movido contra eles.

Somando-se as acusações que me foram feitas, de uso de “meios sofisticados” e de ter atacado “infraestrutura crítica”, há risco de eu receber pena entre 30 anos de cadeia e prisão perpétua.

Encenações e táticas sujas de tribunal e longas sentenças não são anomalias: são partes inseparáveis de um sistema de “justiça” fundamentalmente vicioso e corrupto, que visa a arrancar, além da vida, também a maior quantidade possível de dinheiro do encarceramento em massa, sobretudo de negros e, em todos os casos, dos mais pobres. A tática de cooptar informantes, em troca de sentenças mais leves, é não só usada corriqueiramente para que Procuradores repressores dediquem-se a intimidar a participação dos cidadãos em manifestações de protesto e a ampliar a caçada islamofóbica a bruxas, caçada sob a qual nenhum cidadão está protegido contra qualquer acusação sem provas de “terrorismo”; a mesma tática é usada também em muitos casos de drogas, nos quais os acusados estão expostos, sem qualquer proteção democrática ou civil, às penas mais severas do mundo.

No caso de Aaron Swartz, sobre o qual se lançaram 13 acusações graves, é provável que a intensa pressão, feita por uma Procuradora ferozmente ambiciosa, a qual, mesmo sabendo das fragilidades psicológicas de Aaron, continuou a exigir que fosse encarcerado até a velhice, seja a causa que o levou à morte.
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Hoje, Jeremy Hammond declarou-se culpado dos crimes de que é acusado e distribuiu a seguinte declaração:

Hoje me declarei culpado da acusação de ter violado a Lei de Fraudes e Abusos em Computadores [orig. Computer Fraud and Abuse Act]. Foi decisão muito difícil. Espero conseguir explicar aqui os meus motivos.

Acredito no poder da verdade. Fiel a essa convicção, não quero ocultar o que fiz, nem me esconder por ter feito o que fiz. Agora, que já declarei que não aceito cooperar com os juízes, em troca de penas menores, sinto-me livre para contar ao mundo o que realmente fiz e por quê, sem ser obrigado a expor aos juízes nenhuma das minhas táticas e nenhum dos meus recursos, e sem pôr em risco a vida, a segurança e o bem-estar de outros ativistas, online e offline.

Ao longo dos últimos 15 meses tenho-me mantido relativamente calado sobre detalhes do meu caso, enquanto trabalhava com meus advogados para revisar nossa posição e conceber a melhor estratégia legal possível. O caso que o Estado construiu contra mim tem inúmeras incongruências e problemas, dentre os quais a nenhuma credibilidade do informante do FBI, Hector Monsegur.

Mesmo assim, porque os Procuradores inflaram, sem qualquer comprovação, todos os danos que sou acusado de ter provocado, logo percebi que, se condenado, minha pena seria superior a 30 anos.

Meus advogados são maravilhosos e há uma comunidade muito ativa que me apóia do lado de fora. Nada disso muda o fato de que já posso me considerar condenado. Mas, ainda que fosse declarado não culpado no tribunal, os procuradores já disseram que há oito outras acusações contra mim, a partir de queixas apresentadas em vários pontos do país. Se me absolvessem aqui, com certeza seria despachado para vários outros tribunais, acusado, em cada distrito, pelos mesmos crimes. O processo, assim, seria indefinidamente reencenado.

Concluí que a via mais prática a seguir seria aceitar a acusação que me foi feita aqui em New York, receber a pena de, no máximo dez anos de prisão e, com ela, uma imunidade que me poupará de ser re-acusado e re-condenado em todos os tribunais federais.

Agora, então, que já me declarei culpado, é um alívio poder contar a todos que, sim, trabalhei com os Anonymous para invadir a página de Stratfor, além de outros websites. Esses outros incluem páginas de empresas fornecedoras de equipamento militar e policial, empresas de inteligência privada, empresas de segurança da informação e agências de administração e aplicação de leis.

Fiz o que fiz porque acredito que as pessoas têm pleno direito de saber o que os governos e as empresas privadas fazem em seus gabinetes e salas fechadas. Fiz o que acredito ser a coisa certa.

Estou preso já há 15 meses. Várias semanas desses meses passei-as em cela solitária. Proibiram-me visitas e telefonemas e qualquer contato com minha família e meus amigos. Tendo-me declarado culpado, poupo a mim, à minha família e à minha comunidade de ativistas a repetição de todo esse processo e seus padecimentos.

Quero agradecer a todos os meus amigos e apoiadores pelos maravilhosos e repetidos gestos de solidariedade. Estou aliviado por ter assumido a responsabilidade pelo que fiz e por ter dado pelo menos um passo na direção de voltar a ver a luz do dia.

[assina] Jeremy Hammond

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Obama: a vitória na Síria já lhe escapou

21/5/2013, Jeremy Salt*, Al-Ahram Online, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jeremy Salt* é professor associado de História e Política do Oriente Médio, na Bilkent University, em Ancara, Turquia.


A realidade – que não aparece nos veículos da imprensa-empresa mundial – é que as forças “rebeldes” estão já em colapso e que o regime de Assad impôs-se contra as gangues armadas por estrangeiros que invadiram a Síria. Assad e seu governo estão vencendo a guerra. Assim sendo, o que fará o ocidente?

Por mais que repita que “todas as opções estão sobre a mesa”, Barack Obama já tenta claramente se afastar de qualquer envolvimento mais profundo na Síria, agora que já se vê que só um ataque direto, intervenção com ocupação militar, conseguirá derrubar o governo de Damasco. Só nos últimos meses, as gangues armadas perderam milhares de homens. Embora o conflito ainda se prorrogue por algum tempo, não há dúvida, entre os especialistas, de que o Exército Sírio está já muito próximo de controlar completamente o levante.
Maaz al-Khatib

Os patrocinadores dessa aventura estão em total confusão. Como antes, a Coalizão Nacional Síria já implodira, agora também o Conselho Nacional Sírio já implodiu. Maaz al-Khatib já é voz apenas marginal. Ghassan Hitto é o único ser no planeta a ostentar o título de Primeiro-Ministro de um comitê. Toda essa gente é causa completamente perdida.

No mundo real, não no mundo dos delírios, há um vídeo de horror em que se vê um comandante “rebelde” que corta o peito e come, ou pelo menos morde, o coração de um soldado morto. Discute-se se seria um pulmão, talvez o fígado. Os jornais parecem inseguros; dão a impressão de que seria importantíssimo identificar com precisão o exato órgão mastigado. Longe de tentar negar a autoria do ato canibalesco, o perpetrador assume e apropria-se dele e vangloria-se de como retalhou, em pedaços, vários cadáveres de shabihas”. Vídeo a seguir: 


O canibalismo parece ser a mais recente inovação, mas a verdade é que não há o que os psicopatas armados das incontáveis gangues não tenham feito dentro da Síria. Ou, talvez, não se devesse chamar de psicopatas homens capazes de fazer o que fizeram? Afinal, quem mais se deixaria arregimentar para guerra tão absolutamente sem sentido, além de psicopatas? 

O autodefinido Exército Sírio Livre diz que caçará o homem que arrancou o coração do soldado. Ótimo. Que cace também os “rebeldes” cortadores de gargantas e “rebeldes” degoladores em geral. Que cace os “rebeldes” que assassinaram funcionários públicos, antes de jogar os cadáveres pelas janelas do prédio dos correios em Al-Bab. E aproveite para caçar também seus próprios companheiros de armas que deliberadamente jogam carros-bomba contra civis.

Ghassan Hitto
E que não se esqueça de caçar os assassinos do Imã e de 50 fiéis que rezavam numa mesquita em Damasco. E, ainda, os estupradores e sequestradores, inclusive os chechenos que sequestraram dois bispos ainda mantidos em cativeiro em Aleppo, enquanto os líderes cristãos dos governos ocidentais fingem que nada têm a ver com aquilo. Na caçada dos bandidos que macularam a gloriosa reputação do "Exército Sírio Livre", aliás, nem é preciso procurar muito longe, porque há inúmeros bandidos bem ali, nas próprias fileiras. Provas não faltam. A imprensa tem vasta coleção de macabros vídeos nos telefones celulares e câmeras de mão, imagens de rostos muito facilmente identificáveis, porque eles se orgulham muito do que fizeram e querem exibir-se para o mundo. Essa é a gente que a Arábia Saudita e o Qatar dedicaram-se a armar pesadamente, e carregaram de dinheiro, para que tomassem a Síria.  

Essa é a realidade por trás da narrativa de ficção e mentiras que a empresa-imprensa global distribuiu para o mundo ao longo dos últimos dois anos. Nenhum jornalismo: só a regurgitação de cada mentira, de cada exagero, de cada distorção produzida por “ativistas” e pelo chamado Observatório Sírio de Direitos Humanos, de Londres – segundo o qual o “regime” sírio estaria sempre a ponto de desabar, várias vezes por dia; e todas as atrocidades eram sempre, sempre, obra dos soldados sírios. Exceto por alguns poucos artigos assinados recentemente por Robert Fisk, praticamente nenhum veículo de nenhum grande grupo da imprensa-empresa comercial no mundo ocidental noticiou eventos e comentou o conflito do ponto de vista do exército e do governo da Síria.

Bashar al-Assad
Jornalistas eram conduzidos através da fronteira por grupos “rebeldes” e só faziam repetir o que os tais “rebeldes” (eventualmente, canibais) lhes contavam. É como acreditar em tudo que escreviam os “jornalistas” incorporados às tropas do exército dos EUA, como se o que relataram fosse o que realmente acontecia no Iraque. E, também como no Iraque, repetem agora a mesma propaganda sobre “armas químicas”.

Até que, afinal, a mentira sucumbiu e a realidade apareceu. Quem está em colapso não é o governo de Assad, mas os “rebeldes”. Daqui em diante, só a intervenção militar armada e direta, com coturnos em solo, conseguirá salvar os “rebeldes”. Mas, com o governo sírio já contando com sólido apoio dos russos... Não será fácil pôr coturnos norte-americanos em solo sírio. Obama continua pressionado para “fazer mais”, mas não dá qualquer sinal de interesse em deixar-se sugar ainda mais para o fundo do pântano criado pelos seus “rebeldes” na Síria. E outros não darão nem meio passo, se os EUA não marcharem à frente. A Alemanha já se declarou contra qualquer envolvimento; a Áustria disse que já está fornecendo armas aos “rebeldes”, o que a Grã-Bretanha gostaria de ter feito, e que, antes do fim do embargo na União Europeia, que terminará dia 31 de maio em curso, é violar leis internacionais.

Recep Tayyp Erdogan
Essa semana, todos os holofotes concentraram-se sobre o Primeiro-Ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e a viagem que fez a Washington para discutir a Síria com Barack Obama. A Turquia teve papel central no desenrolar do conflito sírio. Arábia Saudita, Qatar e Líbia forneceram dinheiro e armas, mas foi a Turquia, cujo território ficou aberto para a mobilização de gangues armadas que cruzavam a fronteira para depor o “regime”. Erdogan não se afastou um passo da posição que assumiu contra Bashar Al-Assad há mais de dois anos. O único caso claro de uso de arma química em ataque foi o composto de cloro embalado numa ogiva e disparado contra um posto do Exército Sírio em Khan Al-Assal, que matou vários soldados e civis. Mas Erdogan continua a repetir que foi o Exército Sírio que usou armas químicas e que, ao fazê-lo cruzou a tal “linha vermelha” que Obama inventara. Perguntado, pouco antes de partir para Washington, se apoiaria a implantação de uma zona aérea de exclusão, respondeu: “Desde o início diríamos que sim”.

Semana passada, carros carregados com mais de uma tonelada de C4 e TNT foram explodidos na província de Hatay, na cidade fronteiriça de Reyhanli. Foram mortas, no mínimo, 51 pessoas. A destruição foi massiva. Prédios da administração municipal e dúzias de lojas ficaram soterrados nos escombros. Na sequência, carros com placas sírias foram destruídos e refugiados sírios atacados por grupos da região, enfurecidos. Enquanto destruíam, amaldiçoavam Erdogan. A atrocidade seguiu um padrão já familiar aos sírios: uma primeira explosão e em seguida, quando as pessoas se aproximam para socorrer os feridos da primeira explosão, a segunda bomba, para aumentar o número de vítimas.

Apesar de o governo turco ter declarado que teria sido trabalho de um grupo terrorista que colaboraria com a inteligência (mukhabarat) síria, só as gangues armadas ou um dos governos que as apoia teria algum motivo para cometer tamanha violência. O Exército Sírio está cercando os “rebeldes”, o “conselho dos traidores” baseado em Doha já implodiu, e norte-americanos e russos estão sentando para conversar. Aquele ataque foi claramente planejado e executado para atrair a Turquia diretamente para o conflito, através da fronteira.

Resultado do ataque a Reyhanli (Turquia) tentando levar  à intervenção direta na Síria
O ataque contra Reyhanli aconteceu uma semana depois que Israel lançou uma série de ataques selvagens contra a Síria. Não foi simples ataque de um míssil. Dois ataques em três dias, durando cada um várias horas, com bombardeio cerrado em torno de Damasco, sugerem fortemente que o objetivo era provocar resposta dos sírios, o que abriria a porta para guerra generalizada, na qual até o Irã poderia ser atacado. Israel alegou que o alvo seria um carregamento de mísseis destinados ao Hezbollah, mas, embora um centro de pesquisa e uma fábrica militar de produção de alimentos tenham sido atingidos, não se viu nem sinal de que algum míssil tivesse sido destruído. Os ataques revelaram-se fracasso político e estratégico. Imediatamente, na sequência, Putin aplicou “uma carraspana” em Netanyahu e o castigou, ou fornecendo ou ameaçando fornecer à Síria mísseis antiaéreos avançados S300. Só a insuperável arrogância do governo israelense explica que tenha insistido que outros ataques viriam, se necessários, e que destruiriam o governo sírio, caso houvesse retaliação.

Bill Keller
Obama está agora sob pressão doméstica para “fazer mais”. Em Washington, os mesmos que clamavam por guerra contra o Iraque clamam pela ampliação do conflito na Síria. O senador Bob Menendez, empenhado apoiador de Israel, como virtualmente todos os congressistas, apresentou projeto de lei que autoriza o governo dos EUA a fornecer armas aos “rebeldes” (como se os EUA já não estivessem fazendo exatamente isso clandestinamente, diretamente ou usando a Arábia Saudita e o Qatar).

O ex-editor do New York Times, Bill Keller, apoiou abertamente a guerra do Iraque e agora quer também que os EUA armem “os rebeldes” e “defendam os civis ameaçados de ser massacrados dentro das próprias casas” na Síria. Não fala, é claro, dos civis massacrados pelas gangues já armadas.

O Washington Post acabou por ter de admitir que o Exército Sírio está em marcha vitoriosa para controlar o conflito, mas nem por isso desiste de tentar mudar o rumo dos acontecimentos

“E se os EUA não intervierem na Síria?” pergunta em editorial, para poder responder-se, o jornal a ele mesmo: a Síria será fraturada, partida em várias áreas sectárias; a Frente Jabhat Al-Nusra assumirá o controle no norte e “remanescentes do regime” ficarão com faixas na parte oeste. A guerra sectária se espalhará e alcançará o Iraque – como se isso já não tivesse acontecido, consequência da invasão norte-americana – e o Líbano. Armas químicas cairão em mãos erradas, “o que provavelmente forçará Israel a intervir, para impedir que cheguem às mãos do Hezbollah ou da Al-Qaeda”. E, se os EUA não intervierem logo, para impedir que tudo isso aconteça, Turquia e Arábia Saudita “poderão concluir que os EUA já não são aliado confiável”.

Há outras respostas muito mais prováveis àquele “o que acontecerá”. O Exército Sírio expulsará do território sírio os “rebeldes” sobreviventes; e Bashar resultará ainda mais popular do que antes, depois de ter enfrentado com sucesso o maior desafio que se impôs ao Estado sírio em toda a sua história. Haverá eleições em 2014. Bashar será eleito presidente com 75% dos votos. Essa, pelo menos, é a previsão da CIA.

RecepTayyp Erdogan (E) e Barack Obama (D) na Conferência de Imprensa de 16/5/2013
Erdogan chegou a Washington também desejando que Obama “faça mais”, mas é mais do que claro que o presidente dos EUA não quer fazer coisa alguma, muito menos, mais. A imprensa-empresa turca noticiou que Obama dissera que Assad “tem de” sair [orig. “must”], mas não foi o que Obama disse. Obama escolheu muito atentamente cada palavra. Na conferência de imprensa ao lado de Erdogan, ele não disse que Assad “tem de” sair; disse que Assad “precisa” [orig. “needs”] ir e “precisa” transferir o poder para um corpo transicional. É diferença absolutamente importante. Pessoalmente, Obama não quer chegar ao fim de seu governo afundado numa guerra impopular, que os EUA não vencerão, guerra que, além do mais, pode muito rapidamente extrapolar o plano regional e converter-se em crise global.

John Kerry (E) e Sergey Lavrov (D) na reunião de Moscou em 7/5/2013
Pesquisa recente do Instituto Pew mostrou que o povo norte-americano já não tolera guerras no Oriente Médio. E a conversa entre Kerry e Lavrov indica que, dessa vez, já deixado para trás o Acordo de Genebra de julho de 2012, os EUA estão seriamente interessados em negociar um fim para a crise na Síria, mesmo que outros não considerem ainda sequer essa possibilidade. Se há alguma ameaça a pesar contra a posição dos EUA, o mais provável é que esteja crescendo entre seus amigos e aliados.