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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

EUA-Israel: propina que fede a conciliação vergonhosa [1]

20/11/2010, Robert Fisk - The Independent, UK

 Robert Fisk: An American bribe that stinks of appeasement

“Conciliador é quem oferece carne de outro ao crocodilo, na esperança de ser devorado por último” (Winston Churchill)2

Hillary Clinton meets the Palestinian President, Mahmoud Abbas, in Ramallah last year
Hillary Clinton cumprimenta o Presidente Mahmoud Abbas, em Ramallah no ano passado


Em qualquer outro país, a propina que os EUA ofereceram a Israel, e a relutância de Israel para aceitá-la, mesmo que em troca de uma reles suspensão temporária do roubo de propriedade dos árabes, seriam considerados escandalosos. 3 bilhões de dólares em aviões bombardeiros, para ‘comprar’ uma suspensão temporária na colonização da Cisjordânia, e só por 90 dias? Não inclui Jerusalém Leste – portanto, adeus à última chance de capital palestina na cidade santa; – e, se Benjamin Netanyahu assim o desejar, logo depois poderá retomar furiosamente as construções em terra árabe. No mundo comum e são no qual cremos viver, só há um nome para o que Barack Obama ofereceu: ‘arreglo’, conciliação vergonhosa, expressão que nossos senhores e mestres sempre usam com desdém e repulsa.


Quem cede ante a injustiça que um povo comete contra outro é dito “conciliador” [2]. Quem espere a paz a qualquer preço, mesmo que ao preço de propina de 3 bilhões de dólares para o criminoso, é dito “conciliador”. Quem se acovarda ante o risco de defender a moralidade internacional contra a cobiça territorial de Israel é dito “conciliador”. Quando tantos de nós nos manifestamos contra invadir o Afeganistão, fomos execrados porque seríamos “conciliadores”. E também fomos execrados como “conciliadores”, quando nos opusemos à invasão do Iraque. Pois “conciliar” foi o que Obama tentou, nesse patético, inacreditável esforço, nessa súplica dirigida a Netanyahu, para que respeite a lei internacional só por 90 dias! Obama é conciliador, no sentido sórdido da palavra.

O fato de o Ocidente e as elites políticas e jornalísticas – e aí incluo o cada dia menos respeitável New York Times – aceitarem esse disparate como coisa normal, como se o disparate pudesse ser realmente apresentado como outro “passo” no “processo de paz”, para repor “nos trilhos” aquele delírio místico, é útil para avaliarmos a que ponto já avançou nossa loucura, em tudo que tenha a ver com o Oriente Médio.

É indício de o quanto os EUA (e, porque fracassamos na empreitada de condenar essa insanidade, também a Europa) deixaram agigantar-se por lá o medo que têm de Israel – e de o quanto Obama deixou que se agigantasse nele o medo que tem dos apoiadores de Israel no Congresso e no Senado.

3 bilhões de dólares por três meses é um bilhão por mês, para suspender temporariamente o roubo de terras palestinas. É meio bilhão de dólares por quinzena. 250 milhões por semana. 71.428.571 de dólares por dia, 2.976.190 por hora e 49.603 dólares por minuto. E, como se o pote de ouro não bastasse, Washington continuará a vetar toda e qualquer Resolução da ONU que critique Israel ou que admita a criação de algum estado palestino. Que bom negócio! Já teria valido a pena invadir qualquer país só para por a mão numa bolada dessas! Em seguida, encenava-se a retirada! Imaginem então receber a mesma bolada, só pelo cavalheiresco movimento de não construir novas colônias ilegais e só por 90 dias – com plena autorização para avançar simultaneamente as construções ilegais em Jerusalém!

A versão de Hillary Clinton para essa palhaçada seria engraçadíssima, não fosse trágica. Na pena afiada de Roger Cohen do NYT, LaClinton persuadiu-se de que a Palestina é “alcançável, inevitável e compatível com a segurança de Israel”. E quem teria persuadidoMadame Hillary de tal coisa? Ora... Aconteceu numa viagem a “capital” Ramallah da pseudo-Palestina, ano passado. E ela viu as colônias exclusivas para judeus – “a brutalidade da coisa atingiu-a com violência” – mas ela achava que sua comitiva estivesse sendo escoltada por soldados israelenses “porque são tão profissionais”. E aí, ta-ta-ta-ti-ti-ti, acabou por descobrir que estava sob escolta de militares palestinos, “muito profissionais”. – Isso mudou completamente a visão de mundo de Madame!

Sem considerar o fato de que o exército israelense é ralé e que os palestinos são massa de miseráveis, esse incidente na “estrada de Ramallah” fez com que os apoiadores de Madame, nas palavras de Cohen, constatassem que já acontecera uma transição: “da psique de autopiedade e autoflagelação dos palestinos, sempre se apresentando como vítimas, para uma nova cultura pragmática de autoafirmação e de construção de instituições”. O ‘primeiro-ministro’ palestino Salam Fayyad, educado nos EUA e, portanto, gente confiável, “pôs o crescimento acima das lamentações, as estradas acima da agitação, e a segurança acima de tudo.”

Sob brutal ocupação por 43 anos, os palestinos roubados, reduzidos à miséria, com os primos da Cisjordânia que vivem sem casa há 62 anos, afinal pararam de lamentar-se e lamuriar-se e puseram-se repentinamente a cultuar a única coisa que realmente importa no mundo. Não é a justiça. Com certeza não, tampouco, é a democracia. Mas o único Deus que Madame espera que cristãos, judeus e muçulmanos cultuem: a segurança.

Agora, afinal, Israel está segura. Os palestinos uniram-se à humanidade em geral.

Com essa narrativa ginasiana, infantilizada, a mulher que, há 11 anos, dizia que Jerusalém seria “a eterna e indivisível capital de Israel” demonstra que o conflito Israel-Palestina atingiu o apogeu, o momento mais traiçoeiro e decisivo.

Se Netanyahu tiver algum juízo – falo de juízo sionista, expansionista – bastará esperar os 90 dias e passará pelos EUA de nariz erguido. Durante os três meses de “bom comportamento”, claro que os palestinos terão de segurar o rojão e manter-se sentados na cadeira das conversações “de paz” que decidirão as futuras fronteiras de Israel e “Palestina”. Mas, dado que Israel controla 62% da Cisjordânia, Fayyad e a turma dele ainda poderão disputar 10,9% da Palestina do Mandato.

E, ao preço de 827 dólares por segundo, melhor se forem rápidos. Serão. Deveríamos nos enforcar de vergonha. Mas ninguém se enforcará. Não se trata de gente. Tudo é falso. Não se trata de justiça. Só se trata de “segurança”. E de dinheiro. Muito, muito dinheiro. Adeus, Palestina.



Notas de Tradução
[1] No orig. appeasement. O dicionário Cambridge registra para appeasement: “conceder ou ceder a exigências do inimigo (nação, grupo, pessoa etc.) em esforço para conciliar, algumas vezes ao arrepio da justiça ou de outros princípios”. 
[2] No orig. appeaser. A citação mais conhecida, em inglês, é frase atribuída a Churchill: “An appeaser is one who feeds a crocodile, hoping it will eat him last” [Conciliador é quem oferece carne de outro ao crocodilo, na esperança de ser devorado por último].

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Washington, ainda sem entender o que acontece na América Latina

A elite de Washington ainda não entende a América Latina. Um dia vai entender?


por Mark Weisbrot, no jornal britânico The Guardian, em 26.06.2010

No filme “Guantanamera”, o último do renomado diretor cubano Tomás Gutiérrez Alea, o mito de criação iorubá é apresentado como metáfora para as dificuldades em provocar mudanças. Nesse mito, os humanos eram inicialmente imortais, mas o resultado é que os velhos acabavam sufocando os jovens, e assim a morte teve de ser criada.

Aqui em Washington, muitas vezes só a morte ou aposentadoria permitem a possibilidade de mudança — e ainda assim as instituições permanecem imortais e muitas vezes imutáveis. Em nenhum outro lugar isso é mais verdadeiro que no establishment de política externa.

Nas últimas semanas eu visitei cinco países e participei de numerosos eventos que cercaram o lançamento recente de um documentário — como Guantanamera, “South of the Border” também é um road movie — que Oliver Stone dirigiu e eu escrevi com Tariq Ali. Retornando a Washington, a grande distância que separa a elite da política externa dos Estados Unidos da vasta maioria de seus vizinhos ao Sul nos atinge como um choque cultural.

Para as pessoas dessa elite, as mudanças históricas que varreram a América Latina — especialmente a América do Sul — na última década são vistas através das lentes da mentalidade da Guerra Fria que julga toda mudança em termos de como ela afeta o poder dos Estados Unidos na região.

Jorge Castañeda é um ex-ministro das relações exteriores do México que ensina na Universidade de Nova York e se tornou um porta-voz na mídia para o establishment de política externa de Washington. Em um recente artigo, ele divide o continente entre “aqueles que são neutros no confronto entre Estados Unidos e o presidente venezuelano Hugo Chávez (e Cuba), ou que se opõem abertamente aos assim chamados governos ‘bolivarianos’ da Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e Venezuela”, que ele rotula de “Americas-2″ e “esquerda radical”.

Para Castañeda, como para a secretária de Estado Hillary Clinton, é particularmente irritante que “tão recentemente quanto em 7 de junho, os países bolivarianos foram capazes de evitar o restabelecimento de Honduras à Organização dos Estados Americanos, apesar das eleições essencialmente livres e justas que foram realizadas em novembro passado”.

Mas não foram apenas os “paises bolivarianos” que não aceitaram eleições realizadas sob ditadura como “livres e justas”. O Brasil, a Argentina e governos representando a maior parte do hemisfério estão no mesmo campo. Na verdade, quando o Grupo do Rio divulgou sua declaração em novembro de 2009 dizendo que a imediata restituição de Mel Zelaya era uma condição necessária para o reconhecimento das eleições, mesmo os governos de direita aliados de Obama — Colômbia, Peru e Panamá — se sentiram obrigados a apoiar.

O golpe de Honduras, promovido por aliados dos Estados Unidos e por oficiais treinados pelos Estados Unidos contra um presidente eleito democraticamente, foi um marco nas relações entre Washington e a América Latina. Foi mais ou menos um ano atrás, em 28 de junho, que a esperança de que o governo Obama trataria seus vizinhos ao Sul de forma diferente do que fazia o time de Bush, foi destruída. Enquanto o confidente e assessor dos Clinton, Lanny Davis, aconselhava e fazia lobby em nome do regime golpista, o governo Obama fez tudo o que pôde para ajudar a ditadura sobreviver e se legitimar.

Isso apesar de resoluções unânimes da OEA e das Nações Unidas pedindo o “restabelecimento imediato e incondicional” do presidente Zelaya, duas palavras que o governo Obama nunca pronunciou, assim como ignorou por mais de cinco meses os assassinatos, o fechamento de órgãos da mídia e outras violações maciças de direitos humanos que tornaram o “livres e justas” das eleições de novembro em Honduras uma piada doentia. A União Europeia e a Organização dos Estados Americanos nem mesmo mandaram observadores.

Mas com Washington ainda lutando para legitimar o governo hondurenho — apesar do assassinato de dezenas de ativistas políticos e de nove jornalistas desde que o governo “eleito” assumiu o poder — é típico retratar essa tentativa como uma luta contra governos “inimigos” em vez de uma disputa com a maior parte da região. O que essas pessoas não podem reconhecer, ou talvez nem mesmo entendam, é que se trata de uma questão de independência e autodeterminação, assim como de democracia.

Michele Bachelet do Chile e Lula da Silva do Brasil ficaram tão revoltados quanto os governos “Americas 2″ quando o governo Obama decidiu em agosto passado expandir sua presença em sete bases militares na Colômbia. E foi Felipe Calderón, o presidente direitista do México, que sediou a conferência de fevereiro em Cancún que decidiu criar uma nova organização para as Américas, que poderia eventualmente substituir a OEA, sem Estados Unidos e Canadá. O papel dos Estados Unidos e do Canadá ao bloquear medidas mais fortes da OEA contra a ditadura de Honduras sem dúvida jogou um papel motivador nessa medida.

Naturalmente, Washington tem o poder de tornar sua visão de Guerra Fria em relação ao hemisfério parecer meio real, ao adotar medidas de tratamento especial para governos mais à esquerda. Na Bolívia, a eleição de Evo Morales causou mudanças análogas ao fim do apartheid na África do Sul, com a maioria indígena do país ganhando voz em seu governo pela primeira vez em 500 anos. Seria o caso de imaginar que o governo Obama teria senso comum no cérebro para entrar do lado certo nesta questão. Mas não, eles continuam a aplicar sanções comerciais impostas inicialmente pelo governo Bush contra a Bolívia sob o assim chamado Andean Trade Promotion and Drug Eradication Act (ATPDEA), retiraram a certificação da Bolívia como país que coopera com a Guerra contra as Drogas e continuam a não informar quem exatamente os Estados Unidos financiam na Bolívia — isto é, quais grupos de oposição — com dinheiro do Departamento de Estado.

Tive o privilégio de assistir “South of the Border” em um estádio com mais de 6 mil pessoas em Cochabamba, Bolívia, algumas semanas atrás. Num momento do filme Evo Morales conta a história de Tupac Katari, um líder indígena que lutou contra os colonizadores espanhóis no século 18. Evo relembra as últimas palavras de Tupac Katari, antes dele ser esquartejado pelos espanhóis: “Morro como um, mas voltarei como milhões”.

Evo então olha para a câmera e diz: “Agora somos milhões”.

Ao contrário do que acontece em Washington, toda pessoa que estava naquele estádio sabia exatamente o que Evo queria dizer.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Will the US ever get Latin America?

expropriado do Viomundo - Blog do Azenha

Comentário de Arnaldo Carrilho – Embaixador do Brasil na RDPC

É verdade, e quando se trata do Brasil, então, a incompreensão torna-se maior. Somos o "complicador" latino-americano por excelência, por idioma, cultura e costumes. O incômodo causado em Washington pela existência de uma Monarquia no Sul do Quintal, ao longo de 67 anos, aumentou mais ainda esse misto de desdém e paternalismo dos gringos a que já nos habituamos.

Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr e o bando de Brazilianists jamais atingiram o nervo do interesse deles por nós.

Só uma vez despertamos a atenção dos gringos: era a Protuberância Nordestina, que eles invadiriam, se Getulio não lhes cedesse as bases. O restante são aqueles notórios 500 anos de periferia (Samuel Pinheiro Guimarães) ou os cem anos de solidão (Gabo). Mas o Governo Lula quebrou com essas condenações, e pelo gasganete. Não tem volta ao statu quo. Com Dilma, é de esperar-se que Washington tente "das suas", mas nossa candidata é de extração guevariana, doce e de ferro.

Abraços do

Arnaldo C.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

OS PANACAS

Laerte Braga

Quem se der ao trabalho de esmiuçar as viagens e conversas de FHC com o então presidente dos EUA Bill Clinton vai encontrar pérolas de subserviência que beira as raias do “quer-que-eu-deite-de-bruços?”.

Numa das visitas de FHC a Washington, em discussão a ALCA – ALIANÇA DE LIVRE COMÉRCIO DAS AMÉRICAS – Clinton falou sobre a necessidade de criar um tratado para o Atlântico Sul, versão latino-americana da OTAN – ORGANIZAÇÃO DO TRATADO ATLÂNTICO NORTE –.

O brasileiro não pestanejou. “Nesse momento é melhor passarmos batidos sobre isso, vai haver resistências e estragar alguns acertos que estamos fechando aqui. Mais à frente discutimos isso”. O tratado implicaria em um comando militar unificado para todas as forças armadas latino-americanas que aderissem ao documento, vale dizer o Brasil de FHC.

A reação, foi o que avaliou FHC, viria de alguns setores militares ainda comprometidos com o Brasil, não subordinados a Washington.

São setores minoritários, mas capazes de resistir à entrega pura e simples do País. Esse é um dos efeitos do expurgo promovido após o golpe militar de 1964. Mais de dois mil oficiais foram punidos e afastados das três forças por se imaginarem militares brasileiros não subordinados ao general Vernon Walters, comandante militar norte-americano designado para o Brasil e ao qual se reportavam os golpistas que derrubaram João Goulart.

Não é de se estranhar que FHC venha a público dizer que o tratado firmado entre o Brasil, o Irã e Turquia não pode ser implementado, diante das parcas garantias pedidas pelo governo Lula ao governo do Irã. É a linguagem do Departamento de Estado, foi dita em vários países do mundo por vários assemelhados a FHC. Chegou em forma de envelope secreto.

A declaração do ex-presidente sem-pátria obedece a um cronograma traçado em Washington para esvaziar o impacto da ação do Itamaraty e abrir caminho para que o governo Obama possa prosseguir sua política insensata e criminosa – terrorista – de submeter todo mundo ao padrão McDonalds.

Como quem diz assim, “Lula foi ingênuo”. FHC repete as declarações da secretária Hillary Clinton com outras palavras.

O que faltou dizer, tanto pelo ex-presidente, como pela secretária, é que antes da viagem de Lula ao Irã o governo dos EUA anunciou que aquela “era a última chance dos iranianos de evitar a adoção de sanções políticas e econômicas contra o país”.

De quebra FHC tenta diminuir o impacto que o feito de Lula produziu nos brasileiros, ao mostrar que, finalmente, estamos de pé. Dar uma ajuda ao seu candidato José Arruda Serra, funcionário destacado pela Ford Foundation para domesticar esses ímpetos de independência e soberania do Brasil e dos brasileiros. Colocar-nos em nossos devidos lugares, assim padrão Celso Láfer, o “no-shoes”.

Bem mais que isso. Neutralizar a ação do ministro das Relações Exteriores Celso Amorim. O chanceler brasileiro tem recebido manifestações de apoio de vários governos em várias partes do mundo e ponderáveis setores da opinião pública e alguns partidos europeus, cansados de pagar contas de guerras intermináveis dos EUA.

A Alemanha já está à matroca, tangenciando a falência. Tem soldados no Iraque e no Afeganistão.

OTAN, como outras siglas, são formas dos norte-americanos guerrearem para manter o império saqueando outros povos e dividir a conta dos custos. Do lucro não. Mais da metade das peças do antigo museu babilônico do Iraque já está espalhada pelos museus dos EUA. Públicos e privados.

Saque puro, negócio de pirataria.

O ideal é que FHC fale todos os dias. Se assim o fizer será o mais poderoso cabo-eleitoral de Dilma Roussef, pois basta mínima comparação do governo Lula com o desastre dos oito anos do tucano, para ninguém de bom senso cogite votar em José Arruda Serra.

É o político mais rejeitado do País e deveria inspirar-se no general João Baptista Figueiredo pedindo para que o esqueçam. Uma forma de evitar constrangimentos desnecessários inclusive entre seus aliados que pedem pelo amor de Deus que fique de boca fechada.

E tem parceiro, ou parceira. A outra banda da direita brasileira, escorada na candidatura de Marina da Silva, ouviu da moça que “Lula não precisa de continuador”. Uma leitura atenta do que disse a candidata supostamente verde, sinaliza na direção que o País precisa de um “descontinuador”. Confissão explícita do pensamento implícito.

Vade retro satanás! Versão light de Heloísa Helena fazendo perguntas a uma cadeira vazia num dos debates das eleições de 2006.

Política, de fato, é um trem complicado, bem complicado. A candidata verde, defensora do meio-ambiente, da Amazônia, é financiada por predadores da Amazônia (e desfila com eles Brasil afora). Sequer é levada a sério em seu partido. Gabeira tampou seu nome quando do lançamento de sua candidatura ao governo do Rio, apóia Serra.

É a versão fluminense de Roberto Freire.

A expressão “panaca” é até bondosa. No caso de Marina da Silva talvez até caiba. No caso de FHC é puro mau-caratismo, canalhice de um político subordinado a interesses de grupos econômicos internacionais e ao governo dos EUA.

Quem sabe eles não propõem logo de uma vez a privatização da Amazônia, do Palácio do Planalto e a mudança da grafia do nome do Brasil. Ao invés do “s”, o “z”. BRAZIL.

É o sonho dourado dessa gente.

Todo esse destempero verbal de Arruda Serra, esse ar professoral de FHC e essa ingenuidade nada santa de Marina da Silva nada têm a ver com o Brasil. Mas com a turma que está de olho no Brasil.

Que quer o Brasil.

Vai ver que o verde de Marina é flor de plástico e tubinho com água e açúcar para beija-flor chegar pertinho da janela.

Aécio Neves deu um show de “enterrada” em Arruda Serra na convenção do PSDB. Devolveu o tal dossiê que Juca Kfoury, no jornalismo tucano/marrom de ameaças, chantagens, insinuações, etc., usou para mandar recado ao neto de Tancredo. Ao fim da convenção do partido, do lançamento do candidato, militantes pagos (700 reais por cabeça por presença), em clima de velório, as pessoas abraçavam Aécio e perguntavam por que não você?

O ex-governador, cascavel de alto calibre nessa história, apenas sorria. Aos mais chegados foi claro. “Em Minas é Dilmastasia”. A candidata do PT já livrou sete pontos sobre Arruda Serra no Estado. E Hélio Costa ainda não acordou. Vai dançar na esteira do segundo turno, como das vezes anteriores.

É muita panaquice.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Chávez cantarola sobre relação com Hillary Clinton


O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, improvisou uma canção sobre sua relação pouco amigável com Hillary Clinton, a Secretária de Estado americana.

A improvisação aconteceu durante um discurso em que Chávez criticava a Secretária, que visitou vários países da América Latina nessa semana.

Na música, Chávez canta: “Hillary Clinton não gosta de mim... e nem eu gosto dela.”

Assistir: A canção de Chávez

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sanções contra o Irã: Inúteis, além de contraproducentes

9/6/2010, Robert Dreyfuss, The Nation – Traduzido por Caia Fittipaldi

A votação, no Conselho de Segurança da ONU hoje, para impor uma quarta rodada de sanções contra o programa nuclear iraniano – os três blocos de sanções impostas antes foram aprovados sob pressão do presidente Bush e de seu governo, com destaque para o embaixador John Bolton – são claro sinal de que o presidente Obama não tem ideia alguma sobre o que fazer sobre o Irã.

Todos ouviremos muita conversa vinda da turba conservadora anti-Irã e do próprio governo Obama, sobretudo do Departamento de Estado, sobre essa suposta grande vitória. Todos ouviremos, sobretudo, dos degoladores-do-Irã, da claque neoconservadora e do próprio Departamento de Estado, que as sanções seriam resultado do brilhante esforço de Obama e do Departamento de Estado para ‘dobrar’ Rússia e China. Eles dirão que Obama conseguiu isolar o Irã e persuadir Moscou e Pequim a aprovar novas sanções contra o Irã.

De fato, a verdade é bem outra: Rússia e China conseguiram que as sanções que venham a ser impostas pelo CSONU signifiquem rigorosamente nada. E, claro, já aconteceu também com o presidente Bush, três vezes.

Apesar da abordagem à cowboy da implantação de uma hegemonia unilateral em guerras distantes, Bush, ele também, obteve apoio de russos e chineses, nas três vezes em que o CSONU votou sanções contra o Irã entre 2006 e 2008.

Declaração autocongratulatória do escritório do Departamento de Defesa na ONU – quer dizer, da lojinha de Susan Rice – observa que os EUA “continuam abertos ao diálogo” com o Irã. Em seguida, lista nada menos de 14 novas sanções, ou as antigas ‘reforçadas’, impostas ao Irã pela Resolução n. 1.929 do CSONU.

A verdade é que nenhuma das sanções sanciona coisa alguma, de importante. Não há sequer uma sanção “incapacitante”. Nenhuma sanção toca, nem de longe, nas importações de petróleo e gasolina . Nenhuma sanção tem qualquer coisa a ver com a economia real do Irã. Nenhuma contribui para persuadir, compelir ou aterroriza o Irã, ou o empurra na direção de ter de alterar sua política nuclear. (O fato de as sanções serem fraquíssimas e sem significado algum é consequência direta de Rússia e China terem imposto a exigência de que nenhuma sanção causasse impacto ou sofrimento à população iraniana.)

Então, segundo o Departamento de Estado, as sanções impostas pela Resolução n. 1.929 proíbem investimentos (no Irã) em programas nucleares e de mísseis; fecha o acesso do Irã a fabricantes de várias armas convencionais; impedem que o Irã tenha acesso à tecnologia de mísseis balísticos; dão às nações direito de inspecionar navios que levem carga ao Irã; tornam as empresas IEISL de navegação e aviação objetos-alvo de “vigilância” ampliada; e incluem várias medidas relacionadas a finanças, por exemplo, uma conclamação a todas as nações para que “proíbam, em seus países, novas relações bancárias com o Irã, inclusive a constituição de novos ramos de bancos iranianos, joint ventures e correspondentes relacionamentos bancários, nos casos em que haja qualquer vínculo suspeito de proliferação”.

Em resposta, o Irã fingirá que está muito ofendido. Mas o Irã sabe perfeitamente que as sanções não passam de declaração política.

Claro que o Irã está infeliz por nem Rússia nem China terem agido para impedir completamente a votação, ou por não terem vetado, a Resolução n. 1.929. Mas todos (Irã, Rússia e China) sabem que as sanções absolutamente não farão o que se diz que farão.

O presidente Ahmadinejad viajará à China imediatamente, visita presidencial, para visitar Xangai, onde provavelmente se reunirá com o presidente Hu Jintao. E o Irã já reuniu-se essa semana na Turquia, com turcos e russos. Não que tudo esteja azul entre o Irã e seus aliados asiáticos: em troca de Moscou e Pequim terem votado a favor das sanções, o Irã considera boicotar o encontro da Shanghai Cooperation Organization – a protoaliança asiática que une Rússia, China e vários países da Ásia Central, e na qual o Irã tem status de “observador”. De qualquer modo, Rússia e China de modo algum permitirão que os EUA imponham novas penalidades ao Irã. Os iranianos sabem disso. (...) Anteontem, Putin disse, em declaração pública, que “O Conselho de Segurança não criará nenhuma dificuldade para a liderança e para o povo do Irã.”

Brasil e Turquia votaram contra a Resolução n. 1.929. No início desse mês, Brasil e Turquia engajaram-se em brilhante esforço diplomático para persuadir o Irã a manter os termos do acordo de outubro de 2009, construído com os EUA em Genebra, e apenas ligeiramente modificado. Os EUA não estão contentes com Brasil e Turquia, porque veem (acuradamente) que o esforço diplomático foi meio para deter o frenesi de sanções. Hillary Clinton não dará sinais de amor imorredouro pelo Brasil e pela Turquia. Aliás, já começaram: em insulto calculado a Brasil e Turquia, os EUA disseram hoje à Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) que o esforço diplomático foi má ideia. Segundo o Los Angeles Times:

“Os EUA disseram à IAEA e aos inspetores da ONU, na 5ª-feira que o esforço de Brasil e Turquia para resolver o impasse sobre o programa nuclear iraniano ignorou importantes preocupações internacionais.”

Os neoconservadores, claro, fingirão que estão felicíssimos. Fingimento, porque os neoconservadores mais venenosos, como Bolton, jamais se interessaram por sanções e cansaram-se de repetir que as sanções são inúteis e sem sentido e que não deterão o Irã. E o grupo dos ‘inspetores nucleares’ neoconservadores – do grupo United Against Nuclear Iran (UANI) – lançou documento, instantes depois de as sanções serem aprovadas, sem festejar e exigindo muito mais (...).

Fato é que a resolução tornará ainda mais difícil, não mais fácil, alcançar-se qualquer solução para o programa nuclear iraniano. Quanto mais o Irã for provocado e acossado, mais difícil qualquer negociação, sem dar, ao público interno, a impressão de ceder.

Obama, esse, é quem mais perdeu. Para o presidente que tentou abrir uma porta de diálogo com o Irã, a Resolução n. 1.929 é como um monumento ao fracasso. Se se excluiu a opção militar, é preciso escolher entre contenção e diplomacia para um Irã pós-nuclear. Nessa escolha, as sanções são irrelevantes. Mas têm o grave inconveniente de tornar a diplomacia muito mais difícil.

Para o governo Obama, o máximo que se pode dizer é que servirão para ganhar algum tempo; e ajudarão a cozinhar os alucinados do Congresso que exigem todos os dias embargo naval; e os lunáticos conservadores que querem que Obama bombardeie, bombardeie, bombardeie, até reduzir a pó, o Irã. Infelizmente, o presidente Obama, até aqui, só fez encorajar esses alucinados e esses lunáticos.

A artigo original, em inglês, pode ser lido em: Iran Sanctions: Not Just Useless but Counterproductive

Conselho de Segurança da ONU impõe novas sanções contra o Irã

Mundo / 9 de junho de 2010
Represálias contra o programa nuclear iraniano afetam pela primeira vez integrantes da Guarda Revolucionária. Brasil e Turquia votam contra resolução e defendem Declaração de Teerã, selada pelos três países em maio.


A resolução redigida pelos EUA prevê o acirramento das sanções contra o governo iraniano, tornando ainda mais rigorosas as represálias deliberadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em 2006, 2007 e 2008.

A nova resolução foi aprovada por 12 dos 15 membros do grêmio nesta quarta-feira (09/06) em Nova York. O Brasil e a Turquia rejeitaram represálias mais severas; o Líbano se absteve de votar.

Teor da nova resolução contra o Irã

Esta é a primeira vez que as sanções da ONU contra o Irã não tocam apenas ao Estado, mas também a integrantes da Guarda Revolucionária, unidade militar paralela às Forças Armadas e submetida diretamente ao líder supremo do país. Em três anexos ao documento aprovado nesta quarta-feira, o conselho determina a proibição de viagem para membros dessa tropa paramilitar e para funcionários de empresas de sua propriedade ou sob sua administração. O documento menciona o nome e o endereço de 40 firmas ou instituições de pesquisa e de uma pessoa física que foram afetadas pelas represálias.

Na nova resolução, o Conselho de Segurança da ONU diz constatar com grande preocupação que o Irã está enriquecendo urânio a 20% sem ter avisado previamente a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

O grêmio exige que Teerã coopere com a AIEA no esclarecimento de todas as questões abertas em relação a seu programa nuclear, sobretudo em pontos que possam alimentar preocupações sobre o alcance do arsenal nuclear iraniano. Além disso, o documento proíbe ao Irã qualquer manobra com mísseis capazes de transportar armas nucleares.

O bloqueio militar ao Irã impõe que toda a comunidade internacional impeça a venda direta ou indireta de navios de guerra, tanques, sistemas de artilharia e de mísseis, aviões e helicópteros de combate. Todos os carregamentos vindos do Irã ou enviados ao país deverão ser inspecionados, caso haja suspeita de que o material transportado fira as determinações internacionais. Além disso, o país fica proibido de investir em minas de urânio no exterior.

Disposição de retomar negociações

A comunidade internacional também é convocada a proibir qualquer prestação de serviço financeiro que possa contribuir para a proliferação das atividades nucleares iranianas e para a construção de armas atômicas.

Isso incluiria, por exemplo, o congelamento de contas bancárias e o impedimento de outros recursos que lhe garantam liquidez financeira. Além disso, os países da ONU são conclamados a impedir que bancos iranianos abram novas filiais e representações em seu território.

Quanto à proibição de viagem para membros da Guarda Revolucionária, todos os países deverão tomar providências para impedir a entrada e o trânsito das pessoas em questão em seu território, a não ser que seja por razões humanitárias ou religiosas.

O documento confirma que a China, a França, a Alemanha, a Rússia, o Reino Unido e os EUA continuarão se empenhando por um diálogo com o Irã. Isso incluiria a retomada das negociações sem pré-condições.

Dentro de 90 dias, o diretor-geral da IAEA deverá informar às Nações Unidas se o Irã terá suspendido todas as suas atividades nucleares repudiadas desde 2006 pelo Conselho de Segurança da ONU.

Assinatura da Declaração de Teerã em 17 de maio de 2010, na capital iraniana
Assinatura da Declaração de Teerã em 17 de maio de 2010, na capital iraniana

Brasil justifica voto contra

O Brasil voltou a defender a Declaração de Teerã, assinada em 17 de maio entre o Irã a Turquia sob mediação do governo brasileiro, considerando esse acordo uma oportunidade imperdível de chegar a um consenso com os governantes iranianos. O acerto possibilitaria ao país o pleno exercício de seu direito de produzir energia nuclear para fins pacíficos, oferecendo ao mesmo tempo garantias perfeitamente averiguáveis de que o programa nuclear iraniano não teria finalidades militares.

Por isso, o Brasil declarou lamentar profundamente que a declaração não tenha recebido o reconhecimento político que merecia e nem tenha obtido o tempo necessário para surtir efeito. Ao votar contra a resolução, o Brasil mostrou que considera inapropriado acelerar a imposição de novas sanções contra Teerã antes de as partes envolvidas terem se reunido para falar sobre a implementação da declaração.

A Turquia, que também votou contra a resolução, declarou que continuará buscando uma solução pacífica para o conflito em torno do programa nuclear iraniano. O país acredita que o caminho diplomático ainda está aberto, apesar das novas sanções impostas pela comunidade internacional.

Irã insiste em acordo selado com Brasil e Turquia

Pouco antes de o Conselho de Segurança votar sanções mais rigorosas contra o Irã, três membros permanentes do grêmio – EUA, França e Rússia – rejeitaram o pedido iraniano de que a ONU aceite seu acordo com o Brasil e a Turquia. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou ter direcionado a Teerã uma resposta dos três países nesse sentido.

Às vésperas da votação da nova resolução, o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, havia insistido que a comunidade internacional aceitasse da Declaração de Teerã, na qual o Irã se compromete a depositar na Turquia a maior parte de seu urânio pouco enriquecido em troca de combustível nuclear para um reator de pesquisas.

Ahmadinejad acusou o Ocidente de tentar manter o monopólio sobre a produção de energia atômica somente por razões econômicas. "A energia atômica é uma fonte limpa de energia que os Estados dominantes não querem compartilhar. É por causa dessa política que também se acelera a mudança climática", argumentou.

Reações dos EUA e da Europa

A secretária norte-americana de Estado, Hillary Clinton, considera as sanções recém-aprovadas as mais significativas até então. Para ela, a comunidade internacional atingiu um grau de consenso importante com essa decisão.

O ministro alemão de Relações Exteriores, Guido Westerwelle, considera a nova resolução "uma resposta clara e equilibrada à contínua recusa do Irã em eliminar as dúvidas quanto à natureza pacífica de seu programa atômico". Com isso, a comunidade internacional se negou claramente a aceitar que o Irã detenha armas nucleares, resumiu Westerwelle.

SL/dpa/rtdt/apn
Revisão: Roselaine Wandscheer


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Quem é Erdogan, da Turquia

10/6/2010, Sami Moubayed (de Damasco), Asia Times Online traduzido por Caia Fittipaldi

Sami Moubayed é editor-chefe da revista Forward, síria.

Na autobiografia In Search of Identity, Anwar Sadat relembra que costumava vir da pequena aldeia onde nasceu, até a cidade do Cairo, menino pobre, para andar à noite pelos jardins do palácio real, roubar laranjas e apanhar dos guardas do rei. Jamais imaginou que um dia atravessaria os portões do mesmo palácio, já oficial do exército egípcio, para saudar o Rei Farouk I. Tampouco jamais imaginara, nem nos sonhos mais alucinados, que um dia sentaria no mesmo trono, já então eleito presidente do Egito republicano, em 1970.

O jogo do destino é jogo estranho. Winston Churchill ensinou que “é erro perscrutar futuro muito distante. Só se pode lidar com um elo da cadeia do destino, de cada vez.”

Já faz agora uma semana que a mídia em todo o mundo muçulmano e árabe repete e repete histórias do começo da vida do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan. Menino que vendia bolos, melões e limonada nas ruas de Istambul nos fins-de-semana e feriados do verão, Erdogan, hoje aos 56 anos, jamais imaginou que algum dia seria primeiro-ministro.

Crescido nos anos 1960s, Erdogan nunca imaginou, tampouco, que se tornaria líder pan-muçulmano, e que saberia atrair pró-Turquia emoções que sempre se afastaram dela, desde a queda do Império Otomano há 92 anos.

Na história moderna, só Erdogan e a diva egípcia Um Kalthoum (falecida há 35 anos) conseguiram seduzir corações e mentes de árabes e muçulmanos em geral, disse o popular canal saudita de televisão al-Arabiya, em biografia de Erdogan recentemente publicada no website. Na mesma frase, há dez anos, o nome que apareceria ao lado de Um Kalthoum seria o do ex-presidente do Egito Gamal Abdul Nasser, “padrinho” do moderno arabismo. E ninguém suporia que cidadão turco, com agenda islamista e sem falar uma palavra de árabe, algum dia chegaria lá.

Em janeiro, manifestação de o quanto crescia sua popularidade, Erdogan recebeu o prestigioso Prêmio Internacional Rei Faisal, por “serviços ao Islã”, prêmio outorgado pela Fundação Saudita Rei Faisal. Em abril, a revista Time o incluiu, pela segunda vez, entre as 100 pessoas mais influentes do mundo.

Se se acompanha a carreira de Erdogan, vê-se que trabalhou muito, mas a grande popularidade pan-árabe e pan-islâmica de que goza hoje é também resultado de algumas confluências históricas.

Dia 1/3/2003, duas semanas antes de Erdogan assumir o cargo de primeiro-ministro, Ankara – comandada pelo Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) – vetou proposta que autorizaria os EUA a usar território turco para abrir um segundo front contra o Iraque, pelo norte, para derrubar Saddam Hussein.

Erdogan começava a acumular pontos entre árabes e muçulmanos. Dois anos depois, em 2005, o então secretário de Defesa dos EUA Donald Rumsfeld lamentou-se amargamente pelo canal Fox News de televisão: “Claro que, se tivéssemos podido enfiar a 4ª Divisão de Infantaria pelo Norte, através da Turquia, teríamos prendido e matado mais membros do governo Hussein-Ba'ath." Se a Turquia tivesse cooperado mais, “haveria menos guerrilheiros [no Iraque], hoje”, disse ele.

Evidentemente sem que aí houvesse algum plano deliberado, a frustração de Rumsfeld valeu outra medalha de honra para Erdogan, aos olhos de milhões de árabes. No mesmo ano, Erdogan recusou-se a obedecer aos EUA e estreitou relações com a Síria, em momento em que os laços entre Damasco e o governo de George W Bush degeneravam rapidamente; e desde então se tornou hóspede frequente da capital síria.

Erdogan outra vez desafiou os EUA, ao receber o líder político do Hamás, Khalid Meshaal, depois da vitória nas eleições parlamentares na Palestina em 2005. Rejeitou convite do ex-primeiro ministro Ariel Sharon para visitar Israel em 2004 – o que outra vez enfureceu os EUA. E não recebeu Ehud Olmert, então ministro do Trabalho e Comércio, que visitava a Turquia em julho de 2004.

Na guerra de Gaza em 2008, Erdogan defendeu os palestinos e acusou Israel de ter cometido crimes de guerra. Falando a Shimon Peres no Fórum Econômico de Davos, em janeiro de 2009, disse ao presidente de Israel: “Presidente Peres, o senhor é velho e sua voz fala do fundo de uma consciência culpada. Em matéria de matar, o senhor é mestre. Sei perfeitamente com que mestria os israelenses espancam e matam crianças palestinas nas praias.”

Bastou essa frase para alçá-lo à mais alta fama no contexto pan-árabe e pan-islâmico; começaram a aparecer fotos suas em todas as principais capitais árabes. Mas o que Erdogan disse na Suíça nem de longe se compara ao que disse semana passada, com expressão indignada, depois que o exército de Israel (IDF) atacou a Flotilha da Liberdade no litoral de Gaza, matando nove cidadãos turcos a bordo do barco Mavi Marmara.

O mundo árabe viu crescer um furacão de apoio e em defesa do primeiro-ministro da Turquia, que imediatamente retirou seu embaixador de Israel; o gesto estimulou a eclosão de vastas manifestações de rua, que se alastraram, em Damasco, Bagdá, Beirute e Cairo.

“A amizade da Turquia é forte; mas saibam todos que nossa hostilidade também é forte.” Disse Erdogan no Parlamento turco. “O que a comunidade internacional tem a dizer a Israel é “Basta!”. A Flotilha da Liberdade é legal; a agressão israelense à flotilha ataca a ONU. Israel tem de pagar o preço pelo que fez. Israel não pode lavar as mãos do crime perpetrado no Mediterrâneo. O país que insiste em atrair sobre si o ódio do mundo jamais conseguirá viver em segurança; Israel boicotou, uma depois da outra, todas as tentativas do mundo, em direção à paz.”

E acrescentou: “Israel não pode olhar nos olhos do mundo, a menos que se desculpe e seja julgado e punido pelo que fez. Estamos fartos das mentiras de Israel; as ações de Israel ferem a própria Israel; depois, ferem outros povos.”

Então, para espanto do mundo, Erdogan disse que embarcaria pessoalmente num barco, rumo a Gaza, para romper o bloqueio implantado por Israel em 2007, e que a Marinha turca o acompanharia às águas palestinas, para mostrar ao exército de Israel que não viajava só, na viagem à Faixa de Gaza.

Erdogan vive hoje seu melhor momento nos mundos árabe e muçulmano, graças à firmeza do que diz e a determinação de fazer. No início de 2010, forçou os israelenses a desculpar-se depois de terem humilhado seu embaixador, o que lhe valeu manchetes ardentemente entusiasmadas, na mídia árabe: “Israel só entende a Turquia!”

Mês passado, Erdogan ajudou a construir e viabilizar um acordo de troca de urânio iraniano, mediado pelo Brasil, o qual, se tivesse sido imediatamente encampado e defendido pela comunidade internacional teria salvo o Irã de um 4º bloco de sanções que estão sendo discutidas essa semana na ONU.

Sob comando do ministro de Relações Estrangeiras Ahmet Davutoglu, a Turquia desmontou a imagem que lhe restava da Guerra Fria, e aspira a ser membro pleno da União Europeia, já em 2014. Com a inclusão da Turquia, o Irã ganhará fronteiras com a União Europeia, cuja população muçulmana aumentará seis vezes. Em busca de “problemas-zero” com os vizinhos, Ankara já assinou acordo de passe livre, sem necessidade de vistos, para viajantes que visitem o Líbano, a Jordânia, a Líbia e a Síria. Em breve, o mesmo acordo incluirá também a Rússia.

Como diz a rede al-Arabiya, “Erdogan, do dia para a noite, tornou-se o nome mais popular do mundo árabe. Irã, EUA e vários países europeus trabalham há décadas para obter o que Erdogan conseguiu num segundo.”

É possível que sua eloquência e a clara e forte posição contra Israel o tenham elevado ao posto mais alto de prestígio, do mundo árabe. Ou talvez o fato de ser muçulmano devoto, cuja esposa Emine jamais se deixa ver sem véu, como milhões de mulheres árabes e muçulmanas em todo o planeta.

Nos anos 90s, foi afastado do governo por ter recitado publicamente um poema que desafia o secularismo que os turcos tanto prezam, no qual se lê “As mesquitas são nossas tendas de campanha; as cúpulas, nossos helmos; os minaretes, nossas baionetas; e os fiéis são nossos soldados...”

Ou talvez tudo se explique pelas origens humildes. Erdogan é filho de um guarda - costeiro, criado com todas as dificuldades das famílias muito pobres. Mas Erdogan foi aluno dedicado de uma escola islâmica, de onde saiu para a Universidade Marmara, onde se formou em administração. Durante esse tempo, sustentou-se como jogador profissional de futebol. Tentou duas vezes sem sucesso, em 1978 e 1991, antes de conseguir ser eleito ao Parlamento; nas duas eleições, concorreu com plataforma islâmica.

Mas a real razão pela qual Erdogan alcançou o ponto alto de popularidade onde agora está parece ser, mesmo, ter dito “não” a Israel e ter-se colocado, decidida e firmemente, ao lado dos palestinos. Essa parece ser receita mágica para tudo, no Oriente Médio, que jamais falhou desde 1948 e a implantação do Estado de Israel.

Idêntica posição, com idêntica determinação, operou prodígios também nas carreiras políticas de Nasser do Egito, de Hafez al-Assad da Síria, e do ex-presidente palestino Yasser Arafat. Essa é a razão que explica a extraordinária popularidade de Hassan Nasrallah do Hezbollah, nas ruas do mundo árabe e muçulmano; e explica por que a mesma popularidade não toca os líderes árabes que tenham acordos de paz assinados com Israel, como Hosni Mubarak do Egito.

Só quem saiba o quanto a Turquia foi impopular no mundo árabe ao longo de todo o século 20 – resultado da doutrinação sistemática contra o Império Otomano e da aliança entre Turquia e Israel depois de 1948, compreenderá plenamente o resultado dramaticamente importante do trabalho de Erdogan nos últimos sete anos.

Conseguiu reposicionar a Turquia – e o legado otomano – e criou um novo tipo de liderança no mundo árabe, no qual se combinam os traços de Nasser, de Assad e de Nasrallah.

Por tudo isso, Erdogan é fenômeno que se deve acompanhar de perto, à medida que sua carreira política avança, e ele desenvolve o carisma, o caráter e o talento de que se alimentará o líder complexo em que já se converteu.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Turkey's Erdogan: Never a "yes" man

Comentário de Caia Fittipaldi:

Dado que totalmente não me interessa a opinião do alexandre machado (minúsculo) sobre as sanções da D. Hilária ao Irã, e que só favorecem, mesmo, à guerra eterna com que sonham Israel e os patrocinadores fundamentalistas de D. Hilária, mando aí artigo que ninguém JAMAIS leria em português do Brasil, sem essa tradução. É interessante, como informação. Vejam aí. E comecem todos a preocupar-se, porque o jornalismo brasileiro, jornalões e jornalistas, já começaram a exilar a classe média brasileira, do novo mundo que se está construindo no mundo. Toda a classe média brasileira já está sendo convertida em 'exército de opinião de reserva' para o que de mais atrasado e atrasante há hoje no mundo.

Há vários traços que fazem Erdogan e Lula parecidos. Achei muito interessante o que aí se lê, por pouco que seja. 8-)

El golpismo, igual que la viruela

El país|Martes, 8 de junio de 2010

Opinión

El golpismo, igual que la viruela

Por Luis Bruschtein

En la Asamblea General de la OEA que se realiza en Lima, Hillary Clinton tanteó a los demás cancilleres para lograr la reincorporación de Honduras. La mayoría de los países latinoamericanos se mostró renuente para abrirle la puerta al presidente Porfirio Lobo, porque no ha tomado ninguna medida contra los militares que dieron el golpe en su país. Clinton desistió y el consenso fue que la OEA no trataría ese tema en público. No quieren poner más en evidencia la debilidad de Lobo y tampoco quieren que cualquier medida contra los golpistas sea interpretada como una imposición. Por historia y por sobrevivencia, el golpismo militar siempre será importante para los gobiernos civiles de la región, nunca un tema menor. Por eso las declaraciones del embajador chileno en Buenos Aires, Miguel Otero, producen tanto ruido.

No solamente es una cuestión histórica. Las mayorías en este país y en todo el mundo detestan a Pinochet. Se lo detesta por lo que hizo en Chile y por lo que cada pueblo emparenta con cosas que sucedieron en sus propios países. Y de la misma manera se rechaza la idea del golpe militar.

En los años ’70 solamente dos o tres países de la región no tenían dictaduras militares. En muchos casos, como en el argentino o el boliviano, había dos o tres golpes por año. Era una lacra que empastaba la vida económica y social, impedía cualquier tipo de progreso y promovía la violencia. Y no se veía ninguna salida de ese infierno, porque, además, los gobiernos norteamericanos, las jerarquías eclesiásticas y los capitales concentrados y transnacionales estimulaban y eran favorecidos por él.

El golpismo es un camino de ida. No hay nada más fácil que entrar y después es casi imposible salir. Y además, la tentación es permanente, aunque hayan pasado años sin que se ejerza. Por eso, la mejor forma de tratarlo en la actualidad es como si fuera el virus de la viruela. Apenas queda suelto, hay que aislarlo y combatirlo. No se puede hacer ninguna concesión porque cada una que se haga será el escalón que tendrá el siguiente.

A Clinton, la tozudez de casi todos los gobiernos sudamericanos frente a Honduras puede parecerle irracional porque no vivió ni entiende el fondo de esta historia y las sensibilidades lógicas que despierta. Pero en ese tema tiene razón la intransigencia. No sólo se cuidan ellos mismos de un contagio, sino que además así también apuntalan el poder democrático en Honduras.

En ese contexto aparece el embajador de Chile y habla de Pinochet en los mismo términos en que lo hicieron los golpistas hondureños. En eso no hay originalidad. El golpe en Honduras se produjo unos meses antes de que finalizara el mandato de un presidente democrático y hubiera elecciones. No tenía sentido. Fue pura demostración de fuerza. Un ejemplo que se proyecta hacia todas las situaciones de crisis política o social que se puedan producir en América latina.

Las palabras de Otero parecen calcadas de las del presidente de facto hondureño Roberto Micheletti. Claro que Pinochet es más conocido que el golpista centroamericano. Justifica el golpe porque con Salvador Allende “no se podían comprar productos importados”. Y dice, como todos los golpistas, que la mayoría de los chilenos no vivió a Pinochet como un dictador.

Ningún gobierno, sea de Chile o de cualquier otro país, del color político que fuere, tiene derecho a enviar embajadores que se expresen de esa manera, que vayan en detrimento del esfuerzo por apuntalar los procesos democráticos que se abrieron en las últimas décadas. Eso es independiente del debate interno en Chile con los pinochetistas.

Puede parecer un cavernícola, un anacrónico o que sus palabras no pesan. Pero es como la viruela. Está erradicada desde hace muchos años y nadie se cruza de brazos: ante el primer síntoma se reacciona con energía, se toman todos los recaudos. Hablar bien de las dictaduras o del golpismo tiene un eco interno aunque se hable de Pinochet, no es aconsejable que lo hagan embajadores en esta parte del mundo.

Artigo publicado em Pagina 12