sábado, 28 de abril de 2012

Na Síria, a Turquia está metendo os pés pelas mãos


27/4/2012, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline Blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Eu sabia que seria ótimo reencontrar velhos amigos em Istambul, depois de dois, três anos de ausência – sentar no meu café preferido junto ao Bósforo, vendo passar os navios, bebendo raki [1] e deixando que lentamente aqueça o espírito e entusiasme a mente, falando de política, de Deus, da vida... Só quando se vem a essa cidade de desejos do coração percebe-se que os turcos têm certa razão ao insistir que Istambul é o centro do mundo. Mas, dessa vez, estou com a impressão de que os turcos andam errando as contas.

Jamais antes vi tanta prosperidade da Turquia. Os turcos estão gastando a rodo. A economia vai esplendidamente bem. O governo de Recep Tayyip Erdogan deu à Turquia a estabilidade política que o país não conheceu durante décadas, e o gênio turco parece afinal liberto. A autoridade civil reina suprema, como deve ser numa democracia real. Erdogan gravou o próprio nome em letras douradas nos anais da história e da política turcas. É o que absolutamente todos dizem por aqui.

Até meus amigos mais militantemente secularistas, sobretudo as amigas, que nunca se cansam de proclamar a antipatia visceral que lhes inspira o islamismo, admitem, às vezes meio contra a vontade, que Erdogan fez belo serviço. Há três anos, teriam protestado se ouvissem de mim uma palavra da minha irrestrita admiração por Erdogan.

Mas, na política externa, a Turquia está metendo horrivelmente os pés pelas mãos. Curioso é que sua política externa não encontra apoio nem consenso interno, mas mesmo assim Erdogan, que é democrata apaixonado, está conseguindo empurrá-la adiante sem dificuldades. Os intelectuais com quem conversei estão incomodados por a Turquia estar reivindicando o legado otomano e por, assim, estar-se imiscuindo no Oriente Médio muçulmano.

Ontem houve um debate apaixonado no parlamento turco sobre a política de Erdogan para a Síria. Disseram-me que não apenas os Kemalistas, mas também os ultra nacionalistas e até o Partido Curdo do leste da Turquia, todos, criticaram a intervenção turca na Síria, prevendo que ricocheteará perigosamente. Mas o ministro das Relações Exteriores Ahmet Davitoglu saiu-se com uma defesa espirituosa. Disse algo como “a Turquia possui, conduz e serve o Novo Oriente Médio”.

Já não ouvi antes esse tipo de bravado? Ah, sim! Era o que mais se ouvia no circuito dos coquetéis em Ankara durante a trágica guerra da Bósnia. A Turquia costumava delirar que iria “possuir, conduzir e servir” os novos Bálcãs. Com licença, mas... E o que aconteceu? Engraçado. Os Bálcãs e a Europa Central absolutamente não são quintal turco. Não são quintal, sequer, dos EUA. Serão, muito provavelmente, quintal da China.

Não seis ou uma dúzia, mas nada menos de 16 chefes de governo viajaram a Varsóvia, vindos dos Bálcãs e da Europa Central, para recepcionar o premiê Wen Jiabao: os mesmos “novos europeus” que se pressupunha que fossem vassalos dos EUA.

A Turquia estará seguindo as pegadas dos EUA – metendo-se por pântanos onde o diabo perdeu as botas e, de um modo ou de outro, perdendo o rumo pelo caminho? Lamento por esse país e seu povo, mas logo quando as coisas iam tão brilhantemente bem, Erdogan perdeu-se.

A Turquia precisa viver uma década em paz, para poder continuar a crescer como vinha crescendo, e Erdogan pode completar sua ambiciosa agenda de democratização e reforma política. Em vez disso, está procurando problemas e já se arrisca a ver o próprio território respingado de caos e sangue. Essa húbris não fará bem algum.

Sr. Erdogan abra o olho: os chineses estão chegando! Logo serão donos não só dos Bálcãs, mas também do Novo Oriente Médio, se o senhor não entender corretamente o que está acontecendo.

Comentários no blog:

Ramesh escreveu:
Os chineses estão chegando!
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A Albânia foi a única nação europeia sob influência política dos chineses na era pós II Guerra Mundial. Agora, a área de influência dos chineses, se a projeção do Sr. Bhadrakumar vier a revelar-se correta, e dados os números chineses, pode ser nova versão dos otomanos. Esse desenvolvimento é consequência da política de engajamento que resultou da concessão que fizeram Nixon-Kissinger, da qual participaram nações da União Europeia, para abrir o Império do Meio.
Nixon-Kissinger aceitaram fechar os olhos para o que acontecesse no Tibete e em Sinkiang, o que fazia sentido pragmático à luz da doutrina da realpolitik introduzida pelo Dr. Kissinger. Essa política de engajamento também levou à incrível expansão da economia chinesa, um desenvolvimento positivo. Contudo, o atual cenário de projeção da força chinesa pode obrigar até o Dr. Kissinger a recomendar que se anule o compromisso de fechar os olhos à questão da soberania daquelas duas infelizes nações.

Syed Zaidi escreveu:

Muito obrigado por esse comentário tão oportuno. É triste essa mudança para uma política exterior de intromissão e provocação, depois que a política do “Nenhum problema com nossos vizinhos” conseguira, por algum tempo, pôr a Turquia no mapa moral.
Parece que estão querendo seguir o exemplo dos EUA – perder o prestígio, a boa reputação e sair da jogada mais pobres do que quando entraram.
Conhecido e respeitado na Turquia como o senhor é, sua opinião deve ter, e com certeza terá, ecos importantes no país.





Nota dos tradutores


*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

Caso Murdoch: Inquérito Levenson-2012, na Grã-Bretanha


Temos muito a aprender...

DEMÓSTENES - Fala professor.
CARLOS - Como é que foi a conversa aí ?
DEMÓSTENES - Ótima. Na semana que vem, já falei inclusive com o repórter, ele vem e o rapaz entrega tudo pra ele: relatórios, nome, fotografia, filmagem e... sob o compromisso de não aparecer.
CARLOS - Então foi bom demais. então, mas você chegou a ver se ficou bom?
DEMÓSTENES - Eu vi só o relatório, certo? É...mas...tá...tá tudo certo... me disse que tem a filmagem, tem as fotografias, tem tudo. Tá tudo ótimo. E ele disse que tem uns outros... outro relatório com nome, tudo mais.
CARLOS - Ah, aí ficou bom demais n’é. (..)
CARLOS - Ah, excelente então. Então tá bom. Vamos falar então. Obrigado doutor.

Fragmento de conversa entre “Senador Demóstenes Torres” (DEM) e “Carlinhos Cachoeira”, gravada dia 24/4/2009, às 17:05, incorporada ao Inquérito e incluída em “Documento Protocolado: supremo 1 nounai reaerai – Inq 0003430 - 27/03/2012 18:21 9941504-50.2012.0.01.0000”, vazado na página Brasil247, hoje na Internet (negritos nossos).

O Inquérito Levenson – aqui traduzido pelo pessoal da Vila Vudu, um trecho da apresentação e um questionário distribuído à sociedade, à guisa de orientação - é uma investigação, a ser conduzida em duas partes, ordenada pelo Primeiro-Ministro britânico dia 13/7/2011, para conhecer o papel da imprensa e da polícia no escândalo dos telefones ilegalmente “grampeados” na Inglaterra, e que gerou o que se conhece como “Caso Murdoch”. Para conduzir as investigações, foi nomeado o juiz Levenson.

______________________

Na primeira parte dessa investigação, serão examinadas a cultura, as práticas e a ética da imprensa comercial. O presidente do inquérito examinará em detalhe o relacionamento entre a imprensa comercial, o público, a política e os políticos. O presidente do inquérito é auxiliado por seis assessores independentes, com experiência sobre as questões definidas como relevantes para a investigação. 

A investigação foi ordenada nos termos da Lei do Processo de Investigação de 2005, e tem poder para convocar testemunhas. Espera-se a convocação de grande número de testemunhas entre as quais repórteres, editores, gerentes, proprietários de jornais, oficiais de polícia e políticos de todos os partidos, convocados a prestar declarações ao juiz sob juramento e em audiência pública.

Na conclusão, o Inquérito Levenson deverá fazer recomendações para a regulação e a administração de veículos de imprensa comercial que sejam consistentes com a defesa da liberdade de manifestação e com os mais altos padrões éticos e profissionais do jornalismo comercial.

A investigação foi aberta pelo juiz Leveson, na primeira audiência pública, dia 14/11/2011, que disse: “A imprensa oferece meio essencial para fiscalizar todos os aspectos da vida pública. Essa é a razão pela qual qualquer fracasso da mídia nos afeta tão profundamente. No coração desse inquérito, portanto, pode-se ler uma única pergunta: “Quem guarda os guardiões da liberdade de manifestação?”

O Inquérito Levenson entra agora na investigação do “3º Módulo”, sobre relações entre políticos e a mídia.

Todos os cidadãos, profissionais e o público em geral, que tenham o que informar, devem enviar contribuições para o e-mail: 

Para encaminhar essa investigação, estão propostas as seguintes perguntas:

INQUÉRITO LEVENSON: PERGUNTAS PARA ORIENTAR A INVESTIGAÇÃO: “Módulo 3”

A partir de agora, o Inquérito Levenson examinará o relacionamento entre a imprensa comercial e os políticos. Queremos ouvir o que tenham a dizer os profissionais e o público que tenham informações e casos a narrar em resposta às específicas questões abaixo. As respostas que se obtenham serão consideradas como material de prova a ser investigado e podem ser publicadas em forma redigida e editada, como parte das provas recolhidas pelo Inquérito Levenson.

(1) O Inquérito tem interesse em conhecer o que o público conhece e compreende sobre o relacionamento entre a mídia comercial e os políticos. De onde vem o conhecimento que o público tem? Como esse conhecimento é testado? Que uso é feito da informação acessível ao público (por exemplo, sobre reuniões entre lideranças políticas e empresários, diretores, editores e jornalistas e outras figuras de destaque nas empresas de mídia comercial)? A mudança para o Código Ministerial, em julho de 2011 fez alguma diferença? (Atualmente, o Código determina: “o governo será aberto em tudo que tenha a ver com relações com as empresas da mídia comercial. Todas as reuniões entre proprietários de jornais e de outros veículos, editores e altos executivos, deverão ser divulgadas quinzenalmente, independente do objetivo da reunião”).

(2) O Inquérito tem interesse em ouvir ideias sobre os específicos benefícios e riscos em relação ao interesse público, que surgem do relacionamento entre políticos, no plano do governo nacional, e empresas de mídia comercial. O que o público tem a ganhar com esse relacionamento? O que pode perder? Como se poderiam maximizar os ganhos e minimizar os riscos? Há considerações específicas das quais o Inquérito tenha de ter conhecimentos, no quadro geral de eleições e de outras consultas nacionais à opinião pública?

(3) O Inquérito tem interesse em ouvir ideias sobre as condições que uma imprensa comercial livre deva necessariamente satisfazer numa democracia, para cumprir sua função de fiscalizar o poder político e os poderosos em geral. Qual é a natureza do papel da imprensa comercial? O que o público deve esperar que a imprensa comercial faça ou seja, para cumprir esse papel? Como o público pode ver diretamente que a imprensa comercial esteja levando a sério o seu papel e o cumpre com a necessária responsabilidade? Há bons exemplos a reproduzir?

(4) Há na opinião pública em geral a percepção de que o jornalismo comercial político afastou-se da reportagem e busca influenciar ativamente os eventos? Há provas de que assim seja? É questão sobre a qual a opinião pública deva preocupar-se ou não? A imprensa comercial tem alguma função legítima que a autorize a tomar o lugar da oposição política?

(5) O Inquérito tem interesse em conhecer a natureza da influência que a imprensa comercial tem sobre a opinião pública no campo das políticas públicas (por exemplo, em áreas como a Justiça Criminal, a política de imigração ou a política europeia). Você [os cidadãos em geral] tem alguma ideia ou conhece algum exemplo específico de como se exerce essa influência e com que efeito? Esse processo é transparente? Esse processo atende ao interesse público?

(6) O Inquérito está particularmente interessado na influência que a imprensa comercial exerça sobre o conteúdo e o timing das políticas dos partidos em relação às empresas da imprensa comercial, e sobre o processo de tomada de decisões do governo sobre as políticas ou questões operacionais que afetem diretamente as empresas da imprensa comercial. Você tem exemplos pessoais a oferecer, de como isso opera na prática? As empresas da imprensa comercial operam efetivamente como lobbystas de causas próprias? Que riscos se criam a partir do papel que o governo exerça na determinação de regras para compra, venda e fusões de empresas da imprensa comercial? É preciso criar novas salvaguardas ou impor novos limites a tal envolvimento?

(7) É necessário que haja pluralidade de vozes nos distribuidores de noticiário dentro das empresas da imprensa comercial e de outros provedores de noticiário ou na imprensa como um todo? Como o acesso ao noticiário através da Internet afeta a necessidade de pluralidade? Qual o nível de pluralidade que se deve exigir? A pluralidade na propriedade das empresas é substituto suficiente para a pluralidade de vozes?

(8) Há provas da influência da imprensa comercial sobre mandatos públicos e políticos (duração e término dos mandatos)? O Inquérito tem interesse em exemplos, inclusive de casos nos quais o interesse público foi e não foi bem atendido por aquela influência.

(9) Até que ponto, na opinião dos cidadãos, os políticos são inibidos/impedidos de agir a favor do interesse público, na direção de garantir que a conduta, as práticas e a ética nos serviços de imprensa trabalhem mais na direção do interesse público que no interesse privado das empresas da imprensa comercial? Que medidas poderiam influenciar nessa direção?

Observem, por favor, que o Inquérito considerará questões relacionadas ao Módulo 3 até o final do mês de junho de 2012. Mas, considerada a grande quantidade de material que estamos recebendo, o melhor será que todos os materiais nos sejam enviados até a 6ª-feria, 15/6/2012.

A quem interessa provocar conflitos na América do Sul?


Laerte Braga

A história real dos países latino-americanos, especialmente os sul-americanos, é contada em regime de conta gotas, uma forma de fugir do oficialismo e do ufanismo que historicamente as elites buscam vender desde os bancos escolares.

E há uma explicação simples para isso. As elites econômicas e militares da América do Sul não têm identidade nacional, mas reportam-se aos modelos e comandos europeus e norte-americanos; vale dizer, cingem-se às normas do capitalismo internacional.

É comum, por exemplo, contar os feitos heróicos de brasileiros na guerra contra o Paraguai e pintar Solano Lopez como um ditador sem entranhas. A realidade só é encontrada em publicações independentes que mostram que o País entrou em guerra com o Paraguai a soldo da Inglaterra – da qual estava afastada, mas o dinheiro fala mais alto – e porque o Paraguai de Solano Lopez, em vias de industrialização, afetava os negócios britânicos.

O governante paraguaio implementava um programa de reforma agrária, concorria com as indústrias têxteis e metalúrgicas dos britânicos e afetava os “negócios” do mate. Fomos apenas o instrumento do poder imperial da Grã Bretanha. Não houve patriotismo algum no confronto.

Para registro, os Estados Unidos, à época, já buscando hegemonia junto ao império britânico se opôs ao Brasil e a seus aliados. Os governos e forças armadas do Brasil, Argentina e Uruguai foram subornados pelos ingleses.

As Ilhas Malvinas, território argentino, até hoje são mantidas sob controle militar do falido império de sua majestade Elizabeth II e num flagrante desrespeito às leis internacionais, mantêm na região submarinos com armas nucleares, aí já noutra conjuntura, a que envolve os Estados Unidos, antiga colônia britânica e hoje proprietário do outrora império “onde o sol não se põe”,

Quando Nixon disse que o Brasil arrastaria a América Latina para onde se inclinasse, estava levando em conta o nível de desenvolvimento de nosso País, seu tamanho continental e justificando o apoio de seu governo à ditadura militar que encharcou de sangue o território nacional e preserva até hoje intocada em boa parte a barbárie militar.

À exceção do movimento tenentista, que mesmo assim se dissolveu em boa parte absorvido pela ditadura Vargas, nossas forças armadas são forças auxiliares do poder maior, sem identidade e uma polícia maior e melhor qualificada da grande potência de hoje. Estamos no Haiti sem saber por que, em vias de irmos à Síria para fazer não sei o quê e mantendo um fragata na frota de “paz” nas proximidades do estreito de Ormuz para garantir os interesses das companhias que transformaram os EUA em conglomerado terrorista ao lado de Israel. Máquina de guerra.

O governo de Lula não mais privatizou setores essenciais, mas abriu as portas do país ao nazi/sionismo com o tal tratado de livre comércio (TLC) com Israel. Através de “acordos militares” empresas israelenses adonaram-se dos setores estratégicos do Brasil.

Leia em:

Governos como o do presidente Chávez, ou do presidente Evo Morales, do presidente Rafael Corrêa, de Cristina Kirchner, de Daniel Ortega não interessam ao grande irmão. Promovem a reforma agrária, o fim do analfabetismo, estabelecem políticas públicas de participação popular, constroem habitações de qualidade para as pessoas, democratizam as relações do Estado com o cidadão, a despeito de uma ou outra limitação. Abrem caminhos para uma revolução popular a partir da consciência política.

Cuba desafia os EUA desde 1959 e se mantém heroicamente a despeito de todas as tentativas golpistas e do bloqueio imposto pelos pelo conglomerado ISRAEL/EUA TERRORISMO S/A.

A Colômbia no entanto é o caso mais grave.

Em guerra civil há anos o país está mergulhado num regime de terror e barbárie e é hoje o maior produtor de cocaína do mundo – o governo não tem interesse na paz, a guerra favorece os grupos produtores da droga e o presidente, todos são meros quadrilheiros ao lado de militares e latifundiários, os chefes dos grandes cartéis.

No país são freqüentes os assassinatos de lideranças de oposição, sindicalistase camponeses. Há mais de 10 mil presos políticos e milhares de assessores militares norte-americanos, que controlam polícias, forças armadas e governo, além dos grupos paramilitares formados por latifundiários e pistoleiros de grandes conglomerados, os principais controladores da produção e distribuição de droga.

O próprio jornal brasileiro(?), O GLOBO, noticiou que o traficante Fernandinho Beira-Mar havia sido preso com as FARCs-EP , para anos depois num canto de página admitir que Beira-Mar foi entregue pelos paramilitares numa tentativa de minimizar os conflitos com o Brasil em torno do bandido.

A ex-senadora Ingrid Bettancourt, prisioneira de guerra durante anos das FARCs-EP, quando liberada, estava em perfeita integração com a guerrilha, tinha um filho com um líder guerrilheiro. Filho que abandonou – fato denunciado por sua secretária – e foi tentar o Prêmio Nobel da Paz patrocinada por uma indústria de cosméticos para mostrar que os anos na selva não a envelheceram.

É a história vendida pela mídia de mercado e fabricada na sociedade do espetáculo; o objetivo de transformar o ser humano em zumbi diante de um projeto de poder que é mundial.

Ao perceber que um controle como o que exercem na Colômbia – até porque o tráfico de drogas paga os custos da guerra e com sobras, já que a guerra hoje é privatizada, empresas cuidam do “negócio”, não seria possível no Brasil, os norte-americanos criaram o chamado PLANO GRANDE COLÔMBIA, que inclui parte do Brasil, a Amazônia, enquanto tentam, através de um governador provincial na Argentina, a instalação de uma base militar para controle total da América do Sul.

A piedosa prece que Obama faz todos os dias pela morte de Chávez é um pedido que a mídia dos EUA não esconde.

A Colômbia hoje é sócia do Brasil no antigo projeto SIVAM – monitoramento aéreo da Amazônia – ao lado dos EUA e aviões de fabricação brasileira, mas capital e tecnologia norte-americana (ao privatizar a EMBRAER FHC abriu mão de dispormos de tecnologia nossa no campo). Detêm informações estratégicas sobre nosso País, inclusive e principalmente sobre nossas reservas minerais estratégicas, caso do nióbio.

Marchamos para deixarmos de ser uma nação e caminhamos celeremente para o formato conglomerado da chamada nova ordem econômica, criada com o fim da União Soviética.

Lula inventou, frase do secretario geral do PCB Ivan Pinheiro, “o capitalismo a brasileira. Só que os donos são os norte-americanos e grupos sionistas (controlam a indústria bélica brasileira). Como leite em pó instantâneo estamos nos dissolvendo na obsessão da guerra cambial que custou o poder a Kadafi.

Um estudo das Nações Unidas feito na década de 70 mostra que a América do Sul é uma futura área de conflitos. Não são conflitos provocados pelos povos sul americanos, mas pelos interesses de elites políticas, econômicas do campo e da cidade que controlam o País sem que o governo reaja, pelo contrário, se deixa levar pela crença de potência de ilusão.

Estamos sendo engolidos, tragados nessa voracidade falida do capitalismo, mas montado em milhares de ogivas nucleares.

Um Eike Batista, um Daniel Dantas, um FHC, um Serra, um Alckmin, um Aécio (já apareceu uma prima de Cachoeira nomeada pelo ex-governador do bafômetro ou corruptômetro) e os políticos que controlam parte expressiva do Poder Judiciário, tudo isso nos transforma definitivamente numa república de bananas, onde um Brilhante Ustra tortura, assassina e permanece impune e a mídia faz e fala o que bem entende; mente, deturpa, golpeia, etc..

Um banqueiro de jogo de bicho faz tremer a república. Coloca na poder governadores corruptos como Sérgio Cabral e Marconi Perillo e ainda abre perspectiva para outro criminoso, Anthony Garotinho, que chega em nome do “senhor”.

Que república é esta?

Somos democracia consentida?

O Código Florestal recém aprovado pela bancada ruralista nos condena a ser um país com inúmeros futuros desertos e jogar a Reforma Agrária em suas areias. Depois desse “papelão” da “base aliada” na Câmara dos Deputados ficamos na dependência do VETO da Presidenta Dilma Rousseff...

Mas somos uma potência, por enquanto, de ilusão.

Não há saída dentro do processo político vigente, dentro do jogo sujo das eleições financiadas por empresas privadas, por bancos e latifundiários.

Ou vamos às ruas e viramos essa mesa para rearrumá-la segundo a vontade popular, que tem que ser despertada, está anestesiada pela mídia, ou vamos de fato virar apenas um departamento do PLANO GRANDE COLÔMBIA.

Esse é o desafio que as forças populares enfrentam.

Os conflitos aqui interessam aos donos para que sejamos sempre o gado marcado de que fala José Ramalho. Só isso, mais nada...


Enviado por Sílvio de Barros Pinheiro

O que o capitalismo proporciona



O capitalismo não está funcionando (faixa)
A maior parte dos presidentes atravessam um ou mais períodos econômicos maus (recessões, depressões, crises, etc.). Todo presidente desde pelo menos Franklin Dellano Roosevelt gerou um “programa para responder ao período mau – tal como era pedido pelos cidadãos e os negócios. FDR e todo presidente posterior prometiam que o seu programa iria “não só livrar os EUA das perturbações econômicas atuais como também garantiria que nem nós nem os nossos filhos precisarão enfrentar tais períodos maus no futuro”. Obama foi apenas o mais recente a dizer isso.

Nenhum presidente foi capaz de manter tal promessa. A atual crise capitalista, agora a meio caminho no seu quinto ano sem fim à vista, prova que o impedir de futuros períodos de baixa capitalista iludiu todo presidente do passado e todos os seus prestigiosos e bem pagos conselheiros econômicos. Uma vez que o programa do presidente Obama não é basicamente diferente dos anteriores programas presidenciais, não há razão para esperar que ele tenha êxito.

O fracasso em impedir crises capitalistas condenou milhões dos nossos companheiros cidadãos a repetidas devastações de perdas de empregos, benefícios e segurança além de lares arrestados e perspectivas negras para os nossos filhos. Os custos familiares e econômicos do fracasso em lidar com crises capitalistas são estarrecedores. Hoje dezenas de milhões de americanos ou não têm trabalho ou devem aceitar empregos em tempo parcial quando precisam e querem trabalho em tempo integral. De acordo com o governo dos EUA, aproximadamente 30% das ferramentas, equipamentos, fábricas, escritórios, espaço comercial e matérias-primas permanecem ociosos. Este sistema capitalista priva-nos da produção e riqueza que podia ser produzida se os empregos negados ao povo fossem combinados com os meios de produção ociosos.

Essa produção poderia reconstruir nossas indústrias e cidades, poderia convertê-las em instituições ambientalmente respeitáveis e poderia aliviar a pobreza nos EUA e mais além. Se empregados, aqueles agora sem empregos podiam ter vidas melhores, manter seus lares e ser produtivos. Todos nós poderíamos beneficiar-nos enormemente se não fosse o fracasso abjeto do capitalismo para combinar as pessoas que querem trabalhar com meios de produção não utilizados para o que precisamos.

O problema básico tampouco tem a ver com políticas e programas governamentais. Afinal de contas, os principais partidos políticos, os políticos, lobistas e seus aliados na imprensa e nas universidades cantam todos em uníssono para celebrar o capitalismo. Eles têm insistido ao longo dos últimos cinquenta anos em que a crítica ao capitalismo, não importa quão fraco seja o seu desempenho, era tola, sem fundamento, absurda, desleal ou pior. A sua lenga-lenga tem sido “o capitalismo cumpre as promessas” (capitalism delivers the goods).

Por trás da cobertura protetora de uma proibição da crítica quase total, o sistema capitalista estadunidense deteriorou-se (o resultado habitual quando é proscrita a crítica pública de uma instituição social). Desde o desencadeamento desta crise em 2007, o capitalismo tem está “proporcionando dificuldades” à maior parte de nós. Ele ameaça, de modo crescente, proporcionar dificuldades ainda maiores nos anos vindouros. Promotores acríticos do capitalismo estão agora pressionando o governo a reduzir serviços públicos exatamente quando a massa de americanos os necessita mais do que nunca. O seu slogan e programa básico insistem: “recuperação” econômica para poucos e austeridade para muitos.

Nas décadas de 1950 e 1960, o escalão de rendimento individual que tributava os americanos mais ricos era de 91%, ao passo que hoje é de 35%. Em 1977, o imposto que as pessoas pagavam sobre “ganhos de capital” (ao venderem ativos como ações e títulos a preços superiores aos pagos por eles) era de 40%. Hoje aquela taxa é de 15%. A massa do povo nunca desfrutou de cortes fiscais tão maciços. Estes cortes fizeram os ricos ainda mais ricos enquanto forçavam o governo a tomar dinheiro emprestado para substituir o que já não podia ser obtido através dos impostos sobre os ricos. Como é grotesco que os ricos agora utilizem dívidas do governo como desculpa para eliminar serviços públicos para a massa dos americanos!

A solução para crises capitalistas como aquela que hoje nos aflige não é que o presidente promova outro programa de reformas, regulamentações, estímulos econômicos e orçamentos deficitários. Já passamos por isso e já o fizemos. Isso nunca funcionou para impedir este sistema econômico de condenar o povo a “tempos difíceis” infinitamente repetidos. Há muito que se deve sujeitar o capitalismo à crítica séria, aberta e pública e debater o que nunca deveria ter sido reprimido. Precisamos examinar se e como os EUA podem fazer algo melhor do que o capitalismo.

Os sistemas econômicos nascem, evoluem no tempo e morrem – como todas as instituições humanas. Em resultado do fim da escravidão e do feudalismo, nasceu o capitalismo. Ele prometia, nas palavras dos revolucionários franceses, “liberdade, igualdade e fraternidade”. Fez alguns progressos genuínos rumo àqueles objetivos. Contudo, também ergueu alguns graves obstáculos para alguma vez alcançá-los. O principal deles foi a organização da produção no interior das empresas capitalistas.

Nas empresas corporativas capitalistas que hoje dominam a economia, os seus grandes acionistas e os conselhos de administração que eles selecionam estão na não democrática posição exclusiva de tomarem todas as decisões chave.

Os grandes acionistas e conselhos de administração constituem uma pequena minoria daqueles diretamente ligados a empresas capitalistas. A maioria é de trabalhadores das empresas e as populações de comunidades dependentes das mesmas. Mas as decisões da minoria (acerca do que, como e onde produzir e o que fazer com os lucros) impactam a maioria – incluindo provocar crises – sem permitir à maioria qualquer papel direto na tomada de tais decisões. É então dificilmente surpreendente que a minoria exija e esteja em posição de tomar para si própria a riqueza e a fatia de rendimento do leão. Ela igualmente compra o controle da política a fim de impedir a maioria de utilizar o governo para retificar as suas desvantagens e privações econômicas. Eis porque agora temos salvamentos governamentais para os ricos e austeridade para o resto de nós.

A menos que a sociedade se movimente para além da organização capitalista da produção, as crises econômicas continuarão a acontecer e a gerar falsas promessas de políticos de que as impedirão. É ingênuo esperar que a minoria responsável por um sistema que para ela ainda funciona bem democratize a economia e a política. Esta é a tarefa central dos 99%.


Rudolph D. Wolff* é professor emérito da Universidade de Massachusetts-Amherst e professor visitante no Programa de Graduação em Assuntos Internacionais da New School University, New York. Autor de New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006) e do filme documentário Capitalism Hits the Fan.

O artigo original, em inglês,  encontra-se em: “What Capitalism Delivers”. 
Esta tradução foi extraída do sítio Resistir e adaptada ao português do Brasil pela redecastorphoto.

“Front de Gauche”, França: Reinventar a esquerda


Fim da hegemonia da social-democracia

24/4/2012, Yasmine Ryan, Al-Jazeera, Qatar – Entrevista de Raquel Garrido, Front de Gauche
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Raquel Garrido é uma antiga aliada de coalizão do líder Jean-Luc Mélenchon, Frente de Esquerda  [Foto Yasmine Ryan / Al Jazeera]
Paris, França – A candidatura de Jean-Luc Mélenchon à presidência na França, embora não tenha sido vitoriosa, deu à Front de Gauche [Frente de Esquerda], aliança de partidos de extrema esquerda, massiva visibilidade na França.

O candidato da Front de Gauche recebeu menos votos que os esperados, depois de pesquisas que indicavam que poderia ter 16-17% dos votos.

Apesar de a coalizão de esquerda tem obtido 11,1%, o que a pôs em 4º lugar entre dez candidatos, a extrema-esquerda reafirmou-se e voltou a ter espaço na discussão política no país.

Yasmine Ryan (YR), da rede Al Jazeera, entrevistou Raquel Garrido (RG), da Frente de Esquerda francesa, aliada há muito tempo de Mélenchon. Como Mélenchon, Garrido também deixou o Partido Socialista no final de 2008, para engajar-se no novo movimento.

Yasmine Ryan: Você deixou o Partido Socialista bem no início da crise financeira. A crise ajudou a disparar a decisão de separar-se dos Socialistas?

Raquel Garrido: Ajudou, é verdade, porque nós sabíamos que as coisas ficariam cada vez mais difíceis e que teríamos de enfrentar os ataques especulativos e a crise financeira com posição e argumentos mais duros do que os do Partido Socialista e dos social-democratas em geral na Europa.

Mas, de fato, já pensávamos há muito mais tempo em deixar o Partido Socialista. Começamos a questionar nossa estratégia, quando começamos a ver que, na América Latina, já havia governos de esquerda que estavam chegando ao poder e sem os partidos tradicionais da social-democracia.

Ao contrário: muitas daquelas experiências – na Argentina, Brasil, Venezuela, Equador, Bolívia – estavam sendo feitas por novos partidos. Novos instrumentos políticos organizaram-se fora da social-democracia e dos partidos da esquerda tradicional.

E empregavam métodos radicais, fosse na luta contra o FMI ou nos meios que usavam para remobilizar a sociedade, mediante assembleias constituintes.

A assembleia constituinte é invenção francesa, nascida da Revolução Francesa. Implica afirmar que a soberania não está no monarca, mas no próprio povo.

E de repente, no final dos anos 1990s, o método apareceu usado na América Latina e com considerável sucesso. Vimos aí um sinal de que o movimento social-democrata na Europa estava falhando e não daria o que se esperava que desse, depois do fracasso do estado comunista.

Aprendemos da América Latina a ideia de que estávamos ante dois fracassos: o fracasso do estado comunista e o fracasso da social-democracia europeia. E que a esquerda teria de reorganizar-se, criando novos instrumentos.

Em 2005, na França, tivemos um referendo sobre a Constituição Europeia e o correspondente tratado [pelo qual a França se integraria à União Europeia]. O Partido Socialista decidiu apoiar aquele tratado, mas com a oposição interna de nosso grupo, reunido em torno de Jean-Luc Mélenchon. Fizemos campanha contra o tratado com todos os grupos da esquerda do Partido Socialista, que tinha análise muito clara dos riscos que aquele tratado criava – dentre os quais a evidência de que se baseava em princípios ultra liberais de livre comércio, pró livre mercado, com redução dos serviços públicos.

Fizemos campanha a favor do “não”, naquele referendo, e vencemos. Aquela votação nos deu poder e legitimidade, e vimos que, se ousássemos expor o que realmente pensávamos, se deixássemos para trás as discussões infindáveis e a competição interna dentro do Partido Socialista, se levássemos nossa discussão para a sociedade, teríamos boa chance de conquistar mais votos.

Imediatamente depois fomos convidados a visitar a Alemanha, onde o ex-ministro da Economia, Oskar Lafontaine, deixara o Partido Social-Democrata alemão e criara um novo partido, Die Linke [A Esquerda], em aliança com o ex-Partido Comunista.

Fomos convidados ao congresso de fundação do novo partido, Jean-Luc Mélenchon, Pierre-François Grond e eu. E foi o que acabou de nos convencer que aquela seria a via para avançar, que não havia futuro em permanecer limitados naquelas briguinhas dentro do Partido Socialista.

Demoramos bom tempo para preparar corretamente nossa saída do Partido Socialista e, em 2007, o partido apresentou Ségolène Royal como candidata e ela não conseguiu derrotar Nicolas Sarkozy [naquela eleição à presidência]. Embora o Partido Socialista fosse forte, não se viu nenhuma outra força de esquerda que se opusesse à direita.

Afinal, em 2008, nos separamos dos Socialistas e imediatamente firmamos uma coalizão com o Partido Comunista Francês e outros, uma coalizão de esquerda. Nossa estratégia foi reunir imediatamente os demais partidos de esquerda. Não nos parecia admissível que a esquerda continuasse dividida em pequenos grupos: tinha de ser reunificada.

E é o que temos feito desde então. Conseguimos que todos os grupos apoiassem a candidatura de Jean-Luc Mélenchon à presidência.

YR: Em que medida os movimentos do mundo árabe serviram de inspiração para vocês? Vocês se veem retomando o socialismo?

RG: Sim. Mais do que retomando o socialismo, estamos retomando um veio cultural que há na França, uma identidade cultural básica subjacente e que se resume em “Liberdade, igualdade, fraternidade”.

Para nós, o mais interessante na Primavera Árabe é o fato que, se se considera a Tunísia, mesmo o Egito, o método para mudar o regime é devolver o poder à assembleia constituinte. O poder está voltando ao povo, deixando de ser simples rearranjo interno de grupos. A solução está no povo.

É preciso mudar os governos. Na Tunísia, o regime era uma cleptocracia. Para mudar isso, é preciso engajar o povo. Esse movimento foi nossa verdadeira fonte de inspiração. A América Latina também nos inspirou, mas está muito longe. Túnis está aqui, bem próxima.

A história do socialismo francês sempre foi fundir aquele passado cultural francês revolucionário, com a defesa dos direitos dos trabalhadores e dos sindicatos de trabalhadores.

Colhemos essa bandeira e lhe acrescentamos outros elementos. O principal deles foi a preocupação com questões ambientais.

Decidimos organizar uma verdadeira frente de oposição ao partido do Front Nacional [Frente Nacional, partido da extrema direita liderado hoje por Marine Le Pen, que alcançou a porcentagem recorde de 17,9% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial]. Acho que todos concordam em que só nós abraçamos diretamente essa luta. Os resultados mostram que nossa análise sempre esteve correta: a Frente Nacional é o principal adversário a enfrentar na França. E não bastaria fazer oposição moral e repetir que o racismo é ruim. Teríamos de ter crítica mais precisa contra o programa deles.

E foi o que fizemos. Mostramos que, por mais que a Frente Nacional tente apresentar-se como partido que defende direitos dos trabalhadores, todo o programa deles desmente essa ideia. Se se examina o programa, tudo ali é contra a redistribuição de riqueza, do capital para o trabalho.

A Frente Nacional, no discurso, sempre se apresenta como aliada dos pobres e trabalhadores. Esse movimento é típico do fascismo e da extrema direita e sempre foi.  Mas fomos os únicos a analisar o programa deles.

O mesmo vale para o movimento de defesa dos direitos das mulheres. Marine Le Pen apresentou-se, no início da campanha, como mulher moderna. Jean-Luc Mélenchon foi o único que demonstrou que, se se examina o programa dela em relação ao aborto e outras questões que dizem respeito diretamente às mulheres, ela absolutamente não defendia direito algum.

Acho que aí está algo difícil de esquecer: que fomos os únicos a iniciar um processo para desmontar diretamente a Frente Nacional fascista.

YR: Muitos analistas, até a confirmação final dos resultados, sugeriam que a Frente de Esquerda e a Frente Nacional disputavam o voto dos trabalhadores. E as urnas mostram que os dois lados alcançaram número recorde de votos – a Frente de Esquerda saiu das urnas legitimada como novo partido; e a Frente Nacional cresceu muito, em relação a 2007.

RG: Você tem razão, em parte. De fato, não disputamos os mesmos votos. A Frente Nacional disputa votos com a direita, com a UMP [União do Movimento Popular, de Nicolas Sarkozy].

Se se somam os votos da direita e da extrema direita, são cerca de 60 milhões de votos. Esse total não se alterou em relação a eleições anteriores. Os votos apenas mudaram, de um para outro candidato do mesmo grupo. Em 2007, Sarkozy "roubou" votos da extrema direita; agora, a extrema direita está recuperando os mesmos votos.

E quanto mais a UMP de Sarkozy insiste nos mesmos temas também apresentados pela Frente Nacional de Le Pen – imigração, insegurança, o discurso antimuçulmanos, antiárabes e a comida halal [1]–, ele, de fato, favorece a campanha da Frente Nacional.

Quanto a nós, nossos três milhões de votos são, de fato, novos votos para a esquerda. De fato, a esquerda teve crescimento espetacular.

Trabalhamos o mais possível, trabalhamos bem, e os trabalhadores que em geral abstêm-se de votar, votaram conosco – ou, seja como for, não votaram na Frente Nacional. Na minha opinião, fizemos muito bem esse trabalho de contenção da direita e da extrema direita. O Partido Socialista não faz isso. Mesmo agora, praticamente não estão enfrentando a questão dos muitos votos da direita e extrema direita.

Depois do massacre de Toulouse, quando a direita passou a atacar diretamente os árabes e muçulmanos, só Jean-Luc Mélenchon protestou contra o discurso do preconceito e do racismo. Sarkozy imitou a Frente Nacional e o Partido Socialista manteve-se à margem da discussão.

YR: A estratégia de Sarkozy, pelo menos no último ano, parece ter sido tentar conquistar votos da extrema direita. Essa atitude tem criado muita discussão interna dentro da UMP, onde muitos que preferem manter-se mais ao centro do espectro político, sem se aproximar tanto da direita. Por que, na sua opinião, a votação da Frente Nacional aumentou tanto, apesar da estratégia de Sarkozy?

RG: É resultado direto de Sarkozy e da UMP sarkozista estarem convencidos de que seria preciso focar esses temas, para obter votos. O resultado mostrou que estavam errados.

O único resultado da estratégia de Sarkozy foi ajudar a Frente Nacional. E, se insistirem nessa estratégia na campanha para o segundo turno, o resultado será o mesmo.

Por outro lado, a estratégia da Frente Nacional é levar a UMP ao colapso, para reorganizarem a direita sob o comando, não de Sarkozy, mas de Le Pen. Querem, de fato, rachar a UMP.

Embora tenham uma retórica contra o sistema, a real estratégia deles está sempre dentro dos parâmetros da direita [como um todo] e de como a direita pode reorganizar-se depois de Sarkozy, caso Sarkozy seja derrotado dia 6 de maio.

YR: Você acha então que Le Pen não apoiará Sarkozy?

RG: Acho que não apoiará Sarkozy. Ela virá com um discurso em que, aparentemente, estaria negociando o apoio em torno de pontos – imigração e segurança – para forçar a UMP nessa direção e vencer essa batalha cultural do programa cultural da direita francesa.

Então, assistirá à derrota de Sarkozy e dirá: “OK, você tentou ao seu modo. Agora, é nossa vez de tentar ao meu modo.”

YR: Em termos da estratégia da Frente de Esquerda – que obteve o melhor resultado eleitoral da extrema esquerda desde 1981 –, vocês vão tentar negociar com Hollande?

RG: Não, não vamos negociar. Nossa estratégia é governar pelo nosso programa. Para isso, o ponto de partida, o primeiro passo, é derrotar Sarkozy. Por isso vamos apoiar o voto em Hollande contra Sarkozy sem negociar coisa alguma.

Depois de derrotar Sarkozy, a vida recomeçará. O debate já está nas ruas, sobre a legitimidade e a eficácia dos planos de austeridade; é discussão que já está posta e em andamento. Já nas próximas semanas, de fato, porque temos eleições parlamentares em junho, e apresentaremos candidatos em todas as regiões da França.

Com absoluta certeza, não temos qualquer interesse em participar de governo cujo objetivo será implementar planos de austeridade, como François Hollande planeja fazer.

YR: Não querem cargos no gabinete?

RG: Não. Milhões de pessoas depositaram sua confiança em nós, lá estiveram, nas ruas, nas praças. Algo realmente poderoso aconteceu na nossa campanha e seria muito frustrante se aquilo tudo acabasse numa negociação barata por cargos, com os social-democratas.

Nosso projeto é deslocar os social-democratas e assumir a liderança que tiveram até agora, em toda a Europa. É projeto demorado, mas é o que trabalharemos para fazer.


Nota dos tradutores
[1] Referência às práticas religiosas de muçulmanos (e judeus), de preparação de alimentos para consumo humano. Em março, durante a campanha, Sarkozy levantou a suspeita de que a população francesa estaria comendo alimentos preparados pelos rituais muçulmanos, sem os quais a os alimentos são considerados halal [proibido para o consumo]. Há matéria sobre isso em Guardian, 7/3/2012, em: “Nicolas Sarkozy: there are too many foreigners in France” (em inglês).