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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Uruguai aprova despenalização do aborto


17/10/2012, Infobae, Uruguay
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Por estreita margem, o Congresso do Uruguai aprovou a interrupção da gravidez durante as 12 primeiras semanas de gestação, lei que o presidente José Mujica já disse que promulgará.

Uruguay aprobó la despenalización del aborto
Parlamento uruguaio

O projeto de lei recebeu 17 votos a favor e 14 contra no Senado, depois de ter sido aprovado na Câmara, mês passado. O partido da Frente Ampla, que está no governo, conseguiu aprovar o projeto graças ao voto de um deputado do Partido Nacional, da oposição.

O presidente José Mujica anunciou que promulgará a lei. Em 2008, o então presidente Tabaré Vázquez vetou iniciativa semelhante, aprovada pelo Congresso.

“Com esta lei, o Uruguai entra para o bloco dos países desenvolvidos que, na maioria, já adotaram critérios para liberar o aborto, reconhecendo o fracasso das normas penais que tentam impedi-lo” – disse o senador Luis Gallo, da Frente Ampla, em discurso no Senado. A oposição ameaçou derrogar a lei “se recebermos a confiança dos cidadãos para voltarmos ao governo em 2015”.

O aborto era considerado crime do Uruguai desde 1938. A lei agora aprovada permite à mulher interromper a gravidez, depois de consultas que durarão cinco dias com um grupo de profissionais da saúde, sobre sua decisão.

O Presidente José Mujica já havia afirmado em setembro que despenalizar o aborto “puede reduzir a quantidade de casos”, além de esclarecer que nunca vetaria uma lei sancionada pelo Parlamento.

O Uruguai, um país de tradição cristã, onde o Estado e a Igreja são independentes, é o terceiro da América Latina a aprovar a despenalização do aborto, depois de Cuba e Guiana. A estes se soma a cidade do México.

Pesquisa da Consultoria Cifra, divulgada há algumas semanas, indicou que 52% dos uruguaios concordam com a despenalização do aborto; e 34% são contrários.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

ABORTO - O QUE ESSA DISCUSSÃO ESCONDE

Laerte Braga
  
Quando era candidato a prefeito de São Paulo (2004) o candidato José Arruda Serra foi desafiado pelo jornalista Boris Casoy (seu aliado) a assinar um documento comprometendo-se a cumprir o mandato até o final caso fosse eleito. Foi eleito e não cumpriu o mandato, nem honrou, lógico, o compromisso assinado.

Arruda Serra tem pânico de discutir programa de governo. Prefere falar sobre saúde de maneira superficial, o que faz sobre qualquer outro tema que seja objeto de debate. Tem ojeriza a discutir idéias, princípios.

Idéias e princípios variam de acordo com a eleição que estiver disputando. Pode ser contra um determinado ponto hoje, a favor amanhã, vai depender das conveniências eleitorais.

É o caso do aborto. O que se esconde por trás de um debate estéril e histérico em torno do assunto?

Por que não perguntar a José Arruda Serra o que será da PETROBRAS (e do pré-sal) caso venha a ser eleito?

Ou do Banco do Brasil? Das políticas sociais do governo Lula?

Quando critica a política externa do atual governo o candidato tucano propõe o que? O Brasil hoje é protagonista no cenário mundial. Arruda Serra esconde que seremos coadjuvantes num eventual governo tucano. A exemplo do que aconteceu com FHC a política externa será de alinhamento com Washington.

É conveniente a Arruda Serra discutir a questão do aborto.

Há duas formas, pelo menos, de você mostrar-se diferente do que é quando disputa uma eleição.

A primeira delas a mentira. Arruda Serra usa e abusa dessa. Há poucos anos atrás sua posição sobre aborto era diversa da de hoje.

Impor o medo. A segunda e o jeito mais perverso de dominar as pessoas, escravizar e atingir seus objetivos.

Ao tentar imputar a sua adversária Dilma Roussef declarações que Dilma não fez, por ele ou pelos seus, Arruda Serra desloca o eixo do debate principal, o Brasil, os rumos que o País tomará em seu futuro e assim mente e cria o medo em determinadas camadas da população.

Vejamos o que aconteceu em Minas Gerais no primeiro turno das eleições deste ano. O ex-governador Aécio Neves elegeu dois postes. O atual governador Antônio Anastasia e o ex-presidente Itamar Franco. Exceto em atos de campanha oficial do PSDB, seu partido, em toda a campanha o nome Arruda Serra foi evitado, inclusive em material de divulgação.

O lema em Minas era DILMASIA, junção de Dilma com Anastasia. Arruda Serra era o demônio para tucanos mineiros inconformados com o fato do próprio Aécio não ser o candidato a presidente.

No caso específico do ex-governador e agora senador eleito, as palavras com que Aécio brindava Arruda Serra eram aquelas que normalmente são chamadas de impublicáveis.

É que em disputa interna dentro do PSDB para obter a indicação presidencial Arruda Serra através do jornalista Juca Kfhoury sugeriu que Aécio era viciado em drogas e num evento no Rio de Janeiro estapeou uma namorada em estado deplorável, ele, Aécio.

Foi ali que Aécio saiu do páreo.

O ex-presidente Itamar Franco, que em determinado momento de sua vida pública por pouco não vira prefeito de Aracaju passando por Niterói, não mete a mão no bolso de ninguém, mas também é apenas um projeto pessoal, o ex-presidente quer que Arruda Serra entregue a coordenação de sua campanha no segundo turno a Aécio.

Itamar apoiou Marina em sua região no estado de Minas (Zona da Mata), acusou Arruda Serra de apropriar-se dos genéricos lei gerada a partir do ministro Jamil Haddad em seu governo, FHC de apropriar-se do real que foi implantado em seu governo e neste momento lambe-botas paulistas posando ao lado de Arruda Serra.

A memória é curta e o caráter nem se fala.

Discutir questões como o aborto é conveniente a essa gente. Afasta os temas outros da campanha, arrasta fanáticos religiosos (vale dizer introduz na disputa eleitoral um ingrediente perigoso para a liberdade de expressão), ajuda aproveitadores que se valem desses fanáticos e cria uma sensação artificial de terror gerada pelo medo que permite a Arruda Serra, além de não debater temas importantes, passar incólume diante desses mesmos temas.

Ou seja, ir levando a campanha sem ter necessidade de dizer o que de fato significa para o País. Um retrocesso sem tamanho e a volta ao estágio de colônia.

As eleições no Brasil transcendem ao nosso País. Há uma expectativa mundial por quem vai ser o próximo presidente da República de um País com dimensões continentais, que em oito anos se transformou em uma das economias mais pujantes e promissoras de todo o mundo. Que passou sem sustos maiores pela crise que afetou os chamados grandes e ocupou um espaço na nova geopolítica mundial, a chamada nova ordem, até então vazio.

No governo de FHC o ministro das Relações Exteriores do Brasil era revistado no aeroporto de New York, chegava a tirar os sapatos.

Que tal perguntar a Arruda Serra sua opinião sobre bases militares norte-americanas no Brasil?

Sobre a ALCA – ALIANÇA DE LIVRE COMÉRCIO DAS AMÉRICAS – que transformou o México (NAFTA, acordo que une EUA, Canadá e México) em terra de ninguém?

Todas as vezes que é questionado sobre o governo FHC, o que significa sua candidatura o candidato tucano diz que não se pode ficar olhando para o passado. Mas, para o futuro.

Essa resposta comporta duas leituras. Não se deve olhar para o passado subentende-se que o passado foi ruim. Para o futuro, mas que futuro?

Não se constrói o futuro sem o passado e sem o presente. Do contrário sequer existiríamos.

Um, o futuro, é conseqüência do que se construiu no passado, ou do que se corrigiu, outro, o presente, é opção exatamente por um futuro de fato ou um futuro igual ao passado.

Por trás da discussão histérica e estéril sobre o aborto o que se esconde é isso. Gerar o medo, deslocar o eixo das discussões sobre grandes temas nacionais e esconder as reais intenções de gente como Arruda Serra, Itamar Franco, Aécio Neves, FHC, etc.

Breve um código de posturas para os brasileiros. Não pode ir à rua assim, ou assado, mas tem que ser desse jeito.

E por trás disso um detalhe. Se atentarmos para os temas que Arruda Serra direta ou indiretamente coloca, caso do aborto, vamos perceber que a mulher é a grande vítima, aquela que é estigmatizada no machismo brutal de políticos destituídos de respeito por quem quer que seja.

Olhe, depois de ser chamado de “drogado” por Arruda Serra, Aécio, se coloca à disposição de Arruda Serra para o segundo turno.

Isso não é só falta de vergonha, é de tudo. Dizem, aliás, que os viciados se prestam a qualquer papel em troca da droga. 

Engolir Arruda Serra, depois de tudo o que disse sobre genéricos, plano real, é típico de figuras patéticas como Itamar Franco. Foi assim quando decretou a moratória das dívidas de Minas quando governador. Trovejou, relampejou e depois sentou em cima.

“Guampada de boi manso” como dizia Getúlio Vargas   

Jogo de cena para a platéia enquanto o rio corre um curso diverso daquele que buscam fazer com que o povo acredite.

O retrocesso não tem tamanho com essa gente.

Um ex-líder da bancada tucana na Câmara dos Deputados, prefeito de uma cidade mineira, no seu primeiro mandato de prefeito foi informado da morte de uma pessoa numa fila por falta de atendimento médico. Preocupado com o impacto da notícia nas eleições (à época) disse o seguinte – “e daí, morre gente todo dia”.

É o tamanho do respeito de tucanos pelos brasileiros e pelo Brasil.    

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sobre o aborto

por Irene da Silva Telles

            Causa espanto e revolta a polêmica que se faz sobre o aborto, atribuindo à candidata Dilma Rousseff  uma declaração de que é a favor do aborto. Uma mentira deslavada porque não conheço UMA MULHER que seja a favor do aborto. Imagine-se!

Homens, sim! Aqueles que obrigam as mulheres em quem fizeram filhos a fazerem aborto. Claro que não dizem. Pelo contrário, com a cara mais hipócrita do mundo, declaram, se têm algum poder – senadores, deputados, vereadores, ministros do judiciário, padres, pastores etc – que são contra a descriminalização do aborto.

            E as mulheres: alguém conhece alguma que seja a favor do aborto?

Que fazem aborto, podem fazer: a mulher que não agüenta mais, que sabe que não vai poder sustentar o filho – muitas vezes ignorado por quem o fez – a mulher que está com raiva do companheiro que a forçou, a mulher que está à beira de se matar porque está nos limites das forças. Essas, fazem aborto, sim.

            Se têm dinheiro para pagar, fazem aborto nas clínicas aborteiras: uma clínica em cada bairro do Rio de Janeiro. (Algum legislador toma providências para fechá-las? Não, porque não interessa: as mulheres, filhas, netas e sobrinhas deles são clientes). As que não têm como pagar o aborto, arriscam-se, estrepam-se (e vão sobrecarregar os hospitais públicos) ou morrem mesmo.

            E ainda são consideradas criminosas!

            Enquanto isso, os homens ficam numa boa: não são criminalizados, parece que não têm nada com a gravidez da mulheres com quem dormiram.

            É revoltante para nós, mulheres, vermos essa discriminação:  parece que estamos no tempo do Antigo Testamento, como os fundamentalistas muçulmanos, que apredejam mulheres adúlteras.

            Mas é bom, católicos e evangélicos, lembrarmos a Boa Nova (o Evangelho): quando o pessoal queria apredejar a adúltera, Cristo disse: “Quem não tiver pecados, atire a primeira pedra”. E todos se afastaram, os mais velhos em primeiro lugar. E Jesus perguntou: “Alguém te condenou? Eu também não te condeno”. E Cristo disse à adúltera: “Vai e não peques mais” (João 8, 3-11)

            Infelizmente, parece que o Brasil ainda é vetero-testamentário: Jogue a pedra na mulher!
             

Irene Silva Telles é correspondente da redecastorphoto - 82 anos, professora aposentada do Estado do Rio de Janeiro e da Faculdade de Educação da UFRJ
Católica, casada  mãe de 10 (dez) filhos e avó de 14 netos

Quando a desinformação vira arma político-partidária todos perdemos

Por Conceição Oliveira: blog Maria Frô, twitter: @maria_fro

Relutei em entrar no debate sobre como a descriminalização do aborto está sendo usada pela direita raivosa ou dissimulada nesta campanha eleitoral, pelo simples fato de que independente de quem assuma a Presidência no Brasil esta não é uma decisão do EXECUTIVO, mas papel do CONGRESSO. É dele a tarefa de discutir projetos desta natureza.

Portanto, o que quer que cada candidato tenha dito durante a campanha eleitoral é sempre expressão de uma visão individual. Todos os candidatos inclusive, José Serra, – que tem a mania de reivindicar projetos que não são seus e se esquecer daqueles que, embora positivos, são espinhosos eleitoramente – no início da campanha trataram a temática do aborto como uma grave questão de saúde pública.

Ao longo da campanha eleitoral, uma outra campanha subterrânea que foi ignorada pela cúpula petista ganhou proporções perigosas, não apenas à vitória da candidata Dilma Rousseff, mas à democracia. Falo da campanha insidiosa levada a cabo por uma senhora que assina Doris Hipólito e responde ao mail dorisprovida@ig.com.br. Ela é uma das responsáveis pela disseminação na rede e no mundo offline de panfletos mentirosos sobre a candidata Dilma Rousseff e a questão do aborto, sobre a união civil de homossexuais e sobre outros tópicos do Plano Nacional de Direitos Humanos 3. Esta senhora além de disseminar notícias falsas como esta aqui, dissemina na rede visões conservadoras como a do jurista Ives Gandra, emitidas em canais de tevê, como se fossem um tratado isento de partidarismo, como se fossem a expressão da verdade.

Tal campanha omite que todos os princípios observados no PNDH3 estavam presentes nos PNDH anteriores aprovados durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Convido os leitores a ouvirem a entrevista do professor Paulo Sérgio Pinheiro que foi ministro do presidente Fernando Henrique Cardoso e responsável pela aprovação dos PNDH anteriores: CBN- Entrevista com Paulo Sérgio Pinheiro, membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e consultor do Programa Nacional de Direitos Humanos. Quando o assunto em pauta são os Direitos Humanos, professor Paulo Sérgio Pinheiro é uma das figuras públicas mais respeitáveis no país e internacionalmente. A entrevista é bastante didática e contribui para esclarecer que toda esta campanha insidiosa, mentirosa e perigosa que utiliza uma leitura atravessada dos princípios estabelecidos no PNDH3 de modo político-partidário contra o PT e a candidata Dilma Rousseff trata-se não da defesa da liberdade de expressão ou dos valores humanistas, mas de uma expressão reacionária contra os Direitos Humanos, promovida pela direta excludente e preconceituosa que não se conforma por estar fora do poder e está disposta a tudo para retomá-lo.

Convido ainda os leitores deste blog a ler o surpreendente relato do advogado Arnóbio Rocha sobre a agressão sofrida ontem na escola pela sua filha de 9 anos por colegas de classe ao declarar os votos de seus pais à candidata Dilma Rousseff: “Quando os pais transmitem seus ódios aos filhos contra Dilma, não estamos mais numa sociedade democrática rompem-se os laços“

Por outro lado há uma reação na própria esquerda, incluindo um membro da Comissão Nacional da Comunicação do PT que acusa as feministas pelas eleições presidenciais terem ido para o segundo turno. Este é o mesmo primarismo dos que acusam as feministas paulistas pela não eleição de Netinho de Paula ao Senado.

Estamos vivendo tempos de grande confronto de idéias e projetos políticos, espero que a sociedade brasileira use de bom senso e que estabeleça os valores democráticos e o apreço à verdade como bandeira política.

Para finalizar, reproduzo abaixo artigo da médica Fátima de Oliveira sobre a posição do Estado Brasileiro ao longo de algumas décadas diante da questão do aborto. É um texto sintético que nos permite ver como um Estado democrático age em relação às questões de saúde pública.
Respostas do Estado brasileiro à ilegalidade do aborto 
(O artigo também pode ser lido na íntegra, formato PDF, aqui) 
O Código Penal não pune o aborto em caso de gravidez resultante de estupro e para salvar vida da gestante (1940): “Só meio século depois foi instalado na cidade de São Paulo o 1º Serviço Público de Aborto Previsto em Lei, na administração da prefeita Luiza Erundina. Antes disso, apenas na Unicamp (Campinas, SP), sob a responsabilidade do dr. Aníbal Faúndes, as mulheres encontravam solidariedade para o aborto quando engravidavam pós-estupro. Há mais de uma década gestantes que não desejavam levar adiante uma gravidez na condição de ‘caixão ambulante’ de fetos anencéfalos recorriam a juízes e ao Ministério Público, que em geral autorizavam a interrupção. A liminar encerra tão injusta peregrinação (…) Todos os tratados, convenções e conferências do Sistema Nações Unidas não proíbem o aborto e instam os países membros a atenderem com dignidade os casos de abortamentos inseguros” [Oliveira, Fátima. "Interrupção de gestação: um direito". O Tempo, Belo Horizonte, 28/7/04]. 
1) Norma Técnica Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Meninas (1998), ministro da Saúde, José Serra, e coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher, a médica e feminista Tânia Lago 
2) Gestação de Alto Risco: Manual Técnico (1999), ministro da Saúde, José Serra, coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher, a médica e feminista Tânia Lago; 
3) “Rever a legislação repressiva sobre o aborto: um compromisso do Brasil para com as mulheres”, documento da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, da Presidência da República, divulgado no dia 28 de setembro de 2003, por ocasião das atividades da Campanha 28 de Setembro, pela Descriminalização do Aborto na América Latina e no Caribe, no qual está escrito: “A legislação brasileira ainda não se adequou às recomendações do Plano de Ação da Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em Beijing, em 1995, que considerou o aborto uma questão de saúde pública e apontou para a necessidade do abrandamento de leis repressoras (…) O governo brasileiro é signatário de documentos de Conferências das Nações Unidas que consideram o aborto um grave problema de saúde pública (Cairo, 94) e recomendam que os países revisem as leis que penalizam a prática do aborto inseguro (Beijing, 95). E reafirma neste 28 de setembro – Dia pela Descriminalização do Aborto na América Latina e no Caribe – estes compromissos. Ministra Emilia Fernandes. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres Presidência da República." 
4) Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (2004), ministro da Saúde, Humberto Costa, e coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher, a médica e feminista Maria José de Oliveira Araújo; 
5) Seminário Internacional Políticas Públicas para as Mulheres na Área de Saúde: experiências Latino-americanas e do Caribe (25 a 27 de maio), idealizado e realizado pela Área Técnica de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, que resultou na criação do Fórum de Políticas Públicas para a Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe, espaço de intercâmbio de informações, experiências, articulação política e elaboração de mecanismos de cooperação entre os países membros, integrado por órgãos nacionais governamentais de mulheres e de saúde e organizações feministas nacionais e regionais (2004), ministro da Saúde, Humberto Costa, e coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher, a médica e feminista Maria José de Oliveira Araújo 
6) Pacto Nacional pela Redução da Morte Materna e Neonatal (2004), ministro da Saúde: Humberto Costa; e coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher: a médica e feminista Maria José de Oliveira Araújo; e 
7) Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento (2004), ministro da Saúde: Humberto Costa, e coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher, a médica e feminista Maria José de Oliveira Araújo. 
Ao mesmo tempo em que o governo responde às pressões do movimento feminista, ainda que tímida e lentamente, no tópico aborto (prevenção e atenção ao abortamento inseguro, das “Recomendações do Cairo”) o “núcleo duro” do governo silencia, e parece sucumbir diante das pressões diretas do Vaticano sob o governo do presidente Lula que, como sabemos, é um cristão/católico romano vulnerável. Em contraposição, e rompendo a ordem do governo de silenciar sobre o aborto, e entendendo que fazem parte de um “governo de coalizão nacional”, setores, notadamente Ministério da Saúde e Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, fazem a disputa ideológica no interior do governo. 
Ao mesmo tempo, as forças conservadoras se movimentam também no Congresso Nacional, conforme quadro abaixo sobre Projetos de Lei sobre aborto apresentados em 2003, dos quais três mantêm o caráter restritivo e criminalizador (PL 809/03, 849/03 e 1.459/03), com aumento da pena (PL 1.459/03) e a instituição da legalidade da delação (PL 849/03). Considerando as antigas e novas proposições, o PL 1.135/1991 e o PL 21/2003 suprimem, no Código Penal, o artigo que criminaliza o aborto, portanto contam com o apoio do feminismo.
Extraído do Viomundo

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Não serve ao feminismo tentar nivelar ideologias díspares

FÁTIMA OLIVEIRA

Médica - fatimaoliveira@ig.com.br

Não voto em candidaturas antiaborcionistas e entendo que só merece ser eleito para o Executivo quem respeita a pluralidade de opiniões existente numa sociedade democrática e compreenda que as leis num Estado laico não podem seguir um caminho teocrático. Já escrevi que as eleições presidenciais de 2010 aportam uma novidade: é a primeira vez que a direita lodosa, casquenta, casqueira e intiqueira ficou "sem mel e sem cabaça" e não indicou nomes viáveis à Presidência da República.

Não sumiu do mapa, nem sumirá, a expressão do pensamento conservador, racista e feudal que zanza por aí e faz política; somente se viu obrigada à fragmentação e se imiscuiu nas três candidaturas mais visíveis, Dilma, Marina e Serra, e exerce influências sobre elas. Desconheço candidato (a) que disse que não quer voto esse ou voto aquele, logo a presença conservadora no leque de apoios, a depender da extensão dos acordos eleitoreiros, cerceia candidaturas e até impede avanços discursivos em temas espinhosos, como o aborto. Não significa que mudou de opinião, apenas que é tático e sábio silenciar fazendo política segundo as circunstâncias.

É espantoso que se passe o rodo nivelando Dilma, Marina e Serra como igualmente antiaborcionistas, pois a realidade não respalda. Há inúmeras declarações de Dilma sobre aborto. Tive a pachorra de "googlar" para escarafunchar uma fala da candidata contra o aborto e... nada! Serra e Marina estão roucos de anunciar que são contra por convicção! A que serve alardearmos que são, igualmente, contra a liberdade reprodutiva? É um equívoco monumental de análise política pelo qual pagaremos um preço muito alto, já que sangradora de princípios ideológicos do feminismo.

Exceto Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, para quem "as mulheres devem ter o direito de decidir sobre a interrupção da gravidez e a legalização do aborto", não ouviremos promessas sobre descriminalização e legalização do aborto, já que as três candidaturas mais competitivas não têm interesse que o aborto seja tema de campanha, como, aliás, nunca foi no Brasil.

Por que teria de ser, obrigatoriamente, no pós-jogo de "acende, queima, assopra e apaga..." sobre aborto nos dois mandatos de Lula, embora ele tenha dito várias vezes que o governo via o aborto como um problema, também, de saúde pública? "Pero" foi o único presidente do Brasil que verbalizou tal opinião. Todavia, ele quebrou acordos, amarelou e não peitou o Vaticano, não enviando ao Congresso Nacional a proposta de descriminalização elaborada pelo Grupo de Trabalho sobre Aborto, criado pelo seu governo!

Não me enganem que eu não gosto nem aceito! Nivelar as três candidaturas como igualmente desfavoráveis à descriminalização e legalização do aborto é um modo tacanho de esconder o discurso ultraconservador de Serra, já que o de Marina nem conta, pois é religioso. Ele disse: "Considero o aborto uma coisa terrível". E foi além. Declarou que legalizar o aborto equivale a liberar uma carnificina e que "dificultaria o trabalho de prevenção, como no caso da gravidez na adolescência, que é um assunto muito grave. Vai ter gravidez para todo o lado porque (a mulher) vai para o SUS e faz o aborto". É uma declaração irresponsável e contra a universalidade do SUS!

Constato, e lamento, que há feministas serristas, e assim mandam o feminismo pras calendas gregas, mas que coloquem palavras de Serra na boca da Dilma é inaceitável para todo o sempre, amém! O que é isso, companheiras?

Duke

Publicado em: 10/08/2010 no jornal O Tempo