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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Harakiri?

A Comissão Turkel, em Israel (sobre os eventos da Flotilha da Paz)

14/08/2010, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel

Traduzido pelo Coletivo de tradutores Vila Vudu


Se Deus assim o desejar, vassoura vira espingarda – foi o que escrevi logo depois de constituída a Comissão Turkel [1]. Citava um dito popular judeu, na esperança de que, contra todas as possibilidades, alguma coisa resultasse do trabalho daquela comissão.

A verdade é que a Comissão Turkel foi concebida em pecado. Nenhum dos indicados para constituí-la tinha qualquer interesse em descobrir coisa alguma. O seu único interesse era impedir que se instalasse uma comissão internacional de inquérito ou uma Comissão de Inquérito Oficial do Estado de Israel, para investigar o ataque à Flotilha da Paz e o bloqueio de Gaza. Os "termos de referência" foram impostos à Comissão e são extremamente estreitos. Na versão inicial, a Comissão tinha poderes para convidar, mas não tinha poderes para exigir que as testemunhas convidadas se apresentassem.

Em resumo: uma comissão de investigação constituída para não investigar, vassoura feita para não varrer.

Mas sempre esperei que os membros da comissão não aceitassem tão facilmente dançar pela música do governo Netanyahu. Ainda é cedo para saber, mas parece que a Comissão não rebentará as cadeias que a prendem.

Essa semana, depois dos depoimentos das três testemunhas principais – Binyamin Netanyahu, Ehud Barak e Gabi Ashkenazi – pode-se tirar uma primeira conclusão: a comissão não se deixou limitar pelos termos de referência que lhe foram impostos. Os termos de referência foram ignorados. A comissão praticamente não fez qualquer ligação entre os fatos que lhe cabe investigar e a legislação internacional. Quanto ao resto, houve de tudo.

Não foi difícil, porque as três testemunhas encarregaram-se de ignorar completamente os termos de referência que elas mesmas inventaram. Os três se dedicaram empenhadamente, apenas, a demonstrar que cada um sempre agiu mais acertada e sabiamente que os outros. E, assim, rapidamente, todos esqueceram o objeto real que a Comissão deveria investigar.

Um fato, pelo menos, ficou firmemente estabelecido: a comissão não precisará, nunca mais, limitar-se aos termos de referência. (É possível que os termos de referência voltem a ser lembrados no final, no momento de a Comissão redigir as conclusões.)

Interessante também observar como as três testemunhas ouvidas pela Comissão Turkel foram recebidas pela mídia: praticamente toda a imprensa israelense criticou Binyamin Netanyahu e Ehud Barak, tanto quanto glorificou Gabi Ashkenazi.

Netanyahu foi leviano e superficial até a frivolidade. Atribuiu toda a responsabilidade a Barak e não disse coisa com coisa, sequer sobre os fatos conhecidos. Afinal, estava no exterior naquele momento, e o que vocês queriam que ele soubesse? Barak fez tudo absolutamente sozinho e segundo sua pessoal avaliação de momento.

Depois de ferozmente atacado pelos jornais e televisões, Netanyahu convocou rapidamente uma conferência de imprensa e anunciou, grandiloquente, que, sim, assumia, sozinho, toda a responsabilidade por todos os acontecimentos. Barak nada fez. Ele próprio, Netanyahu, não Barak, fez tudo sozinho.

Barak foi mais esperto. Falou infindavelmente, afogou a comissão num dilúvio de detalhes e, sim, sim, assumiu plenamente toda a responsabilidade. No parágrafo final concluiu que não, não, nada teve a ver com os acontecimentos daquela noite e chutou toda a responsabilidade para os militares. O governo, disse ele, decidiu sobre a missão. Mas os militares executaram a missão. Os responsáveis pelo que possa ter saído errado, pois, são os militares. Também foi duramente criticado pelos jornais e televisões.

Gabi Azkhenazi, chefe do comando do Estado-Maior do exército apontou erros na execução da operação, todos cometidos pelos soldados mais rasos da Marinha e dos serviços de inteligência. Ao final, impressionantemente magnânimo, também assumiu a responsabilidade pelos erros dos soldados e marinheiros e espiões dos escalões mais rasos e, sim, se declarou responsável por tudo. Também fez tudo sozinho.

O depoimento de Azkhenazi foi uma obra prima. Surpreendentemente, se mostrou muito mais astuto que os dois experientes políticos. Enquanto os dois exibiram-se como enguias ensaboadas, ocupados, cada um, só com defender a própria pele, Azkhenazi fez-se de urso simpático, simples, honesto, sem sofisticações, um velho soldado, pleno de integridade, que sempre diz a verdade porque não sabe mentir.

Ashkenazi é muito mais matreiro do que parece. Sim, o depoimento foi cuidadosamente ensaiado com seus assessores e conselheiros, mas chefe matreiro sabe selecionar assessores e conselheiros matreiros.

Outra vez se comprovou que, em Israel, a imprensa e, de fato, todo o Estado, são controlados pelo Exército. Frases recebidas com risadas e desconfiança, quando ditas por Netanyahu e Barak, mereceram a mais reverente atenção, quando ditas pelo comandante do Exército. Um coro de admiradores elogiou Ashkenazi nas redes de televisão, pelo rádio e nos jornais. Que homem íntegro! Que perfeito soldado! Que comandante responsável e de alto nível! Se havia alguma diferença entre os porta-vozes do Exército, uniformizados, e os jornalistas militares, à paisana, ninguém viu.

A imagem geral que emergiu dos três principais depoimentos é bem clara: não houve qualquer preparação séria para enfrentar o 'evento' da Flotilha da Paz, por mais que todos soubessem com antecedência de meses que algum plano havia. Tudo foi improvisado, como obra de amadores, na famosa tradição da improvisação em Israel: "confie em mim" e "tudo há de dar certo".

Houve eventos anteriores em que navios de ajuda humanitária só transportavam pacifistas não-violentos. Então, todos deram por resolvido que aconteceria o mesmo com o Mavi Marmara. Ninguém deu atenção aos ativistas turcos, imbuídos de outro tipo de ideologia. Mas, afinal, quem se interessa pelo que turcos pensem?! O glorioso Mossad sequer se deu o trabalho de plantar um espião entre as centenas de pacifistas a bordo do navio.

A operação foi planejada sem qualquer atenção, sem inteligência, sem análise de alternativas, sem avaliar a possibilidade de cenários potencialmente perigosos. Fato é que ninguém precisa ser profeta, para saber que ativistas turcos, cheios de fervor religioso, poderiam estar também a bordo – e a bordo de um navio turco! –, e poderiam irritar-se muitíssimo ao ver um barco (turco e carregado de pacifistas e material de ajuda humanitária para Gaza) ser abordado em águas internacionais por soldados israelenses. Que surpresa!

Conclusão? O comandante do Exército concluiu sem hesitar: da próxima vez, o Exército usará atiradores para "conter" quem esteja no convés (ou "os atacantes", na linguagem dos comentaristas militares) e dar cobertura aos soldados que descem dos helicópteros.

Dado que Netanyahu e Barak empurraram toda a responsabilidade para os militares, e Ashkenazi reconheceu os erros de planejamento e execução, resta uma questão de ordem prática: como a Comissão Turkel conseguirá investigar alguma coisa, se a Comissão não tem poderes para convocar o pessoal militar?

Para contornar o problema, o comandante do Exército jogou dois ossos para a Comissão roer: o Advogado Geral do Exército e Giora Eyland poderão falar à Comissão. (Eyland é o general aposentado que dirigiu o inquérito interno do Exército.) Mas nem de longe é suficiente. Para cumprir sua tarefa, a Comissão teria de ouvir também o Comandante da Marinha e seus subordinados diretos. Em resposta à consulta do Bloco da Paz, a Suprema Corte já deixou caminho aberto nessa direção: se a Comissão Turkel exigir esses depoimentos, a Suprema Corte determinará que a Marinha atenda à exigência.

Nenhum dos três que já depuseram sequer se aproximou da questão principal: a própria existência do bloqueio contra Gaza.

Na fatídica reunião do "Septeto" (os principais ministros), ficou bem claro que todos crêem que o bloqueio é necessário, assim como é necessário impedir, pela força, sendo o caso, todas as tentativas de rompê-lo.

Os aspectos legais do caso talvez provoquem muita discussão. Pelo que sei, a legislação internacional não é muito explícita, nem no que tenha a ver com impor bloqueios nem no que tenha a ver com modalidades de bloqueios. A lei não está posta de forma consistente. Há espaço para várias interpretações. Não haverá, portanto resposta única, acordada e clara.

Seja como for, a questão não é legal, mas moral e política: qual o objetivo de Israel ao impor o bloqueio a Gaza?

Até agora, todas as testemunhas ouvidas repetiram o mesmo argumento ensaiado: Israel está em guerra contra a Faixa de Gaza (tenha a Faixa o estatuto legal que tiver, e mesmo que não seja Estado reconhecido), o bloqueio é necessário, para impedir a importação de material bélico. Portanto, o bloqueio seria legal e moral.

Mentiras e mais mentiras.

É muito simples controlar o movimento de cargas transportadas por mar. O que se faz nesses casos é deter o barco, inspecionar a carga, confiscar o material transportado que não esteja regular e liberar o barco para que prossiga viagem. Em todos os casos, a carga pode ser inspecionada no porto de partida.

Nada disso foi feito, no caso da Flotilha da Paz, porque toda essa conversa sobre material bélico não passa de pretexto. Israel impôs o bloqueio de Gaza pelo motivo exatamente oposto: para evitar que cheguem materiais não-bélicos, os mesmos materiais que também não chegam a Gaza pelos postos de passagem em terra: vários tipos de alimentos e remédios, matéria prima para a indústria da Faixa de Gaza, materiais de construção, peças de reposição para máquinas e carros e vários outros itens, de cadernos escolares a equipamento de purificação de água.

O pouco que torna a vida ainda possível chega à Faixa pelos túneis, com preços estratosféricos, muito acima da capacidade de compra da maioria dos habitantes.

Desde o início, o objetivo do bloqueio foi tornar impossível a vida normal na Faixa de Gaza, para levar a população ao desespero e induzi-la a levantar-se e derrubar o governo do Hamás. Esse objetivo sempre foi evidentemente apoiado pelo governo dos EUA e seus Estados-satélites no mundo árabe e talvez também, como muitos crêem, pela Autoridade Palestina em Ramallah.

Netanyahu disse, em seu depoimento, que "não há crise humanitária na Faixa de Gaza". Tudo depende de como se interpretem as palavras.

É verdade, não há gente morrendo de fome e doenças pelas ruas. Não é o gueto de Varsóvia. Mas a subnutrição cresce entre as crianças, há pobreza e miséria. O bloqueio gerou desemprego em alta escala, porque praticamente toda a produção agrícola e industrial está paralisada. Não há importação de matérias primas, nenhuma exportação de qualquer tipo, falta combustível. Os produtos de Gaza não conseguem chegar à Cisjordânia, a Israel ou à Europa, como antes. Tudo isso é verdade ainda hoje, apesar de a Flotilha da Paz ter sido parcialmente bem sucedida, porque obrigou Israel a permitir a entrada de vários itens que, antes, estavam bloqueados.

O fechamento do porto de Gaza também contribui para aumentar a crise humanitária. Há dezessete anos, Shimon Peres escreveu: “O porto de Gaza tem grande potencial de crescimento. Os produtos e cargas que partirão daqui a caminho de importadores israelenses, palestinos, jordanianos, sauditas e até iraquianos serão demonstração da revolução econômica que beneficiará toda a região.” Talvez fosse o caso de convocar Shimon Peres para depor à Comissão Turkel.

A palavra chave dos depoimentos foi "responsabilidade". Todos os ouvidos pela Comissão primeiro assumiram a "responsabilidade" e em seguida passaram-na adiante, como jogador de futebol americano que recebe a bola e imediatamente a joga para o mais longe que possa.

O que significa responsabilidade? Noutros tempos, quando um líder japonês assumia a responsabilidade por grandes fracassos, metia a espada na própria barriga; "harakiri" significa exatamente "cortar a barriga". Essas práticas bárbaras não existem no ocidente. Mas, pelo menos no Japão, e ainda em vários países ocidentais, líder responsável por grandes fracassos sempre pode renunciar.

Em Israel, não. Não, pelo menos, nos tempos que correm. Na Israel de Netanyahu, quem anuncia que "assume a responsabilidade" passa a merecer reverência. Que coragem! Quanta nobreza! "Ele assumiu a responsabilidade!" E fica tudo por isso mesmo.


Nota de Tradução

[1] A Comissão Turkel é a comissão formada para investigar o ataque israelense à Flotilha da Paz e o bloqueio de Gaza. Leva o nome do juiz aposentado da Suprema Corte encarregado de presidi-la, Jacob Turkel. A investigação deve ser acompanhada por dois observadores internacionais: o ex-primeiro ministro da Irlanda do Norte William Trimble e pelo ex-juiz militar Ken Watkin. Foi instalada dia 17/6/2010 (mais em: Turkel Commitee).

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Harakiri?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

EUA, Israel e ONU, esgoto em nome da democracia

O narcotraficante, filho de narcotraficante, torturador juramentado e inimigo da liberdade Álvaro Uribe, foi convidado, e aceitou, ser vice-presidente da comissão que vai julgar os piratas de Israel que atacaram e assassinaram libertários da Flotilha da Liberdade quando transportava ajuda humanitária a Gaza.


De acordo com os órgãos de publicidade, o convite teria sido feito pelo secretário geral da ONU Ban Ki-Moon (leia-se Estados Unidos) com a concordância do governo israelense( cujo serviço secreto MOSSAD faz a segurança do colombiano).


Álvaro Uribe, como os leitores do blog já sabem, antes de ser presidente da Colômbia foi senador. E como senador votou contra a extradição para os Estados Unidos do sócio de seu pai e traficante-mor Pablo Escobar.


A acusação contra Álvaro Uribe partiu da CIA e de outros serviços secretos dos Estados Unidos.

Acusação amplamente documentada.

De repente abafada.


Creio que uma das razões do apoio incondicional dos EUA a Uribe, que deixa o governo no fim da semana, foi o fato dele ter permitido a instalação de bases militares estadunidenses no pais e servir de cão de guarda aos interesses ianques contra seus vizinhos.


Ele tentou até um terceiro mandato, sempre com o apoio dos Estados Unidos, mas o povo colombiano disse não.


Para mante-lo na ativa, os Estados Unidos fizeram com ele o que fizeram com o mini-poodle inglês Tony Blair.

Arrumaram cargo que será regiamente recompensado.


O estranho nisso tudo é o silêncio das entidades que dizem defender os Direitos Humanos.


Por que não se manifestam contra tamanha ignomínia?


Israel, EUA e ONU, esgoto em nome da democracia.

E a humanidade assiste a tudo impassível...


direto do blog do Bourdoukan

sábado, 10 de julho de 2010

Aziz Dweik, Deputado do Hamás: “A Flotilha da Paz fez mais que 10 mil mísseis”

8/7/2010, Robert Naiman, The Huffington Post - Traduzido por Caia Fittipaldi

Quem ainda duvida de que a ação estratégica não violenta possa transformar a política no conflito entre Israel e os palestinos? Aziz Dweik, deputado do Hamás, já não tem dúvidas disso, como noticia o Wall Street Journal [1]:


“Quando usamos violência, ajudamos Israel a conquistar apoio internacional”, disse Aziz Dweik, destacado deputado do Hamás na Cisjordânia. “A Flotilha de Gaza fez mais que 10 mil mísseis”.


Há poucos meses, o bloqueio de Gaza não era item de destaque na agenda mundial. Hoje, o governo israelense está sendo politicamente obrigado a “aliviar” o bloqueio. Não, ainda, a levantar completamente o bloqueio: continuam proibidos de sair de Gaza produtos de exportação; ainda não podem entrar matérias-primas e peças de reposição para as fábricas de Gaza. Mas mesmos as medidas que “aliviam” o bloqueio e que acabam de ser anunciadas, além de Israel ter substituído a lista de itens proibidos por lista de itens permitidos, são demandas dos palestinos que, antes da Flotilha da Paz, o governo de Israel rejeitara sumariamente.


E a história ainda não acabou: a imprensa internacional informa sobre o bloqueio mais do que jamais antes; analisa as declarações de Israel, como jamais antes; dá espaço aos argumentos de grupos defensores de direitos humanos israelenses, palestinos e internacionais, como jamais antes. E há mais barcos a caminho de Gaza [2].


O que se poderá conseguir, se governos e movimentos de massa que se opõem às políticas israelenses para os palestinos jogarem todo seu peso a favor de outras exigências dos palestinos, igualmente irrefutáveis, do ponto de vista moral?


O que acontecerá se, por exemplo, governos e movimentos de massa que se opõem às políticas israelenses para os palestinos exigirem que os EUA parem de subsidiar – pelo uso abusivo do dinheiro dos contribuintes encaminhado para grupos que apóiam as colônias exclusivas para judeus em terra palestina –, a construção de colônias israelenses na Cisjordânia, que até o governo israelense reconhece que são construções ilegais?


Vários grupos, nos EUA, fazem doações, isentas de impostos, para ajudar colonos israelenses a construir nos territórios ocupados, obstruindo, na prática, a criação de um Estado palestino, e contra a política declarada do governo dos EUA e, em alguns casos, contra, também, o governo de Israel, como noticia o New York Times [3]:


O NYTimes anota vários traços extraordinários sobre essa atividade:

  • em vários casos de doações, não se pagam impostos devidos;
  • algumas das colônias israelenses subsidiadas por grupos norte-americanos são ilegais, sob a lei israelense;
  • o governo israelense não isenta de impostos grupos que apóiam a construção de colônias, enquanto que, nos EUA, esses grupos acabam por se tornar isentos, dado que não respeitam a lei norte-americana;
  • funcionários dos EUA e oficiais militares israelenses, privadamente, têm reclamado do trabalho desses grupos, em parte porque alguns dos movimentos de judeus que recebem ajuda desses grupos norte-americanos desafiam abertamente o governo israelense e participam, regularmente, de movimentos violentos contra a lei e a polícia israelenses;
  • parte significativa da atividade dos grupos de colonos judeus radicais é financiada por grupos protestantes de extrema direita (chamados “dispensationalistas [4]” [ing. "Dispensationalist"]), que trabalham para fomentar o conflito entre Israel e seus vizinhos, porque crêem que essa guerra seria realização de profecias bíblicas.

O que aconteceria se governos e movimentos de massa que se opõem às políticas do governo de Israel para os palestinos exigissem que o governo dos EUA parasse de subsidiar construções de colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia (subsídio que existe, na prática, porque os EUA isentam de impostos grupos que financiam a construção dessas colônias)? Em particular, se passassem a exigir que:


  • o governo dos EUA fiscalizasse diretamente todos os grupos que apóiam a construção de colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia;
  • o governo dos EUA negasse direitos de isenção de impostos a qualquer grupo ou pessoa que apoiasse financeiramente a construção de colônias na Cisjordânia que o governo israelense considere ilegais;
  • o governo dos EUA negasse direitos de isenção de impostos a qualquer atividade na Cisjordânia de apoio a construção de colônias que não seja atividade isenta de impostos, também, pelo governo de Israel?

Como o governo dos EUA conseguiria explicação plausível para recusar-se a aceitar essas demandas? No caso de essa questão se tornar risco internacional para a confiabilidade do governo dos EUA, será que algum think-tanks de Washington, algum jornal, algum grupo de pacifistas, ou algum deputado ou senador não se poria a comentar o assunto?


O ataque militar israelense contra o navio Mavi Marmara trouxe à tona, também, a questão do “boicote a Israel”.


Quanto a isso, governos como o da Turquia – e outros países ‘moderados’ de maioria muçulmana – poderiam mudar a história, se garantissem liderança estratégica para uma luta que parece ainda não ter encontrado foco e direção. Como Naomi Klein escreveu, “Boicote não é dogma; é tática” [5]. Boicotes são tanto mais efetivos quanto mais são usados estrategicamente, quando visam especificamente a algum comportamento extremo contra o qual seja possível arregimenta r vastas fatias da humanidade. A questão não é nem a nação nem o Estado de Israel. A questão é a ocupação da Palestina, por Israel.


Imaginemos que o governo da Turquia – que já ameaçou cortar relações diplomáticas com Israel, por causa do bloqueio de Gaza – anunciasse que estaria disposto a liderar um movimento internacional de boicote a empresas ligadas à ocupação israelense da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Leste. O que aconteceria se a Turquia proibisse a exportação, para a Turquia, das escavadeiras fabricadas pela Caterpillar – como a escavadeira que matou Rachel Corrie?


E se a Turquia e outros Estados ‘moderados’ de maioria muçulmana fizessem aprovar na Organização da Conferência Islâmica, uma Resolução de apoio ao boicote contra corporações ligadas à ocupação da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Leste? Que argumento plausível o governo dos EUA encontraria para resistir a esse movimento, se, ao resistir contra a ocupação, aqueles Estados de maioria muçulmana estivessem, simplesmente, tentando fazer valer uma política defendida e afirmada pelo governo dos EUA?


Atenção, recado para o Hamás e todos os muçulmanos que visam, de fato, a derrotar a ocupação israelense da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Leste: o grupo Jewish Voice for Peace [Voz dos Judeus pela Paz] acaba de publicar uma relação de empresas que, precisamente, trabalham a favor da ocupação (Carterpillar, Motorola, dentre outras) e devem ser boicotadas. Temos o mar pela popa e o adversário à proa.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Hamas Lawmaker: Gaza Flotilla Did More Than 10,000 Rockets


Notas de tradução:

[1] WSJ, 2/6/2010, “Israel's Foes Embrace New Resistance Tactics” [“Inimigos de Israel abraçam novas táticas de resistência”]. Curioso, nesse artigo do Wall Street Journal, que o Huffington Post repercute quase quatro dias depois de publicado, é que o Wall Street Journal parece reunir, num só artigo, todos os argumentos que a secretária Hillary Clinton vive a repetir (que o Hamás e o Hizbollah devem “renunciar à resistência armada”, por exemplo; e faz declarada campanha contra o Hamás e a favor do Fatah), além de apresentar a versão dos israelenses sobre o ataque aos pacifistas que viajavam na Flotilha. Por exemplo: “O Hamás reza por uma cartilha que prega a destruição de Israel; jovens palestinos continuam a atacar, com pedradas, soldados israelenses ao longo do muro de separação na Cisjordânia. E o incidente da Flotilha não se encaixa nos padrões convencionais de protesto pacífico: enquanto alguns ativistas resistiram pacificamente aos soldados israelenses, vários militantes, no barco no qual manifestantes foram mortos, atacaram os soldados, como se viu nos filmes distribuídos por Israel e nos depoimentos dos soldados.” Adiante, o WSJ cita palavras de Mark Regev, porta-voz do governo israelense: “Estão usando as manifestações pacíficas para provocar violência. Continuam a trabalhar para destruir Israel.” Na conclusão, o WSJ repete, quase literalmente, o argumento de Obama, a favor do reinício de conversações diretas de paz: “A falta de conversações de paz, por já praticamente dois anos, empurrou os líderes da Autoridade Palestina a também abraçar o movimento [de resistência não violenta]. A AP, controlada pelo Fatah, mais moderado, defende há muito tempo um acordo negociado com Israel e nunca antes havia apoiado protestos populares.” De fato, observado de perto, o artigo do WSJ parece ter sido escrito para ser lido por Netanyahu, como se fosse ‘recado’ de Obama-Clinton.

O Huffington Post, no artigo acima, dá outro tipo de enfoque-uso às mesmas informações e parece mais "sinceramente" empenhado, mesmo, mais em pregar o recurso a táticas de não violência, do que opor Fatah e Hamás (o Huffington Post, por exemplo, abre o artigo com palavras do Hamás); e por explorar mais a fundo algumas questões muito objetivas que não se veem discutidas e expostas no artigo do WSJ. No artigo do Huffington Post não se veem tantos interesses ocultados, como se vêem nas entrelinhas do Wall Street Journal [NT].

[2] Al-Ahram Weekly, Cairo, 24-30/6/2010,
“Coming ashore in Gaza”[A caminho do porto de Gaza], Dina Ezzat.

[3] New York Times, 5/7/2010,
“Tax-Exempt Funds Aid Settlements in West Bank” [Fundos isentos de impostos ajudam colônias na Cisjordânia”].

[4] "Dispensacionalismo". Tradição protestante evangélica, baseada numa específica interpretação da Bíblia, segundo a qual haveria várias “dispensações”, ou períodos históricos nos quais Deus falaria aos homens. No que tenha a ver com Israel, a nação de Israel que há hoje nada teria a ver com a terra prometida, que Deus ainda não teria indicado aos judeus. Para os dispensacionalistas, portanto, a Israel que há hoje não é a terra prometida aos judeus e os judeus que lá vivem em heresia (Wikipedia
). O resumo é grosseiro, mas, por hora, terá de bastar. [NT].

[5] Naomi Klein, 12/1/2009, “
Boicote a Israel para acabar com violência em Gaza”, em português em Carta Maior

quinta-feira, 8 de julho de 2010

ISRAEL, PALESTINA, DEPOIS DA FLOTILHA DA PAZ (1/2) - Há mudança no ar

8/7/2010, Jack A. Smith, Asia Times Online – Traduzido por Caia Fittipaldi
Jack A. Smith é editor de Activist Newsletter e ex-editor de Guardian Radical Newsweekly.
Recebe e-mails em jacdon@earthlink.net

Há momentos no mundo político, em que incidente relativamente pequeno desencadeia eventos importantíssimos, dependendo das circunstâncias. Como ensina o provérbio chinês: “Uma pequena fagulha incendeia as pradarias” – sobretudo quando há vento forte e as pradarias estão secas.

Essa analogia ocorre-me agora, depois do violento ataque pelo exército de Israel a seis barcos que conduziam cerca de 700 pessoas da Flotilha da Paz, que tentavam levar ajuda humanitária a Gaza, no Mediterrâneo, há pouco mais de um mês. Foram mortos nove cidadãos turcos, defensores dos direitos humanos dos palestinos, e feridos mais de 50.

É possível que esse incidente represente o início de mudança substancial para os palestinos, israelenses e todo o Oriente Médio? Acreditamos que sim. E já começou. No mínimo, as condições estão maduras para mudar.

Depois de três anos de sanções e bloqueio cada dia mais duros contra 1,5 milhão de palestinos confinados na Faixa de Gaza, Israel está sendo forçada a diminuir o bloqueio, até aqui praticamente total. Não por decisão da ONU ou por resultado de reunião entre as grandes potências para que se alcance algum acordo. O bloqueio israelense está sendo derrotado pela ação de um movimento popular.

O uso de extrema violência por Israel, em águas internacionais, contra barcos civis que viajavam em missão humanitária para ajudar um povo que vive em sofrimento, levantou uma maré de críticas, de todos os lados, contra Israel. Como faz sempre, o Estado judeu tentou apresentar-se como vítima. Foi onde se começou a ver que os tempos mudaram; que as vítimas de ontem, pelas quais a humanidade ainda chora, passaram ao papel de carrascos de hoje. A Israel de hoje exige 10, 50, cem olhos, por cada olho.

Muito da revolta que se viu mês passado em todo o mundo, dirigida contra o governo de Israel, começou a acumular-se quando Israel atacou o Líbano e Gaza no verão de 2006. Cresceu depois do ataque violento, que se arrastou por três semanas, contra a população indefesa de Gaza, no final de dezembro de 2008. Com o ataque sinistro contra a Flotilha da Paz, a crítica que se acumulava, explodiu.

E agora? Ante o fiasco que foi a agressão aos barcos de pacifistas e a desaprovação pública, Israel viu-se obrigada a fazer algumas concessões ao chamado ‘Quarteto’ (ONU, União Europeia, EUA e Rússia, grupo formado há oito anos para tentar equacionar e superar as diferenças entre Israel e palestinos, com vistas a estabelecer dois Estados).

O governo de Barack Obama dá apoio político e militar a Israel. A ajuda anual que os EUA dão a Israel foi aumentada recentemente para 3 bilhões de dólares, que começarão a chover sobre Israel a partir de outubro. Pois até o governo Obama já começa a ver que a violência desmedida dos israelenses; a ocupação ilegal da Cisjordânia (onde vivem 2,8 milhões de palestinos); e a evidência de que Israel não admitirá que se crie um Estado palestino estão minando a hegemonia dos EUA no Oriente Médio e comprometem os próprios interesses dos EUA em todo o mundo.

Obama recusou-se a condenar Israel por atirar contra civis desarmados em águas internacionais; limitou-se à lamentação: “os EUA lamentam profundamente as vidas perdidas e os feridos”. A Casa Branca tampouco usou o poder que tem, para impedir definitivamente que Israel continue a construir unidades de moradias exclusivas para judeus em territórios ocupados ilegalmente e roubados dos palestinos há 43 anos; e a Casa Branca tampouco cogita obrigar Israel a retirar-se das áreas ilegalmente ocupadas na Cisjordânia.

O governo de Netanyahu, coalizão com a extrema direita e religiosos ultra-ortodoxos, não cogita por fim à colonização da Palestina; não pensa em por fim às construções em territórios ocupados; não pensa em sair da Cisjordânia ocupada; nem jamais trabalhou ou trabalhará para a criação de qualquer Estado palestino. Setores religiosos insistem na crença de que Israel teria sido dada “por Deus” aos judeus. (Palestinos que ‘contra-argumentem’ que a mesma terra foi dada por Deus, não aos judeus, mas aos muçulmanos, são considerados “fanáticos religiosos islâmicos”... pelos fanáticos religiosos judeus).

Nesse ensaio, discutiremos em detalhe alguns desses pontos, analisaremos as ações de Obama e do Congresso dos EUA, exploraremos o papel da Turquia e do Irã, a divisão entre os partidos Fatah e Hamas, a desunião no mundo árabe, e anteciparemos alguns desenvolvimentos em todo o Oriente Médio.

*
O povo da Faixa de Gaza continua a sofrer sanções e outras indignidades, mas a dor de viver sob bloqueio total e virtual prisão coletiva começa a diminuir nessa estreita faixa de território, de apenas 40km de comprimento na costa mediterrânea, definida, em 1949 para acomodar alguns dos refugiados palestinos expulsos para que ali fosse criado o Estado de Israel.

As principais organizações de direitos humanos em todo o mundo consideram bem-vindo qualquer levantamento parcial do bloqueio, mas exige que seja completamente cancelado. Para a Anistia Internacional: “O anúncio de que o bloqueio será parcialmente levantado evidencia que Israel não tem qualquer intenção de por fim à punição coletiva da população civil que vive em Gaza, e apenas a ‘suaviza’, e só parcialmente. É dever de Israel cumprir integralmente seus deveres como poder ocupante nos termos da legislação internacional, e cancelar completamente o bloqueio.”

A Agência da ONU para Ajuda Humanitária e Socorro, que supervisiona e atende a comunidade de refugiados palestinos, declarou dia 20/6, por seu porta-voz Christopher Guinness: “É necessário que esse bloqueio seja completamente cancelado. (...) A estratégia israelense é induzir a comunidade internacional a discutir sacos de cimento, mais sacos aqui, menos sacos acolá, para um projeto aqui ou outro acolá. O que importa é nos dar pleno acesso, sem qualquer restrição, em todos os postos de passagem e, atualmente, de controle.”

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que raramente se manifesta sobre assuntos específicos, exigiu, em manifestação datada de 14/6, o fim completo do bloqueio, observando que o embargo já destruiu a economia nos territórios ocupados e já arruinou o sistema público de saúde.

A pequena diminuição nas sanções impostas aos palestinos não muda os objetivos políticos do governo de Israel. De modo geral, os objetivos de Israel são: destruir o Hamás (Partido do Movimento da Resistência Islâmica) que governa Gaza; dominar e manipular a Autoridade Nacional Palestina (ANP, que governa a Cisjordânia) e o Fatah (Partido do Movimento de Libertação da Palestina que controla a ANP); manter em terras palestinas suas forças de ocupação e as colônias ilegais exclusivas para judeus; e expulsar de Jerusalém toda a população árabe, processo conhecido como de “judaicização” de Jerusalém.

O objetivo de Netanyahu é manter os palestinos sob condições de jugo neocolonial pelo maior tempo possível. O real desejo do governo da coalizão de direita é manter pelo maior tempo possível o processo de apropriar-se da maior quantidade possível de terras palestinas. Há alguns anos, o Quarteto estimulou Israel a trabalhar na direção de uma “Solução de Dois Estados” até 2012, mas o governo atual tem criado inúmeros obstáculos a qualquer acordo equitativo e dedica-se a adiar qualquer acordo pelo tempo mais longo possível.

Dia 29/6/, o ministro do Exterior Avigdor Lieberman anunciou que “não há qualquer chance” de cumprir-se o prazo de 2012. Há algum tempo, dissera que consideraria a ideia de dois Estados se os 1,3 milhões de árabes que vivem em Israel – como cidadãos de segunda classe em sua própria terra fossem tirados de lá e depositados em território palestino, condição que ninguém sequer considerará. O partido de Lieberman, Yisrael Beiteinu [Israel, nosso lar], já sugeriu que os israelenses árabes seriam “desleais” e dever-se-ia revogar sua cidadania israelense. “Sem lealdade, sem cidadania” foi um de seus slogans de campanha eleitoral no que, para os apoiadores de Lieberman, seria “a única democracia no Oriente Médio”.

Mahmoud Abbas, presidente da ANP, falou por três horas com jornalistas da imprensa israelense, em Ramallah, semana passada. Em editorial, o Jerusalem Post de 1/7, avaliou que o evento “pode ser visto como tentativa – provavelmente fortemente estimulada pelos EUA – de falar diretamente ao público israelense. Abbas nada disse de especialmente novo. Mas a impressão que ficou é que Abbas parece ter convencido os EUA de que, sim, está pronto a iniciar negociações sobre questões-chave de segurança e sobre fronteiras. E que todos os obstáculos a qualquer negociação – de fato, uma muralha de silêncio – são obra do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “Estamos à espera de que Netanyahu nos dê qualquer sinal de que quer negociar” – disse Abbas.

Dois partidos políticos mais moderados – o Kadima, autodefinido “de centro”, mas que trabalha com a direita, é hoje o maior partido no Parlamento (Knesset); e o Partido Labor (‘trabalhista’), que ainda carrega rótulo de partido de ‘centro-esquerda’ mas opera como de direira, e de ultradireita no que tenha a ver com palestinos – parecem mais sensíveis à Solução dos Dois Estados. Mas nem um nem outro jamais manifestou qualquer forte empenho em criar algum Estado palestino independente. E nenhum dos partidos israelenses dá crédito à ideia defendida por alguns de criar-se um único Estado israelense-palestino, com unidade progressista, multiétnica, multirreligiosa, de real igualdade entre todos e mútuo benefício para todos.

Diz-se que Obama estaria considerando a ideia de propor “um Estado palestino democrático, independente e contínuo” o qual – “para garantir a segurança de Israel” – seria impedido de manter exército ou de estabelecer qualquer pacto de mútua segurança com qualquer outro país. Considerada a história recente de Israel, carregada de ataques militares violentos contra Estados vizinhos, é claro que se tem de fazer a pergunta que ninguém fez: e quanto à segurança dos palestinos?

Netanyahu, por sua vez, evidentemente nada aprendeu das críticas de todo o mundo contra o terrível bloqueio contra Gaza e contra o ataque à Flotilha da Paz. Em recente fala ao Parlamento, disse que “querem nos roubar o direito natural de nos defender. Se nos defendemos contra os foguetes do Hamás, nos acusam de crimes de guerra. Não podemos nos defender nem atirar nos inimigos que atiram em nós, num barco, sem que nos acusem de crime de guerra.”

Uri Avnery, líder do movimento Gush Shalom, “Bloco da Paz Israelense”, vê as coisas de outro modo, como escreveu dia 19/6: “Já há anos, o mundo vê o Estado de Israel todos os dias na tela da TV e nas manchetes dos jornais, sempre mostrado como soldados pesadamente armados que atiram contra crianças que se defendem com pedras; como aviões que lançam bombas de fósforo sobre quarteirões residenciais; como helicópteros que assassinam “alvos preferenciais”. Agora, verão Israel também como nação de piratas que atacam barcos civis em águas internacionais. E as imagens de mulheres aterrorizadas, carregando filhos feridos; homens com pernas arrancadas; casas em ruínas. Se o que Israel tem para mostrar é isso, sempre isso e só isso, é claro que, aos olhos do mundo, Israel converteu-se em monstro.”

Comentando as ações do governo israelense, a revista conservadora The Economist escreveu, dia 5/6: “Israel está presa num círculo vicioso. Quanto mais os linha-duras pensam e repetem que o mundo os odeia, mais rapidamente os linha-dura puxam o gatilho, matam primeiro para perguntar depois, e mais verão o mundo como território sempre inimigo (...). [Netanyahu] não dá a impressão de reservar qualquer espaço para que se pensem as vantagens da paz.”

A revista Time, dia 21/6, dizia: “Além de ter fraturado as relações entre o Estado judeu e a Turquia, seu mais importante aliado muçulmano, e de não contribuir para o esforço de aproximação do governo Obama em Washington, seu sempre principal aliado, o ataque à Flotilha da Paz obriga a considerar o tipo de democracia em que Israel converteu-se: conspicuamente beligerante, sempre rápida na direção de solução militar para todos os problemas que surjam – e fazendo papel cada vez mais lastimável também na solução militar.”

Romper o bloqueio

O bloqueio que Israel mantém contra Gaza é ato de punição coletiva de um povo inteiro – proibido e considerado ilegal na jurisprudência –, lançado inicialmente para castigar os eleitores de Gaza que democraticamente elegeram o partido islâmico Hamás, nas eleições parlamentares de janeiro de 2006. Israel e os EUA apoiavam os candidatos da Autoridade Nacional Palestina, herdeiros da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e coalizão de partidos políticos sob a liderança do partido Fatah.

As sanções foram convertidas em sítio criminoso um ano depois de o Hamás ter derrotado o Fatah, numa, de fato, guerra civil em Gaza, apesar de os EUA terem dado 60 milhões de dólares ao Fatah para comprar armas e treinar militantes com o objetivo declarado de esmagar o Hamás. Desde essa época, o Hamás governa Gaza e a ANP governa a Cisjordânia, com apoio ocasional de Washington e Telavive.

O bloqueio foi tão severo que toda a população de Gaza passou a viver, de fato, como numa prisão a céu aberto, em pequeno território, durante os últimos dois anos. Apesar de vários tipos de alimentos terem entrada proibida em Gaza, e da queda na quantidade de calorias ingeridas, ninguém morreu de fome. O bloqueio foi planejado, provavelmente, para chegar só até onde chegou. O povo de Gaza sobreviveu sem papel, sabão, cimento, colchões, máquinas em geral, brinquedos e mais uma centena de itens. Cimento é item de especial importância, porque praticamente todas as casas e prédios em Gaza foram destruídos ou semidestruídos pelo exército israelense – residências, prédios comerciais, fábricas e prédios oficiais.

A Associated Press noticiou que Israel anunciara dia 5/7 que levantaria a proibição de quase todos os itens de consumo, mas que “manteria proibidos itens de consumo diário (praticamente todos) e materiais de construção em geral, inclusive cimento. As novas regras dificilmente contribuirão para reconstruir a economia devastada do território, nem permitirão que se reconstruam ou reparem os prédios destruídos e danificados na guerra do ano passado”. O Hamás denunciou as novas regras.

Israel, superpotência militar no Oriente Médio, atacou, no verão de 2006, em rápida guerra punitiva, o Líbano e Gaza – ataque que gerou críticas em todo o mundo. A opinião pública foi outra vez ultrajada em dezembro de 2008, quando o exército israelense outra vez atacou Gaza, ostensivamente como retaliação a ataque com foguetes do Hamás. Massacrou 1.417 palestinos, a maioria dos quais civis, e feriu 5.500. Do lado de Israel, morreram 14, praticamente todos militares. (O Hamás estava mantendo um cessar-fogo acordado há meses; Israel quebrou esse acordo de cessar-fogo; o argumento dos israelenses, de que estariam respondendo aos ‘foguetes’ do Hamás, absolutamente não faz sentido algum, como logo observaram vários grupos, militantes e intelectuais da luta anticolonialismos.)

O suplício da população que vive em Gaza gerou apoio para os palestinos em todo o mundo.

O Movimento Gaza Livre [ing. Free Gaza Movement[1]], coalizão de grupos de ação pró-palestinos, organizou nove tentativas de furar o bloqueio israelense, enviando barcos com ajuda humanitária para Gaza, entre agosto de 2008 e 31/5/2010. Nenhum barco jamais carregou armas de qualquer tipo. Todos foram atacados por Israel, empenhada em manter seu projeto de privação em massa, usado como instrumento de coerção pelo Estado.

Em maio desse ano, o Movimento Gaza Livre reuniu-se à Fundação Turca pelos Direitos e Liberdades Humanos e Ajuda Humanitária [ing. The Foundation for Human Rights and Freedoms and Humanitarian Relief, IHH[2]] e organizou o envio, para Gaza, de seis barcos e 663 militantes pró-Palestina de diferentes países, com o objetivo de furar o bloqueio. Os barcos, carregados com toneladas de produtos, reunir am-se em comboio ao largo da ilha de Chipre, no Mediterrâneo e partiram para Gaza, dia 30/5. Vários passageiros eram militantes treinados para ações de resistência não-violenta. Nenhum viajava armado ou com bombas.

Navios e helicópteros militares israelenses abordaram a flotilha em águas internacionais, a cerca de 100km do litoral da Faixa de Gaza. Deve-se considerar que, ainda que os barcos já tivessem entrado em águas territoriais, seriam águas territoriais de Gaza, não território israelense. Comandos fortemente armados das Forças Especiais do exército israelense abordaram ilegalmente os barcos da Flotilha da Paz e assumiram o comando. Cinco dos barcos foram rapidamente dominados, sem mortes de passageiros.

O sexto barco e, de longe, o maior deles, o Mavi Marmara, comprado no início do ano pela organização IHH, foi abordado por comandos que desceram de helicópteros, ao mesmo tempo em que o barco era cercado por botes de alta velocidade. Alguns passageiros resistiram à invasão, no pleno direito, de qualquer cidadão, de resistir a ataque noturno em águas internacionais e pagaram com a vida. São heróis da paz.

Os assaltantes israelenses atiraram e mataram nove pessoas – vários à queima roupa, o que caracteriza assassinato ou execução. Um dos mortos, cidadão turco-norte-americano, Furkan Dogan, tinha 19 anos. É provável que vários dos mortos e feridos tenham sido agredidos sem manifestar qualquer gesto de resistência. Um sargento israelense, que se vangloriou de haver matado seis civis, disse que todos seriam “terroristas”.

O governo de Israel não planejara matar militantes da Flotilha da Paz. Mas acabou por criar uma situação na qual, se apenas um detalhe daquele ato de agressão não saísse exatamente como deveria sair, tudo escaparia ao controle e daria gravemente errado, como deu. Por que o secretário de Defesa Ehud Barak, autor da famosa frase-propaganda segundo a qual o exército de Israel seria “o mais moral dos exércitos do mundo”, insiste que os comandos foram instruídos a responder racionalmente, ante a possibilidade de resistência não-armada de alguns passageiros?

Imediatamente Israel foi soterrada por mensagens de crítica vindas de todo o planeta; depois das violações repetidas aos direitos humanos dos palestinos, o ataque a tiros contra movimento de pacifistas e agentes humanitários. Em resposta, o aparato de propaganda do governo de Netanyahu disparou uma pletora de autojustificativas – praticamente só mentiras ou, no mínimo, visíveis exageros, mas evidentemente suficientes e satisfatórias para a Casa Branca e o Congresso dos EUA.

O mundo ouviu contar que os assaltantes israelenses super armados teriam sido “linchados”. Que foram espancados com “porretes”. Que havia 50 “soldados turcos” a bordo do Mavi Marmara, informação logo substituída por “75 mercenários da al-Qaeda”. O barco, disse Netanyahu, seria uma “nave do ódio”. Defensores de Israel nos EUA ainda preferem acreditar nesses e noutros contos fantásticos. Sendo assim, seria de esperar que aqueles 75 membros da al-Qaeda seriam presos, levados para Israel e metidos na prisão. Mas, não. Ninguém foi preso – nenhum dos “linchadores” de inocentes soldados israelenses, nem os “espancadores”, nem os “soldados turcos”, nem os “mercenários terroristas”.

Ao saber do ataque aos ativistas por comandos israelenses armados, a poeta norte-americana Alice Walker escreveu em apoio aos “ativistas pacifistas que levavam ajuda a Gaza e que tentaram espantar os agressores usando cadeiras e bastões. Estou grata por me ensinarem o verdadeiro sentido da bondade. Sei que os militantes da Flotilha da Paz estão entre as mais bondosas pessoas que há no mundo: não se calaram ante o sofrimento alheio, não se omitiram ao saber do sofrimento brutal dos palestinos e ofereceram-se sem armas exceto o próprio corpo, à luta que viesse.”

O Conselho de Segurança da ONU conseguiu aprovar uma Resolução exigindo investigação completa por comissão internacional, do incidente da Flotilha, mas Telavive recusou-se a cooperar, insistindo em fazer investigação interna. Diz-se que o governo Obama teria conseguido um acordo: em troca do levantamento parcial do bloqueio de Gaza, Israel seria autorizada a investigar, ela mesma, sem interferência externa, os atos do próprio exército israelense.

Para o governo Obama, a autoinvestigação israelense seria “importante passo a frente” – mas não se sabe em que direção, exceto, claro, em direção à autoabsolvição. O ministro das Relações Exteriores da Turquia Ahmet Davutoglu declarou que “Não confiamos de modo algum que Israel, país que ataca comboio de barcos civis em águas internacionais, algum dia fará investigação imparcial de seus próprios atos.”

Considerado o simulacro de investigação que Israel fez depois do ataque contra Gaza no inverno de 2008-2009, seguido logo depois pela rejeição do Relatório Goldstone, promovido pela ONU – e vergonhosamente também rejeitado pelo Congresso dos EUA e pela Casa Branca – não cabe qualquer dúvida de que a nova investigação, iniciada dia 28/6 em Israel, tampouco levará a qualquer condenação de Israel, a menos que se mudassem as regras. Netanyahu disse recentemente que “a investigação demonstrará que os objetivos e os atos do Estado de Israel e do exército israelenses foram atos de legítima defesa, conforme os mais altos padrões internacionais”. Seria exatamente o que aconteceria, se tudo tivesse corrido como Israel previa.

Muitos intelectuais israelenses influentes duvidam dos resultados dessa autoinvestigação, e a mídia israelense ecoou muitas críticas sobre o modo como a investigação será feita – e mais críticas também se ouviram na mídia norte-americana, geralmente bem pouco crítica quando se trata de comentar atos do governo israelense. Para o jornal israelense Ha'aretz, a investigação “mais parece farsa, que investigação”. O Bloco da Paz, Gush Shalom, em requerimento à Corte Suprema, exigiu que a corte ampliasse o objeto da investigação e nomeasse comissão independente.

Então, segundo o Ha'aretz de 30/6, o juiz aposentado Yaakov Tirkel, nomeado para chefiar as investigações sobre os eventos da Flotilha da Paz “levou ao conhecimento do governo que a comissão não teria como fazer seu trabalho se não recebesse maiores poderes para investigar.” Recomendava que a comissão fosse convertida em “comissão de inquérito governamental com plenos poderes. Só assim a comissão terá autoridade para convocar testemunhas e requisitar documentos, alertar as testemunhas de que seus depoimentos implicam reais riscos para os que mentirem e contratar auditores especialistas em campos sensíveis.” Dia 4/7, o gabinete de Netanyahu aceitou introduzir algumas mudanças na comissão inicial de investigação. Dentre essas mudanças, destacam-se a autorização para convocar audit ores especialistas e a exigência de que as testemunhas deponham sob juramento. A investigação de fato ainda não começou e mantém-se como caso interno, submetida a vários impedimentos, dentre os quais, por exemplo, o impedimento de interrogar os soldados do exército que atacaram o Mavi Marmara.

O caso da Flotilha nada fez para melhorar as difíceis relações entre Netanyahu e Washington, motivo pelo qual ele mostrava-se tão ansioso por dar boa impressão ao encontrar-se com Obama na Casa Branca dia 6/7, o que o levou à disposição de ‘dar’ um pouco mais do que ‘tomar’, como sempre. Netanyahu disse que as negociações diretas com os palestinos podem começar ainda nesse verão, e pediu “passos concretos” para facilitar o processo de forma mais “robusta”.

Israel tem-se apresentado repetidamente como vítima de várias ameaças “existenciais” ao longo dos anos, a última das quais seria o Irã, mas, como já observamos, nenhuma ameaça existencial ameaça mais existencialmente o Estado sionista quanto a ameaça de perder o apoio irrestrito de Washington. Sabendo disso, Israel e seus dedicados apoiadores norte-americanos investem quantidades imensas de tempo e dinheiro para seduzir a opinião pública, trabalhando diligentemente para eleger deputados e senadores pró-Israel, e ativamente cultivando a própria imagem junto à Casa Branca e o Congresso dos EUA.

Apesar do incessante apoio que Israel continua a receber da Casa Branca, a maioria da população israelense desconfia do governo Obama, embora muitos judeus norte-americanos o apóiem. Por exemplo, segundo pesquisa feita em junho pelo Centro Mundial da Associação B'nai B'rith em Jerusalém, “65% dos judeus israelenses dizem que os judeus norte-americanos deveriam criticar mais a política de Obama para o Oriente Médio”. É conclusão obtida, em larga medida, de uma análise errada da política de Obama para o mundo muçulmano, de sua disposição para “conversar” com o Irã e resultado, também, da impaciência que Obama manifesta em relação a Netanyahu. Aqui, um resumo do que pensamos sobre esses três tópicos:

1. É óbvio que a abertura de Obama para o mundo muçulmano (no discurso do Cairo, há um ano) não passou de ato de relações públicas, que não implicou qualquer mudança na política dos EUA, além de uma mudança na retórica. O objetivo foi controlar a crescente oposição, pela comunidade religiosa islâmica, aos EUA – uma comunidade de mais de um bilhão de almas, num momento em que os EUA enfrentam guerras em vários países muçulmanos. O único objetivo da mudança de retórica foi, falando claramente, fortalecer o imperialismo norte-americano, muito mais do que enfraquecer Israel.

2. O tom de Obama em relação ao Irã é menos beligerante que o de Bush, porque as políticas de Obama (como as novas sanções) são tão agressivas quanto as de Bush. São, de fato, ainda mais agressivas, se se consideram o perigoso aumento de atividade da Marinha dos EUA no Golfo Persa e águas próximas, e o perigoso aumento no fluxo de provisões de guerra para a base dos EUA no Oceano Índico (que se discute na segunda parte, sobre os riscos que o Irã corre).

3. Obama espera pelo menos alguma pequena concessão de Netanyahu, quanto às construções em território ocupado, por exemplo, em troca da proteção de Washington –, mas o único objetivo de Obama é apertar o cerco contra os árabes.

O governo israelense está furioso com Washington também por causa do documento final que emergiu da reunião da ONU em maio, que durou um mês, para revisão do Tratado de Não-proliferação Nuclear, e que (1) exige que Israel assine o Tratado e (2) fixa a data para conferência regional, a acontecer em 2012, que discutirá a criação, no Oriente Médio, de território desnuclearizado. Quando a questão de Israel surgiu, na revisão do Tratado em 2005, uma das razões pelas quais não houve relatório final foi que o governo de George W Bush recusou-se a assinar qualquer documento em que houvesse qualquer referência a Israel.

Aqui está o problema de Israel: se assinar o Tratado de Não-Proliferação, Israel estará reconhecendo que possui enorme arsenal de armas nucleares, ou será acusado de boicotar o Tratado, o que também revelará ao mundo a quantidade astronômica de mentiras que Israel tem contado ao mundo, sobre suas armas nucleares. Além do mais, a conferência marcada para 2012, das nações do Oriente Médio, com certeza decidirá pelo banimento de todas as armas nucleares da Região – o que obrigará Israel a desmontar suas bombas atômicas, o que é pouco provável que Israel algum dia faça, ou exporá o Estado judeu como ‘bandido nuclear’. Há coisas demais em jogo, no plano político, nessa conferência nuclear, para que os EUA mais uma vez abortem todas as conclusões, perdendo espaço numa questão que é das que mais os EUA se empenham: o combat e à proliferação; tanto quanto é das questões que mais preocupam os EUA: não conseguir combater a proliferação nuclear. Os israelenses ficaram gravemente perturbados ao se verem postos entre a cruz e a caldeirinha nucleares. Para acalmá-los, os EUA divulgaram crítica à declaração da ONU por não ter explicitamente condenado o Irã, o qual, como todo o mundo sabe, não tem bombas atômicas.

Não só a Casa Branca, mas deputados e senadores, Democratas e Republicanos continuam a apoiar abertamente Israel, sem qualquer consideração à situação em que vivem os palestinos.

Em artigo publicado em meados de junho na sessão “Focus” da revista Foreign Policy, Stephen Zunes escreveu: “Líderes Democratas, além de seus colegas Republicanos, alinham-se no Congresso para defender o assalto israelense. Ao contrário do que dizem inúmeros especialistas internacionais, que o ataque foi flagrante violação de leis internacionais, importantes Democratas abraçaram a versão de que o ataque israelense (...) teria sido ato de legítima defesa. O movimento foi liderado, entre os Democratas, por Gary Ackerman, porta-voz não oficial dos deputados Democratas, sobre temas de política para o Oriente Médio. (...) Segundo Ackerman, as mortes foram “culpa e responsabilidade, completamente, dos que organizaram o comboio para romper o legítimo bloqueio que Israel e o Egito impuseram a o território de Gaza controlado por terroristas.”

No final de junho, 87% dos senadores norte-americanos e 307 dos 435 deputados assinaram carta enviada a Obama a propósito do ataque à Flotilha da Liberdade, em que declaravam “Apoiamos plenamente o direito de Israel à autodefesa”. Argumentavam que “os comandos israelenses que chegaram ao 6º navio [o Mavi Marmara] (...) foram brutalmente atacados com barras de ferro, facas e cacos de vidro. Foram obrigados a responder ao ataque, e lamentamos a perda de vidas que daí resultaram.”

A carta também elogiava a atitude de Obama “por evitar que o Conselho de Segurança da ONU aprovasse resolução injusta, que determinaria uma onda de recriminações pela comunidade internacional.”

Três nomes, no Congresso, empenharam-se muito na crítica ao ataque à Flotilha da Paz – Brian Baird, Keith Ellison e Dennis Kucinich. Kucinich escreveu carta a Obama em que diz: “Os EUA devem fazer ver a Israel [que] não se podem aceitar suas repetidas violações da legislação internacional (...) [nem] que o exército israelense atire contra e mate civis inocentes (...) [nem] que Israel mantenha um bloqueio que não permite a chegada a Gaza [nem] de um comboio de ajuda humanitária.”

Em abril, segundo artigo de Ben Smith em Politico, 76 senadores e 333 deputados “assinaram carta dirigida à secretária de Estado Hillary Clinton com reprimenda implícita ao governo Obama por adotar posição de confrontação em relação a Israel”, como se a Casa Branca não tivesse apoiado virtualmente todos os atos de Netanyahu, inclusive quanto apontou um dedo para o rosto de Obama ou publicamente ofendeu o vice-presidente Joseph Biden.

Nessa carta, os congressistas culpavam os palestinos pela interrupção das conversações e pela dificuldade para resolver questões cruciais, observando que “ao contrário disso, o primeiro-ministro de Israel declarou, abertamente, que está disposto a dar início a negociações de paz com os palestinos, sem impor qualquer condição”.

Os dois principais obstáculos à paz entre israelenses e palestinos são a decisão de Israel de não aceitar qualquer acordo, por legítimo que seja, que leve à criação de Estado palestino ou a qualquer solução de igualdade para os dois lados; e o apoio político, econômico e militar que Washington dá unilateralmente a Israel. Além desses, há outros dois importantes problemas que os palestinos também têm de enfrentar. [Continua]

Notas:

[1] Em http://en.wikipedia.org/wiki/Free_Gaza_Movement
[2] Em http://en.wikipedia.org/wiki/IHH_(Turkish_NGO)

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: ISRAEL, PALESTINE AFTER THE FLOTILLA, Part 1 - Change is in the wind

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O novo crime de Israel indigna mas não surpreende

Domenico Losurdo*
24.Jun.10 :: Outros autores
Domenico Losurdo
Depois de recordar o apelo de diversas organizações palestinas e de algumas organizações de solidariedade com a sua luta para um grande boicote internacional às mercadorias provenientes de Israel, Doménico Losurdo recorda-nos a legitimidade desta forma de luta e alguns casos passados de sucesso.


O crime perpetrado por Israel em águas internacionais, contra pacifistas empenhados em levar socorro aos prisioneiros desse imenso campo de concentração que passou a ser Gaza, pode e deve indignar, mas não nos surpreende: há muito que o governo de Tel-Aviv mostra como está decidido a atingir pelo terror não apenas as vítimas directas do seu expansionismo colonial, mas até os que ousem exprimir a sua solidariedade com as vítimas e que, de uma forma ou doutra, entravem a terrível máquina de guerra e de opressão à qual os carrascos recorrem.

A tese segundo a qual os pacifistas estavam armados e portanto mereciam a morte é a contrapartida daquela outra segundo a qual era uma obrigação moral desencadear a operação «Shock and Awe» (Choque e Horror!) contra o Iraque de Saddam, culpado de possuir armas de destruição massiva! A solidariedade e cumplicidade de fundo que ligam Israel e os Estados Unidos revela-se assim na arte da manipulação e não é substancialmente alterada pela alternância dos diversos locatários da Casa Branca. É uma manipulação que, se não é abertamente estimulada, pelo menos não é dificultada pela grande imprensa de «informação».

Nos últimos tempos, tanto na Palestina, como em certos sectores do Ocidente, está a desenvolver-se uma nova forma de luta consistindo no boicote das mercadorias produzidas pelos colonos que, em flagrante violação do direito internacional e dos Direitos Humanos, continuam a expandir-se nos territórios ocupados. Seria uma oportunidade para os que não se cansam de condenar a «violência» da resistência saudarem esta forma de luta tipicamente não-violenta que é o boicote. E no entanto, o que aconteceu foi o contrário. No «Corriere della Sera», Furio Colombo e alguns outros apressaram-se nos últimos dias a considerar que o boicote das exportações israelitas provenientes dos territórios ilegalmente ocupados faz pensar nas medidas tomadas pela Alemanha nazi contra as lojas propriedade dos judeus.

Que se passa na verdade? Conforme lembrei no meu último livro «La non-violenza. Uma storia fuori dal mito», os povos oprimidos e em primeiro lugar os povos colonizados recorreram constantemente ao boicote. É um instrumento de luta que, para nos limitarmos ao séc. XX, vemos em acção na China, ao longo do protesto organizado pelo movimento do 4 de Maio (1919) contra a pretensão do Japão, animada ou tolerada pelas outras potências imperialistas, de impor o seu protectorado ao grande país asiático. Uma dezena de anos depois do boicote dos tecidos, sucede-se na Índia o boicote dos produtos da indústria inglesa. Neste caso, é o movimento inspirado e dirigido por Ghandi que conduz a agitação: «As mulheres faziam regularmente piquete nos armazéns onde era vendido vestuário produzido na Grã-Bretanha. Seguiam as outras mulheres que saíam dos armazéns e tentavam convencê-las a irem trocar as compras». Alguns anos depois, foi a comunidade judia internacional que sugeriu o boicote dos produtos alemães em resposta à fúria anti-semita de Hitler. É nesta tradição que assenta o movimento que procura hoje atingir as mercadorias produzidas exclusivamente graças ao expansionismo colonial inumano nos territórios palestinianos ocupados.

Evidentemente que desde o início o regime nazi se aplicou no estrangulamento da actividade comercial e industrial dos judeus alemães e na privação das suas propriedades legítimas. Mas, tudo isso nada tem a ver com o boicote (instrumento tradicional dos povos oprimidos) e sim com a utilização terrorista do poder político. Se se quer uma analogia, é necessário então referir as medidas que hoje atingem os palestinianos, expropriados das suas casas, das suas terras, dos seus olivais e postos cada vez mais na impossibilidade de levarem uma vida humana digna desse nome.

A condenação e até a criminalização que o poder e a ideologia dominantes fazem da luta não-violenta contra o colonialismo sionista é, apesar de alguns momentos de embaraço e aparente distanciação, a confirmação da vontade de Washington e Bruxelas deixarem impunes os crimes de Israel, mesmo os cometidos em águas internacionais, condenando pelo contrário seja qual for a forma de resistência do povo palestiniano.

Na vertente oposta, é obrigação moral de todo o democrata, anticolonialista e antifascista solidarizar-se com a resistência palestiniana (e árabe e muçulmana) contra o imperialismo e contra o colonialismo. Cabe à resistência palestiniana decidir e escolher as formas de luta.

* Domenico Losurdo, filósofo e historiador, é Professor da Universidade de Urbino, Itália
Este texto foi publicado em
www.voltairenet.org
Tradução: Jorge Vasconcelos
Texto confiscado do Diário Info de Portugal

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Os crimes de Guerra de Israel: Do USS Liberty à Flotilha Humanitária

Este texto é dedicado aos bravos mártires turcos do Mavi Marmara, em 31 de maio de 2010, e aos 34 marinheiros americanos do USS Liberty, em 8 de junho de 1967 – todos vítimas de um impenitente estado criminoso: Israel.

por James Petras

O  USS Liberty, atacado pela Força Aérea e a Marinha israelense.Crimes de Israel em alto mar

Em 8 de junho de 1967, dois esquadrões de aviões de guerra israelenses bombardearam, lançaram napalm e metralharam o navio americano de coleta de dados, o USS Liberty, em águas internacionais, matando 34 marinheiros americanos e ferindo outros 172. O ataque se deu numa tarde ensolarada, estando claramente visíveis a bandeira americana e marcas identificadoras. Os israelenses miraram a antena para evitar que a tripulação enviasse mensagens de socorro, e atiraram nos botes salva vidas para assegurar que não houvesse sobreviventes. Houve, entretanto, sobreviventes que reergueram a antena e comunicaram seu problema pelo rádio, uma chamada por ajuda que chegou a Washington, D.C. Num ato de traição sem precedentes, o presidente Johnson, em ligação próxima com os financiadores políticos da American Jewish Zionist (Sionistas Judeus Americanos), encobriu o assassinato em massa em alto mar emitindo ordens primeiro para chamar de volta aviões baseados no Mediterrâneo de modo a evitar que eles auxiliassem seus companheiros sitiados, e então ameaçando com corte marcial os sobreviventes que expusessem a natureza deliberada do ataque israelense, e finalmente repetindo a alegação israelense de que o ataque foi uma questão de identificação incorreta, uma mentira que vários líderes militares posteriormente rejeitaram.Quase no mesmo dia, 43 anos depois, em 31 de maio, navios de guerra israelenses, comandos e helicópteros armados atacaram um comboio de navios humanitários que levavam dez toneladas em ajuda para Gaza, em águas internacionais. Anteriormente à missão humanitária turca, as autoridades haviam examinado os passageiros e o navio para assegurar que não havia armas a bordo. Os israelenses mesmo assim subiram a bordo, atirando e golpeando passageiros desarmados, matando 19 e ferindo dezenas. Apesar das alegações subseqüentes dos israelenses e dos sionistas em contrário, não foram achadas armas além de bastões usados por algumas das vítimas na tentativa de evitar o ataque assassino premeditado, planejado, dirigido e defendido pelos principais líderes israelenses e por toda a liderança das principais organizações sionistas nos EUA e outros lugares. As violentas tropas invasoras israelenses destruíram sistematicamente todas as câmaras, vídeos e gravadores que haviam documentado seu ataque selvagem, de modo a poder subseqüentemente espalhar suas desafiadoras mentiras sobre terem sido vítimas de resistência armada.
Protestos na Holanda.

A resposta mundial

Horas após o sangrento ato de pirataria de Israel, nações, líderes políticos, organizações de direitos humanos e a imensa maioria da comunidade internacional condenou o estado israelense pela violação da lei internacional. Turquia, Espanha, Grécia, Dinamarca e Áustria convocaram os embaixadores de Israel em seus países para protestar contra o ataque mortal.
The Financial Times (1/jun/2010) se referiu ao ataque israelense como um "descarado ato de pirataria... em choque com a legalidade", originado de seu "bloqueio ilegal a Gaza". O primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, denominou o ataque israelense de ato de "terrorismo de estado", que teria "sérias conseqüências". Os ataques de Israel a navios que hasteavam bandeiras da Turquia, Grécia e Irlanda em alto mar foram descritos por peritos legais como um "ato de guerra". O Conselho de Segurança das Nações Unidas, a OTAN e o secretário-geral da ONU exigiram que Israel cessasse a agressão, enquanto dezenas de milhares de manifestantes denunciaram o flagrante ato de assassinato e ferimento de pacifistas e humanitaristas de 60 países. Os especialistas da ONU exigiram que os líderes israelenses "sejam criminalmente responsabilizados". Somente o regime de Obama se recusou a condenar o ato de terror de estado israelense, tendo expressado apenas "preocupação e pesar". O estado israelense defendeu seu ataque assassino, prometendo mais para o futuro e insistindo em manter o bloqueio a Gaza, mesmo depois dos EUA terem sugerido seu relaxamento.

A defesa israelense da pirataria e do terrorismo de Estado

Enquanto notícias sobre o massacre israelense vazavam, e a comunidade internacional reagia com horror e fúria, o governo israelense "procurou inundar os canais de transmissão com sua versão do evento… ainda mais importante, as autoridades garantiram logo o predomínio de sua história, através do silenciamento de centenas de ativistas que estavam a bordo durante o ataque" (
Financial Times, 2/junho/2010, p.2). O estado judeu manteve incomunicáveis todos os prisioneiros vivos, feridos e mortos, apreendeu seus celulares e proibiu qualquer entrevista, barrando todos os jornalistas. Como a maioria dos estados terroristas, o estado judeu quis monopolizar os meios de propaganda. A máquina de propaganda israelense, através de seus jornalistas e meios de comunicação patrocinados pelo estado, empregou diversos estratagemas típicos de regimes totalitários.

1) As tropas de ataque israelenses que invadiram o navio foram transformadas em vítimas, e os pacifistas humanitários viraram agressores. "Soldados israelenses recebidos por um bem planejado linchamento" ( Jerusalem Post, 31/maio/2010); "Soldados israelenses atacados (IDF, 31/maio/2010).

2) O ato de pirataria de Israel em águas internacionais foi declarado legal por um Professor Sabel da Universidade Hebraica.

3) Os organizadores humanitários foram acusados de ligações com terroristas, segundo o vice-ministro do Exterior Avalon, apesar de não ter sido apresentada nenhuma evidência (
Ha'aretz, 30/maio/2010). Os organizadores, incluindo o grupo turco de direitos humanos acusados por Avalon, foram liberados pela agência de inteligência turca, pelos militares e pelo governo Erdogan, um membro da OTAN e por muitos anos (no passado) um colaborador do Mossad de Israel. Os outros 600 voluntários de direitos humanos incluíam pacifistas, parlamentares, ex-diplomatas, assim como membros atuais do parlamento israelense.

4) Enquanto dezenas de pessoas que defendiam os direitos humanos levaram tiros, foram assassinadas e mutiladas, os propagandistas israelenses fabricaram vídeos mostrando um dos assaltantes israelenses no deck, eliminando a seqüência precedente do ataque (
Financial Times, 2/junho/2010, p.2).

5.) Os assaltantes israelenses pelo mar e pelo ar foram descritos como vítimas de uma "Brutal emboscada no mar" (
Ynet News, 1/junho/2010).

6) Os aterrorizados militantes de direitos humanos foram acusados de ser "linchadores", atacando os comandos judeus que estavam disparando selvagemente rifles automáticos pelo deck e em vítimas encurraladas. Os poucos indivíduos corajosos que reagiram para parar o ataque assassino foram caluniados pela propaganda sionista, que em si mesma é tão monstruosa quando os crimes que eles perpetraram.

Uma vez que a propaganda israelense começou a cuspir suas mentiras de esgoto, toda a liderança da Quinta Coluna sionista entrou em ação ... primeiro e principalmente nos Estados Unidos.

A configuração do poder sionista dos EUA: Na defesa do massacre

Assim como toda a liderança das 51 principais organizações judias americanas defendeu cada crime de Israel no passado, do bombardeio do US Liberty à ocupação da Cisjordânia e o bloqueio a Gaza, os mais honoráveis apologistas repetiram verbatim as mentiras do estado israelense acerca do assalto à flotilha humanitária.

O
Daily Alert (31/maio a 2/junho/2010), o órgão de propaganda pública oficial dos presidentes das principais organizações judias americanas, publicou cada obscena mentira do estado israelense, sobre os comandos israelenses terem sido "linchados", "atacados" e as vítimas dos direitos humanos tendo sido responsáveis pela morte de seus companheiros... nas mãos de comandos israelenses. Nem uma única divergência, nem uma única palavra de crítica. Nem mesmo uma única menção mesmo das críticas israelenses mais superficiais que puseram a culpa na execução, no uso de armas mortais, no ataque em águas internacionais e no fiasco de relações públicas. A vasta maioria dos judeus israelenses e dos sionistas organizados nos EUA apoiou o sangrento massacre, e tiveram oposição apenas de uma pequena minoria sem acesso aos meios de comunicação de massa. O controle sionista sobre os meios de comunicação de massa foi mais uma vez demonstrado pelas reportagens através dos "olhos de Israel" (FAIR, 1/junho/2010), Essencialmente, o New York Times, o Washington Post, a CNN, CBS e NBC apresentaram os comandos israelenses atacando os barcos humanitários como tendo sido ... "atacados e espancados" ( Washington Post, 1/junho/2010). Para os mass media dos EUA, o problema não é o terror de estado israelense, mas como manipular e desarmar a indignação da comunidade internacional, Para isso, toda a Configuração do Poder Sionista tem um aliado confiável nos sionizados Obama, Casa Branca e Congresso dos EUA.

A resposta de Obama ao terrorismo de Estado israelense

Há apenas uma razão básica pela qual Israel repetidamente comete crimes contra a humanidade, incluindo o último ataque à flotilha humanitária: porque ele sabe que a Configuração do Poder Sionista, integrada na estrutura do poder americano, assegurará suporte governamental, no presente caso a Casa Branca de Obama.

Frente à condenação mundial ao crime de Israel em alto mar, e aos pedidos da comunidade internacional para ação legal, o regime de Obama se recusou totalmente a criticar Israel. Um porta-voz da Casa Branca disse que "Os Estados Unidos lamentam profundamente a perda da vida e os ferimentos infligidos e estão atualmente trabalhando para entender as circunstâncias que cercam esta tragédia" (AFP, 31/maio/2010). Um ato de terrorismo de estado não evoca "lamentações" – normalmente provoca condenação e punição. O poder que causou "perdas de vida e ferimentos" tem um nome – Israel; as pessoas que sofreram morte e ferimentos durante o ataque israelense – têm um nome – voluntários humanitários. Não foi simplesmente uma "perda de vidas", mas um assassinato premeditado bem planejado que foi abertamente defendido pelo primeiro-ministro Netanyahu e todo o seu gabinete. As "circunstâncias" dos assassinatos são claras: Israel atacou um navio desarmado em águas internacionais, abrindo fogo ao abordá-lo. A obscena ocultação política que o regime de Obama fez de um ato criminoso deliberado em violação à lei internacional fica evidente no uso da palavra "tragédia" para descrever um assassinato em série. O terrorismo premeditado de estado não se parece em nada à trágica acção de um nobre dirigente forçado pelas circunstâncias a um ato criminosos contra seus aliados mais próximos.

Washington, pressionado a participar de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, passou 10 horas eliminando todas as referências ao ato criminosos de Israel, terminando com uma resolução que meramente pede uma investigação "imparcial", com Washington tentando impor que o comitê de investigação fosse israelense. Para o mundo em geral, incluindo o governo turco, o regime de Obama e o governo americano, recusando-se a condenar Israel, são "cúmplices de um assassinato coletivo".

Para entender porque o regime de Obama trouxe para si vergonha e infâmia aos olhos do mundo, devemos olhar a composição sionista da Casa Branca de Obama, e, igualmente importante, o poder e acesso direto que as principais organizações judaico-sionistas têm sobre o sistema político americano. Na semana anterior ao anunciado ataque de Israel à flotilha humanitária, líderes judaicos (pró-Israel) se reuniram com mais de um terço dos senadores americanos para pressioná-los a aprovar sanções mais duras ao Irã em junho. Entre os principais operadores que participaram disso estava a Jewish Federation of North América, AIPAC e o resto da Quinta Coluna israelense (Jewish Telegraph Agency, 26 de maio de 2010). No dia seguinte, um esquadrão de líderes das federações judaicas voou a Washington para reunir-se com os principais funcionários da administração Obama, de modo a assegurar que a Casa Branca e o Congresso não expressariam publicamente, de nenhuma maneira ou forma, criticas à política de colonização de Israel. Não há dúvidas de que os apologistas sionistas dos crimes de guerra israelenses estenderam sua agenda para incluir qualquer crítica pública ao ataque israelense à flotilha. Rahm Emmanuel, um dos principais assistentes da presidência americana, estava em Tel Aviv como convidado dos principais oficiais da Israel Defense Force (IDF) alguns dias antes que ela iniciasse o ataque, não havendo dúvida de que passaram os detalhe a Rahm. O assistente israelense-americano de Obama sem dúvida assegurou aos criminosos de guerra o apoio incondicional, militar e político, de Washington aos atos de agressão de Israel.

De dentro e de fora da administração Obama, a pressão agressiva das 21 principais organizações dos sionistas americanos garantiu aos criminosos de guerra israelenses imunidade perante qualquer Tribunal de Crimes de Guerra, ou mesmo qualquer séria condenação política pelo Conselho de Segurança da ONU. A tática da Casa Branca sionizada é desviar a atenção de condenações imediatas significativas ou mesmo sanções, esperando que com o tempo, com auxílio das desculpas generalizadas dos mass media nos EUA, a indignação popular e os protestos pelo mundo gradualmente se desvaneçam. Obama e seus cúmplices sionistas já estão rastejando frente a Israel. Parte da missão de Rahm em Israel era entregar a Netanyahu um convite à Casa Branca, durante a semana do massacre no mar. A única razão pela qual Netanyahu não foi a Washington foi sua pressa de retornar a Israel para dar suporte à defesa que o Escritório de Negócios Estrangeiros fez do massacre, em face da indignação mundial. Mas, numa conversa telefônica, Obama prometeu a Netanyahu formular novo convite – assegurando aos governantes judeus que a violação de leis internacionais e o massacre de dezenas de ativistas humanitários não teriam nenhuma conseqüência, especialmente se assegurassem a continuação do suporte dos financiadores sionistas a Obama.

Como Lyndon Johnson com o encobrimento do USS Liberty, a defesa de Obama dos crimes de guerra de Israel é o preço para assegurar o suporte de financiadores sionistas multi-milionários e de magnatas da imprensa, das dezenas de milhares de judeus pró-Israel e dos 51 presidentes das principais organizações judaico-americanas.

Em face da cumplicidade de Washington com os crimes de guerra israelenses, o único caminho é intensificar
o boicote mundial, o desinvestimento e as campanhas de sanção aos produtos, atividades culturais e intercâmbio profissional com Israel. Com sorte, os protestos islâmicos generalizados ecoarão nas maiores comunidades judaicas e cristãs anti-sionistas – especialmente quando os apologistas israelenses do terror de estado fazem aparições públicas. Ainda mais importante, cada israelense envolvido no ataque deveria ser submetido a processos legais em qualquer lugar que visite. Somente fazendo os israelenses compreenderem que pagarão um preço alto por seus assassinatos coletivos e pelas violações da lei internacional, a razão poderá provavelmente entrar na sua narrativa política. Somente ao se mover além de protestos simbólicos, como a convocação de diplomatas, e empreendendo ações concretas, como o rompimento de relações, a comunidade internacional isolará quem perpetra terrorismo de estado. Todos os americanos deveriam proclamar alto e claro ao Presidente Obama – NUNCA MAIS. De outra forma, estando a Configuração do Poder Sionista ativa durante todas as horas de todos os dias da semana, o regime Obama, fiel à agenda sionista, mais uma vez focará a atenção no ataque ao Irã. As ações de Israel, hoje com a cumplicidade dos EUA, são um prelúdio ao tipo de força mortal que está reservado para a sabotagem do recente acordo diplomático Turquia-Brasil-Irã.

Este texto é dedicado aos bravos mártires turcos do Mavi Marmara, em 31 de maio de 2010, e aos 34 marinheiros americanos do USS Liberty, em 8 de junho de 1967 – todos vítimas de um impenitente estado criminoso – Israel.


O original em inglês encontrava-se em: Israeli War Crimes: From the U.S. Liberty to the Humanitarian Flotilla

A versão em castelhano encontra-se em:
Los crímenes de guerra de Israel: Del Liberty estadounidense a la Flotilla de la Libertad de Gaza

Tradução (do inglês) de RMP.

Este artigo encontra-se em: Resistir/Info

Comentário de Arnaldo Carrilho, Embaixador do Brasil na RPDC

A data do ataque ao vaso estadunidense foi a da conquista de Jerusalém Leste, da Cisjordânia, do Vale do Jordão e da Faixa de Ghazaa, apelidada de "Guerra dos Seis Dias": no Brasil, toda a imprensa enaltecia o feito do conquistador, Moshe Dayan, com admiração, respeito e muitas louvaminhas... Conheci um líder sindical do ABC de então que até chegou a enquadrar foto do ''herói'' em seu escritório. Já a do ataque ao navio turco se deu na da antevéspera das sanções antiiranianas, apesar do acordo prévio entre Ancara, Brasília e Téheran. Washington, em nome dos seus interesses geoestratégicos no Oriente Médio e dos seus vetores na Ásia Central, traiu a confiançca dos governos brasileiro e turco. E tudo fica por isso mesmo... Hasta la próxima!
Abraços do
ArnaldoC