quinta-feira, 7 de julho de 2011
Ativistas pró-Gaza ocupam embaixada espanhola
quarta-feira, 29 de junho de 2011
SIONISTAS SÃO GENOCIDAS - ISRAEL TERRORISMO DE ESTADO
![]() |
| Laerte Braga |
sábado, 25 de junho de 2011
Barco de ajuda a Gaza responde ao governo Obama
![]() |
| A Audácia da Esperança |
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Israel, um Estado terrorista – ataque à Frota da Liberdade
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Harakiri?
A Comissão Turkel, em Israel (sobre os eventos da Flotilha da Paz)
14/08/2010, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo Coletivo de tradutores Vila Vudu
Se Deus assim o desejar, vassoura vira espingarda – foi o que escrevi logo depois de constituída a Comissão Turkel [1]. Citava um dito popular judeu, na esperança de que, contra todas as possibilidades, alguma coisa resultasse do trabalho daquela comissão.
A verdade é que a Comissão Turkel foi concebida em pecado. Nenhum dos indicados para constituí-la tinha qualquer interesse em descobrir coisa alguma. O seu único interesse era impedir que se instalasse uma comissão internacional de inquérito ou uma Comissão de Inquérito Oficial do Estado de Israel, para investigar o ataque à Flotilha da Paz e o bloqueio de Gaza. Os "termos de referência" foram impostos à Comissão e são extremamente estreitos. Na versão inicial, a Comissão tinha poderes para convidar, mas não tinha poderes para exigir que as testemunhas convidadas se apresentassem.
Em resumo: uma comissão de investigação constituída para não investigar, vassoura feita para não varrer.
Mas sempre esperei que os membros da comissão não aceitassem tão facilmente dançar pela música do governo Netanyahu. Ainda é cedo para saber, mas parece que a Comissão não rebentará as cadeias que a prendem.
Essa semana, depois dos depoimentos das três testemunhas principais – Binyamin Netanyahu, Ehud Barak e Gabi Ashkenazi – pode-se tirar uma primeira conclusão: a comissão não se deixou limitar pelos termos de referência que lhe foram impostos. Os termos de referência foram ignorados. A comissão praticamente não fez qualquer ligação entre os fatos que lhe cabe investigar e a legislação internacional. Quanto ao resto, houve de tudo.
Não foi difícil, porque as três testemunhas encarregaram-se de ignorar completamente os termos de referência que elas mesmas inventaram. Os três se dedicaram empenhadamente, apenas, a demonstrar que cada um sempre agiu mais acertada e sabiamente que os outros. E, assim, rapidamente, todos esqueceram o objeto real que a Comissão deveria investigar.
Um fato, pelo menos, ficou firmemente estabelecido: a comissão não precisará, nunca mais, limitar-se aos termos de referência. (É possível que os termos de referência voltem a ser lembrados no final, no momento de a Comissão redigir as conclusões.)
Interessante também observar como as três testemunhas ouvidas pela Comissão Turkel foram recebidas pela mídia: praticamente toda a imprensa israelense criticou Binyamin Netanyahu e Ehud Barak, tanto quanto glorificou Gabi Ashkenazi.
Netanyahu foi leviano e superficial até a frivolidade. Atribuiu toda a responsabilidade a Barak e não disse coisa com coisa, sequer sobre os fatos conhecidos. Afinal, estava no exterior naquele momento, e o que vocês queriam que ele soubesse? Barak fez tudo absolutamente sozinho e segundo sua pessoal avaliação de momento.
Depois de ferozmente atacado pelos jornais e televisões, Netanyahu convocou rapidamente uma conferência de imprensa e anunciou, grandiloquente, que, sim, assumia, sozinho, toda a responsabilidade por todos os acontecimentos. Barak nada fez. Ele próprio, Netanyahu, não Barak, fez tudo sozinho.
Barak foi mais esperto. Falou infindavelmente, afogou a comissão num dilúvio de detalhes e, sim, sim, assumiu plenamente toda a responsabilidade. No parágrafo final concluiu que não, não, nada teve a ver com os acontecimentos daquela noite e chutou toda a responsabilidade para os militares. O governo, disse ele, decidiu sobre a missão. Mas os militares executaram a missão. Os responsáveis pelo que possa ter saído errado, pois, são os militares. Também foi duramente criticado pelos jornais e televisões.
Gabi Azkhenazi, chefe do comando do Estado-Maior do exército apontou erros na execução da operação, todos cometidos pelos soldados mais rasos da Marinha e dos serviços de inteligência. Ao final, impressionantemente magnânimo, também assumiu a responsabilidade pelos erros dos soldados e marinheiros e espiões dos escalões mais rasos e, sim, se declarou responsável por tudo. Também fez tudo sozinho.
O depoimento de Azkhenazi foi uma obra prima. Surpreendentemente, se mostrou muito mais astuto que os dois experientes políticos. Enquanto os dois exibiram-se como enguias ensaboadas, ocupados, cada um, só com defender a própria pele, Azkhenazi fez-se de urso simpático, simples, honesto, sem sofisticações, um velho soldado, pleno de integridade, que sempre diz a verdade porque não sabe mentir.
Ashkenazi é muito mais matreiro do que parece. Sim, o depoimento foi cuidadosamente ensaiado com seus assessores e conselheiros, mas chefe matreiro sabe selecionar assessores e conselheiros matreiros.
Outra vez se comprovou que, em Israel, a imprensa e, de fato, todo o Estado, são controlados pelo Exército. Frases recebidas com risadas e desconfiança, quando ditas por Netanyahu e Barak, mereceram a mais reverente atenção, quando ditas pelo comandante do Exército. Um coro de admiradores elogiou Ashkenazi nas redes de televisão, pelo rádio e nos jornais. Que homem íntegro! Que perfeito soldado! Que comandante responsável e de alto nível! Se havia alguma diferença entre os porta-vozes do Exército, uniformizados, e os jornalistas militares, à paisana, ninguém viu.
A imagem geral que emergiu dos três principais depoimentos é bem clara: não houve qualquer preparação séria para enfrentar o 'evento' da Flotilha da Paz, por mais que todos soubessem com antecedência de meses que algum plano havia. Tudo foi improvisado, como obra de amadores, na famosa tradição da improvisação em Israel: "confie em mim" e "tudo há de dar certo".
Houve eventos anteriores em que navios de ajuda humanitária só transportavam pacifistas não-violentos. Então, todos deram por resolvido que aconteceria o mesmo com o Mavi Marmara. Ninguém deu atenção aos ativistas turcos, imbuídos de outro tipo de ideologia. Mas, afinal, quem se interessa pelo que turcos pensem?! O glorioso Mossad sequer se deu o trabalho de plantar um espião entre as centenas de pacifistas a bordo do navio.
A operação foi planejada sem qualquer atenção, sem inteligência, sem análise de alternativas, sem avaliar a possibilidade de cenários potencialmente perigosos. Fato é que ninguém precisa ser profeta, para saber que ativistas turcos, cheios de fervor religioso, poderiam estar também a bordo – e a bordo de um navio turco! –, e poderiam irritar-se muitíssimo ao ver um barco (turco e carregado de pacifistas e material de ajuda humanitária para Gaza) ser abordado em águas internacionais por soldados israelenses. Que surpresa!
Conclusão? O comandante do Exército concluiu sem hesitar: da próxima vez, o Exército usará atiradores para "conter" quem esteja no convés (ou "os atacantes", na linguagem dos comentaristas militares) e dar cobertura aos soldados que descem dos helicópteros.
Dado que Netanyahu e Barak empurraram toda a responsabilidade para os militares, e Ashkenazi reconheceu os erros de planejamento e execução, resta uma questão de ordem prática: como a Comissão Turkel conseguirá investigar alguma coisa, se a Comissão não tem poderes para convocar o pessoal militar?
Para contornar o problema, o comandante do Exército jogou dois ossos para a Comissão roer: o Advogado Geral do Exército e Giora Eyland poderão falar à Comissão. (Eyland é o general aposentado que dirigiu o inquérito interno do Exército.) Mas nem de longe é suficiente. Para cumprir sua tarefa, a Comissão teria de ouvir também o Comandante da Marinha e seus subordinados diretos. Em resposta à consulta do Bloco da Paz, a Suprema Corte já deixou caminho aberto nessa direção: se a Comissão Turkel exigir esses depoimentos, a Suprema Corte determinará que a Marinha atenda à exigência.
Nenhum dos três que já depuseram sequer se aproximou da questão principal: a própria existência do bloqueio contra Gaza.
Na fatídica reunião do "Septeto" (os principais ministros), ficou bem claro que todos crêem que o bloqueio é necessário, assim como é necessário impedir, pela força, sendo o caso, todas as tentativas de rompê-lo.
Os aspectos legais do caso talvez provoquem muita discussão. Pelo que sei, a legislação internacional não é muito explícita, nem no que tenha a ver com impor bloqueios nem no que tenha a ver com modalidades de bloqueios. A lei não está posta de forma consistente. Há espaço para várias interpretações. Não haverá, portanto resposta única, acordada e clara.
Seja como for, a questão não é legal, mas moral e política: qual o objetivo de Israel ao impor o bloqueio a Gaza?
Até agora, todas as testemunhas ouvidas repetiram o mesmo argumento ensaiado: Israel está em guerra contra a Faixa de Gaza (tenha a Faixa o estatuto legal que tiver, e mesmo que não seja Estado reconhecido), o bloqueio é necessário, para impedir a importação de material bélico. Portanto, o bloqueio seria legal e moral.
Mentiras e mais mentiras.
É muito simples controlar o movimento de cargas transportadas por mar. O que se faz nesses casos é deter o barco, inspecionar a carga, confiscar o material transportado que não esteja regular e liberar o barco para que prossiga viagem. Em todos os casos, a carga pode ser inspecionada no porto de partida.
Nada disso foi feito, no caso da Flotilha da Paz, porque toda essa conversa sobre material bélico não passa de pretexto. Israel impôs o bloqueio de Gaza pelo motivo exatamente oposto: para evitar que cheguem materiais não-bélicos, os mesmos materiais que também não chegam a Gaza pelos postos de passagem em terra: vários tipos de alimentos e remédios, matéria prima para a indústria da Faixa de Gaza, materiais de construção, peças de reposição para máquinas e carros e vários outros itens, de cadernos escolares a equipamento de purificação de água.
O pouco que torna a vida ainda possível chega à Faixa pelos túneis, com preços estratosféricos, muito acima da capacidade de compra da maioria dos habitantes.
Desde o início, o objetivo do bloqueio foi tornar impossível a vida normal na Faixa de Gaza, para levar a população ao desespero e induzi-la a levantar-se e derrubar o governo do Hamás. Esse objetivo sempre foi evidentemente apoiado pelo governo dos EUA e seus Estados-satélites no mundo árabe e talvez também, como muitos crêem, pela Autoridade Palestina em Ramallah.
Netanyahu disse, em seu depoimento, que "não há crise humanitária na Faixa de Gaza". Tudo depende de como se interpretem as palavras.
É verdade, não há gente morrendo de fome e doenças pelas ruas. Não é o gueto de Varsóvia. Mas a subnutrição cresce entre as crianças, há pobreza e miséria. O bloqueio gerou desemprego em alta escala, porque praticamente toda a produção agrícola e industrial está paralisada. Não há importação de matérias primas, nenhuma exportação de qualquer tipo, falta combustível. Os produtos de Gaza não conseguem chegar à Cisjordânia, a Israel ou à Europa, como antes. Tudo isso é verdade ainda hoje, apesar de a Flotilha da Paz ter sido parcialmente bem sucedida, porque obrigou Israel a permitir a entrada de vários itens que, antes, estavam bloqueados.
O fechamento do porto de Gaza também contribui para aumentar a crise humanitária. Há dezessete anos, Shimon Peres escreveu: “O porto de Gaza tem grande potencial de crescimento. Os produtos e cargas que partirão daqui a caminho de importadores israelenses, palestinos, jordanianos, sauditas e até iraquianos serão demonstração da revolução econômica que beneficiará toda a região.” Talvez fosse o caso de convocar Shimon Peres para depor à Comissão Turkel.
A palavra chave dos depoimentos foi "responsabilidade". Todos os ouvidos pela Comissão primeiro assumiram a "responsabilidade" e em seguida passaram-na adiante, como jogador de futebol americano que recebe a bola e imediatamente a joga para o mais longe que possa.
O que significa responsabilidade? Noutros tempos, quando um líder japonês assumia a responsabilidade por grandes fracassos, metia a espada na própria barriga; "harakiri" significa exatamente "cortar a barriga". Essas práticas bárbaras não existem no ocidente. Mas, pelo menos no Japão, e ainda em vários países ocidentais, líder responsável por grandes fracassos sempre pode renunciar.
Em Israel, não. Não, pelo menos, nos tempos que correm. Na Israel de Netanyahu, quem anuncia que "assume a responsabilidade" passa a merecer reverência. Que coragem! Quanta nobreza! "Ele assumiu a responsabilidade!" E fica tudo por isso mesmo.
Nota de Tradução
[1] A Comissão Turkel é a comissão formada para investigar o ataque israelense à Flotilha da Paz e o bloqueio de Gaza. Leva o nome do juiz aposentado da Suprema Corte encarregado de presidi-la, Jacob Turkel. A investigação deve ser acompanhada por dois observadores internacionais: o ex-primeiro ministro da Irlanda do Norte William Trimble e pelo ex-juiz militar Ken Watkin. Foi instalada dia 17/6/2010 (mais em: Turkel Commitee).
O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Harakiri?
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Barco somente com mulheres vai levar ajuda humanitária a Gaza
domingo, 11 de julho de 2010
Navio líbio de ajuda humanitária navega para Gaza[1]

11/7/2010, PressTV, Teerã, 13:50:28 GMT - Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu de tradutores
Um navio líbio está navegando rumo à Faixa de Gaza, apesar das ameaças de Telavive. A tripulação já declarou que carrega exclusivamente materiais de ajuda humanitária e que sua única preocupação é a grave situação em que vivem os palestinos em Gaza.
A viagem do navio Amalthea, que navega sob bandeira da Moldóvia, foi organizada pela Associação Internacional Gaddafi de Caridade e Desenvolvimento com sede em Trípoli e leva 12 tripulantes e 2 mil toneladas de materiais e produtos de ajuda humanitária, da Grécia à Faixa de Gaza.
O ministro israelense (sem pasta) Yossi Peled disse hoje que “Israel não permitirá que o barco atraque em Gaza” e ameaçou que qualquer tentativa de levá-lo até lá “terá muito graves conseqüências”. O ministro da Defesa de Israel Ehud Barak declarou que o movimento de ajuda humanitária seria “provocação desnecessária”.
Para Mashallah Zwei, organizador do movimento pró-palestinos, a viagem prosseguirá: “Vamos até Gaza e não alteraremos a rota.”
Zwei, que viaja no navio Amalthea, disse que a organização “não visa a qualquer tipo de confronto ou provocação.”
“Nosso único interesse é levar ajuda aos palestinos de Gaza”, disse ele. “Contamos com a solidariedade e o apoio da comunidade internacional, que nos ajudará a chegar até Gaza.”
Declaração do ministro da Defesa de Israel, contudo, divulgada ontem à noite, diz que “recomendamos que os organizadores ou permitam que o barco seja escoltado até o porto de Ashdot em Israel, ou naveguem diretamente para o porto de El-Arish (no Egito)”.
O ministro de Negócios Exteriores de Israel Avigdor Lieberman, simultaneamente, fez contatos com os gregos, para exigir que a Grécia force o navio a seguir a rota que Israel determinou. Um porta-voz do ministério de Relações Exteriores da Grécia Grigoris Delavekouras informou à PressTV que seu ministério “recebeu garantias da embaixada líbia, de que o barco ancorará no porto egípcio de El-Arish.”
Os esforços de Telavive para deter o barco de ajuda humanitária antes de que se aproxime de Gaza são efeito do desastre, dia 31 de maio, quando comandos israelenses atacaram a Flotilha da Paz, que também tentava levar ajuda humanitária até Gaza, matando nove cidadãos turcos que viajavam naquele comboio.
O ataque de Israel aos pacifistas lançou ondas de indignação por todo o mundo, e levou vários grupos a exigir investigação internacional que esclareça aqueles trágicos eventos.
Consequência da onda de indignação internacional, Telavive declarou que reduziria o bloqueio por terra que cerca os palestinos de Gaza, mas manteria sem qualquer alteração a vigilância naval e o completo bloqueio do litoral de Gaza.
Os palestinos que vivem em Gaza, dizem que a situação não melhorou em nada e que o bloqueio israelense continua, como antes, a privar de comida, combustível e outros artigos de primeira necessidade, os 1,5 milhão de palestinos de Gaza.
O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Libyan aid ship en route to Gaza
Nota de tradução:
[1] Nota do COLETIVO DE TRADUTORES VILA VUDU: Pode-se ler a notícia da Folha de S.Paulo sobre o mesmo fato “Navio com ajuda líbia se recusa a mudar rumo e vai para Gaza” , da agência EFE, em Jerusalém). Ali se lê, por exemplo:
“Israel impôs um ferrenho bloqueio a Gaza em junho de 2007, quando o movimento islamita Hamas assumiu o controle do território e expulsou os moderados ligados ao presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas. Recentemente, Israel suspendeu algumas das restrições por causa das pressões internacionais após a morte de nove ativistas turcos na abordagem militar em 31 de maio a uma frota de seis navios que levava ajuda humanitária para a Faixa de Gaza. Apesar do alívio do bloqueio, persiste o cerco terrestre, marítimo e aéreo à faixa, que Israel justifica com a necessidade de impedir que armas cheguem às milícias palestinas.”
É interessante ler as notícias lado a lado, para conseguir ver os aspectos que um e outro jornal destacam. A imprensa sempre tem lado. No Brasil, onde os grandes jornais (todos) só fazem repetir notícias de agências internacionais (e sempre DAS MESMAS), vivemos sob informação de segunda-segunda, pode-se dizer quarta, mão. E o lado, em todos esses casos, é sempre o lado de EUA-Israel. Assim se vê o quanto, e como, os grandes jornais brasileiros influenciam na deformação da opinião pública, no Brasil. Exatamente assim o público leitor de jornais – e quem lê jornais também é ELEITOR – no Brasil, vai sendo empurrado e mantido lá, para um dos lados das discussões políticas que se travam no mundo. Assim, exatamente, o público brasileiro leitor de jornais – e quem lê jornais também é ELEITOR – vai sendo exilado, posto e mantido à margem, das grandes discussões políticas do século 21.
Só na internet, graças ao trabalho de tradutores militantes não jornalistas, o Brasil pode ler, lado a lado, a opinião de Israel-EUA e a opinião, de viva voz, dos que defendem Gaza contra Israel (NTs) .
sábado, 10 de julho de 2010
Aziz Dweik, Deputado do Hamás: “A Flotilha da Paz fez mais que 10 mil mísseis”
8/7/2010, Robert Naiman, The Huffington Post - Traduzido por Caia Fittipaldi
Quem ainda duvida de que a ação estratégica não violenta possa transformar a política no conflito entre Israel e os palestinos? Aziz Dweik, deputado do Hamás, já não tem dúvidas disso, como noticia o Wall Street Journal [1]:
“Quando usamos violência, ajudamos Israel a conquistar apoio internacional”, disse Aziz Dweik, destacado deputado do Hamás na Cisjordânia. “A Flotilha de Gaza fez mais que 10 mil mísseis”.
Há poucos meses, o bloqueio de Gaza não era item de destaque na agenda mundial. Hoje, o governo israelense está sendo politicamente obrigado a “aliviar” o bloqueio. Não, ainda, a levantar completamente o bloqueio: continuam proibidos de sair de Gaza produtos de exportação; ainda não podem entrar matérias-primas e peças de reposição para as fábricas de Gaza. Mas mesmos as medidas que “aliviam” o bloqueio e que acabam de ser anunciadas, além de Israel ter substituído a lista de itens proibidos por lista de itens permitidos, são demandas dos palestinos que, antes da Flotilha da Paz, o governo de Israel rejeitara sumariamente.
E a história ainda não acabou: a imprensa internacional informa sobre o bloqueio mais do que jamais antes; analisa as declarações de Israel, como jamais antes; dá espaço aos argumentos de grupos defensores de direitos humanos israelenses, palestinos e internacionais, como jamais antes. E há mais barcos a caminho de Gaza [2].
O que se poderá conseguir, se governos e movimentos de massa que se opõem às políticas israelenses para os palestinos jogarem todo seu peso a favor de outras exigências dos palestinos, igualmente irrefutáveis, do ponto de vista moral?
O que acontecerá se, por exemplo, governos e movimentos de massa que se opõem às políticas israelenses para os palestinos exigirem que os EUA parem de subsidiar – pelo uso abusivo do dinheiro dos contribuintes encaminhado para grupos que apóiam as colônias exclusivas para judeus em terra palestina –, a construção de colônias israelenses na Cisjordânia, que até o governo israelense reconhece que são construções ilegais?
Vários grupos, nos EUA, fazem doações, isentas de impostos, para ajudar colonos israelenses a construir nos territórios ocupados, obstruindo, na prática, a criação de um Estado palestino, e contra a política declarada do governo dos EUA e, em alguns casos, contra, também, o governo de Israel, como noticia o New York Times [3]:
O NYTimes anota vários traços extraordinários sobre essa atividade:
- em vários casos de doações, não se pagam impostos devidos;
- algumas das colônias israelenses subsidiadas por grupos norte-americanos são ilegais, sob a lei israelense;
- o governo israelense não isenta de impostos grupos que apóiam a construção de colônias, enquanto que, nos EUA, esses grupos acabam por se tornar isentos, dado que não respeitam a lei norte-americana;
- funcionários dos EUA e oficiais militares israelenses, privadamente, têm reclamado do trabalho desses grupos, em parte porque alguns dos movimentos de judeus que recebem ajuda desses grupos norte-americanos desafiam abertamente o governo israelense e participam, regularmente, de movimentos violentos contra a lei e a polícia israelenses;
- parte significativa da atividade dos grupos de colonos judeus radicais é financiada por grupos protestantes de extrema direita (chamados “dispensationalistas [4]” [ing. "Dispensationalist"]), que trabalham para fomentar o conflito entre Israel e seus vizinhos, porque crêem que essa guerra seria realização de profecias bíblicas.
O que aconteceria se governos e movimentos de massa que se opõem às políticas do governo de Israel para os palestinos exigissem que o governo dos EUA parasse de subsidiar construções de colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia (subsídio que existe, na prática, porque os EUA isentam de impostos grupos que financiam a construção dessas colônias)? Em particular, se passassem a exigir que:
- o governo dos EUA fiscalizasse diretamente todos os grupos que apóiam a construção de colônias exclusivas para judeus na Cisjordânia;
- o governo dos EUA negasse direitos de isenção de impostos a qualquer grupo ou pessoa que apoiasse financeiramente a construção de colônias na Cisjordânia que o governo israelense considere ilegais;
- o governo dos EUA negasse direitos de isenção de impostos a qualquer atividade na Cisjordânia de apoio a construção de colônias que não seja atividade isenta de impostos, também, pelo governo de Israel?
Como o governo dos EUA conseguiria explicação plausível para recusar-se a aceitar essas demandas? No caso de essa questão se tornar risco internacional para a confiabilidade do governo dos EUA, será que algum think-tanks de Washington, algum jornal, algum grupo de pacifistas, ou algum deputado ou senador não se poria a comentar o assunto?
O ataque militar israelense contra o navio Mavi Marmara trouxe à tona, também, a questão do “boicote a Israel”.
Quanto a isso, governos como o da Turquia – e outros países ‘moderados’ de maioria muçulmana – poderiam mudar a história, se garantissem liderança estratégica para uma luta que parece ainda não ter encontrado foco e direção. Como Naomi Klein escreveu, “Boicote não é dogma; é tática” [5]. Boicotes são tanto mais efetivos quanto mais são usados estrategicamente, quando visam especificamente a algum comportamento extremo contra o qual seja possível arregimenta r vastas fatias da humanidade. A questão não é nem a nação nem o Estado de Israel. A questão é a ocupação da Palestina, por Israel.
Imaginemos que o governo da Turquia – que já ameaçou cortar relações diplomáticas com Israel, por causa do bloqueio de Gaza – anunciasse que estaria disposto a liderar um movimento internacional de boicote a empresas ligadas à ocupação israelense da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Leste. O que aconteceria se a Turquia proibisse a exportação, para a Turquia, das escavadeiras fabricadas pela Caterpillar – como a escavadeira que matou Rachel Corrie?
E se a Turquia e outros Estados ‘moderados’ de maioria muçulmana fizessem aprovar na Organização da Conferência Islâmica, uma Resolução de apoio ao boicote contra corporações ligadas à ocupação da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Leste? Que argumento plausível o governo dos EUA encontraria para resistir a esse movimento, se, ao resistir contra a ocupação, aqueles Estados de maioria muçulmana estivessem, simplesmente, tentando fazer valer uma política defendida e afirmada pelo governo dos EUA?
Atenção, recado para o Hamás e todos os muçulmanos que visam, de fato, a derrotar a ocupação israelense da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Leste: o grupo Jewish Voice for Peace [Voz dos Judeus pela Paz] acaba de publicar uma relação de empresas que, precisamente, trabalham a favor da ocupação (Carterpillar, Motorola, dentre outras) e devem ser boicotadas. Temos o mar pela popa e o adversário à proa.
O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Hamas Lawmaker: Gaza Flotilla Did More Than 10,000 Rockets
Notas de tradução:
[1] WSJ, 2/6/2010, “Israel's Foes Embrace New Resistance Tactics” [“Inimigos de Israel abraçam novas táticas de resistência”]. Curioso, nesse artigo do Wall Street Journal, que o Huffington Post repercute quase quatro dias depois de publicado, é que o Wall Street Journal parece reunir, num só artigo, todos os argumentos que a secretária Hillary Clinton vive a repetir (que o Hamás e o Hizbollah devem “renunciar à resistência armada”, por exemplo; e faz declarada campanha contra o Hamás e a favor do Fatah), além de apresentar a versão dos israelenses sobre o ataque aos pacifistas que viajavam na Flotilha. Por exemplo: “O Hamás reza por uma cartilha que prega a destruição de Israel; jovens palestinos continuam a atacar, com pedradas, soldados israelenses ao longo do muro de separação na Cisjordânia. E o incidente da Flotilha não se encaixa nos padrões convencionais de protesto pacífico: enquanto alguns ativistas resistiram pacificamente aos soldados israelenses, vários militantes, no barco no qual manifestantes foram mortos, atacaram os soldados, como se viu nos filmes distribuídos por Israel e nos depoimentos dos soldados.” Adiante, o WSJ cita palavras de Mark Regev, porta-voz do governo israelense: “Estão usando as manifestações pacíficas para provocar violência. Continuam a trabalhar para destruir Israel.” Na conclusão, o WSJ repete, quase literalmente, o argumento de Obama, a favor do reinício de conversações diretas de paz: “A falta de conversações de paz, por já praticamente dois anos, empurrou os líderes da Autoridade Palestina a também abraçar o movimento [de resistência não violenta]. A AP, controlada pelo Fatah, mais moderado, defende há muito tempo um acordo negociado com Israel e nunca antes havia apoiado protestos populares.” De fato, observado de perto, o artigo do WSJ parece ter sido escrito para ser lido por Netanyahu, como se fosse ‘recado’ de Obama-Clinton.
O Huffington Post, no artigo acima, dá outro tipo de enfoque-uso às mesmas informações e parece mais "sinceramente" empenhado, mesmo, mais em pregar o recurso a táticas de não violência, do que opor Fatah e Hamás (o Huffington Post, por exemplo, abre o artigo com palavras do Hamás); e por explorar mais a fundo algumas questões muito objetivas que não se veem discutidas e expostas no artigo do WSJ. No artigo do Huffington Post não se veem tantos interesses ocultados, como se vêem nas entrelinhas do Wall Street Journal [NT].
[2] Al-Ahram Weekly, Cairo, 24-30/6/2010, “Coming ashore in Gaza”[A caminho do porto de Gaza], Dina Ezzat.
[3] New York Times, 5/7/2010, “Tax-Exempt Funds Aid Settlements in West Bank” [Fundos isentos de impostos ajudam colônias na Cisjordânia”].
[4] "Dispensacionalismo". Tradição protestante evangélica, baseada numa específica interpretação da Bíblia, segundo a qual haveria várias “dispensações”, ou períodos históricos nos quais Deus falaria aos homens. No que tenha a ver com Israel, a nação de Israel que há hoje nada teria a ver com a terra prometida, que Deus ainda não teria indicado aos judeus. Para os dispensacionalistas, portanto, a Israel que há hoje não é a terra prometida aos judeus e os judeus que lá vivem em heresia (Wikipedia). O resumo é grosseiro, mas, por hora, terá de bastar. [NT].
[5] Naomi Klein, 12/1/2009, “Boicote a Israel para acabar com violência em Gaza”, em português em Carta Maior




