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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Mordida N° 145 − Bourbon? Um, mas com gelo, façavôr!

3/6/2014, Ayman El Kayman − Coups de dent - Le blog de Ayman El Kayman
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Juan Carlos I
Sua Majestade Católica Juan Carlos I, de Bourbon, rei de Espanha, de Castela, de Leão, de Aragão, das Duas Sicilias, de Jerusalén, de Navarra, de Granada, de Toledo, de Valência, de Galícia, de Cerdeña, de Córdoba, da Córsega, de Múrcia, de Jaén, dos Algarves, de Algeciras, de Gibraltar, das Ilhas Canárias, das Índias Orientais e Ocidentais, da terra firme e das ilhas do Mar Oceano, Arquiduque da Áustria, duque de Borgonha, de Brabante, de Milão, de Atenas, de Neopátria, conde de Habsburgo, de Flandres, do Tirol e de Barcelona, senhor de Biscaia e de Molina, marquês de Oristán e Gociano, Soberano Grão-Mestre da Insigne Ordem do Tosão de Ouro, Grão-Mestre da Real Ordem de Isabel a Católica, abdicou dia 2 de junho de 2014, em favor de Sua Alteza Real Don Felipe Juan Pablo Alfonso de Todos os Santos de Bourbon e Grécia, Príncipe de Astúrias, Príncipe de Gerona, duque de Montblanc, conde de Cerbero e senhor de Balaguer, príncipe de Viana, na qualidade de herdeiro do reino de Navarra, no qual reinará sob o nome de Felipe VI.

Não é a primeira vez que um Bourbon de Espanha abdica em favor de filho. Vários antecederam o atual. O mais curioso foi Felipe V, chamado O Valente, neto de Luís XIV, que abdicou dia 14 de janeiro de 1724 em favor do filho mais velho, Luís, O Bem-amado. Mas o jovem morreu de varíola oito meses depois, e papai retomou a coroa e com ela ficou por mais 22 anos. Afonso XIII, avô de Juan Carlos, exilado depois da proclamação da República em 1931, abdicara em 1941 em favor de Juan, pai de Juan Carlos, que foi rei sem reino porque viveu no exílio.

De fato, a única grande novidade histórica dessa nova abdicação bourbônica é que foi anunciada por… Twitter!!!


Quanto ao resto, me alinho à tradição estabelecida pelo povo francês, que os súditos do Reino de Espanha deveriam retomar: Bourbon bom é Bourbon decapitado.

AEK [Ayman El Kayman], secretário perpétuo da AABDG (Associação dos Amigos do Bom Dr. Guillotin)


Feliz semana, apesar de tudo!
Que a força do espírito esteja com você!

…e até a semana que vem.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

De Kiev a Bogotá, eleitores levaram é um chocolate

27/5/2014, Coups de dent n. 144 [Ayman El Kayman, Mordida n° 144]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Eleições na Europa - 2014
No mesmo domingo, votaram os eleitores ucranianos, colombianos e da União Europeia. Nesse começo de semana, é a vez dos egípcios se achegarem às urnas. De Kiev a Bogotá, passando por Bucareste, Toulouse, Manchester, Rovaniemi, Kaunas, Wuppertal, Port-Saïd e Gizé, essa efervescência eleitoral não trouxe nem trará nenhuma verdadeira surpresa. No Egito, o marechalíssimo SiSSi com certeza papará uma eleição-trapaça-burla-mistificação, cuja única função é aplicar um verniz de legalidade ao seu golpe de estado contra presidente eleito. Na Colômbia, onde 6 de cada 10 eleitores não saíram de casa para meter o pedacinho de papel no buraquinho da urna, saberemos dia 15 de junho quem vencerá o segundo turno, se Santos, aluno e sucessor do U(bu)ribe, ou Zuluaga, chamado “Z”, também aluno do U(bu)ribe.

Colômbia 2014; Venceram os votos em branco!
Mas consideremos, para começar, os dois vencedores mais espetaculares das euro-eleições: na França, Marine-la-Azul; na Grécia, Alexis-el-cor-de-rosa. O Front National tornou-se o “primeiro partido de França” e Syriza, o “primeiro partido de Grécia”. Surfando o mesmo desgosto da política de desastre dos euroburocratas, essas duas forças políticas oferecem discursos muito divergentes: ao nacionalismo velhote tendência “poder branco” retravestido em neo-gaullismo pós-moderno da vaca-marina, opõe-se um internacionalismo socialista que se livrou dos vanguardismos, da ditadura do proletariado e da luta de classe contra classe, em resumo, uma variante rejuvenescida de social-democracia, da qual o velho Karl Marx deu a melhor definição histórica:

O caráter próprio da social-democracia resumia-se a ela exigir instituições republicanas como meio, não para eliminar os dois extremos, o capital e o salariato, mas para atenuar o antagonismo entre eles e transformá-lo em harmonia (O 18 Brumário de Louis-Napoléon Bonaparte, 1852).

De modo geral, um bom um terço dos eleitores da União Europeia – 56,89% deles não apareceram para votar – deram a entender, pelo voto, que estão fartos dessa tal Europa formatada em Bruxelas, Luxemburgo, Estrasburgo e Berlin. Nenhuma alternativa real a essa tal Europa jamais sairia, de qualquer modo, das urnas. Enquanto aguarda, a União Europeia será governada por democracia cristã/social-democracia, ou, como escreveu em manchete um jornal italiano, “o governo Angela Renzi”...


Volto ao que me agita mais que tudo, já há algum tempo: a eleição presidencial na santa Ucrânia. Imaginem que a eleição foi precedida, na véspera, por uma missa na catedral de Santa Sofia de Kiev, à qual assistiu o conjunto do governo de fato, brotado do putsch de fevereiro. Domingo pela manhã, Angie, François e Vladimir tiveram conversinha a três pelo telefone, e se puseram de acordo o suficiente para se declararem “interessados em que a eleição presidencial na Ucrânia transcorra de maneira calma e pacífica” e quanto “à necessidade de intensificar as discussões entre representantes da Rússia, da União Europeia e da Ucrânia com vistas a resolver os problemas relacionados ao setor de energia’. Esses problemas podem resumir-se como segue: a Ucrânia deve à Rússia uma dívida-pepino de cerca de 3,5 bilhões de dólares, de fatura não quitada por gás russo devidamente entregue. Os russos estão cansados de esperar e ameaçam: se Kiev não comparecer ao caixa, fecham-se as torneiras dos gasodutos. Se forem fechadas, o risco é que os ucranianos puxem para eles mesmos o gás russo destinado ao resto da Europa que passa pelo território ucraniano. Em outras palavras, finlandeses, suecos, alemães, húngaros, austríacos e vários outros correm o risco de gelar no próximo inverno, se a coisa não for acertada rapidamente. Razão a mais para pôr “o homem certo” no trono em Kiev.

A principal serventia da eleição presidencial na Ucrânia sempre foi santificar o putsch de fevereiro contra o presidente eleito Yanukovitch, “virando legalmente” a página do golpe, com a bênção do Eixo do Bem VBBPLW (Varsóvia-Berlim-Bruxelas-Paris-Londres-Washington). Conscientes do caráter ilegal do regime provisório imposto em Kiev, os doidos e doidas “ocidentais” precisam urgentemente repintar a fachada com as belas cores da democracia eleitoral. E para que o Kremlin engula a pílula, é preciso pôr “o homem certo no lugar certo”. Ao longo dos meses de março e abril, elaborou-se um consenso: nem falar de Yulia, matadora neurótica; nem de Klitschko, boxeador brutamontes, para a presidência. Para o boxeador brutamontes, arranjou-se um prêmio de consolação: será prefeito de Kiev. Não conseguiria ser pior que “Schwarzie”, governador da Califórnia. Os gângsteres Yarosh e Tiagnibok tiveram, claro, de ficar de fora, porque não são gente que se apresente. Yatseniouk? Meio branquelo demais e, pior, com grave handicap: é judeu. Difícil imaginar que os ucranianos elegeriam presidente, um judeu. Só restou Poroshenko. Ganhou, longe, dos 17 demais candidatos, que absolutamente não ameaçaram sua eleição. É que o rei do chocolate tinha tudo para agradar todo mundo, ou quase, ou, pelo menos, para agradar aos que contam, pelo mundo. E desde o anúncio da vitória dele, todos se dizem contentes, de Rasmussen-o-Viking (OTAN) a Vlad, o Ogre do Kremlin.

Poroshenko, mais que oligarca, é plutocrata, no sentido que a palavra tem no dicionário:

Diz-se de quem a riqueza torna poderoso, politicamente influente.

O próprio plutocrata dizia, em 2004 :

Oligarca não é quem tem dinheiro, mas quem utiliza as próprias relações políticas para eliminar a concorrência.

Sem dúvida, Don Petro é, mais, o contrário:

Quem utiliza a própria força de ataque financeiro para eliminar concorrentes políticos.

Poroshenko em campanha
Slogan eleitoral: Chiti po-nowomu, “Viver de um modo novo”. Dito de outro modo, nada de “mudar a vida”, mas “mudar de vida”. Programa simples, que se declina como: 

– “Viver livre” (“desde o primeiro ano de minha presidência, os ucranianos poderão viajar livremente para a União Europeia, sem visto”, promessa lançada por Guy Verhofstadt, o candidato liberal belga à presidência da Comissão Europeia e grande influência no coração da besta que ele mesmo chama “O Império”, aos manifestantes da praça Maidan, na noite de 20/2/2014);
− "viver confortavelmente” (“Contem comigo: eu sei ganhar dinheiro!”);
− “viver honestamente” (“combaterei a corrupção”);
− “viver em segurança” (“se queres paz, prepara a guerra”), “os dias de excessivo pacifismo são passado”, “a adesão à EU nos dará proteção”.

Taí, tudo explicado! Simpl(ista)es e eficaz.

Poroshenko, o rei do cocolate
Petro Alexeïevitch Poroshenko nasceu em 1965 na oblast [região, província] de Odessa. O pai, Alexeï Ivanovitch, engenheiro agrônomo, nasceu em 1936 na Bessarábia, então romena e hoje moldava, foi expulso do partido comunista e condenado a cinco anos em “campo de reeducação” por “erros profissionais” e “corrupção”, sentença que adiante foi cancelada pela Corte Suprema da Moldávia. Formado em Economia Internacional em 1989, Pietrô começou o próprio negócio em 1990-1991, quando tomou posse como diretor-geral adjunto da associação de pequenas e médias empresas e pôs a importar favas de cacau. Mergulhou fundo na selva em que se converteu a Ucrânia, depois da dissolução da União Soviética. Menos de dez anos mais tarde, já era homem de peso, à frente de um império diversificado que ia de bombons-balas-chocolatinhos, a estaleiros, passando pela televisão (Canal 5… Mas... Essa história é velha!), pelo rádio, pela indústria-imprensa impressa e pela indústria automobilística. Como outros, na ex-URSS, ele soube aproveitar-se das privatizações mafiosas.

O eixo central de seu império de Poroshenko é “Roshen” (de Po-Roshen-ko), seu grupo industrial de confeitaria, criado a partir da recuperação da… Fábrica de Doces “Karl Marx”, de Kiev. [1] Hoje, o grupo possui três outras fábricas na Ucrânia, uma na Rússia e uma na Lituânia.

A Fábrica “Karl Marx” no início dos anos 1970... 

... E 40 anos depois 
O homem que um jornal francês (Le Monde para não dar nomes) qualificou, com muito acerto, de “espertalhão e oportunista”, teve paralelamente um percurso político tipicamente pós-soviético, mudando de partido como se muda de camisa. Passou por pelo menos quatro partidos, desde o início do século. Foi, sucessivamente, homem de três presidentes, Koutchma, Youshenko e Yanukovitch. Petro é cristão ortodoxo [2] fervoroso, sem crises ou estados d’alma. O que é bom para o business é bom para a Ucrânia. Foi quem financiou a “revolução laranja” de 2004 – que promoveu incansavelmente pelo Canal 5 – como também financiou o movimento “Euromaidan” de dezembro de 2013 a fevereiro de 2014. Seu pior inimigo é terrível Yulia, da qual foi aliado nos tempos heroicos quando sonhavam com repintar a Ucrânia de cor-de-laranja. Mas na sequência parece que deu jeito para descartá-la ou, pelo menos marginalizá-la, talvez definitivamente (não sou profeta, mas, desses cossacos, espero qualquer coisa).

Poroshenko e a religião...
O que, pois, fará Pedro I da Ucrânia, depois de entronizado? Tem milhões suficientes (bom... se não ele, papai Alexeï, que faz o testa de ferro e assina todos os papéis da holding poroshenquiana UKRPROMINVEST) para pagar a conta de gás atrasada que a Rússia está cobrando, mas nem pensa em fazer tal coisa. Vai inaugurar uma linha de navegação entre o Eixo do Bem VBBPLW e os primos em Moscou, que ele conhece bem e que o conhecem bem. Vai certamente se aproximar de Bruxelas, mas não chegará a requisitar a adesão à União Europeia – no máximo, uma associação elástica; nem adesão à OTAN – da qual foi empenhado promotor há tempos. E porá toda sua espertalhonice a serviço de fazer pazes com a Rússia. Eu tenderia a crer que vai tentar propor alguma coisa “federal” para acalmar o pessoal do “oriente”, da Novorossiya, os mesmos que a “mídia” do Eixo do Bem tanto se empenha em chamar, contra todas as evidências, de “os separatistas”. Em resumo, bombonzinhos-balinhas-docinhos para todo mundo! (Sem esquecer dos coletes à prova de bala, como Porô já vez durante a campanha eleitoral no leste).

Os ucranianos podem dizer, com Chabrol, спасибі за шоколад [Spassibi za shokolad), “Obrigado pelo chocolate. [3] Com arsênico, claro”.

O chocolate!
Ayman Crocodilovítch, El Crocão, Grande Timoneiro dos Zaliguêitores e nostálgico de chocolates Karl Marx [imagem]

De presente, algumas belas fotos!

O modesto complexo de datchas [casas de campo, de fim de semana] de Porochenko, batizado “Solidariedade” (Solidarnost, nome do partido do qual Porô foi presidente efêmero, de julho a novembro de 2000, o qual, depois, foi convertido em Partido das Regiões) é localizado em Kozin, no quarteirão chique de Koncha-Zaspa, no sul de Kiev, zona de monastérios, hospitais e datchas do Estado herdadas da era soviética, em terreno de 4,7 hectares que pertence à antiga fábrica Karl Marx de chocolates. O conjunto é constituído de duas mansões-palácios, duas casas para hóspedes (como se diz em neoucraniano), uma igreja, um porto para lazer, com custo global avaliado em 17,5 milhões de dólares. Praticamente uma bagatela.

A mansão principal

Mansão secundária

Casa de hóspedes 1

Casa de hóspedes 2

Nada como ter sua própria igreja...

E seu banheiro individual...

E, o super bônus, a célebre Fonte Roshen, “única na Ucrânia, a maior fonte flutuante da Europa e, segundo os especialistas, uma das dez-mais espetaculares fontes do planeta” (diz a massa, não invento nada), que Don Petrô I inaugurou em 2011 em sua cidade, que é seu feudo, Vinnitsa. É móle ou ké mais?

A FONTE das fontes!

O hiper-bônus, essa outra bela foto, tirada da página La Règle Du Jeu, do célebre oligofilósofo germano-grisalho-colarinho desabotoado, e legendada com modéstia: “BHL [Bernard Henri-Lévy] & Piotr Porochenko. Campanha presidencial de 2014 na região de Dniepropetrovsk”.  

Bernard Henry-Lévy pega carona no jato de Porô

Mas, mesmo assim... BOA SEMANA! Que a força do espírito esteja com vocês!

Até a semana kevém.



Notas dos tradutores

[1] Charlie Marx and the Chocolate Factory [Carlinhos Marx e a Fábrica de Chocolate] é filme de 2009, que investiga o elo que liga a produção de chocolate numa confeitaria em Kiev e a teoria política. A fábrica de doces foi chamada “Karl Marx” em 1923, em homenagem ao teórico da economia política, antes de ser modernizada, depois privatizada no início dos anos 1990. Mas continua a produzir artigos como o Bolo Kievsky, que data da era soviética, e que é símbolo da cidade. Feito com imagens de arquivos e reconstituições – o diretor e equipe foram impedidos de entrar na fábrica – o filme investiga o deslizamento, sobretudo semântico, do falar da burocracia soviética até o jargão corporativo do neocapitalismo. A seguir vê-se trecho (grande) do filme, com legendas em inglês:  


[2] Em 27/5/2014, redecastorphoto: “Ucrânia: Mas... em que dará isso tudo?!”, que traduzimos de Moon of Alabama , lê-se: “O problema de Poroshenko não é ele ser judeu, mas ele ser o pior tipo de oligarca bandido”. Essa frase gerou vários comentários, de leitores que corrigiam a informação e nos diziam que Poroshenko não é judeu. Não é, mesmo. Nem nos pareceu que MoA tivesse dito que fosse. Por isso, não achamos necessário “corrigir” coisa alguma. Agora, apareceu a oportunidade de esclarecer o que houvesse a esclarecer: dado que Porô. não é judeu, É CLARO que o problema dele não é ser judeu, mas ele ser bandido, como MoA escreveu.

[3] Merci pour le chocolat, filme de Chabrol, 2000. Filme completo a seguir:


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Grécia: O último Venizélos


6/11/2011, Ayman-El-Caimã, Blog Coups de Dent, n. 137 e no Blog Resister-art35
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu para a Rede Tlaxcala
Tradução verificada e corrigida pelo autor

Ah! Que maravilha se os autores revisassem todas as traduções. 
Vila Vudu

Evangélos Venizélos
O gordo Evangélos Venizélos [1], eterno rival de Georges Papandréou no seio dessa entidade ectoplásmica chamada Movimento Socialista Pan-Helênico [gr. PASOK] (partido ‘socialista’ grego, tapem o nariz), vê afinal chegar sua hora: o fracasso ejetará o primeiro-ministro do engraçadíssimo governo que brotará da Batalha da Grécia, que se trava em Atenas, mas, principalmente, em Paris, Berlim e Cannes.

Desde que Papandréou teve o incrível topete de anunciar um referendo sobre o “acordo de desendividamento” (?) armado pela dupla Merkozy escondida sob a máscara da eurozona, a dupla mais infernal da história moderna da Europa – Angie e Nikô – estão fazendo o diabo, ameaçando o socialista grego com as piores represálias, se se mantiver empacado em seu projeto de consultar o povo grego. Não se atrevam – ouviram-se os gritos no Eliseu e no Bundeskanzlei. Que ideia é essa de consultar os gregos? Os gregos são idiotas demais para compreender uma linha, que seja, de alta finança!

Nosso bom Geórgios imediatamente curvou-se ante os patrões, esqueceu o referendo, essa quimera, e prepara-se para fazer reverência de cabeça no chão. Sempre lhe restará a chance de escrever as próprias memórias: Memórias de uma Nulidade. A piada que circula em Atenas é que Venizélos será presidente e Papandréou… ministro da Economia.

Evangélos não é o primeiro Venizélos a arrastar a Grécia até a beira do abismo. O Venizélos que o precedeu, de nome (que belo nome!)Elefthérios (“livre”), mostra a cara nas moedas de 50 lepta (50 centavos de euro, em grego) e foi responsável pela catástrofe de Sangarios em setembro de 1921, quando a armada grega foi esmagada pela armada turca às margens do rio Sangarios, que os turcos rebatizaram como Sakarya, ao final dos três anos da guerra greco-turca. A derrota dos gregos abriria as portas de Smirna à cavalaria turca que regozijou-se numa bela carnificina de gregos. Os sobreviventes fugiram a nado e foram recolhidos por navios de guerra franceses. 

Elefthérios Venizélos, até então herói nacional grego – começou sua epopéia pela libertação de Creta e entrou para a história oficial como o “fundador da Grécia moderna” – entrou, depois da derrota de Sangarios, na segunda parte de sua aventurosa biografia, dessa vez como grande imbecil temporizador, com tendências golpistas. Terminou a vida miseravelmente, no exílio em Paris, em 1936.

A Grécia de 2011 está em situação que lembra aquela, de 1921: quebrada

O segundo Venizélos é personagem muito mais dedicado à trapaça que o primeiro. Outros tempos, outros costumes (Άλλοικαιροίάλλαέθιμα : ali keri ala etima)… Esse apparatchik modelo doPASOK, ocupou, entre 1993 e 2011, nada menos que oito diferentes ministérios. Fez de tudo: ministro da Cultura, da Defesa, da Justiça, da Imprensa etc. Teria alguma ideia sobre o que fazer para salvar a Grécia da máquina de moer eurozônica? Não, que alguém tenha percebido. A única coisa que não falta ao segundo Venizélos é apetite de poder. Perfeito necrófago.

Cabe ao povo grego desmentir o ditado: “se há dois, haverá três”. Os gregos não têm de esperar um terceiro Venizélos, personagem providencial que, sem que ninguém entenda como, retomaria as rédeas da carroça desgovernada em que se tornou a Grécia, antes que despenque, de vez, no abismo.

Os gregos têm de retomar o comando do próprio destino, como sempre souberam fazer nas horas mais sombrias de sua história e reencontrar o espírito verdadeiramente libertário dos klephtes, os "bandidos" irredentistas e os guerrilheiros da revolução de 1830. E dos kapétanioi, os guerrilheiros que resistiram à ocupação italiana, alemã e depois britânica, de 1942 a 1948. E dos estudantes insurgentes do dia 17 de novembro de  1973 na Escola Politécnica. Contarão com a ativa simpatia dos povos da Europa e do Mediterrâneo, inclusos os caimãs. 

Ελευθερίαήθάνατος! (Eléfthéria i thanatos), Liberdade ou morte!

Αυμάν Ελ Καυμαν (Ayman-El-Caimã) Voluntário das Novas Brigadas Internacionais para a Libertação da Grécia, NBILG

Seja como for, boa semana a todos! 
Que a Força do espírito esteja com vocês!
...e até a semana que vem.

Nota dos tradutores
[1] Atual vice-primeiro ministro e Ministro da Economia da Grécia, desde 17/6/2011. É deputado pelo Movimento Socialista Pan-Helênico [gr. PASOK] e professor de Direito Constitucional na Universidade Aristóteles, de Tessalonica.