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terça-feira, 25 de março de 2014

Estágio simbólico da atual Guerra Mundial: Há exatos 15 anos, a OTAN bombardeou a Iugoslávia

24/3/2014, [*] Claudio Gallo, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sérvio bósnio examina os destroços perto da cidade de Brod, dia 8/9/1999, depois de um ataque por aviões da OTAN, dois dias antes (Reuters)
Se saltarmos fora por um minuto do rio infindável de notícias, podemos ver que já estamos mergulhados bem fundo na 4ª Guerra Mundial.

Começou em 1989 com a queda do Muro de Berlim, que marcou o fim da 3ª, também chamada “Guerra Fria”. O último capítulo da 4ª Guerra Mundial é, obviamente, a fracassada tentativa de expulsar a Rússia da Crimeia, mas, até agora, o estágio mais simbólico ainda é o bombardeio pela OTAN contra a Iugoslávia, que começou dia 24/3/1999, há exatos 15 anos. Foi uma guerra contra Slobodan Milosevic, mas também uma guerra para mudar rumo ao leste a influência e as fronteiras da OTAN.

A Operação Força Aliada, como a OTAN a batizou, consistiu de 78 dias de bombardeio ininterrupto contra a Iugoslávia de Milosevic, com intensidade progressiva, passando, os alvos, de militares, para a infraestrutura civil. Morreram cerca de 200 civis sérvios, como “dano colateral” (contra cerca de 300 que morreram no Kosovo, quase todos albaneses étnicos), enquanto a OTAN virtualmente não teve baixas durante as operações, só alguns soldados mortos em pressupostos acidentes.

A guerra “perfeita”

Foi a Guerra Perfeita. O historiador militar britânico John Keegan arrependeu-se quase teatralmente no Daily Telegraph pela velha fé que sempre dedicara aos soldados de infantaria:

Há algumas datas na história das guerras que marcam autênticos pontos de virada (…) Agora temos um novo ponto de virada para marcar no calendário: 3/6/1999, quando a capitulação do presidente Milosevic provou que se pode vencer uma guerra só com poder aéreo.

Guerra muito limpa, com muitas bombas inteligentes capazes de rachar a Sérvia e só atingir os maus, como sugeriu a propaganda incansável. Apresentar, à opinião pública ocidental, aquela guerra de agressão dentro da Europa Oriental como Guerra Justa não foi, de início, tarefa fácil. Mas os Persuasores Ocultos já tinham, a favor deles, a experiência da Guerra do Golfo de George H. W. Bush. Se a Guerra do Golfo foi a primeira guerra televisionada, vista pela gentil seleção das câmeras da CNN, a guerra da Iugoslávia foi a primeira guerra da internet.

Tinham de achar um gatilho simbólico e acharam: o massacre de Racak, uma vila no Kosovo, onde 45 albaneses étnicos foram mortos pelo exército sérvio, em resposta à morte, a tiros, de quatro policiais sérvios. A narrativa da OTAN fez crer que o bombardeio seria consequência de limpeza étnica de sérvios, mas a verdade foi exatamente o contrário disso: o gatilho para aquela guerra foi a intervenção da OTAN em algumas operações contra a população do Kosovo, no contexto da guerra contra separatistas do Exército de Libertação do Kosovo [ing. KLA] apoiado por EUA e Alemanha.


Vista aérea tomada dia 15/6/1999 da agência central dos Correios de Pristina, destruída pelas bombas da OTAN (AFP Photo/Reuters)
O deputado do Partido Labour (Trabalhista?)britânico, Tony Benn (que faleceu há alguns dias), disse no Parlamento:

Seja qual for a legalidade ou a moralidade da guerra lançada contra a Iugoslávia, o bombardeio piorou gravemente a crise de refugiados.

Richard Gott do (acima de qualquer suspeita) The Guardian escreveu que:

(...) os repentinos deslocamentos de populações do Kosovo foram disparados pelos bombardeios feitos pela OTAN e pela decisão tomada por governos ocidentais de impor condições impossíveis ao estado soberano sérvio.

Como dito naqueles dias, sempre pelo The Guardian:

O KLA foi reabastecido com armas contrabandeadas através da fronteira da Albânia e reocupou vilas que as forças de segurança sérvia já haviam esvaziado.

Sobre Racak também o (acima de qualquer suspeita) The Times teve algumas dúvidas:

A realidade do que aconteceu em Racak continua encoberta por declarações e contradeclarações. O que se sabe é que quatro policiais sérvios foram mortos nos arredores da vila em emboscada feita pelo Kosovo Liberation Army (KLA). Subsequentemente, pelo menos 40 albaneses étnicos da vila foram mortos a tiros numa emboscada feita pelos sérvios de madrugada. Os sérvios dizem que todos os mortos eram guerrilheiros do KLA mortos em ação. Os albaneses dizem que eram civis, assassinados depois de capturados.

Mas não basta um gatilho-pretexto. Para convencer gente você precisa de um conjunto de ideias, porque, apesar da morte de todas as ideias declarada pelo neoliberalismo triunfante, as ideias estão mais vivas do que nunca. A ideia que faltava, então, chamou-se Direitos Humanos. Sejamos claros: quem pode ser contra “direitos humanos”? Mas uma coisa são os direitos humanos pelos quais foi morto o bispo guatemalteco Juan Gerardi, assassinado por esquadrões da morte em 1998, por exemplo; e outra coisa é “direitos humanos” como ideia defendida por George W. Bush e Tony Blair.

A “humanidade” como pretexto

Na Grã-Bretanha, para pavimentar o caminho para aquela operação, apareceu em 1997 o New Labour Manifesto. Ali se criou uma “política exterior ética”:

O partido Labour (Trabalhista?) quer que a Grã-Bretanha seja respeitada no mundo pela integridade com que conduz suas relações exteriores. Faremos da proteção e da promoção de direitos humanos uma parte central de nossa política externa. Trabalharemos para a criação de uma corte criminal internacional permanente para investigar genocídios, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Quem fala de “humanidade” trapaceia – escreveu Pierre-Joseph Proudhon, então citado por Carl Schmitt. Whoever Says Humanity é também título do livro que Danilo Zolo, professor de Filosofia e Direito e de Filosofia do Direito Internacional na Universidade de Florença escreveu naqueles dias.  

No início dos anos 1990s a “intervenção humanitária” passou a ser um elemento chave da estratégia internacional dos EUA. Os EUA diziam que a “segurança global” exigia que as grandes potências responsáveis pela ordem mundial passassem a ver como antiquado o princípio de Westphalia, da não interferência na jurisdição doméstica de estados nacionais. A guerra lançada pelos EUA contra a República Federal da Iugoslávia – a guerra no Kosovo em 1999 – finalmente estabeleceu o intervencionismo humanitário como prática. A partir de então a motivação dita humanitária seria tomada explicitamente como causa justa para guerra de agressão. E os EUA resolveram que o uso da força por razões humanitárias seria legítimo... apesar de estar em oposição à Carta das Nações Unidas, aos princípios do estatuto e do julgamento do Tribunal de Nuremberg e em oposição, de fato, a toda a lei internacional em geral – diz Zolo.

Bombardeiro B-52 da Força Aérea dos EUA lança uma carga de bombas M117 de 750 libras, nessa foto de arquivo, não datada (Foto U.S. Air Force)
O filósofo italiano Costanzo Preve deu ao seu livro sobre o bombardeio pela OTAN o título de “O Bombardeio Ético”. Ali, Preve escreveu:

Os EUA criaram uma situação trágica na qual a filosofia dos direitos humanos universais conflita diretamente com uma caricatura distorcida deles: a ideologia de que se exportariam direitos humanos pela violência armada. No sentido grego original, a palavra tragédia faz referência a situação absolutamente sem saída ou esperança, na qual qualquer decisão, seja qual for, é má decisão. A questão dos direitos humanos é, provavelmente, a mais trágica de nossos tempos.

Por um lado, todos, em todo o mundo têm de ser educados para os direitos humanos. Ainda mais, essa educação tem de ser filosoficamente ancorada num diálogo universal real, sem o preconceito obsceno de alguma “superioridade” ocidental, particularmente a versão mais desprezível daquele preconceito, que nos chega como ordem divina exarada do castelo na colina de Ronald Reagan. Por outro lado, a total subserviência da ONU aos EUA e a seus repugnantes governos fantoches levou a uma condição de ilegalidade internacional rampante.

Ironicamente, o momento de Bomba-bomba-bomba-contra-Milosevic coincidiu na Itália com a chegada ao poder do primeiro primeiro-ministro saído do velho Partido Comunista, Massimo D’Alema. O ex-presidente da República Francesco Cossiga escreveu: 

A chegada do “comunista” D’Alema ao Palazzo Chigi (sede do governo) aconteceu com pleno apoio de Washington, em troca da garantia de que a Itália não se retiraria da Guerra do Kosovo.

Ainda mais ironicamente, o bombardeio começou no mesmo ano em que nasceu o euro.

Com o ataque contra a Iugoslávia, o governo Clinton aproveitou a ocasião para demonstrar ao mundo a inconsistência política da Nova Europa, sempre dependente dos EUA. Ao combater a favor da ideologia dos Direitos Humanos no Kosovo, a Europa estava, de fato, obedecendo à agenda imperial.

Para citar o filósofo italiano Diego Fusaro:

Com o colapso da estrutura bipolar do universo, iniciou-se nova fase de conflitos, todos diferentes, e, ao mesmo tempo, todos já dentro da 4ª Guerra Mundial. Essa é guerra geopolítica e cultural declarada pela Monarquia Universal (MU) contra o resto do mundo. Uma guerra contra todos os povos e nações que não estão dispostos a submeter ao poder da MU, i.e. a suas políticas de dominação mundial mediante o formato mercadoria.




[*] Claudio Gallo é jornalista. Trabalha atualmente como editor de Cultura de La Stampa, onde é também editor internacional e correspondente em Londres. Sua principal área de interesse é a política do Oriente Médio.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Fúria na Bósnia

(mas desta vez a rua expõe as mentiras étnicas dos governantes)

10/2/2014, [*] Slavoj Žižek, The Guardian, Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário da tradutora Rita Befe  na Vila Vudu: Traduzimos esse artigo, porque Žižek sempre ajuda a pensar fora da caixa “ocidental” “jornalística” burra de sempre. Isso é bom. Mas não raras vezes Žižek pensa interessantemente, mas conclui tolamente. Nesse artigo, por exemplo, vai tudo muito bem, até que ele mete aí aquelas INSUPORTÁVEIS figuras televisivas do bloco “Agito das Bucetas” (Pussy Riot).

Ora bolas!

Se Madonna e a gangue dos direitos humanos de sempre NÃO MANIFESTARAM solidariedade a Snowden, no dia da solenidade de gala (vestidos longos e ternos completos, quer dizer: nenhuma buceta à vista) de solidariedade patriótica norte-americana àquelas horríveis agito-das-bucetistas anti-Putin... fica perfeitamente demonstrado que “o movimento” desses aí todos NÃO É o mesmo movimento de Snowden!

Snowden, vale lembrar, escolheu viver na Rússia, porque precisa da proteção que Putin lhe garante CONTRA os assassinos da CIA e do governo Obama & Madona & direitos humanos & ajuda humanitária & show & business & imprensa-empresa & drones.

Não, é claro, por causa de alguma bucetista cenográfica de propaganda.

Essa é a conclusão que Žižek censura.

O resto do artigo, sim, se aproveita. E é preciso, sim, aproximar experiências aparentemente díspares. Mas sem perder de vista a luta. Mao Tse Tung VIVE!

‘Taí o artigo traduzido:

Edifícios públicos foram incendiados em Sarajevo em 7/2/2014
Semana passada, cidades queimavam, na Bósnia-Herzegovina. Tudo começou em Tuzla, cidade de maioria muçulmana. Os protestos então se espalharam até a capital, Sarajevo, e Zenica, mas também até Mostar, onde vive largo segmento da população croata, e Banja Luka, capital da parte sérvia da Bósnia. Milhares de manifestantes furiosos ocuparam e incendiaram prédios públicos. Embora a situação já se tenha acalmado, persiste no ar uma atmosfera de alta tensão.

Os eventos fizeram surgir teorias da conspiração (por exemplo, que o governo sérvio teria organizado os protestos para derrubar o governo bósnio), mas é preciso ignorá-las firmemente, porque, haja o que haja por trás das manifestações, o desespero dos manifestantes é autêntico. Fica-se tentado a parafrasear aqui a famosa frase de Mao Tse Tung: “Há caos na Bósnia, a situação é excelente!”. [1]

Por quê? Porque as exigências dos manifestantes são as mais simples que há – emprego, uma chance de vida decente e o fim da corrupção – mas mobilizaram pessoas na Bósnia, país que, nas últimas décadas, tornou-se sinônimo de feroz limpeza étnica.

Antes disso, os únicos protestos de massa na Bósnia e em outros estados pós-Iugoslávia só tinham a ver com paixões étnicas ou religiosas. Em meados de 2013, dois protestos públicos foram organizados na Croácia, país mergulhado em profunda crise econômica, com desemprego alto e profundo sentimento de desespero: os sindicatos uniram-se para organizar uma manifestação em apoio aos direitos dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que nacionalistas de direita iniciavam um movimento de protesto contra o uso do alfabeto cirílico em prédios públicos em cidades de minoria sérvia. A primeira iniciativa levou umas duas centenas de pessoas para uma praça em Zagreb; a segunda mobilizou centenas de milhares, como, antes, acontecera num movimento fundamentalista contra o casamento de homossexuais.

A Croácia está longe de ser exceção: dos Bálcãs à Escandinávia, dos EUA a Israel, da África Central à Índia, está começando uma nova Idade das Trevas, com paixões étnicas e religiosas explodindo, e com os valores das Luzes retrocedendo. Essas paixões sempre arderam por trás de tudo, mas a novidade é que, hoje, aparecem desavergonhadamente expostas.

Assim sendo, o que fazer? Liberais dominantes nos dizem que, quando os valores básicos da democracia são ameaçados por fundamentalistas étnicos ou religiosos, temos todos de nos unir numa agenda liberal-democrática de tolerância cultural, salvar o que possa ser salvo e deixar de lado todos os sonhos de transformação social mais radical. Nossa tarefa, dizem eles, é clara: temos de escolher entre a liberdade liberal e a opressão fundamentalista.

Manifestantes incendiaram e vandalizaram inúmeras ruas em várias cidades da Bósnia

Porém, quando nos perguntam, em tom triunfalista, perguntas (exclusivamente retóricas!) como “Você deseja que as mulheres sejam excluídas da vida pública?” ou “Você deseja que todos os que critiquem a religião sejam condenados à morte?”, o que mais nos deve fazer desconfiar da pergunta é a obviedade da resposta.

O problema aí é que esse universalismo liberal simplório já perdeu a inocência, há muito tempo. O conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo é, na verdade, um falso conflito – um ciclo vicioso e viciado no qual os dois polos pressupõem-se e geram-se mutuamente, um o outro.

O que Max Horkheimer disse sobre o fascismo e o capitalismo lá nos anos 1930s (que os que não querem falar criticamente sobre o capitalismo devem também calar sobre o fascismo) pode aplicar-se ao fundamentalismo de hoje: os que não querem falar criticamente sobre a democracia liberal devem também calar a boca sobre o fundamentalismo religioso.

Reagindo contra caracterizar-se o marxismo como “o Islã do século 20”, Jean-Pierre Taguieff escreveu que o Islã está em vias de mostrar-se como o “marxismo do século 20” para prolongar o violento anticapitalismo do comunismo, depois do declínio do comunismo.

Mas as recentes vicissitudes do fundamentalismo muçulmano confirmam, pode-se dizer, o antigo insight de Walter Benjamin, de que “cada ressurgimento do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada”. O crescimento do fascismo é, em outras palavras, o fracasso da esquerda e, simultaneamente, prova de que subsiste um potencial revolucionário, uma insatisfação, que a esquerda não é capaz de mobilizar. E não se pode dizer exatamente a mesma coisa do hoje chamado “islamo-fascismo”? O surgimento do islamismo radical não é perfeito correlato do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos?

Quando o Afeganistão é apresentado como país fundamentalista islamista “exemplar”, quem ainda lembra que, há 40 anos, foi o país de mais forte tradição secular, incluindo um poderoso partido comunista que chegou ao poder no Afeganistão, independente da União Soviética?

Esse é o contexto no qual se tem de compreender os recentes eventos na Bósnia. Numa das fotos dos protestos, veem-se os manifestantes exibindo três bandeiras lado a lado: da Bósnia, da Sérvia e da Croácia, mostrando o desejo de ignorar todas as diferenças étnicas. Para resumir, temos aqui uma rebelião contra elites nacionalistas: o povo da Bósnia afinal compreendeu quem é o seu verdadeiro inimigo: não outros grupos étnicos, mas os seus próprios “representantes” políticos que fingem protegê-los contra os demais. É como se o velho e tantas vezes mal usado lema titoísta da “fraternidade e unidade” das nações iugoslavas ganhasse nova atualidade.

Carros de polícia e particulares foram incendiados  (9/2/2014)
Um dos alvos dos manifestantes era o governo da União Europeia que supervisiona o estado bósnio, forçando a paz entre as três nações e oferecendo considerável ajuda financeira para ajudar no funcionamento do estado. Pode parecer estranho, porque os objetivos dos manifestantes são, nominalmente, os mesmos objetivos de Bruxelas: prosperidade e o fim das tensões étnicas e da corrupção.

Contudo, o modo como a União Europeia realmente governa a Bósnia cria divisões: a União Europeia só vê, como suas parceiras privilegiadas, as elites nacionalistas, entre as quais faz uma mediação.

O que as explosões na Bósnia confirmam é que ninguém jamais conseguirá superar paixões étnicas impondo a elas uma agenda liberal: o que uniu os manifestantes foi uma mesma radical exigência de justiça.

O passo seguinte − e mais difícil − será organizar os protestos num novo movimento social que ignore as divisões étnicas; e organizar novos protestos – já imaginaram uma cena, com bósnios e sérvios furiosos, reunidos num comício conjunto, em Sarajevo?

Ainda que os protestos percam gradualmente a força, ainda assim permanecerão como uma fagulha de esperança, como soldados inimigos que se abraçavam nas trincheiras, na primeira guerra mundial. Eventos autenticamente emancipatórios sempre incluem ignorar identidades.

E vale o mesmo para a recente visita de duas representantes do movimento “Agito das Bucetas” [orig. Pussy Riot] a New York: num grande show de gala foram apresentadas por Madonna, na presença de Bob Geldof, Richard Gere, etc., toda a gangue dos direitos humanos de sempre. Deveriam ali, isso sim, manifestar solidariedade a Snowden, para mostrar que o Agito das Bucetas e Snowden são parte do mesmo movimento global. Sem esses gestos que aproximem o que, na nossa experiência ideológica diária, parecem ser coisas incompatíveis (muçulmanos, sérvios e croatas na Bósnia; secularistas turcos e muçulmanos anticapitalistas na Turquia, etc.), os movimentos de protesto sempre serão manipulados por alguma superpotência, em sua luta contra outra.
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Nota dos tradutores
[1] A citação, atribuída a Mao, é “Há grande caos sob os céus – a situação é excelente”.
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[*] Slavoj Žižek (esloveno) Liubliana, 21 de Março de 1949) é um filósofo e teórico crítico esloveno, professor da European Graduate School e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. É também professor visitante em várias universidades estadunidenses, entre as quais estão a Universidade de Columbia, Princeton, a New School for Social Research, de Nova Iorque, e a Universidade de Michigan.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ministro Sergey Lavrov: “Um erro, não um desastre”

É, mas...

The Saker

21/1/2014, The Saker,  The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Eis o que disse Lavrov hoje, depois de o Irã ter sido “desconvidado” para Genebra-2:

Foi um erro, mas não um desastre.

Disse também que:

(...) o Irã havia sido “desconvidado” por dizer exatamente o que a Rússia diz: que não é verdade que Genebra-1 tenha de ser “interpretada” como se tivesse já decidido que Assad “tem de sair”.

E acrescentou:

E agora? Será que, na sequência, vão “desconvidar” também a Rússia? É loucura.

Eh... Lamento, amigos, mas a Rússia pisou no tomate. Pisou feio no tomate. Explico por quê:

Sergey Lavrov - Ministro de Relações Exteriores da Rússia 

Erro lógico:

Primeiro, o que são “negociações”? São discussões entre duas ou mais partes. Nesse caso, há realmente duas partes: a parte pró-Assad e a parte anti-Assad. Pois bem. E desde quando uma das partes decide quem se inclui e quem não se inclui na outra parte? Se a parte anti-Assad diz que o Irã não é convidado, por que a parte pró-Assad não exigiu que a França fosse também “desconvidada”, sob o argumento de que o Ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, declarou que Assad não merece viver no planeta Terra?

Erro tático:

Segundo, não pode haver dúvidas de que o lado pró-Assad está vencendo a guerra. Assim sendo, por que o lado perdedor ainda está definindo as regras?! No mínimo, deveria ser o contrário. Se o lado perdedor está definindo termos tão absurdamente ultrajantes, é claro que o lado que está vencendo a guerra teria de simplesmente rejeitar tudo e deixar a reunião. Ao aceitar os termos atuais, o lado pró-Assad age como se estivesse perdendo a guerra.

Erro político:

Terceiro, agora que as forças pró-Assad aceitaram esse “tapa na cara” sem qualquer reação, as forças anti-Assad serão encorajadas a nada ceder. Negociação que começa assim não pode terminar em acordo. Por que o lado anti-Assad cederia alguma coisa, adiante, se já tem reconhecida sua posição de nada ceder? O lado anti-Assad, daqui em diante, só exigirá, exigirá e exigirá.

Erro moral:

Quarto, o Irã tem pleno, integral, inegável direito de sentar-se àquela mesa. A ética e a moral têm de contar, se não para os sionistas doidos e os anglos, pelo menos para a Resistência. O Irã lutou para proteger a Síria, iranianos morreram para defender os sírios dos répteis wahhabistas. O Irã defendeu a Síria quando ninguém mais teve coragem de se opor abertamente à constelação terrorista internacional que a imprensa-empresa global chama de “oposição” a Assad. Como admitir que Rússia e Síria afastem-se do Irã, depois do papel crucial que o Irã desempenhou na aliança sírio-iraniano-russa? Como sírios e russo podem admitir que Indonésia ou Brasil participem de Genebra-2... mas não o Irã? Não é coisa que se faça a aliados. Não é decente. Minha opinião.

Erro diplomático:

Quinto e último, considerando que a tal conferência começa desse modo absurdo, é praticamente certo que fracassará. De fato, acho muito melhor que fracasse, porque o fracasso dessa conferência pode ser usado para provar que a presença do Irã é absolutamente indispensável para qualquer acordo. E aí começará o jogo de empurra-empurra das culpas, de um lado para o outro.

Se Síria e Rússia se tivessem retirado, se nem aparecessem lá, em solidariedade ao Irã, se tivessem tentado pelo menos começar a argumentar, a culpa cairia integralmente sobre os doidos norte-americanos e suas exigências doidas. Em vez disso, os EUA conseguem sabotar a conferência e escapar, como se nada tivesse acontecido.

E agora? O que virá agora?

Bósnia redux

Tudo leva a crer que nem Síria nem Rússia se retirarão da “conferência”.

Sinceramente: minha melhor esperança, agora, é um amplo, vasto fracasso da “conferência”, porque prefiro acordo nenhum, que acordo que perca todas as vantagens que o exército sírio asseguraram ao preço do sangue e da vida de seus soldados. Infelizmente, Само слога Србина спасава (Samo sloga Srbina spasava), que se pode traduzir como “só a unidade salvará os sérvios”.

Agora começará a pressão para qualquer acordo, algum tipo de qualquer coisa que se assemelhe a acordo: é outra vez a Bósnia, e todos sabemos como terminou da primeira vez; os sérvios venceram a guerra, os muçulmanos recusaram-se a negociar de boa fé e veio a intervenção dos EUA. Mas, mais importante: os anglo-sionistas conseguiram dividir os sérvios em vários grupos. Primeiro, Milosevic apunhalou pelas costas os bósnios-sérvios e aceitou ajudar o bloqueio contra eles. Depois, dentro da Bósnia, as chamadas “forças federais” ou foram retiradas ou aceitaram depor as armas sob controle da ONU. Depois, os sérvios de Krajinas na Croácia foram convencidos de que a questão deles era separada da questão dos sérvios bósnios; e assim, tendo lindamente os feito rachar, EUA e OTAN atacaram todos eles.  Todos os sérvios haviam esquecido, naquele momento, o significado de seu principal símbolo, os “quatro Ss”.


Os “Quatro Ss”  Само слога Србина спасава

A força da aliança Hezbollah-Síria-Irã-Rússia está também na unidade. Essa unidade derrotou os wahhabistas em al-Qusayr. Essa unidade impediu o ataque já iminente dos EUA à Síria. Agora, essa unidade está comprometida, se não fundamentalmente, pelo menos externamente.

Não e não. Rússia e Síria cometeram erro gigantesco ao aceitar essa afronta de última hora, vinda do campo anti-Assad e de seu fantoche na ONU. Usando as palavras de Lavrov, acho que agir com tão absoluta e temerária arrogância também é erro, não desastre. Mas acrescento que há um desastre à vista, na ordem do dia. Nada que preste poderá brotar de Genebra-2.


[assina] The Saker