Mostrando postagens com marcador Conferência Genebra-2. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conferência Genebra-2. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 17 a 24/1/2014

31/1/2014, Conflicts Forum 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Genebra II: O resultado do conflito na Síria afetará muitas coisas. Contribuirá diretamente para modelar o equilíbrio geoestratégico na região; ou imporá limites ao crescimento do jihadismo takfiri; ou, em vez disso, injetará oxigênio nesse fantasma, por toda a região – e também na Ásia Central e Norte da África; afetará o modo como a instável ordem mundial se desdobrará – e a Síria pode ainda provar ser a nêmese da Arábia Saudita; ou não. Menos certo é se Genebra II contribuirá substantivamente para esse resultado sírio definitório – seja qual for.

Walid Moallem, Ministro das Relações Exteriores da Síria (E) conversa com a chefe da política externa da UE, Catherine Ashton (D)  durante pausa nas conversações de paz de Genebra-2 em Montreux, 22 de janeiro de 2014. 
De fato, as possibilidades para Genebra permanecem envoltas em incerteza, e até a condução do “processo” como tal é duvidosa (dado que não há qualquer agenda real). É, isso sim, cedo demais para especular sobre o significado mais amplo, caso haja.

De que trata Genebra II? Antes (Genebra I), era claro: o encontro interessava aos EUA e aliados, para impor um “governo de transição”, decidido “no escalão superior” (EUA e aliados – e possivelmente também a Rússia), que simplesmente usurparia todos os poderes executivos e de segurança do presidente Assad – e deixaria Assad desinflado como bola murcha, capaz de colaborar, só, para sua própria “demissão” política. (Naquele momento, os EUA e alguns europeus assumiam que o presidente da síria não teria escolha além de curvar-se à “rua” e aos poderes arregimentados contra ele). Esse plano inicial foi, na essência, requentamento do modelo do Iêmen: as potências externas resolveram entre elas, antes, a receita para o Iêmen – e a decisão delas foi simplesmente comunicada aos iemenitas numa conferência, com ordens para implementá-la.

Genebra I fracassou, em primeiro lugar, porque os EUA naquele momento queriam manter algum tipo de “parceria” com a Rússia (o que só veio a ser possível com o Acordo das Armas Químicas); ou, em outras palavras, “o alto escalão” não conseguiu concordar com o projeto; e, em segundo lugar, porque “éditos” exarados pelos “altos escalões” visivelmente já não tinham impacto algum sobre os grupos em campo, sobretudo sobre os vários grupos jihadistas, que não querem saber de democracia, nem do próprio estado-nação, nem de secularismo. Em linguagem simples, o “alto escalão” simplesmente não mandava, porque os atores armados o ignoravam, sabendo que as potências externas continuariam, em todos os casos, a patrocinar o conflito militar.

Kerry e Lavrov reunidos com assessores discutem a situação na Síria
Agora, as coisas são muito diferentes (embora a retórica passada sobre a necessária “transição” de Assad se mantenha, especialmente com Kerry e o “coro” dos think-tanks ocidentais, mas – o que chama a atenção – não com os serviços ocidentais de segurança e inteligência). Medos sobre o crescimento do jihadismo, e sua irradiação para a região e para fora dela, só fizeram crescer, até serem hoje o medo principal. Já não é indispensável “tirar” Assad e, mais que isso: a permanência dele na presidência passou a ser uma necessidade de segurança (seja para implementar o Acordo das Armas Químicas, seja para fazer a guerra crucial contra os jihadistas).

Em certo sentido, Genebra II converteu-se numa espécie de ponte muito instável a ligar a antiga política (ocidental, de derrubar Assad) e uma nova política de assegurar a estabilidade regional mediante a destruição do jihadismo na “linha de frente” na Síria.

Nem todos nos EUA concordam com essa mudança (o Secretário de Estado absolutamente não consegue admiti-la explicitamente para o eleitorado doméstico).

A “contraestratégia” dos intervencionistas norte-americanos e do Golfo (em reação contra o movimento do governo dos EUA) é elevar as necessidades humanitárias do povo sírio até conseguir usá-las como Cavalo de Troia, que transportará dentro da barriga de madeira as forças do intervencionismo – ostensivamente pelo mais nobre dos motivos, é claro – dar proteção aos corredores humanitários, “para instalar pontos de passagem de fronteira para que a ONU entre na Síria, sem qualquer controle por Damasco... Para levar ajuda a centenas de milhares” e/ou para implantar “áreas seguras” para os refugiados.

Terroristas disparam metralhadora anti-aérea contra edifícios em Aleppo (19/1/2014)
Áreas “seguras” dentro da Síria – se vierem a ser implantadas – servirão como cabeça de ponte (ao estilo de Benghazi) para ampliar o envolvimento estrangeiro dentro de um estado soberano.

Rússia e Síria farejaram imediatamente o complô, e a Síria optou por apresentar preventivamente sua própria proposta de ajuda humanitária e de desescalada, em seus próprios termos. Esses termos não incluem ceder nem um milímetro da soberania da Síria.

Numa agenda de Genebra, da qual já se extraíram todas as questões sensíveis, a questão humanitária tende a ser inflada até converter-se em fachada para mais guerra, entre os intervencionistas presentes, de um lado; e, de outro, os que (como Síria, Rússia e Irã) estão decididos a repelir qualquer forma de intervenção ocidental (lição definitiva que aprenderam da Líbia).

Quanto ao governo dos EUA, o objetivo principal parece agora limitado a inventar um show em que se “confrontam” o governo sírio e uma “oposição” de espectro muito limitado, que conversam entre eles (daí as declarações do Departamento de Estado para a imprensa-empresa ocidental, de que esperam um “processo longo”).

Tendo perdido o bonde principal, o ocidente busca agora, sobretudo, conter o conflito, mais do que inflamá-lo sempre mais, o que ameaça os países vizinhos. É pouco provável que Washington creia que muita coisa possa emergir dessa conferência, sabendo, como sabe, que a delegação da “oposição” não tem, de fato, quase nenhuma legitimidade em campo, dentro da Síria; que a “oposição” está rachada por conflitos internos; e que a posição do presidente Assad em campo, na Síria, é forte.

Seja como for, é possível que EUA e Rússia esperem que esse começo tumultuado assinale, pelo menos, o ressurgimento de alguma política na Síria, depois de longo hiato. (O governo sírio também reconhece a necessidade de diálogo nacional para definir o futuro do estado. E já iniciou, discretamente, amplas discussões nacionais, em andamento já há algum tempo). Mas engendrar qualquer diálogo nacional não será tarefa simples: prova disso é o empenho fartamente noticiado com o qual o embaixador Ford dos EUA teve de ameaçar e chantagear a “oposição”, para que aparecesse em Montreux.

Entrincheirados nas colinas de Golan (território sírio roubado por Israel) soldados judeus
observam cidade Quneitra, zona fronteiriça Síria
Por tudo isso, não será fácil para o secretário Kerry manter – sem fazer papel ridículo –o movimento de os EUA deslizarem (o mais invisivelmente possível) na direção de uma nova posição e de aceitarem a realidade de que o presidente Assad ficará exatamente onde está (e, de fato, há praticamente nada que os EUA possam fazer para derrubá-lo, pelo menos no atual estágio) ao mesmo tempo em que os EUA mantêm uma pantomima de “fé” no Conselho Nacional Supremo, frente a uma opinião pública nos EUA que foi longamente condicionada a ver o presidente Assad como uma espécie de “monstro”. O público norte-americanos perceberá tudo isso.

Tema também complicado é que a questão síria vai-se misturando cada vez mais com as negociações com o Irã. Na verdade, as duas questões sempre estiveram entrelaçadas, mas surgiu agora mais um “nó”, depois que o Irã foi “desconvidado” à conferência de Genebra, exatamente quando os norte-americanos contavam com a influência do Irã – que facilitaria a “passagem”, de Kerry, para a nova política de guerra contra o jihadismo ressurgente. (A recente retomada de Falluja, pela “al-Qaeda”, é símbolo poderosíssimo dentro dos EUA).

Outra grande “virada” é que Rússia e Irã estão concluindo – fartamente noticiado – um gigantesco negócio de petróleo, o qual, do ponto de vista dos EUA, ameaça a doutrina norte-americana segundo a qual só se o Irã for “apertado” por sanções e mais sanções, será possível obter “solução” para a “questão nuclear”. A exportação de 0,5 milhão de barris/dia de petróleo iraniano para a Rússia, que não importará para seu uso, mas para embarcá-lo diretamente para seus clientes asiáticos, é vista em Washington como, potencialmente, o início do colapso da política de sanções. O Congresso dos EUA é obcecado com manter as sanções (com apoio de Israel); mas a Rússia, não.

Mohammad Javad Zarif, MRE do Irã (E) e Sergey Lavrov MRE da Rússia (D) em 16/1/2014, durante o fechamento de negócio de petróleo entre seus países

Daí que já haja “resmungos” de porta-vozes dos EUA, sobre aplicar sanções à Rússia; não passam de boatos. A Rússia jamais subscreveu sanções unilaterais, nem norte-americanas, nem europeias – a Rússia considera as sanções ilegais, dado que não têm aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Assim, os russos têm repetido aos funcionários dos EUA que a possível troca por petróleo (o Irã receberá produtos e moeda) não é assunto que diga respeito aos EUA. (Evidentemente, acrescentará 182 milhões de barris/dia de petróleo à produção anual, o que fará aumentar a pressão pela OPEC e pela Arábia Saudita, para reduzir a produção em outros pontos – se quiserem manter o preço em torno de $100 por barril.).

A questão aqui é que o presidente Obama absolutamente não tem força para impedir que o Congresso imponha novas sanções ao Irã – movimento que detonará qualquer negociação política com os iranianos. Obama está muito vulnerável, mas, até agora, tem conseguido manter o Congresso “em ordem”. O negócio entre russos e iranianos pode fazer naufragar essa situação precária – criada pela (falsa) narrativa dos norte-americanos, segundo a qual só muitas sanções podem forçar o Irã a recuar do projeto de construir armas atômicas (que é a equação [israelense] sobre a qual o Congresso dos EUA opera).

É possível que a Casa Branca tenha interpretado que as duas coisas – o negócio Rússia-Irã e a presença do Irã em Genebra – seria demais para que o Congresso dos EUA digerisse. Algo teria de ceder: e o Irã foi “desconvidado”, para conter o fogo do Congresso contra Obama (que estaria sendo “mole” com os iranianos). Em resumo, tudo isso sugere que a Casa Branca espera mais das negociações com o Irã, do que de eventuais frutos aproveitáveis que brotem de Genebra.

Robert Ford
O que tudo isso diz sobre Genebra II? Diz que as condições cruciais ainda não estão presentes, para uma solução política. Sim, os “altos escalões” têm agora uma boa base de entendimentos alcançados; sim, uma delegação servil da “oposição” síria está, sim, obedientemente sentada em Montreux; e ambos, EUA e Rússia trabalham na direção da desescalada.

Mas... e os patrões regionais do conflito armado têm algum interesse em desescalar alguma coisa? O briefing do embaixador Ford para a oposição síria (se corretamente noticiado) parece dizer a eles que “Sim”: em março, a “oposição” verá grandes mudanças na política saudita (Bandar e Saud al-Faisal terão saído de cena); e o Irã prometeu à Rússia e aos EUA, que também deseja a desescalada.

A questão é: o embaixador Ford acertará em suas “previsões”? Será preciso esperar até março, para saber. Por hora, não se vê sinal de que o Golfo estaria interessado em qualquer desescalada em campo, em todo o Oriente Médio, exceto no Líbano, como observamos nos Comentários da semana passada.




[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Síria: EUA reiniciam fornecimento de armas à Al-Qaeda; aumenta a destruição.


28/1/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Atentado terrorista cometido pelo Exército Sírio Livre em Damasco (julho/2012)
A política antiga dos EUA, de fornecer armas aos “rebeldes” não alcançou os objetivos declarados. Nem resultou em sucesso para os “rebeldes”, em seus esforços para derrubar o governo sírio, nem ajudou a manter longe os vários grupos que há na Síria, ligados à Al-Qaeda.

Em vez disso, as armas destinadas aos “terroristas moderados” caíram em mão de grupos da Al-Qaeda, e os “moderados” partiram-se em mil pedaços. De fato, os EUA garantiram toda a logística aos mesmos grupos contra os quais os EUA sempre disseram, ao longo dos últimos 12 anos, que estariam combatendo.

Como sempre, a resposta norte-americana a uma política fracassada é fazer mais do mesmo. O Congresso dos EUA aprovou, em sessão secreta, o envio de mais armas aos “rebeldes” “moderados”:

Armas leves fornecidas pelos EUA estão chegando a grupos rebeldes sírios “moderados” no sul do país, e o financiamento, pelos EUA, para os meses futuros, de novas remessas de armas foi aprovado pelo Congresso, segundo funcionários de segurança dos EUA e europeus.

As armas, muitas das quais estão sendo enviadas a rebeldes sírios não islâmicos via a Jordânia, incluem armamento leve de vários tipos, e armamento mais pesado, como foguetes antitanques.

Terroristas roubaram armas pesadas como morteiros e armas anti-tanque.
Note no gorro do terrorista à direita o logotipo da al Qaeda
Remessas anteriores, de armas dos EUA, caíram em mãos da Frente al-Nusra, da Al-Qaeda:

Altos funcionários do Exército Sírio Livre e fontes jordanianas, além de provas gravadas em vídeo, confirmaram que mísseis anti-tanques fabricados na Europa foram capturados pela – e em alguns casos vendidos à – Frente extremista al-Nusra, depois de entregues a batalhões do Exército Sírio Livre através da fronteira da Jordânia.

O citado Exército Sírio Livre no sul é pouco mais que uma fachada de relações públicas para a frente al-Nusra, da al-Qaeda: [1]

Eles oferecem seus serviços e cooperam conosco, são mais bem armados que nós, têm homens-bombas e sabem fabricar carros-bomba – explicou um militante do Exército Sírio Livre,
...

O Exército Sírio Livre e a al-Nusra unem-se para operações, mas há um acordo segundo o qual quem aparece é o Exército Sírio Livre, por razões públicas, porque não querem assustar nem a Jordânia nem o ocidente  – disse um miliciano que trabalha com grupos da oposição em Deraa.

Operações que foram realmente executadas pela Al-Nusra são apresentadas ao público pelo Exército Sírio Livre como se fossem suas – disse a mesma fonte.

Um alto comandante do Exército Sírio Livre envolvido em operações em Deraa, disse que a Al-Nusra reforçou unidades do Exército Sírio Livre e teve papel decisivo em vitórias rebeldes no sul.

A cara da Al-Nusra não pode aparecer. Eles têm de ficar por trás do Exército Sírio Livre, por causa da Jordânia e da comunidade internacional – disse a fonte.

Terroristas dispõe de metralhadoras e lança-granadas pesadas
Os EUA também recomeçaram o fornecimento de ajuda “não letal” a “rebeldes” no norte do país:

Os EUA recomeçaram as entregas de ajuda não letal à oposição síria, disseram funcionários do governo na 2ª-feira, mais de um mês depois de terroristas da Al-Qaeda terem assaltado armazéns e causado considerável desfalque nos suprimentos que os ocidentais fornecem aos “rebeldes”.

O equipamento de comunicações e outros itens estão sendo encaminhados atualmente só para grupos não armados da oposição – disseram funcionários dos EUA.

...

Os funcionários dos EUA, que são proibidos de comentar publicamente esse assunto e pediram para que seus nomes não fossem publicados, disseram que a ajuda está sendo mandada através da Turquia para a Síria, com a coordenação do Conselho Militar Supremo do Exército Sírio Livre (...).

Enterro de civis sírios assassinados por terroristas com armas "não letais" 
Quando os jihadistas assaltaram os depósitos onde estava armazenada a ajuda “não letal” fornecida pelos EUA, roubaram o seguinte:

Um alto comandante do Conselho Militar Supremo do Exército Sírio Livre] disse que a Frente Islamista assaltou um total de dez depósitos que pertencem ao grupo guarda-chuva apoiado pelo ocidente, e roubaram arsenal considerável, inclusive 2 mil rifles AK-47, 1.000 armas variadas – entre as quais lança-foguetes M79 Osa, foguetes lança-granadas e metralhadoras pesadas 14,5mm – além de mais de 200 toneladas de munição. E pelo menos 100 veículos militares do Exército Sírio Livre também foram levados no assalto.

O reinício dos fornecimentos de armas para os “rebeldes” sírios não levará a resultado diferente do que se viu nos fornecimentos anteriores. O que prova, mais uma vez, que o real objetivo dessa guerra instigada pelos EUA contra a Síria e dos esforços para expandi-la ainda é o mesmo de antes:

Destruir a infraestrutura, da economia, do tecido social, da Síria e dos apoiadores da Síria.



Nota dos tradutores

[1] Exatamente o que disse, também, o presidente Bashar Al-Assad em entrevista à AFP, publicada neste blog há dois dias (26/1/2014):

Nós todos sabemos que durante os últimos meses, os grupos terroristas extremistas que lutam na Síria já dizimaram as últimas posições restantes das forças que o ocidente ainda pinta como se fossem moderadas, do Exército Sírio Livre. Não existe mais Exército Sírio Livre. Agora só há extremistas, divididos em várias facções. (negritos nossos). Os combatentes que o ocidente chama de “moderados”, esses, na maioria, já se fundiram àquelas forças extremistas, seja por medo ou voluntariamente, estimulados por incentivos financeiros. Em resumo, independentemente dos rótulos que se leiam na mídia ocidental, nós agora estamos em luta contra um grupo terrorista extremista composto de várias facções. (26/1/2014, Presidente Bashar al-Assad: Entrevista à Agência France Presse (AFP), Global Research).
___________________

[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Discurso do Vice-Primeiro-Ministro da Síria e Ministro do Exterior e Expatriados, Walid al-Moallem, à “Conferência Genebra-2”, em Montreux, Suíça

22/1/2014, Global Research News (pela Agência SANA)

Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu

Vice-Primeiro-Ministro da Síria e Ministro do Exterior e Expatriados, Walid al-Moallem
Senhoras e Senhores,

Falo-lhes em nome da República Árabe Síria, REPÚBLICA – estado civil que alguns, aqui nessa sala, tentaram empurrar de volta à idade média; ÁRABE – orgulhosa da sua firme e constante herança panárabe, apesar dos deliberados atos de agressão de supostos fraternais amigos árabes; e SÍRIA, com história de mais de sete mil anos.

Nunca estive em posição mais difícil; minha delegação e eu trazemos o peso de três anos de privações e dificuldades que meus companheiros e patrícios enfrentamos – o sangue dos nossos mártires, as lágrimas dos nossos enlutados, a angústia das famílias à espera de notícias dos entes queridos – sequestrados ou desaparecidos, o choro das nossas crianças nas salas de aula, crianças cuja doçura foi alvo de bombardeamentos mortais, a esperança de uma geração inteira destruída ante nossos olhos, a coragem dos pais que mandaram todos os filhos para defender o nosso país, a tristeza profunda das famílias cujos lares foram destruídos e agora vagam, dispersadas, como refugiados.

Minha delegação e eu trazemos a esperança da nossa nação para os anos vindouros – o direito de cada criança de novamente ir em segurança à escola, o direito da mulher de sair de casa sem medo de ser sequestrada, violentada ou morta; o sonho da nossa juventude de realizar seu vasto potencial; esperança de que a segurança volte a existir, os homens sabendo que podem deixar em segurança a família, certa de que o pai voltará vivo para casa no fim do dia.

Afinal, hoje é a hora da verdade que tantos tentaram sistematicamente enterrar por baixo de campanhas de desinformação, de mentiras e de intrigas, que levaram às matanças e ao terror. Essa verdade que não se deixa enterrar, apresenta-se aqui claramente para que todos a vejam. Somos representantes da República Árabe Síria. Representamos o povo sírio, o estado sírio, o governo da Síria, o estado, o exército da Síria e o presidente da Síria, Bashar al-Assad.

Senhoras e Senhores,

é deplorável que aqui nessa sala, conosco, estejam representantes de países que têm as mãos marcadas com sangue sírio, países que exportaram o terrorismo – além do perdão para os terroristas que perpetram atos de terror – como se Deus lhes tivesse dado o direito de decidir quem vai para o céu e quem vai para o inferno. Países que impediram crentes fiéis de visitarem seus templos de culto. Países que financiam e apoiam terroristas.

Países que se auto-outorgaram, eles mesmos, a autoridade para conceder ou negar a outros qualquer legitimidade, do modo como melhor lhes conviesse, sem olhar os próprios velhos telhados de vidro, antes de se porem a jogar pedras contra torres fortificadas.

Países que desavergonhadamente se apresentam para nos ensinar o que é a democracia em progresso e em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que, em suas próprias terras, chafurdam na ignorância e em suas regras e normas medievais retrógradas.

Países que se acostumaram a ser possuídos, mandados, por reis e príncipes com o direito soberano de distribuir a riqueza nacional só entre seus parentes e sócios, negando qualquer direito aos que não se deixem prender na rede de favores oficiais.

E esses países quiseram ensinar à Síria, estado virtuoso e soberano, o que aqueles países suponham que seja a honra. E enquanto eles mesmos submergem na lama da escravidão, do infanticídio e de outras práticas medievais. Depois de todos seus esforços e fracassos subsequentes, as máscaras caíram-lhes da cara, e deixaram ver suas ambições perversas: queriam desestabilizar e destruir a Síria, pela exportação do principal produto que exportam: o terrorismo. Usaram seus petrodólares para comprar armas, recrutar mercenários e para saturar o ar com notícias que encobrissem a própria brutalidade insensata deles.

Mentiram e disfarçaram as suas próprias mentiras sob o slogan de que a “revolução” deles seria “Revolução Síria que iria satisfazer as aspirações do povo sírio”.

Senhoras e senhores,

Como poderia alguém supor que o que aconteceu e continua a acontecer e a atormentar a Síria satisfaria algum dia alguma aspiração do povo sírio?!

Como poderia alguém supor que terroristas chechenos, afegãos, sauditas, turcos ou, mesmo, franceses ou ingleses, satisfariam algum dia alguma aspiração do povo sírio? E para oferecer o quê, ao povo sírio? Um estado islamista que se orienta pelo mais pervertido wahhabismo? E quem algum dia disse a eles que o povo sírio teria alguma aspiração a regredir muitos mil anos, de volta ao atraso, rumo ao passado? (...)

Mas, em nome dessa “revolução” deles, crianças são mortas nas escolas; estudantes, nas universidades; mulheres são ofendidas e extorquidas nessa jihad al-nikah e por outras formas, mesquitas são bombardeadas nos momentos em que estão mais cheias de fiéis que fazem suas orações, queimam-se pessoas vivas, num verdadeiro holocausto que muitos países negarão, sem serem acusados de preconceito contra judeus.

Em nome de uma revolução “para salvar o povo oprimido da Síria do seu regime e para difundir a democracia”, iria um chefe de família fazer explodir a si mesmo, sua mulher e seus filhos para impedir que intrusos estrangeiros entrassem em suas casas? A maioria de nós nessa sala somos pais. Pergunto-lhes então: o que compeliria um homem a matar a própria família para protegê-la desses monstros terroristas, chamados “combatentes da liberdade”? E isso, precisamente, aconteceu em Adra, lugar do qual a maioria dos senhores nunca ouviram falar, mas onde esses mesmos monstros estrangeiros foram ao ataque: mataram, saquearam, decapitaram, massacraram e incendiaram pessoas vivas. Certamente os senhores nada ouviram a respeito dessa brutalidade. Mas podem ter ouvido de outras localidades onde o mesmo tipo de crimes atrozes foram cometidos pelos terroristas, que agora apontam os dedos ainda ensanguentados contra o Exército Sírio e o governo. Foi só depois de essas mentiras flagrantes já não obterem nenhum crédito, que eles pararam de construir essa sua teia de impostura, mentiras, enganações.

Os terroristas fizeram o que seus patrões os mandaram fazer, esses países que lançaram a guerra contra a Síria, tentando aumentar sua influência na região com subornos e dinheiro, exportando monstros humanos completamente embriagados da abominável ideologia wahhabista e ao preço do sangue da Síria.

Desta tribuna, digo em voz alta e claramente que os senhores, como eu, sabemos que eles não pararão depois da Síria, ainda que alguns nessa sala recusem-se a aceitar que assim é, porque se consideram, eles mesmos, imunes.

Senhoras e senhores,

tudo o que até aqui lhes disse nunca teria acontecido, não seria possível, se os países que têm fronteira conosco tivessem sido bons vizinhos ao longo desses anos desafiadores. Infelizmente ficaram muito longe disso; nos atacaram com facas pelas costas, vindos do norte; como espectadores inertes e silenciosos quanto à verdade, vindos do oeste; um sul fraco, acostumado a fazer os jogos de outros; ou o exaurido e esgotado leste, ainda cambaleante por causa das maquinações que visam também a destruí-lo junto com a Síria.

Realmente, o que se tem é que a miséria e a destruição que invadiram a Síria e querem fazê-la afundar só foram possíveis dada a decisão do governo de Erdogan, de convidar e acomodar esses terroristas criminosos, antes de eles entrarem na Síria. Claro que, já tendo esquecido de que o feitiço pode, no final, virar-se contra o feiticeiro, o governo Erdogan já está conhecendo a amargura de colher o que foi plantado.

Porque o terrorismo não reconhece nenhuma religião. O terrorismo só é leal ao próprio terrorismo. E o governo de Erdogan, imprudente e temerário, mudou, de política de zero problemas com vizinhos, para política de zero política exterior, de zero diplomacia, que, crucialmente, gerou zero credibilidade.

Mas continuou-se pelo mesmo caminho atroz e falso, acreditando-se que os sonhos de Sayyid Qutb e, antes dele, de Mohammad Abdel Wahab, estariam, afinal, se realizando. Causaram estragos, pilharam e saquearam. Partindo da Tunísia, até a Líbia, o Egito e a Síria, determinados a realizar uma ilusão só existente em suas mentes. Agora, apesar de ter-se comprovado que isso levaria ao fracasso, continuam determinados a perseguir o sonho.

Não se entende isso tudo, em termos lógicos, se não como estupidez, porque, se não se aprende pela história, perde-se a capacidade de compreender o presente. A história ensina que, se a casa do seu vizinho estiver em fogo, você está em perigo e não conseguirá manter-se ao abrigo, fora de perigo.

Alguns vizinhos começaram a incendiar a Síria, enquanto outros recrutavam terroristas ao redor do globo. Nisso, somos confrontados com uma chocante farsa de padrões dúbios e duplos.

Em luta, dentro da Síria, há agentes armados de 83 nacionalidades. Ninguém denuncia essa aberração, praticamente ninguém a condena, praticamente ninguém dá sinais de qualquer interesse em reconsiderar as próprias posições iniciais. E a isso chamam ainda, impertinentemente, de Revolução Síria! Porém, quando uns poucos jovens da frente de combate da Resistência passaram a apoiar o Exército Sírio, em algumas poucas localidades, então... foi como se as portas do inferno se abrissem de par a par. Isso, e a ajuda ao governo oficial, foi visto como intervenção estrangeira!

Exigiu-se em seguida a saída de tropas estrangeiras, a proteção da soberania da Síria, que não pode ser violada.

Aqui, senhores, declaro que a Síria – estado soberano e independente – vai continuar a fazer o que for necessário para defender-se, com quaisquer meios que conclua e decida que sejam necessários, sem dar nenhuma atenção a tumultos, denúncias, enunciados ou posições expressas por partes não qualificadas para manifestar-se. São decisões soberanas, como outras foram e outras serão, decisões soberanas que cabe à Síria tomar e que a Síria tomará.

Apesar de todas as dificuldades, o povo sírio continuou firme. Vieram então as sanções alimentares, cortaram a comida dos sírios, o pão e o leite das nossas crianças. A população está à míngua, há doença e morte, por causa da injustiça dessas sanções. Ao mesmo tempo fábricas, pilham-se e incendeiam-se fábricas, pilhagens e incêndios que agridem, principalmente as fábricas de alimento e de remédios; hospitais e centros de saúde são destruídos; linhas ferroviárias e de eletricidade são sabotadas em toda a Síria; e nem os nossos templos religiosos – dos cristãos e os islâmicos – salvam-se da fúria terrorista.

Quando tudo aquilo fracassou, os EUA então ameaçaram bombardear a Síria.

Fabricaram, com os seus aliados ocidentais e árabes, aquela história do uso de armas químicas, história com a qual não conseguiram convencer sequer o seu público interno; muito menos, é claro, convenceram o público sírio.

Países que tanto celebram a democracia, a liberdade e os direitos humanos, só falam, de fato, a linguagem da violência bruta, do sangue, da guerra, do colonialismo e da dominação.

Democracia, mas imposta sob fogo; liberdade, mas imposta com aviões de guerra; direitos humanos, implantados mediante massacres e matanças; porque estão habituados a viver num mundo que obedece suas ordens e atente seus desejos: se querem, a coisa acontece; se não querem, não acontecerá.

Assim, rapidamente esqueceram que os criminosos que atacaram em New York repetem e obedecem a mesma doutrina e vêm da mesma fonte, que os criminosos que agora se autoexplodem na Síria. Temerária, descuidadamente, esquecem que se trata do mesmo tipo de terroristas que ontem estavam ativos nos Estados Unidos; e que hoje estão ativos na Síria. Quem pode saber onde estarão ativos amanhã?

Absolutamente certo, porém, é que nada disso termina aqui. O Afeganistão seria boa lição para quem quisesse aprender – qualquer um! Infelizmente, a maioria não quer aprender; nem os Estados Unidos, nem nenhum dos países ocidentais ditos “civilizados” que seguem a mesma orientação, a começar por Paris, “Cidade Luz”, e indo até o reino inglês, onde “o sol jamais de põe” – ninguém aprendeu do passado. Apesar de todos esses países conhecerem o gosto amargo do terrorismo.

Depois então, na sequência, converteram-se todos em “Amigos da Síria.” Quatro desses “amigos” são autocráticos, monarquias opressivas que nada sabem de estado civil ou de democracia; e os demais são os mesmos poderes coloniais que ocuparam, pilharam, e dividiram a Síria, há menos de cem anos passados.

Esses chamados “amigos” agora se põem a convocar “conferências” para, publicamente, declarar sua amizade com o povo da Síria. Ao mesmo tempo, encobertamente continuam a agir para aumentar as privações pelas quais passa o povo sírio e destruindo nossos meios de vida. Esses chamados “amigos” abertamente se declaram escandalizados com a difícil situação humanitária dos sírios; ao mesmo tempo, cuidam de enganar a comunidade internacional, ocultando todas as pegadas da cumplicidade daqueles “amigos”, no que acontece de ruim à Síria.

Se estivessem realmente preocupados com a situação humanitária da Síria, bastaria que removessem as sanções e os embargos, que são os nós que estrangulam a economia síria; e se associariam ao governo sírio, na luta contra o influxo de armas e de terroristas. Façam isso, e podemos garantir que voltaremos a viver tão bem como vivíamos antes, e aqueles “amigos” ficarão livres de tantas e tão profundas preocupações com o nosso bem-estar.

Alguns dos senhores talvez se estejam perguntando: todos os fabricantes do que hoje se passa na Síria são estrangeiros? Não, senhoras e senhores.

Os sírios que temos aqui entre nós, depois de terem sido pseudo-legitimados por agendas estrangeiras, tiveram importante papel como facilitadores e realizadores do que hoje se vê na Síria. O que fizeram foi feito à custa de sangue sírio e de aspirações do povo que dizem representar. Eles mesmos divergiram entre eles, dividiram-se inúmeras vezes entre eles; e, no campo de batalha, os “líderes” deles dispersaram-se, em fuga. Venderam-se a Israel, transformando-se, aqueles sírios, em olhos e gatilhos israelenses, para destruir a Síria. Quando afinal aqueles prepostos falharam, Israel então interveio diretamente para reduzir a capacidade do Exército da Síria; assim Israel tentava garantir a continuada realização de seus planos, já preparados há décadas, contra a Síria.

Enquanto o povo sírio estava sendo massacrado, aqueles sírios exilados viviam em hotéis de luxo. Toda a “oposição” que fizeram ao governo sírio sempre foi feita de bem longe, de terra estrangeira. Ali se reuniram para trair a Síria e vender, por bom preço, a estrangeiros as mais mirabolantes ideias e propostas. Ainda agora repetem que falariam em nome do povo da Síria!

Não, senhoras e senhores. Quem quiser falar em nome do povo da Síria que cuide, antes, de não trair a causa do povo da Síria e de não se pôr a serviço dos inimigos da Síria. Os que queiram falar em nome do povo da Síria que falem de dentro das fronteiras da Síria, em solo sírio, morando nas casas sírias destruídas; tendo de mandar os filhos à escola, de manhã, sem saber se voltarão salvos à tarde, sobreviventes dos tiroteios e dos ataques de morteiros. Os que queiram falar em nome do povo da Síria que venham enfrentar o inverno congelante (porque não há combustível para aquecimento), horas e horas nas filas para comprar pão (porque as sanções impedem a compra do trigo e cereais, que a Síria sempre exportou; até que agora, por causa das sanções, praticamente já não se encontram).

Quem queira falar em nome da Síria e de seu povo teria, antes, de ter enfrentado três anos de luta contra o terrorismo, cara-a-cara, como nós fizemos. Sem isso, não, senhores, não. Eles não falam em nome do povo sírio.

Senhoras e senhores,

a República Árabe Síria – como povo e como estado, cumpriu seus deveres.

A Síria deu as boas vindas a centenas de jornalistas internacionais facilitando sua mobilidade, segurança e acesso. Eles por seu turno espelharam a horrífica realidade, que testemunharam, para suas audiências, realidades que deixaram muitos da mídia organizada do ocidente perplexos... por não mais poderem manter sua propaganda e por verem suas narrativas expostas e desmentidas. Os exemplos são muitos para serem contados. Nós permitimos a ajuda internacional e que organizações de ajuda e socorro entrassem no país. Mas agentes clandestinos de certas partes presentes aqui nessa sala impediram que a ajuda chegasse aos que mais horrível e fatalmente tinham carência dela. Essa ajuda foi muitas vezes detonada em ataques terroristas. Nós, como estado e governo, cumprimos nosso dever de proteger os agrupamentos de socorro e de facilitar seu trabalho.

Anunciamos várias anistias e libertamos milhares de prisioneiros, alguns dos quais, até, membros de grupos armados e, isso, apesar de termos de enfrentar a ira e a consternação dos familiares das vítimas deles. Mas aquelas famílias, como nós, tivermos de aceitar que os interesses da Síria têm prioridade sobre tudo, aqui; e ocultamos nossos sofrimentos e nos erguemos acima do rancor e do ódio.

E o que fizeram vocês, que dizem falar em nome do povo sírio? Que visão têm a oferecer para esse grande país? Onde estão suas ideias? Onde está seu manifesto político? Quais os seus agentes de mudança em solo – que não sejam só as gangues de bandidos armados? Não tenho dúvida de que vocês não têm o que teriam de ter. E isso está muito claramente visível nas áreas ocupadas pelos mercenários de vocês, aquelas, que vocês chamam de “áreas libertadas”...

Libertaram o quê? Libertaram aquelas populações da cultura moderada em que viviam antes, para enforcá-las em suas práticas radicais e opressivas? Construíram alguma escola? Algum centro de saúde? Não. Vocês destruíram escolas e centros de saúde. Deixaram que a poliomielite, que já havia sido erradicada na Síria, voltasse ao país.

Vocês protegeram museus e peças culturais e de arte? Não. Vocês saquearam o patrimônio nacional sírio, com lucros pessoais, para vocês. Vocês mostraram qualquer compromisso com a justiça e os direitos humanos? Não, vocês encenaram execuções públicas e decapitações. O que fizeram, e é desgraça e vergonha, foi suplicar aos EUA que bombardeassem a Síria.

Nem a oposição, da qual vocês são autodesignados senhores e guardiões, os reconhece. Como tampouco reconhece os métodos de que vocês servem-se para manejar seus próprios interesses, nunca nem os negócios nem os interesses da Síria.

E eles pretendem homogeneizar o país; não é, sequer, em algum sentido sectário, étnico ou religioso, mas num sentido apenas ideológico deformado. Quem for contra eles, sejam esses cristãos ou muçulmanos, será visto como infiel. Eles já mataram muçulmanos de todas as seitas, e também tomaram como seus alvos mortais cristãos sírios; e outros foram tratados com muita severidade. Mesmo freiras e bispos foram convertidos em alvos deles. E foram sequestrados, quando do ataque a Maloula, a última comunidade no mundo que ainda fala a língua de Jesus Cristo. Esses “salvadores” da Síria fizeram o que fizeram em Maloula, para que os cristãos fugissem da Síria.

De fato, nem sabiam que nós, na Síria, somos uma unidade. Quando a cristandade é atacada, todos os sírios se transformam em cristãos. Quando as mesquitas são atacadas, todos os sírios se transformam em muçulmanos. Todo e cada sírio é de Raqqa, Lattakia, Sweida, Horns, ou da ensanguentada Allepo, quando qualquer um desses lugares é atacado.

As odiosas tentativas para semear o sectarismo e a guerra religiosa jamais serão aceitas pela população comum da Síria.

Em resumo senhoras e senhores, essa dita “gloriosa revolução”, cometeu todos, e não deixou de cometer um, sequer, dos pecados mortais.

Há ainda um outro lado desse triste panorama. A luz no fundo do túnel ainda brilha, por causa da determinação e da firmeza do povo sírio e da coragem do Exército Sírio, que protege e sempre protegerá os cidadãos sírios. E da resistência elástica, e perseverante, do governo sírio.

Durante tudo o que aconteceu, houve países que nos demonstraram real amizade. Países honestos que estiveram ao lado do certo contra o errado, mesmo quando, em todo o horizonte, só se via o lado errado.

Em nome do povo sírio e da Síria, como estado, agradeço à Rússia e à China, por terem respeitado a soberania e a independência da Síria.

A Rússia tem sido real campeão dos povos no palco internacional, defendendo consistentemente mediante ações, não só com palavras, os princípios fundamentais das Nações Unidas, que respeita e exige respeito à soberania das nações.

Assim também a China, os países do grupo BRICS, o Irã, o Iraque e outros países árabes e muçulmanos, além de países africanos e sul-americanos, que também salvaguardaram, genuinamente, as aspirações do povo sírio, e não as ambições de outros governos de olhos postos na Síria, como presa.

Sim senhoras e senhores,

o povo sírio, como outros povos da região, deseja ardentemente mais liberdade, justiça e direitos humanos; eles desejam ardentemente mais pluralidade e democracia, querem uma Síria melhor, mais segura e fora de perigo, em prosperidade e em saúde. Desejam ardentemente construir de instituições firmes, não a destruição de todas as instituições firmes; aspiram a proteger nossos bens, nosso patrimônio, nossa arte; não o saqueio e a demolição de tudo que a Síria tem. Eles desejam um exército nacional capaz, que assegure e proteja nossa honra, nosso povo e a riqueza nacional, um exército que defenda as fronteiras sírias, sua soberania e a sua independência. O povo sírio não quer, senhoras e senhores, um exército de mercenários.

Não queremos exército “livre” para sequestrar civis, ou para cobrar resgate ou para usá-los como escudos humanos; “livre” para roubar a ajuda humanitária, para extorquir os sírios pobres; “livre” para comerciar ilegalmente órgãos humanos, arrancados de mulheres e crianças vivas; “livre” para canibalizar corações e fígados humanos, para assar cabeças humanas, para recrutar e armar crianças-soldados e para violar mulheres. Tudo isso é feito pela força das armas. Armas essas a eles entregues por países representados nessa Conferência e que dizem representar “grupos moderados”.

Antes nos digam, em nome de Deus, onde estava essa moderação, quando acontecia tudo que aqui lhes relato?

Onde estão esses sombrios grupos moderados, atrás dos quais tantos tentam esconder-se? Serão esses os mesmos velhos grupos que continuam a ser apoiados, militar e publicamente pelo ocidente, que hoje se submetem às mais patéticas tentativas de face-lift [cirurgia plástica, para rejuvenescimento facial], na esperança de nos convencer de que estariam lutando contra o terrorismo?

Todos nós sabemos que não importa o quanto suas máquinas de propaganda tentem envernizar as imagens deles, o extremismo, o terrorismo, continuam inalterados, por baixo das novas fachadas.

Eles sabem, como nós todos sabemos, que sob o pretexto de apoiar esses grupos ditos “moderados”, a al-Qaeda e seus afiliados estão sendo armados na Síria, no Iraque e em outros países da região.

Essa é a realidade, senhoras e senhores.

É tempo de acordar para a incontestável realidade de que o ocidente está apoiando alguns países árabes para que forneçam armas mortais para a al-Qaeda.

O ocidente afirma publicamente que combate o terrorismo, enquanto, de fato, ocultamente, o está alimentando. Quem não vir isso está cego, ou pela ignorância, ou pela ânsia de acabar o que começaram.

É essa a Síria que queremos ter? Milhares de mártires e a perda de nossa antes estimada segurança pessoal e nacional, que foi substituída por devastação apocalíptica? Seria esse o desejo do povo sírio, que eles tentam concretizar? Não, senhoras e senhores. O que hoje se vê na Síria não prosseguirá. E é por isso que estamos aqui.

Apesar de tudo o que foi feito por alguns, nós estamos aqui para salvar o país; para terminar com as decapitações, para impedir a canibalização e a carnificina. Viemos ajudar mães e crianças a retornarem às suas casas, das quais foram afugentadas pelos terroristas. Estamos aqui para proteger os civis e o caráter aberto do estado sírio, da Síria, e para impedir o avanço sistemática de terroristas vindos de outros países, por toda a nossa região.

Estamos aqui para impedir o colapso de todo o Oriente Médio. Para proteger sua civilização, cultura e diversidade, e para preservar o diálogo das civilizações no berço das religiões.

Viemos para proteger a tolerância islâmica, que foi deformada, e para proteger os cristãos do Levante.

Estamos aqui para dizer aos exilados que retornem ao seu país, porque se não o fizerem se autocondenarão a ser eternos estrangeiros em outros lugares. E porque, independente das nossas diferenças, ainda continuamos a ser irmãos e irmãs.

Estamos aqui para pôr fim ao terrorismo, como outros países que conheceram o seu gosto amargo e puseram-lhe fim.

Afirmamos, alto e consistentemente, que a única solução é um diálogo entre sírios. Mas, assim como outros países também assaltados pelo terrorismo, temos o dever constitucional de defender nossos cidadãos. Por isso continuaremos a combater o terrorismo que ataca sírios, digam os terroristas o que disserem sobre suas afiliações políticas.

Aqui estamos para exigir responsabilidades, porque se certos países continuarem a apoiar o terrorismo, essa conferência não trará frutos.

Pluralismo político e terrorismo não poderão jamais coexistir. A política só consegue avançar, se derrota o terrorismo; nada se poderá jamais construir à sombra do terrorismo e de terroristas.

Estamos aqui como representantes do povo e do estado; mas que fique bem claro, para todos – a experiência é aqui a melhor prova: ninguém tem autoridade para dar ou retirar a legitimidade de um presidente, de um governo, de uma constituição, de uma lei, ou de seja o que for, na Síria, exceto os sírios, eles mesmos. É direito dos sírios, tanto quanto é seu dever.

Portanto, qualquer que seja o acordo ao qual se chegue aqui, ele terá de ser submetido a um referendo nacional na Síria.

Nós temos a tarefa de apresentar aqui os desejos do nosso povo, não a de determinar o seu destino. Quem tenha interesse em ouvir a vontade do povo sírio, que não comece por se apresentar como seus representantes autodesignados. Só os sírios têm o direito de eleger seu governo, seus parlamentares e de aprovar sua constituição. Qualquer outra ideia será só conversa fiada, que nada determina, se não for aprovada pelos sírios.

Finalmente, a todos aqui e aos que nos acompanham ao redor do mundo:

Na Síria, estamos lutando contra o terrorismo, que destruiu e continua a destruir; contra o terrorismo. Desde os anos 1980’s muitos clamam a ouvidos surdos, por uma frente ampla que destrua o terrorismo.

O terrorismo atacou nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, na Rússia, no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, e a lista continua a crescer.

Temos de todos cooperar nessa tarefa. Temos de trabalhar conjuntamente para extinguir aquela ideologia malévola, horrenda, obscurantista.

Então, que possamos como sírios estar unidos para nos focar na Síria, para começar a reconstruir o seu tecido e a sua estrutura social.

Como já ficou dito, o fundamento desse processo é o diálogo. Apesar de nossa gratidão ao país anfitrião, afirmamos que o diálogo real entre os sírios deve ser feito, de fato, em solo da Síria, sob o céu da Síria.

Há exatamente um ano, o governo sírio propôs a sua visão para uma solução política. Quanto sangue inocente teria sido poupado, se tantos países tivessem optado pela razão, não pelo de terrorismo e pela destruição.

Durante um ano, o governo sírio clamou por um diálogo. E só o terrorismo respondeu, e continuou a atacar a Síria, seu povo e suas instituições.

Hoje, nesse encontro de poderes árabes e ocidentais, estamos frente a uma simples escolha; podemos escolher lutar juntos contra o terrorismo e começar um novo processo político. Ou tantos continuarão a apoiar que o terrorismo continue a atacar a Síria.

Rejeitemos as mentiras apresentadas por falsas mãos e faces, que vêm com sorrisos públicos, mas alimentam e armam, encobertamente, os terroristas. O terrorismo que hoje ataca na Síria está em expansão e pode vir a infectar todos nós.

Hoje, é o momento da verdade e do destino. Que estejamos à altura do desafio.

Muito obrigado.


  O Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov saúda Walid al-Moallem ao
final deste discurso de 22/1/2014 em Montreux, Suiça