Mostrando postagens com marcador Brisbane. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brisbane. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Pepe Escobar ‒ G20 na Austrália: Bufões x Sul Global


Façam negócios, não Tomahawks!

17/11/2014, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Putin "isolado"? (só rindo!)

Eis o G20 na Austrália numa única linha: um pequeno bando de bufões políticos anglo-saxões, que tentam derrubar o Sul Global.

Países que representam mais de 85% da economia mundial reúnem-se para (em teoria) discutir algumas questões econômico/financeiras realmente pesadas, e virtualmente a única coisa sobre a qual a lastimável imprensa-empresa ocidental gagueja é o “isolamento” ao qual teria sido relegado o presidente russo Vladimir Putin. [1]

Bem que Washington e sua coorte de fantoches tentaram converter o G20 em total farsa. Por sorte, os adultos presentes tinham negócios a tratar.

Os cinco países BRICS – apesar de haver problemas, esse é o G5 que realmente conta no mundo – reuniram-se depois do encontro, incluído tal presidente “isolado”. Em termos econômicos, esse G5 já ultrapassa, de longe, o velho e decrépito G7.

A presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, encorajou fortemente todo o G5 a turbo-acionar a cooperação mútua – além da cooperação Sul-Sul. Aí se inclui, claro, o Banco de Desenvolvimento dos BRICS. Os BRICS, reforçando sua “grave preocupação”, mais uma vez desmascararam o blefe de Washington – os EUA recusam-se a apoiar a reforma estrutural, perpetuamente adiada, do Fundo Monetário Internacional, FMI.

O pacote de reformas das quotas e na governança do FMI já está aprovado na direção do FMI desde 2010. Uma das resoluções chaves foi aumentar o poder de voto dos mercados emergentes, com os BRICS na vanguarda. Para os Republicanos em Washington, é pior que o comunismo.

O presidente chinês, Xi Jinping acrescentou que a cooperação dos BRICS não apenas estimulará fortemente a economia global, como também garantirá a paz mundial. Façam negócios, não Tomahawks. As mais de 120 nações do Movimento dos Não Alinhados – mendigos no banquete do G20 – ouviam com extrema atenção

“Agressões” e mais “agressões”

Comparem agora os BRICS trabalhando, e os chefes de estado da União Europeia, que só fizeram andar atrás do presidente Obama dos EUA para definir a “estratégia” deles – não para promover a economia global, mas... para demonizar mais e mais a Rússia.

E, isso, depois que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse a Putin, numa reunião “robusta”, que Putin estaria preso numa encruzilhada e às vésperas de ser atingido por mais sanções; o primeiro-ministro do Canadá Stephen Harper reclamou de ter sido obrigado a apertar a mão de Putin; e o primeiro-ministro australiano Tony Abbott obrigou todo mundo a posar com coalas ao colo – crime de maus tratos a animais –, depois de, ao que parece, ter recomendado um ataque de shirtfronting [2] ao presidente russo.

E não foi só “agressão russa”. Obama, Abbott e o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, também se reuniram separadamente para aumentar a “cooperação militar” e “fortalecer a segurança marítima” na região do Pacífico Asiático. Contra (o que mais seria?!) a “agressão chinesa”.

Obama e seus "bufões" (ou poodles!)
Arrogância imperial e bufonaria à parte, Putin, sim, reuniu-se com a chanceler alemã Angela Merkel por mais de três horas. Essencialmente, discutiram a Ucrânia. Nada, nada vazou. Quer dizer: Putin reuniu-se e trabalhou com todos os adultos cuja ação-opinião interessa: os BRICS e Merkel. Em matéria de boa cabeça para negócios, era o melhor que havia a fazer por ali.

Como disse o presidente Putin, ao deixar a Austrália:

São nove horas de voo até Vladivostok e mais oito horas até Moscou. Preciso dormir quatro horas, antes de voltar ao trabalho na 2ª-feira (17/11/2014). Já fizemos o que viemos fazer aqui.

Santo Deus! Foi a deixa para que a imprensa-empresa ocidental enlouquecesse totalmente e se pusesse a repetir sem parar a “notícia” segundo a qual a tal “figura isolada” fugira, coberta de vergonha, do G20. [3]

Na dúvida, imprima dinheiro

Apesar dos incansáveis esforços da gangue política anglo-saxônica para desqualificar a reunião, até que algum trabalho– minimalista – foi completado. Até Putin elogiou a “atmosfera construtiva”. Mas a coisa esteva mais, mesmo, para atmosfera de pensamento-discurso desejante.

No comunicado final, apareceu a promessa de aumentar o PIB global em estonteantes US$ 2 trilhões, até 2018. O xis da questão desse plano mágico é facilitar o investimento em infraestrutura, que cria empregos e melhora o comércio global.

Aliás... é exatamente o que a China está fazendo – em massa. China e Rússia assinaram dois negócios gigantescos de gás, esse ano, no valor total de US$ 725 bilhões. O Fundo de Investimento Rota da Seda, de US$ 40 bilhões, financiará projetos de desenvolvimento em sete nações da Ásia Central. Putin-“figura isolada” confirmou que o comércio entre Rússia e China e o resto da Ásia aumentará, de 25% para 40% do PIB russo.

Ainda mais importante, Rússia, China, Irã – e em breve outras nações asiáticas – trabalham ativamente na direção de implantar seus próprios sistemas de câmbio de moeda, independentes do sistema SWIFT e do dólar norte-americano. O comércio e os investimentos Rússia-China fazem-se cada vez mais em rublos e yuan, cada vez menos em dólares norte-americanos. Para os bufões, é pior que o Apocalipse.

O comunicado do G20 fala também de uma ofensiva neoliberal de facto, renovada – da “desregulação” nos mercados de bens e serviços, à “flexibilização” no mercado de trabalho. Uma nebulosa central de investimento global será montada em Sydney, mas ninguém sabe ao certo como funcionará.

O G20 também insistiu na necessidade de combater o chamado shadow banking. [4] Puro conversê desejante – e atores/ especuladores/ megagânsteres das finanças impedirão que aconteça. Ninguém aí está pensando em enfrentar, mesmo, os fundos-esgoto do tipo Turks & Caicos “reze pelo EUA-dólar, ajoelhe-se aos pés da rainha”, não é, rapazes?

Não surpreendentemente, sumiram do comunicado final todas e quaisquer referências a maior transparência nas indústrias extrativas. Sobre mudança climática, mais conversê desejante sobre “ação efetiva” antes da conferência de Paris, em dezembro de 2015. Podem-se apostar cassinos inteiros de dinheiro lavado em que nada de substancial acontecerá, nem antes nem depois da tal conferência.

Vladimir Puttin no G20 de Brisbane -15/11/2014
Os wahhabistas do neoliberalismo obviamente detonaram a tentativa, apresentada por uma Argentina “exaurida”, de desenvolver um regime supranacional à prova de falência. Claro. Afinal, os fundos abutres do tipo Paul Singer devem conservar o direito pleno de agir como abutres.

No final, o tal Putin “isolado” lá estava pronto para trabalhar, no horário certo, hora de Moscou. A União Europeia com certeza perderá pelo menos 15% do comércio de US$ 330 bilhões com a Rússia em 2015 – e o comércio entre os BRICS dobrará. A débâcle absoluta da União Europeia continuará a ser causada, em ampla medida, pelo neoliberalismo. E pelodiktat pelas elites de Washington/ Wall Street, de que todas as instâncias de economia mista na União Europeia devem ser desmontadas.

Enquanto o Fed põe fim ao seu “alívio quantitativo” [orig. quantitative easing (QE)], o Banco Central Europeu sonha com se pôr a imprimir dinheiro feito doido, e o Banco Central do Japão já imprime dinheiro feito doido, Rússia e China compram oceanos de ouro físico. Por trás de uma cortina de fumaça de dinheiro impresso, a economia global continuará a padecer.

Mesmo assim, a economia russa continuará na trilha da integração cada vez mais íntima com China, Irã e Cazaquistão. O centro do investimento global e coração da ação continuará a ser – e onde mais seria? – o Pacífico Asiático. Não por acaso, a reunião do G20, em 2016, acontecerá na China.

Noutros noticiários, a notícia foi que Pepe Mujica, não apareceu na reunião do G20. É homem que merece ter, ele mesmo, a palavra definitiva. Não é preciso muito trabalho para comparar e ver a diferença que separa a dignidade pessoal, a honestidade, a humildade, a inteligência, a coragem, o altruísmo e a solidez das políticas que Mujica promoveu no Uruguai, com a bufonaria imprudente, negligente, descuidada, temerária dos Cameron-Harper-e-Abbotts.

Há políticos e “políticos”. Felizmente, a vasta maioria da opinião pública global é capaz de ver a diferença.
____________________

Notas dos tradutores

[1] Sobre isso, ver também 17/11/2014, redecastorphoto: Conversa de “Putin está isolado” é idiota e perigosa, Moon of Alabama, traduzido.

[2] A expressão shirt fronting é muito frequente no inglês australiano, nascida na gíria do futebol e do rugby. Significa, literalmente, “bater de cabeça, de frente, no plexo solar do adversário”. É golpe que, pela violência, já está proibido pelas regras do esporte. Sobre isso ver: What is shirtfronting? A guide to understanding the G20  (ing.).

[3] Essa, precisamente, é a des-notícia que se leu em português do Brasil em O Globo, Yahoo, Exame e mais zilhões de veículos de repetição. Não há “jornalismo” mais chatíssimo que o “jornalismo” que continua a ser vendido no Brasil-2014 a consumidores já totalmente otarizados.

[4] Uma série de instituições que atuam como sistema financeiro paralelo, que escapa à supervisão pelas autoridades bancárias e monetárias, como, dentre outras, os chamados hedge funds e os investment trusts.
____________________

­­­­­­­­­­­­­­­­­

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Conversa de “Putin está isolado” é idiota e perigosa

16/11/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Putin "isolado" com Dilma Roussef...
Algumas manchetes pelo mundo, iguaizinhas e igualmente idiotas:

·  LA Times – Putin enfrenta isolamento no G-20
·  NY Times – Putin recebido com frieza no G-20

Shinzo Abe "isolado"... Tenta abrir garrafa
Ainda mais idiota que essas manchetes foi o Tagesschau alemão, que usou uma foto em que Putin aparece como se estivesse almoçando sozinho, para assim provar seu “isolamento”. Basta examinar as imagens distribuídas pelas agências, para ver que Putin está sentado à mesa com a presidenta Dilma Rousseff do Brasil, à espera de outros comensais que chegam em seguida. Há imagens semelhantes, que poderiam ser usadas para mostrar o “isolamento” do primeiro- ministro do Japão e – sim, senhores! – até de Obama. A foto de Putin foi “escolhida” para ilustrar uma matéria já preparada, sobre o isolamento de Putin. O restante da imprensa-empresa universal reproduziu o mesmo movimento de desinformação seletiva por imagens.

E será que esses “jornalistas” que ganham a vida a inventar manchetes, correspondentes de redes de televisão e políticos sabem o que significa G-20? A turminha que agrediu e ofendeu publicamente o presidente russo em Brisbane são os de sempre: Obama, Cameron, Harper, Abbott e Abe. Não passam de 5, em 20.

Obama "isolado"... Com o garção
Importantes são os líderes que não agrediram e ofenderam Putin frente às câmeras de televisão: Argentina, Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, México, Arábia Saudita, África do Sul, República da Coreia e Turquia. Praticamente todos esses governantes tiveram reuniões exclusivas com Putin. Só Merkel, da Alemanha, solicitou e obteve reunião de mais de três horas com Putin. Será que passou três horas com Putin, só para mostrar ao mundo o quanto a Rússia estaria “isolada”?

Fato é que Putin vive “isolado” como o Papa.

Fato é, também, que os tais “líderes mundiais” que disseram frente às câmeras que estariam “isolando” Putin, não passam de poderes já minoritários no mundo, em população, militarmente e economicamente. Como o próprio presidente Putin disse, corretamente, em entrevista à televisão alemã, antes de embarcar para a reunião do G-20:

Na verdade, se se somam os PIBs dos países BRICS, calculados pela paridade do poder de compra, vê-se que já superamos o grupo dos chamados países G-7. Se me lembro corretamente, os países BRICS já têm PIB de US$ 37 trilhões, pela paridade do poder de compra. O G7 está ainda nos US$ 34,5 trilhões. E a tendência daqui em diante favorece os BRICS, não o G-7.

Putin "isolado"... Com os demais BRICS
Assim afinal se vê claramente que toda essa conversa fiada de “Putin isolado” seria até engraçada, se os “poderosos” do dia reconhecessem que só fazem repetir bobagens. 

Infelizmente, muitos “líderes”, políticos, “jornalistas”, colunistas e “especialistas” em Washington DC acreditam, com a fé mais cega, nas mentiras que eles mesmos inventam e põem-se a repetir. Por causa dessa fé cega, esse pessoal erra muito, nas “análises” que fazem das políticas mundiais. É perigoso errar tanto. Nesse campo, os erros de avaliação quase sempre geram consequências sangrentas.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera  A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.