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sábado, 8 de novembro de 2014

O “treinamento” no ocidente e a luta contra o Estado Islâmico


4/11/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


As únicas entidades competentes e capazes que há hoje na região, para fazer frente ao Estado Islâmico são a Guarda Revolucionária do Irã e o Hezbollah libanês. E serão vãos quaisquer esforços para “treinar” qualquer nova força contra o Estado Islâmico que não inclua esses dois exércitos. (...) Se os EUA quiserem derrotar o Estado Islâmico, terão de “pegar muito leve” com seus outros “inimigos” e terão de deixar que Irã e Hezbollah conduzam e comandem o treinamento e a luta.


Tropas do Hezbollah libanês
“Treinar” tropas estrangeiras parece ser alguma espécie de fórmula mágica para vários problemas de política exterior. “Treinar” um novo exército iraquiano contra o Estado Islâmico é o mais recente sintoma dessa ânsia por milagres. Mas todo o “treinamento” que o ocidente oferece tem gerado mais problemas que soluções.

As diferentes tropas estrangeiras treinadas na infame Escola das Américas do Exército dos EUA revelaram-se muito capazes, mas só como torturadores e esquadrões da morte:

Observadores destacam que os alunos da Escola das Américas incluem 48 de 69 militares salvadorenhos citados no Relatório da Comissão da Verdade da ONU sobre El Salvador e envolvidos em violações de direitos humanos (incluindo 19 de 27 militares implicados no assassinato, em 1989, de seis sacerdotes jesuítas), e mais de 100 militares colombianos acusados de serem responsáveis por violações de direitos humanos em relatório publicado em 1992 e assinado por várias organizações de direitos humanos.

Relatórios de imprensa também informam que, entre os alunos que frequentaram aquela escola, há militares peruanos ligados ao assassinato, em julho de 1992, de nove estudantes e de um professor da Universidade Cantuta; além de vários oficiais militares hondurenhos ligados a uma força militar clandestina conhecida como Batalhão 316, responsável por desaparecimentos no início dos anos 1980s.

Críticos da Escola das Américas insistem que os soldados escolhidos para frequentar a escola não são adequadamente selecionados; resultado é que alguns alunos e instrutores são admitidos na escola depois de implicados em violações de direitos humanos.

Militares estrangeiros treinados ao longo da década passada em vários programas ditos “de antiterrorismo” frequentemente aparecem associados a golpes de estado em seus países de origem:

O oficial de exército que chefiou o golpe em Burkina Faso e contra o qual houve protestos populares na nação localizada no oeste da África foi duas vezes selecionado para frequentar cursos de treinamento antiterrorismo patrocinados pelo governo dos EUA, como informaram militares norte-americanos.

...

Apesar de terem recebido treinamento relativamente curto, a experiência de [tenente-coronel Isaac] Zida de Burkina Faso tem eco na história de outros oficiais militares africanos, que, na sequência, reapareceram chefiando golpes de Estado contra os respectivos governos, depois de selecionados pelo governo dos EUA para receber cursos de educação militar profissional.

Em março de 2012, um capitão do exército no Mali, que frequentara meia dúzia de cursos de treinamento nos EUA também liderou o golpe que depôs o governo democraticamente eleito naquele país.

Tenente-Coronel Isaac Zida, treinado
pelos EUA e golpista em Burkina Faso
O Reino Unido ofereceu-se para treinar 2 mil “soldados” líbios para “limpar” a anarquia que o ataque do próprio Reino Único criou na Líbia. O primeiro grupo de 325 foram recentemente selecionados, “analisados & aprovados” e embarcados para o Reino Unido, para algum tipo de treinamento básico de infantaria. Cerca de 90 deles decidiram que não querem ser soldados e pediram para ser devolvidos à Líbia. E cerca de outros 20 pediram asilo. Os restantes tentaram divertir-se como podiam. Dois roubaram bicicletas, pedalaram até Cambridge e atacaram sexualmente várias mulheres. Alguns outros estupraram um homem. O programa de “treinamento” foi abandonado e os demais, dessa mesma gangue de bandidos “analisados & aprovados”, além de “treinados”, foram mandados de volta para a Líbia, presumivelmente para aprofundar a anarquia que ali continua.

Os EUA treinaram o exército iraquiano ao longo de muitos anos, e ao custo de bilhões de dólares. Tão logo foi atacado, aquele exército ruiu aos pedaços. Quatro divisões fugiram quando foram atacadas por forças do Estado Islâmico significativamente mais fracas.

Mas... nada de desesperar. Os EUA encontraram o jeito perfeito para resolver o problema do Estado Islâmico no Iraque. Agora, simplesmente, os EUA treinarão algumas novas poucas novas divisões, e esses debutantes, com certeza, derrotarão e darão cabo do Estado Islâmico.

Forças de segurança do Iraque, apoiadas por poder de fogo e centenas de conselheiros dos EUA, estão planejando uma grande ofensiva de primavera contra combatentes do Estado Islâmico que chegam em grandes números ao país vindos da Síria, campanha que, contudo, enfrentará muitos desafios logísticos e políticos.

...

Oficiais norte-americanos dizem que a força inicial à qual planejar dar treinamento e aconselhamento não ultrapassará nove brigadas iraquianas e três unidades similares de [guerrilheiros] curdos peshmerga – cerca de 24 mil soldados.

O plano de contra-ataque exige pelo menos o dobro dessa força, com acréscimo de três divisões, cada uma das quais deve contar com de 8 mil a 12 mil soldados.

Os EUA estão confiando nos seus aliados, para ampliar o número de instrutores norte-americanos. Austrália, Canadá e Noruega já prometeram várias centenas de soldados de forças especiais para uma ou mais de uma das missões de treinamento ou de aconselhamento – disse um alto oficial militar dos EUA.

Sobre o que esperar da qualidade dessas forças e treinamento, basta reler os parágrafos acima.

Áreas controladas pelo Estado Islâmico
(ISIS-ISIS) na Síria e no Iraque em 5/11/2014
O Estado Islâmico governa, atualmente, alguma coisa como de 4 a 6 milhões de pessoas. Está recrutando e alistando gente, para aumentar o efetivo de seu próprio exército. Quantos homens jovens e em idade de combater podem ser recrutados entre milhões de pessoas de uma população tradicionalmente muito prolífica? 100 mil? 300 mil? O Estado Islâmico tem instrutores capazes, formados no Exército Iraquiano Baathista e usa um estilo de combate que combina táticas de guerrilha e de guerra convencional. Já capturou armas e munição suficientes para armar dezenas de milhares de soldados.

Mesmo com apoio aéreo, as forças limitadas que os EUA planejam treinar sempre serão insuficientes, tão logo aquelas forças tentem entrar em áreas que o Estado Islâmico não deseje ceder.

O modelo “ocidental” simplesmente não está funcionando, no tipo de conflito que há em outras partes do mundo. As mentalidades, tradições, incentivos ideológicos e níveis de educação são muito diferentes.

“O ocidente” ainda se sente superior ao “resto”, porque, no passado, venceu incontáveis guerras coloniais. Mas como Samuel Huntington escreveu certa vez:

O Ocidente conquistou o mundo não pela superioridade de suas ideias ou valores, mas pela superioridade que manifestou na aplicação da violência organizada. Os ocidentais frequentemente esquecem esse fato; os não ocidentais jamais esquecem.

Foi uma vantagem no campo da tecnologia que permitiu que forças “ocidentais” vencessem guerras coloniais. Mas hoje, pelo menos em guerras de solo, os dois lados usam basicamente a mesma tecnologia e armas similares. Já não há qualquer vantagem técnica, e nenhum “treinamento” básico tem grande serventia para ajudar a escapar de uma rajada de balas quentíssimas de metralhadora. A guerra de independência dos EUA é bom exemplo disso. O exército britânico ainda conseguia vencer outras guerras coloniais, mas foi derrotado na única guerra colonial que foi obrigado a guerrear contra inimigo que estava em nível técnico similar ao seu, mas muitíssimo mais motivado.

Qualquer exército que inventem de mandar lutar contra o Estado Islâmico e seus exércitos terá de ter alguma motivação ideológica e vontade de lutar que sejam, no mínimo, equivalentes às dos combatentes do Estado Islâmico. Como força atacante, também terá de contar com número maior de soldados. Os EUA e outros exércitos “ocidentais” são incapazes de criar esse tipo de força no Iraque.

Aiatolá Ali Khamenei e oficiais generais
da Guarda Revolucionária do Irã
Foto: Aiatolá Ali Khamenei e oficiais máximos da Guarda Revolucionária do Irã

As únicas entidades competentes e capazes para fazer tal coisa e rapidamente, hoje, são a Guarda Revolucionária do Irã e o Hezbollah libanês. E serão vãos quaisquer esforços para “treinar” qualquer nova força contra o Estado Islâmico que não inclua esses dois exércitos.

A história recente do “treinamento ocidental” de forças estrangeiras é história de fracassos e derrotas. É estupidez pretender que, dessa vez, seria diferente.

Se os EUA querem derrotar o Estado Islâmico terão de “pegar muito leve” com seus outros “inimigos” e terão de deixar que Irã e Hezbollah conduzam e comandem o treinamento e a luta. Qualquer outra coisa fracassará e acabará em algumas décadas, muito provavelmente, na situação embaraçosa de os EUA terem de aceitar o surgimento de um novo estado onde um dia existiu Iraque, Síria e o que mais o Estado Islâmico decida fatiar para seu próprio uso.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille(1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

África, 1987: “O discurso da dívida”


29/7/1987, Thomas Sankara (então presidente revolucionário de Burkina Faso [1]) - Discurso na Conferência da Organização da Unidade Africana, Addis Abeba, Etiópia e a seguir traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também

 

 

Não podemos pagar a dívida. E com isso não quero dizer que somos contra a moral, a dignidade e o dever de cumprir nossa palavra. Quero dizer que a moral, a dignidade e o dever de cumprir nossa palavra não são a mesma coisa entre os ricos e os pobres. A Bíblia, o Corão, não podem servir do mesmo modo aos que exploram os pobres e aos explorados. É preciso que haja duas edições da Bíblia e duas edições do Corão.

Não podemos aceitar que nos deem lições de dignidade. Que elogiem os que pagam as dívidas, e desqualifiquem os que não pagam, que nos digam que os que não pagam não merecem confiança. Ao contrário disso, devemos dizer que, hoje, os maiores assaltantes são os mais ricos, e que isso é visto como normal. Porque um pobre, quando rouba, comete pequeno crime, um pecadilho. Trata-se de sobreviver, de necessidade. Mas os ricos, quando roubam, têm autoridade fiscal, ou roubam na Alfândega. São os que exploram o povo.

Senhor presidente, minha ideia aqui não é provocar, nem fazer espetáculo. Apenas digo aqui o que todos nós pensamos e desejamos. Quem aqui não deseja que essa dívida seja simplesmente cancelada? Quem não desejar que essa dívida seja cancelada, que tome seu avião é vá pagá-la imediatamente, ao Banco Mundial! 

Tampouco desejo que pensem que a proposta de Burkina Faso é ideia saída da cabeça de jovens inexperientes e imaturos, ou que a ideia de não pagar a dívida seja ideia só dos revolucionários. Digo que a proposta de não pagarmos a dívida é proposta objetiva, e é nossa obrigação. E posso citar muitos exemplos de outros que também disseram que não paguemos a dívida, revolucionários e não revolucionários, jovens e velhos.

Cito, por exemplo, Fidel Castro, que já disse que não paguemos. É revolucionário, como eu; e mais velho que eu. Mas posso citar também François Mitterand, que também disse que os países africanos, os países pobres, não podem pagar a dívida. Posso citar a senhora primeira-ministra. Não sei quantos anos tem e não perguntarei, mas é mais um exemplo. Posso citar também o presidente Felix Houphoüet-Boigny, que não é tão jovem e declarou, oficialmente, publicamente, pelo menos em relação ao seu próprio país, que a Costa do Marfim não pode pagar a dívida. Ora, a Costa do Marfim classifica-se entre os países mais ricos da África, ou pelo menos da África ‘francófona’. Por isso também, a Costa do Marfim paga contribuição maior aqui [risos].

Mas, senhor presidente, não falo para provocar. É preciso que os senhores nos ofereçam melhores soluções. Gostaria que nossa conferência adotasse como resolução muito necessária, uma declaração de que não podemos pagar a dívida. E que seja resolução conjunta, não declarações individuais.

É importante que assim seja, para que não nos exponhamos a ser assassinados. Se Burkina Faso permanecer sozinha, como único país que se recusa a pagar a dívida, eu não estarei aqui, na nossa próxima Conferência. Mas se, ao contrário, obtivermos aqui o apoio de todos, de que eu tanto preciso, conseguiremos não ser obrigados a pagar.

Se conseguirmos não pagar essa dívida, poderemos aplicar nossos pequenos recursos ao nosso próprio desenvolvimento.

Para terminar, quero dizer que cada vez que um país africano compra uma arma, é arma que será usada contra outro africano. Não será usada contra europeu nem contra país asiático. Será usada contra africanos. Portanto, temos de tirar vantagem da questão da dívida, para lançar, para encaminhar alguma solução para o problema das armas. Sou militar e ando armado. Mas, senhor presidente, sei que o desarmamento é questão inadiável. Eu ando armado, com a única arma que tenho. E muitos têm um arsenal escondido em casa. Assim, queridos irmãos, com o apoio de todos, conseguiremos ter paz em casa.

Também conseguiremos usar as imensas potencialidades da África para desenvolver a África. Nosso solo é rico. Nosso subsolo é rico. Temos braços e temos um vasto mercado, do norte ao sul e de leste a oeste. Temos capacidades intelectuais para criar ou, no mínimo, para usar todas as tecnologias e ciências, onde quer que as encontremos.

Senhor presidente, façamos dessa Conferência de Addis Abeba uma frente unida contra o pagamento da dívida. Façamos dessa Conferência de Addis Abeba uma frente unida para limitar o comércio de armas entre os países pobres e fracos. Os porretes e facões que se compram por toda parte são inúteis. 

Façamos também dessa Conferência uma frente a favor do mercado africano, a favor do mercado para os africanos. Produzir na África, transformar na África e consumir na África. Vamos produzir o que nos falta, e consumir nossa produção, em vez de importar tudo.

Burkina Faso aqui está para apresentar os tecidos de algodão que nós mesmos estamos produzindo. Algodão plantado em Burkina Faso, tecido em Burkina Faso, modelado e costurado em Burkina Faso, para vestir os burkinabeses. Minha delegação e eu aqui estamos, vestidos por nossos tecelões  camponeses. Não há aqui um único fio importado da Europa ou dos EUA. Mas não estou aqui para apresentar desfile de modas. Queria dizer apenas que temos de aprender a viver à africana, porque não há outro meio para vivermos livres e com dignidade.

Agradeço a atenção, senhor presidente. Pátria ou morte! Venceremos!
_______________________


 Nota dos tradutores
[1] Thomas Sankara [1949-1987] foi assassinado três meses depois desse discurso. Lê-se sobre ele, em “Who killed the lion king?”: “Thomas Sankara liderou, entre 1983 e 1987, uma das revoluções mais radicais e criativas que a África produziu em décadas. Sankara inaugurou uma trilha que outros países africanos poderiam seguir, genuína alternativa à modernização conservadora do continente. Como outros líderes africanos radicais, Sankara foi assassinado. O homem que o matou continua no poder, há 24 anos, sempre apoiado pelo ocidente”.

Paralelismos: Sankara, o herói que desafiou os credores


16/2/2012, *Leonidas Oikonomakis Λεωνίδας Οικονομάκης, ROARMAG.org
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Para Eduardo Galeano

Nos retumbantes protestos anti-austeridade da Grécia, podemos ouvir o eco de Sankara – o Che Guevara da África - o herói que desafiou os seus credores.
Aconteceu em 1987.

A Conferência da Organização da Unidade Africana reuniu-se em Addis Abbeba, Etiópia, nos últimos dias daquele julho de muito calor. E lá estava ele. No uniforme caqui, com seu invencível bom humor, Thomas Sankara, presidente revolucionário de Burkina Faso, o Che Guevara da África. Foi seu último discurso, e ali conquistou os corações dos pobres e explorados. Hasta siempre.

“Não podemos pagar essa dívida, primeiro porque, se não pagarmos, os credores não morrem. Isso é garantido. Mas se pagarmos, morremos nós. Isso também é garantido” – disse ele. E continuou: “Os que nos empurraram para que nos endividássemos, jogaram como se estivessem num cassino. Enquanto ganharam, ninguém discutiu coisa alguma. Mas agora, que estão perdendo muito, exigem pagamento. E nós só falamos de crise. Não, Sr. Presidente. Eles jogaram e perderam. É a regra do jogo. Não pagaremos. E a vida continua”. 

Como eco dos protestos contra as medidas de “austeridade” na Grécia, ouve-se outra vez a voz de Sankara, o Che Guevara da África. O herói que desafiou seus credores.

Mas Sankara também sabia muito bem que não poderia estar sozinho na resistência. E portanto conclamou os demais chefes de Estado africanos a seguir seu exemplo:

“Se Burkina Faso for o único Estado que se recusa a pagar a dívida, eu não estarei aqui, na nossa próxima Conferência”, disse ele, profético. E todos riram.

Hoje, está acontecendo outra vez.

O Parlamento Grego reuniu-se no domingo à noite (na madrugada da 2ª-feria, para ser bem preciso) para votar um novo memorando que imporá ainda mais restrições à classe média e aos mais pobres naquele país, que já enfrentam terríveis dificuldades. E, isso, para obter mais um empréstimo, 70% do qual será gasto para pagar o serviço da dívida anterior. A sessão foi orquestrada por um governo preposto (não eleito) – comandado por um primeiro-ministro banqueiro (também preposto, não eleito) – formado, dentre outros, de gente da extrema direita.

As novas medidas incluem corte de 22% no salário mínimo (32% para os de menos de 25 anos), 15.000 demissões no setor público em 2012 e 150 mil até 2015 (num país cuja taxa de desemprego já é superior a 20%!), cortes em serviços públicos (saúde, educação e assistência social), privatização de patrimônio público (rentável!), mais a promessa assinada de que as medidas serão implementadas, seja qual for o resultado das eleições previstas para abril – como decretou recentemente “Sua Alteza” Wolfgang Schäuble.

Na rua, à frente do Parlamento, centenas de milhares de pessoas (entre as quais Manolis Glezos e Mikis Theodorakis, heróis da resistência grega) reuniram-se para manifestar sua oposição ao memorando, à “Troika”, ao modelo econômico dominante e àqueles políticos gregos que votavam, no Parlamento. No que gritavam, ouvia-se um eco que chegava de Addis Abbeba e do fundo dos tempos:

“Não podemos pagar essa dívida, primeiro porque, se não pagarmos, os credores não morrem. Isso é garantido. Mas se pagarmos, morremos nós. Isso também é garantido”.

À primeira vista, parece que não fez diferença alguma. O memorando foi aprovado pelo Parlamento. Mas, agora, a “Troika” está em pânico, com medo de ser derrubada pelo poder do povo, nas eleições de abril. Então, os credores tentam pateticamente adiar o pagamento do “resgate” para depois das eleições, quando o novo governo grego, depois de eleito, tiver sido obrigado a jurar que também cumprirá os termos do memorando.

Temam o povo! Vivemos grandes tempos para a democracia! 

Thomas Sankara, o homem que acreditava que revolucionários podem ser assassinados, mas não suas ideias, não chegou à Conferência da Organização da Unidade Africana do ano seguinte. Foi assassinado três meses depois daquele famoso discurso em Addis Abbeba, por seu ex-amigo e companheiro em armas, Blaise Compaoré, que continua lá, presidente de Bukina Faso, até hoje.

Assistam:

Sankara, The Upright Man [O homem íntegro], Robin Shuffield


Sankara, “O discurso da dívida” (29/7/1987) (em francês)



*Leonidas Oikonomakis é um ativista, membro do grupo de hip hop Social Waste. Bacharel em Estudos Internacionais e Europeus da Universidade de Piraeus (2005) e mestrado em Desenvolvimento Internacional: Pobreza, Conflitos e Reconstrução pela Universidade de Manchester (2006). Foi professor associado para Pesquisas na Universidade de Creta, bem como no Centro de Estudos Europeus da Middle East Technical University, em Ankara, na Turquia. Atualmente é pesquisador do Instituto Universitário Europeu, Florença. Seus principais interesses de investigação incluem teorias e práticas de desenvolvimento internacional, mudança social, pobreza, sustentabilidade e os movimentos sociais. Seus artigos têm sido traduzidas para o francês, o urdu, hindi, árabe, bahasa da Indonésia e italiano


segunda-feira, 7 de março de 2011

Despachem os tuaregues, por avião, urgente!

Pepe Escobar

8/3/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

No empate – não é guerra civil, é empate – entre o poder do Estado em Trípoli e um governo paralelo, de tribos plus“milícias irregulares, é cada vez mais difícil identificar atores chaves na Líbia. A estrada é longa (1.000 km), venta muito. É preciso cruzar o deserto, de Benghazi até Trípoli, ou do levante até a vitória, com parada crucial no meio do caminho em Sirte – a Tikrit (cidade natal de Saddam Hussein) de Muammar Gaddafi – antes de que algo aflore da batalha final, numa Trípoli cercada por um anel de aço. Não há qualquer sinal de que Gaddafi esteja próximo de abraçar a ousada, nova em folha, recém inventada estratégia do governo de Barack Obama para o Oriente Médio, de “alterar” regimes. 

Tentemos examinar o campo de batalha. No que tenha a ver com as tribos em Cyrenaica – leste da Líbia – que sempre foram o pesadelo estratégico número um de Gaddafi, sua notória capacidade para cooptar líderes tribais é história.  

Gaddafi ainda conta com algumas tribos no oeste e no sul, entre elas sua própria tribo e a tribo Magariha, do homem que fez explodir o avião em Lockerbie, Abdelbeset Ali Mohmed al Megrahi. Mas muitas – embora não todas – estão contra o bunker (ver “As tribos contra o bunker, 25/2/2011, traduzido ), inclusive a principal, Warfallah (com influência sobre o exército), além da Zawiya (no leste rico em petróleo), Bani Walid (deixaram de colaborar com os serviços de segurança) e a tribo Zintan (ex-aliada da tribo de Gaddafi). 

Se – ou quando – Gaddafi cair, o governo provisório da Líbia será, com certeza quase absoluta, uma mistura de líderes tribais, com, mais uma vez, a Tripolitania mais desenvolvida em conflito com a sempre negligenciada Cyrenaica (ninguém esqueça que Saif al-Islan, o filho “modernizador” de Gaddafi, atribuiu a culpa pelo levante a facções tribais). 

As tribos líbias combatem umas contra outras, de fato, há séculos – mais ou menos como no Afeganistão; mas a diferença, agora, é que muitas já se uniram contra o inimigo rei dos reis. 

A batalha de Argel [1] 

Na Argélia, os militares estão desesperadamente necessitados de que os pacificadores acompanhem os eventos na Líbia. Claro. Se Gaddafi cair, a Argélia será a seguinte na fila (está em 9º lugar na lista dos jogadores de sapatos de The Economist – que visa a prever em que direção andará o perfume do jamim – abaixo da Tunísia, que já caiu). Líbia e Argélia são potências de gás natural e petróleo – riquezas que nunca descem na direção de beneficiar as respectivas populações cada vez mais desesperadas. 

Correm rumores de que a Argélia seria o único governo no mundo que ainda estaria objetivamente apoiando Gaddafi (a Sérvia é outro caso: está em silêncio por causa de vários muito suculentos contratos militares e de construção). Até agora, o mais parecido com ajuda direta de Argel a Trípoli foi ação do grupo de defesa de exilados, Algeria Watch, que insiste que Argel facilitou o transporte aéreo de mercenários do Niger e do Chad até a Líbia  (ver em: Le DRS algérien use de tous lês moyens pour faire avorter lês révolutions tunisienne et libyenne -  em francês)  .A Argélia já fez o mesmo antes – transportar tropas para a Somália, para ajudar o governo fantoche-dos-EUA a combater “terroristas” de tribos somalianas rebeldes. 

Muito mais assustador que isso, mas ainda sem confirmação, é a notícia de que aquele tal coronel Djamel Bouzghaia – principal assessor cabeça-de-“guerra-ao-terror” do presidente argelino Abdelaziz Bouteflika – pode ser o indicado para substituir o presidente deposto da Tunísia Zine el-Abidine Ben Ali, ao qual serviu como comandante das forças de segurança e da Guarda Republicana, onde mais seria, na Líbia. Entre esses tipos sinistros estão os atiradores que mataram manifestantes na Tunísia, em três diferentes cidades e, hoje, podem estar matando civis líbios. 

E chega a cavalaria tuaregue [2]

Se Gaddafi pode contar com atiradores tunisianos para o serviço sujo, o que dizer dos nômades tuaregues do Sahel?

Historicamente, Gaddafi sempre armou confusões terríveis entre seus vizinhos – e os tuaregues são sempre instrumentalizados em sua estratégia megalomaníaca de construir um Grande Sahara em volta da Líbia. Gaddafi certamente saberá aproveitar-se dos sonhos secessionistas dos tuaregues. 

Há dez anos, na estrada, em Timbuktu no Mali, os amigos tuaregues ofereceram-me curso intensivo sobre rebeliões tuaregues e movimentos de secessão. No início dos anos 1970s, muitos tuaregues alistaram-se na Legião Islâmica de Gaddafi, a qual, em tese, combateria para criar um estado islâmico unificado no norte da África. Naquele momento absolutamente não havia para onde ir, num Sahel-Sahara assolado pela grande seca. A Legião existiu até o final dos anos 1980s e foi dissolvida. 

Gaddafi também estimulou rebeliões dos tuaregues, sobretudo no Mali e Niger. Pagou instalações em Timbuktu, Gao e Kidal no Mali, abriu um consulado em Kidal, e acionou a varinha de condão dos petrodólares. Os tuaregues do norte do Mali simplesmente abominam o governo central em Bamako, capital do Mali. Nômades, os tuaregues obviamente não confiam em qualquer modalidade de governo central; querem sempre, e essencialmente, autonomia; ou, no mínimo, mais investimentos em saúde pública, saneamento, assistência médica e educação nas cidades e vilas do desrto onde vivem. 

O governo de Bamako e a rebelião tuaregue finalmente, em julho de 2006, assinaram um acordo, com mediação da Argélia, que, em teoria levaria paz e desenvolvimento à região de Kidal. Os rebeldes depuseram armas oficialmente em fevereiro de 2009. Só um, dos líderes rebeldes, Ibrahim Ag Bahanga, não concordou com o negócio. Vive hoje exilado na Líbia.

Há tuaregues que vivem no deserto do sudoeste da Líbia. Mas Bamako está espalhando que pelo menos 800 tuaregues do Mali, de Burkina Faso, de Niger e da Argélia já teriam aderido às forças de Gaddafi. Como resistir à oferta de 10 mil dólares em dinheiro para alistar-se, mais mil dólares por dia de combate... se você for um tuaregue jovem e desempregado?

A diferença é que, agora, Gaddafi parece estar criando não só divisões entre os tuaregues e os países onde vivem, mas também dentro das próprias comunidades tuaregues – sobretudo no Mali, no Niger e no Chad. Muitos tuaregues já trabalharam para Gaddafi na Líbia, durante anos; alguns foram membros das Forças Armadas da Líbia e têm nacionalidade líbia. Como os mais jovens, também estão sendo recrutados à força de petrodólares – para desespero de muitas comunidades tuaregues.

Isso, exatamente, foi o que disse Abdou Sallam Ag Assalat, presidente da assembleia regional em Kidal, à agência France-Presse: “Esses jovens estão indo em massa para a Líbia (...). As autoridades regionais tentam dissuadi-los, sobretudo os ex-rebeldes, mas não é fácil, porque lá estão os dólares e as armas a serem recapturadas (...). Um dia, todos voltarão, com aquelas mesmas armas, para desestabilizar o Sahel” em Kadhafi recruiting hundreds of Tuareg fighters: Mali


File:Tuareg area.png

Os tuaregues saem pelo Mali, cruzam o sul da Argélia e chegam ao sul da Líbia. É viagem terrível, de 48 horas, em geral feita em comboios. Claro que aquelas “fronteiras” no deserto são miragem. A operação, segundo a mídia argelina, é organizada por um ex-líder rebelde tuaregue do Mali, que está na Líbia. Bem pode ser Ibrahim Ag Bahanga. E se houver trecho aéreo na viagem – parta da Argélia ou do Chad – nesse trecho os tuaregues encontram os facilitadores da segurança argelina. 

Uma das enfermeiras ucranianas, Oksana, anda dizendo que Gaddafi é “grande psicólogo”. Também é grande sociólogo, porque percebeu – e lucrou muito com isso – que não há estados-nação no Sahel-Sahara, nem em termos sociais, nem políticos, nem jurídicos. Nem a Argélia nem a Líbia jamais deram um passo, que fosse, para reparar as feridas do colonialismo – que espalhou os nômades tuaregues por quatro países. A Argélia sempre se beneficiou – tanto quanto reprimiu – a fragmentação dos grupos tuaregues. Quanto ao rei dos reis africano, ele sabe que pode contar sempre com um exército nômade de reserva.



Notas de tradução
[1] Pelo sim, pelo não, a lembrança é inescapável: “A batalha de Argel” é título de filme famosíssimo, de 1965, de Gillo Pontecorvo  (1919-2006). Foi proibido durante muitos anos em vários países, inclusive na França e no Brasil durante a ditadura militar. Narra lutas pela independência da Argélia, dominada pela França desde 1830, entre os anos de 1954 e 1957.
[2] Ver, para ilustrar, por exemplo, “O segredo do Sahara”, Eugene Wright, Revista dos Escoteiros [Boy’s Life], agosto de 1939, vol. 29, n. 8, em  [NTs].