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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Solução “à moda egípcia” para a Tunísia?

30/7/2013, Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália - L'ARTE DELLA GUERRA
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Abdel Fattah al-Sisi
No Egito, o general Abdel Fattah al-Sisi – homem do Pentágono, nomeado há um ano pelo presidente Mursi para o posto de Chefe de Estado-Maior e Ministro da Defesa – ordenou abrir fogo contra os Irmãos da Fraternidade Muçulmana que protestam contra a deposição e a prisão do presidente Mursi, e convocou as forças laicas a sair às ruas e dar-lhe “mandado para afrontar a violência e o terrorismo”.

O mesmo chamamento foi ouvido também na Tunísia. “O que acontece no Egito nutre nossas esperanças e poderia influenciar também a Tunísia, porque o inimigo comum é a Fraternidade Muçulmana” – disse Basma Jalfaui, viúva de Chokri Belaid, líder da Frente Popular assassinado em fevereiro passado (Il Manifesto, 23/7/2013). E concluiu: “o que aconteceu no Egito não é golpe de Estado: é a continuação da revolução”.

Mohamed Murci
Graças à casta militar formada e financiada pelos EUA, que assegurou, por mais de 30 anos a sobrevivência do regime de Mubarak; depois a “transição pacífica”, quando o levante popular derrubou Mubarak; em seguida a ascensão de Mursi à presidência para neutralizar as forças laicas; e, afinal, a deposição de Mursi quando a oposição laica levantou-se contra ele. Ante a sangrenta repressão no Cairo, a Casa Branca declarou, diplomaticamente que “não tem obrigação legal de decidir se os militares fizeram um golpe de estado, ao depor o presidente Mursi” – fórmula que permite que os EUA continuem a fornecer ao Cairo ajuda militar de 1,5 bilhão de dólares anuais. Continuando assim a reforçar a casta militar, principal instrumento da influência ocidental e dos EUA no Egito. Como também já se vê, na Tunísia.

Chokri Belaid
A Tunísia – informa a embaixada dos EUA – é “aliada estratégica de longa data, dos EUA”, os quais formaram, treinaram e armaram suas forças armadas. Confirmado pelo fato de que se trataria de “um dos poucos países do mundo que tem cadetes em todas as academias militares dos EUA”, nas quais se formaram aproximadamente 5 mil altos oficiais da Tunísia. Essa casta militar, que também tem formação à francesa, depois de ter apoiado durante 24 anos o ditador Ben Ali, só o depôs oficialmente depois de já ter sido deposto pelo levante popular.

Hoje, enquanto o enfrentamento vai ficando cada diz mais agudo entre os islamistas e laicos, alguns setores da esquerda da Tunísia convocam aquela mesma casta militar para uma “solução à moda egípcia” – vale dizer, para intervenção armada contra o partido islamista, “o inimigo comum”. Essa posição é suicida. A prova disso está no que se vê acontecer no Egito, onde as poderosas forças externas e internas opostas à revolução favoreceram a fratura do movimento popular que derrubou a ditadura de Mubarak, levando ao enfrentamento que se vê hoje entre massas empobrecidas muçulmanas e laicas.

Enterro de Chokri Benaid (líder laico da Tunísia) assassinado em 6/2/2013 
Em benefício da casta militar, o que reforça sua posição e a posição das potências externas – em primeiro lugar, dos EUA – que mantêm o Egito sob o jugo de seus interesses políticos, estratégicos e econômicos.

Em beneficio de Israel, que reforça o assédio que mantém contra Gaza: o exército egípcio já destruiu cerca de 80% dos túneis, vitalmente importantes para manter o abastecimento de alimentos e combustível e, portanto, para garantir a sobrevivência da população palestina. Enquanto que, seguindo as pegadas dos EUA, a União Europeia já incluiu a ala militar do Hezbollah islamista libanês na lista de “organizações terroristas”, mas continua a infiltração de terroristas islamistas em território sírio, trazidos pelos EUA e por seus aliados europeus.

E há quem, também dentro da esquerda, ainda chame isso, de “revolução”.

[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010 ; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Tunísia: “Terapia de choque e estratégia do caos”


(Primeiros elementos para compreender o assassinato de Chokri Belaïd, na Tunísia)

Multidão acompanha o enterro de  Chokri Belaïd
9/2/2013, Collectif Les déconstructeurs du virtuel, Túnis
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Tunísia e Egito passam por involução paralela e similar. Aqui, alguns traços que se observam nos dois países:

1 – Uma “revolução” virtual

Chokri Belaïd
Nos dois países, tudo mudou, para que nada mudasse: os ditadores – que jamais passaram de “ditados”, mais que “ditantes” – foram derrubados; houve eleições democráticas ; “islamistas moderados” viram-se no “poder”. Mas é bem claro que o poder real não está nas cadeiras que ocupam. No Egito, o poder real continua nas mãos do Conselho Supremo das Forças Armadas, que puxa todos os fios, sempre em contato direto com padrinhos e protetores em Washington. Na Tunísia, a situação é bem menos transparente, e a resposta à pergunta sobre quem “detém o poder real” é muito mais difícil. Digamos, para começar, que o poder continua com o cartel mafioso (negocistas, burocratas, policiais)  do antigo regime, alguns pilares do qual deixaram crescer uma barbicha.

2 – Terapia de choque

Os “poderes democráticos” brotados dessas “revoluções” têm em comum que são docilmente submissos às ordens dos que “dão as ordens”: o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC), a União Europeia, os EUA e as petromonarquias do Golfo. O conglomerado desses dadores de ordens só tem uma preocupação: impedir que os povos árabes (e os demais, claro) façam verdadeiras revoluções, que ponham nos eixos as respectivas sociedades, promovendo a justiça social e abrindo o caminho para que se exerçam os direitos fundamentais dos cidadãos em Estado de Direito. Para começar, que garantam aos próprios povos o usufruto soberano dos recursos energéticos que transbordam do subsolo dos respectivos países, e de outros bens comuns (água, terra, patrimônio [cultural] etc.).

A terapia aplicada tem várias faces:

a. Os governos lá instalados devem pagar totalmente e nos prazos marcados o serviço da dívida odiosa que herdaram dos ditadores/ditados derrubados, única condição absoluta, imposta para que lhes cheguem “liberados” outros créditos que só servem para endividá-los cada vez mais;

b. Os governos lá postos devem prosseguir no trabalho de “limpeza” no qual já trabalhavam os predecessores: liquidar os serviços públicos e os que os defendam; mais privatizações, mais riquezas do país entregues às multinacionais, mais implantação de estruturas de controle da população rebelde, a começar pelos assalariados sindicalizados e pela juventude precarizada (os “diplomados sem emprego”). Para mascarar o dejeto dessa “limpeza”, a solução encontrada é a “caridade islâmica” em substituição aos legítimos direitos sociais;

c. A sociedade tem de ser pacificada: algumas centenas de milhões de euros jorram, enviados pela União Europeia e por fundações USAmericanas, alemãs e outras, sobre a sociedade civil organizada, com um único objetivo: dirigir a sociedade no rumo de um processo de “justiça transicional” [1] que não questione o sistema que há.

Principal objetivo: impedir que a juventude diplomada ativa chegue algum dia ao nível da política real, vale dizer, da organização do povo para satisfazer as demandas por acesso à cidadania e ao usufruto dos bens comuns.

3 – Estratégia do caos

A estratégia hoje em marcha nos dois países é fundamentalmente a mesma posta em marcha na Grécia de 1967, na América Latina e na Turquia, na Itália (a “estratégia da tensão”) e no Líbano dos anos 1970 e 1980, na Argélia nos anos 1990, com ajustes táticos para adaptá-la a cada situação particular.

As principais armas dessa estratégia são:

a. A violência armada grupuscular manipulada – o que se chama de “terrorismo” – para semear o medo, desestabilizar as pessoas e fazê-las renunciar à luta pacífica, de massas, democrática e transparente. O objetivo é quebrar todas as estruturas (partidos, sindicatos, movimentos) capazes de frear a “liberalização” da economia.

b. Polarizar as correntes “ideológicas” nas quais se força o conjunto da sociedade a dividir-se, o que leva a uma lógica “de campos” entrincheirados que se excluem mutuamente e combatem-se violentamente.

Uma variante nova do “dividir para reinar”: por cima, uma burguesia “modernizante, laica, democrática” que se opõe a outra burguesia “conservadora, islamista, democrática”; por baixo, um povo “progressista, libertino, revolucionário” , que se opõe a um povo “tradicionalista,  intolerante, que se vai fascistizando”.

Em resumo: o único meio encontrado pelos aparelhos do poder real para perdurarem é a guerra civil, guerra de irmão contra irmão, de irmã contra irmã, de pais contra filhos, de “liberados” contra “os de turbante”,  mediante alianças entre exploradores e explorados, em nome de clivagens que nada têm a ver com as carências e necessidades reais ou com os interesses de classe do povo.

c. Manipular, manipulação diabólica, a dupla infernal complô-motim. No Egito, como na Tunísia, como na Argélia de 1988, a legítima revolta dos jovens precarizados é canalizada por redes mafiosas-policiais na direção de violências niilistas encapuzadas que se manifestam quando das aglomerações populares de massa. Objetivo: suscitar a demanda por um poder forte que garanta segurança. Mais recente exemplo: o surgimento de um “Bloco Negro” no Cairo, no 25/1/2013. Um “Bloco Negro” no qual a Polícia já se infiltrou, como também se infiltrou nos blocos negros de Gênova em 2011, de Montréal, de Toronto, de Londres, de Strasbourg ou de Heiligendamm.

d. Assassinatos predefinidos de personagens-chave, decididos e planejados pelas redes ocultas do poder real. Sempre simultaneamente atribuídos por uns aos outros, esses assassinatos visam a provocar clivagem irreversível na sociedade (vide “a”, acima).

O assassinato de Chokri Belaïd, como os assassinatos de Tahar Djaout, Abdelkader Hachani, Mohamed Boudiaf e tantos outros (Liabes, Boucebsi, Flici, Mahiou, Merbah, Belkaid, Alloula, Bouslimani e Cheikh Sahraoui) na Argélia, inscreve-se nessa estratégia.

Os movimentos sociais, progressistas ou revolucionários têm de estar conscientes e ter plena clareza sobre essa estratégia já posta em operação. Ou cairão, presas dessa armadilha mortal, e terão o destino do touro, que baixa a cabeça na luta contra a capa vermelha e não vê a mão do toureiro que lhe cravará a espada na nuca.
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Massacre da estação de trens de Bolonha (Itália), com 85 mortos e 200 feridos em 20/8/1980. 
Tela do pintor Carlo Carosso

Dos autores:

Parafraseando o bom velho Marx, poderíamos dizer que “Os filósofos até aqui só desconstruíram textos. Trata-se agora de desconstruir o virtual, para alcançar o real”. Esse virtual no qual estamos quase todos já imersos e no qual as jovens gerações mergulham com risco de afogar-se nele, tomando o virtual pelo real, construindo mundos imaginários nos quais são incapazes para agir. Nos propomos pois a repor no lugar o senso de realidade, reconstruindo o real ocultado por trás dos espelhos da propaganda multimídia onipresente; intervindo nos eventos que nos atingem, que nos interpelam, que nos concernem – distribuindo nossas análises e reflexões e ajudando todos a compreender o que os atinge. Nosso coletivo é aberto a todos os tipos de cooperação.

Collectif Les déconstructeurs du virtuel / Coletivo Os desconstrutores do virtual
E-mails para deconstruire@gmail.com

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Notas de rodapé
[1] Justiça transicional: processo que visa a pacificar a sociedade mediante a implantação de mecanismo que substitui a Justiça que haja, para “virar a página” do passado sombrio da ditadura ou da guerra civil e pôr “um ponto final” à demanda das vítimas que exijam justiça.

O mais afamado exemplo dessa justiça transicional é a Comissão de Verdade e Reconciliação na África do Sul. No mundo árabe, o Marrocos foi o único país, até hoje, onde se instituiu comissão desse tipo (Instance équité et réconciliation).

Na Tunísia, o Ministério de Direitos Humanos acaba de assinar acordo de parceria com o Centro Internacional para a Justiça Transicional (CIJT, com sede em New York). “Por esse acordo, o Centro se compromete a fornecer assessoria técnica ao Ministério em matéria de justiça transicional, sobretudo para investigação dos fatos e da verdade, sobre indenizações, reparações, Justiça Penal e reforma das instituições, da Constituição e do Judiciário. O CIJT deve também prover ajuda técnica para a criação de uma Comissão da Verdade e para pôr em operação um programa de reparação dos prejuízos.”