Mostrando postagens com marcador Tunisia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tunisia. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de março de 2014

Sayed Hassan Nasrallah: O “jihadismo takfiri” ameaça Oriente e Ocidente

4/3/2014, na [*] Hassan Nasrallah - Discurso proferido em 16/2/2014 na Comemoração Anual dos Dirigentes Mártires do Hezbollah
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sayed Hassan Nasrallah analisa o perigo que o terrorismo takfiri representa para todas as confissões e países da região e do mundo.

Evocando brevemente o exemplo das experiências soviéticas no Afeganistão ou da guerra civil na Argélia, detém-se sobre a situação dos países ocidentais, como França ou os EUA, ou países árabes, como a Tunísia: de fato, vários deles, num primeiro momento apoiaram declaradamente a insurreição na Síria e manipularam grupos terroristas, mas agora se dão conta do perigo que são todos esses jihadistas para o Oriente Médio e também para seus próprios países, buscando uma porta de saída para essa crise que eles mesmos criaram.

Quanto ao Líbano, o lugar do país no Eixo da Resistência faz dele alvo privilegiado para esses grupos terroristas. E o Hezbollah, ao intervir na Síria, em zonas estratégicas, por meios próprios, o que o Hezbollah faz é tomar a dianteira e bloquear a avançada dos terroristas.

Vídeo (18’ 44”) do discurso legendado em potuguês:

Sayed Hasan Nasrallah:

Tratemos agora do segundo perigo, da segunda ameaça [depois de Israel], da qual seguidamente falamos no passado, e que ameaça todos os países da região, tanto quanto Israel ameaça todos os países, todos os governos e todos os povos da região.

Hoje, esse perigo ameaça todos os países e todos os povos da região: falo do perigo que é o terrorismo takfiri. Na verdade, vejam, a ideologia takfiri, tomada nela mesma e isoladamente, não representa perigo algum. Se alguém fala comigo e me diz “você é infiel”, ora, nada significa, fica por aí.

Nunca pedi a ele que me desse algum atestado de que sou crente ou não crente. Que me acuse de infiel o quanto queira, é problema dele. Se o problema da ideologia takfiri se limitasse à esfera intelectual e legal, seria nada, porque, afinal, nesse mundo, ninguém pede a ninguém qualquer atestado (de que crê ou de que não crê), ninguém pede isso a ninguém, nem entre nós nem entre outros. E no que tenha a ver com o além, as chaves do Paraíso não pertencem aos takfiris, eles não conseguem nem dar entrada nem proibir a entrada a quem bem entendam. Todos sabemos bem quem é o (Único) Senhor das chaves do Paraíso.

O problema não está só na acusação de “não crentes” que fazem os takfiris. O problema é que ao acusarem alguém de não ser crente, eles não aceitam sequer que essa outra pessoa exista, esse outro, diferente deles no plano teológico, intelectual, de escola de pensamento ou, mesmo, apenas político. Ao contrário, atacam diretamente o anátema, o que implica a pena de morte, e assunto encerrado. Assim tratam como se fossem lícitos o assassinato, a desonra, o roubo dos bens de quem eles acusem. Chegam ao ponto de eliminar, suprimir, erradicar, fazer desaparecer quem seja diferente deles. Tudo isso é bem sabido de vocês e não preciso dedicar muito tempo a isso, nem apresentar muitas provas. Hoje, todos sabem, no país e em toda a região, de tudo isso. Quando eu falar mais detalhadamente do contexto geral, apresentarei as provas.

Não há dúvidas de que esse terrorismo takfiri está hoje presente em toda a região. Está composto de grupos armados presentes na maioria dos países da região, e talvez, mesmo, em todos os países da região. Esses grupos ou movimentos têm uma visão takfiri radical e impiedosa, que condena à morte quem se oponha a eles e, mesmo – porque aqui já não se trata apenas da questão de sunitas e não sunitas, ou de muçulmanos e cristãos: os cristãos também são tomados como alvos, sim, mas mesmo na esfera islamista, os xiitas, os alawitas, os ismaelitas, os zaydis, todos que não sejam sunitas estão condenados. E mesmo no que concerne aos sunitas, se se opuser a eles, qualquer sunita que se oponha a eles também pode ser acusado de ser não crente, de ser infiel. Nada mais fácil para eles, no mundo, que declarar, a um sunita ou a quem seja: “Você é infiel, você não crê, você é um apóstata”.

Ora, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), há algumas semanas, não impôs essa sentença contra a Frente Al-Nusra ? E o EIIL partilha com a Frente Al-Nusra uma mesma ideologia, uma mesma abordagem, e, antes, formavam uma só e mesma organização, com um mesmo dirigente, mesmas alianças, respiravam o mesmo ar e viviam sob uma mesma ética – estavam, sim, unidos em tudo: nas maneiras, na aparência, na lógica, na linguagem, nos usos, no espírito e no coração. Mas quando surgiu entre eles uma diferença numa questão política – talvez uma simples disputa por um poço de petróleo sírio, ou na divisão do butim, o EIIL lançou uma sentença de apostasia, de não crença contra a Frente Al-Nusra. Com a maior facilidade. E depois vieram muitos outros veredictos semelhantes.

Hoje, essa realidade é perfeitamente conhecida de todos, na região. Qualquer discordância que surja entre eles e um “outro”, mesmo que esteja com eles, e ainda que seja simples questão de administração, questão política ou mesmo financeira, aqueles takfiris precipitam-se e declaram a apostasia, a falta de fé, e tomam a medida que, para eles, é consequente: pena de morte.

O que está acontecendo há algum tempo na Síria, os combates violentos e brutais entre o EIIL, de um lado, e a Frente Al-Nusra e outras facções, de outro lado, aí está uma realidade que deve nos obrigar a uma reflexão madura, não para ridicularizá-las, se nos opomos àqueles grupos, claro que não.

A verdade é que todo mundo deve considerar de perto essa realidade e extrair lições dela, para poder decifrar a situação atual e prevenir o futuro. Considerem o que está acontecendo, nas últimas semanas. O Observatório Sírio [de Direitos Humanos], que faz parte da oposição, ele mesmo fala de mais de 2 mil mortos, em algumas semanas de combates entre aquelas duas facções. 

O número de operações suicidas eleva-se a várias dezenas nessas últimas poucas semanas, uns contra os outros, mandam carros carregados de explosivos para cidades muito populosas, apenas porque a cidade é controlada pelo EIIL e outra é controlada pela Frente Al-Nusra. Mas muitos moradores dessas cidades não estão nem com o EIIL nem com a Frente Al-Nusra, talvez por posição política sejam favoráveis à oposição. Mas ninguém é poupado. Sequestram mulheres, massacram crianças, destroem as vilas – tudo entre eles mesmos. Não estou nem falando do conflito deles com o regime, deixemos isso de lado. Organizam operações suicidas uns contra os outros, entre eles.

E a execução de prisioneiros e reféns sem qualquer misericórdia. E as carnificinas? E os massacres em massa? Tudo isso, por quê? Opõem-se a quem? Não têm eles a mesma abordagem, uma mesma ideologia, uma mesma escola, uma mesma direção, um mesmo dirigente? A quê eles se opõem? Há alguma questão política? Há alguma questão de organização, que envolva tal ou tal dirigente? Brigam por um poço de petróleo? E não eram eles que se opunham a esse tipo de disputa? Pois aí está o que fazem.

O modelo é esse, a realidade é essa. Observem bem, reflitam bem sobre tudo isso. Verão a mentalidade deles, a mentalidade que motiva os dirigentes deles e os membros dessas facções.

Mas, seja o que for, nada disso é novidade, nada disso é surpresa. Já esperávamos por isso. Mas não porque nós saibamos mais que os outros, não, de modo algum. Já esperávamos por isso, porque qualquer um que observou as experiências anteriores poderia prever tudo isso que se vê hoje. Muito estranho, de fato, é ignorar a situação atual. Vejam a experiência do Afeganistão.

Os grupos jihadistas do Afeganistão combateram contra dois dos exércitos mais poderosos do mundo. Primeiro, contra o exército soviético, e o derrotaram no Afeganistão. Na sequência, os soviéticos se retiraram, graças a Deus... Mas uma coalizão de facções jihadistas, porque alguns deles alimentavam essa ideologia takfiri, radical, impiedosa, sangrenta e assassina, levantou-se contra as demais. Fabricaram até um hadith, que atribuíram mentirosamente ao Profeta: “Vim a vocês com o massacre”. Tal coisa não pode provir da religião de Deus, nem da religião do Mensageiro de Deus, nem da religião de nenhum dos Profetas de Deus Todo Poderoso.

Porque algumas pessoas tinham essa mentalidade takfiri, as facções jihadistas afegãs entraram num conflito sangrento, umas contra outras. O que eles destruíram, em termos de quarteirões, cidades, vilas, o que infligiram em termos de mortos e feridos uns aos outros, todos os grandes comandantes jihadistas que os takfiri mataram, tudo isso ultrapassa em muito o que o exército soviético, ele mesmo, conseguiu fazer. E hoje? O que é feito do Afeganistão? Onde está, hoje, o Afeganistão? Onde está o Afeganistão hoje?

Desde o dia em que os soviéticos se retiraram, até hoje, me digam um dia, um único dia em que o Afeganistão não tenha conhecido matanças, feridos, deslocamentos forçados de populações, destruição generalizada, todas as dificuldades para viver. Digam-me um único dia em que tenha havido paz, alegria de viver, no Afeganistão. E tudo, tudo isso, por causa dos grupos takfiris.

E observemos a Argélia – porque alguém poderia objetar que o Afeganistão é país montanhoso, de condições particularmente difícil, e sabe-se lá o que mais. Pois bem. Na Argélia, o que os grupos armados trouxeram e causaram de sofrimento ao povo argeliano? E o que dizer dos grupos armados entre eles, dirigentes que se matam uns os outros em conflitos entre diferentes facções?

Nem é preciso acrescentar muitos exemplos. Bastam esses, para que tenhamos tempo para... (Alguém pode trocar esse meu relógio? Está apagado.) Isso é o que se passa ante nossos olhos, e temos de ver e tirar daí todos os ensinamentos.

Agora, passo a abordar a situação do Líbano.

O Líbano sofreu atentados em várias regiões. Operações suicidas contra populações civis – crianças, mulheres, em mercados, contra pessoas que andavam na rua... São os crimes que foram cometidos aqui. De início, entre os que perguntavam “Quem (cometeu esses atos terroristas)?”, “Como?”, houve alguns que acusavam o regime sírio, outros acusavam os serviços secretos sírios, outros, ainda, evocavam o Mossad. Sempre fui muito claro sobre esse tema.

Nós não nos precipitamos em acusações ocas contra atores presuntivos daqueles atentados. Sempre dissemos “Sejam pacientes, a identidade deles, sem dúvida alguma, será revelada”. Será revelada, não porque eles sejam capazes ou incapazes de executar operações secretas. Nada disso. A identidade deles se autorrevelará, porque eles estão andando, claramente, na direção de guerra aberta, declarada. Por isso eles filmam suas operações e as distribuem pela Internet, revelando-se abertamente, anunciando o nome dos kamikazes, enviando mensagens que especificam os alvos a atacar. A tal ponto, que a identidade dos autores dos atentados já nem é questão a debater ou discutir. Os responsáveis pelas operações suicidas e os atentados são assassinos takfiris – não são jihadistas

Se ainda há alguém, no Líbano ou em qualquer parte do mundo, que queira refutar isso –, sim, é claro que os israelenses infiltraram esses grupos.

É claro que os norte-americanos utilizam esses grupos. Já os utilizavam no Iraque, por longo tempo, e também foram utilizados em outros países. Mas não há dúvida de que fulano, cicrano, beltrano – eles são conhecidos pelo nome e pela nacionalidade – esse é libanês, o outro é palestino, o outro é sírio, sei lá, um é saudita, outro marroquino ou iraquiano, são eles que dirigem essas redes, que organizam essas operações suicidas e esses atentados no Líbano. O que isso mostra? Tudo isso mostra esse tipo de enfoque, essa mentalidade takfiri...

Assim... À luz dessas operações suicidas e desses atentados, emergiu no Líbano um debate. Como sempre, os libaneses dividiram-se. Alguns declararam que as operações suicidas e os atentados jamais teriam acontecido se o Hezbollah não estivesse agindo militarmente na Síria. Depois, seguiram a mesma lógica para justificar os atentados. Depois, e até hoje, insistem na mesma lógica. E essa lógica será mantida, mesmo que todos participemos de um mesmo governo. Essa lógica se perpetuará, porque ela é parte da animosidade, da luta política que se trava no país. Pois bem. Analisemos um pouco essa lógica.

Quer dizer então que antes de começarmos a agir na Síria, esses grupos não existiam, não estavam em guerra no Norte, em vários campos de refugiados palestinos e em várias regiões do Líbano? Já não preparavam e enviavam carros carregados de explosivos contra áreas cristãs? Contra o exército, etc.? Todos sabemos disso tudo, nem preciso listar os atentados. Os jornais e televisões estão cheios de listas. Tudo aquilo aconteceu antes do início dos eventos na Síria. Tudo bem. Já sabemos disso. Nem é preciso falar muito.

Ante essa lógica, só há duas possibilidade, nem uma a mais: ou bem essas explosões nada têm a ver com nossa ação na Síria, ou, então, sim, elas têm alguma relação com nossa ação na Síria. Não há outra possibilidade. Que outra opção haveria? Não há. Ou nossa ação na Síria é a razão desses atentados, ou não é – e os takfiris, de um modo ou de outro, já tinham intenção de abrir uma frente no Líbano. Só há essas duas vias.

Já consideramos essas possibilidades e concluímos que a primeira é a única que pode ser verdadeira, a saber, que os grupos takfiris sempre consideraram o Líbano como um de seus alvos. De fato, anunciaram claramente nos seus princípios e nos seus discursos. Declaram hoje que o Líbano é terreno (secundário) de apoio, que não é terreno de jihad. A prioridade deles é acabar com a Síria, e só depois, então, se ocuparão do Líbano. Não foi isso, precisamente, que declararam? Está tudo na Internet, na televisão, na mídia, etc..

Assim sendo, agem agora segundo priorização bem definida, que consiste em se apossar das regiões (sírias) que fazem fronteira com o Líbano – seja ao norte, seja na região do Bekaa. Não é mais que uma questão de tempo.

Isso significa que, por princípio, virão ao Líbano, de um modo ou de outro, aconteça o que acontecer. Entendemos que, se não vierem hoje, virão amanhã. Já declararam. Já disseram. Tudo isso é válido e bem claro, se se parte do princípio de que esses atentados nada têm a ver com nossa ação na Síria.

O Líbano é alvo para os grupos takfiris, por princípio. O Líbano faz parte do projeto desses grupos takfiris. E se os norte-americanos e os israelenses já infiltraram esses grupos, não pode haver dúvida alguma, nenhuma dúvida, de que querem destruir toda a região.

E o Líbano tem uma peculiaridade, como há também na Síria: no Líbano há uma Resistência, que é hoje a maior ameaça contra o projeto israelense na região.

Por isso, na nossa avaliação e do nosso ponto de vista, eles viriam para o Líbano de todo modo, aconteça o que acontecer. Foram atraídos para a cena libanesa por sua própria mentalidade, seu próprio projeto e sua visão de mundo. Por isso abriram uma frente no Líbano. Esse é o raciocínio que decorre da nossa análise das coisas. E, sim, há uma segunda análise.

Consideremos, para argumentar, que a outra análise seja a melhor. Hoje, não quero defender essa nossa análise. Quero fazer como se a análise alternativa fosse válida, para poder argumentar e desenvolver o raciocínio.

Por essa segunda análise, o povo libanês estaria pagando o preço de ter enviado combatentes à Síria, através do Hezbollah. E essa seria a razão pela qual os grupos takfiris organizaram os atentados e as operações suicidas no Líbano e fizeram essa escolha. Consideremos essa interpretação, para analisar outra hipótese.

Antes, quero dizer que nossos objetivos aqui têm de ser perfeitamente claros, e quero falar com total franqueza. Antes de avaliar essa segunda hipótese, temos de responder uma pergunta prévia: nossa ação na Síria justificaria tais sacrifícios?

Vale a pena sofrer tais consequências? Supondo-se, é claro, que os atentados sejam consequência de nossa ação na Síria. Vale a pena ir combater em Al-Qusayr e em Damasco? – Quero dizer, nas duas principais regiões nas quais estamos ativos: Al-Qusayr, porque é região de fronteira; e Damasco, porque também tem de ser considerada região de fronteira, porque se Damasco caísse – Deus nos livre! – todas as regiões de fronteira entre o Líbano e a Síria seriam controladas por aqueles grupos armados.

A pergunta é: a ação que empreendemos vale a pena? Valem a pena, se têm como reação, atentados terroristas e outras reações do mesmo gênero? Sim ou não?

Aqui, quero relembrar o que eu disse no início de minha fala sobre a ocupação israelense no Líbano (1982-2000), quando nos criticavam nos seguintes termos: “vocês combateram os israelenses, atacaram os postos de controle deles, os acampamentos deles, os campos militares deles, e, portanto, é claro que os israelenses façam represálias. E houve quem assim justificasse a violência dos israelenses contra os libaneses... Hoje, essa mesma lógica serve para justificar ataques terroristas de grupos armados contra o Líbano.

Eu já disse, e nós explicamos longamente, no passado, as razões de nossa ação na Síria, as causas, as consequências, porque agimos lá e porque ainda estamos agindo lá, e porque continuaremos a agir lá: “nós estaremos presentes e ativos em todos os pontos onde devamos estar”. Nisso, nada mudou. Ao contrário. Os dados em campo aumentam a convicção e a certeza dos libaneses quanto à solidez e ao cabimento dessa decisão.

Não vou analisar os eventos desde o início, mas desde o fim. Consideremos só os últimos desenvolvimentos... Quais são os dados novos, no plano regional e internacional?

O que se vê hoje é que a maioria dos países que financiaram, apoiaram, ajudaram, deram vistos e abriram as fronteiras, esses países todos que encorajaram e ajudaram agentes de combate não sírios, agentes estrangeiros que estão hoje na Síria, a maioria dos países que fizeram isso, hoje só fazem manifestar seu medo, suas preocupações, seus temores ante os riscos de segurança que se criariam, caso aqueles combatentes saíssem vitoriosos na Síria. Há também, consequentemente, os riscos de eles voltarem aos seus países de origem, sobretudo países vizinhos. E há todos os riscos que se criam para aquelas próprias sociedades. Não é verdade? Estou, por acaso, inventando coisas? Ou essa é a realidade hoje?

Hoje, as agências de informação ocidental, regionais e outras só se reúnem para ver o que podem fazer para enfrentar essa situação.

E dizem eles: Se esses grupos – que Deus nos livre! – saírem vitoriosos, eles terão, afinal, uma base vastíssima. A Síria seria ainda pior que o Afeganistão. E os jihadistas  se voltariam contra nós. O que podemos fazer? Ou, então, alternativamente: se eles forem derrotados, se começarem a recuar e sair da Síria, e se se mudarem para outros países? O que faremos?

Sim. É uma catástrofe, que eles mesmos criaram com as próprias mãos. É a serpente que eles mesmos nutriram.

Hoje, esse é o debate que se trava em todo o mundo. Ou não é? Essa é uma primeira realidade indiscutível.

E em segundo lugar, já há algum tempo, vários países impuseram leis que proíbem seus cidadãos de viajarem à Síria para combater. A Tunísia, por exemplo, proíbe viagens à Síria e tomou medidas coercitivas, invocando declaradamente esse problema. Ora! E por que os tunisianos e o governo da Tunísia foram levados a tomar essas medidas, quando, no início, apoiavam a insurreição na Síria?

Exatamente porque os que foram combater na Síria e já retornaram à Tunísia perturbam a sociedade tunisiana, o povo tunisiano e o futuro político da Tunísia, fazendo-os conhecer na própria carne o que impuseram a outros povos da região, a saber, atentados terroristas, assassinatos, violência, rebeliões, etc. Os tunisianos acordaram e perceberam que se aqueles grupos persistirem na mesma via, a Tunísia sofrerá. Assim, tiveram o bom senso e a coragem de tomar medidas enérgicas, desse tipo, enquanto ainda havia tempo. Esse é o segundo ponto sobre o qual queria falar hoje.



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Elites árabes insistem em repelir o Islã político

7/8/2013, [*] Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Egito - Cairo -Praça Tahrir em 11/2/2011
As estações vão e vêm, e os países árabes continuam em convulsão sem fim. Falou-se muito de “Primavera Árabe”. Mas ainda que tivesse sido algum tipo de primavera, como a empresa-imprensa a pintou, não prosperou. E, hoje, já está metamorfoseada em algo muito mais complexo.

Mas tampouco se vê algum “Inverno Islâmico”, expressão muito apreciada por políticos e analistas israelenses. A dimensão islâmica das rebeliões árabes – algumas das quais convertidas em sangrentas guerras civis ou regionais – deveria ser muito clara e palpável, desde o início, para quem compreenda as realidades políticas além do modo como são usadas como ferramentas políticas.

O Islã sempre foi e sempre será componente da modelagem das compreensões coletivas das nações árabes. O Islã político está no coração da luta em curso, a qual, em alguns sentidos, é manifestação de um século de lutas entre o Islã como plataforma de expressão política, governança e jurisprudência, contra tendências ocidentais e ocidentalizantes.

Ao longo da história, jamais houve sequer uma união estável e bem-sucedida entre o Islã e as classes governantes árabes – bem-sucedida no sentido de ter contribuído para o progresso, para avanços nos direitos e para a prosperidade para todos. Ou os islamistas foram cooptados, ou reinou o conflito. A atrocidade dos resultados desses conflitos variou conforme a arte e a esperteza, maiores ou menores, dos governantes árabes aos quais coube gerir os conflitos.

Na Jordânia, sempre houve discórdia nos baixos escalões, entre partidos da oposição islâmica e a classe governante. Oscilou entre inclusão parcial de forças islâmicas num Parlamento que operava com pouca autoridade e surtos ocasionais ou crises políticas de pequenas consequências.

Mas nem todos os experimentos falhados falharam com o mesmo custo relativamente baixo. Na Argélia, uma tentativa de harmonização deu terrivelmente errada. A guerra civil argelina de 1991 durou mais de uma década e fez 200 mil mortos. E nada começou com sangue; as coisas começaram com uma eleição. A Frente Nacional de Libertação que governava cancelou as eleições depois do primeiro turno, temendo o que parecia ser sua derrota certa nas mãos da Frente de Salvação Islâmica.

Prisioneiros argelinos vigiados por soldados franceses
Guerra da Argélia 1954-1952 
A promessa converteu-se no segundo pior pesadelo da Argélia; o primeiro fora a luta ainda mais sangrenta, de 1954 a 1962, de libertação colonial, contra o império francês. Naquele momento, reuniam-se todos os ingredientes para um desastre completo. Havia um exército forte que governava o país mediante partido que enriquecera muito; uma oposição política que estava a um passo de alcançar o poder político pela via eleitoral; e uma massa de cidadãos prontos para avançar além de slogans gastos e da miséria econômica.

Ainda mais, uma geração de jovens radicalizados tinha sérias dúvidas, para começar, quanto à sinceridade da classe governante. O cancelamento das eleições foi a gota d’água, e o derramamento de sangue parecia ser o único denominador comum. Até hoje, a Argélia ainda vive enredada nas consequências daquele conflito, num impasse político sem mapa do caminho para lugar algum.

Por mais que não se deva generalizar, sabendo o quanto a imprensa-empresa obra para meter todos os árabes e muçulmanos num só e conveniente discurso, as similitudes entre a experiência argeliana e a experiência egípcia são espantosas.

Dia 25/1/2011, os egípcios revoltaram-se, com a esperança de que afinal romperiam o jugo das elites reinantes, do Partido Nacional Democrático e de seus aliados – o exército e a classe comercial-empresarial – que operavam como se toda a economia egípcia fosse eles e só deles.

Hosni Mubarak
Mas, por extensão, a revolução teria de ter mirado também o conglomerado mais amplo, regional e internacional, que apoiou e ajudou o regime de Hosni Mubarak e todo seu massivo aparelho corrupto de poder. De fato, sem elaborada rede de apoiadores, sob o comando dos EUA, Mubarak jamais se teria sustentado no poder durante 30 anos. Mas os egípcios não tiveram nem o tempo nem os necessários recursos para desenvolver uma agenda de política externa, e sua revolução já enfrentava obstáculos terríveis e empenhadas tentativas de sabotagem.

Por um lado, o exército continuava no poder, embora se autoproclamasse guardião da nação e de sua revolução, servindo-se para isso da mesma velha empresa-imprensa corrompida. Por outro lado, jamais houve qualquer estrutura coesa que permitisse que os egípcios traduzissem sua aspiração coletiva em algo tangível.

Os únicos fóruns disponíveis eram as eleições e os referendos, e todas as eleições e todos os referendos foram sempre, infalivelmente e democraticamente vencidos por partidos islamistas. Eleições justas e transparentes, sim, talvez; mas graças a elas, o regime de Mubarak ressurgiu à superfície da vida do Egito.

Servindo-se dessa infraestrutura jamais desmontada, com destaque para o aparato da empresa-imprensa mais corrupta, cujos empresários-proprietários eram industriais e comerciantes poderosos, o velho regime conseguiu inverter o sinal da revolução e virou-a contra ela mesma. Espertamente, venderam os protestos de 30/6/2013 como se fossem a via para corrigir o caminho errado tomado depois da revolta do 25/1/2011.

Mohamed Mursi
Numa estranha sucessão de eventos, milhões dos mesmos que haviam protestado contra Mubarak voltaram às ruas para protestar contra um Mohamed Mursi democraticamente eleito, aliados às mesmas velhas forças políticas que durante anos haviam devastado a economia do país; convocando o exército ao poder; e aliados às hordas de baltajiya – gangues de criminosos que, apenas dois anos antes, haviam aterrorizado os manifestantes.

Agora, o Egito está dando seus primeiros passos para tornar-se outra Argélia durante a guerra civil. Os líderes do golpe entenderão, de fato, as verdadeiras repercussões do que fizeram?

A Tunísia, a pequena nação que inspirou o mundo em dezembro de 2010, não está muito distante desse ponto, nessa triste saga. Houve recentemente mais um assassinato, dessa vez de um político nacionalista, Mohamed Brahmi, logo depois de outro assassinato de outro político muito conhecido, Chokri Belaid. A Tunísia permanece dividida entre os que querem derrubar o governo e os que insistem em defender seu direito democrático de governar. De um modo ou de outro, não há dúvidas de que mãos suspeitas tentam empurrar a Tunísia para um abismo chamado de “islamistas versus secularistas”.

A Síria é, de longe, o exemplo mais sangrento. Embora na guerra civil síria as apostas tenham subido muito mais e muito rapidamente, assim como a correspondente discussão, a guerra muito rapidamente assumiu traços de um perigoso conflito sectário, cujas implicações se ressentem na região e também longe dali.

Por uma via atormentada, os regimes árabes estão acumulando ganhos. Alguns os estão obtendo mediante guerra; outros mediante golpes militares; e alguns conspiram ativamente, na esperança de conseguir começar a jogar as próprias cartas.

Mas, por mais alto que seja o preço pago e a pagar pelas revoltas, uma coisa é certa – o velho paradigma do Oriente Médio, de elites poderosas apoiadas em aliados poderosíssimos e a oprimir povos enfraquecidos não parece estar dando sinais de que possa ser ressuscitado.
__________________


[*]Ramzy Baroud é colunista internacional e editor do jornal Palestine Chronicle. seu último livro foi My Father was A Freedom Fighter: Gaza's Untold Story (Pluto Press) ainda sem tradução em português.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Solução “à moda egípcia” para a Tunísia?

30/7/2013, Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália - L'ARTE DELLA GUERRA
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Abdel Fattah al-Sisi
No Egito, o general Abdel Fattah al-Sisi – homem do Pentágono, nomeado há um ano pelo presidente Mursi para o posto de Chefe de Estado-Maior e Ministro da Defesa – ordenou abrir fogo contra os Irmãos da Fraternidade Muçulmana que protestam contra a deposição e a prisão do presidente Mursi, e convocou as forças laicas a sair às ruas e dar-lhe “mandado para afrontar a violência e o terrorismo”.

O mesmo chamamento foi ouvido também na Tunísia. “O que acontece no Egito nutre nossas esperanças e poderia influenciar também a Tunísia, porque o inimigo comum é a Fraternidade Muçulmana” – disse Basma Jalfaui, viúva de Chokri Belaid, líder da Frente Popular assassinado em fevereiro passado (Il Manifesto, 23/7/2013). E concluiu: “o que aconteceu no Egito não é golpe de Estado: é a continuação da revolução”.

Mohamed Murci
Graças à casta militar formada e financiada pelos EUA, que assegurou, por mais de 30 anos a sobrevivência do regime de Mubarak; depois a “transição pacífica”, quando o levante popular derrubou Mubarak; em seguida a ascensão de Mursi à presidência para neutralizar as forças laicas; e, afinal, a deposição de Mursi quando a oposição laica levantou-se contra ele. Ante a sangrenta repressão no Cairo, a Casa Branca declarou, diplomaticamente que “não tem obrigação legal de decidir se os militares fizeram um golpe de estado, ao depor o presidente Mursi” – fórmula que permite que os EUA continuem a fornecer ao Cairo ajuda militar de 1,5 bilhão de dólares anuais. Continuando assim a reforçar a casta militar, principal instrumento da influência ocidental e dos EUA no Egito. Como também já se vê, na Tunísia.

Chokri Belaid
A Tunísia – informa a embaixada dos EUA – é “aliada estratégica de longa data, dos EUA”, os quais formaram, treinaram e armaram suas forças armadas. Confirmado pelo fato de que se trataria de “um dos poucos países do mundo que tem cadetes em todas as academias militares dos EUA”, nas quais se formaram aproximadamente 5 mil altos oficiais da Tunísia. Essa casta militar, que também tem formação à francesa, depois de ter apoiado durante 24 anos o ditador Ben Ali, só o depôs oficialmente depois de já ter sido deposto pelo levante popular.

Hoje, enquanto o enfrentamento vai ficando cada diz mais agudo entre os islamistas e laicos, alguns setores da esquerda da Tunísia convocam aquela mesma casta militar para uma “solução à moda egípcia” – vale dizer, para intervenção armada contra o partido islamista, “o inimigo comum”. Essa posição é suicida. A prova disso está no que se vê acontecer no Egito, onde as poderosas forças externas e internas opostas à revolução favoreceram a fratura do movimento popular que derrubou a ditadura de Mubarak, levando ao enfrentamento que se vê hoje entre massas empobrecidas muçulmanas e laicas.

Enterro de Chokri Benaid (líder laico da Tunísia) assassinado em 6/2/2013 
Em benefício da casta militar, o que reforça sua posição e a posição das potências externas – em primeiro lugar, dos EUA – que mantêm o Egito sob o jugo de seus interesses políticos, estratégicos e econômicos.

Em beneficio de Israel, que reforça o assédio que mantém contra Gaza: o exército egípcio já destruiu cerca de 80% dos túneis, vitalmente importantes para manter o abastecimento de alimentos e combustível e, portanto, para garantir a sobrevivência da população palestina. Enquanto que, seguindo as pegadas dos EUA, a União Europeia já incluiu a ala militar do Hezbollah islamista libanês na lista de “organizações terroristas”, mas continua a infiltração de terroristas islamistas em território sírio, trazidos pelos EUA e por seus aliados europeus.

E há quem, também dentro da esquerda, ainda chame isso, de “revolução”.

[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010 ; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.

domingo, 1 de julho de 2012

Tunísia: transição longa, difícil e tortuosa


30/6/2012, Annamaria Rivera, controlacrisi
Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Karim Alimi
Na noite de 15-16/6/2012, Karim Alimi, jovem blogueiro tunisiano, suicidou-se, angustiado talvez, como pretendem alguns, com o destino da transição. Karim Alimi foi uma das vozes da oposição ao regime e da revolução de 14 de janeiro. Seu suicídio, tão simbólico, não provocou estranhamento; gerou respostas mornas, poucos comentários e praticamente nenhuma solidariedade, sequer de outros blogueiros, tão incensados na Tunísia e bem mais incensados no ocidente.

Dentre os que não se manifestaram está Lina Ben Mhenni, emérita colecionadora de prêmios – um dos quais recebido diretamente das mãos de ninguém menos que Gianni Alemanno* – e candidata ao Prêmio Nobel da Paz: projeção perfeita da narrativa ocidental sobre a “Revolução do Jasmim”, que apagou os verdadeiros protagonistas da insurreição popular que derrubou o regime, a saber, os jovens proletários e subproletários da Tunísia “profunda”, das regiões do interior do país e dos quarteirões deserdados das grandes metrópoles.

O suicídio de Alimi aconteceu no auge de uma onda de passeatas, violência nas ruas, agressões e incêndios criminosos contra sedes de instituições, sindicatos e partidos progressistas, cometidos por gangues de salafistas e de pequenos delinquentes, encorajados e orquestrados nos bastidores, pelo que se diz, pelos caciques do antigo regime. Que ainda é muito influente.

Béji Caïd Essebsi
O antigo partido único, Rally Constitucional Democrático (RCD), continua instalado nas redes midiáticas, nos sistemas financeiros, no aparelho de segurança: a repressão violenta das manifestações, as prisões secretas, a tortura de detidos e presos continua como se nada houvesse mudado. No mesmo período, Béji Caïd Essebsi, antigo ministro do Interior do governo de Ben Ali e chefe de um dos governos provisórios posteriores à Revolução, agita-se muito para reorganizar seus velhos instrumentos do velho regime, e fazer deles um novo partido.

Se houve o primeiro caso Persépolis, o ataque contra a Universidade de La Manouba em Túnis, a depredação do cinema AFRIC'ART, agressões a artistas e jornalistas (para cintar alguns fatos, dentre vários), o novo ciclo de violências, apresentado como obra de ultrassalafistas e de inspiração contrarrevolucionária, começou na noite de 10-11/6, com a destruição de obras de arte expostas no Palácio El Abdellia, em La Marsa, próxima de Túnis, que os salafistas consideraram blasfemas.

Em vez de condenar o ato odioso, os ministros do Interior e de Assuntos Religiosos – ambos membros do Partido Ennhadha, o partido islamista que domina o governo de transição e dirigido por Hamadi Jebali – confirmaram a condenação por blasfêmia. Até o ministro da Cultura, o independente e muito laico Mehdi Mabrouk, sociólogo especialista em migrações, antes conhecido por suas posições avançadas, apressou-se a ordenar o fechamento da exposição e do Palácio e denunciou os artistas e organizadores, também, por blasfêmia.

O incidente foi usado pelo governo como pretexto para aumentar a repressão e para efeito de propaganda contra os inimigos do Islã e os “extremistas de direita e de esquerda”.

Definimos como simbólico o suicídio de Alimi. De fato, a revolução, como a contrarrevolução, manifestaram-se por atos suicidários. O processo que levou ao fim do regime de Bem Ali acelerou-se, como se sabe, depois da autoimolação pública de Mohamed Bouazizi: suicídio pelo fogo, como outros, antes e depois de 14 de janeiro, como ainda agora – e que seria consagrado como evento fundador. Assim também, simetricamente, a contrarrevolução, que nunca deixou de dar atenção ao que hoje se chama “a transição”, e que se manifesta, em toda sua gravidade, pelo suicídio do blogueiro.

Mapa da Tunísia
Os atentados não são só encenações do Partido Ennhadha, violência dos salafistas ou das redes estrangeiras as quais, não vendo com bons olhos a transição democrática, mantêm, a golpes de petrodólares, os pregadores wahhabitas.

São, sobretudo, efeito da impotência, do governo e de outros grupos, que não conseguem encontrar solução para os graves problemas econômicos e sociais do país, a começar pelo desemprego galopante, o trabalho cada dia mais precarizado, as profundas desigualdades regionais.

A própria oposição política e social, ela mesma, quase sempre enredada em debates vãos sobre a identidade árabe-muçulmana da Tunísia, não consegue, salvo raras exceções, organizar com racionalidade as carências, as demandas e o descontentamento da população. Não consegue sequer oferecer resistência consequente no plano da defesa dos direitos civis, sobre os quais tanto se falou, a liberdade de expressão, etc..

Basta lembrar a fraca reação – não chegou ser sequer greve de fome – a fato muito grave acontecido recentemente.

Jabeur Mejri (E) e Beji Ghazi (D)
Dia 25/6, a Corte de Apelação de Monastir confirmou a condenação a sete anos e meio de prisão, com multa de 1.200 dinars, de Jabeur Mejri, 30 anos, que publicou, em sua página hospedada pela empresa Facebook, imagens de Maomé consideradas blasfemas.

Outro jovem, Beji Ghazi, foi condenado a idêntica pena à revelia, pois conseguiu fugir para a Europa, quando o caso eclodiu.

Pelo porta-voz oficial, o presidente da República, Moncef Marzouki, secularista e opositor histórico do governo de Ben Ali e, antigamente, ativo defensor de direitos humanos, aprovou a pena desproporcionalmente pesada aplicada, em primeira instância, aos dois jovens.

A tudo isso, é preciso acrescentar também as relações conflitivas dentro da troika governante (a coalizão do Partido Ennahdha e partidos laicos, CPR, Ettatakol e CP), agravadas pela tensão entre o primeiro-ministro e o presidente da República, depois de Jebali tomar, unilateralmente, a decisão de extraditar Baghdadi Mahmoudi, ex-primeiro-ministro de Gaddafi, para a Líbia.

Em resumo, a transição tunisiana anuncia-se tortuosa, longa e difícil. A menos que uma nova onda de militantismo e de levantes populares erga-se outra vez, para acelerá-la.


Nota de rodapé
*O “Prêmio Roma, pela Paz e por Ação Humanitária”, no valor de 25 mil euros, foi criado em 1994, pela empresa nacional italiana de eletricidadde, ENEL. Gianni Alemanno, prefeito de Roma, do partido de Berlusconi, é o que se pode definir como pós-neofascista [NdT italiano em: Tlaxcala].