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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Hora de “3ª força” na Síria

16/9/2014, [*] China Hand (Peter Lee) − China Matters
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Obama: "A al-Qaeda está debandando!"
Desde que o presidente Obama proferiu aquele seu discurso “crISis®” [2] tenho lutado para afastar o que entendo que sejam predições simplistas do fracasso da “guerra” de Obama, que se sirvam de argumentos como “força aérea não ocupa” e “armar rebeldes sírios anti-Assad ostensivamente moderados é sempre exercício no campo da futilidade”.

Dia 12/9/2014, escrevi:

A parte mais deprimente da estratégia dos EUA é que, tanto quanto posso ver, considera-se a campanha anti-Estado-Islâmico como Cavalo de Troia, uma chance para ajudar, fortalecer e promover forças anti-Assad. Quer dizer: em vez de cooperar com, literalmente, o único estado do Oriente Médio disposto a pôr no solo um exército inteiro contra o Estado Islâmico (a Síria!), os EUA recusam-se a trabalhar com a Síria e, em vez disso, vão treinar e equipar uma força anti-Assad e anti-EI, ao que se sabe, na Arábia Saudita, que é menos uma milícia de “insurgentes” venais comprados pelos EUA e mais uma força militar de ataque controlada e disciplinada e usada pela CIA-USA e, diferente do nosso mais conhecido experimento anterior desse tipo – a invasão da Baía dos Porcos – essa força terá muito, muito, muito poder aéreo.

A ideia, presumivelmente, é que o EI é acossado por drones e ataques aéreos (e a frota de superpetroleiros deles que estão transportando cru para a Turquia é destruída) e retrocede; a força apoiada pelos EUA então avança e ocupa o território deixado vazio, antes de que Assad consiga chegar. Com sorte, a força atrairá os espirituais aliados do EI que preferem um cheque em dólares norte-americanos e imunidade contra ataques aéreos, a ser convertido ao estado de átomos dispersos. Assim, os EUA podem orquestrar as demandas de uma oposição síria viável para que Assad “saia”... em nome de preservar a unidade nacional, receber total apoio dos EUA e guerra total, sem mercê contra o Estado Islâmico. VITÓRIA!

Meus saberes assumidamente imperfeitos sobre o processo de tomada de decisões do governo dos EUA dizem-me que alguém tem de ter apresentado ao presidente Obama uma proposta dessas... de vitória dos EUA na Síria... ou, pelo menos, alguém tem de ter aparecido com algum argumento plausível de chance de vitória dos EUA na Síria. Tem de ter sido isso... antes de Obama tomar a decisão politicamente horrível de engolir de re-entrar até o pesçoco na areia movediça do Oriente Médio.

Riad al-Asaad
Claro presságio dessa abordagem já aparecia na declaração do Exército Sírio Livre de que não participará da coalizão anti-Estado-Islâmico. É. Você leu certo: não participará. Ainda que o Exército Sírio Livre já esteja na gaveta do EI, mesmo assim poderia aproveitar-se de alguma ajuda dos EUA.

O fundador do grupo, coronel Riad al-Asaad, disse que a prioridade deles é derrubar o presidente sírio Bashar al-Assad e não unirão forças com EUA sem garantia de que os EUA estão dedicados a derrubar Assad.

O mais provável é que o coronel al-Asaad tenha justificada desconfiança da nova iniciativa dos EUA, porque era claro que a CIA já vinha negociando diretamente com os comandantes mais viáveis e mais capazes, para tirá-los do Exército Sírio Livre.

Patrick Cockburn expôs essa história dia 9/9/2014, com alguma ajuda de McClatchy:

Patrick Cockburn
O Exército Sírio Livre, elogiado nas capitais ocidentais como provável vitorioso no embate militar contra o presidente Assad, já estava em pleno colapso no final de 2013. O comandante militar do ESL, general Abdul-Ilah al Bashir, que desertou do governo sírio em 2012, disse em entrevista com a agência de notícias McClatchy semana passada que a CIA já assumira o comando dessa nova força moderada. Disse que “o comando do Exército Sírio Livre é norte-americano”; acrescentou que desde dezembro passado o suprimento de equipamentos norte-americanos já atropelara a liderança do ESL na Turquia e estava sendo feito diretamente a mais de 14 comandantes no norte da Síria e a 60 grupos menores no sul do país. O general Bashir disse que todos esses grupos do Exército Sírio Livre reportam-se diretamente àCIA.

Bem, perdoem-me uns passinhos de dança da vitória. Garantido que a dama gorda pôs os bofes para fora de tanto que cantou esse canto.

Do depoimento de Dempsey, comandante dos chefes do Estado-Maior dos EUA, ao Congresso, segundo o Guardian:

Martin Dempsey
Na Síria, os EUA buscam treinar rebeldes sírios “selecionados” para capturar território sírio tomado pelo ISIS. Hagel e Dempsey reconheceram que uma coorte inicial de 5 mil homens das forças de oposição síria não estará preparada antes de, no mínimo, oito meses.

“5 mil não bastarão para virar a maré, reconhecemos isso” – disse Hagel. Nem ele nem Dempsey descartaram pedir mais poderes e mais dinheiro para construir uma “versão” de exército sírio no futuro.

Quanto ao presidente Assad, acho que ele está cansado de saber que a estratégia é “primeiro-ISIL”, “Assad-segundo”:

[Dempsey] e Hagel negou [negaram], quando perguntado[s] pelo Senador John McCain (…) se os novos aliados dos EUA receberiam cobertura aérea se atacados pelo “ditador sírio Bashar al-Assad”.

Chuck Hagel
“Ainda não chegamos lá, mas nosso foco é o ISIL”, outro nome do mesmo ISIS, disse Hagel.

Dempsey – cuja renúncia McCain havia exigido, dada a relutância do general em usar soldados dos EUA contra Assad – concedeu que “se tivéssemos de descartar [lutar contra] Assad, teríamos “ainda maiores dificuldades” para persuadir os sírios a unir-se à coalizão; mas disse que o governo, sim, tem uma estratégia de “primeiro o ISIL”.

Guardian, como eu, também enfrentou alguma dificuldade para encontrar o nome certo para essa força. Não acho que “exército por procuração” [orig. “proxy army”] resolva o caso, porque o tal “exército”, embora constituído de soldados sírios, não de unidades militares norte-americanas, estará sob o comando diário da CIA e não lhe será permitido afastar-se um passo que seja nem trabalhar por agendas políticas, estratégicas e táticas próprias deles, como acontecia com o desmoralizado Exército Sírio Livre.

“3ª Força” me parece nome adequado nesse caso.

Não penso necessariamente que a tal estratégia dará resultados, e com certeza tem menos chances de funcionar que alguma aliança que una os três atores que hoje já estão com os afamados “coturnos em solo” e já estão dando combate determinado ao Estado Islâmico: os governos sírio e iraniano e os curdos sírios. Basicamente, os EUA acalentam esperanças de que dinheiro, ataques aéreos, o comando da CIA e muito pó-de-pirlimpimpim conseguirão fazer sumir o Estado Islâmico, o suficiente para que os EUA possam dedicar-se integralmente a derrubar o regime de Assad – escondidos por trás de algum discurso sobre “governo de unidade nacional” como no Iraque – como um espécie de preço pelo esforço adicional dos EUA contra o Estado Islâmico.

Jihadistas do ISIS-ISIL preparam contramedidas
Os EUA já tentaram antes a própria sorte com essas estratégias de “3ª Força”, mas o apoio dos EUA, embora tenha obtido sucesso de curto-prazo, praticamente sempre se converteu em beijo-da-morte para a legitimidade da força local e, afinal, de sua própria viabilidade. Assad, ISIS, Irã e Rússia estão afanosamente preparando contramedidas para assegurar que a estratégia de evolução lenta dos EUA não acabe por queimá-los.

Mas eu acho que aí está importante lembrete de como o presidente Obama e burocracias governamentais, de fato, todas as burocracias, funcionam.

Políticas falhadas como o golpe de “terceirizar” o golpe para derrubar Assad transferindo-o para rebeldes dominados por jihadistas não são só políticas velhas re-embaladas. Não só porque o presidente Obama é sujeito cerebral, avesso a fracassos. As coisas são como são, também porque há toda uma rede de apoio de governo, militares e especialistas e planejadores de think tanks, cujo trabalho é aparecer com algum plano plausível, com alguma chance de sucesso – mesmo que sua única chance para existir seja que a inexequibilidade do tal plano ainda não esteja claramente demonstrada por fracasso prévio.

Assim sendo, critiquem o quanto queiram o plano do presidente Obama. Mas ninguém jamais ouvirá a crítica de que “tudo isso já falhou antes”. Porque o que realmente interessa na repetição é que, se os EUA falharem, falharão de modos novos, jamais vistos.

Não há de ter escapado à análise que o presidente Obama certamente fez, o fato de que o processo está agendado para arrastar-se por pelo menos três anos – caso em que o fracasso, se ocorrer, será entregue em pacote sanguinolento deixado à porta da presumível próxima presidente, Hillary Clinton. [Pano rápido]

Obama e o ISIS/ISIL (discurso de 10/9/2014)
À guisa de Post-Scriptum, e uma vez que a bola de cristal desse nosso blog China Matters parece estar em magníficas condições de funcionamento, começo a achar que já se esgotou o prazo de validade da aliança entre os EUA e o Reino da Arábia Saudita.

Indicador chave será se o presidente Obama cumprir aquela promessa de campanha do candidato Obama e mandar revelar o conteúdo das 28 páginas excluídas do Relatório da Comissão do 11/9.

As linhas gerais do que lá está escrito são bastante bem conhecidas e comprovam a culpa de indivíduos e do que parecem ser funcionários do governo do Reino Saudita nos ataques do 11/9/2001. Mas esse material é considerado altamente embaraçoso para o governo Bush, por causa de seus contatos íntimos com a Arábia Saudita e disposição para permitir que figuras sauditas chaves fugissem dos EUA em avião que decolou secretamente para evitar questionamentos do FBI; tudo isso considerado, a pouca disposição do atual governo para ordenar a divulgação desses documentos; e o motivo pelo qual Obama enfrentou sem revidar as críticas cínicas e irresponsáveis de Dick Cheney contra as políticas antiterror do atual governo já são, há algum tempo, uma espécie de mistério.

Minha opinião, porém, é que a chave de todos esses mistérios é que a Arábia Saudita assinou aliança de autoproteção com Israel, cuja capacidade para fazer-acontecer o que deseje em Washington supera em muito a capacidade d’ “O Reino”.

Netanyahu, PM de Israel, firmou acordo militar com o Rei Abdullah da Arábia Saudita
Pelo modo como vejo as coisas, a cooperação entre Israel e a Arábia Saudita é fundada num desejo conjunto de manter o Irã sempre sob o status de pária, e bem afastado de qualquer relação normal com os EUA, evento que empurraria Israel e Arábia Saudita na direção da periferia das políticas dos EUA para o Oriente Médio.

A Arábia Saudita, por sua vez, atiça determinadamente o fogo da crise na Síria, porque a necessidade do Irã, de apoiar Assad, põe o Irã em oposição aos EUA. Israel bate o tambor de alarme contra “a ameaça” nuclear do Irã e, suspeito eu, diz ao governo Obama que tanta atenção aos wahhabistas e excessos anti-EUA do governo saudita – como as páginas arrancadas do relatório da Comissão do 11/9 – desestabilizariam a Arábia Saudita e dariam ajuda e conforto ao Irã.

Mas... agora o Exército Islâmico é escorregão em mais um sangrento incômodo contra a campanha brutal, mal feita, de subversão regional, comandada pela Arábia Saudita; o boomdo gás de xisto convenceu os EUA de que a segurança energética do país já não é refém de “O Reino”; que os EUA já não dependem de rapapés ostensivos a favor de um regime de degola gente por “feitiçaria”; o presidente Obama gostaria de ver a aproximação com o Irã, como seu legado; e é possível que Obama também se sinta enojado pelo oportunismo basal que foi forçado a exibir na questão dos mais recentes massacres contra Gaza, por israelenses. E sabe-se, claro, que Barry & Bibi detestam-se.

Obama preparando acordo nuclear com o Irã
Por tudo isso, se o presidente Obama pensa que pode enfiar a agulha, concluir as negociações nucleares com o Irã e talvez até convencer o Irã a jogar Assad debaixo do ônibus tudo num mesmo negócio... é de supor que venha a arrancar da tomada o fio que mantém ativo um relacionamento colossalmente tóxico com a Arábia Saudita – doença-perversão mortal, marcada pelos ataques do 11/9 e que já consumiu 15 anos, mais de dois trilhões de dólares e milhões de vidas ceifadas, e ainda sem falar de dar a conhecer ao mundo o conteúdo amaldiçoado daquelas 28 páginas.
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Notas dos tradutores

[1] Orig. 3rd Force. Foi expressão usada por líderes do Congresso Nacional Africano no final dos anos 1980s e começo dos 1990s, em referência a uma força clandestina a cujas atividades o CNA atribuía os surtos de violência em KwaZulu-Natal e cidades em torno e ao sul do Witwatersrand (ou “Rand”). A Comissão de Verdade e Reconciliação descobriu que:

Embora haja poucas provas de qualquer “3ª força” com comando central, coerente e formalmente constituída, uma rede de ex-agentes de segurança e de forças de repressão, quase sempre atuando em conjunção com elementos de direita e/ou setores do Inkatha Freedom Party (IFP), formado pela nobreza zulu e fortemente nacionalista, apareceuenvolvida em ações que podem ter sido concebidas exclusivamente para fomentar a violência e que resultaram em graves violações de direitos humanos, incluindo assassinatos em massa e pontuais premeditados.

[2] Aí se reúnem: o verbo cry [chorar/choramingar] + IS [Estado Islâmico, ing.], para compor a palavrascrisis [crise] e – o melhor de tudo: criando um adjetivo-comentário que se aplica ao discurso de Obama sobre o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS, ing.). Sensacional “achado” (que justifica o signo de “todos os direitos autorais reservados”, muito merecido), mas que nos pareceu intraduzível. Sugestões são bem-vindas.
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[*] China Hand (Peter Lee) é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.

terça-feira, 18 de março de 2014

Sayed Hassan Nasrallah: O jihadismo takfiri ameaça Oriente e Ocidente (vídeo)

Hassan Nasrallah- Discurso proferido em 16/2/2014 na Comemoração Anual dos Dirigentes Mártires do Hezbollah
Vídeo do Discurso (18’44”) totalmente legendado em português por Salah
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

A transcrição, em português, deste vídeo pode ser lida em: Sayed Hassan Nasrallah: O “jihadismo takfiri” ameaça Oriente e Ocidente



Observação: Na postagem original a redecastorphoto substituiu o vídeo com legendas em francês pelo vídeo acima (em português)

domingo, 9 de março de 2014

Sayed Hassan Nasrallah: O “jihadismo takfiri” ameaça Oriente e Ocidente

4/3/2014, na [*] Hassan Nasrallah - Discurso proferido em 16/2/2014 na Comemoração Anual dos Dirigentes Mártires do Hezbollah
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sayed Hassan Nasrallah analisa o perigo que o terrorismo takfiri representa para todas as confissões e países da região e do mundo.

Evocando brevemente o exemplo das experiências soviéticas no Afeganistão ou da guerra civil na Argélia, detém-se sobre a situação dos países ocidentais, como França ou os EUA, ou países árabes, como a Tunísia: de fato, vários deles, num primeiro momento apoiaram declaradamente a insurreição na Síria e manipularam grupos terroristas, mas agora se dão conta do perigo que são todos esses jihadistas para o Oriente Médio e também para seus próprios países, buscando uma porta de saída para essa crise que eles mesmos criaram.

Quanto ao Líbano, o lugar do país no Eixo da Resistência faz dele alvo privilegiado para esses grupos terroristas. E o Hezbollah, ao intervir na Síria, em zonas estratégicas, por meios próprios, o que o Hezbollah faz é tomar a dianteira e bloquear a avançada dos terroristas.

Vídeo (18’ 44”) do discurso legendado em potuguês:

Sayed Hasan Nasrallah:

Tratemos agora do segundo perigo, da segunda ameaça [depois de Israel], da qual seguidamente falamos no passado, e que ameaça todos os países da região, tanto quanto Israel ameaça todos os países, todos os governos e todos os povos da região.

Hoje, esse perigo ameaça todos os países e todos os povos da região: falo do perigo que é o terrorismo takfiri. Na verdade, vejam, a ideologia takfiri, tomada nela mesma e isoladamente, não representa perigo algum. Se alguém fala comigo e me diz “você é infiel”, ora, nada significa, fica por aí.

Nunca pedi a ele que me desse algum atestado de que sou crente ou não crente. Que me acuse de infiel o quanto queira, é problema dele. Se o problema da ideologia takfiri se limitasse à esfera intelectual e legal, seria nada, porque, afinal, nesse mundo, ninguém pede a ninguém qualquer atestado (de que crê ou de que não crê), ninguém pede isso a ninguém, nem entre nós nem entre outros. E no que tenha a ver com o além, as chaves do Paraíso não pertencem aos takfiris, eles não conseguem nem dar entrada nem proibir a entrada a quem bem entendam. Todos sabemos bem quem é o (Único) Senhor das chaves do Paraíso.

O problema não está só na acusação de “não crentes” que fazem os takfiris. O problema é que ao acusarem alguém de não ser crente, eles não aceitam sequer que essa outra pessoa exista, esse outro, diferente deles no plano teológico, intelectual, de escola de pensamento ou, mesmo, apenas político. Ao contrário, atacam diretamente o anátema, o que implica a pena de morte, e assunto encerrado. Assim tratam como se fossem lícitos o assassinato, a desonra, o roubo dos bens de quem eles acusem. Chegam ao ponto de eliminar, suprimir, erradicar, fazer desaparecer quem seja diferente deles. Tudo isso é bem sabido de vocês e não preciso dedicar muito tempo a isso, nem apresentar muitas provas. Hoje, todos sabem, no país e em toda a região, de tudo isso. Quando eu falar mais detalhadamente do contexto geral, apresentarei as provas.

Não há dúvidas de que esse terrorismo takfiri está hoje presente em toda a região. Está composto de grupos armados presentes na maioria dos países da região, e talvez, mesmo, em todos os países da região. Esses grupos ou movimentos têm uma visão takfiri radical e impiedosa, que condena à morte quem se oponha a eles e, mesmo – porque aqui já não se trata apenas da questão de sunitas e não sunitas, ou de muçulmanos e cristãos: os cristãos também são tomados como alvos, sim, mas mesmo na esfera islamista, os xiitas, os alawitas, os ismaelitas, os zaydis, todos que não sejam sunitas estão condenados. E mesmo no que concerne aos sunitas, se se opuser a eles, qualquer sunita que se oponha a eles também pode ser acusado de ser não crente, de ser infiel. Nada mais fácil para eles, no mundo, que declarar, a um sunita ou a quem seja: “Você é infiel, você não crê, você é um apóstata”.

Ora, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), há algumas semanas, não impôs essa sentença contra a Frente Al-Nusra ? E o EIIL partilha com a Frente Al-Nusra uma mesma ideologia, uma mesma abordagem, e, antes, formavam uma só e mesma organização, com um mesmo dirigente, mesmas alianças, respiravam o mesmo ar e viviam sob uma mesma ética – estavam, sim, unidos em tudo: nas maneiras, na aparência, na lógica, na linguagem, nos usos, no espírito e no coração. Mas quando surgiu entre eles uma diferença numa questão política – talvez uma simples disputa por um poço de petróleo sírio, ou na divisão do butim, o EIIL lançou uma sentença de apostasia, de não crença contra a Frente Al-Nusra. Com a maior facilidade. E depois vieram muitos outros veredictos semelhantes.

Hoje, essa realidade é perfeitamente conhecida de todos, na região. Qualquer discordância que surja entre eles e um “outro”, mesmo que esteja com eles, e ainda que seja simples questão de administração, questão política ou mesmo financeira, aqueles takfiris precipitam-se e declaram a apostasia, a falta de fé, e tomam a medida que, para eles, é consequente: pena de morte.

O que está acontecendo há algum tempo na Síria, os combates violentos e brutais entre o EIIL, de um lado, e a Frente Al-Nusra e outras facções, de outro lado, aí está uma realidade que deve nos obrigar a uma reflexão madura, não para ridicularizá-las, se nos opomos àqueles grupos, claro que não.

A verdade é que todo mundo deve considerar de perto essa realidade e extrair lições dela, para poder decifrar a situação atual e prevenir o futuro. Considerem o que está acontecendo, nas últimas semanas. O Observatório Sírio [de Direitos Humanos], que faz parte da oposição, ele mesmo fala de mais de 2 mil mortos, em algumas semanas de combates entre aquelas duas facções. 

O número de operações suicidas eleva-se a várias dezenas nessas últimas poucas semanas, uns contra os outros, mandam carros carregados de explosivos para cidades muito populosas, apenas porque a cidade é controlada pelo EIIL e outra é controlada pela Frente Al-Nusra. Mas muitos moradores dessas cidades não estão nem com o EIIL nem com a Frente Al-Nusra, talvez por posição política sejam favoráveis à oposição. Mas ninguém é poupado. Sequestram mulheres, massacram crianças, destroem as vilas – tudo entre eles mesmos. Não estou nem falando do conflito deles com o regime, deixemos isso de lado. Organizam operações suicidas uns contra os outros, entre eles.

E a execução de prisioneiros e reféns sem qualquer misericórdia. E as carnificinas? E os massacres em massa? Tudo isso, por quê? Opõem-se a quem? Não têm eles a mesma abordagem, uma mesma ideologia, uma mesma escola, uma mesma direção, um mesmo dirigente? A quê eles se opõem? Há alguma questão política? Há alguma questão de organização, que envolva tal ou tal dirigente? Brigam por um poço de petróleo? E não eram eles que se opunham a esse tipo de disputa? Pois aí está o que fazem.

O modelo é esse, a realidade é essa. Observem bem, reflitam bem sobre tudo isso. Verão a mentalidade deles, a mentalidade que motiva os dirigentes deles e os membros dessas facções.

Mas, seja o que for, nada disso é novidade, nada disso é surpresa. Já esperávamos por isso. Mas não porque nós saibamos mais que os outros, não, de modo algum. Já esperávamos por isso, porque qualquer um que observou as experiências anteriores poderia prever tudo isso que se vê hoje. Muito estranho, de fato, é ignorar a situação atual. Vejam a experiência do Afeganistão.

Os grupos jihadistas do Afeganistão combateram contra dois dos exércitos mais poderosos do mundo. Primeiro, contra o exército soviético, e o derrotaram no Afeganistão. Na sequência, os soviéticos se retiraram, graças a Deus... Mas uma coalizão de facções jihadistas, porque alguns deles alimentavam essa ideologia takfiri, radical, impiedosa, sangrenta e assassina, levantou-se contra as demais. Fabricaram até um hadith, que atribuíram mentirosamente ao Profeta: “Vim a vocês com o massacre”. Tal coisa não pode provir da religião de Deus, nem da religião do Mensageiro de Deus, nem da religião de nenhum dos Profetas de Deus Todo Poderoso.

Porque algumas pessoas tinham essa mentalidade takfiri, as facções jihadistas afegãs entraram num conflito sangrento, umas contra outras. O que eles destruíram, em termos de quarteirões, cidades, vilas, o que infligiram em termos de mortos e feridos uns aos outros, todos os grandes comandantes jihadistas que os takfiri mataram, tudo isso ultrapassa em muito o que o exército soviético, ele mesmo, conseguiu fazer. E hoje? O que é feito do Afeganistão? Onde está, hoje, o Afeganistão? Onde está o Afeganistão hoje?

Desde o dia em que os soviéticos se retiraram, até hoje, me digam um dia, um único dia em que o Afeganistão não tenha conhecido matanças, feridos, deslocamentos forçados de populações, destruição generalizada, todas as dificuldades para viver. Digam-me um único dia em que tenha havido paz, alegria de viver, no Afeganistão. E tudo, tudo isso, por causa dos grupos takfiris.

E observemos a Argélia – porque alguém poderia objetar que o Afeganistão é país montanhoso, de condições particularmente difícil, e sabe-se lá o que mais. Pois bem. Na Argélia, o que os grupos armados trouxeram e causaram de sofrimento ao povo argeliano? E o que dizer dos grupos armados entre eles, dirigentes que se matam uns os outros em conflitos entre diferentes facções?

Nem é preciso acrescentar muitos exemplos. Bastam esses, para que tenhamos tempo para... (Alguém pode trocar esse meu relógio? Está apagado.) Isso é o que se passa ante nossos olhos, e temos de ver e tirar daí todos os ensinamentos.

Agora, passo a abordar a situação do Líbano.

O Líbano sofreu atentados em várias regiões. Operações suicidas contra populações civis – crianças, mulheres, em mercados, contra pessoas que andavam na rua... São os crimes que foram cometidos aqui. De início, entre os que perguntavam “Quem (cometeu esses atos terroristas)?”, “Como?”, houve alguns que acusavam o regime sírio, outros acusavam os serviços secretos sírios, outros, ainda, evocavam o Mossad. Sempre fui muito claro sobre esse tema.

Nós não nos precipitamos em acusações ocas contra atores presuntivos daqueles atentados. Sempre dissemos “Sejam pacientes, a identidade deles, sem dúvida alguma, será revelada”. Será revelada, não porque eles sejam capazes ou incapazes de executar operações secretas. Nada disso. A identidade deles se autorrevelará, porque eles estão andando, claramente, na direção de guerra aberta, declarada. Por isso eles filmam suas operações e as distribuem pela Internet, revelando-se abertamente, anunciando o nome dos kamikazes, enviando mensagens que especificam os alvos a atacar. A tal ponto, que a identidade dos autores dos atentados já nem é questão a debater ou discutir. Os responsáveis pelas operações suicidas e os atentados são assassinos takfiris – não são jihadistas

Se ainda há alguém, no Líbano ou em qualquer parte do mundo, que queira refutar isso –, sim, é claro que os israelenses infiltraram esses grupos.

É claro que os norte-americanos utilizam esses grupos. Já os utilizavam no Iraque, por longo tempo, e também foram utilizados em outros países. Mas não há dúvida de que fulano, cicrano, beltrano – eles são conhecidos pelo nome e pela nacionalidade – esse é libanês, o outro é palestino, o outro é sírio, sei lá, um é saudita, outro marroquino ou iraquiano, são eles que dirigem essas redes, que organizam essas operações suicidas e esses atentados no Líbano. O que isso mostra? Tudo isso mostra esse tipo de enfoque, essa mentalidade takfiri...

Assim... À luz dessas operações suicidas e desses atentados, emergiu no Líbano um debate. Como sempre, os libaneses dividiram-se. Alguns declararam que as operações suicidas e os atentados jamais teriam acontecido se o Hezbollah não estivesse agindo militarmente na Síria. Depois, seguiram a mesma lógica para justificar os atentados. Depois, e até hoje, insistem na mesma lógica. E essa lógica será mantida, mesmo que todos participemos de um mesmo governo. Essa lógica se perpetuará, porque ela é parte da animosidade, da luta política que se trava no país. Pois bem. Analisemos um pouco essa lógica.

Quer dizer então que antes de começarmos a agir na Síria, esses grupos não existiam, não estavam em guerra no Norte, em vários campos de refugiados palestinos e em várias regiões do Líbano? Já não preparavam e enviavam carros carregados de explosivos contra áreas cristãs? Contra o exército, etc.? Todos sabemos disso tudo, nem preciso listar os atentados. Os jornais e televisões estão cheios de listas. Tudo aquilo aconteceu antes do início dos eventos na Síria. Tudo bem. Já sabemos disso. Nem é preciso falar muito.

Ante essa lógica, só há duas possibilidade, nem uma a mais: ou bem essas explosões nada têm a ver com nossa ação na Síria, ou, então, sim, elas têm alguma relação com nossa ação na Síria. Não há outra possibilidade. Que outra opção haveria? Não há. Ou nossa ação na Síria é a razão desses atentados, ou não é – e os takfiris, de um modo ou de outro, já tinham intenção de abrir uma frente no Líbano. Só há essas duas vias.

Já consideramos essas possibilidades e concluímos que a primeira é a única que pode ser verdadeira, a saber, que os grupos takfiris sempre consideraram o Líbano como um de seus alvos. De fato, anunciaram claramente nos seus princípios e nos seus discursos. Declaram hoje que o Líbano é terreno (secundário) de apoio, que não é terreno de jihad. A prioridade deles é acabar com a Síria, e só depois, então, se ocuparão do Líbano. Não foi isso, precisamente, que declararam? Está tudo na Internet, na televisão, na mídia, etc..

Assim sendo, agem agora segundo priorização bem definida, que consiste em se apossar das regiões (sírias) que fazem fronteira com o Líbano – seja ao norte, seja na região do Bekaa. Não é mais que uma questão de tempo.

Isso significa que, por princípio, virão ao Líbano, de um modo ou de outro, aconteça o que acontecer. Entendemos que, se não vierem hoje, virão amanhã. Já declararam. Já disseram. Tudo isso é válido e bem claro, se se parte do princípio de que esses atentados nada têm a ver com nossa ação na Síria.

O Líbano é alvo para os grupos takfiris, por princípio. O Líbano faz parte do projeto desses grupos takfiris. E se os norte-americanos e os israelenses já infiltraram esses grupos, não pode haver dúvida alguma, nenhuma dúvida, de que querem destruir toda a região.

E o Líbano tem uma peculiaridade, como há também na Síria: no Líbano há uma Resistência, que é hoje a maior ameaça contra o projeto israelense na região.

Por isso, na nossa avaliação e do nosso ponto de vista, eles viriam para o Líbano de todo modo, aconteça o que acontecer. Foram atraídos para a cena libanesa por sua própria mentalidade, seu próprio projeto e sua visão de mundo. Por isso abriram uma frente no Líbano. Esse é o raciocínio que decorre da nossa análise das coisas. E, sim, há uma segunda análise.

Consideremos, para argumentar, que a outra análise seja a melhor. Hoje, não quero defender essa nossa análise. Quero fazer como se a análise alternativa fosse válida, para poder argumentar e desenvolver o raciocínio.

Por essa segunda análise, o povo libanês estaria pagando o preço de ter enviado combatentes à Síria, através do Hezbollah. E essa seria a razão pela qual os grupos takfiris organizaram os atentados e as operações suicidas no Líbano e fizeram essa escolha. Consideremos essa interpretação, para analisar outra hipótese.

Antes, quero dizer que nossos objetivos aqui têm de ser perfeitamente claros, e quero falar com total franqueza. Antes de avaliar essa segunda hipótese, temos de responder uma pergunta prévia: nossa ação na Síria justificaria tais sacrifícios?

Vale a pena sofrer tais consequências? Supondo-se, é claro, que os atentados sejam consequência de nossa ação na Síria. Vale a pena ir combater em Al-Qusayr e em Damasco? – Quero dizer, nas duas principais regiões nas quais estamos ativos: Al-Qusayr, porque é região de fronteira; e Damasco, porque também tem de ser considerada região de fronteira, porque se Damasco caísse – Deus nos livre! – todas as regiões de fronteira entre o Líbano e a Síria seriam controladas por aqueles grupos armados.

A pergunta é: a ação que empreendemos vale a pena? Valem a pena, se têm como reação, atentados terroristas e outras reações do mesmo gênero? Sim ou não?

Aqui, quero relembrar o que eu disse no início de minha fala sobre a ocupação israelense no Líbano (1982-2000), quando nos criticavam nos seguintes termos: “vocês combateram os israelenses, atacaram os postos de controle deles, os acampamentos deles, os campos militares deles, e, portanto, é claro que os israelenses façam represálias. E houve quem assim justificasse a violência dos israelenses contra os libaneses... Hoje, essa mesma lógica serve para justificar ataques terroristas de grupos armados contra o Líbano.

Eu já disse, e nós explicamos longamente, no passado, as razões de nossa ação na Síria, as causas, as consequências, porque agimos lá e porque ainda estamos agindo lá, e porque continuaremos a agir lá: “nós estaremos presentes e ativos em todos os pontos onde devamos estar”. Nisso, nada mudou. Ao contrário. Os dados em campo aumentam a convicção e a certeza dos libaneses quanto à solidez e ao cabimento dessa decisão.

Não vou analisar os eventos desde o início, mas desde o fim. Consideremos só os últimos desenvolvimentos... Quais são os dados novos, no plano regional e internacional?

O que se vê hoje é que a maioria dos países que financiaram, apoiaram, ajudaram, deram vistos e abriram as fronteiras, esses países todos que encorajaram e ajudaram agentes de combate não sírios, agentes estrangeiros que estão hoje na Síria, a maioria dos países que fizeram isso, hoje só fazem manifestar seu medo, suas preocupações, seus temores ante os riscos de segurança que se criariam, caso aqueles combatentes saíssem vitoriosos na Síria. Há também, consequentemente, os riscos de eles voltarem aos seus países de origem, sobretudo países vizinhos. E há todos os riscos que se criam para aquelas próprias sociedades. Não é verdade? Estou, por acaso, inventando coisas? Ou essa é a realidade hoje?

Hoje, as agências de informação ocidental, regionais e outras só se reúnem para ver o que podem fazer para enfrentar essa situação.

E dizem eles: Se esses grupos – que Deus nos livre! – saírem vitoriosos, eles terão, afinal, uma base vastíssima. A Síria seria ainda pior que o Afeganistão. E os jihadistas  se voltariam contra nós. O que podemos fazer? Ou, então, alternativamente: se eles forem derrotados, se começarem a recuar e sair da Síria, e se se mudarem para outros países? O que faremos?

Sim. É uma catástrofe, que eles mesmos criaram com as próprias mãos. É a serpente que eles mesmos nutriram.

Hoje, esse é o debate que se trava em todo o mundo. Ou não é? Essa é uma primeira realidade indiscutível.

E em segundo lugar, já há algum tempo, vários países impuseram leis que proíbem seus cidadãos de viajarem à Síria para combater. A Tunísia, por exemplo, proíbe viagens à Síria e tomou medidas coercitivas, invocando declaradamente esse problema. Ora! E por que os tunisianos e o governo da Tunísia foram levados a tomar essas medidas, quando, no início, apoiavam a insurreição na Síria?

Exatamente porque os que foram combater na Síria e já retornaram à Tunísia perturbam a sociedade tunisiana, o povo tunisiano e o futuro político da Tunísia, fazendo-os conhecer na própria carne o que impuseram a outros povos da região, a saber, atentados terroristas, assassinatos, violência, rebeliões, etc. Os tunisianos acordaram e perceberam que se aqueles grupos persistirem na mesma via, a Tunísia sofrerá. Assim, tiveram o bom senso e a coragem de tomar medidas enérgicas, desse tipo, enquanto ainda havia tempo. Esse é o segundo ponto sobre o qual queria falar hoje.