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sábado, 28 de junho de 2014

Pepe Escobar: “Medo e ódio no Hotel Babilônia”

27/6/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Situação atual da ação do ISIS no Oriente Médio
Pois agora um vasto Sunitastão linha-duríssima estende-se direto dos subúrbios de Aleppo a Tikrit, e de Mosul à fronteira Jordânia/Iraque – o mesmo que se desmanchou em 2003, quando “Choque e Pavor” virou “Missão (não)Cumprida”.

Num fantasmagórico eco das pegadas do exército de Dick Cheney reverberando pelas areias da província de Anbar, o Estado Islâmico do Iraque e al-Sham (ISIS) e a coalizão de vontades lá-deles (jihadistas, islamistas, ba’athistas e xeiques tribais) posa agora de “libertadores” dos sunitas iraquianos, para livrá-los das garras de um governo da maioria xiita (do “mal”) em Bagdá.

Além disso, o ISIS também controla as guerras de Relações Públicas. Em “Elijah J. Magnier entrevista Abu Baqr-al-Janabi, comandante do ISIS”, um jihadista detalha como qualquer tipo de possível envolvimento “cinético” de Washington será interpretado como aliança nada-santa entre o Império e o primeiro-ministro Nouri al-Maliki, contra os azarões.

De um ponto de vista sunita, basta de lei contraterrorismo no Iraque; basta de des-Ba'athificação (com ascensão do neo-Ba’athista Jaysh Rijal al-Tariqa al-Naqshbandia, JRTN, liderado pelo ex-chefete saddamista Izzat Ibrahim al-Douri); basta de o Ministério do Interior em Bagdá perseguir políticos sunitas; basta de violência contra manifestantes e protestos.

Ao mesmo tempo, é o retorno dos Sahwa (Filhos do Iraque) – que combateram furiosamente contra a al-Qaeda no Iraque em 2007. Sahwa é a mãe do ISIS – e o retorno de sortimento variado de milícias xiitas (Muqtada al-Sadr não apenas repeliu a nova onda de “conselheiros militares” dos EUA – foi assim que tudo começou no Vietnã – mas também alertou que seus próprios Homens-de-Preto-Perigosíssimos farão “a terra tremer” na luta contra o ISIS.) Os meados dos anos 2000 são a nova normalidade: vai ser aquele inferno de milícias, tudo outra vez.

Muqtada al-Sadr
Mesopotâmia, estamos com um problema. Os neo-Ba’athistas nada querem além de um Iraque secular governado por sunitas, estilo Saddam (em vez de Ahmad Chalabi, ex-queridinho dos neoconservadores). O ISIS  quer um califato que se estenda por todo o Levante, sob a lei da Xaria. Algo terá de ceder.

O que vai ceder é a própria nação iraquiana – a consequência balcanizada, reduzida (como era objetivo) da invasão e ocupação de 2003, finalmente reciclada como Central Jihad.

É a hora do revide

A “estratégia” do governo Obama (lembram-se da estratégia de “Não façam nenhuma merda estúpida”, dos EUA para a Ucrânia?) é impor mudação-de-regime a al-Maliki; afinal, ele cometeu a deselegância de recusar-se a permitir que os EUA continuassem a ocupar o Iraque mesmo depois de esgotado o prazo em 2012; e, para piorar, seu governo é próximo de Teerã.

Assim sendo, aí está a resposta à já lendária pergunta sobre como a rede de satélites dos EUA conseguiram não ver aquela longa coluna de Homens-de-Preto do ISIS em seus flamantes Toyota “Land Cruisers” branquinhos novinhos em folha, atravessando o deserto Síria-Iraque. Podem chamar de Fracasso-mãe-de-todos-os-fracassos-de-Inteligência (lembram-se de Saddam, que falava da batalha Mãe-de-Todas-as-Batalhas?).

Temos aqui a “vingança” do Império do Caos contra Bagdá, Teerã e – por que não? – Moscou (afinal, o presidente Vladimir Putin da Rússia já ofereceu total apoio a al-Maliki, na luta contra os jihadistas.) O Iraque mistura-se devidamente com a Ucrânia. E quanto ao revide-redux, está (quase) tudo explicado no Telegraph de 22/6/2014.

Quanto ao super-repisado mito do Departamento de Estado dos EUA – outra vez?! – dos “bons terroristas” e “maus terroristas”, essa semana a Frente al-Nusra na Síria jurou fidelidade ao ISIS. Implica dizer que o ISIS agora controla virtualmente os dois lados da fronteira, em Albu Kamal na Síria e Al-Qaim no Iraque. Como bônus, o ISIS e xeiques tribais sunitas seus aliados também cercaram o Camp Anaconda que os EUA controlam no Iraque e estão preparados para jogo de morteiro de longo-longo prazo. Os “analistas” da Av. Beltway [1] nunca aprendem?!

Rei Abdullah II da Jordânia
Aquela pequena ficção conhecida como Jordânia – onde reina o Reizinho de PlayStation, codinome Abdullah – estará prontinha para ser invadida, logo que os salafistas linha-duríssima de Zarqa (cidade natal de Zarqawi) alinhem-se totalmente com o ISIS. Acrescentem esse bom pedaço de propriedade ao Califato Levantino ainda em embrião, e o negócio todo já engrossará consideravelmente – refinarias de petróleo e coisa-e-tal incluídas.

“Não façam nenhuma merda estúpida”, aplicada à Síria e ao Iraque, significa que o governo Obama já não tem limite que o contenha ou modere, na política de “Assad tem de sair” (e, por falar dele, é governo Ba'athista; implica dizer que Washington é aliada do ISIS na Síria, ao mesmo tempo em que é inimiga do ISIS no Iraque. O “pecado” de Assad é que ele é, ao mesmo tempo, aliado de Teerã (como al-Maliki) e, principalmente (de um ponto de vista dos EUA), do Hezbollah. É onde entra a mais recente “Merda Estúpida” do governo Obama: estão armando rebeldes “devidamente avaliados”, na Síria.

Pairando sobre esse cenário em que nada faz sentido que preste, toda a Av. Beltway, Casa Branca incluída, vende a ilusão de que estaria deliberando cuidadosa e atentamente para identificar se os Homens-de-Preto realmente perigosos são os do ISIS – e o que fazer sobre eles.

Simultaneamente, com algum tipo de cooperação Washington-Teerã contra o ISIS já se tornando autoevidente, surge aí um grande problema para a turma do perene “Bombardeie-o-Irã” na Av. Beltway, tanto quanto para os linha-dura em Teerã; afinal, o ISIS ergueu massiva barreira geoestratégica entre o Irã e a Síria, ao ameaçar a conexão Teerã-Hezbollah.

Em Israel, os Likudniks farão de tudo para impedir qualquer cooperação. Mas nunca seriam mais que um detalhe. Bagdá pode obter toda a ajuda de que precisa, de forças especiais iranianas e de milícias como a de Muqtada. O ISIS não tem capacidade humana ou expertise para sitiar Bagdá; só o povo de Sadr City bastaria para fazê-lo em pedaços. Para nem falar de atacar Najaf e Karbala, cidades santas dos xiitas, já protegidas por brigadas populares pesadamente armadas.

Será que a OTAN cruzará com o Jihadistão?

Kirkuk já está sob virtual controle dos curdos. A “devolução” da cidade a Bagdá será muitíssimo problemática – e “problema” é eufemismo. Kirkuk produz cerca de 670 mil barris de petróleo por dia. Cerca de 300 mil são exportados pelo oleoduto para Ceyhan, na Turquia. Mas nas últimas semanas só passaram pelo oleoduto, saídos dali, quando muito, uns 120 mil barris/dia.

Instalações petrolíferas no Iraque (13/6/2014)
(clique na imagem para aumentar)
A produção total do Iraque é de 3,3 milhões de barris/dia – a maior quantidade saída do sul, dos arredores de Basra. Não há nenhum sinal realista de que o ISIS consiga, algum dia, capturar Basra.

Assim sendo, o problema continua a ser algumas refinarias no norte, como Baiji. E, com isso, as forças iraquianas de elite dos batalhões contraterroristas podem lidar. Se o ISIS por qualquer razão conseguir pôr a mão em algum petróleo e gás – e trata-se de um grande “se” – será festival garantido para, sobretudo, os especuladores de mercados. E num instante aparecerão milhares de forças especiais dos EUA para “proteger” campos de petróleo iraquianos e a Zona Verde em Bagdá.

O Exército Árabe Sírio de Assad pode – e é o que já está fazendo – contribuir na luta contra o ISIS. No final, em termos bem realistas, pode-se dizer que o ISIS pode ser repelido pelo Exército Sírio, forças de elite do Irã, brigadas xiitas e, sim – uma revoada já iminente daqueles jatos de combate da Rússia e Bielorrússia, de segunda mão.

O ISIS não tomará Bagdá. Mas, feito um mutante doido, num Sunitastão LD [Linha Duríssima] à moda Hollywood, eles podem pirar ainda mais pirados e tentar tomar Amã, Doha e, até, Riad.

O Império do Caos continuará apostando em – e o que poderia ser?! – mais caos. E está bracejando nessa direção – da real possibilidade de um empurrão final rumo a um Grande Curdistão (na Síria, Iraque, Turquia e até Irã) a um inferno de milícias sectárias por todo o Iraque, Síria, Líbano, Turquia e Iêmen. Para nem falar das possíveis ramificações no Norte da África, Ásia Central e Norte do Cáucaso.


O que fará Hillary Clinton, a Hillarygator?! Nesse caso, será preciso esperar pelo começo de 2017. Ela sempre poderá dar uma de “Viemos, vimos, ele morreu” e encenar triunfantemente a Segunda Vinda no Levante, feito uma Atena dronada cantando “Acenda o meu fogaréu” [orig. Light My Fire] [2].

No fim, a OTAN não cruzará com o Jihadistão. Nenhuma “responsabilidade de proteger” (R2P) árabes que estejam sendo mortos por árabes. A OTAN deixar-se-á ficar – alegremente – de lado, só “observando”. Porque do Norte da África e por todo o Oriente Médio ao Cáucaso e até também o oeste da China, o nome do jogo (em brasa) é manter os “Bálcãs Eurasianos” do Dr. Zbig Brzezinski sempre fervendo numa pira funeral.


Nota dos tradutores

[1] As expressões “Av. Beltway” e “Beltway” [literalmente “cinturão”] fazem referência à avenida perimetral (estrada interestadual 495] que circunda Washington, D.C., desde 1964. A expressão “a [av.] Beltway” refere-se, por metonímia, ao governo dos EUA.

[2] Assista/ouça a seguir gravação original de Light My Fire com The Doors:

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Elites árabes insistem em repelir o Islã político

7/8/2013, [*] Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Egito - Cairo -Praça Tahrir em 11/2/2011
As estações vão e vêm, e os países árabes continuam em convulsão sem fim. Falou-se muito de “Primavera Árabe”. Mas ainda que tivesse sido algum tipo de primavera, como a empresa-imprensa a pintou, não prosperou. E, hoje, já está metamorfoseada em algo muito mais complexo.

Mas tampouco se vê algum “Inverno Islâmico”, expressão muito apreciada por políticos e analistas israelenses. A dimensão islâmica das rebeliões árabes – algumas das quais convertidas em sangrentas guerras civis ou regionais – deveria ser muito clara e palpável, desde o início, para quem compreenda as realidades políticas além do modo como são usadas como ferramentas políticas.

O Islã sempre foi e sempre será componente da modelagem das compreensões coletivas das nações árabes. O Islã político está no coração da luta em curso, a qual, em alguns sentidos, é manifestação de um século de lutas entre o Islã como plataforma de expressão política, governança e jurisprudência, contra tendências ocidentais e ocidentalizantes.

Ao longo da história, jamais houve sequer uma união estável e bem-sucedida entre o Islã e as classes governantes árabes – bem-sucedida no sentido de ter contribuído para o progresso, para avanços nos direitos e para a prosperidade para todos. Ou os islamistas foram cooptados, ou reinou o conflito. A atrocidade dos resultados desses conflitos variou conforme a arte e a esperteza, maiores ou menores, dos governantes árabes aos quais coube gerir os conflitos.

Na Jordânia, sempre houve discórdia nos baixos escalões, entre partidos da oposição islâmica e a classe governante. Oscilou entre inclusão parcial de forças islâmicas num Parlamento que operava com pouca autoridade e surtos ocasionais ou crises políticas de pequenas consequências.

Mas nem todos os experimentos falhados falharam com o mesmo custo relativamente baixo. Na Argélia, uma tentativa de harmonização deu terrivelmente errada. A guerra civil argelina de 1991 durou mais de uma década e fez 200 mil mortos. E nada começou com sangue; as coisas começaram com uma eleição. A Frente Nacional de Libertação que governava cancelou as eleições depois do primeiro turno, temendo o que parecia ser sua derrota certa nas mãos da Frente de Salvação Islâmica.

Prisioneiros argelinos vigiados por soldados franceses
Guerra da Argélia 1954-1952 
A promessa converteu-se no segundo pior pesadelo da Argélia; o primeiro fora a luta ainda mais sangrenta, de 1954 a 1962, de libertação colonial, contra o império francês. Naquele momento, reuniam-se todos os ingredientes para um desastre completo. Havia um exército forte que governava o país mediante partido que enriquecera muito; uma oposição política que estava a um passo de alcançar o poder político pela via eleitoral; e uma massa de cidadãos prontos para avançar além de slogans gastos e da miséria econômica.

Ainda mais, uma geração de jovens radicalizados tinha sérias dúvidas, para começar, quanto à sinceridade da classe governante. O cancelamento das eleições foi a gota d’água, e o derramamento de sangue parecia ser o único denominador comum. Até hoje, a Argélia ainda vive enredada nas consequências daquele conflito, num impasse político sem mapa do caminho para lugar algum.

Por mais que não se deva generalizar, sabendo o quanto a imprensa-empresa obra para meter todos os árabes e muçulmanos num só e conveniente discurso, as similitudes entre a experiência argeliana e a experiência egípcia são espantosas.

Dia 25/1/2011, os egípcios revoltaram-se, com a esperança de que afinal romperiam o jugo das elites reinantes, do Partido Nacional Democrático e de seus aliados – o exército e a classe comercial-empresarial – que operavam como se toda a economia egípcia fosse eles e só deles.

Hosni Mubarak
Mas, por extensão, a revolução teria de ter mirado também o conglomerado mais amplo, regional e internacional, que apoiou e ajudou o regime de Hosni Mubarak e todo seu massivo aparelho corrupto de poder. De fato, sem elaborada rede de apoiadores, sob o comando dos EUA, Mubarak jamais se teria sustentado no poder durante 30 anos. Mas os egípcios não tiveram nem o tempo nem os necessários recursos para desenvolver uma agenda de política externa, e sua revolução já enfrentava obstáculos terríveis e empenhadas tentativas de sabotagem.

Por um lado, o exército continuava no poder, embora se autoproclamasse guardião da nação e de sua revolução, servindo-se para isso da mesma velha empresa-imprensa corrompida. Por outro lado, jamais houve qualquer estrutura coesa que permitisse que os egípcios traduzissem sua aspiração coletiva em algo tangível.

Os únicos fóruns disponíveis eram as eleições e os referendos, e todas as eleições e todos os referendos foram sempre, infalivelmente e democraticamente vencidos por partidos islamistas. Eleições justas e transparentes, sim, talvez; mas graças a elas, o regime de Mubarak ressurgiu à superfície da vida do Egito.

Servindo-se dessa infraestrutura jamais desmontada, com destaque para o aparato da empresa-imprensa mais corrupta, cujos empresários-proprietários eram industriais e comerciantes poderosos, o velho regime conseguiu inverter o sinal da revolução e virou-a contra ela mesma. Espertamente, venderam os protestos de 30/6/2013 como se fossem a via para corrigir o caminho errado tomado depois da revolta do 25/1/2011.

Mohamed Mursi
Numa estranha sucessão de eventos, milhões dos mesmos que haviam protestado contra Mubarak voltaram às ruas para protestar contra um Mohamed Mursi democraticamente eleito, aliados às mesmas velhas forças políticas que durante anos haviam devastado a economia do país; convocando o exército ao poder; e aliados às hordas de baltajiya – gangues de criminosos que, apenas dois anos antes, haviam aterrorizado os manifestantes.

Agora, o Egito está dando seus primeiros passos para tornar-se outra Argélia durante a guerra civil. Os líderes do golpe entenderão, de fato, as verdadeiras repercussões do que fizeram?

A Tunísia, a pequena nação que inspirou o mundo em dezembro de 2010, não está muito distante desse ponto, nessa triste saga. Houve recentemente mais um assassinato, dessa vez de um político nacionalista, Mohamed Brahmi, logo depois de outro assassinato de outro político muito conhecido, Chokri Belaid. A Tunísia permanece dividida entre os que querem derrubar o governo e os que insistem em defender seu direito democrático de governar. De um modo ou de outro, não há dúvidas de que mãos suspeitas tentam empurrar a Tunísia para um abismo chamado de “islamistas versus secularistas”.

A Síria é, de longe, o exemplo mais sangrento. Embora na guerra civil síria as apostas tenham subido muito mais e muito rapidamente, assim como a correspondente discussão, a guerra muito rapidamente assumiu traços de um perigoso conflito sectário, cujas implicações se ressentem na região e também longe dali.

Por uma via atormentada, os regimes árabes estão acumulando ganhos. Alguns os estão obtendo mediante guerra; outros mediante golpes militares; e alguns conspiram ativamente, na esperança de conseguir começar a jogar as próprias cartas.

Mas, por mais alto que seja o preço pago e a pagar pelas revoltas, uma coisa é certa – o velho paradigma do Oriente Médio, de elites poderosas apoiadas em aliados poderosíssimos e a oprimir povos enfraquecidos não parece estar dando sinais de que possa ser ressuscitado.
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[*]Ramzy Baroud é colunista internacional e editor do jornal Palestine Chronicle. seu último livro foi My Father was A Freedom Fighter: Gaza's Untold Story (Pluto Press) ainda sem tradução em português.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Presidente Bashar al-Assad: “Nos converteremos em país da Resistência, similar ao Hezbollah”


9/5/2013, Al-ManarTV (editor local), Beirute/Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Bashar al-Assad
O presidente da Síria, Bashar Al-Assad, disse que a Síria tem condições para

...satisfazer o desejo dos sírios, e disparar meia dúzia de mísseis contra Israel, em reposta ao ataque israelense contra Damasco. Mas todos sabemos o quanto Israel deseja uma guerra, e que, se os sírios retaliassem, estaríamos aceitando a provocação e cometeríamos ato de guerra, equivalente ao que fizeram os israelenses.  

Como noticiou o jornal Al-Akhbar, do Líbano, Assad disse a convidados que:

... a situação internacional não admite mais uma guerra, que nem Israel nem os EUA podem suportar. Se respondêssemos, teríamos no máximo uma vingança tática. E o que queremos é vingança estratégica: abrir as portas à Resistência e converter a Síria em país da Resistência.

Hezbollah
Assad sobre o Hezbollah

Depois do ataque israelense, tivemos ainda mais certeza de que já estamos combatendo contra nosso único inimigo. Já identificamos seus soldados e agentes infiltrados em nosso país – disse o presidente Assad.

O diário libanês noticia que Assad também voltou a manifestar alta confiança, apoio e admiração pelo Hezbollah,

...organização capaz de pensar e agir com racionalidade, com firmeza e com lealdade. Decidimos fornecer tudo de que o Hezbollah precise. Pela primeira vez, sentimos, com convicção profunda, que partilhamos a mesma situação e o mesmo destino, que o Hezbollah não é apenas um aliado e parceiro para cuja resistência os sírios contribuímos. Assim sendo, decidimos nos aproximar e fazer da Síria mais um país da Resistência, similar ao Hezbollah, para defesa da Síria de hoje e das futuras gerações.

Funcionário sírio na Turquia

Endorgan e Obama
Nesse contexto, o jornal Al-Akhbar citou um funcionário sírio de alto escalão, que disse que

... a Turquia agiu como moleque hipócrita e mentiroso, no qual não se pode confiar. Não há sequer uma mínima possibilidade de que o acordo anunciado entre Ankara e os curdos seja algum dia implementado, porque nem o Exército Turco e o Partido Desenvolvimento e Justiça partilham opiniões semelhantes sobre aquele acordo.

Sobre o Iraque

Por outro lado, disse o mesmo funcionário sírio, não há qualquer problema na relação entre os governos sírio e iraquiano.

É claro que os qataris e os turcos estão imiscuindo-se no campo iraquiano, onde semeiam confusão e desentendimentos e tentam todo o tipo de sabotagem, ainda mais ativos que os próprios sauditas. Mas o governo do Iraque parece ter bom controle da situação e vai superando as crises, uma depois da outra, como se vê.

A mesma fonte disse também que a chamada “oposição” iraquiana

...não tem qualquer profundidade. A Turquia não tem meios nem recursos para reforçá-la. Trata-se hoje, no máximo, de malas de dinheiro, mas mesmo isso está com os dias contados.

Sobre a Rússia

Sobre os russos, o mesmo funcionário do governo sírio disse que

...os russos são confiáveis, honestos e têm reconfortado os sírios, e não há problema algum com os russos.

Vladimir Putin
O que comprova o que dizem várias outras fontes, segundo as quais a Síria, enquanto vai conquistando posições em campo, também tem sido bem sucedida em vários acordos políticos.

Seja como for, a fonte fez questão de ressaltar que:

...as relações entre Síria e Rússia não são o que alguns supõem que sejam. A Síria não espera coisa alguma dos russos. Os russos, sim, é que contam com que o Exército Sírio avance em campo.

Sobre o Egito

Sobre o Egito, o mesmo alto funcionário sírio disse ao jornal Al-Akhbar que:

Mohamed Mursi
Damasco vê com bons olhos que o Cairo está voltando a desempenhar o papel de liderança que teve na Região, deixando de seguir a Arábia Saudita e o Qatar.
Segundo o mesmo diário libanês,

Teerã e Damasco parecem convictas de que o Cairo está-se afastando de turcos e qataris, e pronto para reconsiderar velhas posições que assumiu sobre Iraque e Síria. O governo egípcio dá sinais de disposição para reconsiderar suas políticas internas, no que tenham a ver com o relacionamento com o partido Al-Azhar e grupos da oposição. E o Irã está disposto a trabalhar também nesse campo, oferecendo a própria experiência para ajudar a reconstruir o estado egípcio.

Sobre o Golfo

Sobre os países do Golfo, a mesma fonte síria entende que: ...vivem em tempos ultrapassados, são do tempo das tribos. Não sabem nem entendem o conceito de Estado. Aconselhamos todos que tenham de negociar com eles, a não tratá-los como se fossem estados. É perda de tempo dialogar com eles. Bem que tentamos! Mas, no instante que qualquer política ou grupo político é bem-sucedido e avança na região, eles saltam sobre você.

Sobre a Jordânia

Diferente disso, estamos em contato com a liderança jordaniana. O rei Abdullah não tem interesse em que a Síria seja ameaçada, mas está sob pressões terríveis, além de ser constantemente ameaçado por intervenção, seja dos EUA ou de Israel. Seja como for, a Jordânia sabe que seus inimigos serão sempre o Qatar, a Arábia Saudita e a Fraternidade [Muçulmana] – disse a mesma fonte síria, ao jornal Al-Akhbar, do Líbano.

Sobre o Qatar

Concluindo com o Qatar, o funcionário do governo sírio disse que o Qatar também enfureceu a Jordânia e o presidente Mursi do Egito.

Quem aquele Emirado pensa que seria, para tentar pôr de joelhos, com dinheiro, todos os estados árabes e seus governos?

Sugeriu fortemente que:

...vários Estados do Golfo ressentiram-se do que Doha fez na última Cúpula Árabe, no Qatar. Mas, simultaneamente, o governo do Qatar também está frustrado, ante o que consideraram como ‘'refugo'’ dos norte-americanos e franceses, e a avançada da Arábia Saudita.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

BRICS vs. G7: a Líbia é pretexto

O Estado de S.Paulo é “jornalismo” a serviço do G7! Há provas!

Vijay Prashad
7/6/2011, Vijay Prashad,  Counterpunch –
Traduzido e apontado pelo pessoal da Vila Vudu

Onde e quando se deram o trabalho de noticiar, jornais e jornalistas nos países do G7 só souberam zombar das duas visitas do presidente da Federação Mundial de Xadrez Kirsan Nikolayevich Ilyumzhinov  a Trípoli. O mote foi “Gaddafi joga xadrez, enquanto o país arde”. 

Ilyumzhinov não é mestre em xadrez. De 1993 a 2010, foi presidente da Kalmykia, pequena república da Commonwealth of Independent States (CIS) [1]. Ilyumzhinov tornou-se presidente da Federação Mundial de Xadrez em 1995, usando o posto para levar os campeonatos de xadrez para a capital da Kalmykia, Elista, várias vezes; uma vez tentou realizar o campeonato em Bagdá (1996) e uma vez realizou-o em Trípoli (2004). Seu xadrez não é da qualidade do de Viswanathan Anand  ou de Boris Gelfand, mas é homem tão excêntrico quando a maioria dos grandes jogadores de xadrez (acredita que o xadrez foi trazido a esse planeta por alienígenas).

Dia 12 de junho, Ilyumzhinov estava em Trípoli, jogando xadrez com Gaddafi. Quando ficou claro que venceria a partida, Ilyumzhinov declarou o empate. Depois da viagem, o enviado da Rússia à África, Mikhail Mergelov, disse que, antes da viagem, conversara com Ilyumzhinov: “Aconselhei-o a jogar com as brancas. E a deixar Gaddafi convencido de que estaria próximo de vencer a partida”.

Não é raro que a Rússia envie mensageiros pouco ortodoxos. Ilyumzhinov esteve em Bagdá pouco antes do reinício da Guerra do Golfo em 2003, onde se encontrou com Uday, filho de Saddam Hussein. Que mensagem levava então? Que mensagem levou agora?

Nos dias 3-4/7, o Conselho Rússia-OTAN reuniu-se em Sochi, balneário no Mar Negro. O principal item da agenda, para a OTAN, era tranquilizar a Rússia, acalmar-lhe as penas muito arrepiadas. O Conselho foi criado em 2002 para assegurar que as crescentes tensões entre os dois lados não levassem a Rússia a posicionar-se contra a “Guerra ao Terror”. A marcha acelerada da OTAN rumo ao leste, que atraiu para sua agenda alguns estados do bloco oriental, aconteceu imediatamente depois da guerra aérea da OTAN na Yugoslávia (1999) e depois, a partir de 2001, no Afeganistão. Todos esses movimentos deram a Moscou a impressão de que estava sendo cercada. A insistência de Bush na questão do escudo de mísseis, e o esforço dos EUA para enfiar a OTAN nos seus próprios planos de defesa agitaram Moscou. A guerra na Ossétia do Sul, em 2008, permitiu que Moscou flexionasse os músculos.

Ao longo da última década, a Rússia aproximou-se da nova formação que brotou do Movimento dos Não Alinhados, o G-15, e do grupo Índia-Brasil-África do Sul [ing. India-Brazil-South Africa (IBSA). A China reuniu-se ao IBSA para bloquear as novas regras de comércio que teriam sido aprovadas em Cancun (2003) e para formular uma agenda comum na reunião de Copenhagen (2009) sobre o clima. Essas discussões e a criação de uma plataforma comum criaram a formação conhecida como BRICS, que se reuniu em abril de 2011 em Hainan, China. A Rússia, que se desencaminhara em algum ponto, entre seu próprio passado de Guerra Fria e a subserviência de Boris Yeltin aos EUA, encontrou novo alento diplomático nas locomotivas do Sul Global.

Em Hainan, em abril, as potências BRICS criticaram muito fortemente a guerra da OTAN contra a Líbia, e formularam os princípios que apareceriam na declaração, dia 15 de junho, do Comitê Ad-Hoc de Alto Nível da União Africana sobre a Líbia [ing. African Union High Level Ad Hoc Committee on Libya] na ONU. 

Os BRICS exigiram acordo negociado. Ruhakana Rugunda, de Uganda, representou a União Africana na reunião da ONU, onde disse sem meias palavras:

“Não é inteligente que alguns atores deixem-se intoxicar pela superioridade tecnológica e passem a supor que, sozinhos, conseguiriam alterar o curso da história rumo à liberdade para toda a humanidade. Com certeza, nenhuma constelação de estados deve supor que possa recriar alguma hegemonia sobre a África.”

(Rugunda era representante de Uganda à ONU. Acaba de ser transferido para gabinete burocrático, doméstico). A União Africana disse à ONU que, dada a experiência que adquirira em Burundi, estava capacitada para conduzir a negociação e a transição na Líbia.

Foi esse o contexto em que os russos envolveram-se na questão líbia, com alguma diplomacia de xadrez, ao mesmo tempo em que tentavam empurrar as muralhas da OTAN. Em Sochi, o presidente russo Medvedev convidou o presidente da África do Sul Jacob Zuma, que comandava os esforços da União Africana na Líbia, para que se juntasse às conversações. 

Zuma disse aos chefes da OTAN que eles já haviam ultrapassado e desconsiderado duas Resoluções da ONU (n. 1.970 e 1.973), e que não tinham outra alternativa além de negociar. Se os chefes da OTAN pudessem pressionar o Conselho Transicional em Benghazi para que retrocedessem da posição maximalista (Gaddafi tem de sair imediatamente) – Zuma sugeriu – abrir-se-ia uma via para conversações de paz. 

Os comandantes da OTAN ouviram Zuma contar sobre o Marco Geral de Acordo Político da União Africana [ing. AU’s Framework Agreement on a Political Settlement] e assistiram aos aplausos de Medvedev, que muito elogiou a União Africana pelo trabalho e pelo “Mapa do Caminho” que haviam trazido. Rússia e União Africana ofereceram-se para convencer Gaddafi a aceitar o Mapa do Caminho. E caberia à OTAN convencer o Conselho Transicional em Benghazi a fazer o mesmo.

A OTAN deixou Sochi sem se deixar perturbar com as preocupações russas sobre os mísseis de defesa e fez promessas anódinas para a próxima reunião em Chicago. Quanto à Líbia, não houve progresso.

A Líbia é o primeiro campo de batalha de uma nova “guerra fria” – dessa vez não mais entre EUA e Rússia, mas entre o G7 (e seu braço militar, a OTAN) e os BRICS (que não têm braço militar). Os G7 comandam os céus e uma retórica cada vez mais altissonante sobre “liberdade” – mas não têm base econômica nem qualquer noção do que seja processo político democrático, dois atributos que não se adquirem com bombardeio aéreo.

Os BRICS não conseguiram organizar-se em torno de seu candidato para a presidência do FMI; assim, até aqui, ainda não conseguiram articular uma alternativa para as estratégias deflacionárias das organizações financeiras internacionais. No plano das políticas econômicas, em outras palavras, os BRICS foram menos bem-sucedidos. 

Mas no campo da política internacional, sim, perturbaram profundamente o G7. Sobre a Síria, os BRICS não deixarão passar na ONU nenhum tipo de resolução mais dura. O ponto é que, na Líbia, a OTAN malversou o mandado que recebeu da Resolução n. 1.973; há risco de que repitam a mesma malversação na Síria. 

A posição do G7 a favor de ataque à Síria foi exposta pelo representante francês à ONU, em artigo publicado dia 13/6, no jornal brasileiro O Estado de S.Paulo. O G7 espera seduzir os brasileiros, longe do que os franceses vêem como a teimosia dos sul-africanos, que seriam “intratáveis” e “obcecados”. 

Os BRICS tentaram impedir que a Resolução n. 1.973 passasse da primeira mesa de discussão, mas, daquela vez, Zuma cedeu, depois de receber telefonema pessoal de Obama. O empenho com que se dedica hoje ao caso da Síria talvez seja tentativa de compensar a defecção de então, da África do Sul, no bloco dos BRICS.

Ilyumzhinov, agora já declarado enviado russo à Líbia, chegou a Trípoli no fim de semana. Encontrou-se com Muhammed, filho de Gaddafi, o qual, esse, sim, é bom jogador de xadrez e dirige a federação oficial de xadrez. Ilyumzhinov ouviu que Gaddafi morrerá em terra líbia, apesar de um alto funcionário russo ter dito ao jornal Kommersant que Gaddafi sugerira, em entrelinhas, que deixaria o poder se recebesse “garantias de segurança”. Mas em nenhum caso sairá de lá antes de haver negociações; e os líderes em Benghazi não iniciarão conversações antes da saída dele. 

Benghazi é imagem especular das posições da OTAN. Os BRICS já não estão investindo na permanência de Gaddafi (já não se diz “irmão líder” nas reuniões da União Africana). Os BRICS querem simplesmente encontrar uma saída racional para o conflito. A guerra da Líbia já não é questão que envolva só a Líbia, nem tem qualquer coisa a ver com a Primavera Árabe.

Na Líbia se está testando uma transição, do “Século Americano” para a era das locomotivas globais do Sul. EUA, G7 [e o jornal O Estado de S.Paulo  (NTs)] não aceitarão transição tranquila.

A história os julgará pelo empenho reacionário. 



Nota dos tradutores