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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Redesenhando o Oriente Médio novamente - A Guerra Sectária disponível


24/10/2013, [*] Ramzy Baroud (Doha) – Counterpunch
Traduzido por João Aroldo  

http://www.raceforiran.com/wp-content/uploads/2010/04/Middle-East-Theatre-of-War-map2.jpg

Doha. As águas quentes do Golfo parecem tranquilas de onde estou sentado, mas tal tranquilidade dificilmente reflete os conflitos que esta região continua a gerar. A euforia da chamada Primavera Árabe já passou faz tempo, mas o que restou foi uma região que é rica em recursos oprimida com uma história facilmente manipulada que está em um estado de transição imprudente. Ninguém sabe como será o futuro, mas as possibilidades são amplas e, possivelmente, trágicas.

Em minhas muitas visitas à região, eu nunca encontrei tal falta de clareza quanto ao futuro, apesar do fato de que linhas de batalha foram traçadas como nunca antes. Governos, intelectuais, seitas e comunidades estão se alinhando em ambos os lados de várias divisões. Isto está acontecendo em diversos graus em todo o Oriente Médio, dependendo da localização do conflito.

Alguns países são diretamente engolidos em conflitos sangrentos e definidores – revoluções desencaminhadas, como no Egito, ou revoltas que se transformaram em guerras civis das mais destrutivas como na Síria. Inversamente, aqueles que foram poupados até agora da agonia da guerra, estão bastante envolvidos no financiamento de várias partes em conflito, transportando armas, treinando combatentes e liderando campanhas midiáticas em apoio de uma facção contra outra. Já não existe um conceito como objetividade midiática, nem mesmo em termos relativos.

No entanto, em alguns casos, as linhas também não são traçadas com nenhum grau de certeza. Dentro das fileiras da oposição síria ao regime Baath em Damasco, os grupos são muito numerosos para serem contados, e suas próprias alianças mudam em direções que poucos na mídia parecem notar ou se importam em noticiar. Nós arbitrariamente escrevemos sobre uma ‘'oposição'’, mas na realidade não há plataformas políticas ou militares verdadeiramente unificadoras, seja o Conselho Militar Supremo, Conselho Nacional Sírio ou a Coalizão Nacional Síria. Em um mapa interativo, formulado pela Al Jazeera provavelmente a partir do que parecem ser conclusões por atacado, o conselho militar “alega comandar em torno de 900 grupos e um total de 300.000 combatentes”. A alegação de controle real sobre esses grupos pode ser facilmente contestada, e há diversos outros grupos que operam baseados nas suas próprias agendas, ou unificados sob plataformas militares diferentes com nenhuma obediência a qualquer estrutura política, não àquelas em Istambul ou qualquer outro lugar.

É fácil, contudo, associar conflito perpétuo com o Oriente Médio supostamente inerentemente violento. Por quase duas décadas, muitos avisaram que a intervenção norte-americana no Iraque eventualmente ‘'desestabilizaria'’ toda a região. O termo ‘'desestabilizar'’ foi certamente relevante, já que Israel fez mais que sua parte para desestabilizar diversos países, ocupar alguns e destruir outros. Mas os prospectos de desestabilização política eram muito mais ameaçadores quando o país mais poderoso do mundo investiu muito de seu poder e recursos financeiros para fazer o trabalho.

Em 1990-91, depois novamente em 2003, e mais uma vez em 2006, o Iraque foi usado como um campo gigante de experimentações de guerra, “construção de estado” e guerra civil provocada pelos EUA. A região nunca havia passado por tal divisão para acomodar linhas sectárias como então.

O discurso que unificou a guerra norte-americana foi descaradamente sectário da maioria xiita oprimida pela minoria sunita. Eles reorganizam uma das paisagens políticas mais complexas do mundo dentro de algumas semanas, com base em um modelo imaginado por “especialistas” em Washington, com pouca experiência de vida real. Não só o Iraque foi feito em pedaços, mas foi refeito várias vezes para acomodar a compreensão inepta da história pelos EUA.

O Iraque continua a sofrer, mesmo depois que os EUA supostamente retiraram suas forças armadas. Milhares de pessoas morreram no Iraque nos últimos meses, com as vítimas identificadas como membros de uma seita ou de outra. Mas a doença do Iraque tornou-se uma doença regional. E como os EUA quando invadem países soberanos e reorganizam as fronteiras políticas, grupos como o Estado Islâmico do Iraque e al-Sham (ISIS) operam onde quer que encontrem sua vocação, sem respeito pelas fronteiras geográficas.

Formado no Iraque, em 2006, como uma plataforma para vários grupos jihadistas como a al-Qaeda no Iraque, ISIS tem sido um componente poderoso da selvagem guerra em curso na Síria. Apesar de sua má reputação, parece ter poucos problemas em encontrar o acesso e recursos. Pior ainda, em algumas partes da Síria, ele opera uma economia pouco estável, que lhe dá maior privilégio do que os grupos sírios caseiros.

Combatentes da al-Qaeda treinados na Somália combatendo na Síria
Esses grupos nunca teriam existido no Iraque, ou passariam com relativa facilidade para outros países, se não fosse pela invasão dos EUA. Eles funcionam como exércitos particulares, divididos em bandos menores de combatentes aguerridos que são capazes de se orientarem através das fronteiras e tomar o controle de comunidades inteiras. Al-Qaeda, um grupo pouco conhecido há 12 anos, tornou-se uma das partes interessadas no futuro de todos os países do Oriente Médio.

Para os países que não estão submetidos ao tipo de agitação que está sendo experimentado na Síria e no Iraque, eles, no entanto, entendem que é tarde demais para desempenhar o papel de espectador. É uma guerra total se desenvolvendo, e não há tempo para a neutralidade. Preocupantes previsões da mudança da paisagem física da região estão em andamento e poucos países parecem ser poupados.

A recente peça de Robin Wright no The New York TimesImagining a Remapped Middle East, é uma especulação típica feita pelas elites políticas e meios de comunicação americanos sobre o Oriente Médio. Eles aplicaram a sério antes e depois da invasão dos EUA no Iraque, onde eles retalharam o país árabe de qualquer modo que fosse de acordo com os interesses dos Estados Unidos, na típica fórmula dividir para governar. Desta vez, porém, as perspectivas são assustadoramente sérias e reais. Todos os grandes jogadores, mesmo que aparentemente opostos uns aos outros, estão de fato contribuindo para a divisão plausível. De acordo com Wright, não só os países poderiam se tornar menores, alguns dos territórios retalhados poderiam fazer parte de países vizinhos.

Mesmo cidades-estados - oásis de múltiplas identidades, como Bagdá, enclaves bem armados como Misrata, a terceira maior cidade da Líbia, ou zonas homogêneas como Jabal al-Druze no sul da Síria - podem ter um ressurgimento, mesmo que tecnicamente dentro de países, escreveu Wright.

O infográfico que acompanha foi intitulado: “Como 5 países poderiam se tornar 14.

Se tais eventos nunca vão se realizar, a previsão mesma fala da inegável natureza mutante do conflito no Oriente Médio, onde os países estão agora envolvidos em guerra. As novas linhas de batalha são agora sectárias, carregando os sintomas de uma guerra civil implacável do Iraque. Na verdade, os jogadores são mais ou menos os mesmos, exceto que agora o “jogo” se espalhou para ultrapassar fronteiras porosas do Iraque até espaços muito mais amplos onde os militantes têm o domínio.

Daqui, as águas quentes do Golfo parecem calmas, mas só aparentemente.
__________________

[*] Ramzy Baroud é editor do Palestine Chronicle.com. É autor de The Second Palestinian Intifada: A Chronicle of a People’s Struggle e de My Father Was a Freedom Fighter: Gaza’s Untold Story (Pluto Press,London).


Será que o espião-chefe saudita, príncipe Bandar bin Sultan, enlouqueceu completamente?

25/10/2013, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Será que Bandar bin Sultan está louco?
Todos os sinais mostram que o regime saudita, antes e sempre muito secretivo, agora está furioso. Muito, muito zangado. O reino saudita não apenas recusou o assento ao qual foi eleito no Conselho de Segurança da ONU; agora, o espião-chefe príncipe saudita Bandar bin Sultan parece estar ameaçando os EUA, disse que:

(...) haverá grande mudança nas relações com os EUA, em  protesto contra a visível inação no caso da guerra síria e de suas aberturas para o Irã.

O Wall Street Journal dá outros detalhes:

Na expectativa de ataques norte-americanos, os líderes sauditas pediram planos detalhados aos EUA para a alocação de naves norte-americanas para fazer a guarda do centro saudita de petróleo, a Província Leste, durante qualquer ataque à Síria, disse um funcionário que acompanha aquela discussão. Os sauditas surpreenderam-se quando os norte-americanos disseram-lhes, então, que não haveria naves norte-americanas para proteger completamente a região do petróleo, disse o funcionário.

O funcionário disse também que, desapontados, os sauditas disseram aos EUA que estavam abertos a alternativas à longa e duradoura parceria de defesa, enfatizando que procurariam boas armas a bom preço, fosse qual fosse a fonte.

No segundo episódio, um diplomata ocidental descreveu a Arábia Saudita como ansiosamente interessada em ser parceira militar no que se esperava que fossem ataques comandados pelos EUA contra a Síria. Parte disso, os sauditas pediram que lhes fosse fornecida a lista de alvos militares propostos. Os sauditas indicaram que jamais obtiveram a informação, disse o diplomata.

Bandar (também conhecido como Bandar bin Sultan bin Abdulaziz Al Saud) passou a maior parte de sua carreira em Washington DC, onde foi embaixador saudita de 1983 a 2005 e onde era considera o excepcionalmente próximo da família Bush. E, ainda mais, pôde observar, melhor que qualquer outra pessoa, o modo como os EUA foram à guerra contra o Iraque, não só uma, mas duas vezes, em 1991-1992 e, outra vez, em 2003-2005.

Assim sendo, ele, mais e melhor que qualquer outro, deveria saber que (a) os EUA não têm capacidade física para “proteger completamente” toda a região do petróleo do reino saudita; e que (b) os EUA só partilhariam a lista de alvos previstos com aliados “anglos” muito próximos (o Reino Unido e, talvez, algum outro país anglo [1]). Sequer os israelenses ou os franceses jamais receberiam esse tipo de acesso.

Mapa político da Arábia Saudita com fronteiras e províncias
(clique na imagem para visualizar)
Assim sendo, por que, santo deus, Bandar está tão incomodado?!

Claro, sim, que há outras boas razões a enfurecê-lo: todo o plano estratégico dos sauditas para derrotar os xiitas no Oriente Médio ruiu.

Os sauditas queriam disparar um levante na Síria; depois, encenar um ataque químico, que seria atribuído a outros; depois, fazer os EUA executarem a “mudança de regime” na Síria; e afinal substituir o governo sírio por algum regime de wahabistas comedores-de-fígados fantoches dos sauditas. Assim, o Hezbollah e o Irã estariam isolados. Os sauditas deixariam os israelenses lidar com o Hezbollah, enquanto eles próprios empurrariam os EUA para um confronto com o Irã.

Em matéria de planos estratégicos, até que era bem bom plano, mas baseado num erro básico de compreensão: esse plano não avalia corretamente a determinação de russos, iranianos e do Hezbollah, para destroçá-lo. Sabemos que a Rússia deslocou uma muito poderosa força tarefa naval para a costa da Síria; há muito boa informação que mostra que o Irã enviou clandestinamente equipamento e combatentes para a Síria; e o Hezbollah admitiu publicamente que enviou vários milhares de combatentes seus para a Síria. Esses combatentes são os que realmente viraram a maré da guerra em campo (sobretudo em torno de al-Qusayr).

Mapa do oeste da Síria e a derrota dos "rebeldes" em al Qusair
(clique no mapa para visualizar melhor)
O que não sabemos (mas sabemos com certeza que a conversa aconteceu) é o que Rússia, Irã e o Hezbollah disseram aos EUA através de seus canais diretos de comunicação. Pessoalmente, tenho a forte impressão de que houve ameaças realmente sérias, vindas de um ou de vários desses atores; e que a Casa Branca levou muitíssimo a sério as ameaças que ouviu. Sim, sim, claro: foi quando apareceu o “ponto retórico” de Kerry sobre a Síria entregar as armas químicas, mas há fartos indicadores de que os EUA já haviam decidido “dar meia volta” [orig. “fold”] 2 ou 3 dias antes de darem. Seja qual for o caso, é claro que os EUA tomaram a única decisão sã, ao decidirem que não iniciariam outra grande guerra no Oriente Médio.

É possível que os sauditas tenham realmente pensado que os EUA entrariam em confronto aberto contra a Síria, o Hezbollah, o Irã e a Rússia, só para satisfazê-los?

Agora, consideremos a reação dos sauditas.

Primeiro, recusaram a assumir o assento ao qual foram eleitos, no Conselho de Segurança da ONU. E daí?! Com a previsível exceção de Kuwait e Bahrain, que ficarão desolados, quem se incomodará muito por os sauditas não se sentarem no CS-ONU?! O Kosovo?

Agora, essa ameaça de “grande mudança” na aliança EUA-sauditas. Mas, afinal... Do que, diabos, Bandar está falando, de novo?!

Para começar: será que Bandar realmente acredita que os EUA precisam vitalmente do Reino Árabe-Saudita? Será que não se dá conta de que, em pouco tempo, os EUA serão autossuficientes em petróleo? Será que não vê que estão chegando ao fim os dias em que a ARAMCO [5] era peça chave para manter a força do dólar, e que, agora, a força do dólar depende mais do poder financeiro e militar dos EUA? E ainda que o reino saudita fosse vital para a força do dólar, será que Bandar realmente supõe que possa ameaçar impunemente interesses estratégicos vitais dos EUA?

Complexo administrativo da Aramco em Dhahram na Arábia Saudita
Em segundo lugar, se Bandar quer afastar-se da aliança com os EUA, para onde supõe que se possa bandear?! Com total certeza, não para a China, que tem um grave “problema muçulmano” a enfrentar, nas províncias ocidentais; não, tampouco, para a União Europeia, servilmente comprometida e dedicada ao seu status de colônia do Império norte-americano; não para a África – e menos ainda depois da recente carnificina no Quênia. Não para a América Latina, é claro, se por mais não for, por causa da longa história latino-americana de luta contra os EUA; e, também, porque nesse continente habita imensa população árabe, que sabe perfeitamente que o wahabismo é ideologia doentia. Na Ásia, talvez os governantes desesperados da República Popular Democrática da Coreia ou de Burma se interessassem por explorar propostas. Mas é só.

Por tudo isso, a menos que Bandar suponha que castigaria os EUA se se meter em aliança com “peso-pesados” do quilate do Kuwait ou Bahrain, não se sabe o que estará passando pela cabeça de Bandar.

Considerem o seguinte: primeiro, Bandar ameaça Putin com ataques terroristas durante os Jogos Olímpicos de Sochi; [3] agora, Bandar ameaça os EUA de “deixá-los” por sua conta?! Seria cômico, se a Casa de Saud não estivesse sentada sobre uma descomunal montanha de dinheiro, que ela tem e que ela usa – e usará – para espalhar o terror e o extremismo wahabista por todo o planeta.

O que me aproxima, afinal, da minha última pergunta: será que Bandar realmente não compreende a fragilidade de seu próprio regime? Será que acredita seriamente que poderia ameaçar simultaneamente EUA e Rússia, e sair ileso?

GW Bush e Bandar Bush bin Sultan
Talvez o pobre coitado espere que o clã Bush possa fazer alguma coisa a seu favor, mas, nesse caso, espera errado. Claro, sim, que a família Bush e a Casa de Saud são cúmplices há muito tempo em todos os tipos de negócios sujos e bem feios, mas, além de os Bush não estarem atualmente no poder, eles sempre amarão mais o próprio dinheiro que os próprios amigos. E a verdade é que a família Bush também já não precisa, assim, tanto, dos sauditas.

Mas o contrário não é verdade. A casa wahabista de Saud está sentada sobre gigantesca reserva de petróleo, mas é petróleo xiita (as regiões do país ricas em petróleo são as mesmas onde se concentra população majoritariamente xiita, duramente reprimida no país). Os dois governos, do Bahrain e o regime saudita, só se mantiveram no poder por força de repressão violentíssima e sistemática contra a própria população, sobretudo contra os xiitas. Para os wahabistas, permanecer no poder significa matar xiitas, muitos, muitos xiitas. Para fazer isso, é indispensável ter um “protetor” no Conselho de Segurança da ONU. E, no caso do Reino Árabo-Saudita, esse “protetor” sempre foi os EUA. Imaginem, então, o que pode acontecer, se os EUA retirarem a “proteção” que dão aos governantes sauditas, no CS-ONU. Que sinal esse movimento enviará aos sofridos e reprimidos xiitas, nos dois países? Sem ter conseguido chegar sequer uma situação de “Responsabilidade de Proteger”, é muito evidente que o regime saudita só interessa e só tem serventia, “por decisão e escolha do presidente dos EUA”, [4] podendo ser demitido sem aviso prévio e sem explicações.

A impressão que se tem é que Bandar está completamente esquecido disso tudo. Minha impressão pessoal é que (a) Bandar enlouqueceu completamente. Deve ser internado. É isso ou, então, (b) toda a Casa de Saud enlouqueceu completamente, algum tipo de efeito colateral e consequência de seus hábitos e práticas degeneradas. Sabe-se lá?

Se Bandar for “aposentado” – administrativamente ou fisicamente – mais cedo ou mais tarde, então saberemos que se trata da opção (a). Se não, é a opção (b). Seja qual for, o destino da Casa de Saud está selado.

[assina] The Saker



Notas dos tradutores

[1] Países “Anglo” são Reino Unido, Irlanda, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Exceto a Irlanda, os demais são militarmente alinhados sob o Tratado UKUSA [UKUSA Agreement] e o programa dos Exércitos ABCA.

[2] Saudi Arabian Oil Co., ARAMCO, é a empresa nacional saudita de petróleo e gás, com sede em Dhahran.

[3] Ver, sobre isso, Asia Times Online de 7/9/2013, redecastorphoto: Pepe Escobar: “Cães da guerra versus a caravana emergente”, (traduzido).


[4] Orig. at the pleasure of the US President. É expressão da Constituição dos EUA. Designa alguns poderes e competências exclusivas do presidente, como, dentre outros, a nomeação para alguns postos; disse-se que, nesses casos, o funcionário “serve como apraza ao presidente dos EUA”, podendo ser demitido a qualquer momento.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Bancarrota em casa e pelo mundo: A Síria mostra que Washington é ator geopolítico exaurido

19/10/2013 [*] Finian CUNNINGHAM, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"Rebelde" lança granada (RPG) contra o Exército sírio  em Aleppo (9/10/2013)
A política dos EUA para a Síria poderia ser descrita como “uma comédia de erros”, se o custo, em sofrimento humano, não fosse tão brutal. Depois de criar um pandemônio de terrorismo e desrespeito à lei na Síria, com operações clandestinas de insurgência ao longo dos últimos dois anos e meio, o governo dos EUA parece agora um Dr. Frankenstein que perdeu o controle sobre a besta, ou, melhor dizendo, as bestas...

As criaturas, nascidas do laboratório norte-americanos de golpes para mudança de regime, têm várias formas, de selvagens esquadrões da morte em solo, a grupos de exilados políticos mantidos em hotéis 5 estrelas no Golfo Pérsico.

Mas nenhuma das criaturas parece obedecer ao suposto patrão-criador. A situação está evidentemente fora de controle, e os EUA mostram-se ao mundo como idiotas, loucos, impotentes.

Primeiro, Washington repetiu o pedido, essa semana, para que suas criaturas ativas na oposição síria, a Coalizão Nacional Síria (CNS), participe das conversações políticas de Genebra-2. Mas a CNS fez que nem ouviu.

Então, uma declaração conjunta do bando de mercenários de vários países reunido na Síria, essa semana, tratou de repudiar, furiosamente, publicamente, o CNS e todos os demais grupos políticos.


Tendo visto o fracasso dos grupos políticos que dizem representar a oposição e os grupos revolucionários (...), nós, comandantes dos grupos militares nas províncias do sul, declaramos que não reconhecemos nenhum dos grupos políticos que dizem nos representar e lhes retiramos o nosso apoio.

Foi a segunda bofetada aplicada na chamada Coalizão Nacional que o ocidente tanto promoveu e apoiou. Mês passado, 13 organizações insurgentes nas províncias do norte da Síria também distribuíram declaração em que rejeitam a coalizão e a declaram ilegítima, como representante política.

Significativamente, dentre esses 13 grupos que repudiaram a CNS estava a Frente Al-Nusra, afiliada da Al-Qaeda, e o Exército Sírio Livre. Os governos ocidentais dizm que apoiavam o Exército Sírio Livre do general Salim Idriss, porque ele seria líder “moderado”, sem associação com as redes de extremistas takfiri, como a Frente Al-Nusra.

Estranhamente, para os propagandistas pró-ocidente, o Exército Sírio Livre parece já não estar lendo os manuais e memorandos “certos”, e já se aliou publicamente aos “extremistas”. Em outras palavras, não há diferença alguma entre “moderados” e “extremistas”; ou entre “rebeldes do bem” e “rebeldes do mal”.

Mapa atualizado/legendado da Guerra na Síria até set/2013
(clique na imagem para visualizar)
Essa distinção sem qualquer fundamento na realidade já está sendo vista por todos, claramente, como ficção de propaganda, que governos ocidentais fabularam para criar, para eles mesmos, alguma cobertura política e moral para conseguirem inventar uma guerra criminosa de agressão à Síria – ocultados por trás da mentira de que estariam apoiando rebeldes “bons”, pró-democracia e pró-liberdade.

Vergonhosamente, a empresa-imprensa ocidental, chamada “indústria do jornalismo”, ajudou muito a armar essa fachada escandalosa, em vez de investigar rigorosamente os fatos e expor as mentiras.

A verdade é que governos ocidentais lançaram uma onda de terrorismo contra a Síria, desde março 2011, servindo-se como disfarce da “Primavera Árabe”, com vistas ao objetivo geopolítico de promover mais uma “mudança de regime”. Essa onda de agressão para desestabilizar o governo do presidente Bashar al-Assad sempre incluiu centenas de grupos de mercenários de variadas tendências extremistas, a maioria dos quais saídos de cerca de 30 países, dentre os quais Líbia, Tunísia, Egito, Arábia Saudita, Afeganistão e Rússia, além de estados ocidentais como Austrália, Grã-Bretanha, França e Canadá.

A ilusória divisão que o ocidente divulgou, entre “moderados” e “extremistas”, foi pelos ares nos massacres acontecidos na província de Latakia, no oeste da Síria, em agosto. Até a ONG Human Rights Watch, em geral muito atenta aos interesses da agenda política do ocidente, noticiou centenas de atrocidades contra civis em ataques a várias vilas na província de Latakia. Dentre essas atrocidades, o sequestro de mais de 200 mulheres e crianças, cujo destino ainda não se conhece até hoje. Há notícias, de fontes dignas de crédito, de que todos foram assassinados para “produzir” os cadáveres apresentados como vítimas do “ataque químico” de East Ghouta, dia 21/8. Durante o ataque em Latakia, o comandante do Exército Sírio Livre, general Idriss, foi filmado em campo, discursando sobre o sucesso da campanha que comandava.

"Rebeldes" da OTAN circulam por bairro semi destruído em Homs em 15/9/2013
O que se vê, pois, são os planos tantas vezes requentados, em que os EUA e seus aliados regionais, inundam a Síria com terroristas, ao mesmo tempo em que obram para construir um governo-à-espera, constituído de exilados carreiristas e políticos oportunistas. Esses fantoches políticos deveriam ter-se mudado para Damasco, para assumir o governo, no instante em que a população abandonasse a defesa do governo de Assad, apavorada sob a ameaça dos terroristas e dos esquadrões da morte. Mas nada aconteceu conforme o ocidente planejara.

A “mudança de regime” planejada para a Síria foi plano absolutamente insustentável, porque não levou em consideração a legitimidade do governo do presidente Assad; o profissionalismo do exército sírio; a robusta aliança regional entre Síria, Rússia e Irã; e a competência da diplomacia russa, sobretudo no Conselho de Segurança da ONU, onde os russos fizeram gorar, uma a uma, as manobras dos EUA. Além do mais, o eixo dos EUA não levou em consideração a forte oposição da opinião pública ocidental, farta de guerras, e contra as sujas maquinações imperialistas dos EUA no Oriente Médio.

Condenada a esse seu jogo incompetente, Washington vê-se agora às voltas com uma total confusão, cercada de incoerências, das quais não consegue safar-se. Seus mercenários em campo estão sendo derrotados e voltam-se uns contra os outros, em furiosas disputas internas. A Frente Al-Nusra, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante/Síria [orig. Islamic State of Iraq and Shams, ISIS] e o Exército Sírio Livre são hoje maior ameaça uns aos outros, do que ameaçam o Exército Nacional Sírio.

Mas, seja lá o que for que organize ou venha a forjar-se entre esses grupos, todos os seus movimentos e pensamentos são de furiosa rejeição à oposição política inventada no ocidente e apoiada pelo ocidente.

John Kerry
Como já se sabe, a oposição política arquitetada pelo ocidente já se declarou completamente contra qualquer diálogo em Genebra, apesar das insistentes súplicas do secretário de estado dos EUA, John Kerry. Esses peões políticos reagem provavelmente, afinal, e com fúria, ante a percepção de que foram usados de fato, sim, como peões.

As conversações de Genebra que visavam a constituir um novo governo de consenso na Síria, estavam marcadas para junho de 2012, mas, desde então, foram várias vezes adiadas, porque EUA e seus aliados no golpe da “mudança de regime”, Grã-Breanha e França, precisavam de tempo para convencer seus clientes sírios exilados a não participar. E, agora, os EUA precisam de que seus peões participem das conversações – porque Washington já tem de trabalhar com o fato de que foi derrotada no campo militar.

Quando a Rússia jogou uma boia de salvação política aos EUA, mês passado, sob a forma de acordo com a Síria para o desarmamento químico dos sírios, para ajudar Washington a extrair-se do desastroso caminho da guerra, parte do acordo implicava apressar a realização das conversações de Genebra, marcadas para o mês seguinte, na capital da Suíça.

Há apenas um ano, Washington e seus aliados só investiam no golpe da “mudança de regime” na Síria. Para isso, fomentaram uma guerra suja, contratando legiões de grupos terroristas mercenários. Nenhuma diferença fazia que muitos daqueles “contratados” fossem de organização franqueada da Al-Qaeda e estivessem na lista oficial dos EUA de organizações terroristas.

Toda essa agenda militar clandestina resultou em rematado fracasso. O ponto de virada aconteceu há cerca de quatro meses, com a derrota dos grupos mercenários na região de Qusayr. Com a agenda militar clandestina fazendo água, o falso ataque químico encenado em East Ghouta foi a última esperança de Washington para conseguir atacar diretamente a Síria, em guerra aberta, tentando ainda forçar sua obsessiva “mudança de regime”.

Washington e seus aliados, contudo, não previram a oposição firme de suas próprias populações a mais essa ação de aventureirismo militar. O eixo de Washington tampouco avaliou corretamente a resistência internacional a mais esse surto de militarismo. O alerta do presidente russo Vladimir Putin, contra qualquer ataque que os EUA tentassem, ressoou fundo em muita gente comum em todo o mundo, inclusive na opinião pública nos EUA e Europa.

Tendo-se deixado prender nas cordas, Washington recebeu uma ajuda luxuosa, quando o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, conseguiu arrancar de Kerry o acordo das armas químicas sírias, em Genebra, dia 14/9.

Aquele movimento dos russos repôs o processo político no centro do palco.

Esta semana, Lavrov disse que os EUA devem “usar todo o poder que tenham” para levar a oposição síria, com suas múltiplas facções, a fazer bom uso das conversações de Genebra-2.

Sergey Lavrov

O principal obstáculo nessa via política ainda é a incapacidade de nossos parceiros [os EUA] para conseguir que a oposição síria, sobre a qual os EUA sempre velaram, decida ir a Genebra e sentar para negociar com o governo.

Lavrov é um estadista e não usaria linguagem grosseira. Mas a essência do que disse pode ser facilmente traduzida: Washington criou tal monstruosidade na Síria, que agora já não tem poder para controlar seus próprios monstros.

Num mundo que já sabe que o governo dos EUA está quebrado, em total bancarrota financeira, já se vê também, claramente, que os EUA já são também força geopolítica falida. Em bancarrota em casa e pelo mundo, a Síria mostra que Washington é ator geopolítico exaurido.




[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Um alívio? Obama Recua (um pouco)

3/9/2013, [*] Andrew Levine, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu: Artigo que se desatualizou, porque o autor usou, como “gancho”, o que muitos interpretaram como “um recuo” de Obama – quando de fato Obama tentava avançar e arrancar do Congresso uma autorização para guerra total (que por hora não conseguiu, há esperança de que não consiga, mas isso nem interessa, porque Obama fará o que Israel e os banqueiros mandarem, o mais que puder obedecer-lhes, com ou sem autorização de seja lá quem for).

Mesmo assim o artigo nos parece leitura interessante pela quantidade de informação, pela qualidade da argumentação e pelo uso inteligente da linguagem.

“Informação” não é “fato” jornalístico vendido pela imprensa-empresa. Nenhum fato jornalístico nos interessa. Já se conhecem todos os fatos publicáveis sobre o ataque dos EUA à Síria. E os fatos decisivos não são “fatos” jornalísticos e jamais chegarão aos jornais da imprensa-empresa, porque são empresas, muito mais que imprensa.

Por isso, absolutamente não se encontra, nos jornais, nenhuma informação relevante que ajude a entender – “entender” é diferente de tomar conhecimento – o que realmente está em disputa na Síria ou à custa da Síria.

Então, decidimos traduzir e distribuir esse artigo, apesar dos “fatos” ultrapassados.

Guerra civil na Síria (em cores)
Clique na imagem para aumentar
Sobre a proposta do presidente Obama, de intervenção de tipo bater-e-correr na Síria, há, como diria Donald Rumsfeld, “os sabidos já sabidos, as coisas que sabemos. Há os sabidos não sabidos, o que sabemos hoje que não sabemos. E há os não sabidos não sabidos, o que não sabemos que não sabemos”.

Para começar pelos “sabidos já sabidos”, é ou deveria ser claro, de um ponto de vista “pragmático”, que nada poderia ser mais alucinado do que o que Obama tem mente.

Ao argumentar a favor de ‘'ensinar modos'’ a Bashar Al-Assad, Obama chora copiosamente as crianças mortas no subúrbio de Damasco – vítimas supostas do gás venenoso lançado pelo “regime de Assad”. É sabido bem sabido, sem dúvida possível, que intervir lá com bombas e mísseis norte-americanos, na mistura inflamável em que se converteu a Síria, é fórmula garantida para matar mais crianças. Se há criança síria cuja sobrevivência preocupe realmente Obama, melhor faria ele se as mandasse brincar no quarto, enquanto os adultos se matam.

Sabemos, sabido, que o melhor que pode acontecer é que as bombas e mísseis de Obama matem só pouca gente a mais.

Sabemos também, sabido, que muito mais provável é que as bombas e mísseis de Obama forcem a guerra a espalhar-se por toda a região – arrastando Israel e, bem possivelmente, os Estados do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, o que complicará muito mais as relações com o Irã.

A guerra na Síria começou como episódio da Primavera Árabe, que prossegue. Mas, por várias razões, pela resistência do regime de Assad e pela intromissão de Arábia Saudita, Turquia, Kuwait e Qatar, converteu-se em guerra por procuração entre estados árabes sunitas no Golfo Persa e o Irã. Sabemos, bem sabido, que as bombas e mísseis de Obama exacerbarão essa situação já perigosa.

Outro sabido sabido, que não é muito discutido na nossa imprensa-empresa, embora seja absolutamente claro, é que, de um ponto de vista moral, as intenções de Obama não são só obscenas por si mesmas: são obscenas também nos pressupostos.

Como se admitiria que o mais ativo distribuidor de violência – e terror – do planeta, se autoapresente como defensor da moralidade pública mundial? É hipocrisia além da humanamente suportável.

À vista desses sabidos sabidos – dos quais Obama sabe, como todos sabemos – por que, mesmo assim, Obama ameaça a Síria?

Martin Dempsey
É pergunta cercada do mais denso mistério, sobretudo se se sabe que os militares norte-americanos claramente prefeririam nada ter a ver com isso. O general Martin Dempsey, Comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, já falou, e serviu-se dos argumentos mais claros e mais eloquentes que se poderiam desejar.

Obama também disse quase a mesma coisa – e repete, repete, repete, e continua a repetir mesmo agora, quando já ameaça “chocar e apavorar” o regime sírio até obrigá-lo a obedecer a lei internacional que regula o uso de armas químicas.

Ter-se-ia Obama convertido repentinamente aos neoconservadores? Pouco provável, sobretudo hoje, quando até neoconservadores começam a pensar duas vezes, por causa de eleições livres, justas e muito competitivas que terão de enfrentar.

Era mudança que sempre aparecia no topo da lista do que diziam que queriam, enquanto os EUA destruíam o Oriente Médio. Mas agora estão percebendo que, nos países cujos governos tanto queriam derrubar, os resultados não são muito satisfatórios; e não dão sinais de mudança para melhor, tão cedo. As ilusões que o Partido da Guerra divulgou e promoveu em 2002 e 2003 já não se sustentam em pé, dez anos depois.

Terá acontecido de intervencionistas humanitárias nefandas como Susan Rice e Samantha Powers terem posto sob coleira o laureado Prêmio Nobel da Paz? É possível. Talvez Obama não se tenha convertido ao neoconservadorismo, só à sua variante liberal. Mas Obama é líder fraco e indeciso, que não se exporia ao risco de ofender mentes mais brilhantes que as que ainda comandam o complexo militar/segurança nacional que governa o Estado nos EUA. E não o faria por razões tão frouxas como as que aquelas intervencionistas humanitárias obscenas têm apresentado.

Samantha Powers (E), Susan Rice (C) e Barack Obama (E)
Talvez Obama tenha, repentinamente, redescoberto a lei internacional. Assim se explicaria a insistência em fazer valer a proibição de armas químicas. Mas essa é a pior explicação dentre todas – não só porque Obama não faz outra coisa além de violar o espírito e a letra da lei internacional, mas, também, porque as ações militares que Obama quer autorizar sem mandado do Conselho de Segurança da ONU são, também, absolutamente ilegais.

Ou talvez, por inverossímil que pareça, é o contrário, e Obama virou realista; talvez o preocupe o fato de que o governo sírio vai-se saindo bem demais na sua guerra, e Obama queira devolver a vantagem, alistando suas tropas do outro lado.

Pouco provável. À parte a falência moral de uma política que vise a manter a matança, é sabido bem sabido que a guerra na Síria já é guerra difícil de conter. A guerra no Líbano começou em 1975 e prosseguiu, com níveis variados de intensidade – e sem interferência externa – por quase 15 anos. O Líbano foi devastado, mas quase nem se viram danos além das fronteiras libanesas. Nenhum observador bem informado supõe que possa acontecer coisa semelhante no caso da Síria.

Resta uma última explicação: que Obama tenha chegado à conclusão de que nada é mais importante que manter a “credibilidade”. É raciocínio frequente também entre gângsteres, e eufemismo para o que fazem.

Se um presidente (ou um capo mafioso) é desafiado, os desafiantes tem de “levar uma lição” – e não importam as consequências. É tema familiar também na política exterior dos EUA. Explica o prolongamento dos assassinatos e massacres no Vietnã por mais quatro ou cinco, mesmo depois de já estar absolutamente claro também para as elites políticas nos EUA que não conseguiriam “vencer” aquela guerra.

Por ironia, John Kerry entendia perfeitamente esse ponto – como todos entendiam – quando, na melhor hora de sua vida, fez-se uma das vozes da nação americana, no evento “Winter Soldier Investigations” [1] de 1971, e perguntou quantos mais teriam ainda de morrer em nome do que, na essência, era uma mentira. Hoje, o secretário de Estado Kerry é o mais empenhado porta-voz do governo dos EUA, para fazer exatamente o mesmo tipo de coisa contra a qual soube levantar-se naquele 1971. Vídeo a seguir:


Mas, então, o que teria levado Obama a recuar – pelo menos o tanto que recuou até agora? Por hora, só podemos especular. Com o tempo, surgirão memórias escritas, e talvez venhamos a saber. Até lá, só se pode especular sobre não-sabidos sabidos e divagar sobre quais não sabidos não sabidos haverá por aí.

Mas há algumas coisas que se pode dizer, mesmo já, com considerável certeza.

O que Obama planejava fazer era flagrante, absoluta violação da lei internacional – porque não há aprovação do Conselho de Segurança e, graças à Rússia e talvez a China, não há chance de que venha a haver. A única outra justificativa legal para iniciar guerra contra nação soberana é a autodefesa, e só se entende que a lei se aplique em caso de ameaça de ataque iminente.

Mas ninguém ainda disse que a Síria prepara-se para atacar os EUA com armas químicas ou outras quaisquer.

Quando, durante o esquartejamento da ex-Iugoslávia, o governo Clinton entendeu que seria oportuno bombardear populações sérvias no Kosovo e em outros locais, inclusive em Belgrado – ostensivamente por razões “humanitárias”, mas, de fato, para mostrar aos europeus, principalmente aos alemães, quem era o chefão – os russos também impediram que o Conselho de Segurança aprovasse o ataque.

Clinton então buscou a legitimação pela OTAN, onde os EUA mandam e desmandam. Mas até Clinton insistiu que esse movimento espantoso não deveria ser definido como “um precedente”. [2]

A equipe campeã dos especialistas em lei do Professor Obama, de Direito Constitucional, que deu tratos à bola para encontrar justificação legal para atacar a Síria com bombas e mísseis, parece ter esquecido essa parte do, pode-se dizer, precedente Kosovo. Também nisso, como em outros aspectos, o governo Obama é pior, até, que o de Bill Clinton. Vídeo a seguir:


A preocupação, nos dias de Clinton, era que o bombardeio de Kosovo, se viesse a constituir precedente legal, poria em risco o conceito de soberania nacional; e desfaria acordos construídos e vigentes na Europa desde a Paz de Westphalia em 1648, e que haviam sido subsequentemente adotados, desde então, em todo em todo o planeta – até por países colhidos no auge das lutas anticoloniais e de libertação nacional.

As fronteiras de muitos daqueles países, especialmente na África e no Oriente Médio eram decisões coloniais arbitrárias. A Síria agora, além de Iraque e muitos outros estados na região, ainda enfrentam as infortunadas consequências do sistema de estado que as potências coloniais impuseram. Mas ATÉ CLINTON ainda entendia que, em quase todos os casos, o melhor é não brincar com isso; porque os perigos que se criam ultrapassam sempre qualquer vantagem possível.

Não há dúvidas de que Obama sabe bem disso e é capaz de avaliar a importância do tema e dos feitos. Mas, em sua mentalidade de gângster, a “credibilidade” é mais importante que tudo; e para justificar o que quer fazer porque-sim, está disposto a ir a qualquer extremo.

Ainda assim, o precedente Kosovo pouco significa porque, hoje, nem a OTAN está interessada em apoiar o gesto de lançar um fósforo aceso na mistura altamente combustível. No máximo, talvez a França deixe-se arrastar, mas, se se considera a opinião pública francesa, é cada dia mais improvável.

Só resta, portanto, um princípio recentemente “descoberto” (inventado) – a responsabilidade (e o direito) de proteger (R2P) – ideal admirável, mas política muito perigosa, se adotada por império em declínio, que age sem ter conseguido, sequer, algum arremedo de legitimidade internacional.

Talvez Obama tenha outras ideias, lá com seus botões, sobre converter-se em completo, perfeito, indesculpável fora-da-lei, e sobre pôr abaixo o próprio cerne da ordem internacional.

Ou talvez tenha outras ideias sobre violar tão descaradamente a Constituição dos EUA, usando força militar não apenas sem declaração de guerra, mas também sem qualquer tipo de autorização do Congresso [vide epígrafe].

De fato, desde o governo Nixon, se não antes, o Executivo trabalha para usurpar a autoridade que a Constituição só dá ao Legislativo nos EUA, para decidir sobre guerra e paz.

Uma eventual possível derrota de Obama no Congresso, [antes da semana passada, e antes que os lobbies árabe e sionista e dos grandes bancos tivessem podido operar dentro do Congresso] teria atrapalhado o teatro encenado em torno do 50º aniversário da Marcha para Washington, que Obama comemorou (ao lado de dois outros presidentes Democratas), com discurso que fez, falando do mesmo ponto, em frente ao Lincoln Memorial, onde King fez seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”. Vídeo a seguir (em inglês):


Alguém como King, que teve espinha dorsal para atacar Johnson, na questão do Vietnã, exatamente quando Johnson dava aos pobres e aos negros mais benefícios do que qualquer outro presidente dos EUA em toda a história, ficaria horrorizado com a indefensável, vergonhosa, escandalosa belicosidade de Obama.

Em certo sentido, Obama – que fez menos que nada pelos negros e pobres (além de “ter chegado lá”) – teria gostado de ver a indignação adversária no rosto de King. Nem Obama conseguiria inventar uma guerra sem qualquer sentido, se algo nele ainda se sentisse aliado de Martin Luther King.

Talvez Obama não queira cancelar o único traço de suas políticas externa e militar que ainda é, apesar de tudo, visto como melhor que as políticas de Bush.

Diferente do antecessor, Obama sempre se esforçou para agir multilateralmente – ao ponto de, como na Líbia, unir-se e decisivamente, mas “liderando pela retaguarda”, às depredações iniciadas por aliados chaves. Agora, quando os britânicos pularam fora da canoa, até a falsidade do multilateralismo evaporou-se. Isso, sim, deve ter levado Obama a concentrar-se ainda mais, lá com seus botões.

É possível também que Obama e seus conselheiros tenham começado a achar que alistar-se ao lado dos próprios terroristas islamistas que eles mesmos combatem por todo o mundo não seria movimento inteligente.

Não importa. Nada que os botões de Obama lhe sugiram bastou para a decisão de atacar, até – precisamente, o último minuto (na 6ª-feira à noite, 30/8, conforme os noticiários), quando Obama recuou. O que mudou naquele instante?

***

Aqui é necessário entrar ainda mais na especulação, mas é justo sugerir que três considerações, pelo menos em parte, pesaram na reflexão de Obama.

Primeiro, dúvidas sobre a qualidade da inteligência na qual os EUA estão confiando tanto podem afinal ter penetrado a bolha dentro da qual se movimenta o Líder do Mundo Livre.

GW Bush (E) e Dick Cheney (D)
Afinal de contas, verdade seja dita: há dez anos, quando Bush e Cheney preparavam-se para lançar a guerra deles contra o Iraque, todo mundo dizia que as provas disponíveis eram “uma enterrada”. [3] Hoje, não.  

Há alguns indícios que apontam para o governo sírio. Mas há também outra consideração circunstancial, mas que aponta na direção dos “rebeldes”: o governo Assad teria tudo a perder se usasse gás venenoso; e os rebeldes teriam tudo a ganhar se conseguissem convencer o mundo (ou, pelo menos, o governo Obama) de que Assad usara as tais armas.

Além do mais, já há fortes evidências de ataques com armas químicas feitos por forças do lado “rebelde”. E há quem diga também que, se os ataques vieram do lado do governo Assad, vieram de maus elementos ativos dentro do governo, contra Assad.

Se se pode dar crédito ao que a imprensa-empresa publica, muitos “sinais” de inteligência, nesse caso, partiram de Israel e Turquia – países que têm suas próprias agendas, como Obama e seus conselheiros compreendem muito bem, é claro.

Por tudo isso, é possível que Obama tenha recuado, porque não quis correr o risco de descobrir-se na posição em que George Bush descobriu-se, depois que a fraude das armas de destruição em massa explodiu-lhe na cara.

É verdade, e talvez seja relevante, que Bush e Cheney providenciaram para que a CIA preparasse as coisas de modo a que os dois provassem o que queriam provar. Obama não fez nem isso! O que não significa que não esteja sendo manipulado – se não por Israel ou Turquia, então por elementos bandidos ativos dentro de seu próprio establishment nacional-militar-de-segurança & grandes bancos. [4]

Condoleezza Rice
Há outra diferença entre a fábula das armas de destruição em massa de Bush, só raramente mencionada, mas que, nem por isso, deve permanecer esquecida; e não ajuda Obama. O governo Bush forjou informações de segurança para justificar que haveria ameaça grave aos EUA e seus aliados; uma ameaça que poderia surgir de repente aos olhos do mundo, nas palavras de Condoleezza Rice, como uma nuvem em forma de cogumelo.

Os esforços de Obama para usar o mesmo raciocínio – por exemplo, na entrevista que deu à rede PBS, dia 28/8 – são tão ridículos, que é difícil crer que um homem inteligente como Obama, tenha realmente pronunciado aquelas palavras.

Fato é que Obama não tem imaginação suficiente para inventar uma fábula na qual alguém consiga ver alguma ameaça aos EUA, a partir de armas químicas usadas na Síria; nem Obama, nem ninguém. Daí que tantos tenham concluído que o que Obama e os que colaboram com ele dizem nada tem a ver com perigos iminentes que ameacem os EUA ou seus interesses. E por isso, afinal, tantos já concluíram que se trate de “dar uma lição” ao governo sírio.

Um segundo fato que pode ter pesado para o recuo de Obama foi o resultado da votação no Parlamento britânico, que tirou a Grã-Bretanha dos planos de guerra de Obama. E não foi golpe contra, apenas, o seu “multilateralismo”: foi golpe também contra o “relacionamento especial” que se tornou tão crucialmente importante para os planos imperiais dos EUA depois do Vietnã.

Poderia o Parlamento Britânico ter lançado sua própria Declaração de Independência, ao decidir não ir junto? Talvez Obama tenha medo de descobrir.

Finalmente, alguma influência pode ter tido, também, o fato de que a mais augusta catedral de estudos muçulmanos sunitas avançados de todo o planeta, a mesquita Al-Azhar no Cairo, a mais alta autoridade do Islã sunita, TAMBÉM condenou categoricamente os planos de Obama para atacar a Síria. [5]

Mesquita de Al-Azhar, Cairo-Egito
A condenação não caiu bem, para alguém que parece tanto esperar das animosidades entre sunitas e xiitas, para obter ainda algum apoio, qualquer, apoio, pelo menos dos muçulmanos religiosos sunitas – para somar-se, é claro, ao apoio que já recebe do governo sunita da Arábia Saudita e de outros ditadores anti-Irã na Península Arábica e da (só oficialmente) secular Turquia.

Embora pouca preocupação lhe causasse a oposição católica, Stálin ganhou fama por descartar declaradamente a importância da Igreja, ao perguntar, desdenhosamente, quantos esquadrões o Papa comandava. Depois da condenação que receberam de Al-Azhar, Obama e seus conselheiros bem podem ter começado a preocupar-se: a opinião dos clérigos muçulmanos pode vir a comprovar-se muito mais importante e decisiva que a de Stálin.

***

O Congresso dos EUA só volta das férias de verão na segunda semana de setembro. Assim, a menos que Obama mude de opinião sobre esperar pela aprovação do Congresso, o mundo terá alívio de uma semana e meia [aconteceu, só em parte: Obama encaminhou proposta de autorização para guerra total, à Comissão de Relações Exteriores do Senado; recebeu, como resposta, uma contraproposta, para autorização “limitada”; essa contraproposta é que será votada dia 9/9 próximo [6]].

Talvez Obama mude de ideia. Na opinião do próprio Obama, segundo relato de gente que fala com ele, Obama tem autoridade para fazer o que lhe dê na telha; não está pedindo nada; está só “consultando” o Congresso. O que o Congresso diga ou deixe de dizer não teria qualquer importância perante a lei.

Câmara dos Deputados dos EUA
Desnecessário dizer: Obama erra. Erra o suficiente para que se desconfie do que teria aprendido em Harvard e ensinou em Chicago. Mas tem razão ao preocupar-se com a derrota política, uma vez que, pior, nisso, até que David Cameron, Obama ignora o que pensem ou decidam os representantes (eleitos) do povo.

A sabedoria convencional, no pé em que está hoje, acha que o presidente conseguirá. Mas isso a sabedoria convencional achava também na Grã-Bretanha.

Já há notícias de que o governo Obama jogará a carta “Israel” para puxar votos para o seu lado. Faz sentido: no Congresso dos EUA, os desejos de Israel atropelam tudo. Mas talvez, dessa vez, não atropelem.

Dessa vez, a opinião da elite israelense também está dividida. Automaticamente, a opinião pró-Israel nos EUA também está dividida. Depois de muito hesitar, o governo Netanyahu afinal decidiu que quer que os EUA intervenham como aliados dos ‘'rebeldes". Mas, do ponto de vista de Israel, não está ainda claro se uma vitória dos ‘'rebeldes'’ ou, mesmo, uma guerra prolongada, mais ajudam, ou mais atrapalham.

Os “rebeldes”, afinal, englobam elementos islamistas que nunca deram sinal de interesse em entender-se com Israel e nunca houve acordo sobre o que Israel algum dia teria feito a favor deles; e o governo Assad, esse sim, muito ajudou Israel, mantendo a paz na fronteira norte – até no Golan ocupado.

Claro que a principal preocupação de Israel nos últimos tempos, depois do Irã, é o Hezbollah – em boa parte porque Israel vê o Hezbollah como principal aliado do Irã na vizinhança, mas também porque o Hezbollah já várias vezes combateu Israel de igual para igual, não poucas vezes, inclusive, com impressionante sucesso, no passado recente. A intervenção norte-americana pode enfraquecer o Hezbollah; ou é o que Netanyahu espera. Por outro lado, pode fortalecer muito a imagem e o apelo popular do Hezbollah. Rapidamente, isso pode vir a ser um pesadelo para o estado israelense.

A carta “Israel” é fria. E rapidamente será exposta como tal. Outras frias surgirão. Mas não importa o que Obama e seus puxa-sacos inventem, o mais provável é que os esforços para um assalto à Síria encontrem enorme resistência e podem bem fracassar. A razão disso já começa a aparecer, e a ironia é impressionante.

Obama pode afinal estar às vésperas do obter o que mais procura desde que chegou à Casa Branca: um consenso “bipartidário”. Mas não será o consenso que esperava: será consenso contra ele.

Não há qualquer dúvida de que, se Mitt Romney tivesse sido eleito, os Democratas se levantariam na oposição, se Romney se atrevesse a propor qualquer coisa semelhante ao que Obama está propondo hoje.

Mas o mal (supostamente) menor venceu as eleições, e a vasta maioria dos Democratas continuaram obamistas. Vários deles o seguirão como lêmures. Mesmo assim, ainda há uns poucos deputados progressistas nas fileiras Democráticas, e alguns poucos centristas que podem ser seduzidos a ouvir seus eleitores, mais que o chefão. Pode-se assim esperar que pelo menos alguns Democratas “liberais” verão o caminho para separar-se do rebanho.

John McCain (E) e Lindsay Graham (D)
Por décadas, os Republicanos foram o cerne do Partido da Guerra dos EUA. Para tristeza de muitos líderes democratas, são eles, não Hillary Clinton, que são considerados fortes na “defesa”. Mas nesse caso, é provável que haja mais “pombas” entre os Republicanos, que entre os Democratas.

Alguns daqueles Republicanos – John McCain e Lindsey Graham são lamentáveis exemplos – já disseram, bem razoavelmente, que a tal de intervenção “cirúrgica” que Obama e Kerry estão propondo não faz sentido algum; que ou os EUA atacam e intervêm com decisão, ou não atacam. Como inabaláveis amantes das guerras, preferem que a ação militar dos EUA seja mais decisiva. Mas não farão concessões: votarão contra medidas parciais que não ajudam a promover nenhum interesse imperial consistente.

Rand Paul
Há também os Republicanos, como Rand Paul, que sempre se opõem a envolvimentos imperialistas, embora não por motivos anti-imperialistas. Para esses, onde há império, há governo “grande”, e isso atrapalha o livre mercado e a propriedade privada exclusiva da vida econômica, que muito pregam. Com certeza votarão contra a proposta de Obama para a Síria.

E, por fim, há os Republicanos portadores de necessidades especiais no campo moral (moral zero) e intelectual (idem), os do Tea Party e seus companheiros de jornada política, que odeiam Obama, embora por todas as razões erradas, e cujo ódio não conhece limite. Votarão contra o pedido de autorização de Obama para atacar a Síria pela exclusiva razão de que quem pede é Obama.

Sim, sim, semana que vem tudo poderá acontecer. Mas já é sabido bem sabido que Obama, até aqui, tirou nota zero na prova de ‘'lobbear'’ o Congresso. Assim sendo, há motivo para cauteloso otimismo nesse caso de só-deus-sabe-o-que-acontecerá. (...)

Cameron perdeu. Obama pode perder. Cameron cedeu. E vai que Obama cede?

Por tudo isso, agora é hora de os norte-americanos pressionarmos o Congresso. Não só o punhado de Democratas que são suscetíveis a argumento racional, mas também as hordas de Republicanos aos quais não chega nenhum argumento racional. (...)

É possível que já nada detenha Obama, mas a tentativa de conter Obama já será um passo na direção de restaurar a ordem mundial e a lei civilizada. No mundo de hoje, esse objetivo, eminentemente conservador, talvez tenha de ser um muito genuíno objetivo progressista básico: derrotar princípios de gangsterismo e impor, pelo menos, os princípios da Carta das Nações Unidas.
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ANDREW LEVINE é um Senior Scholar do Institute for Policy Studies e, mais recentemente, autor dos livros THE AMERICAN IDEOLOGY (Ed. Routledge) e POLITICAL KEY WORDS (Ed. Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor (filosofia) da University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) da University of Maryland, College Park. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).
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Notas dos tradutores

[1]Winter Soldier Investigation foi um evento patrocinado pela organização “Veteranos do Vietnã Contra a Guerra” [orig. Vietnam Veterans Against the War (VVAW)], realizado em três dias, de 31/1/1971 a 2/2/1971, em Detroit, Michigan, para expor à opinião pública dos EUA os crimes e atrocidades que as Forças Armadas dos EUA e aliados haviam cometido no Vietnã. Durante os três dias, 109 veteranos [entre os quais Kerry, atual secretário de Obama, como se lê acima] e 16 civis – soldados da reserva de todas as armas, empresários, pessoal médico e professores apresentaram testemunhos dos crimes que cometeram ou que viram ser cometidos nos anos 1963-1970. O evento não teve cobertura da empresa-imprensa (só foi transmitido pela Pacifica Radio, de Detroit), mas muitos jornalistas filmaram os depoimentos, imagens reunidas no documentário Winter Soldier, lançado em 1972.

[2] Aí está conhecimento que nós agora temos, e que Demétrio Magnoli, em sua infinita arrogância de ‘'eu-sei-tudo'’ uspeano, ainda não tem. Dia desses, ‘'comentando'’ (só rindo) os eventos na Síria, Magnoli declarou, como se fosse o rei da ONU e da OTAN, que “os EUA atacarão com autorização da OTAN, porque não obterão autorização da ONU”. Se soubesse que NEM CLINTON (amigão do ex-FHC, atual NADA e patrão do Magnoli) não achou que “autorização da OTAN” fosse coisa recomendável... Magnoli ter-se-ia poupado de enunciar (mais) uma besteira.

[3] Orig. slam dunk; é expressão usada no basquetebol para o que se considera “bela jogada”, “jogada perfeitamente executada”, “os pontos e a glória” (e tem também uma acepção pornográfica, para “coito anal”). Em 2002, o então diretor geral da CIA George Tenets repetiu várias vezes que as provas da inteligência sobre as armas de destruição em massa seriam “uma enterrada”, significando que seriam perfeitas, definitivas, certeiras. Mas, em 2013, muitos agentes da inteligência dos EUA têm dito exatamente o contrário: que as provas, no caso da Síria, “não são uma enterrada”.

[4] Ver, sobre isso, 5/9/2013, redecastorphoto, Ellen Brown em: O nome do jogo da guerra norte-americana: Um mundo mais seguro para os banqueiros,  Counterpunch, traduzido.

[5] Azhar disse que esse ataque é uma agressão e uma ameaça a toda a nação árabe e islâmica e desafio à comunidade internacional, que porá em risco a paz e a segurança internacionais” (Mais em 1/9/2013, Egypt Independent)

[6] A proposta que começará a ser votada dia 9/9 pode ser lida, traduzida, na redecastorphoto.