Mostrando postagens com marcador DEA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DEA. Mostrar todas as postagens

sábado, 15 de outubro de 2011

Cresce a suspeita de que o “complô iraniano” é armação


Gareth Porter

14/10/2011, Gareth Porter, Asia Times Online
(com comentários atualizados de EmptyWheel)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


WASHINGTON. Embora o governo de Barack Obama insista em apresentar o governo do Irã como “responsável” pelo suposto complô para assassinar o embaixador saudita em Washington, a queixa legal formal [1] relativa ao caso só sugere, e fortemente, que toda a operação pode ter sido armada pelo Federal Bureau of Investigation (FBI). 

O relato do FBI [oficialmente uma “Sealed amended criminal complaint” [2], apresentada por Robert Woloszyn, Agente Especial do FBI, que depõe sob juramento ante o juiz Michael H, Dolinger, juiz do Distrito Sul de New York, dia 11/10/2011], implica Mansour Arabsiar, iraniano-norte-americano e seu primo, Ali Gholam Shakuri, oficial da Força Qods do Irã, num plano para assassinar o embaixador da Arábia Saudita nos EUA Adel al-Jubeir; o agente especial do FBI não nega que a ideia “foi fortemente trabalhada, sob direção do FBI, por um agente da DEA [Agency of Drug Enforcement, a agência nacional americana para controle de narcóticos] infiltrado num cartel mexicano de drogas”. 

Dia 24 de maio, quando Arabsiar encontrou-se pela primeira vez com o informante da DEA, que ele supunha que fosse membro de um cartel mexicano de drogas, não há sinal de que se tratasse de contratar um esquadrão da morte para assassinar o embaixador. Tudo sugere que seu único objetivo fosse iniciar um contato para vender enorme quantidade de ópio do Afeganistão. 

No relato do FBI, o mais parecido com prova de que Arabsiar estivesse buscando ajuda para assassinar o embaixador saudita é uma fala, atribuída ao informante da DEA, segundo o qual Arabsiar teria dito que estava “interessado, entre outras coisas, em atacar uma embaixada da Arábia Saudita”. 

Entre as “outras coisas”, quase com certeza, estava um negócio de venda da heroína que seria controlada por oficiais do Corpo de Guardas Revolucionários da Revolução Islâmica [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)]. Três repórteres da rede Bloomberg, citando “um oficial da DEA”, escreveram que Arabsiar teria dito ao informante da DEA que representaria iranianos “que controlam o contrabando de drogas e podem fornecer toneladas de ópio”. 

O ópio que sai do Afeganistão passa pelo Irã. Por isso, as autoridades policiais iranianas são responsáveis por 85% de todo o ópio apreendido no mundo, segundo a Agência de Notícias Fars, do Irã. Nessas circunstâncias, não é inverossímil que haja pessoal da segurança iraniana, inclusive oficiais da Força Qods, em condições de vender ópio a traficantes do Oriente Médio, da Europa e do Novo México. 

Já se sabe que os cartéis mexicanos já têm contato com traficantes do Oriente Médio e, em vários casos, já têm pessoal posicionado em vários locais do Oriente Médio, para coordenar a produção e a venda de heroína, segundo relatório distribuído em janeiro pela rede Border Beat, agência de notícias online organizada pelos estudantes de jornalismo da Universidade do Arizona. 

Mas, no relato do FBI sobre os contatos entre Arabsiar e o informante da DEA não se lê qualquer referência a discussão sobre drogas. 

A queixa-crime trata de um número não especificado de encontros entre Arabsiar e o informante da DEA, no final de junho e nas duas primeiras semanas de julho. 

O que foi discutido nesses encontros é, esse sim, o grande mistério de todo o caso. Sobre tudo isso, a única versão que se conhece é o relato de um informante da DEA, ao FBI, que o agente especial do FBI apresentou em depoimento ao juiz, na queixa-crime.

Pelo relato do FBI, o informante (citado na queixa-crime como “CS-1”) diz que “ao longo de vários encontros, Arabsiar explicou ao CS-1 que seus companheiros no Irã haviam discutido várias missões violentas das quais CS-1 e os criminosos [que Arabsiar supunha que fossem] seus companheiros seriam encarregados de realizar.” 

O relato do FBI diz que a missão discutida seria o assassinato do embaixador. Mas não há qualquer registro de proposta, ou de assentimento, que possa ser atribuída a Arabsiar. No documento, lê-se que “Antes do encontro do dia 14 de julho, o CS-1 relatou que ele e Arabsiar discutiram a possibilidade de ataques contra vários tipos de outros alvos”.

Esses alvos são “dentre outros, instalações de governos estrangeiros associados à Arábia Saudita e a outro país, dentro e fora dos EUA” – sem qualquer referência ao embaixador saudita. 

A linguagem e a ausência de qualquer declaração atribuída a Arabsiar indicam que o iraniano-norte-americano nada disse sobre assassinar o embaixador saudita, exceto em respostas a sugestões feitas pelo informante, que já estava trabalhando como agente da DEA, infiltrado no cartel mexicano. 

O FBI reconhece, em nota de rodapé, que o informante da DEA já havia sido acusado de crime relacionado ao tráfico de drogas em outro estado dos EUA e passara, depois disso, a colaborar em investigações da DEA – infiltrado naquele cartel mexicano – em troca do perdão para os crimes que fora acusado [3]. O FBI nada diz, um silêncio eloqüente, sobre se essa conversa teria sido gravada, ou não. 

Ex-funcionário do FBI, que conhece bem os procedimentos do Bureau nesses casos e que falou ao Inter Press Service (IPS) sob condições de anonimato, disse que o FBI, normalmente, em reuniões associadas à possibilidade de ataque terrorista, sempre grava todas as conversas. 

A ausência de qualquer transcrição de gravações em todas essas reuniões sugere que a verdade não é a que está sendo contada pelo governo Obama e pelo FBI. 

A queixa-crime declara, explicitamente, que todas as conversas, nas reuniões dos dias 14 e 17 de julho foram gravadas, por ordem do FBI. Mas se se leem as transcrições dessas gravações (as que estão reproduzidas na queixa-crime1), o que se vê é o informante da DEA tentando induzir Arabsiar a dizer que concordava com o plano para assassinar o embaixador saudita. 

O informante da DEA diz que precisaria de “pelo menos quatro homens” e “mandaria o um vírgula cinco [milhão de dólares], pela Arábia Saudita”. Diz: “vá em frente e comece a trabalhar sobre a Arábia Saudita, pegue toda a informação de que precisamos.” 

A certa altura, o informante da DEA diz: “Você só quer o... o principal sujeito”. Ao final da reunião, o informante da DEA repete: “Vamos começar pelo sujeito principal.” 

A evidência de que não haja nenhuma frase de Arabsiar em que ele concorde com assassinar o embaixador, nem, muito menos, que a proposta de assassinato tenha partido dele, sugere que ou Arabsiar não concordou com o assassinato ou que falavam, de fato, não de assassinato, mas de outro assunto, que poderia ser a transação do ópio, com o cartel. 

As frases gravadas ditas por Arabsiar, em conversa por telefone dia 2 de setembro, sobre o cartel “ter o número do cofre” e “depois que você abre a porta, está feito”, podem bem referir-se a um negócio de drogas que estivesse sendo discutido, por mais que o relato do FBI insista que as frases referir-se-iam ao assassinato e a “outros projetos” com o grupo iraniano. 

Na reunião do dia 17 de julho, o informante da DEA apresentou um plano para explodir um restaurante e matar o embaixador, com outras 100-150 possíveis vítimas (o relato do FBI sugere que nem todas essas mortes abalariam Arabsiar). 

Em visita ao Irã em agosto, Arabsiar fez duas transferências de dinheiro, num total de 100 mil dólares, para uma conta bancária em New York. Tudo sugere que ainda supusesse que negociasse com o cartel. 

O Washington Post noticiou na 5ª-feira, que Arabsiar disse a um amigo iraniano-norte-americano de Corpus Christie, Texas, que “vou fazer um bom dinheiro”. 

Também há provas circunstanciais de que Arabsiar pode até ter sido envolvido na “armação”, para incriminar seu primo Gholam Shakuri, no “complô terrorista” [4]. 

Arabsiar encontrou o primo Shakuri no final de setembro e disse a ele que o cartel estava querendo que ele, Arabsiar, fosse pessoalmente ao México, para garantir o pagamento. É conversa que pode não passar de ideia do FBI para envolver Shakuri e seus associados em Teerã, e demonstrar que estariam envolvidos no assassinato. 

Consta do relato do FBI que Shakuri disse a Arabsiar que ficaria responsável por si próprio, se fosse ao México. Mesmo assim, Arabsiar viajou ao México como que indiferente ao fato de que estaria negociando, sozinho, com um dos cartéis mais violentos do México. 

Depois de preso, dia 20 de setembro, Arabsiar abriu mão do direito de ser assistido por um advogado e fez confissão completa. Alguns dias depois, telefonou ao primo Shakur, telefonema que foi gravado “por ordem dos agentes da DEA”, segundo o relato do FBI.



Notas dos tradutores

[1] Esse documento pode ser lido na íntegra. [em inglês].

[2] Sobre esse documento, lê-se hoje em “Furos no ‘complô’ iraniano” (em : “Primeiro (e foi o que me chamou a atenção no primeiro momento, e levou-me a examinar todo o processo), essa é uma queixa emendada. Significa que houve outra queixa anterior. Mas a queixa anterior não está no processo. Não só não está no processo, como o processo começa com a prisão, dia 29/9 (veja que o processo anota duas datas de prisão: no dia 29/9 e no dia 11/10), mas a numeração das páginas começa com a queixa emendada. A queixa inicial teria de estar incorporada na numeração das páginas, e a queixa emendada deveria estar na página 8, ou 9, ou outra. Nunca houve queixa emendada na página 1 de qualquer processo. Há duas explicações possíveis. Primeiro, houve outra queixa anterior – por exemplo, com acusações por envolvimento no tráfico de drogas. Ou, então, Arbabsiar foi acusado de várias crimes quando foi preso dia 29/9, mas depois de 12 dias de prisão, pode ter resolvido cooperar; e então foi acusado de outro crime e a nova queixa crime incorporava acusações contra Ali Gholam Shakuri, baseada exclusivamente no que Arbabsiar disse e em conversar codificadas entre Arbabsiar e o primo, que aconteceram depois de Arbabsiar já estar preso” (tenente-coronel da reserva Anthony Shaffer).

[3] Nota de rodapé: “CS-1 é fonte confidencial paga. Antes, CS-1 foi acusado em crime de comércio de narcóticos por um estado dos EUA. As acusações foram retiradas, em troca da cooperação de CS-1. CS-1 já cooperou com informação confiável e comprovada por vias independentes, que levou a várias apreensões de drogas contrabandeadas. CS-1 tem sido pago pela DEA, em troca do trabalho que faz”.

[4] Sobre o envolvimento do primo Shakuri, lê-se hoje numa atualização, em Empty Wheel: “Quando estava respondendo a EH, dei-me conta de algo. Como eu disse a ele, a explicação menos ruim para haver duas queixas (mas só uma aparece no processo) é que a queixa inicial incluísse só as acusações de terrorismo, uso de arma de destruição em massa, e só contra Arbabsiar. De repente, dei-me conta de um detalhe. Três, das quatro acusações são acusações de conspiração. E não é possível acusar só uma pessoa por crime de conspiração. A queixa pode ter sido emendada, ou exclusivamente ou também, para meter o primo iraniano, na mesma ‘conspiração’”.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Pepe Escobar: “O complô ‘Velozes e Furiosos’ para ocupar o Irã” (versão estendida)

Pepe Escobar


13/10/2011, Pepe Escobar, ATol, versão estendida [1]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Aquela Meca da contrarrevolução e do ódio à Primavera Árabe – também conhecida como Casa de Saud – mal pôde acreditar na própria sorte. É Natal em outubro – agora que o governo dos EUA entregou-lhe o presente perfeito: na fala excitada do Procurador Geral dos EUA, “Um complô mortal dirigido por facções do governo iraniano para assassinar um embaixador estrangeiro em solo dos EUA, com bombas” [2].

O príncipe saudita Turki al-Faisal, ex-embaixador em Washington, ex-chefe do serviço secreto saudita, ex-amigão de Osama bin Laden, não perdeu tempo e já disse, em conferência de imprensa em Londres, que “o peso das provas, nesse caso, é imenso e mostram claramente a responsabilidade de funcionários iranianos. É inaceitável. Alguém no Irã terá de pagar o preço”  [3].

Quer dizer, o “Irã” – o país inteiro – já foi mandado para a guilhotina pelo eixo Washington/Riad, embora, para engolir a notícia, do tipo “rabo abana o cachorro”, de uma “Operação Coalizão Vermelha” (não, vocês não podem imaginar!) seja necessária a suspensão completa da sanidade e do senso racional normal. 

A Operação Coalizão Vermelha está centrada num Mansour Arabsiar, 56 anos, vendedor de carros em Corpus Christi, Texas, portador de passaportes iraniano e norte-americano, e num co-conspirador, Gholam Shakuri, dito membro da força Qods do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps, IRGC]. 

O diretor do FBI [United States Federal Bureau of Investigation], Robert Mueller, repetiu que o dito complô teria sido concebido por iranianos; em suas palavras: “parece script de Hollywood” [4]. Pois até essa propaganda de “Velozes e Furiosos” teria ido parar na lata do lixo, em qualquer conferência de imprensa que se desse ao respeito, até em Hollywood.

Mais rápido, muchachos. Matem, matem!

O governo dos EUA espera que um mundo crédulo acredite que um vendedor falido de carros no Texas seria selecionado, pelo competente braço da inteligência iraniana, que estaria à procura de alguém com cara de gangster de cartel mexicano de drogas, e lhe atribuiria a tarefa de, por US$1,5 milhão, matar o embaixador saudita em Washington – e, na mesma conversa, prometeria ao cartel mexicano acesso seguro a “toneladas de ópio”.

O que se sabe com certeza é que, na denúncia oficial [ing. Sealed Amended Complaint] contra Arabsiar e Shakuri, assinada pelo agente especial do FBI Robert Woloszyn, não há absolutamente qualquer referência a qualquer tipo de envolvimento do governo do Irã, de alto nível, ou de qualquer nível [5]. 

Mas, na narrativa do governo dos EUA, Arabsiar foi tolo o bastante para acreditar no que lhe disse um agente infiltrado da agência antidrogas dos EUA [ing. Drug Enforcement Agency, DEA], que se fazia passar por membro do Zetas, cartel mexicano de tráfico de drogas. Arabsiar disse a esse agente e seus companheiros que seria sobrinho de um alto funcionário iraniano – e que atuava em nome dos mais altos escalões. 

Querem, portanto, que acreditemos que um general iraniano manda um seu parente rei dos otários, que vende carros no Texas, contratar um cartel de drogas para um complô político – como se a inteligência dos EUA não tivesse como rastrear o pagamento pelo assassinato, até o tal parente, sobretudo depois do caso dos 100 mil dólares enviados para os EUA, ao que se diz, vindos do Irã, para um sujeito já condenado por fraudes com cheques. 

Mesmo sem considerar qualquer viés ideológico, qualquer pessoa que conheça o extremo profissionalismo do IRGC e da força Qods logo descartará como absoluto lixo toda essa história – sobretudo se apresentada como parte de uma complexa operação internacional que envolveria o Irã e seu inimigo mortal, os EUA, além do México e da Arábia Saudita. Mas Arabsiar “confessou” tudo – depois de 12 dias de interrogatório ininterrupto (alguém aí pensou em “simulação de afogamento”?).

E há também a questão do alvo escolhido. Segundo o Departamento de Justiça, o complô não visava os EUA. Assim sendo, atacar um embaixador da Casa de Saud – “precioso aliado” – em solo norte-americano só se explica pelo desejo doentio de sangue, típico dos iranianos doidos, suicidários, dedicados a arrastar os EUA a um ataque, nuclear ou de outro tipo. 

A ideia de que um cartel mexicano de drogas investiria num complicadíssimo ataque político na capital dos EUA, esperando ganhar sacos de ópio (do Afeganistão “libertado”) também é inverossímil. Mas o quadro muda, se se pensa no que ganhariam os Mujahideen-e-Kalq – organização terrorista fundamentalista dedicada a tentar derrubar a República Islâmica. Ou no que ganharia a al-Qaeda, já espectral e fantasmagórica, se se inventasse uma guerra de três vias, que envolvesse Washington, Teerã e Riad. 

Há também a opção israelense, da falsa bandeira. Além de o complô parecer brotado dos sonhos molhados do AIPAC [ing. American Israel Public Affairs Committee] entregue a Holder numa bandeja de prata, nada agradaria mais plenamente ao lobby israelense em Washington e a um sortimento variado de sionistas do que se aliar a causus belli decidido diretamente por Washington, que levasse os EUA a atacar o Irã, seja como for, e sem qualquer envolvimento direto de Israel. 

Segundo o mantra oficial, os norte-americanos têm de ser sempre lembrados e relembrados de que o Irã é “ameaça existencial” ao estado judeu. Um atentado contra a vida do embaixador saudita seria perfeito, também, porque explicaria o envolvimento da Casa de Saud, no apoio logístico ao tal ataque ao Irã. 

Ainda que se aceite que algum grupo bandido, dentro da força Qods, estaria envolvido numa conexão de tráfico de drogas e pudesse ter algo a ver com o complô, há também a possibilidade de que tudo tivesse sido armado como retaliação-resposta, a recente assassinado predeterminado [ing. targeted assassination] de um dos principais cientistas nucleares iranianos, assassinado no Irã. Mas isso não explica escolher um embaixador saudita, a ser morto em território norte-americano. 

Cui bono? A quem o crime beneficia?

Mais uma vez: por que logo agora? O complô já é conhecido, ao que se sabe, há meses. O presidente Barack Obama foi informado em junho. O rei Abdullah foi informado em meados de setembro. Então... por que divulgar agora? O que nos leva de volta aos suspeitos de sempre.

Os neoconservadores. Facções do complexo industrial-militar. A direita, os malditos, imundos, doidos Republicanos e seus operadores na imprensa. O lobby pró-Israel. A Casa de Saud – que agora é pintada como “vítima” dos iranianos “do mal”, quando, de fato, está comandando a mais brutal contrarrevolução, que já destruiu qualquer possibilidade de alguma Primavera Árabe nos países do Golfo, inclusive a invasão e a repressão no Bahrain.

O complô aparece em boa hora, para distrair a atenção, para impedir que a Arábia Saudita seja vista como beneficiária de um multibilionário negócio de venda de armas norte-americanas. Vem em boa hora, também, para “limpar” a imagem do próprio procurador geral. Holder foi envolvido há pouco tempo em outro escândalo monstruoso, quando mentiu sobre a Operação Velozes e Furiosos (não, vocês não podem imaginar!), operação fracassada, de cujo fracasso resultou que nada menos que 1.400 armas norte-americanas de grosso calibre acabaram em mãos de – adivinhem! – cartéis mexicanos do tráfico de drogas. Parece que a franquia “Velozes e Furiosos” é a arma de recreação preferida, em todos os níveis do governo dos EUA. 

Washington quer “unir o mundo” contra o Irã (onde “mundo” significa: Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN) e já ameaça denunciar o Irã ao Conselho de Segurança da ONU – outra vez. 

Esperemos, pois, ansiosamente por mais uma resolução R2P (“responsabilidade de proteger”) apresentada e aprovada na correria, que ordene que a OTAN estabeleça mais zonas aéreas de exclusão sobre o telhado de todos os príncipes da Casa de Saud em todo o planeta. Essa resolução bem pode ser interpretada como autorização à OTAN para bombardear o Irã, até a ‘mudança de regime’. Esse, sim, é script verossímil.



Notas dos tradutores
[1] Versão resumida desse artigo foi publicada ontem na Al-Jazeera e hoje, em português, aqui na redecastorphoto.
[2] Vê-se o anúncio oficial em:
E interessante lista de comentários de internautas sobre aquela fala, em World War III: Operation Red Coalitition – Alleged Iran “Direct”Terrorist Plot OnWashington D.C. [em inglês]. Um dos comentários diz: “Nosso aliado fascista Pinochet, organizou e executou um assassinato real (Orlando Letelier) em Washington, D.C., e os EUA nada fizeram contra”.
[3] 12/10/2011, matéria da Reuters, de Londres,  (em inglês).
[4] Vê-se e ouve-se o comentário (em inglês).
[5] O texto pode ser lido, na íntegra, em  [em inglês]. 

Pepe Escobar: “Velozes e Furiosos” [1]... para ocupar o Irã


Pepe Escobar


12/10/2011, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
The fast and furious plot to occupy Iran
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu




Teerã teria de ser louca terminal, para tentar matar um embaixador em solo dos EUA. 

Ninguém jamais perdeu dinheiro apostando na tediosa previsibilidade do governo dos EUA. No momento em que Occupy Wall Street incendeia imaginações em todo o espectro – denunciando a imunda porta giratória entre o governo e o capitalismo de cassino – aí vem Washington a nos pôr outra vez com os pés na realidade e, com sensacionalismo, anuncia um golpe do cartel do terror iraniano-mexicano, que deveria pagar franquia ao filme “Velozes e Furiosos”. A vítima potencial? Adel al-Jubeir, embaixador nos EUA daquela adorável Meca da contrarrevolução, a Arábia Saudita. 
Washington está procurando aumentar as sanções sobre o Irã via falso plano para matar embaixador da Arabia Saudita (Foto EPA)

Robert Mueller, diretor do FBI, insistiu que o plano concebido por terroristas iranianos “parece roteiro de Hollywood”. Parece mesmo. Roteiro ruim. O duo de Velozes e Furiosos, Paul Walker/Vin Diesel nunca entraria nessa fria.

Nessa produção de Washington, os ‘mocinhos’ são o FBI e a Agência de Controle de Drogas dos EUA (Drug Enforcement Agency, DEA). Nas palavras do procurador geral Eric Holder, os ‘mocinhos’ descobriram “complô mortal comandado por facções do governo iraniano para assassinar um embaixador estrangeiro em solo dos EUA, com bombas”. 

Holder acrescentou que a explosão na embaixada saudita em Washington também seria parte do plano. A mídia-empresa amplificou a ‘notícia’ e falou de bombas planejadas para a embaixada de Israel em Washington e, também, nas embaixadas saudita e israelense em Buenos Aires.

O Departamento de Justiça distribuiu história muito estranha – “Operação Coalizão Vermelha [orig. Operation Red Coalition [2]] (não, vocês não podem imaginar!) – centrada num tal Manssor Arbabsiar, 56 anos, que tem passaportes iraniano e norte-americano; e um co-conspirador que viveria no Irã, Gholam Shakuri, dito membro do regimento Quds, do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [orig. Islamic Revolutionary Guard Corps's (IRGC) Quds Force].

Arbabsiar teria tido vários encontros no México com um agente da DEA infiltrado num cartel mexicano peso-pesado de drogas. O iraniano-norte-americano parece ter sido convencido de que o agente infiltrado seria membro do cartel Zetas, mexicano, peso-pesado, e teria dito a ele que estaria sendo “comandado por altos membros do governo do Irã”, e que teria, como parceiro, um primo, que seria “membro do exército do Irã, mas que não usa farda”.

Não bastasse, Arbabsiar teria dito ao agente norte-americano infiltrado no cartel, que seus companheiros no governo iraniano poderiam fornecer “toneladas de ópio” ao cartel mexicano (uma conexão afegã, talvez). Os dois teriam discutido “várias missões violentas”; e Arbabsiar teria falado também sobre bomba que explodiria num restaurante lotado, em Washington, que o embaixador saudita costuma frequentar.

Holder definiu a coisa toda como “assassinato contratado por 1,5 milhão de dólares”. Arbabsiar só foi preso há cinco dias, em 29/9, no aeroporto JFK em New York. O Departamento de Justiça diz que teria confessado. Shakuri, por sua vez, continua desaparecido.

Holder foi logo ao ponto: “Os EUA estamos decididos a fazer o Irã pagar por seus atos”. Faltou pouco para afirmar que o complô teria sido aprovado pelos mais altos escalões do governo do Irã. Quer dizer... E agora? É guerra já? Calma. Segurem seus cavalos: antes, Washington tem de resolver se pergunta ou não aos chineses, se eles topam (e não toparão).

Como se podia prever, logo apareceram os proverbiais “funcionário” dos EUA, com fuzis reluzentes, incendiando mato seco por todos os lados. O Pentágono, alarmado, aumentará a vigilância sobre a Força Quds e “ações iranianas” no Iraque, Afeganistão e Golfo Persa. Ex-embaixadores dos EUA já disseram que “atacar esse embaixador é atacar os EUA”. Washington está à beira de impor mais sanções contra o Irã; e levará imediatamente a questão ao Conselho de Segurança da ONU, com pedido de urgência.

E depois? Nova resolução R2P (“responsabilidade de proteger”), para ordenar que a OTAN proteja todos os asseclas da Casa de Saud em todo o mundo, mediante bombardeio cerrado contra o Irã, até a “mudança de regime”?   

Ali Akbar Javanfekr, porta-voz do presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irã, conseguiu, pelo menos, injetar algum bom senso no roteiro:

“Minha opinião é que o governo dos EUA está tentando inventar novo cenário. A história mostra que o governo dos EUA e a CIA têm longa experiência na fabricação de cenários... Acho que o objetivo, agora, é a opinião pública dentro dos EUA. Querem que os norte-americanos parem de pensar nas dificuldades domésticas que enfrentam e assustá-los com ameaças inventadas que viriam de fora dos EUA.” [3]

O Irã ainda nem sabe se os dois personagens são realmente cidadãos iranianos.

O governo do Irã – que se orgulha de sua abordagem diplomática lógica – teria de ter sido inoculado com vírus de loucura total, estilo Stuxnet [4], para agir de modo tão contraproducente, e montar atentado contra alto conselheiro para política exterior do rei Abdullah, em território dos EUA. A agência iraniana oficial, IRNA descreveu o complô como “novo cenário de propaganda dos EUA” contra o Irã.

Quanto ao mantra “o Irã está-se insinuando em muitas das lutas no Oriente Médio”, é propaganda saudita pura, sem diluição. A verdade é que a Causa de Saud é quem comanda a mais furiosa contrarrevolução e detonou qualquer possibilidade de uma Primavera Árabe nos países do Golfo – desde a invasão e a repressão no Bahrain, à violenta repressão ‘preventiva’ dos protestos nas províncias dominadas por xiitas no leste da própria Arábia Saudita.

A coisa toda cheira a mal disfarçado pretexto para um casus belli. O momento do anúncio não poderia ser mais suspeito. O conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Thomas E. Donilon, informou o rei Abdullah sobre o ‘complô’ há nada menos de duas semanas, em reunião de três horas em Riad. Enquanto isso, o governo dos EUA arquitetou e executou, não complôs, mas assassinatos premeditados de cidadãos norte-americanos – como Anwar al-Awlaki.

E por que logo agora? O procurador geral Eric Holder pode ter sido apanhado em mais um escândalo – o primeiro foi quando o mesmo procurador geral mentiu sobre a Operação Velozes e Furiosos (não, vocês não podem imaginar!), negócio dos federais, pelo qual grandes quantidades de armas norte-americanas acabaram nas mãos de – eis os mesmos, aí, outra vez – cartéis mexicanos de drogas.

Assim, como enterrar veloz e furiosamente o abismo econômico, os dez anos de guerra no Afeganistão, o crescimento de Occupy Wall Street – para nem falar do papel dos sauditas na guerra para esmagar o espírito da Primavera Árabe? Nada melhor que descobrir um bom complô à moda da velha al-Qaeda de sempre em solo norte-americano e, cereja do bolo, organizado pelo Irã-do-mal. Al-Qaeda e Teerã na cabeça: nem Cheney e Rumsfeld em seus dias de glória inventariam coisa semelhante. 

Longa vida à Guerra Global ao Terror [ing. GWOT, global war on terror). E longa vida ao espírito neoconservador! 

Lembrem: “homens de verdade vão para Teerã” [5] – e a estrada começa agora.   




Notas dos tradutores

[1]  Velozes e Furiosos é título de um filme-sequência, que já está no 5º filme. A expressão deu nome também a uma operação secreta da DEA norte-americana que fracassou e de cujo fracasso resultou que grande quantidade de armas norte-americanas acabou em mãos de traficantes mexicanos. Ver sobre a operação: “Políticos mexicanos preocupadíssimos com a “Operação Velozes e Furiosos”, 9/3/2011, Nacha Cattan, Christian Science Monitor [em inglês].

[2] Vê-se o anúncio oficial em:
E interessante lista de comentários de internautas sobre aquela fala, em World War III: Operation Red Coalitition – Alleged Iran “Direct”Terrorist Plot On Washington D.C.  [em inglês]. Um dos comentários diz: “Nosso aliado fascista Pinochet, organizou e executou um assassinato real (Orlando Letelier) em Washington, D.C., e os EUA nada fizeram contra”.

[3] 11/10/2011, inter alia, US News: Terror Plot’s Mystery Link To Iran

[4]Stuxnet”  é um vírus (worm) que ataca o sistema Windows da Microsoft, descoberto em julho de 2010; ataca programas e equipamentos industriais.   

[5] 22/7/2004, Time Magazine em: What to do About Iran? “Os ideólogos neoconservadores no governo Bush nunca fizeram segredo de que queriam que os militares norte-americanos empreendessem “mudança de regime” no Irã, depois do Iraque. “Homens de verdade vão para Teerã” [meninos vão para Badgá] foi um dos principais slogans, durante a preparação da “Operação Liberdade para o Iraque”. Os mesmos ideólogos interpretaram a retórica do “Eixo do Mal”, do presidente Bush, como sinal de que a agenda neoconservadora prevaleceria”.