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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Pepe Escobar: Guerra ao Terror “forever”


23/1/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The roving eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
E o vencedor do Oscar de Melhor Sequência de 2013 vai para... A Guerra Global ao Terror [orig. Global War on Terror (GWOT)], produção do Pentágono. Abandonai toda a esperança, vós que pensastes que a coisa não passaria da conversa fiada sobre o passamento dessa p’ra melhor, de “Jerônimo”, codinome Osama bin Laden, já reduzido a reles figurante de Zero Dark Thirty, filme-aula de tortura.

Agora já é informação oficial – emitida pela boca do leão, Comandante do Estado-Maior dos Comandantes das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey, e devidamente postado no site do AFRICOM, braço africano armado do Pentágono.

Martin Dempsey
Sai de cena a al-Qaeda “histórica”, enfiada lá em algum buraco dos Waziristões, nas áreas tribais do Paquistão. Entra em cena a al-Qaeda no Maghreb Islâmico [orig. al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)]. Nas palavras de Dempsey, a AQIM “é uma ameaça não só ao Mali, mas a toda a região. (...) E se não for contida, pode, de fato, converter-se em ameaça global”.

Com o Mali já elevado à categoria de “ameaça” global, comprova-se que a Guerra Global ao Terror é realmente sem fim. O Pentágono não distribui frases de efeito. Quando, no início dos anos 2000s, os guerreiros-de-poltrona cunharam a expressão “A Longa Guerra”, falavam, mesmo, de guerra muito, muito longa.

Mesmo com a doutrina do governo 2.0 do presidente Obama de “liderar pela retaguarda”, não resta qualquer dúvida de que o Pentágono caminha diretamente para guerra no Mali – e ninguém cogita de guerrear nas sombras. O general Carter Ham, comandante do AFRICOM, já opera sob o pressuposto de que os islamistas no Mali “atacarão interesses dos EUA”.

Portanto, nesse momento já estão sendo enviados os primeiros 100 “conselheiros” militares dos EUA rumo ao Niger, Nigéria, Burkina Faso, Senegal, Togo e Gana – os seis países-membros da Comunidade Econômica dos Estados da África Oriental [orig. Economic Community of West African States (ECOWAS)] que integrarão um exército africano que terá a tarefa (dada a eles por Resolução da ONU) de reconquistar (invadir?) as partes do Mali que estão sob controle do enxame de islamistas da AQIM, do MUJAO (grupo que se separou da AQIM) e da milícia Ansar ed-Dine. Claro: esse miniexército africano é pago pelo ocidente.

Quem estude a Guerra do Vietnã logo lembrará que enviar “conselheiros” foi o primeiríssimo passo que os EUA deram na direção de afundarem-se completamente no pântano no qual só depois perceberam que se haviam metido. Ironia suprema nada Pentagônica à parte, os EUA já há vários anos sim, deram instrução e treinamento a tropas do Mali. Muitos desertaram logo depois de treinados. Um desses, que recebeu treinamento nos EUA, em Fort Benning, o capitão Amadou Haya Sanogo, não só comandou um golpe militar contra o governo eleito do Mali, como também criou as condições indispensáveis para o avanço dos islamistas.

Carter Ham
Mas ninguém está prestando atenção a esses detalhes. O general Carter Ham está tão excitado com a possibilidade de o seu AFRICOM ganhar mais luzes e caixas de som que o Led Zeppelin nos grandes dias, com ele próprio apresentado pessoalmente ao mundo como salvador (o Carter da África?), que não toma nem tomará conhecimento de fato histórico algum.

O general parece ter esquecido que o AFRICOM – e, então, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN – deram total apoio (e armaram) os rebeldes-da-OTAN na Líbia, quando lutavam guerra cara à cara contra Muammar Gaddafi. O general sempre soube que a al-Qaeda no Maghreb Islâmico “tem muito dinheiro e muitas armas”.

Apesar disso, ainda diz que “mercenários pagos por Gaddafi” teriam desertado, deixado a Líbia e levados suas armas, “muitas das quais chegaram ao norte do Mali”.

Nã-nã-não, general! Nunca foram mercenários de Gaddafi; a maioria deles eram rebeldes pagos pela OTAN, os mesmos que atacaram o consulado dos EUA, que sempre foi base da CIA, em Benghazi; os mesmos que tomaram a direção da Síria; os mesmos que agora aparecem por todo o Sahel.

Assim sendo... como a Argélia entra nisso?

David Cameron
Na sequência, na imediata rabeira, o primeiro-ministro David Cameron seguiu a Voz do Mestre e anunciou que a intervenção no Mali durará anos, “talvez décadas”. 

Nessa 3ª-feira, o crème de la creme do establishment da inteligência britânica reúne-se para planejar, nada mais nada menos, que uma guerra pan-Saara/Sahel, para a qual querem mais uma “coalizão de vontades” à moda Bush”.  Para o momento, o envolvimento dos britânicos significa ainda mais “conselheiros” das categorias “cooperação militar” e “treinamento de segurança” de sempre, montanhas de dinheiro e, por fim mas nem por isso menos importante, Forças Especiais do tipo que fazem guerra nas sombras.

O cenário se completa com outro providencial “Jerônimo”: Mokhtar Belmokhtar, codinome “O Incapturável” (para a inteligência francesa), comandante do MUJAO e cérebro pensante por trás do raid contra o campo In Amenas de extração de gás na Argélia.

Já não vimos esse filme?! Claro que vimos. Mas agora – já é oficial – o Mali é o novo Afeganistão (como o jornal Asia Times Online já informou via redecastorphoto em Queima, arde, padece o Afeganistão africano, 18/1/2013.

Eis o que disse Cameron: “Assim como tivemos de lidar com o Paquistão e o Afeganistão, agora o mundo tem de unir-se para lidar com essa ameaça na África do Norte”. Certo. Belmokhtar já está ensaiando para uma rápida intervenção, como figurante, no roteiro que está sendo redigido da continuação de Zero Dark Thirty.

Já está bem claro o pé em que ficam as “relações especiais” anglo-americano – Pentágono – AFRICOM / inteligência britânica com a França sob a presidência de François Hollande, reconvertido à função de senhor-da-guerra, na “liderança” (momentânea) rumo à Operação Beco-sem-saída Africano. Fato absolutamente crucial é que ninguém na União Europeia, exceto os Brits, é suficientemente doido para seguir as pegadas de Hollande, neossenhor-da-guerra.

Mas ainda não se sabe onde fica a Argélia, chave de toda a equação, do ponto de vista da Guerra Global Ocidental contra o Terror.

Mokhtar Belmokhtar
Fato número 1: o novo “Jerônimo”, Belmokhtar, e sua Brigada Mulathameen [“Os Mascarados”], da qual o Batalhão “Assinaturas de Sangue” que atacou na Argélia é um subgrupo, mantém laços próximos, íntimos, com o serviço secreto da inteligência da Argélia. Em certo sentido, vê-se aí um remix das relações que havia entre os Talibã – e a al-Qaeda “histórica” – e o serviço secreto da inteligência do Paquistão (ISI).

A reação ultra duríssima dos militares da Argélia ao raid dos islamistas era previsível (já reagiam assim nos anos 1990s durante a guerra interna contra a Frente de Salvação Islâmica). Não negociamos com terroristas: nós os matamos (mesmo que morram também muitos reféns). Fazemos tudo sozinhos, sem estrangeiros que metem o nariz em tudo. E, em seguida, descemos pesada cortina sobre qualquer tipo de informação ou noticiário.

Não surpreendentemente, esse modus operandi fez subir uma longa fieira de sobrancelhas em todo o campo do “relacionamento especial” anglo-norte-americano. Daí a “conclusão” a que chegaram Washington / Londres: não se pode confiar nos argelinos. Nossa Guerra Global ao Terror – capítulo Saara / Sahel – terá de ser lutada sem eles. Muito provavelmente, isso sim, contra eles.

Fator complicador grave é que os cerca de 40 islamistas (ou mais) entre os quais havia líbios, sírios e egípcios atravessaram 1.600 quilômetros, no mínimo, de alto deserto, vindos da Líbia, não do Mali. Não teriam chegado ao fim da viagem se não tivessem recebido efetiva “proteção” – algo como alguma potência estrangeira que forneceu informações de inteligência a gente importante de dentro do governo da Argélia. Reféns resgatados disseram que os sequestradores falavam “inglês com sotaque norte-americano” (entre os quais um canadense que a Reuters batizou de “Chedad”) e que sabiam exatamente onde encontrar os estrangeiros dentro do complexo da usina. 

O professor Jeremy Keenan, da Escola de Estudos Orientais e Africanos em Londres, fala de uma operação de forças da Argélia, mascarada como se fosse operação de grupos terroristas, que saiu pela culatra. Argel parece ter querido sinalizar para o ocidente que se a França se pusesse a bombardear o Mali haveria retaliação inevitável; mas durante o desenrolar dos eventos, Belmokhtar decidiu inverter completamente o jogo, porque se enfureceu quando a Argélia abriu seu espaço aéreo para a passagem dos aviões franceses que bombardeariam o Mali. Em mais de um sentido, é remix da revolta dos Talibã contra o ISI paquistanês.

A opinião pública na Argélia suspeita, para dizer o mínimo, dos motivos de praticamente todos os envolvidos, entre os quais também do governo da Argélia e sobretudo da França. No blog maghrebino The Moon Next Door lê-se uma amostra fascinante de o que e como os argelinos pensam hoje.

Vale a pena fazer aqui uma longa citação desse artigo, escrito por um professor de ciência política, porque aí se resume o modo como o pensamento local vê e expõe a “liderança” francesa, no novo capítulo da Guerra Global ao Terror.

Ahmed Adimi
Em entrevista ao diário Le Soir d'Algerie, o professor de ciência política, Ahmed Adimi descreve a intervenção como tentativa para “minar a Argélia” e “um passo no plano de instalar forças estrangeiras na região do Sahel”. A tese de Adimi é que a França trabalhou durante anos para desestabilizar o Sahel como modo de fortalecer a sua posição geopolítica.

Perguntado sobre se a operação francesa no Mali teria sido consistente com a Resolução n. 2.085 do Conselho de Segurança da ONU, Adimi diz que a resolução “não é problema grave. As potências ocidentais têm usado essas resoluções para justificar suas operações militares. Já aconteceu no Iraque. De fato, a operação francesa pode parecer legal, dado que foi empreendida a pedido do atual presidente do Mali. Mas deve-se lembrar que o atual governo chegou ao poder por golpe de Estado. Quanto à intervenção, era sem dúvida previsível, mas os franceses precipitaram as coisas. (...) Aqueles grupos terroristas estão sendo manipulados pelas potências estrangeiras”. Diz também que esses grupos tiveram “autorização” para andar na direção do sul, para Konna, para assim justificar a intervenção francesa.

Para Adimi, os algerianos “há tempo soam o alarme sobre a situação no Sahel em geral. Ahmed Barkouk e eu organizamos vários seminários sobre essa questão. Discutimos o papel da França e seu compromisso na região. A França esteve por trás da criação do movimento pelo Azawad. Falo é claro da organização política, não do povo do Azawad, que tem direitos como comunidade. Os franceses sabiam que sua intervenção na Líbia levaria os militares tuaregues pró-Gaddafi a retornarem ao Mali. Também planejaram a distribuição de muitas armas líbias entre os grupos do Sahel. A meta é converter a região num novo Afeganistão. É resultado de um longo planejamento”.

Tariq Ramadan
Tariq Ramadan, em artigo devastador, também desmascara Paris, expondo a conexão entre a tortuosa intervenção “humanitária” de Sarkozy na Líbia e ao atual ímpeto de Hollande para proteger “um país amigo” – e, isso, depois de anos de hipocrisia francesa que jamais deu qualquer atenção ao “povo sofredor” que sofria sob o tacão de incontáveis ditadores africanos.

Mas o Oscar para o Cenário mais Hipócrita vai, sem dúvida, para as atuais “graves preocupações” franco-norte-americanas sobre o Mali ser hoje o novo playground da al-Qaeda, quando já se sabe que os principais playgrounds são mesmo o norte da Síria, onde a al-Qaeda é apoiada pela OTAN (até a fronteira turca); o norte do Líbano e grandes partes do território líbio.

Sigam o ouro e sigam o urânio

Mesmo antes de que se possam analisar com alguma profundidade todas as muitas ramificações – algumas não previstas – da Guerra ao Terror expandida, há duas pistas a seguir atentamente no futuro próximo: o ouro e o urânio. 

Seguindo o ouro. Várias nações têm montanhas de ouro depositadas no New York Federal Reserve. Dentre elas destaca-se, hoje crucial, a Alemanha. Recentemente, Berlim começou a pedir que seu ouro físico seja repatriado: 374 toneladas depositadas no Banco da França e 300 toneladas das 1.500 toneladas depositadas no New York Federal Reserve.

Franceses e norte-americanos imediatamente pensaram: “Ficaremos sem ouro algum!” A operação de repatriação do ouro se prolongará por sete anos, no mínimo. Resumo: Paris e Washington / New York têm de comparecer com ouro, de verdade, seja como for.

É onde o Mali encaixa-se belamente. O Mali – com Gana – é responsável por mais de 8% da produção global de ouro. Se você estiver desesperadamente carente do produto genuíno – ouro físico – é indispensável controlar o Mali. Imaginem se todo aquele ouro acaba em mãos da... China?!

Agora, sigamos o urânio. Como todos os que viveram de perto a saga do yellowcake [concentrado de urânio] do Niger antes da invasão do Iraque, o Niger é o quarto maior produtor mundial de urânio. O principal comprador é – adivinhem... – a França; metade da energia elétrica da França é produzida por energia nuclear. As minas de urânio no Níger   estão concentradas no noroeste do país, na face ocidental das montanhas Air, bem próximas da fronteira com o Mali – e uma das regiões que os franceses estão bombardeando.

Região dos Tuaregs (hachurada) e ouro... e urânio...
A questão do urânio mantém íntima ligação com sucessivas rebeliões dos tuaregues; não se pode esquecer que, para os tuaregues, não há fronteiras nacionais no Sahel. Todas as recentes rebeliões tuaregues no Niger aconteceram em território de urânio – na província de Agadis, próxima da fronteira do Mali. Assim, do ponto de vista dos interesses franceses, imaginem o risco de os tuaregues passarem a controlar aquelas minas de urânio – e porem-se a fazer negócios diretamente com... a China?! E Pequim, por falar dela, já está presente naquela região.

Hollande (França) em assalto ao Mali
Todo esse jogo crucial de poder estratégico – o “ocidente” enfrenta a China na África, com o AFRICOM dando “uma mão” a Hollande, neossenhor-da-guerra e assumindo a perspectiva da Longa Guerra – de fato é mais decisivo que a síndrome da retaliação. Não é crível nem pensável que os serviços de inteligência britânico, francês e dos EUA não tenham previsto os efeitos em cascata e eventuais efeitos da “guerra humanitária” da OTAN contra a Líbia. A OTAN é aliada muito íntima dos salafistas e dos Jihads salafistas – temporariamente apresentados como “combatentes da liberdade”. Eles sabiam que o Mali – e todo o Sahel – imediatamente depois, seria inundado de armas.

Não, não foi por acaso. A expansão da Guerra Global ao Terror para o Saara/Sahel foi construída passo a passo. Guerra Global ao Terror é maná que nunca acaba de chover sobre os interessados: o que mais poderia interessar ao complexo industrial-militar-segurança-midiático franco-britânico-USAmericano, que um novo teatro de guerra?

Oh, yes! Há também o tal “movimento de pivô” em direção à Ásia. Muita gente daria um dedo – extraído à moda dos radicais – para saber como e quando virá o contragolpe de Pequim. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Pepe Escobar: “Velozes e Furiosos” [1]... para ocupar o Irã


Pepe Escobar


12/10/2011, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
The fast and furious plot to occupy Iran
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu




Teerã teria de ser louca terminal, para tentar matar um embaixador em solo dos EUA. 

Ninguém jamais perdeu dinheiro apostando na tediosa previsibilidade do governo dos EUA. No momento em que Occupy Wall Street incendeia imaginações em todo o espectro – denunciando a imunda porta giratória entre o governo e o capitalismo de cassino – aí vem Washington a nos pôr outra vez com os pés na realidade e, com sensacionalismo, anuncia um golpe do cartel do terror iraniano-mexicano, que deveria pagar franquia ao filme “Velozes e Furiosos”. A vítima potencial? Adel al-Jubeir, embaixador nos EUA daquela adorável Meca da contrarrevolução, a Arábia Saudita. 
Washington está procurando aumentar as sanções sobre o Irã via falso plano para matar embaixador da Arabia Saudita (Foto EPA)

Robert Mueller, diretor do FBI, insistiu que o plano concebido por terroristas iranianos “parece roteiro de Hollywood”. Parece mesmo. Roteiro ruim. O duo de Velozes e Furiosos, Paul Walker/Vin Diesel nunca entraria nessa fria.

Nessa produção de Washington, os ‘mocinhos’ são o FBI e a Agência de Controle de Drogas dos EUA (Drug Enforcement Agency, DEA). Nas palavras do procurador geral Eric Holder, os ‘mocinhos’ descobriram “complô mortal comandado por facções do governo iraniano para assassinar um embaixador estrangeiro em solo dos EUA, com bombas”. 

Holder acrescentou que a explosão na embaixada saudita em Washington também seria parte do plano. A mídia-empresa amplificou a ‘notícia’ e falou de bombas planejadas para a embaixada de Israel em Washington e, também, nas embaixadas saudita e israelense em Buenos Aires.

O Departamento de Justiça distribuiu história muito estranha – “Operação Coalizão Vermelha [orig. Operation Red Coalition [2]] (não, vocês não podem imaginar!) – centrada num tal Manssor Arbabsiar, 56 anos, que tem passaportes iraniano e norte-americano; e um co-conspirador que viveria no Irã, Gholam Shakuri, dito membro do regimento Quds, do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [orig. Islamic Revolutionary Guard Corps's (IRGC) Quds Force].

Arbabsiar teria tido vários encontros no México com um agente da DEA infiltrado num cartel mexicano peso-pesado de drogas. O iraniano-norte-americano parece ter sido convencido de que o agente infiltrado seria membro do cartel Zetas, mexicano, peso-pesado, e teria dito a ele que estaria sendo “comandado por altos membros do governo do Irã”, e que teria, como parceiro, um primo, que seria “membro do exército do Irã, mas que não usa farda”.

Não bastasse, Arbabsiar teria dito ao agente norte-americano infiltrado no cartel, que seus companheiros no governo iraniano poderiam fornecer “toneladas de ópio” ao cartel mexicano (uma conexão afegã, talvez). Os dois teriam discutido “várias missões violentas”; e Arbabsiar teria falado também sobre bomba que explodiria num restaurante lotado, em Washington, que o embaixador saudita costuma frequentar.

Holder definiu a coisa toda como “assassinato contratado por 1,5 milhão de dólares”. Arbabsiar só foi preso há cinco dias, em 29/9, no aeroporto JFK em New York. O Departamento de Justiça diz que teria confessado. Shakuri, por sua vez, continua desaparecido.

Holder foi logo ao ponto: “Os EUA estamos decididos a fazer o Irã pagar por seus atos”. Faltou pouco para afirmar que o complô teria sido aprovado pelos mais altos escalões do governo do Irã. Quer dizer... E agora? É guerra já? Calma. Segurem seus cavalos: antes, Washington tem de resolver se pergunta ou não aos chineses, se eles topam (e não toparão).

Como se podia prever, logo apareceram os proverbiais “funcionário” dos EUA, com fuzis reluzentes, incendiando mato seco por todos os lados. O Pentágono, alarmado, aumentará a vigilância sobre a Força Quds e “ações iranianas” no Iraque, Afeganistão e Golfo Persa. Ex-embaixadores dos EUA já disseram que “atacar esse embaixador é atacar os EUA”. Washington está à beira de impor mais sanções contra o Irã; e levará imediatamente a questão ao Conselho de Segurança da ONU, com pedido de urgência.

E depois? Nova resolução R2P (“responsabilidade de proteger”), para ordenar que a OTAN proteja todos os asseclas da Casa de Saud em todo o mundo, mediante bombardeio cerrado contra o Irã, até a “mudança de regime”?   

Ali Akbar Javanfekr, porta-voz do presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irã, conseguiu, pelo menos, injetar algum bom senso no roteiro:

“Minha opinião é que o governo dos EUA está tentando inventar novo cenário. A história mostra que o governo dos EUA e a CIA têm longa experiência na fabricação de cenários... Acho que o objetivo, agora, é a opinião pública dentro dos EUA. Querem que os norte-americanos parem de pensar nas dificuldades domésticas que enfrentam e assustá-los com ameaças inventadas que viriam de fora dos EUA.” [3]

O Irã ainda nem sabe se os dois personagens são realmente cidadãos iranianos.

O governo do Irã – que se orgulha de sua abordagem diplomática lógica – teria de ter sido inoculado com vírus de loucura total, estilo Stuxnet [4], para agir de modo tão contraproducente, e montar atentado contra alto conselheiro para política exterior do rei Abdullah, em território dos EUA. A agência iraniana oficial, IRNA descreveu o complô como “novo cenário de propaganda dos EUA” contra o Irã.

Quanto ao mantra “o Irã está-se insinuando em muitas das lutas no Oriente Médio”, é propaganda saudita pura, sem diluição. A verdade é que a Causa de Saud é quem comanda a mais furiosa contrarrevolução e detonou qualquer possibilidade de uma Primavera Árabe nos países do Golfo – desde a invasão e a repressão no Bahrain, à violenta repressão ‘preventiva’ dos protestos nas províncias dominadas por xiitas no leste da própria Arábia Saudita.

A coisa toda cheira a mal disfarçado pretexto para um casus belli. O momento do anúncio não poderia ser mais suspeito. O conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Thomas E. Donilon, informou o rei Abdullah sobre o ‘complô’ há nada menos de duas semanas, em reunião de três horas em Riad. Enquanto isso, o governo dos EUA arquitetou e executou, não complôs, mas assassinatos premeditados de cidadãos norte-americanos – como Anwar al-Awlaki.

E por que logo agora? O procurador geral Eric Holder pode ter sido apanhado em mais um escândalo – o primeiro foi quando o mesmo procurador geral mentiu sobre a Operação Velozes e Furiosos (não, vocês não podem imaginar!), negócio dos federais, pelo qual grandes quantidades de armas norte-americanas acabaram nas mãos de – eis os mesmos, aí, outra vez – cartéis mexicanos de drogas.

Assim, como enterrar veloz e furiosamente o abismo econômico, os dez anos de guerra no Afeganistão, o crescimento de Occupy Wall Street – para nem falar do papel dos sauditas na guerra para esmagar o espírito da Primavera Árabe? Nada melhor que descobrir um bom complô à moda da velha al-Qaeda de sempre em solo norte-americano e, cereja do bolo, organizado pelo Irã-do-mal. Al-Qaeda e Teerã na cabeça: nem Cheney e Rumsfeld em seus dias de glória inventariam coisa semelhante. 

Longa vida à Guerra Global ao Terror [ing. GWOT, global war on terror). E longa vida ao espírito neoconservador! 

Lembrem: “homens de verdade vão para Teerã” [5] – e a estrada começa agora.   




Notas dos tradutores

[1]  Velozes e Furiosos é título de um filme-sequência, que já está no 5º filme. A expressão deu nome também a uma operação secreta da DEA norte-americana que fracassou e de cujo fracasso resultou que grande quantidade de armas norte-americanas acabou em mãos de traficantes mexicanos. Ver sobre a operação: “Políticos mexicanos preocupadíssimos com a “Operação Velozes e Furiosos”, 9/3/2011, Nacha Cattan, Christian Science Monitor [em inglês].

[2] Vê-se o anúncio oficial em:
E interessante lista de comentários de internautas sobre aquela fala, em World War III: Operation Red Coalitition – Alleged Iran “Direct”Terrorist Plot On Washington D.C.  [em inglês]. Um dos comentários diz: “Nosso aliado fascista Pinochet, organizou e executou um assassinato real (Orlando Letelier) em Washington, D.C., e os EUA nada fizeram contra”.

[3] 11/10/2011, inter alia, US News: Terror Plot’s Mystery Link To Iran

[4]Stuxnet”  é um vírus (worm) que ataca o sistema Windows da Microsoft, descoberto em julho de 2010; ataca programas e equipamentos industriais.   

[5] 22/7/2004, Time Magazine em: What to do About Iran? “Os ideólogos neoconservadores no governo Bush nunca fizeram segredo de que queriam que os militares norte-americanos empreendessem “mudança de regime” no Irã, depois do Iraque. “Homens de verdade vão para Teerã” [meninos vão para Badgá] foi um dos principais slogans, durante a preparação da “Operação Liberdade para o Iraque”. Os mesmos ideólogos interpretaram a retórica do “Eixo do Mal”, do presidente Bush, como sinal de que a agenda neoconservadora prevaleceria”.