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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Declaração Conjunta Sobre a Coalizão contra o Estado Islâmico (ISIS/ISIL) liderada pelos EUA

16/9/2014, Syria Comment
(introdução e análise aqui omitidas e tradução para o inglês  da “Declaração Conjunta” [excertos], por Aymenn Al-Tamimi)
Excerto  editado e traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (AQIM) e Al-Qaeda na Península Árabe (AQAP)

Declaração Conjunta (11/9/2014: Declaração n. 1)
Situação: Apoio a muçulmanos, contra a aliança de Cruzados e Apóstatas

[...]

O sofrimento de nosso povo no Iraque e Levante nunca sai de nossos pensamentos, e tudo que ele tem oferecido em corpos martirizados. Tampouco jamais saem de nossos pensamentos as consequências negativas – que advieram para o povo sírio da luta interna entre mujahideen. Nem sai de nossa mente a tristeza das arenas de jihad pela perda de seus melhores comandantes e filhos, vítimas da luta interna – da qual os beneficiários sempre foram e são os sionistas [Israel], os adoradores da cruz, os rafiditas [xiitas], os nusayris [alawitas] e seus seguidores.

Então há os EUA – cabeça da descrença – e símbolo do inimigo e da tirania, que levanta outra vez a cabeça, e alista por trás de si aliados dos Cruzados e seus colaboradores apóstatas, para a tentativa que faz o Cruzado de levar guerra ao Islã e aos muçulmanos, para aumentar ainda mais as desgraças da Ummah [comunidade muçulmana mundial], sob o pretexto de atacar o Estado Islâmico e aniquilá-lo – foi o que disseram!! Pedimos a Deus que os frustre, os derrote e os massacre.

Quanto a esse opressivo esforço dos Cruzados, só podemos nos posicionar ao lado do Islã e dos muçulmanos, contra os EUA Cruzados e sua aliança judeu-cruzados-safavidas-apóstatas – que é o verdadeiro inimigo da Ummah e o Caminho e o primeiro a fazer guerra contra a Xaria, e assim declaramos que essa é a nossa posição, para agradar a Deus: apoiar nossos irmãos mujahideen contra os incréus e defender nosso povo muçulmano onde estiver. Assim sendo, dizemos:

●– Irmãos mujahideen no Iraque e na Síria (...) parem de lutar entre vocês e posicionem-se como fileira única contra a iniciativa dos EUA e sua aliança satânica que só está à espera de que nos dividamos, para nos quebrar cada vez mais e mais. Enfrentem a unidade das nações sem fé contra vocês, com a unidade de vocês contra eles, como nos disse o Todo-Poderoso: “E deem combate aos politeístas como um todo se eles lutarem como um todo contra vocês, e saibam que Deus está com os que sabem de Deus” [...]

●– Oh mujahideen e ansar [ajudadores/apoiadores], parem de ofender-se e lançar insultos uns contra os outros e dirijam as penas que escrevem a verdade e as espadas de gume mortal contra a cabeça dos increus – os EUA – e aquela aliança de opressão e de agressão.

●– A todos os que estão em armas contra o tirano Bashar e seus shabiha: os EUA procurarão subornar vocês com seu jogo duplo e seu fingimento, para que vocês se desviem do caminho de vocês e se transformem em trapos nas mãos deles, para consumarem os interesses deles.

●– Ao nosso povo – a Ahl al-Sunna [os sunitas] no Iraque e na Síria, não esqueçam os crimes que os EUA cometeram contra as terras de vocês e não esqueçam a posição dos EUA nas batalhas de vocês, e que as adagas envenenadas dos EUA continuam plantadas no peito de vocês. Portanto, não deixem aqueles mentirosos, falsos, chicaneiros, enganarem vocês, e não se alistem naquela aliança, nem se convertam em soldados deles, contra os próprios filhosmujahideen de vocês.

●– Convocamos nossa Ummah muçulmana a apoiar nosso povo no Iraque e na Síria e apoiá-los com o que haja de mais caro e precioso, e cerrar fileira contra os EUA, cabeça da descrença, fonte de todo o mal e símbolo de corrupção e opressão.

●– Convocamos nossa Ummah muçulmana a desmentir o que digam os governantes apóstatas e seus colaboradores, a provar que estão errados quando induzem os norte-americanos sem fé a atacar os mujahideen, que impeçam seus filhos alistados de participarem dessa guerra de opressão que só tem por objetivo manter a hegemonia do Cruzado americano sobre nossa Ummah muçulmana e dar cobertura ao estado dos sionistas [Israel].

●– Conclamamos nosso povo na Península Árabe em particular e em todos os estados nessa aliança satânica em geral a postar-se contra seus governos colaboracionistas e a impedir – por todos os meios legais – que avancem nessa guerra contra o Islã, sob o pretexto de combater o terrorismo.

●– Quanto a vocês, oh aliados de descrentes e infiéis, prestem atenção ao medo que aflige o coração de vocês, porque há dias negros à espera de vocês. Porque esses líderes de vocês estão afundando e têm medo de confrontar os cavaleiros do Islã. E verdade é que vocês já conhecem o gosto das espadas dos soldados do Islã e o do assalto dos heróis do Iraque e Síria, e deus já lhes mostrou o que são a derrota e a degradação, e os exércitos de vocês foram derrotados e carregam as consequências do fracasso.

●– Concluímos essa conclamação, recordando a toda nossa Ummah Islâmica as palavras do renovador do tempo e conquistador dos EUA, Sheikh Osama [bin Laden] (que Deus seja generoso com ele e torne leve a terra que o abriga): “Não ouçam nem consultem ninguém, na luta contra os EUA”.  

Na conclusão dessa declaração, apresentamos nossas sinceras condolências aos mujahideen do grupo Ahrar al-Sham (...) e pedimos a Deus que tenha piedade de seus mártires e recompense, eles e nós, de nossos padecimentos, nos tornando melhores que antes. Apresentamos também sinceras condolências a todo o nosso povo em geral na Síria e às famílias dos mártires em particular; e pedimos a Deus Todo-Poderoso, ao Altíssimo, que se conecte com os corações deles e derrame neles fortaleza e coragem.

Deus, dá a essa Ummah uma situação justa, na qual os que te obedecem sejam fortalecidos e os que trazem a desgraça aos que te obedecem sejam derrubados. Deus, traze a vitória aos nossos irmãos mujahideen no Iraque e na Síria e em todo o mundo. Deus, traze ruína sobre os EUA e seus aliados e todos que tomem partido contra os mujahideen. [...]

[assinam] Al Qaeda al-Jihad na Península Árabe e na Terra do Maghreb Islâmico

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Nenhuma empresa de “segurança privada” interessa-se pelos refugiados

Muitas “oportunidades” na guerra do Mali...

1/2/2013, Ramzy Baroud, Countercurrents.org


Leia também sobre o assunto em:

Eric Prince (Blackwater)
·    24/6/2010, redecastorphoto, Jeremy Scahill (The Nation) em: Sobre o general Stanley McChrystal e a Blackwater (atualizado)  
·    27/6/2010, redecastorphoto, Adam Ciralsky (Vanity Fair) em: Empresário, soldado, espião
·    21/9/2010, redecastorphoto, Jeremy Scahill (The Nation) em: Blackwater & Co. - A “negabilidade [1] total 
·   8/10/2010, Hora do Povo, em: Mercenários da Blackwater atuam na Amazônia e nas...
·   23/1/2011, redecastorphoto, Katharine Houreld (Salon & AP) em: EUA & a “livre iniciativa”: criar guerras locais e privadas, para exportação

Ramzy Baroud
A empresa britânica “de segurança” G4S organiza-se para recolher ganhos massivos das crises no Mali, na Líbia e na Argélia. Reconhecida como das maiores empresas “de segurança” do mundo, tornou-se também mundialmente conhecida por suas insuficiências, durante os Jogos Olímpicos de Londres, ano passado, por não ter conseguido satisfazer as exigências que o governo britânico impunha nos editoriais de seleção de fornecedores de serviços. Mas agora, com o Norte e o Oeste da África já conflagrados, ninguém duvida de que a G4S conseguirá recuperar-se rapidamente.

A crise dos reféns, dia 16/1 na Argélia, na estação de gás de Ain Amenas, onde foram assassinados 38 reféns, expôs ao mundo que a al-Qaeda voltou à ação, já não como um bando de extremistas desorganizados e em fuga, mas como grupo bem treinado de militantes, com competências para ferir fundo em territórios inimigos e provocar danos graves. É evento que, para empresas “de segurança” como G4S e outras, significa que os negócios estão crescendo.

O grupo britânico (...) vê crescerem as oportunidades para vender serviços, de vigilância eletrônica a proteção a viajantes – disse à Reuters o presidente regional da empresa, para a África. A demanda está alta e aumentando por toda a África – disse Andy Baker. – A natureza do nosso negócio é tal que, em ambientes de alto risco, sempre cresce a demanda por nossos serviços.

Imagem divulgada pela British Petroleum em 16 de janeiro de 2013, mostra a sua operação no campo Ain Amenas, deserto do Saara, 1.300 quilômetros (810 milhas) a sudeste de Argel, perto da fronteira da Líbia. (AFP Photo / PA)
Se o encontro mortal com a al-Qaeda na Argélia bastou para pôr o país na lista dos mercados emergentes interessados em comprar “serviços de segurança” de empresas privadas, a Líbia deve ser hoje o paraíso das tais empresas privadas “de segurança”. Depois de a OTAN ter derrubado o governo do coronel Muammar Gaddafi e tê-lo assassinado brutalmente em Sirte, dia 20/10/2011, inúmeras milícias surgiram por todo o território líbio, algumas delas com armamento pesado, cortesia das “grandes democracias” ocidentais.

De início, aquele cenário perturbador, com diferentes milícias armadas instalando “postos de controle e pedágio” pelas esquinas, foi tomado como efeito esperável dos primeiros dias pós-revolucionários... Mas quando ocidentais “de destaque” tornaram-se alvos – e foram atingidos duramente, como se viu no consulado dos EUA em Benghazi –, a “segurança” na Líbia chegou também, afinal, ao topo da lista de prioridades do ocidente.

Muitas empresas privadas de “segurança” já operam na Líbia; algumas já estavam no país antes de o governo de Gaddafi ter sido oficialmente deposto. Algumas eram virtualmente desconhecidas antes da guerra, dentre as quais uma pequena empresa britânica, Blue Mountain Group. Essa, precisamente, era a empresa de “segurança” contratada para fazer a “segurança” da missão diplomática dos EUA, em Benghazi, que foi invadida dia 11/9/2012. Investigações revelaram que o ataque contra a embaixada dos EUA foi planejado e bem coordenado (resultou na morte de quatro norte-americanos, entre os quais o próprio embaixador J. Christopher Stevens).

Embaixador J. Christopher Stevens assassinado em Benghazi
Ainda não se sabe por que o Departamento de Estado teria optado por contratar a pequena Blue Mountain Group, em vez de empresa maior, como se vê no caso de outras embaixadas e das grandes empresas que, hoje, vivem de “reconstruir” o país que seus respectivos governos trataram, antes, de destruir.

O crescimento do lucrativo negócio de destruir, reconstruir e “dar segurança” já foi observado em outras guerras e conflitos desencadeados por intervenções ocidentais. Essas empresas “de segurança” são intermediários mantidos nos locais objeto de intervenção, com a única missão de tornar viável a operação da “diplomacia” pós-guerra e das empresas-gigantes que chegam aos cenários de guerra para fazer negócios.

Quando um país afinal entra em colapso sob o ataque de canhões arrasa-quarteirões e outros equipamentos avançados de guerra, as empresas “de segurança” entram em cena para manter cenários “pacificados” nos quais diplomatas ocidentais podem iniciar a barganha com emergentes elites locais pós-guerra para decidir o futuro da riqueza do país. Na Líbia, os que distribuíram as armas mais poderosas receberam os maiores contratos. Claro: enquanto o país destruído continua a ser roubado sem qualquer limite ou controle, quem mais sofre é a população local – que passa a viver sob a mira de estrangeiros armados (quase sempre também mascarados) que vigiam todos os movimentos de todos, em nome de uma “segurança” que ninguém sente.

Deve-se registrar que o novo governo líbio rejeitou declarada e especificamente os agentes armados do tipo Blackwater – usados como exército alugado de ocupação – porque teme provocações similares às que se viram na Praça Nisour de Bagdá, e matanças semelhantes que aconteceram em todo o Afeganistão. O objetivo na Líbia é garantir que se acertem as transações comerciais, sem os protestos gerados por estrangeiros e seus “dedos-trêmulos” no gatilho. Mas, se se considera a deterioração da “segurança” na Líbia, resultado da destruição do governo central e de seu aparato militar, persiste sempre o mais absoluto vácuo de segurança, que muitos discutem, mas ninguém consegue resolver.

Empresas privadas de “segurança” são, na essência, mercenários que oferecem, a governos ocidentais, o serviço de dispensá-los de pagar o custo político de matar tanta gente. Embora quase sempre tenham sedes comerciais nas capitais ocidentais, muitos dos empregados dessas empresas são recrutados em países do chamado Terceiro Mundo. Para todos os envolvidos, é o modo mais seguro de negociar: se asiáticos, africanos ou árabes empregados em serviços “de segurança” são feridos ou mortos “em combate”, o evento gera, no máximo, notícia de jornal, praticamente sem qualquer consequência política, sem inquéritos policiais ou parlamentares, sem audiências públicas, sem vítima e, até, sem crime.

Mali e suas riquezas minerais cobiçadas pelas grandes democracias ocidentais
O Mali, na África ocidental, enfrenta hoje crises de vários tipos – golpe militar, guerra civil, fome e, agora, invasão militar de todas as forças da França. Não há dúvidas de que já está convertido em próxima vítima (“território de oportunidades”) do mesmo trio supermortal de todas as guerras contemporâneas: “grandes democracias” ocidentais, grandes conglomerados comerciais e, claro, grandes empresas privadas de “segurança”.

De fato, o Mali é território perfeito para todos esses oportunistas, que não pouparão esforços para explorar o vasto potencial econômico e a localização estratégica do país. Já há muito tempo o Mali vive sob influência política e militar das “grandes democracias” ocidentais. O ano de 2012 foi como um cenário “de manual”, que só poderia ter levado, como levou, a intervenção militar ocidental, que finalmente aconteceu dia 11/1, quando a França lançou ataque militar – com o pretexto de que o país estaria sob ameaça de islamistas extremistas armados. As operações militares estender-se-ão “pelo tempo que for necessário”, como disse o presidente François Hollande da França, ecoando a mesma lógica do governo Bush, quando pela primeira vez declarou sua “guerra ao terror”.

Mali, um país dividido - ao sul um governo golpista, ao norte (hachurado em vermelho  claro) governado pela al-Qaeda e seus associados
Mas, por convidativo e simples que pareça, o cenário no Mali é extremamente complexo, intrincado e imprevisível. Nenhum cronograma conseguiria dar conta, em termos simples, da crise que devasta o país. Mesmo assim, já se sabe que parte considerável do problema são os vastos arsenais de armamento pesado contrabandeados para o Mali, a partir da Líbia, e empurrados para lá seguindo os ventos da guerra da OTAN.

Aconteceu que, com as novas armas, criou-se ali um novo equilíbrio de poder. Desfeito o exército de Gaddafi, que incorporara legiões de tuaregues, os tuaregues – povo local historicamente oprimido no Mali – voltaram aos seus territórios originais, já como experientes combatentes das muitas milícias islamistas do deserto. Assim, se desenvolveram duas linhas simétricas e simultâneas de levantes: no norte e no sul do Mali.

No norte, o Movimento Nacional dos Tuaregues pela Libertação do Azawad (MNLA) declarou-se independente; rapidamente, os movimentos Ansar al-Dine, Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (AQIM) e Movimento por Unidade e Jihad na África Ocidental (MUJAO) associaram-se ao MNLA.

Amadou Sanogo
(Golpista pró EUA)
No sul, o capitão do exército Amadou Haya Sanogo, treinado nos EUA, comandou o golpe de Estado que derrubou, em março, o presidente Amadou Toumani Touré.

O script da luta no Mali andou tão depressa, que deu a impressão de que não restaria escolha senão um confronto armado iminente entre o sul e o norte. A França, velho senhor colonial que reinou no Mali, rapidamente jogou sobre a mesa a carta militar; e diligentemente cuidou de envolver os próprios países africanos nessa guerra europeia.

O plano previa fazer crer que a intervenção seria resultado de esforço dos africanos, com as “grandes democracias ocidentais” oferecendo simples apoio político e logístico. De fato, dia 21/12 o Conselho de Segurança da ONU aprovou o envio de uma “força africana” (3.000 soldados) da Comunidade Econômica de Estados do Oeste da África [orig. Economic Community of West African States (ECOWAS)] para caçar militantes do norte, pelo vasto deserto do Mali.

Mas essa guerra estava agendada para setembro de 2013, de modo a permitir que a França formasse uma frente ocidental unida e treinasse as fragmentadas forças do Mali. A explicação oficial é que os militantes capturaram a cidade de Konna, próxima à capital Bamako, o que teria forçado os franceses a intervir no Mali, e sem qualquer mandato da ONU. A guerra, feita em nome da defesa de direitos humanos e da integridade territorial do Mali, já disparou protestos de inúmeras importantes organizações de defesa dos mesmos direitos humanos, que já listam os crimes cometidos por forças estrangeiras e aliados, entre os quais o próprio exército do Mali. E a guerra que até aqui parece ser operação fácil de conquista pelos franceses, fez babar também outras potências ocidentais, que já lambem os beiços, antevendo a possibilidade de acesso liberado ao Mali, que só muito dificilmente conseguirá construir, no curto prazo, qualquer tipo de governo central forte.

E as "bombas pacificadoras" da França caem sobre o Mali
Dia 25 de janeiro, a página sobre o Mali da African Press Agency já apareceu coberta de ofertas de solidariedade, com várias “grandes democracias” ocidentais já acorrendo a ajudar a França. As ofertas iam da Itália “que enviará aviões para auxiliar no transporte de soldados para o Mali”, à Alemanha, “que prometeu ajuda para a intervenção no Mali”. Quem tenha insistido em diálogo político, sobretudo porque qualquer tipo de divisão étnico-sectária devastará o país por décadas futuras, viu seus argumentos cair em ouvidos surdos. E o Reino Unido, ainda segundo a APA, ofereceu-se para auxiliar o Mali a encontrar um “mapa político do caminho”, que vise a dar segurança ao “futuro político do país oeste-africano”.

Enquanto França, EUA e países da União Europeia – as “grandes democracias” ocidentais de sempre – definem o futuro do Mali com aviões de guerra, soldados e “mapas políticos do caminho”, o próprio país está tão desesperadamente fragilizado e tão politicamente desfigurado, que não se pode nem cogitar de alguma possível resistência contra desígnios ocidentais.

Para G4S e outras empresas privadas ditas “de segurança”, o Mali está agora no topo da lista de mercados africanos emergentes “para empresas que vendam segurança”. Nigéria e Quênia aparecem também na lista, com altas chances de ganharem maior destaque em futuro próximo.
As "grandes democracias ocidentais protegendo" o Mali e o Níger
Da Líbia ao Mali vai-se formando uma história bem típica, na qual se casam oportunidades para todos os tipos de negócios, e contratos lucrativos. Quando empresas privadas de segurança falam de mercados africanos emergentes, deve-se imediatamente entender que o continente inteiro, mais uma vez, virou presa da ambição de militares, por um lado, e de empresários do submundo, por outro lado.

Enquanto a G4S vai dando novo polimento à sua griffe comercial imunda, centenas de milhares de refugiados africanos (800 mil, só no Mali) continuarão naquela jornada sem fim por fronteiras desconhecidas e desertos inclementes. A segurança dos refugiados não dá lucro a ninguém. Nenhuma empresa privada tem qualquer proposta de segurança a oferecer a refugiados sem vintém.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A hora mais escura* no Mali


26/1/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Booooooooooooom-dia, Vietnã! [1] Epa! Não, desculpem. O poço de areia movediça & beco-sem-saída agora é outro.

A trilha sonora, daquela vez, foi Hendrix, Jefferson Airplane, Motown e Stax. Agora é Booooooooooooom-dia, Mali! E a trilha sonora bem poderia ser alguma coisa tão transcendental quanto Dounia [2], de Rokia Traore, ou tão deliciosamente psicodélico quando Amadou e Mariam em Dimanche à Bamako. [3] Mas a coisa é muito mais ameaçadora. Algo como – inescapável – Hendrix em Machine Gun. [4]

O timing – no momento de expansão da Guerra Global ao Terror – é tudo. A vingança contra o que foi feito à Líbia, cuidadosamente coreografada para o Sahel, não poderia ser substituto melhor para a gigantesca bandeira de rendição que a OTAN está levantando no Afeganistão. Não há mais Boooooooooooooooom-dia, Cabul! E começou a triste contagem regressiva para ver o último helicóptero da OTAN fugindo de Bagram ao estilo Saigon-1975.

Kalashnikov AK-104s
The Economist – a voz da City de Londres – já está até promovendo um “Afriganistão”. Claro. Há nuances. No Afeganistão, quem chutou a bunda da OTAN foi grupo sortido de várias facções pashtuns, reunidas como se fossem “os Talibã”. Mas a OTAN “venceu” na Líbia. Como era de prever, a brigada islamista que atacou no complexo de extração de gás em In Amenas no deserto da Argélia, portava Kalashnikov AK-104s, mísseis F5, morteiros 60 mm, tudo distribuído ali pela OTAN. E – um toque a mais à moda CCGOTAN – vestiam os uniformes camuflados “pastilha de chocolate” que o Qatar distribuiu aos rebeldes da OTAN na Líbia (beges, com manchas marrons). O que mais falta? Aparecerem na capa de Uomo Vogue?

Sou o bicho bicho-papão de vocês

Inevitavelmente, o bicho-papão sempre à mão – a al-Qaeda – voltou à moda, com toda a nuvem de grupos e subgrupos de jihadistas salafistas promovidos pelo trio francês-anglo-USAmericano como fonte de todo o mal no norte da África (menos na Líbia, onde eram elogiados como “combatentes da liberdade”).

Mokhtar Belmokhtar
Mokhtar Belmokhtar, um dos membros fundadores da al-Qaeda no Maghreb Islâmico [orig. al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)], é, para todas as finalidades práticas, remix facilmente deglutível de Osama bin Laden. Belmokhtar foi um clássico “afegão árabe” – parte daquela legião multinacional treinada pelo eixo CIA/ISI para combater os soviéticos no Afeganistão dos anos 1980s. Ao voltar à Argélia em 1993, uniu-se à jihad local como parte do Grupo Salafista para Oração e Combate [orig. Salafi Group for Preaching and Combat (GSPC)].

Desde 2007, a AQIM estava muito próxima do Grupo Islâmico Líbio de Combate [orig. Libyan Islamic Fighting Group (LIFG)], cujos combatentes foram também treinados no Afeganistão pela CIA/ISI. E todo o tempo o LIFG foi convenientemente manipulado pela CIA e o MI6 contra o coronel Muammar Gaddafi.

Depois do assassinato premeditado [orig. targeted assassination] de Gaddafi, a AQIM foi devidamente armada pelo LIFG (recebeu também legiões de jihadistas). Portanto, não surpreendentemente, muitos combatentes do LIFG participaram do raid em In Amenas. Além disso, a AQIM é também muito próxima da Frente al-Nusra na Síria, que Washington definiu como organização terrorista (mas nada vê de terrorista na nada coesa “coalizão” que quer derrubar Bashar al-Assad).

O xis da questão é que o Qatar financia todos esses: a AQIM, o grupo dissidente MUJAO, as brigadas de Belmokhtar e o movimento salafista Ansar El-Dine, um bando de apóstatas wahhabistas, que absolutamente nada têm a ver com a tolerante cultura do Mali.

O que sobra é o absolutamente perfeito pretexto para a OTAN entrar na dança no norte da África, depois da humilhante derrota que sofreu no Afeganistão. Mas... esperem! O AFRICOM já está lá! A Argélia – república árabe secular que historicamente sempre apoiou a União Soviética e a revolução cubana – bem fará se repatriar, o mais rapidamente possível, os seus US$50 bilhões de reservas que estão depositadas em bancos ocidentais. Mais dia menos dia, a hidra AFRICOM/OTAN aparece para devorar vocês!

Alguém aí topa um pouco de Islamo-gangsterismo?

Amadou Sanogo
Por hora, temos o espetáculo de Paris envolvida na “limpeza” do Mali, não só contra os islamistas armados – estranhos à cultura do Mali – mas também contra os tuaregues nativos, também armados e que têm demandas legítimas. O plano máster é apoiar o regime absolutamente corrupto em Bamako, que chegou ao poder pela via de um golpe militar comandado pelo capitão Amadou Sanogo, treinado em Fort Benning (EUA).

Esse é o sumo da história dessa nova mission civilisatrice [missão civilizatória, em fr. no orig.], escondida por trás de conveniente cortina de fumaça cortesia da ONU: vários países africanos, todos empobrecidos, que pagaram quase toda a conta – e oferecerão os 5.800 soldados necessários para constituir mais uma dessas siglas inacreditavelmente ridículas que a ONU inventa, AFISMA (African-led International Support Mission in Mali / Força Internacional Africana para Missão de Apoio no Mali). Quem pagará por tudo isso, que por hora não passa de total confusão? Na próxima 3ª-feira haverá uma reunião na Etiópia, dos proverbiais, sempre relutantes, “doadores internacionais”.

Mesmo na França, ninguém sabe quem luta contra quem nem quem, de fato, é aquele pessoal. Leiam (em francês), no blog rue89,[5] o hilário pântano semântico em que se debatem os franceses. O Le Monde acredita ter resolvido o enigma: Paris combate(ria) o “islamo-gangsterismo”.

Nessas Folies de Pigalle no deserto, Washington estará “liderando pela retaguarda”. Bem espertos. Melhor guerra clandestina, que todos assistirem ao afundamento no pântano. Os franceses – com típica grandeur galesa – prosseguirão mergulhados na ilusão de que, em breve, controlarão o deserto do Mali. Verdade é que não conseguirão controlar nem as algas do rio Niger, porque ali se combaterá uma longuíssima guerra nômade. Cresce a possibilidade de muitos Dien Bien Phus, com os franceses atacados também pela areia.

E, no instante em que a população terrivelmente empobrecida do Mali – a qual, por hora, está a favor de o país livrar-se da AQIM, do MUJAO, das gangues de Belmokhtar e dos Ansar al-Dine – pressentir o mais leve indício de ocupação neocolonial, os franceses conhecerão derrota no Mali, igual a que os USAmericanos conheceram no Iraque e no Afeganistão.

É iluminador ver essas coisas do ponto de vista da política externa do governo do presidente Obama 2.0, como apareceu delineada (muito vagamente) no discurso de posse. Obama prometeu por fim às guerras USAmericanas (guerras clandestinas são mais baratas). Prometeu cooperação multilateral com aliados (mas quem manda é Washington), negociação (será do nosso jeito, ou dê o fora) e nenhuma nova guerra no Oriente Médio.

A acreditar-se no que disse o presidente, a tradução é: nada de EUA fazerem guerra à Síria (só do tipo clandestina-suja); nada de Bombardeiem o Irã! (só sanções assassinas); e a França ganha a medalha do Mali. Será que ganha? Esse filme muito vagabundo, atenção, está só começando.



Nota dos tradutores
*Título em português do filme Zero Dark Thirty (2012). Trailer a seguir:  

_____________________________

Notas de rodapé

[1] Assista  o filme Bom-dia, Vietnã; completo (legendado) a seguir:







[5]  22/1/2013, Rue 89, Zineb Dryef em: Jihadistes, islamistes... ? Comment nommer l’ennemi au Mali

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Pepe Escobar: Guerra ao Terror “forever”


23/1/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The roving eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
E o vencedor do Oscar de Melhor Sequência de 2013 vai para... A Guerra Global ao Terror [orig. Global War on Terror (GWOT)], produção do Pentágono. Abandonai toda a esperança, vós que pensastes que a coisa não passaria da conversa fiada sobre o passamento dessa p’ra melhor, de “Jerônimo”, codinome Osama bin Laden, já reduzido a reles figurante de Zero Dark Thirty, filme-aula de tortura.

Agora já é informação oficial – emitida pela boca do leão, Comandante do Estado-Maior dos Comandantes das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey, e devidamente postado no site do AFRICOM, braço africano armado do Pentágono.

Martin Dempsey
Sai de cena a al-Qaeda “histórica”, enfiada lá em algum buraco dos Waziristões, nas áreas tribais do Paquistão. Entra em cena a al-Qaeda no Maghreb Islâmico [orig. al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)]. Nas palavras de Dempsey, a AQIM “é uma ameaça não só ao Mali, mas a toda a região. (...) E se não for contida, pode, de fato, converter-se em ameaça global”.

Com o Mali já elevado à categoria de “ameaça” global, comprova-se que a Guerra Global ao Terror é realmente sem fim. O Pentágono não distribui frases de efeito. Quando, no início dos anos 2000s, os guerreiros-de-poltrona cunharam a expressão “A Longa Guerra”, falavam, mesmo, de guerra muito, muito longa.

Mesmo com a doutrina do governo 2.0 do presidente Obama de “liderar pela retaguarda”, não resta qualquer dúvida de que o Pentágono caminha diretamente para guerra no Mali – e ninguém cogita de guerrear nas sombras. O general Carter Ham, comandante do AFRICOM, já opera sob o pressuposto de que os islamistas no Mali “atacarão interesses dos EUA”.

Portanto, nesse momento já estão sendo enviados os primeiros 100 “conselheiros” militares dos EUA rumo ao Niger, Nigéria, Burkina Faso, Senegal, Togo e Gana – os seis países-membros da Comunidade Econômica dos Estados da África Oriental [orig. Economic Community of West African States (ECOWAS)] que integrarão um exército africano que terá a tarefa (dada a eles por Resolução da ONU) de reconquistar (invadir?) as partes do Mali que estão sob controle do enxame de islamistas da AQIM, do MUJAO (grupo que se separou da AQIM) e da milícia Ansar ed-Dine. Claro: esse miniexército africano é pago pelo ocidente.

Quem estude a Guerra do Vietnã logo lembrará que enviar “conselheiros” foi o primeiríssimo passo que os EUA deram na direção de afundarem-se completamente no pântano no qual só depois perceberam que se haviam metido. Ironia suprema nada Pentagônica à parte, os EUA já há vários anos sim, deram instrução e treinamento a tropas do Mali. Muitos desertaram logo depois de treinados. Um desses, que recebeu treinamento nos EUA, em Fort Benning, o capitão Amadou Haya Sanogo, não só comandou um golpe militar contra o governo eleito do Mali, como também criou as condições indispensáveis para o avanço dos islamistas.

Carter Ham
Mas ninguém está prestando atenção a esses detalhes. O general Carter Ham está tão excitado com a possibilidade de o seu AFRICOM ganhar mais luzes e caixas de som que o Led Zeppelin nos grandes dias, com ele próprio apresentado pessoalmente ao mundo como salvador (o Carter da África?), que não toma nem tomará conhecimento de fato histórico algum.

O general parece ter esquecido que o AFRICOM – e, então, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN – deram total apoio (e armaram) os rebeldes-da-OTAN na Líbia, quando lutavam guerra cara à cara contra Muammar Gaddafi. O general sempre soube que a al-Qaeda no Maghreb Islâmico “tem muito dinheiro e muitas armas”.

Apesar disso, ainda diz que “mercenários pagos por Gaddafi” teriam desertado, deixado a Líbia e levados suas armas, “muitas das quais chegaram ao norte do Mali”.

Nã-nã-não, general! Nunca foram mercenários de Gaddafi; a maioria deles eram rebeldes pagos pela OTAN, os mesmos que atacaram o consulado dos EUA, que sempre foi base da CIA, em Benghazi; os mesmos que tomaram a direção da Síria; os mesmos que agora aparecem por todo o Sahel.

Assim sendo... como a Argélia entra nisso?

David Cameron
Na sequência, na imediata rabeira, o primeiro-ministro David Cameron seguiu a Voz do Mestre e anunciou que a intervenção no Mali durará anos, “talvez décadas”. 

Nessa 3ª-feira, o crème de la creme do establishment da inteligência britânica reúne-se para planejar, nada mais nada menos, que uma guerra pan-Saara/Sahel, para a qual querem mais uma “coalizão de vontades” à moda Bush”.  Para o momento, o envolvimento dos britânicos significa ainda mais “conselheiros” das categorias “cooperação militar” e “treinamento de segurança” de sempre, montanhas de dinheiro e, por fim mas nem por isso menos importante, Forças Especiais do tipo que fazem guerra nas sombras.

O cenário se completa com outro providencial “Jerônimo”: Mokhtar Belmokhtar, codinome “O Incapturável” (para a inteligência francesa), comandante do MUJAO e cérebro pensante por trás do raid contra o campo In Amenas de extração de gás na Argélia.

Já não vimos esse filme?! Claro que vimos. Mas agora – já é oficial – o Mali é o novo Afeganistão (como o jornal Asia Times Online já informou via redecastorphoto em Queima, arde, padece o Afeganistão africano, 18/1/2013.

Eis o que disse Cameron: “Assim como tivemos de lidar com o Paquistão e o Afeganistão, agora o mundo tem de unir-se para lidar com essa ameaça na África do Norte”. Certo. Belmokhtar já está ensaiando para uma rápida intervenção, como figurante, no roteiro que está sendo redigido da continuação de Zero Dark Thirty.

Já está bem claro o pé em que ficam as “relações especiais” anglo-americano – Pentágono – AFRICOM / inteligência britânica com a França sob a presidência de François Hollande, reconvertido à função de senhor-da-guerra, na “liderança” (momentânea) rumo à Operação Beco-sem-saída Africano. Fato absolutamente crucial é que ninguém na União Europeia, exceto os Brits, é suficientemente doido para seguir as pegadas de Hollande, neossenhor-da-guerra.

Mas ainda não se sabe onde fica a Argélia, chave de toda a equação, do ponto de vista da Guerra Global Ocidental contra o Terror.

Mokhtar Belmokhtar
Fato número 1: o novo “Jerônimo”, Belmokhtar, e sua Brigada Mulathameen [“Os Mascarados”], da qual o Batalhão “Assinaturas de Sangue” que atacou na Argélia é um subgrupo, mantém laços próximos, íntimos, com o serviço secreto da inteligência da Argélia. Em certo sentido, vê-se aí um remix das relações que havia entre os Talibã – e a al-Qaeda “histórica” – e o serviço secreto da inteligência do Paquistão (ISI).

A reação ultra duríssima dos militares da Argélia ao raid dos islamistas era previsível (já reagiam assim nos anos 1990s durante a guerra interna contra a Frente de Salvação Islâmica). Não negociamos com terroristas: nós os matamos (mesmo que morram também muitos reféns). Fazemos tudo sozinhos, sem estrangeiros que metem o nariz em tudo. E, em seguida, descemos pesada cortina sobre qualquer tipo de informação ou noticiário.

Não surpreendentemente, esse modus operandi fez subir uma longa fieira de sobrancelhas em todo o campo do “relacionamento especial” anglo-norte-americano. Daí a “conclusão” a que chegaram Washington / Londres: não se pode confiar nos argelinos. Nossa Guerra Global ao Terror – capítulo Saara / Sahel – terá de ser lutada sem eles. Muito provavelmente, isso sim, contra eles.

Fator complicador grave é que os cerca de 40 islamistas (ou mais) entre os quais havia líbios, sírios e egípcios atravessaram 1.600 quilômetros, no mínimo, de alto deserto, vindos da Líbia, não do Mali. Não teriam chegado ao fim da viagem se não tivessem recebido efetiva “proteção” – algo como alguma potência estrangeira que forneceu informações de inteligência a gente importante de dentro do governo da Argélia. Reféns resgatados disseram que os sequestradores falavam “inglês com sotaque norte-americano” (entre os quais um canadense que a Reuters batizou de “Chedad”) e que sabiam exatamente onde encontrar os estrangeiros dentro do complexo da usina. 

O professor Jeremy Keenan, da Escola de Estudos Orientais e Africanos em Londres, fala de uma operação de forças da Argélia, mascarada como se fosse operação de grupos terroristas, que saiu pela culatra. Argel parece ter querido sinalizar para o ocidente que se a França se pusesse a bombardear o Mali haveria retaliação inevitável; mas durante o desenrolar dos eventos, Belmokhtar decidiu inverter completamente o jogo, porque se enfureceu quando a Argélia abriu seu espaço aéreo para a passagem dos aviões franceses que bombardeariam o Mali. Em mais de um sentido, é remix da revolta dos Talibã contra o ISI paquistanês.

A opinião pública na Argélia suspeita, para dizer o mínimo, dos motivos de praticamente todos os envolvidos, entre os quais também do governo da Argélia e sobretudo da França. No blog maghrebino The Moon Next Door lê-se uma amostra fascinante de o que e como os argelinos pensam hoje.

Vale a pena fazer aqui uma longa citação desse artigo, escrito por um professor de ciência política, porque aí se resume o modo como o pensamento local vê e expõe a “liderança” francesa, no novo capítulo da Guerra Global ao Terror.

Ahmed Adimi
Em entrevista ao diário Le Soir d'Algerie, o professor de ciência política, Ahmed Adimi descreve a intervenção como tentativa para “minar a Argélia” e “um passo no plano de instalar forças estrangeiras na região do Sahel”. A tese de Adimi é que a França trabalhou durante anos para desestabilizar o Sahel como modo de fortalecer a sua posição geopolítica.

Perguntado sobre se a operação francesa no Mali teria sido consistente com a Resolução n. 2.085 do Conselho de Segurança da ONU, Adimi diz que a resolução “não é problema grave. As potências ocidentais têm usado essas resoluções para justificar suas operações militares. Já aconteceu no Iraque. De fato, a operação francesa pode parecer legal, dado que foi empreendida a pedido do atual presidente do Mali. Mas deve-se lembrar que o atual governo chegou ao poder por golpe de Estado. Quanto à intervenção, era sem dúvida previsível, mas os franceses precipitaram as coisas. (...) Aqueles grupos terroristas estão sendo manipulados pelas potências estrangeiras”. Diz também que esses grupos tiveram “autorização” para andar na direção do sul, para Konna, para assim justificar a intervenção francesa.

Para Adimi, os algerianos “há tempo soam o alarme sobre a situação no Sahel em geral. Ahmed Barkouk e eu organizamos vários seminários sobre essa questão. Discutimos o papel da França e seu compromisso na região. A França esteve por trás da criação do movimento pelo Azawad. Falo é claro da organização política, não do povo do Azawad, que tem direitos como comunidade. Os franceses sabiam que sua intervenção na Líbia levaria os militares tuaregues pró-Gaddafi a retornarem ao Mali. Também planejaram a distribuição de muitas armas líbias entre os grupos do Sahel. A meta é converter a região num novo Afeganistão. É resultado de um longo planejamento”.

Tariq Ramadan
Tariq Ramadan, em artigo devastador, também desmascara Paris, expondo a conexão entre a tortuosa intervenção “humanitária” de Sarkozy na Líbia e ao atual ímpeto de Hollande para proteger “um país amigo” – e, isso, depois de anos de hipocrisia francesa que jamais deu qualquer atenção ao “povo sofredor” que sofria sob o tacão de incontáveis ditadores africanos.

Mas o Oscar para o Cenário mais Hipócrita vai, sem dúvida, para as atuais “graves preocupações” franco-norte-americanas sobre o Mali ser hoje o novo playground da al-Qaeda, quando já se sabe que os principais playgrounds são mesmo o norte da Síria, onde a al-Qaeda é apoiada pela OTAN (até a fronteira turca); o norte do Líbano e grandes partes do território líbio.

Sigam o ouro e sigam o urânio

Mesmo antes de que se possam analisar com alguma profundidade todas as muitas ramificações – algumas não previstas – da Guerra ao Terror expandida, há duas pistas a seguir atentamente no futuro próximo: o ouro e o urânio. 

Seguindo o ouro. Várias nações têm montanhas de ouro depositadas no New York Federal Reserve. Dentre elas destaca-se, hoje crucial, a Alemanha. Recentemente, Berlim começou a pedir que seu ouro físico seja repatriado: 374 toneladas depositadas no Banco da França e 300 toneladas das 1.500 toneladas depositadas no New York Federal Reserve.

Franceses e norte-americanos imediatamente pensaram: “Ficaremos sem ouro algum!” A operação de repatriação do ouro se prolongará por sete anos, no mínimo. Resumo: Paris e Washington / New York têm de comparecer com ouro, de verdade, seja como for.

É onde o Mali encaixa-se belamente. O Mali – com Gana – é responsável por mais de 8% da produção global de ouro. Se você estiver desesperadamente carente do produto genuíno – ouro físico – é indispensável controlar o Mali. Imaginem se todo aquele ouro acaba em mãos da... China?!

Agora, sigamos o urânio. Como todos os que viveram de perto a saga do yellowcake [concentrado de urânio] do Niger antes da invasão do Iraque, o Niger é o quarto maior produtor mundial de urânio. O principal comprador é – adivinhem... – a França; metade da energia elétrica da França é produzida por energia nuclear. As minas de urânio no Níger   estão concentradas no noroeste do país, na face ocidental das montanhas Air, bem próximas da fronteira com o Mali – e uma das regiões que os franceses estão bombardeando.

Região dos Tuaregs (hachurada) e ouro... e urânio...
A questão do urânio mantém íntima ligação com sucessivas rebeliões dos tuaregues; não se pode esquecer que, para os tuaregues, não há fronteiras nacionais no Sahel. Todas as recentes rebeliões tuaregues no Niger aconteceram em território de urânio – na província de Agadis, próxima da fronteira do Mali. Assim, do ponto de vista dos interesses franceses, imaginem o risco de os tuaregues passarem a controlar aquelas minas de urânio – e porem-se a fazer negócios diretamente com... a China?! E Pequim, por falar dela, já está presente naquela região.

Hollande (França) em assalto ao Mali
Todo esse jogo crucial de poder estratégico – o “ocidente” enfrenta a China na África, com o AFRICOM dando “uma mão” a Hollande, neossenhor-da-guerra e assumindo a perspectiva da Longa Guerra – de fato é mais decisivo que a síndrome da retaliação. Não é crível nem pensável que os serviços de inteligência britânico, francês e dos EUA não tenham previsto os efeitos em cascata e eventuais efeitos da “guerra humanitária” da OTAN contra a Líbia. A OTAN é aliada muito íntima dos salafistas e dos Jihads salafistas – temporariamente apresentados como “combatentes da liberdade”. Eles sabiam que o Mali – e todo o Sahel – imediatamente depois, seria inundado de armas.

Não, não foi por acaso. A expansão da Guerra Global ao Terror para o Saara/Sahel foi construída passo a passo. Guerra Global ao Terror é maná que nunca acaba de chover sobre os interessados: o que mais poderia interessar ao complexo industrial-militar-segurança-midiático franco-britânico-USAmericano, que um novo teatro de guerra?

Oh, yes! Há também o tal “movimento de pivô” em direção à Ásia. Muita gente daria um dedo – extraído à moda dos radicais – para saber como e quando virá o contragolpe de Pequim.