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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Papai-Noel-ização de Martin Luther King, Jr.


1/2/2013, David Sirota*, In These Times
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Martin Luther King, Jr. discursando em 1967
Quando militares dos EUA tuitam citações de MLK como se apoiasse a guerra, você pode ter certeza de que as coisas vão mal, muito mal – para os militares dos EUA.

Todos os anos, entre o Dia de MLK e o início do Mês da História dos Negros, o esforço para distorcer e falsificar o legado e a vida de King parece intensificar-se. Às vezes, veem-se conservadores a mentir que, se King vivesse hoje, já estaria filiado ao Partido Republicano Neoconfederado. Noutros anos, é enganação por omissão – ouvem-se reproduções do discurso de 1963 “Eu tenho um sonho”... mas não se ouve uma linha sequer de qualquer de seus muitos discursos contra a guerra e a miséria.

Cornel West
Cornel West, professor de Princeton, chama a esse processo a “Papai-Noel-ização” do Dr. King. E se você já ouviu ou leu alguma vez qualquer fragmento do Discurso de 1967 na Igreja de Riverside, entenderá o quanto a expressão é adequada.

Entenderá também por que, dessa vez, em 2013, a mais grotesca tentativa para Papai-Noel-izar a vida de Martin Luther King é repugnante, mas, de certo modo, também muito estimulante.

Em 2013, os Marines dos EUA comemoraram o Dia de Martin Luther King (terceira 2ª-feira de janeiro) tuitando aquela frase famosa de King “Homem que não abrace alguma causa pela qual se disponha a morrer, também não está preparado para viver”. Foi tentativa nada sutil de usar o nome e a memória de King, apresentando-o como se algum dia tivesse apoiado alguma guerra.

Glenn Greenwald
Glenn Greenwald do The Guardian foi o primeiro a observar: o Comando das Forças Aéreas de Ataque Global dos EUA [orig. US Air Force's Global Strike Command] postou semana passada um ensaio online no qual afirma que o Dr. King, se vivo fosse, estaria saudando nossos soldados “que trabalham para que as mais poderosas armas que há no arsenal dos EUA continuem a servir como fundamento e pilar central confiável de nossa defesa nacional”. E para os Marines, a “Força Aérea, assegurando nosso compromisso com nossa equipe de Ataque Global (...) é tributo adequado que prestamos ao Dr. King”. Simultaneamente, os Marines comemoraram o Dia de MLK tuitando a conhecida frase de King, numa tentativa nada sutil para pintar o Dr. King como apoiador de guerras.

Aconteceu depois de um artigo de 2011, postado na página Internet do Departamento de Defesa, sob o título: “Dr. King compreenderia as nossas atuais guerras, diz advogado do Pentágono”.

Nesse contexto, é preciso voltar à excepcional importância do Discurso na Igreja Riverside – exatamente o discurso e o pensamento que o processo de Papai-Noel-ização tanto trabalha para apagar da história.

Naquela fala, o mais famoso e empenhado pregador norte-americano pela não violência lastimava que “Uma nação que continua, ano após ano, a gastar mais dinheiro com militares e armamentos, do que com programas de promoção social, já se aproxima perigosamente de um estado de morte espiritual”.

Dizia também que o militarismo não ajuda a proteger os EUA; denunciava “o grande incentivador e distribuidor de violência e dor em todo o mundo hoje: o governo dos EUA, meu próprio governo”. E insistia que “nada, exceto um trágico desejo de morte, nos impede de reordenar nossas prioridades, de modo a que trabalhemos mais em busca da paz, do que em busca da guerra”.

Comparando o revisionismo histórico do Pentágono e as verdadeiras palavras de King, Greenwald observa:

“Os militares dos EUA dizem agora, publicamente, que o homem que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964, e crítico feroz do imperialismo norte-americano, seria admirador de arsenais nucleares, de programas de assassinatos em massa, do emprego clandestino de técnicas de violência em vários países do mundo, inclusive em países com os quais os EUA não estão em guerra. Anotar aqui esse tipo de propaganda pró-guerra já é comprovar o quanto há nela, de repugnante”.

Greenwald está absolutamente certo: a propaganda do Pentágono é repugnante. Mas é muito estimulante constatar que esse tipo de propaganda expõe, muito visível, um sistema político no qual a extensão das mentiras mostra a extensão do desespero.

Nesse caso específico, a facilidade com que o Pentágono mente sobre o que MKL disse e foi, é prova de alucinado desespero, de quem tenta, já arrastado pelo pânico, alterar as tendências da opinião pública. O Pentágono já dá sinais de saber que, segundo todas as pesquisas, mais e mais norte-americanos começam a redescobrir as perguntas que King propôs sobre gastos do governo norte-americano para manter exércitos assassinos e contra a opção pelo militarismo, sobre todas as prioridades sociais.

Quando a propaganda do Pentágono já tenta descaradamente Papai-Noel-izar Martin Luther King, fazer com que todos esqueçamos quem foi ele e por que lutou e morreu, o que se vê é que, afinal, temos, cada dia mais, de honrar a sua luta e o seu legado.

A propaganda do Pentágono é vergonhosa e imperdoável, sim. Mas é estimulante sinal, também, de que nos aproximamos, sim, hoje, mais do que nunca, de realizarmos o sonho de Martin Luther King.


David Sirota* é editor sênior e colunista do blog In These Times; é escritor e seu livro mais vendido foi “Back to Our Future: How the 1980s Explain the World We Live In Now—Our Culture, Our Politics, Our Everything” lançado em 2011. Seus livros anteriores são: “The Uprising” e “Hostile Takeover”; também é co-apresentador do programa de rádio “The Rundown” na AM630 Khow no Colorado.
E-mail: ds@davidsirota.com  
Twitter: @davidsirota   

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Guerra ao Irã: Cuidado! Os “especialistas” estão chegando!


31/10/2012, David Sirota, Salon
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Se você é político norte-americano, deseja começar guerra contra o Irã e também deseja ser reeleito, você tem problemas. Depois de mais uma década de guerras, pesquisas mostram [1] que dos dois lados, entre Republicanos e Democratas, os eleitores querem menos intervenção militar em terras distantes. Contudo, também há pesquisas que mostram [2] que uma mínima maioria consideraria a ideia de apoiar uma guerra contra o Irã se se descobrisse que o país estivesse construindo armas nucleares.

Essa deve ser a explicação para ainda haver tanta gente [3] favorável a mais guerras, políticos e jornalistas, [4]que não se cansam de repetir que o país está(ria) cansado de saber que, sim, o Irã está(ria) construindo armas nucleares. E, por causa dessa martelação incansável, há pesquisas que mostram que muitos norte-americanos creem piamente que, sim, o Irã está(ria) construindo as tais armas.

Nada, contudo, mais longe da verdade. Apesar de matéria, semana passada, no New York Times  [5] sobre a usina Fordo, no Irã, insistir ainda em criar o fantasma de um Irã nuclear, a verdade é que: (a) a Agência Internacional de Energia Atômica [6] e (b) todo o aparato de inteligência dos EUA já disseram que não há prova alguma, até agora, de que o Irã esteja construindo armas nucleares.

Mapa aerofotogramétrico de instalações nucleares do Irã
O próprio Times [7] informava, há alguns meses, sob a manchete “Agências da inteligência dos EUA não veem qualquer movimento na direção de o Irã construir armas nucleares”; e o jornal também informava que “avaliação feita pelas agências de espionagem dos EUA confirmam amplamente informes de 2007, segundo os quais o Irã abandonou, já, há anos, seu programa de armas nucleares”. Na sequência, o mesmo Times acrescentava que “essa avaliação foi amplamente reafirmada num [documento] 2010 National Intelligence Estimate; e permanece como avaliação consensual das 16 agências de inteligência dos EUA”.

Nos meses vindouros, à medida em que a ideia de guerra plena contra o Irã vai-se tornando mais real e mais central na política dos EUA, essas informações de inteligência provavelmente serão desmentidas. Simultaneamente, muitos começarão a perguntar-se por que os EUA estarão iniciando mais uma guerra “preventiva” no Oriente Médio, se os espiões norte-americanos são tão incompetentes e nossa inteligência tão trapalhona.

O debate, se chegar a esse ponto, conseguirá, provavelmente, corroer ainda mais o já menos que morno apoio que tem hoje a guerra com o Irã. O que nos levará de volta ao problema inicial dos políticos pró-guerra – como conseguirão continuar a defender a ideia de mais guerra?

Como já apareceu em recente entrevista com um dos principais congressistas da Comissão de Segurança Nacional, a resposta é: eles farão o diabo para convencer o país de que guerra não é guerra, recurso sempre útil quando não há argumento que ajude a promover guerra altamente impopular. É o que já se vê nesse vídeo da CNN, pouco divulgado, de entrevista com o presidente (Republicano) da Comissão de Inteligência da Câmara de Deputados Mike Rogers. [8]

Mike Rogers
Como ThinkProgress alerta [9], a única notícia, naquele vídeo, é que Rogers começa a introduzir na discussão geral um argumento vicioso, a saber: que bombardear o Irã nos levará “a um passo da guerra”.

Vê-se aí uma tendência perturbadora, porque esse linguajar orwelliano é assustadoramente semelhante ao usado pelo governo Obama, quando tentava convencer a nação de que a guerra da Líbia não seria guerra. Daquela vez, a palavra-golpe foi “ação militar cinética” [10]; agora, passaríamos a viver “a um passo da guerra”. Mas nos dois casos as palavras têm o significado que têm em discursos à moda 1984 de Orwell: guerra é paz ou, no mínimo, não é guerra-guerra-mesmo-prá valê.

O motivo superevidente desse golpe de mão é conseguir capar completamente qualquer participação democrática, nas decisões sobre segurança nacional – um dos ideais sempre presentes entre os princípios fundantes da democracia norte-americana. Afinal de contas, se a guerra já não está classificada como guerra... o presidente fica dispensado até de fingir que precisa de autorização do Congresso – que a Constituição exige – para envolver o país em conflitos militares.

A exigência de que o Congresso autorize ou não o presidente a envolver o país em guerras foi incluída na Constituição, desde o início, especificamente para assegurar que haja, pelo menos, algum debate público, nas decisões sobre guerra e paz. Mas... se já não se fala oficialmente de “guerra”, Washington pode fazer o que dê na telha de alguém lá, sem sequer ser obrigada a perguntar se o país quer o mesmo que Washington quer.



Notas de rodapé

[1] 25/10/2012, Los Angeles Times, Paul Richter em: “Most Americans want less foreign involvement, polls show”

[2] Idem Nota [1]

[3] 17/9/2012, ThinkProgress, Bem Ambruster em: “Misinformation On Iran’s Nuclear Program Pervades Sunday Talk Shows”

[4] 12/10/2012, The Guardian, Glenn Greenwald em: “Martha Raddatz and the faux objectivity of journalists”

[5] 25/10/2012, New York Times, David E. Sanger e William J. Broad  em: “Iran Said to Nearly Finish Nuclear Enrichment Plant”


[7] 24/2/2012, New York Times, James Risen e Mark Mazzetti em: “U.S. Agencies See No Move by Iran to Build a Bomb”

[8] 24/10/2012, ThinkProgress, CNN vídeo a seguir:

[9] 24/10/2012, ThinkProgress, Bem Ambruster em: “GOP Rep Says Strike On Iran’s Nuclear Facilities Would Not Be An Act Of War”

[10]  24/3/2011, Político, Jonathan Allen, em: “Kinetic military action” or “war”?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Como os anos '80s programaram os EUA (e o mundo) para a guerra

15/3/2011, *David Sirota, “Back do Our Future” [excertos] em SALON
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sejamos bem claros: eu não sabia, conscientemente, que era militarista fanático em 1988, aos 12 anos, idade em que todos somos impressionáveis. Quando fazia mira com o meu tanque G.I. Joe Snowcat Transformer e lançava um dos seus seis mísseis contra os soldados Cobra que diariamente sitiavam minha cidade LEGO, eu não sabia que, se aquilo fosse real, eu acabaria o dia sob uma pilha fumegante de sangue e pernas e braços decepados de civis inocentes. O que eu pensava era “Que demais!” 

Quando aluguei pela primeira vez o filme, para maiores de 13 anos, produzido em 1984, “Amanhecer Violento” [Red Dawn], e vi aqueles adolescentes, sob a justificativa de que estariam protegendo os EUA, matar gente a sangue frio, uma execução depois da outra, não sabia que o filme entraria no Livro Guinness, como recordista de exibição de cenas de violência extrema por minuto, da história do cinema. A única coisa que fiz foi torcer. 

E quando jogava“Contra”, no meu Nintendo NES, nunca questionei a ideia básica de dar a um jogo o nome de esquadrões de extermínio, um grupo de terroristas criado pelo governo Reagan, para que a CIA conseguisse retirar ilegalmente dinheiro do Irã. Eu me divertia batendo, batendo prá-cima-prá-cima-prá-baixo-prá-baixo-esquerda-direita-esquerda-direita-B-A, até moer completamente qualquer coisa que me mexesse naquela tela.

“A propaganda é mais efetiva quanto menos se sabe que é propaganda” – ensina Nancy Snow, especialista em relações públicas. “Numa sociedade aberta como os EUA, a natureza ocultada, integrada, da propaganda, é o instrumento pelo qual mais se convence a opinião pública de que ela não estaria sendo manipulada.” 

Perfeitamente. Por isso, nem eu nem meus pais poderíamos saber sobre o quanto os anos 80s estavam nos treinando, eu e todos os meninos que ocupávamos os porões e sótãos de casa convertidos em bunkers. Para a geração que crescera até ali com “Reading Rainbow” e “ET”, games eram instrumentos de aprendizagem. A militarização das crianças nos EUA começou nos anos 1980s, até converter-nos todos em homenzinhos verde-oliva, coturnos e capacete, armados até os dentes, comparados aos quais os escoteiros de antigamente teriam ares de militantes pacifistas. Com o Pentágono intervindo em roteiros para o cinema, na criação de videogames, cooperando com a indústria de brinquedos e agências de publicidade, com inventores de brinquedos e, não raras vezes, influindo também nas empresas publicadoras de álbuns de figurinhas de jogadores de baseball para que criassem o álbum “Operação Tempestade no Deserto” em figurinhas, sempre muito mais profecias que fantasias.

O governo Reagan e o reaganismo foram a alvorada do que a revista Wired chamou de “síndrome do complexo entretenimento-guerra”. A linha mais dura daqueles falcões forneceu o arremedo de substrato racional para uma política de criar cumplicidades entre o Estado e as famílias; e a agenda de “desregulação” ampla, geral e irrestrita da Casa Branca naqueles anos de neoliberalismo, ajudou a televisão a tornar-se o cada vez mais presente e mais influente agente da propaganda & marketing de produtos de entretenimento cada vez mais violentamente agressivos e cada vez mais militarizados, para o público infantil e juvenil.

Hoje, aquele investimento rende os lucros que se esperavam dele, bem a tempo para alimentar a atual obsessão pela guerra permanente. Hoje, por exemplo, encontram-se frequentes referências aos desenhos animados e aos bonecos de G.I. Joe dos anos 1980s nas razões que os jovens norte-americanos oferecem para alistar-se. (Artigo de outubro de 2008 em The Believer descobriu “pesquisa feita por jornal de circulação nacional, que buscava referências ao personagem G.I. Joe encontrou 35 obituários de soldados mortos no Iraque desde o início da guerra, em 2003. Naqueles obituários, familiares dos soldados mortos lembravam que, na infância, eles brincavam ‘de G.I. Joe’.) Assim também, durante a invasão do Iraque, o Pentágono batizou a operação de caçada a Saddam Hussein “Operação Red Dawn” [literalmente, “Aurora Vermelha”; mas, em português, o filme recebeu o título de “Amanhecer Violento” (NTs)], porque os oficiais diziam que o filme dirigido por John Milius [o mesmo que, adiante, seria roteirista de Coppola em Apocalypse Now (NTs)] seria “filme patriótico, pró-EUA, a que todos os militares assistimos na juventude”.

Considerando tudo isso, é possível acreditar que só por mero acaso os assessores ‘de comunicação’ de George W. Bush dedicaram-se a recriar a cena final de “Top Gun” [“Ases Indomáveis”], para comemorar a declaração feita pelo patrão deles, de vitória no Iraque? Ou que a frase de Bush, “bring them on”, nada teria a ver com a intenção de despertar adormecidas lembranças dos adolescentes de Milius no filme dos anos 80s? Será pura coincidência que o Pentágono, hoje, faça convocações para que os jovens se alistem, com material publicitário exibido em cinemas que mostra soldados em trajes-armaduras à prova de balas à “RoboCop” e a guerra como se acontecesse em cenário de ficção científica de “The Last Starfighter” [O Último Guerreiro das Estrelas, em português]?

Os estrategistas da Casa Branca e os propagandistas do Pentágono usam imagens, conceitos e informação como armas estratégicas, e sabem bem a mais eficaz dessas armas são as nostalgias construídas da infância. Sabem também que, em país no qual quase metade da população nasceu depois de 1979, algumas das memórias mais poderosas dos jovens permanecem confinadas naqueles tristes anos 1980s.

Boa parte de tudo isso se encaixa à maravilha na agenda do Pentágono. “Os jovens em idade de recrutamento citam filmes e a televisão como fonte primária de suas ideias sobre o exército e a vida militar. [Por isso, filmes e a televisão] são muito importantes [para o Pentágono]” – disse uma porta-voz do exército à PBS, citando detalhadas pesquisas com as quais o Departamento de Estado trabalha, para conhecer os hábitos dos recrutas. “É uma oportunidade para que as crianças saibam o que esperar e para saberem o que significa ser um soldado.” 

“Amanhecer Violento” é roteiro-padrão de paranóia de invasão, mas com detalhes atentamente propostos com vista a atingir jovens em idade de recrutamento. Fala de um grupo de adolescentes, numa cidade ficcionalizada (Calumet, Colorado), que se autodenominam Wolverines e que montam uma guerrilha de resistência a massivo assalto soviético à pátria norte-americana. O filme reúne amostra impressionante de adolescentes que, adiante, seriam astros: Thompson, Jennifer Grey, Patrick Swayze, C. Thomas Howell e, o hoje mais conhecido deles, Charlie Sheen, nos principais papeis.

Encontram-se no filme todas as frases da paranóia militarista, inclusive todos os slogans do mundo dos anos 80s, pós-Vietnã:

– Ideias extremistas a favor do uso indiscriminado de armas: numa das primeiras cenas do filme, vê-se um “soviético” arrancando uma arma de um cadáver norte-americano, enquanto a câmera caminha sobre um adesivo, num caminhão, em que se lê o slogan da campanha contra qualquer controle do uso de armas entre civis: “Só tirarão minha arma, se quebrarem os dedos frios, gelados, do meu cadáver”. Depois, adiante, os “soviéticos” conseguem rastrear os resistentes norte-americanos, porque encontram a lista dos proprietários de armas nos EUA que o governo diz que tem (uma das mais persistentes teorias conspiracionais, muito repetida por militares e pelos defensores do direito à posse de armas).

– O direito que os EUA teriam, de retaliar/vingar qualquer derrota que sofram em qualquer guerra: o pai de um dos adolescentes é mostrado numa gaiola, num campo de concentração, berrando ao filho: “Vingue-me”, mate o maior número possível de inimigos. Nos anos 80, esse grito bem poderia ser o hino de todos os militaristas que pregavam o retorno ao Vietnã [para “acabar o serviço”].

– Todos os políticos são bandidos, traidores e corruptos e, portanto, podem ser caluniados, denunciados sem provas etc.: o filme mostra o prefeito de Calumet como colaborador covarde, a serviço dos soviéticos, que nada faz, quando seus eleitores são cercados e assassinados. Além disso, o filho do prefeito (presidente da associação de alunos do ginásio de Calumet) pressiona os Wolverines para que se rendam e, depois, os trai. Em resumo, “Amanhecer violento” ensina que todos os políticos são covardes, corruptos e traidores [exatamente, aliás, o que TAMBÉM ensinam, todos os dias, D. Dora Kramer, D. Eliane Cantanhêde, tooooooooodos os colunistas e todos os jornalistas da Folha de S.Paulo, do Estadão, da revista (NÃO)Veja, da revista Carta Capital, o juiz Maierovich, Mino Carta, Caros Amigos e muitas outras, além de muitos petistas e do William Waack e os Bonner&Patroa e toooooooodos os embaixadores dos EUA que escrevem o que WikiLeaks, felizmente, vaza (NTs)].

– Os EUA como “o injustiçado”, uma espécie de azarão que, contudo, consegue fazer, contra tudo e todos, o que lhe cabe fazer: Do mesmo modo, a política, a mídia, toda a indústria do entretenimento nos anos 80s mobilizou-se para reapresentar os militares norte-americanos como ‘azarões’, heróis improváveis, que conseguem o impossível: ajudar “combatentes da liberdade” na América Latina; resgatar prisioneiros de guerra no Vietnã; liberar o Kuwait das garras do Iraque-bandido. Os Wolverines de “Despertar Violento” são posicionados como insurgentes superarmados, que abrem seu caminho até a vitória contra o gigante russo. “A mensagem de Despertar Violento, diz o diretor Milius, é “libertar” os oprimidos” – entendendo-se por “os oprimidos” os próprios norte-americanos, a nação mais completamente dominada pelo exército que jamais houve na história da humanidade.

Quando se refugiam numa floresta, onde se dedicam a práticas de sobrevivência antiquadas, que só o Unabomber traria novamente à pauta (beber sangue de um veado macho, como prática para selar a solidariedade entre machos, por exemplo), os Wolverines encontram um ex-piloto dos EUA que enuncia mais algumas máximas do militarismo paranoico dos anos 80s: 

– Há terroristas camuflados vivendo entre nós: “A primeira onda do ataque (pelos soviéticos) chegou camuflada em voos comerciais normais” – diz o piloto, em espantosa antevisão dos ataques que viriam no 11 de setembro.

– É imprescindível militarizar a fronteira sul: “Os infiltrados entram ilegalmente pelo México, sobretudo cubanos” – o piloto continua.

– A covardia dos aliados ocidentais justifica que os EUA gastem mais com armas, armamentos e exércitos que todas as demais nações do mundo, somadas: Quando os adolescentes perguntam se a Europa ajudará a deter a invasão soviética, o piloto diz que a Europa está “assistindo de camarote. Nenhum país europeu, exceto a Inglaterra, durará muito”. 

É preciso lembrar que quatro anos antes de esse filme chegar às telas, Ronald Reagan dera substância e voz a muitas dessas teorias, dizendo que “os soviéticos e seus amigos estão avançando” e criticou o governo Carter por “não saber ver nenhum padrão de ameaças”. Foi propaganda, na forma mais literal.

Em 1997, depois de informação de que “Despertar Violento” era um dos filmes preferidos de Timothy McVeigh – autor de atentado terrorista, dia 19/4/1995, em Oklahoma, que fez 168 mortos e mais de 500 feridos e que, até os atentados de 11/9/2001, fora o mais violento ataque terrorista em solo americano –, Peter Bart presidente da MGM revelou à revista Variety que, quando a companhia pela primeira vez analisou o roteiro do filme, o principal executivo da empresa “declarou, em termos absolutamente claros, que desejava fazer o filme mais nacionalista, chovinista, patriótico, de erguer bandeiras [orig. jingoistic], de todos os tempos. “O estúdio, então, recrutou o recém aposentado secretário de Estado de Reagan, general Alexander Haig, para integrar o conselho diretor da MGM e para operar como consultor, ao lado do diretor [de “Despertar Violento”], para dar ao filme o toque ideológico apropriado” Quando o primeiro esboço de roteiro ficou pronto, em tom que lhe pareceu que lamentava excessivamente as tragédias da guerra, Bart contou que o estúdio “exigiu que alguém lhe explicasse por que os redatores pensam em refilmar Lord of the Flies, quando o que interessa ao estúdio é reinventar Rambo”. 

Todos sabem que os militares trabalharam com os produtores e estúdios de Hollywood desde 1927, quando ajudaram a produzir Wings – ganhador do primeiro Prêmio da Academia para Melhor Filme. O envolvimento do Pentágono variou ao longo dos primeiros dois terços do século 20, mas sempre visou, como alvo de propaganda, as crianças. Nos anos 1950s, por exemplo, os militares trabalharam com a cadela Lassie, em filmes e seriados de televisão que destacavam as novas tecnologias militares e produziram Mouse Reels para “The Mickey Mouse Club”; um dos filmes então produzidos mostrava crianças visitando o primeiro submarino nuclear. Como o jornalista David Robb descobriu, o Pentágono registra num memorando que “a mídia dirigida às crianças é excelente oportunidade para apresentar a toda uma geração a Marinha movida a energia nuclear”. 

Nos anos 1970s, houve menor número de filmes de guerra apoiados pelo Pentágono, porque a mídia sobre a guerra do Vietnã fatigara o público, durante a guerra e nos anos imediatamente seguintes. Mas, segundo o The Hollywood Reporter, com o militarismo novamente em ascensão na era Reagan, os anos 1980s assistiram “ao crescimento consistente de pedidos para acesso a instalações militares e do número de filmes, programas para a televisão e vídeos domésticos sobre os militares”. 

Em troca de autorizar o acesso a instalações militares para filmagens, os militares começaram a exigir compensações. O foco do Pentágono nos públicos juvenis começou a mostrar a própria mão pesada que se começava a usar para modelar a cultura popular dos anos 1980s. Cada vez mais, para autorizar o acesso dos produtores até as instalações militares mais corriqueiras, necessárias como cenários, o Pentágono começou a exigir maior participação e maiores mudanças na construção de roteiros e diálogos, para garantir que os militares fossem mostrados sob luz favorável. 

Em matéria publicada em Variety em 1994, Phil Strub, funcionário do Pentágono encarregado dos contatos com Hollywood, diz claramente: “O principal critério que empregávamos [para aprovar] era (...) o quanto a produção proposta beneficiava os militares. Ajudaria no recrutamento? Estava sincronizada com as políticas do Pentágono?”.

Segundo Strub, o conluio Pentágono - Hollywood alcançou “marco histórico” em 1986, com Top Gun/“Ases Indomáveis”], propaganda triunfalista a favor do recrutamento de adolescentes para a aviação da Marinha, com os pilotos apresentados como “o melhor dos melhores”. Nenhum desses “melhores”, evidentemente, jamais pergunta nenhuma das perguntas básicas que ocorreriam a qualquer pessoa ‘normal’. Nem os personagens nem o roteiro são acaso de criatividade. O roteiro foi praticamente construído pelo Pentágono, em troca de pleno acesso a todos os aviões e máquinas – acesso que, na prática, é subsídio à indústria, de valor inestimável, pago com dinheiro dos contribuintes norte-americanos. Segundo Maclean, a Paramount Pictures pagou apenas “$1,1 milhão de dólares pelo direito de usar aviões e um porta-aviões”, muito menos do que lhe custaria, se o estúdio tivesse de financiar diretamente toda a produção.

Como se essa dinâmica de “cenoura-e-porrete” não fosse suficiente para inspirar todos os produtores de filmes, o Pentágono, nos anos 1980s, expandiram a definição de “cooperação”, para incluir intervenção nos roteiros, desde a fase dos primeiros esboços. “Ganha-se tempo. Os autores nem começam a escrever roteiros idiotas” – disse um oficial do Pentágono, explicando o novo processo.

Atitude assim diplomática, combinada com o sucesso de bilheteria do modelo “Top Gun” sob orientação do Pentágono, convenceu os estúdios, nos anos 80s, a aceitar tudo o que os militares desejassem. Assim, fizeram-se filmes de conteúdo cada vez mais militarista, considerados “a fórmula” para grandes bilheterias. Entre o lançamento de “Ases Indomáveis” e o início da Guerra do Golfo, o Pentágono informou que o número de filmes realizados com sua ajuda (e aprovação) havia quadruplicado; grande parte dessas produções de ação-aventura (imediatamente distribuídos também, em perfeita sinergia, no formato de jogos, álbuns, bonecos etc.) visavam o público adolescente.

Resultado de curto-prazo da ação do complexo entretenimento-Pentágono foi aumento acentuado no número de jovens que se alistavam, sempre correlacionado com os números de bilheteria dos sucessos dos anos 80s. Basta um exemplo, de fato, gigantesco: a taxa de recrutamento teve aumento de 400% depois do lançamento de Top Gun/“Ases Indomáveis”, o que levou a Marinha – que imediatamente percebeu o efeito do filme – a montar balcões de alistamento nas salas de cinema. No médio prazo, é claro, predominou o efeito de Red Down/“Despertar Violento”. Operações militares recebem nomes inspirados no filme (e em várias outras fantasias militaristas dos anos 80), mobilizando as psiques manipuladas dos “Wolverines que cresceram e foram para o Iraque” – como Milius, recentemente, descreveu a geração dos anos 80s.

E há ainda os padrões que se fixaram para o longo prazo. Hoje, o Pentágono oferece a Hollywood o mesmo estímulo na direção de crescente militarização, tanto quando os castigos onde surja qualquer antimilitarismo, como sempre. Além do militarismo dos anos 80s, pode-se hoje apostar que o mesmo acontece também na infindavelmente reciclada onda de refilmagens: todo e qualquer blockbuster assinado por Jerry Bruckheimer ou Michael Bay e dirigido aos ‘jovens’ será, no mínimo parcialmente, subscrito pelo Pentágono, como condição para qualquer apoio ou subvenção; no mínimo, esses blockbusters, tipicamente, trabalham para reiterar a ideia de que o militarismo, os militares e a guerra seriam morais.

Diferente disso, como contou o diretor de The Hunt for Red October /“Caçada ao Outubro Vermelho”, essa nova realidade levou os estúdios, nos anos 80s, a instruir rotineiramente roteiristas e diretores a “buscar a cooperação [dos militares], ou esquecer, para sempre, a possibilidade de fazer o filme”. Com que controle maior o Pentágono algum dia sonhou?

*David Sirota é jornalista, autor de vários best-sellers. Seu próximo livro Back to Our Future [De volta ao nosso futuro] será lançado em março de 2011. Apresenta programa matinal na rádio AM760 no Colorado e anima o blog OpenLeft.com.
Recebe e-mails em ds@davidsirota.com
Twitter: @davidsirota