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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Jornalista da Fox News é xingado ao vivo!

5 razões pelas quais o vídeo é magnífico

19/8/2014, [*] Ian Blair, Salon
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 

Ferguson − Em noite de protestos, Steve Harrigan, da Fox News, aprendeu algumas lições importantes
O vídeo é uma pérola que surgiu da cobertura jornalística dos protestos em Ferguson, Missouri, depois da morte de Michael Brown, adolescente negro assassinado a tiros por um policial de Ferguson, branco, Darren Wilson. Durante transmissão ao vivo no canal Fox News, o repórter Steve Harrigan foi confrontado por um manifestante zangado. Harrigan acabava de dizer ao microfone que a comunidade de Ferguson ali estava só fazendo “infantilidades” [porque], os “manifestantes dignos já se recolheram às suas casas antes de escurecer”. O vídeo é absolutamente magnífico. É magnífico:


Aqui, cinco razões pelas quais é magnífico:

1. O que está acontecendo em Ferguson, Missouri, não são “infantilidades”. Não são. Mas não são MESMO. Isso nem se precisa explicar. Um adolescente negro desarmado foi assassinado em plena rua. E esse jornalista dizia imbecilidades sobre pessoas que lá estavam, indignadas por ele ter sido assassinado em plena rua.

2. “Cale a boca, cara! Você é um filho da puta, cara. Pára com essa merda. Sai daí!” [“Estou na TV, man” / “Que TV?! Tô pouco ligando pressa merda.”] Você deveria saber que é um filho da puta, se se põe na rua a dizer coisas que só um filho da puta diz. Quando o manifestante confronta o jornalista, ele parece assustadíssimo ante a zanga do homem. Arregala os olhos, encolhe-se como criança que um adulto repreendeu por ter saído do cercadinho. Todo seu corpo broxa, murcha. Abaixa o microfone, afasta-o da boca, abaixa o microfone até a cintura, como se não entendesse de onde teria aparecido aquele homem, ou como se o homem estivesse falando alguma língua estrangeira. Não. Aquele homem fala inglês. Fala o inglês das ruas, forte e duro, como se a adrenalina lhe saísse também pela voz. Harrigan não entende nada. NADA. Nem reconhece as palavras. E lá fica, parado, de boca aberta, as mangas da camisa azul de colarinho enroladas, à frente, muito perto, a um passo de um homem que lhe pede que simplesmente compreenda de onde ele saiu e porque está ali.

3. “Vou-lhe dizer o que é real”. O que é real reconhece o que é real. É lei universal, científica ou sem ciência. É assim que é. Se você não me vê e não acredita em mim, é porque você não é real. Não há como explicar melhor. Olhem o rosto do homem, quando ele confronta a “imprensa”: tem o tronco tenso, como de um lutador no ringue, apenas constatando a presença intimidada de Harrigan. Ao mesmo tempo, a cabeça do homem está ligeiramente caída de lado, questionando, perguntando. “Quando alguém só mente e condena pessoas que nem conhece, em vez de mostrar o fato, contar a história, o público logo percebe a mentira”. Consumado mestre desse ofício, outro jornalista no estúdio, retoma o “pé”. Ainda ao vivo, falando do estúdio, o segundo jornalista: “Eis o que acontece quando a imprensa lança suas luzes brilhantes sobre as ruas”. PURA VERDADE. É exatamente o que acontece.

De fato, tem de continuar a acontecer. Tem de acontecer muitas vezes, outra vez, outra vez, de novo. E mais e mais.

4. Se você não vive isso, não tente fingir que sabe do que se trata. O que torna essa parte do vídeo ainda mais engraçada é a tentativa falhada da “imprensa”, de mostrar simpatia pelo calvário pelo qual passa aquele homem. “Estamos aqui. Viemos até aqui. Estamos tentando mostrar os fatos...” – diz Harrigan. Ah, é! Você faz televisão ao vivo, aí, do lado da estrada, bem longe de onde os protestos estão realmente acontecendo. Mas você acaba de chegar. No máximo, está aí há uma semana. Os moradores de Ferguson lidam com “os fatos” todos os dias. Aqui é vida real, cara.

5. A decisão e a firmeza das pessoas em Ferguson são mais fortes do que vocês pensam. Mais para o final do vídeo, um segundo manifestante segue Harrigan, que tenta ganhar novamente o controle da entrevista. No estúdio, Shep tenta parecer interessado na continuação da história. Harrigan não tem como fugir. Caminha, afastando-se do primeiro manifestante, e tenta resumir o que lhe parece que esteja acontecendo: “Deixe-me perguntar uma coisa: você está zangado porque o mandaram ficar na calçada e circular? Qual a fonte da sua zanga?” – Harrigan pergunta. A linguagem corporal do manifestante responde à pergunta. Vira-se de frente para a câmera, a camiseta-regata branca em destaque, cabeça levantada, como de um galo triunfante, para o céu, e sem parar de encarar a câmera (“Grupos diferentes? Com objetivos diferentes?!” – o manifestante pergunta, enquanto Harrigan vai falando). Mas ante a pergunta, o homem para, põe as mãos na cintura, o Meteor Man, e responde: “A fonte da minha zanga? Quer saber a fonte da minha zanga?” Pois lhe digo. “A fonte da minha zanga é ver meu povo – branco, ou preto, azul ou marron...”

E fala mesmo. O resto do vídeo não interessa. Ele bate no peito a cada sílaba, cada sílaba lhe bate no peito. Harrigan, que nada entende e não lê a linguagem corporal do homem faz-lhe mais uma pergunta: “O que você está disposto a fazer? Como consertar isso? O que você vai fazer?”

O manifestante dá um passo atrás, cruza as mãos às costas, feito Morfeu em Matrix. Endireita as costas, bem retas. E dá uma resposta que congela Harrigan: “O que vou fazer é permanecer aqui com o meu povo todas as noites [uma moça ao lado emenda: “Toda a noite”. O homem repete:] – toda a noite – sem travesseiro, sem cobertor. Com os como eu [outro homem ao lado dele, lhe aperta a mão], ou meus irmãos”.

Harrigan bate em retirada.



[*] Ian Blair é escritor e blogueiro do norte da Califórnia. Atualmente é candidato ao curso Máster na New York University's Journalism Institute na cadeira de  Cultural Reporting and Criticism na NYU.
Está no Twitter: @i2theb.

sábado, 31 de agosto de 2013

Tambores de guerra, outra vez! A “imprensa-empresa-poodle-de-colo” não aprende...

29/8/2013, [*] Patrick L. Smith, Salon
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A ONU continua a coletar e analisar evidências do uso de armas químicas na Síria. Não há resultados no momento, mas os países ocidentais (EUA e Europa) estão fixados na ideia de agir contra o governo sírio mesmo sem provas que Assad teria usado armas químicas contra seu próprio povo.
Enquanto escrevo, 5ª-feira (29/8/2013de manhã cedo, muitos sírios estão sendo “agendados” para pagar com a vida pela “credibilidade” dos EUA. O bombardeamento de um país já devastado pela guerra é dito “simbólico”, para simplesmente dar um recadoÉ obscenidade tão grande quanto aquela contra a qual Washington diz reagir. Mais uma sociedade do Oriente Médio será ainda mais destroçada e os destroçadores nada terão a oferecer para substituir o que destroçarão.

Os EUA há muito tempo desperdiçaram qualquer credibilidade que talvez tenham tido ou desejado ter no Oriente Médio. Se a credibilidade for a causa, Washington precisa fazer muito mais que se pôr a desmontar a vila cenográfica que ela fez dos princípios que tediosamente gagueja. Mas aí está pensamento que hoje em dia já não vai a lugar nenhum.

E os EUA mergulham em outra guerra no Oriente Médio. Diferente das guerras do Iraque e do Afeganistão – verdadeiras obras de arte norte-americanas – o conflito na Síria é quadro pintado por outros. Mas, exceto por isso, esses três casos de hostilidade injustificável contra regimes “desobedientes” são espantosamente similares.

Manifestantes em Downing Street, Londres contra a intervenção ocidental na Síria
Melhor dizendo: são tragicamente similares. Ao longo da história, os norte-americanos insistimos na virtude da ignorância, em nada aprender, não saber de nada. E o que estamos à beira de fazer é o que sempre fazemos, previsivelmente, sempre. Os norte-americanos somos povo singular. Não há dúvida. Talvez, até, excepcional.

Como tantas vezes já aconteceu, o governo Obama está na mídia, rejeitando qualquer deliberação que a ONU considere justa. Na noite de 4ª feira, o Primeiro-Ministro britânico David Cameron rendeu-se às objeções do Partido Trabalhista ao apoio que o ministro vinha dando aos planos de Washington para invadir a SíriaA Grã-Bretanha agora quer esperar um relatório da ONU sobre os supostos ataques químicos, dos inspetores de armas, e dar mais tempo ao processo do Conselho de Segurança.

Mas ouçam o que disse o presidente Obama na 4ª-feira, no programa Newshour, da PBS, e é evidente que os EUA consideram atacar sozinhos o regime sírio, se preciso for:

Estamos preparados para trabalhar com qualquer um – russos e outros – para tentar reunir os grupos e resolver o conflito, disse Obama. Mas queremos que o regime Assad entenda que, ao usar armas químicas em larga escala contra o próprio povo (...) está criando uma situação na qual os interesses nacionais dos EUA são afetados, e isso tem de parar.

Portanto, já nada conta, nem a folha de parreira da concordância internacional.

Os eventos, desde o que parece ser ataques com armas químicas em quatro áreas residenciais de Damasco semana passada já trazem todas as marcas de um assalto violento de rua, com os bandidos atropelando e espancando vítima colhida em alta velocidade. 

Dado que os mísseis Cruisers que o governo está a ponto de disparar contra a Síria levarão a impressão digital de todos os norte-americanos, como uma bomba da 2ª Guerra Mundial, os bandidos somos nós (aliás, outra vez). Aí, a responsabilidade é partilhada. Somos cúmplices.

As mentiras e frases inventadas que nos contam, enquanto Washington prepara-se para “responder” à mais recente selvageria contra os sírios são construídas de modo tão esquisito, que é difícil acompanhar a jogada. O pessoal de Obama mudou completamente a coisa, diametralmente, diante de nossos olhos, deixando de lado qualquer preocupação com a verossimilhança, inventando argumentos conforme a hora. É claro que é tudo inventado! E é sempre a mesma história que já recitaram incontáveis vezes. Vai-se ver, é a única narrativa que os norte-americanos sabemos articular ou compreender – ideia assustadora, mas da qual é impossível fugir, considerando o que estamos vendo.

Especialistas em armas químicas das Nações Unidas na quarta-feira (28/8/2013) se reuniram com moradores de Zamalka, um subúrbio de Damasco que foi alvo de um ataque químico na semana passada.
As narrativas precisam da imprensa-empresa, é claro, e aí está ela, no caso da crise síria, distribuindo versões irresponsavelmente recolhidas de uma só fonte, apresentadas como se fosse opinião responsavelmente exposta, recolhida de várias fontes. E desde quando os jornalistas passaram a ver-se, eles mesmos, como agentes clandestinos da segurança nacional? Já é insuportável, essa atitude de moleque de recados do poder. Se os jornalistas fizessem o próprio trabalho com decência e seriedade, os EUA nos tornaríamos responsáveis por muito menos tragédias semelhantes à tragédia síria, e estaríamos todos, aqui, muito mais seguros. Do jeito que estão as coisas, a imprensa-empresa é peça defeituosa no mecanismo democrático.

No instante em que chegaram notícias de armas químicas e vítimas, semana passada, Washington e aliados puseram-se a exigir que o presidente Bashar al-Assad da Síria autorizasse uma equipe de inspetores da ONU a examinar os locais em questão. Tinha de ser. Exigência absoluta. Era isso ou isso. Todos lemos as “declarações”.

48 horas depois, o pessoal de Obama pôs-se a “declarar” que não, que ninguém precisava do relatório da ONU. Desnecessário. 
Quando Assad autorizou a visita da equipe da ONU, o que nem demorou, considerando-se que se trata de zona de guerra, já era “tarde demais para ter credibilidade. As provas já estariam “degradadas”, como todos também lemos.

William J. Broad
Tarde demais? Provas degradadas? A equipe da ONU é equipe de especialistas. Estão na Síria para examinar locais nos quais se diz que há meses teriam sido usados produtos químicos, e não estariam lá se a tal “degradação” tivesse algum fundamento científico. Isso ninguém leu, com uma exceção. Na 4ª-feira, William J. Broad, correspondente de ciências do New York Times teve a decência e o bom senso de citar fontes não governamentais – afinal! Alguém! – que informou que esses agentes químicos que estão sendo discutidos não se dissipam por períodos de tempo terrivelmente longos. Quem não acreditar, pode perguntar aos vietnamitas.

A matéria de Broad ganhou o pé da página oito. Como I.F. Stone disse certa vez do Washington Post, jornais são sempre problema, porque você nunca sabe onde encontrará a matéria de primeira página.

Mas no início dessa semana, se é que se pode engolir essa, funcionários dos EUA já estavam pressionando secretamente a ONU para que abortasse a missão na Síria. Washington decidira que, dessa vez, nenhuma prova seria interessante. Isso ninguém leu – não em publicação norte-americana.

Era o caminhãozão que o pessoal de Obama estava tentando estacionar em cima da calçada.

As “provas” de que haviam sido usadas armas químicas, por mais que o pessoal de Obama tivesse tentado, antes, se esconder delas, logo se tornaram “inegáveis” (Secretário de Estado Kerry), assunto “sem dúvida” (Vice-Presidente Biden), e mais várias coisas “declaradas” e repetidas. Isso todos lemos em abundância – e sem qualquer confirmação ou investigação profissional decente, de parte dos jornalistas que escreviam ou diziam, sem parar.

E... você percebeu? “Prova de uso” imediatamente se converteu em prova de que o regime de Assad usou. Aí está o truque sujo. Nenhum funcionário do governo dos EUA disse que a responsabilidade poderia ser dos “rebeldes”. Claro que, se nenhum funcionário do governo “declarou”, ninguém leu sobre essa possibilidade nos jornais norte-americanos ou ouviu-a dos “âncoras” e “comentaristas” de rádio ou televisão. O imperdoável lapso de lógica passou despercebido. Já não há palavras para dizer o quão absolutamente idiotas eles supõem que nós sejamos.


Agora nos prometem prova incontroversa da culpa de Assad, para a 5ª-feira, ao longo do dia.Inútil tentar adivinhar. Na guerra de imagens e espetáculo, frequentemente se repetem variantes da rotina acima descrita. Lembrem do yellowcake, ou de Colin Powell na ONU, ou os “tubos de metal” de Judith Miller ou os “laboratório de armas móveis” no Iraque – todos empenhadamente noticiados pelo New York Times.

Nesse espaço, semana passada, aventei minhas suspeitas de que os “rebeldes” bem poderiam ser os culpados. Repito aqui os mesmos argumentos. 

Os inimigos de Assad não têm suprimentos de gás sarin ou de outros agentes químicos – como se sugere.

Bobagem. Podem ter, é claro.

Os “rebeldes” não seriam capazes de montar um ataque de grande escala como parece que foi o ataque em Damasco semana passada – como disseram incansavelmente. Mais bobagem.

Posição defensável é a dos russos e de alguns elementos responsáveis na Grã-Bretanha: querem investigação séria e propõem que todos aceitem os resultados.

Carla del Ponte
Carla del Ponte, conhecida especialista, investigadora de crimes de guerra e membro da comissão da ONU que examina o caso da Síria, disse em maio que havia fundados motivos para examinar se os “rebeldes” seriam responsáveis por uma obscenidade na Síria, naquele momento, envolvendo gás sarin. 

A investigadora de direitos humanos da ONU disse que “segundo depoimentos que reunimos, os “rebeldes” usaram armas químicas, tendo feito uso de gás sarin”, e acrescentou que sua comissão trabalhava, como hipótese mais bem fundada, com a ideia de que “foi usado gás sarin (...) pela oposição ao governo, pelos “rebeldes”, não pelo governo sírio”.

Foi depenada e assada, na melhor tradição do “jornalismo” norte-americano.

Mas Obama parece decidido a atropelar a ONU, independente do que digam os especialistas. 

Na 4ª-feira, a Grã-Bretanha apresentou projeto de resolução ao Conselho de Segurança, exigindo a intervenção militar, mas só pro forma. O Conselho de Segurança tem vários membros, para que várias visões de mundo estejam adequadamente representadas. 

Obama honra visões de mundo alternativas, tanto quanto George W. Bush. Assim sendo, da ONU nada sairá que se aproveite, não com o veto da Rússia, membro do Conselho de Segurança. Melhor partir logo para o crime e a marginalidade outra vez, e esse é o mundo para termos em mente, se os fogos de artifício prometidos começarem a chover sobre a Síria nos próximos dias. (...)

Nas colinas de Golan - Síria, sentinela israelense fica sobre um "bulldozer" 
Concluo com o que considero o máximo, a cereja do bolo, o prêmio de “notícia-mais-ridícula-da-semana”, embora só se encontre, na “mídia” norte-americana, online.

A parte mais consistente das provas de que o regime de Assad usou armas químicas e que dá base legal essencial para justificar ação militar ocidental – foi apresentada pela inteligência militar de Israel.

É. Aquele pessoal confiável. Do Mossad. A notícia está no The Guardian, grande jornal britânico, que simplesmente repete uma revista alemã, Focus.

Santo deus! Chamem os palhaços. Eles já estão aí.
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[*] Patrick Smith é o autor de Time No Longer: Americans After theAmerican Century foi chefe da sucursal do International Herald Tribune em Hong Kong e Toquio 1985-1992.Durante este tempo também escreveu a coluna “Carta de Tóquio” para a revista The New Yorker. É o autor de quatro livros e contribuiu com frequência com artigos para o New York Times,The Nation, The Quarterly Washington e outras publicações.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Slavoj Žižek: “Nunca precisamos tanto, como hoje, de teoria inútil”


29/12/2012, Slavoj Žižek, Salon [entrevista a Katie Engelhart] (excertos)
Traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Recadinho da Vila Vudu: Excluímos, nessa tradução, além das opiniões da jornalista entrevistadora que a ninguém aqui interessaram, também outros parágrafos, em que a jornalista entrevistadora dedica-se empenhadamente em tentar fazer seu entrevistado – muitíssimo maior e mais interessante que a jornalista entrevistadora – caber, a qualquer custo, nos limites estreitíssimos das perguntas. Nós aqui DESTESTAMOS jornalistas. Há algo de obscenamente pervertido no jornalismo empresarial-comercial. É a perversão obscena que há no jornalismo empresarial-comercial, que o faz ser, ao mesmo tempo, tão furiosamente defendido pelos liberais perversos e tão furiosamente detestado pelos comunistas. Antes de construirmos o mundo dos muitos, teremos de dar cabo de todo o jornalismo empresarial-comercial: da imprensa-empresa e dos jornalistas formados pela e para a imprensa-empresa.

Slavoj Žižek

(...) Salon entrevistou Žižek pelo Skype. (...)

Salon: Recentemente a revista Foreign Policy incluiu seu nome entre os Pensadores Globais Top 100 de 2012.

Žižek: Sim, mas me puseram no fundo do topo! [1]

Salon: Você é o número 92. Acha que merece estar naquela lista?

Žižek: Ah, não, você não me pega nessa, nem que me torture! Sei que é mais polido dizer que não. Mas... a primeira da lista não é aquela senhora de Myanmar? Sempre esqueço o nome dela. Como é mesmo?

Salon: Aung San Suu Kyi?

Žižek: É, essa! Nada contra ela, mas... explique-me, por favor: em que sentido aquela senhora seria filósofa ou intelectual?

Salon: Bom... É uma lista de “pensadores”, não de “filósofos”.

Žižek: Sim, sim, mas... em que sentido ela seria pensadora? Quer democracia no Myanmar. OK, é ótimo, muito bom. Mas não se pode simplesmente aceitar que um ideal nunca passe de um ideal. Oh, a democracia! Todos têm orgasmos com a democracia. Então, ok, democracia, algum dia, para todo mundo.

Isso não é pensar. O pensamento começa quando você propõe questões realmente difíceis. Por exemplo: o processo democrático decide, realmente, o quê? (...)

Sabe... Na minha vida privada sou sujeito extremamente deprimido. Olhe onde estou agora. Olhe em volta. Estou em Paris.

[Žižek levanta o laptop para mostrar o quarto de hotel, poucos móveis, uma cama simples e uma janela pequena.]

Está vendo? Estou num quarto pequeno. Fugi da minha casa por uma semana, porque precisava sair de lá. Aqui, só saio do quarto uma, às vezes duas vezes por dia, só para comer. Exceto você, agora, e um amigo com quem falo pelo Skype, não troco uma palavra com nenhum ser vivo há quase uma semana. E gosto tanto disso!

Esse, por falar nisso, é o motivo pelo qual acho tão incrivelmente chatos os reality shows; porque as pessoas não são aquilo. Estão mostrando uma imagem delas mesmas, o que é tão insuportavelmente chato, tedioso, estúpido. Não entendo por que tanta gente assiste àquilo. Acho que deve ser proibido. Acho também que Facebook e Twitter também devem ser proibidos. Você não acha? (...)

As únicas fotos que tenho de mim mesmo são as fotos dos documentos, no meu passaporte. Mas, calma! Não significa que eu me despreze completamente. Não. Gosto do meu trabalho publicado. Vivo para aquele trabalho – de fato, vivo para a teoria. Não me envergonho de viver para a teoria. Detesto essa atitude esquerdista humanitária: As pessoas estão com fome! Criancinhas na África! Num mundo desses, quem precisa de teoria? Nada disso! Digo que hoje precisamos muito de teoria inútil, mais do jamais antes na história do mundo.

(...) Quem me conhece sabe que sou pessoa bem organizada. Sou extremamente organizado. Tudo é planejado, até os minutos. Por isso, consigo produzir muito. Digo: em quantidade; não falei de qualidade.

Sou muito bem treinado. Trabalho em qualquer lugar. Aprendi no exército.

Pareço meio atirado, desleixado, eu sei. Porque acho escandaloso comprar calças, camisas, jaquetas, paletós para mim. Minhas camisetas são presentes que ganho de colóquios ou manifestações de que participo. Minhas meias são as que distribuem em voos internacionais. Aqui, então, praticamente esqueço do que visto.

Mas meu apartamento tem de estar limpo; sou maníaco por organização e controle. Por isso, precisamente, fiquei tão desapontado quando prestei serviço militar. Não que eu fosse filósofo trapalhão, incapaz de viver vida disciplinada. O choque foi ver que o velho exército iugoslavo era, sob a aparência de ordem e disciplina, uma sociedade caótica na qual nada dava certo e nada funcionava. Fiquei profundamente, muito profundamente decepcionado com o exército, quando descobri que era tão caótico.

Meu ideal seria viver num monastério.

Salon: (...)  Você disse ao Guardian, ano passado [2]: “Sou filósofo, não profeta”. Mesmo assim, seus seguidores são crentes fiéis. Muitos o cultuam como profeta. Por quê?

Žižek: Não sei. Sou ambíguo, quanto a isso. Por um lado, volto a um marxismo mais clássico, do tipo “Isso não pode durar! A loucura é geral! A hora do acerto de contas vai chegar, e blá blá blá”.

Mas também odeio toda essa conversa do politicamente correto, essa merda de estudos culturais e tal e tal. Se alguém me fala de “pós-colonialismo”, respondo “Foda-se o pós-colonialismo!” Pós-colonialismo é invenção de uns riquinhos, na Índia, que perceberam que poderiam fazer carreira nas universidades top do ocidente, jogando com a culpa dos liberais brancos.

Salon: Você então oferece um respiro ao pessoal de 20 e poucos anos, que quer fugir dos frutos do pós-modernismo: o politicamente-correto, estudos de gênero, etc.?

Žižek: Isso, isso! Muito bom! Gostei!

Mas... também há algo de megalomania em mim. Quase me concebo, eu mesmo, como uma figura de Cristo. OK! Me matem! Estou pronto para o sacrifício. Morro, mas a causa permanece! Mais ou menos isso...

Mas, paradoxalmente, detesto aparições públicas. Por isso, precisamente, deixei quase completamente de dar aulas. Para mim, nada pode ser pior que o contato com estudantes. Gosto de universidades sem alunos. E odeio, muito especialmente, os alunos norte-americanos. Eles acham que você lhes deve alguma coisa. Cercam você... Só trabalho no horário obrigatório!

Sim, sim, nisso sou completamente europeu – especificamente: sou pela tradição autoritária alemã. A Inglaterra já está corrompida. Na Inglaterra, os alunos pensam que podem parar você na rua e perguntar qualquer coisa. Acho isso repulsivo.

Friedrich Hegel
Mas em outros aspectos... admiro muito os EUA e o Canadá. Hoje, em vários sentidos, são melhores que a Europa. A França e a Alemanha, por exemplo, estão hoje em situação muito baixa, intelectualmente – a Alemanha, sobretudo. Absolutamente nada acontece de interessante, na Alemanha. Os EUA e o Canadá, surpreendentemente, estão intelectualmente vivos. Dou-lhe um exemplo: estudos hegelianos. Europeu que queira entender Hegel, tem de ir para Toronto, Chicago ou Pittsburgh.

Salon: O que Hegel diria da popularidade do filósofo Žižek?

Žižek: Não seria problema, para ele. Hegel até escreveu – acho que no fim da Fenomenologia – que se, como filósofo, você realmente articula o espírito do tempo, o resultado é popularidade ... mesmo que as pessoas não entendam tudo o que você diz. As pessoas de algum modo sentem que o espírito do tempo foi articulado... Essa é uma bela questão dialética: como é que as pessoas sentem isso?

Salon: Quando você escreve os livros de popularização, dos quais diz que não gosta [3] quem você imagina que seja seu leitor?

Žižek: Não, não! Pergunta proibida! Jamais me pergunto tal coisa. Pouco me importa! Outra proibição absoluta é que jamais me autoanaliso. A ideia de me autopsicanalisar é repugnante. Nisso, sou uma espécie de pessimista católico conservador. Acho que, se olhamos muito fundo dentro de nós mesmo, descobrimos montes de merda. Melhor não saber. (...)

Laura Kipnis
Odeio jornalistas e documentaristas, gente que faz filmes da minha vida. Acho que há alguma coisa de obsceno nos filmes que fizeram sobre mim. Claro, claro... Aí, você me pegou: se eu fosse realmente indiferente àqueles filmes, porque mentiria como sempre minto, quando filmam a minha vida? É. Aí há um problema.... (...)

Falando de amor e sobre a vida das pessoas, há um livro que eu realmente detesto: Against Love [Contra o Amor], de Laura Kipnis. [4] A ideia dela é que a última defesa da ordem burguesa é “Nada de sexo fora do amor”. É aquela conversa de Judith Butler: reconstrução, identidade e blá, blá, blá...

Digo que é exatamente o contrário disso. Hoje, os envolvimentos de amor são considerados quase patológicos! Acho que há algo subversivo em declarar: esse é o homem ou a mulher no qual aposto tudo. Por isso, nunca fui capaz de transas de uma noite. Sempre preciso de uma perspectiva de eternidade.

Judith Butler 
Salon: Você parece usar a filósofa feminista Judith Butler como uma espécie de antítese. Já a mencionou várias vezes. É como um espantalho, para você?

Žižek: É. Mas pessoalmente somos grandes amigos. Judith, uma vez, me disse “Slavoj, você deve me achar bem mesquinha.” Respondi: “De jeito nenhum! Alguém que goste tanto de Hegel, como você, não pode ser completamente idiota”.

Salon: Com que figuras históricas você se identifica?

Žižek: Robespierre. Um pouco, talvez, com Lênin.

Salon: Lênin? Trotsky não?

Žižek: Em 1918-19, Trotsky era mais duro que Stálin. E gosto dessa dureza, nele. Mas jamais o perdoarei por ter fodido tudo em meados dos anos 20s. Foi estúpido, arrogante. Sabe o que ele fazia? Chegava às reuniões do Partido com clássicos franceses debaixo do braço, Flaubert, Stendhal... Como se dissesse aos outros: “Fodam-se! Eu sou civilizado”.

Salon: Você escreve que temos de pensar mais e agir menos. Mas, no fim, identifica-se com Lênin, conhecido homem de ação.

Žižek: Não, não é bem assim! Calma. Lênin é sempre o cara certo. Quando tudo deu errado em 1914, o que fez Lênin? Mudou-se para a Suíça e começou a estudar Hegel.



Notas dos tradutores

[1]  A lista está em: 2012's Global Marketplace of Ideas and the Thinkers Who Make Them. A seleção dos “pensadores” é ridícula: Paul Ryan, que jamais pensou coisa alguma, aparece em 8º lugar; o governo de Israel lá aparece, nos postos 12º a 15º (ministro da Defesa, primeiro-ministro, ex-diretores do serviço secreto); Mario Draghi, Christine Lagarde, também são “pensadores” listados; Dick Cheney (aliás, dois ‘'pensadores'’ da mesma família, marido & mulher); 88º é Habermas.

[2]  15/7/2012, The Guardian, Stuart Jeffries em: A life in writing: Slavoj Žižek

[3] ZIZEK, Slavoj, 2011. “O ano em que sonhamos perigosamente”. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012.

[4]  A revista (não)VEJA, ao que parece, adorou o livro. Deu-lhe ampla cobertura ainda no pré-lançamento da edição brasileira, em maio de 2004. Está em: Entrevista: Laura Kipnis - Contra o amor

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