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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A CIA e os “drones”: para resolver problemas internos

5/9/2011, Gareth Porter, OpEdNews 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Quando David Petraeus chegar à CIA na 3ª-feira, estará assumindo a presidência de uma organização cuja missão mudou nos anos recentes. A CIA já não é encarregada de reunir e analisar dados de inteligência. Hoje, tem participação direta em campanhas militares, comandando os aviões-robôs tripulados à distância, os drones, no Paquistão, no Iêmen e na Somália.

Mas a transformação da CIA não acompanhou, apenas, a expansão da guerra dos drones no Paquistão, até chegar ao ponto em está hoje. O diretor Michael Hayden, da CIA, trabalhou ativamente a favor dessa expansão, num momento em que os ataques com drones pareciam ser experimento fracassado.

Uma das razões pelas quais Hayden tanto operou para conseguir ampliar muito a guerra dos drones, como se pode ver agora, é que já se havia criado toda uma burocracia para aquela guerra, antes da guerra e antecipando a guerra.

Durante 2010, a “guerra dos drones” da CIA no Paquistão matou mais de 1.000 pessoas, menos do que os cerca de 2.000 mortos pelos “raids noturnos” das forças especiais no Afeganistão, segundo matéria do Washington Post, dia 1º de setembro.

Um funcionário da CIA citado pelo Post começou dizendo que a CIA tornou-se “uma tremenda máquina de matar”, para, em seguida, corrigir-se: “tornou-se uma tremenda ferramenta operacional.”

A mudança na missão da CIA refletiu-se no crescimento espetacular de seu Centro de Contraterrorismo [ing. Counter-terrorism Center (CTC)], de 300 funcionários em setembro de 2001, para os atuais cerca de 2.000 funcionários – 10% de toda a força de trabalho da agência, segundo a matéria do Post.

O braço analítico da agência, que antes se devotava inteiramente a avaliações e pareceres de inteligência para políticos, foi profundamente afetado.

Mais de 1/3 do pessoal do braço analítico trabalha hoje completa ou prioritariamente em funções de apoio às operações da CIA, segundo altos funcionários citados no Post. E quase 2/3 deles analisam dados usados pelo CTC na guerra dos drones, selecionando e definindo alvos a serem atacados.

Parte dessa mudança no trabalho interno, para apoiar a guerra dos drones aconteceu depois que aumentou o número de ataques de drones no Paquistão desde meados de 2008, mas bem antes disso a CIA já começara a construir as bases institucionais para ampliar a guerra dos drones.

Crucial para que se entenda o papel da dinâmica interna nas decisões da CIA é o fato de que a campanha dos drones no Paquistão começou muito mal. Nos quatro anos, de 2004 até 2007, a CIA só fez 12 ataques aéreos com drones no Paquistão, todos contra alvos ‘de alto valor’, da Al-Qaeda e grupos ligados a ela.

A política de George W. Bush para os drones foi cautelosa, em grande parte porque o presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, era visto como tão confiável que o governo não quis correr qualquer risco de desestabilizar seu governo.

Essas limitações foram impostas à CIA, na tarefa de definir alvos para os ataques com drones. O drones só poderiam ser usados contra elementos definidos como de alto valor, da Al-Qaeda e afiliados no Paquistão; e a CIA sempre teria de poder provar que o ataque não provocara mortes de civis.

Aqueles primeiros 12 ataques com drones mataram apenas três figuras identificadas como da Al-Qaeda ou do Talibã no Paquistão. Mas, apesar de os “danos colaterais” estarem proibidos... morreram naqueles 12 primeiros ataques nada menos que 121 civis – consideradas só as notícias de jornal daquele ano.

Um único ataque dos drones contra uma madrassa (escola religiosa) dia 26/10/2006, que matou 80 estudantes locais, já dá conta de 2/3 das mortes de civis no período.

A matéria do Post revela que, apesar do começo desastroso, a CIA rapidamente envolveu-se no esforço para construir um grande programa especial para a guerra dos aviões-robôs: em 2005, a agência criou um projeto de carreira para analistas de inteligência para aquele específico programa.

Por aquela decisão administrativa, analistas que escolhessem especializar-se em definir alvos para os drones comandados à distância pela CIA recebiam a promessa de que o programa teria longa duração, que haveria trabalho garantido e promoções de carreira. A CIA assumiu compromissos de longo prazo com seu próprio corpo de funcionários, apostando que a guerra dos drones iria bem além dos três raids por ano e que, muito provavelmente, continuaria por longo tempo.

Em 2007, a agência deu-se conta de que, se queria manter aqueles compromissos, teria de conseguir que a Casa Branca mudasse as regras ‘políticas’ e relaxasse as restrições que ainda pesavam sobre o uso dos drones.

Foi quando Hayden abraçou o lobby pró-drones e passou a insistir com o presidente George W. Bush para que levantasse as limitações e impedimentos para novos e mais numerosos ataques dos drones – como se lê em The Inheritance, de David Sanger, repórter do New York Times. Hayden pediu autorização para usar os drones contra casas e veículos, selecionados como alvos a partir de qualquer atitude ou movimentação suspeita, avaliados segundo um “padrão de vida” definido para a Al-Qaeda ou outros grupos.

Em janeiro de 2008, Bush deu um primeiro passo não divulgado na direção de afrouxar as limitações ao uso de drones, como Hayden desejava, mas a maior parte dos impedimentos a ataques com drones foram mantidos. Nos primeiros seis meses de 2008, houve quatro ataques pelos aviões-robôs comandados à distância.

Mas em meados de 2008, o diretor da Inteligência Nacional, Mike McConnell, retornou de uma viagem que fizera em maio ao Paquistão decidido a provar que os militares paquistaneses, em segredo, estavam apoiando os guerrilheiros Talibã – especialmente da rede Haqqani –, que estava ganhando fôlego no Afeganistão.

Segundo Sanger, a equipe de McConnell produziu avaliação formal, que reforçava a necessidade de ‘mais drones’, enviada em junho à Casa Branca e a outros altos funcionários. Com isso, Bush, que andava elogiando Musharraf como aliado contra os Talibã, viu-se obrigado a fazer alguma coisa para mostrar firmeza ante os militares paquistaneses e, também, ante os guerrilheiros afegãos que viviam em paraísos seguros no noroeste do Paquistão.

Bush queria que os aviões-robôs tripulados à distância fossem usados exclusivamente em ataques contra alvos dos Talibã afegãos, não contra a Al-Qaeda e seus aliados Talibãs paquistaneses. Mas, naquele momento, segundo Sanger, Bush rapidamente suspendeu todas as limitações que ainda havia (exigência de que houvesse informação de inteligência sobre determinados alvos ‘de alto valor’ e garantia de que não houvesse civis mortos).

Livre das limitações e impedimentos que pesavam sobre o programa dos aviões-robôs, no segundo semestre de 2008 a CIA aumentou o número de ataques com drones, para entre quatro e cinco por mês, em média.

Segundo os relatos de discussões internas nas primeiras semanas do governo de Barack Obama, que se leem em Obama’s Wars [as guerras de Obama], de Bob Woodward, havia sérias dúvidas, desde o início, sobre se os drones poderiam, de fato, derrotar a Al- Qaeda.

Mas Leon Panetta, recentemente nomeado por Obama para dirigir a CIA, sempre foi empenhado defensor da guerra dos drones. Nunca parou de falar dos drones, apresentando-os à opinião pública como estratégia para destruir a Al-Qaeda – embora soubesse que a CIA, naquele momento, estivesse atacando principalmente os Talibã afegãos e seus aliados, não a Al-Qaeda.

Na primeira conferência de imprensa, dia 25/2/2009, Panetta, em referência indireta, mas óbvia, aos ataques com aviões-robôs, disse que o esforço para desestabilizar a Al-Qaeda e destruir sua liderança estaria sendo “bem-sucedido”.

Sob comando de Panetta, o número de ataques por aviões-robôs continuou, ao longo de 2009, no mesmo ritmo de crescimento acelerado da segunda metade de 2008. E em 2010, aquele número mais que dobrou: de 53 em 2009, para 118.

A CIA, afinal, conseguiu chegar à grande guerra de aviões-robôs, os drones, para a qual já se organizara antecipadamente.

Há dois anos, Petraeus dava sinais de não depositar muita confiança em ataques com aviões-robôs no Paquistão. Em documento secreto que redigiu como comandante do CENTCOM, dia 27/5/2011, que vazou e foi publicado pelo Washington Post, Petraeus advertiu que os ataques por aviões-robôs tripulados à distância estavam fazendo aumentar os sentimentos de antiamericanismo no Paquistão. Hoje, o que Petraeus pense ou deixe de pensar, pessoalmente, sobre os drones já não tem qualquer importância.

Os interesses institucionais da CIA, que mandam manter e ampliar o uso de aviões-robôs tripulados à distância – a guerra de drones – parecem ter-se imposto de tal forma, que nenhum diretor conseguirá opor-se àqueles interesses, baseado em sua pessoal opinião sobre como ou o quanto os ataques dos aviões robôs possam ser contraproducentes, se se consideram os interesses dos EUA.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Guerra e dívida

por Michael Hudson [*]


O debate que não aconteceu acerca do teto de endividamento

Michael Hudson
Vamos começar com a questão mais óbvia: Se os governos aumentam a sua dívida no processo de executar programas que o Congresso já aprovou, porque teria o Congresso ainda outra opção de impedir o governo de continuar estas despesas autorizadas, recusando-se a elevar o teto de endividamento?

A resposta é óbvia quando se observa a razão porque esta verificação à prova de falha foi introduzida em quase todos os países do mundo. Ao longo da história moderna, a guerra tem sido a causa principal do aumento da dívida nacional. A maior parte dos governos opera em equilíbrio fiscal durante os tempos de paz, financiando seus gastos e investimentos com a cobrança de impostos e de taxas de utilização. As emergências de guerra pressionam este equilíbrio para o déficit – por vezes para guerras defensivas, algumas vezes para a agressão.

Na Europa, os controles parlamentares dos gastos de governo foram concebidos para impedir governantes ambiciosos de travar guerras. Este era o grande argumento de Adam Smith contra dívidas públicas e a sua insistência em que as guerras fossem financiadas numa base de pagamento imediato. Ele escreveu que se o povo sentisse imediatamente o impacto econômico da guerra – a invés de adiá-lo com tomadas de empréstimos – seria menos provável que apoiasse o aventureirismo militar.

Esta não era obviamente a posição do Tea Party, nem a dos republicanos. O que é tão notável acerca da crise de 2 de Agosto do teto da dívida nos Estados Unidos é a sua aparente dissociação com as despesas de guerra. Certamente, mais de um terço (US$350 mil milhões) do corte de US$917 mil milhões em gastos correntes cabe ao Pentágono. Mas isso simplesmente reduz a notável taxa de escalada que se verificou desde o Iraque até o Afeganistão e a Líbia.

O que é ainda mais notável no mês passado é que o democrata Dennis Kucinich e o republicano Ron Paul procuraram fazer com que o presidente Obama obedecesse às condições da Lei de Poderes de Guerra (War Powers Act) e obtivesse a aprovação do Congresso para a sua guerra na Líbia, como é exigido quando a guerra perdura por mais de três meses. Esta tentativa de aplicar a regra da lei à Presidência Imperial não teve êxito. Obama afirmou que bombardear um país não era guerra. Era guerra só se soldados de um país estivessem sendo mortos. O bombardeio da Líbia foi feito a partir do ar, a longa distância e talvez também por aviões sem piloto (drones). Então uma guerra sem sangue é realmente uma guerra – sem sangue do lado do agressor, não é?

Esta foi precisamente a situação pela qual a regra do teto de endividamento foi introduzida em 1917. O presidente Wilson havia levado os Estados Unidos à Grande Guerra, rompendo a sua promessa de campanha eleitoral de não o fazer. Isolacionistas nos Estados Unidos procuraram limitar o compromisso da América, através da imposição da vigilância do Congresso e a aprovação do aumento do teto de endividamento. Esta salvaguarda obviamente era destinada a ser utilizada contra gastos não programados que ocorressem sem a aprovação do Congresso.

O presente aumento da dívida do Tesouro dos EUA resulta de duas formas de guerra. Primeiro, a claramente militar Guerra do Petróleo no Médio Oriente, desde o Iraque ao Afeganistão (Pipelinistão) e à Líbia rica em petróleo. Estas aventuras acabarão por custar entre US$3 e US$5 trilhões (trillions). Segundo, e ainda mais caro, é a mais encoberta e ainda mais custosa guerra econômica da Wall Street contra o resto da economia, exigindo que perdas de bancos e instituições financeiras sejam transferidas para o balanço do governo (“contribuintes”). Os salvamentos de “almoços gratuitos” para a Wall Street – não por coincidência, o contribuidor número um de campanhas políticas para o Congresso – custam US$13 trilhões.

Parece notável que o foco principal de Obama sobre o teto de endividamento seja para advertir que o financiamento da Segurança Social deve ser cortado, juntamente com o do Medicare e outros programas sociais. Ele chegou a dizer que apesar do fato de que salários postos à parte para o FICA [1] terem sido investidos em títulos do Tesouro durante mais de meio século, o governo pode não enviar cheques esta semana.

Um duplo padrão radical está em ação para a democracia. Os investidores da Wall Street certamente não se preocupam muito. De fato, taxas de juro a longo prazo de Títulos do Tesouro realmente afundaram durante o mês passado e especialmente durante a última semana. Assim, possuidores de dívida institucional obviamente esperam ser pagos. Só os poupadores da Segurança Social são congelados (stiffed) – ou estaria Obama simplesmente tentando ameaçá-los, de modo a aparecer como um herói salvador da sua Segurança Social através de uma Grande Negociação?

Wall Street tinha isto como certo. Não havia crise real. A autorização para elevar o teto do endividamento público não é uma ocasião adequada para discutir política fiscal a longo prazo. Desde 1962 – exatamente quando a Guerra do Vietnã começava a escalar – ela foi elevada 74 vezes. Isto dá uma média de cerca de uma vez a cada oito meses. É como ir a um notário público – só para certificar que o presidente não está fazendo algo errado. O sr. Obama podia ter pedido um voto limitado apenas a isto, sem cláusulas adicionais. Nunca antes tais cláusulas foram acrescentadas. E ainda mais notavelmente, não houve tentativa de impor uma cláusula restringindo a administração Obama de gastar quaisquer fundos adicionais na Líbia, sem obter uma declaração de guerra oficial do Congresso.

Obama podia ter recorrido à 14ª emenda para pagar. Ele podia ter adotado a proposta feita por Scott Fulwiler e outros economistas da UMKC [2] de o Tesouro emitir US$1 trilhão de moedas metálicas e pagar o Fed por Títulos do Tesouro. Mas o sr. Obama dirigiu o debate para a direita, transformando-a numa discussão sobre como cortar a Segurança Social e o Medicare na guerra de classe estadunidense que está emergindo, ao invés de superestender a Guerra do Petróleo à África do Norte.

A primeira grande vitória para o setor financeiro na guerra de classe interna da América foram os cortes fiscais “temporários” de Bush sobre a riqueza. Esta agressão não foi desfeita a fim de restaurar o equilíbrio orçamental. Não foi revogado nenhum dos cortes fiscais temporários, nenhuma escapatória foi fechada. O fardo de equilibrar o orçamento foi empurrado ainda mais sobre a base do Partido Democrata: o trabalho urbano, minorias raciais e étnicas, os litorais Leste e Oeste. Mas os democratas dividiram-se na votação para elevar o teto da dívida ao retaliar os gastos sociais do seu maior eleitorado.

Eleitorado votante, mas não contribuidores de campanha. Isto parece ser a chave de como se desdobrou a crise da dívida. Embora líderes democratas como Maxine Walters Waters, Dennis Kucinich, Henry Waxman, Barney Frank, Edolphus Towns, Charles Rangel e Jerrold Nadler se opusessem (e do lado republicado, Ron Paul, Michele Bachmann e Ben Quayle), grande parte da oposição baseada em princípios veio de republicanos tradicionais. Paul Craig Roberts, assistente do secretário do Tesouro do Reagan, acusou o acordo de ser demasiado à direita e de favorecer a riqueza num grau que ameaça provocar depressão.

A essência da teoria econômica clássica do mercado livre era restringir o poder executivo – numa época em que o poder de fazer guerra era o principal abuso aos interesses nacionais. Assim como as câmaras baixas de legislativos bicamerais assumiam o poder de comprometer nações a uma dívida nacional permanente – ao invés das dívidas reais que morriam com os reis, como era norma antes do século XVI – também os parlamentos afirmaram seu direito de impedir a guerra.

Mas agora que as finanças são a nova forma de guerra – interna, não externa – onde está o poder para constranger o poder do Tesouro e do Federal Reserve a comprometerem os contribuintes com o salvamento de interesses financeiros do topo da pirâmide econômica? O Fed e outros bancos centrais afirmam que a sua “independência” política é uma “característica de democracia”. Parece ao invés ser uma transição para a oligarquia financeira. E agora que essas finanças juntaram-se à indústria petrolífera, grandes monopólios e privatizadores do domínio público, a necessidade de alguma espécie de supervisão do Congresso é tão necessária quanto foi o poder parlamentar sobre gastos militares em tempos passados.

Nenhuma discussão deste princípio básico foi divulgada no debate do teto de endividamento. Mesmo críticos que (ostensivamente) votaram de forma relutante (de modo a proporcionar uma desculpa plausível para o que, sem dúvida, serão as suas posteriores condenações do acordo quanto chegar outra vez o tempo de eleições) atuaram como estivessem salvando a economia. A realidade é que agora há pouca esperança de reconstruir a infraestrutura como prometera o presidente. Os cortes na partilha da receita federal atingirão duramente cidades e estados, forçando-os a vender ainda mais terra, estradas e outros ativos do domínio público para cobrir seu déficit orçamentário quando a economia dos EUA afundar ainda mais na depressão. O Congresso acabou de acrescentar deflação fiscal à deflação da dívida, desacelerando o emprego ainda mais.

Como será que eles explicarão tudo isto nas eleições de Novembro de 2012?

03/Agosto/2011

Notas de rodapé
[1] FICA: Federal Insurance Contributions Act. Lei federal americana que obriga empregadores a reterem os salários de funcionários para o pagamento da Previdência Social e de Seguros de Saúde
[2] UMKC: University of Missouri - Kansas City

[*] Ex-economista da Wall Street. Professor e investigador da Universidade de Missouri – Kansas City. Autor de Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (new ed., Pluto Press , 2002) e Trade, Development and Foreign Debt: A History of Theories of Polarization v. Convergence in the World Economy.

O artigo original, em inglês, encontra-se em: The Debt Ceiling Debate That Didn't Happen - War and Debt


Esta tradução foi extraída de: Resistir

“US Marine SEAL”: guerra secreta em 120 países

5/8/2011, Nick Turse, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Nick Turse é historiador e jornalista, editor associado de TomDispatch.com e novo editor sênior de Alternet.org.

Nesse instante, em algum ponto do planeta, um comando dos EUA está em ação. Repita a frase 70 vezes, e você terá mapeado a atividade dos SEALs [orig.Sea, Air and Land Forces, “Forças de Mar, Ar e Terra”] da Marinha dos EUA, num único dia. Sem que o povo norte-americano saiba, há uma força militar secreta dos EUA em ação num número imenso de países em todo o mundo. Essa nova elite do poder do Pentágono combate guerra global hoje, de cujos objetivo e dimensões a opinião pública norte-americana não tem conhecimento. 

Mas, depois que uma equipe da força SEAL da Marinha dos EUA meteu uma bala no peito e outra na testa de Osama bin Laden, ao invadir a casa onde Osama morava no Paquistão, um dos braços clandestinos mais secretos das forças militares dos EUA surgiram, embora rapidamente, à vista da opinião pública. Foi atípico. 

Embora se saiba que há forças de Operações Especiais em zonas de guerra no Afeganistão e no Iraque, e que surjam novas evidências a cada dia de que essas unidades operam também em zonas de conflito ainda mais nebulosas, como no Iêmen e na Somália, absolutamente não se conhece a extensão das suas operações em praticamente todo o planeta. 

Ano passado, Karen DeYoung e Greg Jaffe do Washington Post noticiaram que havia forças de Operações Especiais dos EUA em ação em 75 países; no governo de George W Bush, eram 60. Ao final de 2011, o coronel Tim Nye, porta-voz do Comando das Operações Especiais dos EUA disse-me em entrevista que esse número já estará próximo de 120. “Viajamos muito, para muitos lugares, além de Afeganistão e Iraque” – disse recentemente o coronel Nye. 

Essa presença global – em cerca de 60% das nações do mundo e muito mais vasta do que se sabia – é espantosa nova evidência de que a elite do poder do Pentágono está em guerra clandestina, saibam os países-alvo ou não, em praticamente todos os cantos do mundo. 

O aumento do segredo militar dos militares 

Nascido depois de um ataque fracassado, em 1980, para resgatar reféns norte-americanos no Irã, no qual morreram oito agentes norte-americanos, o Comando das Operações Especiais dos EUA [orig. US Special Operations Command (SOCOM)] foi criado em 1987. As forças especiais sobreviveram aos anos pós-Vietnã, desprestigiadas pelas forças militares regulares e com orçamento mínino; até que, repentinamente, ganharam sede própria, orçamento estável e um comandante com quatro estrelas. 

Desde então, o SOCOM só fez crescer, até converter-se em força mista de proporções gigantescas. O SOCOM reúne unidades especiais de todas as armas: os “Boinas Verdes” [orig. Green Berets] e os Rangers do Exército; os SEALs da Marinha; e outras equipes de Operações Especiais da Marinha e Comandos da Força Aérea, além de tripulações especializadas em helicópteros e barcos, pessoal civil, paraquedistas de resgate e até controladores de tráfego aéreo e meteorologistas para regiões de combate. O SOCOM coordena a maioria das operações secretas e missões especializadas de guerra de todas as forças militares nos EUA. 

Essas missões e operações incluem assassinatos predeterminados, ataques a terroristas, reconhecimento de longo alcance, análise de inteligência, treinamento de tropas estrangeiras e operações contra proliferação de armas de destruição em massa. 

Um dos principais braços do SOCOM  é o Comando Conjunto das Forças Especiais [orig. Joint Special Operations Command (JSOC)], subcomando clandestino cuja principal missão é rastrear e matar pessoas acusadas de terrorismo e de associação com terroristas. O JSOC – que reporta diretamente ao presidente dos EUA e age sob sua autoridade – mantém uma lista global de alvos, entre os quais há cidadãos norte-americanos. Esse comando conduziu uma campanha extra-legal de “matar/capturar”, que John Nagl, antigo conselheiro de contrainsurgência do general de quatro estrelas e recentemente nomeado diretor da CIA David Petraeus, descreve como “máquina de matar terroristas em escala industrial”. 

Esse programa de assassinatos predeterminados está sendo implementado por unidades como os SEALs da Marinha e a Delta Force do Exército e também pelos ataques com aviões-robôs pilotados a distância (drones), como parte de guerras clandestinas nas quais também está envolvida a CIA, como na Somália, no Paquistão e no Iêmen. Além disso, o JSOC opera uma rede de prisões secretas, talvez 20 pontos negros, só no Afeganistão, usados para interrogar alvos considerados de alto valor. 

O crescimento da indústria 

De força com cerca de 37 mil agentes no início dos anos 1990s, o Comando de Operações Especiais, SOCOM, cresceu muito; tem hoje quase 60 mil agentes, um terço dos quais, são membros de carreira do SOCOM; os demais são especialistas de outras áreas ocupacionais militares, que circulam periodicamente pelo Comando. 

Depois de 11/9/2001, o crescimento foi exponencial: o orçamento básico do SOCOM quase triplicou, de $2,3 bilhões, para $6,3 bilhões. Se se soma o investimento para as guerras no Iraque e no Afeganistão, em três anos o orçamento mais que quadruplicou e chega hoje a $9,8 bilhões. Não surpreendentemente, o número de agentes ativos no exterior é hoje quatro vezes maior. E estão em estudo novos aumentos, com expansão das operações em curso. 

O tenente-general Dennis Hejlik, ex-comandante do Comando de Operações Especiais da Marinha – o último ramo de serviços que foi incorporado aoSOCOM, em 2006 – indicou, por exemplo, que prevê a duplicação da unidade de 2.600 que comandou: “Vejo-os como força de cerca de 5 mil unidades ativas, aproximadamente o número de SEALs que temos no campo de combate. Entre 5 e 6 mil”, disse Hejlik em café da manhã com jornalistas que cobrem a Defesa, em Washington, em junho. Planos de longo prazo exigem que a força seja aumentada imediatamente em mais 1.000 unidades ativas. 

Em recente depoimento ao Senado, depois de ter sido indicado para presidir o SOCOM, o vice-almirante William McRaven da Marinha, que acabava de deixar o comando do JSOC (que ainda comandava no ataque que matou bin Laden) defendeu crescimento continuado do contingente ao ritmo de 3-5% ao ano; e pediu mais recursos, inclusive novos aviões-robôs tripulados à distância (drones) e a construção de várias novas instalações para operações especiais. 

Ex-agente SEAL que ainda várias vezes acompanha as ações de campo, McRaven disse acreditar que, com a retirada das forças convencionais do Afeganistão, os agentes das forças especiais terão de desempenhar papel mais amplo do que atualmente. O Iraque, disse ele, muito terá a ganhar se agentes das forças especiais dos EUA continuarem ativas lá, mesmo depois de esgotado o prazo final para total retirada, em dezembro de 2011. E garantiu à Comissão das Forças Armadas do Senado que “como ex-comandante do JSOC, posso dizer que também estamos examinando com atenção os casos do Iêmen e da Somália”. 

Em discurso à Associação Nacional da Indústria de Defesa, no simpósio anual sobre Operações Especiais e Conflitos de Baixa Intensidade, no início de 2011, o almirante da Marinha Eric Olson, às vésperas de deixar o posto de Comandante do Comando de Operações Especiais, exibiu uma imagem noturna do planeta, feita de fotos feitas por satélites. Antes de 11/9/2001, a parte ‘iluminada’ do planeta – nações industrializadas do norte do globo – era definida como a área chave. “Mas o mundo mudou”, disse o almirante Olson. “Nosso foco estratégico e a ação da comunidade de operações especiais olham hoje sobretudo para o sul (...); temos de lidar com ameaças que vêm de áreas não iluminadas”. 

Para essa finalidade, Olson lançou o “Projeto Lawrence” – esforço para ampliar as competências culturais dos agentes – estudos avançados de idiomas e melhor conhecimento da história e costumes locais, com vistas a preparar os agentes para operações em outras terras. O programa recebeu o nome do oficial britânico Thomas Edward Lawrence (“Lawrence da Arábia”), que se aliou a combatentes árabes numa luta de guerrilhas no Oriente Médio, durante a I Guerra Mundial. Falando sobre Afeganistão, Paquistão, Mali e Indonésia, Olson disse que o SOCOM precisa contar agora com “Lawrences de seja onde for”. 

Olson falou de apenas 51 países como principais pontos de preocupação para o SOCOM; Nye disse-me em entrevista que, em termos gerais, há forças de Operações Especiais ativas hoje em aproximadamente 70 países em todo o mundo. E todas, apressou-se a esclarecer, a pedido dos respectivos governos locais. 

Segundo depoimento que Olson prestou à Comissão de Forças Armadas da Câmara de Deputados no início desse ano, cerca de 85% dos agentes de operações especiais estão ativos em 20 países da área de operação do CENTCOM no Grande Oriente Médio: Afeganistão, Bahrain, Egito, Irã, Iraque, Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Quirguistão, Líbano, Omã, Paquistão, Qatar, Arábia Saudita, Síria, Tadjiquistão, Turcomenistão, Emirados Árabes Unidos. Uzbequistão e Iêmen. Os demais estão distribuídos pelo planeta, da América do Sul ao Sudeste da Ásia, em alguns casos em pequenos números, em outros, com grandes contingentes. 

O Comando de Operações Especiais não diz em que países operam seus agentes. “Evidentemente há casos em que não nos interessa divulgar a nossa presença”, diz Nye. Nem todos os países querem divulgar essa colaboração por razões deles, internas ou regionais.” 

Mas se é segredo, é segredo mal guardado. Muitos sabem que os agentes ‘de uniformes pretos’ das operações especiais, como os SEALs e a Força Delta, estão engajados em ações de “matar/prender” no Afeganistão, Iraque, Paquistão e Iêmen; e que os agentes ‘de uniformes caquis’, como os Boinas Verdes e os Rangers treinam parceiros locais, como parte da guerra planetária contra a al-Qaeda e outros grupos militantes. 

Nas Filipinas, por exemplo, os EUA gastam 50 milhões de dólares por ano com um contingente de 600 agentes de forças das Operações Especiais, SEALs da Marinha, operadores especiais da Força Aérea e outros, que trabalham em operações de contraterrorismo com aliados filipinos, contra grupos insurgentes como Jemaah Islamiyah e Abu Sayyaf. 

Ano passado, como mostram análises de documentos do SOCOM, informações divulgadas pelo Pentágono e um banco de dados de missões das Operações Especiais reunido pela jornalista investigativa Tara McKelvey (para a Iniciativa “Jornalismo e Segurança Nacional” da Medill School of Journalism), as principais ações das tropas especiais dos EUA foram exercícios conjuntos no Belize, Brasil, Bulgária, Burkina Faso, Alemanha, Indonésia, Mali, Noruega, Panamá e Polônia. 

Até agora, em 2011, missões similares de treinamento foram realizadas na República Dominicana, Jordânia, Romênia, Senegal, Coreia do Sul e Tailândia, dentre outros países. Nye disse-me que, de fato, há ações de treinamento em praticamente todas as nações para as quais se enviam agentes das Forças Especiais. “Dos 120 países que visitaremos até o final do ano, posso dizer que haverá operações de treinamento, de um modo ou de outro. São classificados como exercícios de treinamento.” 

A elite do poder do Pentágono 

Inicialmente vistas como filhas bastardas do establishment militar, as forças de Operações Especiais cresceram exponencialmente não só em tamanho e orçamento, mas também em poder e influência. Desde 2002, o SOCOM foi autorizado a criar suas próprias Força-tarefas Conjuntas – como a Força-tarefa Filipinas, do JSOC –, prerrogativa que, antes, era privilégio de comandos maiores, como o CENTCOM. Esse ano, sem qualquer alarde, o SOCOM criou também sua própria Força-tarefa de Aquisições, quadro de especialistas em design e aquisição de equipamentos. 

Com autonomia sobre orçamento, treinamento e equipamento de suas forças, poderes que antes eram exclusivos de departamentos (como o Departamento do Exército ou o Departamento da Marinha), com dólares ‘carimbados’ em todos os orçamentos do Departamento da Defesa e com defensores influentes no Congresso, o SOCOM é hoje ator excepcionalmente poderoso no Pentágono. 

Com esse efetivo poder, pode vencer batalhas burocráticas, comprar tecnologia de ponta e fazer pesquisa reservada no campo das comunicações ou das tecnologias ‘de invisibilidade’, como a dos aviões stealth invisíveis aos radares. Desde 2001, sextuplicou o número de contratos entre o SOCOM e pequenas empresas – produtoras, quase sempre, de equipamento bélico e armas. 

O SOCOM tem quartel-general na base aérea de MacDill na Florida, mas opera em teatros de comando espalhados pelo planeta (com bases no Havaí, na Alemanha e na Coreia do Sul); ativo hoje na maioria dos países do planeta, o Comando de Operações Especiais já é força praticamente independente. 

Como disse o comandante Olson, pouco antes de deixar o comando do SOCOM no início de 2011, o SOCOM “é um microcosmo do Departamento de Defesa, com forças de terra, mar e ar, presença global e autoridade e responsabilidade correspondentes ao dos Departamentos e Serviços militares e das agências da Defesa”. 

Com a tarefa de coordenar todo o planejamento do Pentágono contra as redes globais de terrorismo e, como resultado disso, intimamente conectado a outras agências do governo dos EUA; a militares estrangeiros e a serviços de inteligência, e armado com enorme arsenal de helicópteros ‘invisíveis’, mísseis teleguiados, aviões-robôs (drones) pesadamente armados, barcos de alta velocidade armados e equipados com tecnologia ultrassofisticada, veículos Humvees especializados e veículos camuflados blindados à prova de minas [orig. Mine Resistant Ambush Protected vehicles (MRAPs)]; além de uma parafernália de equipamentos de tecnologias de última geração, com mais inovações já em planejamento e produção, o SOCOM representa algo completamente novo no campo militar. 

O falecido especialista em militarismo Chalmers Johnson costumava referir-se à CIA como “o exército privado do presidente”. Hoje, esse papel cabe aoJSOC. Esse Comando Associado de Operações Especiais atua como esquadrão da morte privado do chefe do executivo nos EUA; e seu parente próximo, o Comando de Operações Especiais, SOCOM, funciona como uma elite superarmada do Pentágono – um exército secreto dentro do exército, com poder doméstico e alcance global. 

Em 120 países em todo o globo, agentes do Comando de Operações Especiais fazem sua guerra secreta de assassinatos predeterminados pontuais de suspeitos ‘importantes’; ou de assassinatos ‘a granel’ de suspeitos menos ‘importantes’; operações de captura/sequestro; operações noturnas de derrubar portas de casas habitadas e explodir paredes; e missões de treinamento com parceiros ‘locais’ – ações de uma guerra clandestina sobre a qual os cidadãos norte-americanos nada sabem. Forças que já foram consideradas “especiais” por serem pequenas, ágeis e auxiliares no corpo do exército, são hoje “especiais”, pelo extraordinário poder que concentram, pelo acesso sem qualquer restrição a qualquer ponto de qualquer lugar do planeta, pela influência e pela “aura”. 

Essa “aura” cresce hoje, por efeito de uma incansável campanha de propaganda e publicidade, que divulga nos EUA e no exterior imagens de agentes sobre-humanos, como se fossem super-heróis, apesar de aqueles agentes, hoje, trabalharem cada vez mais escondidos na clandestinidade, exatamente o contrário do que fazem os heróis de televisão e histórias em quadrinho. Exemplar dessa visão de propaganda com que se querem travestir, foi a frase do almirante Olson: “Estou convencido de que as Forças [Especiais] são os parceiros mais culturalmente bem afinados, os caçadores-matadores mais eficientes, os assessores e instrutores mais empenhados, ágeis, criativos, inovadores, os mais eficientes solucionadores de problemas e guerreiros intrépidos que qualquer nação do mundo pode hoje oferecer”. Dão a impressão de que estão à venda, como numa feira de rua.

Recentemente, no Fórum de Segurança do Instituto Aspen, Olson repetiu esses comentários de propaganda, além de informação falsa, ao dizer que as Forças Especiais dos EUA estariam operando em apenas 65 países e engajadas em combate em apenas dois. Perguntado sobre os ataques com aviões-robôs não tripulados (drones) em território do Paquistão, Olson, segundo os jornais, respondeu: “Vocês estão falando daquelas explosões sem causa conhecida?” 

Mas há outras coisas reveladoras, no que disse. Olson observou, por exemplo, que operações “de uniformes pretos”, como a ‘missão bin Laden’, de agentes em helicópteros em ataque noturno, tornaram-se extremamente comuns. “Uma dúzia dessas missões, ou quase isso, acontecem por noite” – disse ele. Talvez ainda mais reveladora seja uma observação que fez sobre o tamanho do SOCOM. Hoje, disse Olson, as forças de Operações Especiais dos EUA têm números equivalentes a todo o exército canadense hoje em serviço ativo. As forças especiais dos EUA são, de fato, maiores que os exércitos regulares de muitas nações nas quais operam hoje. E esses números continuam a aumentar. 

Os cidadãos norte-americanos têm de enfrentar o significado de o país manter força “especial” tão gigantesca, tão ativa e tão secreta – o que jamais conseguirão fazer até que haja mais e melhor informação. Não é discussão que se possa esperar que Olson ou seus soldados proponham. “Nosso acesso [aos países estrangeiros] depende de nossa capacidade de não falar sobre o que fazemos” – disse Olson em resposta a perguntas sobre o segredo que cerca o SOCOM. Os soldados secretos reclamam, quando as missões são divulgadas e expostas, como aconteceu no assassinato de bin Laden. E concluiu: os exércitos secretos sempre querem voltar às sombras, “para fazer o que sabem fazer”.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Barack Obama e a loucura presidencial nos EUA

Andrew J. Bacevic

14/4/2011, Andrew J Bacevich, Asia Times Online 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu  

É lugar comum na política dos EUA: quando o caminhão de mudanças chega à Casa Branca no dia da posse, entrega, além das araras de ternos cinza-escuros e gravatas poderosas, caixas e caixas de expectativas. 

O presidente, o homem mais poderoso do mundo, começa do zero uma nova história, ou, pelo menos, os americanos creem nisso, ou fingem crer. Adeus ao velho, ao sórdido, ao frustrante; tudo começa do zero, fresco, sem mácula e carregado de esperanças. Afinal, com uma penada, o novo presidente tem poder para ordenar o fechamento de uma prisão controversa que nos envergonha, em terra distante mas 100% norte-americana, para acusados de terrorismo que são mantidos presos, sem acusação nem processo, por anos! O presidente quer, o presidente faz. 

Por todas as razões imagináveis, a chegada de Barack Obama ao Salão Oval gerou expectativas particularmente altas, e não só entre os norte-americanos. Como explicar, se não por excesso de expectativas, a decisão do Comitê Nobel o qual, para honrar o novo presidente, converteu o Prêmio Nobel em Prêmio da Paz Possível, Paz Desejada, Prêmio por Antecipar Alguma Paz – mais ou menos como alguém recebesse a Taça Heisman uma semana antes da decisão do campeonato anual de futebol universitário. 

Se o clima emocional reinante imediatamente antes e imediatamente depois da posse de algum presidente chama a atenção para o que há aí de promessas e descobertas (a primeira-dama tem bíceps!), não demora, e a novidade começa a perder o gosto. Então a narrativa entra em queda livre: ele não fez o que prometeu, nos traiu, é mais do mesmo, como sempre. 

Cabem aqui as palavras de H L Mencken. “Sempre que vejo alguém aplaudido pelas massas”, escreveu o Sábio de Baltimore, “sinto uma pontada de pena: se sobreviver por tempo suficiente, será vaiado.” Obama hoje já sobreviveu por tempo suficiente para atrair uma merecida quota de vaias, “buuuus” e apitaços. 

Não bastasse ter prolongado e expandido uma guerra no Afeganistão, esse laureado pró-paz, Prêmio Nobel da Paz que o mundo desejava, teve papel destacado em iniciar outra guerra, dessa vez, na Líbia. Ainda obrando para diferençar o atual governo e o governo anterior, os defensores de Obama enfatizam a pureza de suas intenções e motivações. 

Esquecidos de que George W Bush disse que os EUA invadiram o Iraque, rico em petróleo, para impedir que armas de destruição em massa caíssem em mãos de terroristas, os norte-americanos rapidamente aceitam que Obama ainda repita que os EUA invadiram a Líbia, rica em petróleo, para evitar um genocídio. Não bastasse, para comprovar a intenção virtuosa do presidente, lá estavam os franceses, dessa vez conosco, não contra nós. 

Explicar é jogo de cena 

A verdade é que atribuir a um único governo algum objetivo ou razões específicas, em qualquer iniciativa de política exterior em grande escala, sempre provoca distorções. Em todos os governos, as ações resultam de alguma espécie de consenso. O consenso entre assessores de qualquer presidente – no círculo íntimo de Lyndon B Johnson, em apoio à escalada da guerra no sul do Vietnã em 1965; de George W., para pressionar a favor de uma mudança de regime em Bagdá – não implica acordo perfeito, absoluto. 

Os motivos sempre são esquivos, impalpáveis. Como observou o ex-secretário de Defesa Paul Wolfowitz sobre o Iraque, as armas de destruição em massa só serviram como ponto focal, aceito por todos, a ser oferecido às massas como explicação e justificativa para a guerra. De fato, foram vários os motivos que levaram à decisão de invadir o Iraque. Para alguns, dentro do governo, havia ali boa oportunidade para eliminar uma fonte de problemas futuros, ao mesmo tempo em que se criava caso exemplar, a ser exibido contra outros inimigos potenciais. 

Para outros, foi a promessa de reafirmar a hegemonia dos EUA nos campos de reserva de energia do planeta. Para outros ainda (inclusive o próprio Wolfowitz), foi a visão delirante de um Oriente Médio transformado, democratizado e pacificado, eliminando-se assim as próprias fontes do terror islamista, de uma vez por todas. 

No mínimo pelas beiradas, expandir os poderes da presidência à custa do Congresso, reforçar a segurança de Israel e acabar o servicinho que papai deixou pela metade também aparece na equação. Desse mix, cada político pode selecionar o que prefira. 

Dadas as circunstâncias em mutação, todos reclamaram a prerrogativa de mudar de opinião. Quem duvida que Bush, ante os grandes “Epa!” – armas de destruição em massa que, afinal, nunca existiram – sinceramente se convenceu de que o sincero objetivo dos EUA, ao invadir o Iraque, foi libertar o povo iraquiano oprimido? Afinal, desde o início a coisa não levava o nome de “Operação Liberdade do Iraque”? 

E assim, mesmo quando jornalistas e historiadores ocupam-se com tentar explicar por que aconteceu alguma coisa, todos fazem jogo de cena. Por mais criativos ou bem informados que sejam, com acesso às melhores fontes, suas respostas são necessariamente especulativas, parciais e ambíguas. Não há como ser diferente. 

Em vez de “por quê?”, o que quase sempre recebe muito menos atenção do que recebe é “como?”. E aqui se vê que Obama e George W Bush (para nem falar em Bill Clinton, George H W Bush, Ronald Reagan e Jimmy Carter) são como irmãos xifópagos. No que tenha a ver com o mundo islâmico, já há mais de 30 anos as respostas de Washington são praticamente sempre as mesmas: aplica-se o poder “duro”, o mais duro que os EUA consigam mobilizar. Em termos simples, o “como”, do ponto de vista de Washington sempre tem a ver com mais, e cada vez maior, guerra. 

Pode haver pequenas discordâncias entre os presidentes, se se pergunta o que tentam ganhar no Grande Oriente Médio (Obama não recitaria, por exemplo, versos da Agenda da Liberdade, de Bush), mas já há várias décadas todos concordam sobre os meios: seja o que for que os EUA queiram ver feito, a chave para fazê-lo é o poderio militar. E assim acontece que, hoje, assistimos ao extraordinário espetáculo de ver Obama abraçar a Guerra Global ao Terror de Bush em versão expandida, mesmo depois de ter banido para sempre qualquer elogio a Guantánamo, definido como politicamente incorreto. 

O Grande “Como”: sempre pela força
Os esforços para santificar os objetivos do governo Obama na Líbia foram centrados na influência das Três Harpias: a secretária de Estado Hillary Clinton, a embaixadora dos EUA na ONU Susan Rice e a diretora de Direitos Humanos do Conselho Nacional de Segurança Samantha Power, mulheres em posições de poder, ostensivamente soterradas ante a evidência de que os EUA voltaram às soluções de 1994 no genocídio em Ruanda, só que, agora, sem poder errar outra vez. 

Mesmo isso pode não passar de especulação. A única coisa em torno da qual não há dúvida é a seguinte: ao ver o Grande Oriente Médio como região mal arrumada, com pregos soltos, que carecem de marteladas de correção, o atual comandante-em-chefe passa a ter de ser incluído como mais um, na galeria dos presidentes de guerra, dos EUA. 

O xis da questão é: há alguma possibilidade de alguém, seja Obama sejam suas Três Harpias (ou seja quem for, em posição de influenciar decisões), avaliar se, de fato, a coisa se arranja a martelo, se o martelo é tão eficaz quanto se autoapregoa – apesar de haver tantas provas de que martelo e martelada não são soluções eficazes para dificuldades políticas? 

A sequência de aventuras militares iniciadas em 1980, quando Carter divulgou sua “Doutrina Carter” dá história feia, mas esclarecedora. O esforço de Reagan para pacificar o Líbano terminou em 1983 num banho de sangue. A vitória nominal da “Operação Tempestade no Deserto” em 1991, que expulsou do Kuwait as forças de Saddam Hussein, pouco obteve além de terríveis complicações, que a obsessão de Clinton por bombas aladas e mísseis, ao longo dos anos 1990s, pouco fez para resolver ou esconder. 

O revés que resultou da primeira intervenção dos EUA no Afeganistão contra os soviéticos ajudou a criar o problema que levou ao 11/9 e a outra guerra no Afeganistão, que já se aproxima do 11º aniversário, sem fim à vista. Quanto ao segundo ataque de George W Bush contra o Iraque, se se pudesse esquecer, seria melhor. E agora, a Líbia. 

É preciso responder à pergunta: “Pelo menos, estamos vencendo alguma guerra?” Se não, por que insistir num esforço de guerra que custa tantas infinitas dores e tão pouco nos rende? 

É possível que Obama veja sua alma gêmea em Samantha Power, que tanto luta contra o eixo do mal pelo mundo, e faça sua a determinação dela. Ou talvez Obama não passe, mesmo, de mais um político, que fala a língua dos altos ideais, ao mesmo tempo em que persegue objetivos bem menos altos. De um modo ou de outro, essa questão pouco interessa. O “como” sempre supera o “por quê”. 

Sejam quais forem seus motivos, ao se conformar ao padrão preexistente de usar a força militar contra o Grande Oriente Médio, Obama escolheu a ferramenta errada. Errado nisso, condena-se e condena os EUA a persistir na via alucinada, de loucura, dos presidentes anteriores. É fracasso da imaginação, mas também é fracasso da coragem. Obama prometeu. Os EUA merecemos coisa melhor. 

quinta-feira, 17 de março de 2011

Como os anos '80s programaram os EUA (e o mundo) para a guerra

15/3/2011, *David Sirota, “Back do Our Future” [excertos] em SALON
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sejamos bem claros: eu não sabia, conscientemente, que era militarista fanático em 1988, aos 12 anos, idade em que todos somos impressionáveis. Quando fazia mira com o meu tanque G.I. Joe Snowcat Transformer e lançava um dos seus seis mísseis contra os soldados Cobra que diariamente sitiavam minha cidade LEGO, eu não sabia que, se aquilo fosse real, eu acabaria o dia sob uma pilha fumegante de sangue e pernas e braços decepados de civis inocentes. O que eu pensava era “Que demais!” 

Quando aluguei pela primeira vez o filme, para maiores de 13 anos, produzido em 1984, “Amanhecer Violento” [Red Dawn], e vi aqueles adolescentes, sob a justificativa de que estariam protegendo os EUA, matar gente a sangue frio, uma execução depois da outra, não sabia que o filme entraria no Livro Guinness, como recordista de exibição de cenas de violência extrema por minuto, da história do cinema. A única coisa que fiz foi torcer. 

E quando jogava“Contra”, no meu Nintendo NES, nunca questionei a ideia básica de dar a um jogo o nome de esquadrões de extermínio, um grupo de terroristas criado pelo governo Reagan, para que a CIA conseguisse retirar ilegalmente dinheiro do Irã. Eu me divertia batendo, batendo prá-cima-prá-cima-prá-baixo-prá-baixo-esquerda-direita-esquerda-direita-B-A, até moer completamente qualquer coisa que me mexesse naquela tela.

“A propaganda é mais efetiva quanto menos se sabe que é propaganda” – ensina Nancy Snow, especialista em relações públicas. “Numa sociedade aberta como os EUA, a natureza ocultada, integrada, da propaganda, é o instrumento pelo qual mais se convence a opinião pública de que ela não estaria sendo manipulada.” 

Perfeitamente. Por isso, nem eu nem meus pais poderíamos saber sobre o quanto os anos 80s estavam nos treinando, eu e todos os meninos que ocupávamos os porões e sótãos de casa convertidos em bunkers. Para a geração que crescera até ali com “Reading Rainbow” e “ET”, games eram instrumentos de aprendizagem. A militarização das crianças nos EUA começou nos anos 1980s, até converter-nos todos em homenzinhos verde-oliva, coturnos e capacete, armados até os dentes, comparados aos quais os escoteiros de antigamente teriam ares de militantes pacifistas. Com o Pentágono intervindo em roteiros para o cinema, na criação de videogames, cooperando com a indústria de brinquedos e agências de publicidade, com inventores de brinquedos e, não raras vezes, influindo também nas empresas publicadoras de álbuns de figurinhas de jogadores de baseball para que criassem o álbum “Operação Tempestade no Deserto” em figurinhas, sempre muito mais profecias que fantasias.

O governo Reagan e o reaganismo foram a alvorada do que a revista Wired chamou de “síndrome do complexo entretenimento-guerra”. A linha mais dura daqueles falcões forneceu o arremedo de substrato racional para uma política de criar cumplicidades entre o Estado e as famílias; e a agenda de “desregulação” ampla, geral e irrestrita da Casa Branca naqueles anos de neoliberalismo, ajudou a televisão a tornar-se o cada vez mais presente e mais influente agente da propaganda & marketing de produtos de entretenimento cada vez mais violentamente agressivos e cada vez mais militarizados, para o público infantil e juvenil.

Hoje, aquele investimento rende os lucros que se esperavam dele, bem a tempo para alimentar a atual obsessão pela guerra permanente. Hoje, por exemplo, encontram-se frequentes referências aos desenhos animados e aos bonecos de G.I. Joe dos anos 1980s nas razões que os jovens norte-americanos oferecem para alistar-se. (Artigo de outubro de 2008 em The Believer descobriu “pesquisa feita por jornal de circulação nacional, que buscava referências ao personagem G.I. Joe encontrou 35 obituários de soldados mortos no Iraque desde o início da guerra, em 2003. Naqueles obituários, familiares dos soldados mortos lembravam que, na infância, eles brincavam ‘de G.I. Joe’.) Assim também, durante a invasão do Iraque, o Pentágono batizou a operação de caçada a Saddam Hussein “Operação Red Dawn” [literalmente, “Aurora Vermelha”; mas, em português, o filme recebeu o título de “Amanhecer Violento” (NTs)], porque os oficiais diziam que o filme dirigido por John Milius [o mesmo que, adiante, seria roteirista de Coppola em Apocalypse Now (NTs)] seria “filme patriótico, pró-EUA, a que todos os militares assistimos na juventude”.

Considerando tudo isso, é possível acreditar que só por mero acaso os assessores ‘de comunicação’ de George W. Bush dedicaram-se a recriar a cena final de “Top Gun” [“Ases Indomáveis”], para comemorar a declaração feita pelo patrão deles, de vitória no Iraque? Ou que a frase de Bush, “bring them on”, nada teria a ver com a intenção de despertar adormecidas lembranças dos adolescentes de Milius no filme dos anos 80s? Será pura coincidência que o Pentágono, hoje, faça convocações para que os jovens se alistem, com material publicitário exibido em cinemas que mostra soldados em trajes-armaduras à prova de balas à “RoboCop” e a guerra como se acontecesse em cenário de ficção científica de “The Last Starfighter” [O Último Guerreiro das Estrelas, em português]?

Os estrategistas da Casa Branca e os propagandistas do Pentágono usam imagens, conceitos e informação como armas estratégicas, e sabem bem a mais eficaz dessas armas são as nostalgias construídas da infância. Sabem também que, em país no qual quase metade da população nasceu depois de 1979, algumas das memórias mais poderosas dos jovens permanecem confinadas naqueles tristes anos 1980s.

Boa parte de tudo isso se encaixa à maravilha na agenda do Pentágono. “Os jovens em idade de recrutamento citam filmes e a televisão como fonte primária de suas ideias sobre o exército e a vida militar. [Por isso, filmes e a televisão] são muito importantes [para o Pentágono]” – disse uma porta-voz do exército à PBS, citando detalhadas pesquisas com as quais o Departamento de Estado trabalha, para conhecer os hábitos dos recrutas. “É uma oportunidade para que as crianças saibam o que esperar e para saberem o que significa ser um soldado.” 

“Amanhecer Violento” é roteiro-padrão de paranóia de invasão, mas com detalhes atentamente propostos com vista a atingir jovens em idade de recrutamento. Fala de um grupo de adolescentes, numa cidade ficcionalizada (Calumet, Colorado), que se autodenominam Wolverines e que montam uma guerrilha de resistência a massivo assalto soviético à pátria norte-americana. O filme reúne amostra impressionante de adolescentes que, adiante, seriam astros: Thompson, Jennifer Grey, Patrick Swayze, C. Thomas Howell e, o hoje mais conhecido deles, Charlie Sheen, nos principais papeis.

Encontram-se no filme todas as frases da paranóia militarista, inclusive todos os slogans do mundo dos anos 80s, pós-Vietnã:

– Ideias extremistas a favor do uso indiscriminado de armas: numa das primeiras cenas do filme, vê-se um “soviético” arrancando uma arma de um cadáver norte-americano, enquanto a câmera caminha sobre um adesivo, num caminhão, em que se lê o slogan da campanha contra qualquer controle do uso de armas entre civis: “Só tirarão minha arma, se quebrarem os dedos frios, gelados, do meu cadáver”. Depois, adiante, os “soviéticos” conseguem rastrear os resistentes norte-americanos, porque encontram a lista dos proprietários de armas nos EUA que o governo diz que tem (uma das mais persistentes teorias conspiracionais, muito repetida por militares e pelos defensores do direito à posse de armas).

– O direito que os EUA teriam, de retaliar/vingar qualquer derrota que sofram em qualquer guerra: o pai de um dos adolescentes é mostrado numa gaiola, num campo de concentração, berrando ao filho: “Vingue-me”, mate o maior número possível de inimigos. Nos anos 80, esse grito bem poderia ser o hino de todos os militaristas que pregavam o retorno ao Vietnã [para “acabar o serviço”].

– Todos os políticos são bandidos, traidores e corruptos e, portanto, podem ser caluniados, denunciados sem provas etc.: o filme mostra o prefeito de Calumet como colaborador covarde, a serviço dos soviéticos, que nada faz, quando seus eleitores são cercados e assassinados. Além disso, o filho do prefeito (presidente da associação de alunos do ginásio de Calumet) pressiona os Wolverines para que se rendam e, depois, os trai. Em resumo, “Amanhecer violento” ensina que todos os políticos são covardes, corruptos e traidores [exatamente, aliás, o que TAMBÉM ensinam, todos os dias, D. Dora Kramer, D. Eliane Cantanhêde, tooooooooodos os colunistas e todos os jornalistas da Folha de S.Paulo, do Estadão, da revista (NÃO)Veja, da revista Carta Capital, o juiz Maierovich, Mino Carta, Caros Amigos e muitas outras, além de muitos petistas e do William Waack e os Bonner&Patroa e toooooooodos os embaixadores dos EUA que escrevem o que WikiLeaks, felizmente, vaza (NTs)].

– Os EUA como “o injustiçado”, uma espécie de azarão que, contudo, consegue fazer, contra tudo e todos, o que lhe cabe fazer: Do mesmo modo, a política, a mídia, toda a indústria do entretenimento nos anos 80s mobilizou-se para reapresentar os militares norte-americanos como ‘azarões’, heróis improváveis, que conseguem o impossível: ajudar “combatentes da liberdade” na América Latina; resgatar prisioneiros de guerra no Vietnã; liberar o Kuwait das garras do Iraque-bandido. Os Wolverines de “Despertar Violento” são posicionados como insurgentes superarmados, que abrem seu caminho até a vitória contra o gigante russo. “A mensagem de Despertar Violento, diz o diretor Milius, é “libertar” os oprimidos” – entendendo-se por “os oprimidos” os próprios norte-americanos, a nação mais completamente dominada pelo exército que jamais houve na história da humanidade.

Quando se refugiam numa floresta, onde se dedicam a práticas de sobrevivência antiquadas, que só o Unabomber traria novamente à pauta (beber sangue de um veado macho, como prática para selar a solidariedade entre machos, por exemplo), os Wolverines encontram um ex-piloto dos EUA que enuncia mais algumas máximas do militarismo paranoico dos anos 80s: 

– Há terroristas camuflados vivendo entre nós: “A primeira onda do ataque (pelos soviéticos) chegou camuflada em voos comerciais normais” – diz o piloto, em espantosa antevisão dos ataques que viriam no 11 de setembro.

– É imprescindível militarizar a fronteira sul: “Os infiltrados entram ilegalmente pelo México, sobretudo cubanos” – o piloto continua.

– A covardia dos aliados ocidentais justifica que os EUA gastem mais com armas, armamentos e exércitos que todas as demais nações do mundo, somadas: Quando os adolescentes perguntam se a Europa ajudará a deter a invasão soviética, o piloto diz que a Europa está “assistindo de camarote. Nenhum país europeu, exceto a Inglaterra, durará muito”. 

É preciso lembrar que quatro anos antes de esse filme chegar às telas, Ronald Reagan dera substância e voz a muitas dessas teorias, dizendo que “os soviéticos e seus amigos estão avançando” e criticou o governo Carter por “não saber ver nenhum padrão de ameaças”. Foi propaganda, na forma mais literal.

Em 1997, depois de informação de que “Despertar Violento” era um dos filmes preferidos de Timothy McVeigh – autor de atentado terrorista, dia 19/4/1995, em Oklahoma, que fez 168 mortos e mais de 500 feridos e que, até os atentados de 11/9/2001, fora o mais violento ataque terrorista em solo americano –, Peter Bart presidente da MGM revelou à revista Variety que, quando a companhia pela primeira vez analisou o roteiro do filme, o principal executivo da empresa “declarou, em termos absolutamente claros, que desejava fazer o filme mais nacionalista, chovinista, patriótico, de erguer bandeiras [orig. jingoistic], de todos os tempos. “O estúdio, então, recrutou o recém aposentado secretário de Estado de Reagan, general Alexander Haig, para integrar o conselho diretor da MGM e para operar como consultor, ao lado do diretor [de “Despertar Violento”], para dar ao filme o toque ideológico apropriado” Quando o primeiro esboço de roteiro ficou pronto, em tom que lhe pareceu que lamentava excessivamente as tragédias da guerra, Bart contou que o estúdio “exigiu que alguém lhe explicasse por que os redatores pensam em refilmar Lord of the Flies, quando o que interessa ao estúdio é reinventar Rambo”. 

Todos sabem que os militares trabalharam com os produtores e estúdios de Hollywood desde 1927, quando ajudaram a produzir Wings – ganhador do primeiro Prêmio da Academia para Melhor Filme. O envolvimento do Pentágono variou ao longo dos primeiros dois terços do século 20, mas sempre visou, como alvo de propaganda, as crianças. Nos anos 1950s, por exemplo, os militares trabalharam com a cadela Lassie, em filmes e seriados de televisão que destacavam as novas tecnologias militares e produziram Mouse Reels para “The Mickey Mouse Club”; um dos filmes então produzidos mostrava crianças visitando o primeiro submarino nuclear. Como o jornalista David Robb descobriu, o Pentágono registra num memorando que “a mídia dirigida às crianças é excelente oportunidade para apresentar a toda uma geração a Marinha movida a energia nuclear”. 

Nos anos 1970s, houve menor número de filmes de guerra apoiados pelo Pentágono, porque a mídia sobre a guerra do Vietnã fatigara o público, durante a guerra e nos anos imediatamente seguintes. Mas, segundo o The Hollywood Reporter, com o militarismo novamente em ascensão na era Reagan, os anos 1980s assistiram “ao crescimento consistente de pedidos para acesso a instalações militares e do número de filmes, programas para a televisão e vídeos domésticos sobre os militares”. 

Em troca de autorizar o acesso a instalações militares para filmagens, os militares começaram a exigir compensações. O foco do Pentágono nos públicos juvenis começou a mostrar a própria mão pesada que se começava a usar para modelar a cultura popular dos anos 1980s. Cada vez mais, para autorizar o acesso dos produtores até as instalações militares mais corriqueiras, necessárias como cenários, o Pentágono começou a exigir maior participação e maiores mudanças na construção de roteiros e diálogos, para garantir que os militares fossem mostrados sob luz favorável. 

Em matéria publicada em Variety em 1994, Phil Strub, funcionário do Pentágono encarregado dos contatos com Hollywood, diz claramente: “O principal critério que empregávamos [para aprovar] era (...) o quanto a produção proposta beneficiava os militares. Ajudaria no recrutamento? Estava sincronizada com as políticas do Pentágono?”.

Segundo Strub, o conluio Pentágono - Hollywood alcançou “marco histórico” em 1986, com Top Gun/“Ases Indomáveis”], propaganda triunfalista a favor do recrutamento de adolescentes para a aviação da Marinha, com os pilotos apresentados como “o melhor dos melhores”. Nenhum desses “melhores”, evidentemente, jamais pergunta nenhuma das perguntas básicas que ocorreriam a qualquer pessoa ‘normal’. Nem os personagens nem o roteiro são acaso de criatividade. O roteiro foi praticamente construído pelo Pentágono, em troca de pleno acesso a todos os aviões e máquinas – acesso que, na prática, é subsídio à indústria, de valor inestimável, pago com dinheiro dos contribuintes norte-americanos. Segundo Maclean, a Paramount Pictures pagou apenas “$1,1 milhão de dólares pelo direito de usar aviões e um porta-aviões”, muito menos do que lhe custaria, se o estúdio tivesse de financiar diretamente toda a produção.

Como se essa dinâmica de “cenoura-e-porrete” não fosse suficiente para inspirar todos os produtores de filmes, o Pentágono, nos anos 1980s, expandiram a definição de “cooperação”, para incluir intervenção nos roteiros, desde a fase dos primeiros esboços. “Ganha-se tempo. Os autores nem começam a escrever roteiros idiotas” – disse um oficial do Pentágono, explicando o novo processo.

Atitude assim diplomática, combinada com o sucesso de bilheteria do modelo “Top Gun” sob orientação do Pentágono, convenceu os estúdios, nos anos 80s, a aceitar tudo o que os militares desejassem. Assim, fizeram-se filmes de conteúdo cada vez mais militarista, considerados “a fórmula” para grandes bilheterias. Entre o lançamento de “Ases Indomáveis” e o início da Guerra do Golfo, o Pentágono informou que o número de filmes realizados com sua ajuda (e aprovação) havia quadruplicado; grande parte dessas produções de ação-aventura (imediatamente distribuídos também, em perfeita sinergia, no formato de jogos, álbuns, bonecos etc.) visavam o público adolescente.

Resultado de curto-prazo da ação do complexo entretenimento-Pentágono foi aumento acentuado no número de jovens que se alistavam, sempre correlacionado com os números de bilheteria dos sucessos dos anos 80s. Basta um exemplo, de fato, gigantesco: a taxa de recrutamento teve aumento de 400% depois do lançamento de Top Gun/“Ases Indomáveis”, o que levou a Marinha – que imediatamente percebeu o efeito do filme – a montar balcões de alistamento nas salas de cinema. No médio prazo, é claro, predominou o efeito de Red Down/“Despertar Violento”. Operações militares recebem nomes inspirados no filme (e em várias outras fantasias militaristas dos anos 80), mobilizando as psiques manipuladas dos “Wolverines que cresceram e foram para o Iraque” – como Milius, recentemente, descreveu a geração dos anos 80s.

E há ainda os padrões que se fixaram para o longo prazo. Hoje, o Pentágono oferece a Hollywood o mesmo estímulo na direção de crescente militarização, tanto quando os castigos onde surja qualquer antimilitarismo, como sempre. Além do militarismo dos anos 80s, pode-se hoje apostar que o mesmo acontece também na infindavelmente reciclada onda de refilmagens: todo e qualquer blockbuster assinado por Jerry Bruckheimer ou Michael Bay e dirigido aos ‘jovens’ será, no mínimo parcialmente, subscrito pelo Pentágono, como condição para qualquer apoio ou subvenção; no mínimo, esses blockbusters, tipicamente, trabalham para reiterar a ideia de que o militarismo, os militares e a guerra seriam morais.

Diferente disso, como contou o diretor de The Hunt for Red October /“Caçada ao Outubro Vermelho”, essa nova realidade levou os estúdios, nos anos 80s, a instruir rotineiramente roteiristas e diretores a “buscar a cooperação [dos militares], ou esquecer, para sempre, a possibilidade de fazer o filme”. Com que controle maior o Pentágono algum dia sonhou?

*David Sirota é jornalista, autor de vários best-sellers. Seu próximo livro Back to Our Future [De volta ao nosso futuro] será lançado em março de 2011. Apresenta programa matinal na rádio AM760 no Colorado e anima o blog OpenLeft.com.
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