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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Obama e o “arco de instabilidade” cada dia mais instável

19/9/2011, Nick Turse, Tom Dispatch
Reproduzido no Asia Times Online Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Ver também:
“Legados gêmeos do 11/9”, Mahan Abedin, 12/9/2011
“O que querem os EUA no Iraque?”, Pepe Escobar, 16/9/2011

O assunto é de dar calafrios: a desestabilização do que, nos tempos de George W Bush, se conhecia como “o arco de instabilidade”. São pelo menos 97 países, no sul global, quase todos coincidentes com os campos de petróleo do planeta. Grande número dessas nações estão hoje em tumulto e torvelinho e, em todas – do Afeganistão e Argélia ao Iêmen e Zâmbia –, Washington está militarmente envolvida, abertamente ou clandestinamente, em guerra ou no que ainda passa por paz. 

Cercar militarmente o planeta é parte do processo. O Pentágono e os serviços de inteligência dos EUA também comandam operações clandestinas de forças especiais e ações de espionagem, lançam ataques com aviões-robôs pilotados à distância (drones), constroem bases e prisões secretas, treinam, armam e financiam forças de segurança locais e estão envolvidos em muitas outras atividades militares que equivalem plenamente a guerra em escala total. Mas, enquanto se lê isso, não se deve esquecer que já praticamente não há nenhuma nação, no arco de instabilidade, na qual os EUA não estejam militarmente envolvidos.

A conversa do arco

“A liberdade está em marcha no grande Oriente Médio. A esperança de liberdade alcança hoje de Kabul a Bagdá, a Beirute e além. Lenta, mas firmemente, estamos ajudando a transformar o grande Oriente Médio, de arco de instabilidade, em arco de liberdade”. 

Todos estão antecipadamente perdoados se pensaram que o trecho acima tenha sido extraído do discurso do presidente Obama sobre a primavera árabe, no qual disse que “Será política dos EUA (...) apoiar transições para a democracia” [1]. Mas, não. As palavras acima são palavras de George W Bush [2]. O que aproxima os dois discursos é a expressão “arco de instabilidade”, conceito retórico central da visão global do ex-presidente e de seus apoiadores neoconservadores. 

O sonho dos anos Bush era dominar militarmente aquele arco, que coincide, quase todo, com a região do Norte da África até a fronteira da China, também conhecido como Grande Oriente Médio, o qual, para muitos, estende-se da América Latina ao sul da Ásia. Embora a expressão “arco de instabilidade” tenha praticamente caído em desuso nos anos Obama, quando se trata de projetar o poder militar o presidente Obama já, praticamente, passou à frente do antecessor. 

Além de já estar em guerra em mais nações “do arco”, Obama ordenou o deslocamento de número muito superior de forças das operações especiais para aquela região, transferiu ou intermediou a venda de quantidades mais substanciais de armas para lá, ao mesmo tempo em que continua a construir e ampliar bases militares, em ritmo frenético, além de treinar e equipar forças locais em todas aquelas nações. 

Documentos do Pentágono e informações de fonte aberta indicam que não resta um único país naquele arco, no qual não haja, ativas, forças militares e agências de inteligência dos EUA. É necessário, pois, indagar sobre o papel crucial que os EUA desempenham ali, como agentes de desestabilização e fazendo aumentar a volatilidade.  

O arco invadido, inundado

Dada a centralidade do arco de instabilidade para o pensamento do governo Bush, nem chega a surpreender que tenha declarado guerras no Afeganistão e no Iraque, e atacado, inúmeras vezes em três outros estados do arco – Iêmen, Paquistão e Somália. Nem poderia alguém ficar chocado por os EUA também terem usados forças militares especiais e operações especiais da CIA, também noutros pontos do arco. 

Em seu livro The One Percent Doctrine, o jornalista Ron Suskind comenta planos da CIA, revelados em setembro de 2001 e conhecidos como “Worldwide Attack Matrix” em que se leem “operações detalhadas contra terroristas em 80 países”. Mais ou menos ao mesmo tempo, o então secretário da Defesa Donald Rumsfeld proclamou que os EUA haviam embarcado “em grande esforço de muitas cabeças que, provavelmente, alcançará 60 países”. Ao final dos anos Bush, o Pentágono já teria forças de operações especiais em 60 países em todo o mundo. 

Mas foi o governo Obama que, contudo, abraçou muito mais plenamente o conceito e ‘engajou’ toda a região em termos ainda mais amplos. Ano passado, o Washington Post noticiou que os EUA já tinham operações de forças especiais ativas em 75 países, da América do Sul à Ásia Central. [3]

Mais recentemente, o coronel Tim Nye, porta-voz do Comando de Operações Especiais dos EUA disse-me que, em qualquer dia que se considere, há tropas de elite dos EUA trabalhando em cerca de 70 países; e que, até o final do ano, serão 120 países. Essas forças estão envolvidas em várias diferentes missões, de Rangers do Exército, que fazem combate convencional no Afeganistão, aos SEALs da Marinha que assassinaram Osama bin Laden no Paquistão, além de instrutores do Exército, Marinha e Força Aérea, e Marines do Comando de Operações Especiais dos EUA que trabalham em todo o planeta, da República Dominicana ao Iêmen. 

Os EUA estão hoje ativos em guerras em seis nações do arco de instabilidade: Afeganistão, Iraque, Líbia, Paquistão, Somália e Iêmen. E há pessoal militar ativo em outros estados do mesmo arco, dentre os quais Argélia, Bahrain, Djibuti, Egito, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Marrocos, Omã, Paquistão, Qatar, Arábia Saudita, Tunísia e nos Emirados Árabes Unidos. 

Desses países, Afeganistão, Bahrain, Djibuti, Iraque, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos abrigam bases militares dos EUA, e há notícias de que a CIA estaria construindo uma base secreta em algum ponto da região, a ser usada para expandir a guerra com aviões-robôs tripulados à distância para o Iêmen e a Somália. Também já há em operação instalações semelhantes, para a mesma finalidade, no Djibuti, Etiópia e nos Emirados Árabes Unidos, e uma base clandestina, já operante, na Somália, que dirige agentes locais e oferece treinamento de contraterrorismo para parceiros locais. 

Além dos próprios esforços militares, o governo Obama também tem sido ativo intermediador de venda de armas para regimes no arco, em todo o Oriente Médio, inclusive no Bahrain, Egito, Iraque, Jordânia, Kuwait, Marrocos, Arábia Saudita, Tunísia, Emirados Árabes Unidos e Iêmen. E tem adestrado, em doutrina e formação militar, parceiros do Departamento do Estado e do programa de Treinamento e Educação Militar Internacional do Pentágono. 

Ano passado, aquele programa atendeu mais de 7.000 alunos de 130 países. “Esse programa dá atenção especial ao Oriente Médio e África, porque sabemos que o terrorismo crescerá, e sabemos que países vulneráveis são mais visados”, disse ao American Forces Press Service a gerente do programa, Kay Judkins. 

Segundo Documentos do Pentágono liberados no início desse ano, os EUA têm pessoal – em alguns casos em número só simbólico, em outros casos, grandes contingentes – alocado em 76 outras nações que às vezes aparecem incluídas no arco de instabilidade: África do Sul, Albânia, Angola, Antigua, Bahamas, Bangladesh, Barbados, Belize, Bolívia, Bósnia e Herzegovina, Botsuana, Burundi, Camarões, Camboja, Cazaquistão, Chade, Cingapura, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Equador, Etiópia, Filipinas, Gabão, Gana, Guatemala, Guiné, Guiana, Haiti, Honduras, Indonésia, Jamaica, Laos, Libéria, Macedônia, Madagascar, Malásia, Mali, Mauritânia, México, Moçambique, Mianmar, Nicarágua, Níger, Nigéria, Panamá, Paraguai, Peru, Quênia, Quirguistão, República Dominicana, Romênia, Ruanda, Senegal, Sérvia, Sierra Leone, Síria, Sri Lanka, Sudão, Suriname, Tadjiquistão, Tailândia, Tanzânia, Togo, Trinidad e Tobago, Turcomenistão, Uganda, Uruguai, Uzbequistão, Venezuela, Vietnã, Zâmbia e Zimbábue.

Ainda que a prisão de cerca de 30 membros de uma célula de espiões da CIA no Irã, no início do ano, como outras prisões de supostos “espiões” norte-americanos possam não passar de encenação para o público interno ou como fator de barganha internacional, não há dúvidas de que os EUA mantêm operações clandestinas também no Irã. 

Ano passado, divulgaram-se notícias de que equipes de agentes clandestinos dos EUA teriam sido autorizados para missões no Irã, e agentes norte-americanos e grupos aliados locais quase com certeza trabalham lá. Recentemente, o Wall Street Journal revelou uma série de “operações secretas na fronteira Irã-Iraque”, por militares dos EUA e CIA, com o objetivo de impedir o contrabando de armas, do Irã para o Iraque. 

Tudo isso sugere que é possível que não haja sequer um único país, no arco de instabilidade, seja qual for a definição, no qual os EUA não tenham ou base, ou soldados ou pessoal de inteligência, no qual não comandem agentes, ou para o qual não mandem armas, ou no qual não haja operações clandestinas, ou contra o qual os EUA não estejam em guerra. 

O arco da história 

Imediatamente depois de Obama assumir a presidência em 2009, o então Diretor da Inteligência Nacional Dennis Blair, falou ao Comitê Especial do Senado para Assuntos de Segurança. Dando atenção especial ao arco de instabilidade, assim resumiu a situação global: “A grande região, do Oriente Médio ao sul da Ásia, é locus de muitos dos desafios que os EUA enfrentam no século 21.” 

Desde então, como no caso da expressão que se costuma associar a Bush, “guerra global ao terror”, o governo Obama e os militares dos EUA têm procurado não falar de “arco de instabilidade”, recorrendo sempre a formulações bem mais vagas. 

Em discurso na reunião anual da Associação da Indústria Nacional de Defesa, em simpósio sobre Operações Especiais e Conflitos de Baixa Intensidade, no início de 2011, o almirante da Marinha, Eric Olson, então chefe do Comando das Operações Especiais dos EUA, apontou para uma imagem de satélite projetada num telão, em que se via um mapa do mundo, à noite, com vários pontos luminosos.

Antes do 11/9/2011, disse Olson, a parte do planeta que e via iluminada – as nações industrializadas do norte global – eram consideradas áreas chaves. Depois, disse o almirante, a prioridade estendeu-se para 51 países, quase todos no arco de instabilidade. “Nosso foco estratégico”, disse ele, “moveu-se em boa parte para o sul (...). Na comunidade de operações especiais, lidamos com ameaças que surjam em pontos onde não se veem luzes acesas nesse mapa”. [4]

Mais recentemente, em observações que fez na Escola Paul H Nitze de Estudos Internacionais Avançados, em Washington, DC, John O’Brennan, assessor do presidente para segurança nacional e contraterrorismo, delineou a nova Estratégia Nacional para segurança interna e contraterrorismo, em que têm destaque missões “na região do Paquistão-Afeganistão” e “um foco em regiões específicas, incluindo o que definimos como periferia – locais como Iêmen, Somália, Iraque e o Maghreb [norte da África]”. 

“Isso”, disse Brennan, “não exige guerra global” – e de fato, apesar da terminologia da era Bush, nunca foi, antes, guerra global. Os terroristas que, na Alemanha, planejavam os ataques do 11/9, e o terrorista que levava explosivos no sapato, Richard Reid, e que embarcou no Reino Unido, nunca estiveram em qualquer lista de procurados, porque viviam em países ocidentais de maioria branca. O “arco” jamais estendeu-se para além de países vistos como fundamentalmente instáveis, instáveis por natureza, com problemas definidos como insolucionáveis senão por intervenção militar. 

Construir a instabilidade 

Uma década de evidências basta para comprovar que as operações dos EUA no arco de instabilidade são desestabilizadoras. Durante anos, para tomar um exemplo, Washington manteve assistência militar e conduziu ações militares e diplomáticas que visavam, todas, a minar o governo do Paquistão e a promover a cisão entre militares e setores da inteligência paquistanesa – o que elevou o sentimento de antiamericanismo a índices muito altos entre a população do país. (Segundo pesquisa recente, apenas 12% dos paquistaneses têm opinião favorável aos EUA.) 

Uma guerra semissecreta, de aviões-robôs tripulados à distância, contra áreas tribais na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, com centenas de ataques e número significativo, embora nunca corretamente divulgados, de mortes entre a população civil,  é apenas a face mais visível e mais controversa dos esforços de Washington. No que tenha a ver com esforços da CIA, pesquisa recente do Instituto Pew, com respondentes paquistaneses, revelou que 97% dos entrevistados tinham opinião negativa do papel da CIA no país – índice praticamente jamais visto em qualquer tipo de pesquisa. 

No Iêmen, o apoio que os EUA garantiram por décadas ao ditador Ali Abdullah Saleh – sob a forma de auxílio em dinheiro, treinamento militar e armas, além de ataques aéreos, com aviões convencionais ou com aviões-robôs – geraram um tipo especial de relacionamento entre os EUA e os comandantes do exército do Iêmen, parentes ou aliados pessoais próximos de Saleh. Em 2011, essas unidades militares tiveram papel destacado na repressão contra os manifestantes pró-democracia no Iêmen, com inúmeras mortes entre os populares e prisão de oficiais militares dissidentes que se recusaram a atirar contra civis. 

Não surpreende que, mesmo antes de o Iêmen ter mergulhado num vácuo de liderança política (depois que Saleh foi ferido num atentado), pesquisa feita no país tenha apresentado outro índice, ainda mais raro: 99% dos iemenitas entrevistados já tinham opinião desfavorável das relações entre o governo dos EUA e o mundo islâmico; apenas 4% aprovavam “de certo modo” e “fortemente” a colaboração entre a Saleh e Washington. 

Mas, em vez de afastarem-se das operações no Iêmen e apesar dos resultados daquela pesquisa, os EUA aprofundaram a “parceria”. A CIA, apoiada pelos serviços de inteligência da Arábia Saudita, passou a comandar agentes locais e deflagrou campanha mortal, com aviões-robôs, contra militantes islâmicos. Os militares norte-americanos também aumentaram o número de ataques aéreos e enviaram mais instrutores para trabalhar com as forças locais, em missões letais, muitas vezes com aliados iemenitas. 

Esses esforços fixaram o contexto para ainda mais má vontade, mais instabilidade política e possíveis retaliações contra os EUA. Ano passado, um avião-robô norte-americano matou acidentalmente Jabr al-Shabwani, filho e um homem forte, Sheikh Ali al-Shabwani. Em ato de vingança, Ali atacou repetidas vezes um dos principais oleodutos do Iêmen, o que causou bilhões de dólares em prejuízos diretos para o governo do Iêmen, e exigiu o fim da cooperação entre Saleh e os EUA. 

No início desse ano, no Egito e na Tunísia, esforços prolongados dos EUA para promover o os EUA gostam de chamar de “estabilidade regional” – ao custo de alianças militares, ajuda, treinamento e armamentos – entrou em colapso total, com manifestações populares contra os governos ditatoriais apoiados pelos EUA naqueles países. 

Também no Bahrain, Iraque, Jordânia, Kuwait, Marrocos, Omã, Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, irromperam manifestações populares contra regimes autoritários em parceria com e armados por militares dos EUA. 

Não surpreende, tampouco, que, perguntados em recente pesquisa se Obama satisfizera as expectativas criadas pelo “Discurso do Cairo”, em português, de junho/2009, no qual falou de “um recomeço nas relações entre os EUA e os muçulmanos em todo o mundo”, apenas 4% dos egípcios responderam “sim”. (Pela mesma pesquisa, apenas 6% dos jordanianos e 1% dos libaneses entendem que Obama fez o que disse, no Cairo, que se deveria fazer.) 

Recente pesquisa Zogby, que entrevistou cidadãos em seis países árabes – Egito, Jordânia, Líbano, Marrocos, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – mostrou que, sucessor de um presidente que elevou o antiamericanismo no mundo muçulmano a patamares aos quais jamais chegara, Obama conseguiu piorar ainda mais as coisas. Maiorias substanciais de árabes em todos os países entendem, hoje, que os EUA absolutamente não têm contribuído para “a paz e a estabilidade no mundo árabe”. 

A instabilidade cresce em todo o planeta 

A interferência dos EUA no arco de instabilidade nada tem de nova. À parte as guerras de hoje, ao longo de todo o século20 os EUA estiveram ativos em intervenções militares em todo o sul global, no Camboja, Congo, Cuba, República Dominicana, El Salvador, Egito, Granada, Guatemala, Haiti, Honduras, Iraque, Kuwait, Laos, Líbano, Líbia, Panamá, Filipinas, México, Nicarágua, Panamá, Somália, Tailândia e Vietnã, dentre outros pontos. A CIA manteve operações clandestinas em vários desses países e, também, no Afeganistão, Argélia, Chile, Equador, Indonésia, Irã e Síria, para listar apenas alguns. 

Como George W Bush antes dele, Barack Obama também olha para o “mundo não iluminado” e vê fonte de volatilidade global e perigos para os EUA. Sua resposta tem sido mobilizar cada vez maior poder bélico, contando com, assim, conter a instabilidade, apoiar aliados e proteger vidas norte-americanas. 

Apesar da clara lição do 11/9 – intervenções militares em terra distante geram retaliações dentro de casa –, nem por um momento Obama deixou de atacar, em guerras de resposta à resposta por ataques anteriores contra o mundo muçulmano. Pesquisa recente do Instituto Rasmussen indicam que muitos norte-americanos discordam do presidente, em sua ideia de como os EUA devem atuar fora do país. 

75% dos entrevistados, por exemplo, em pesquisa recente, nos EUA, concordam com a seguinte frase: “Os EUA não devem envolver-se em ações militares fora do país, a menos que a causa seja vital para nossos interesses nacionais”. Além disso, claras maiorias de norte-americanos são contrários a qualquer ação para defender Afeganistão, Iraque, Paquistão, Arábia Saudita, e vasta lista de outros países incluídos no arco de instabilidade, nem no caso de serem atacados por outras potências. 

Depois de décadas de intervenções abertas e ocultas em nações do arco, incluindo os últimos dez anos de guerras ininterruptas, praticamente todos aqueles países continuam pobres, subdesenvolvidos e mais instáveis, a cada dia. Em 2011, em sua lista anual de estados fracassados – a relação dos países mais voláteis do planeta – a revista Foreign Policy e o Fund for Peace incluíram as duas nações do arco que receberam as maiores intervenções militares por soldados dos EUA – o Iraque e o Afeganistão – entre os dez primeiros estados “mais fracassados”. Paquistão e Iêmen aparecem, respectivamente, em 12º e 13º lugares; e a Somália, alvo de intervenções dos EUA nos governos Clinton nos anos 1990s; outra vez durante a presidência de Bush em 2000; e mais uma vez, no governo Obama – mereceu a duvidosa honra de ser considerado o estado mais completamente fracassado do planeta, no 1º lugar da lista. 

Por tudo que se discutiu aqui sobre “esforços para a construção de nações” (esforços que jamais dispensam ataques militares, invasões e intervenções) na região, o que se vê, de fato, é uma década de desconstrução de nações, que só parou depois que os próprios povos das nações desconstruídas tomaram o próprio destino nas mãos e saíram às ruas, corações e mentes, para defenderem-se. 

Como o comprovam pesquisas recentes nas nações do arco, os povos do sul global veem os EUA como agente que promove ou sustenta, e que jamais evita ou impede, a instabilidade – com muitas evidências para embasar essa avaliação; e prova dela são os levantes populares contra ditadores autoritários apoiados pelos EUA, que se alastram pelo mundo neste 2011. 

Com os EUA ainda insistindo em defender as nações do “arco de instabilidade”, apesar das indicações claras de que intervenções militares não promovem estabilidade, e enfrentando crise de orçamento de proporções épicas em casa, não se sabe a que pretextos o governo Obama recorrerá para manter sua política intervencionista fracassada – política que está tornando o mundo cada vez mais volátil e expondo os cidadãos dos EUA a riscos cada dia maiores.


Notas dos tradutores
[1] Presidente Barack Obama, “Discurso sobre o Oriente Médio e o Norte da África”, 19/5/2011  em inglês.
[2] Ver CNN, 2005, em: Bush: Freedom on the march, em inglês.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

“US Marine SEAL”: guerra secreta em 120 países

5/8/2011, Nick Turse, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Nick Turse é historiador e jornalista, editor associado de TomDispatch.com e novo editor sênior de Alternet.org.

Nesse instante, em algum ponto do planeta, um comando dos EUA está em ação. Repita a frase 70 vezes, e você terá mapeado a atividade dos SEALs [orig.Sea, Air and Land Forces, “Forças de Mar, Ar e Terra”] da Marinha dos EUA, num único dia. Sem que o povo norte-americano saiba, há uma força militar secreta dos EUA em ação num número imenso de países em todo o mundo. Essa nova elite do poder do Pentágono combate guerra global hoje, de cujos objetivo e dimensões a opinião pública norte-americana não tem conhecimento. 

Mas, depois que uma equipe da força SEAL da Marinha dos EUA meteu uma bala no peito e outra na testa de Osama bin Laden, ao invadir a casa onde Osama morava no Paquistão, um dos braços clandestinos mais secretos das forças militares dos EUA surgiram, embora rapidamente, à vista da opinião pública. Foi atípico. 

Embora se saiba que há forças de Operações Especiais em zonas de guerra no Afeganistão e no Iraque, e que surjam novas evidências a cada dia de que essas unidades operam também em zonas de conflito ainda mais nebulosas, como no Iêmen e na Somália, absolutamente não se conhece a extensão das suas operações em praticamente todo o planeta. 

Ano passado, Karen DeYoung e Greg Jaffe do Washington Post noticiaram que havia forças de Operações Especiais dos EUA em ação em 75 países; no governo de George W Bush, eram 60. Ao final de 2011, o coronel Tim Nye, porta-voz do Comando das Operações Especiais dos EUA disse-me em entrevista que esse número já estará próximo de 120. “Viajamos muito, para muitos lugares, além de Afeganistão e Iraque” – disse recentemente o coronel Nye. 

Essa presença global – em cerca de 60% das nações do mundo e muito mais vasta do que se sabia – é espantosa nova evidência de que a elite do poder do Pentágono está em guerra clandestina, saibam os países-alvo ou não, em praticamente todos os cantos do mundo. 

O aumento do segredo militar dos militares 

Nascido depois de um ataque fracassado, em 1980, para resgatar reféns norte-americanos no Irã, no qual morreram oito agentes norte-americanos, o Comando das Operações Especiais dos EUA [orig. US Special Operations Command (SOCOM)] foi criado em 1987. As forças especiais sobreviveram aos anos pós-Vietnã, desprestigiadas pelas forças militares regulares e com orçamento mínino; até que, repentinamente, ganharam sede própria, orçamento estável e um comandante com quatro estrelas. 

Desde então, o SOCOM só fez crescer, até converter-se em força mista de proporções gigantescas. O SOCOM reúne unidades especiais de todas as armas: os “Boinas Verdes” [orig. Green Berets] e os Rangers do Exército; os SEALs da Marinha; e outras equipes de Operações Especiais da Marinha e Comandos da Força Aérea, além de tripulações especializadas em helicópteros e barcos, pessoal civil, paraquedistas de resgate e até controladores de tráfego aéreo e meteorologistas para regiões de combate. O SOCOM coordena a maioria das operações secretas e missões especializadas de guerra de todas as forças militares nos EUA. 

Essas missões e operações incluem assassinatos predeterminados, ataques a terroristas, reconhecimento de longo alcance, análise de inteligência, treinamento de tropas estrangeiras e operações contra proliferação de armas de destruição em massa. 

Um dos principais braços do SOCOM  é o Comando Conjunto das Forças Especiais [orig. Joint Special Operations Command (JSOC)], subcomando clandestino cuja principal missão é rastrear e matar pessoas acusadas de terrorismo e de associação com terroristas. O JSOC – que reporta diretamente ao presidente dos EUA e age sob sua autoridade – mantém uma lista global de alvos, entre os quais há cidadãos norte-americanos. Esse comando conduziu uma campanha extra-legal de “matar/capturar”, que John Nagl, antigo conselheiro de contrainsurgência do general de quatro estrelas e recentemente nomeado diretor da CIA David Petraeus, descreve como “máquina de matar terroristas em escala industrial”. 

Esse programa de assassinatos predeterminados está sendo implementado por unidades como os SEALs da Marinha e a Delta Force do Exército e também pelos ataques com aviões-robôs pilotados a distância (drones), como parte de guerras clandestinas nas quais também está envolvida a CIA, como na Somália, no Paquistão e no Iêmen. Além disso, o JSOC opera uma rede de prisões secretas, talvez 20 pontos negros, só no Afeganistão, usados para interrogar alvos considerados de alto valor. 

O crescimento da indústria 

De força com cerca de 37 mil agentes no início dos anos 1990s, o Comando de Operações Especiais, SOCOM, cresceu muito; tem hoje quase 60 mil agentes, um terço dos quais, são membros de carreira do SOCOM; os demais são especialistas de outras áreas ocupacionais militares, que circulam periodicamente pelo Comando. 

Depois de 11/9/2001, o crescimento foi exponencial: o orçamento básico do SOCOM quase triplicou, de $2,3 bilhões, para $6,3 bilhões. Se se soma o investimento para as guerras no Iraque e no Afeganistão, em três anos o orçamento mais que quadruplicou e chega hoje a $9,8 bilhões. Não surpreendentemente, o número de agentes ativos no exterior é hoje quatro vezes maior. E estão em estudo novos aumentos, com expansão das operações em curso. 

O tenente-general Dennis Hejlik, ex-comandante do Comando de Operações Especiais da Marinha – o último ramo de serviços que foi incorporado aoSOCOM, em 2006 – indicou, por exemplo, que prevê a duplicação da unidade de 2.600 que comandou: “Vejo-os como força de cerca de 5 mil unidades ativas, aproximadamente o número de SEALs que temos no campo de combate. Entre 5 e 6 mil”, disse Hejlik em café da manhã com jornalistas que cobrem a Defesa, em Washington, em junho. Planos de longo prazo exigem que a força seja aumentada imediatamente em mais 1.000 unidades ativas. 

Em recente depoimento ao Senado, depois de ter sido indicado para presidir o SOCOM, o vice-almirante William McRaven da Marinha, que acabava de deixar o comando do JSOC (que ainda comandava no ataque que matou bin Laden) defendeu crescimento continuado do contingente ao ritmo de 3-5% ao ano; e pediu mais recursos, inclusive novos aviões-robôs tripulados à distância (drones) e a construção de várias novas instalações para operações especiais. 

Ex-agente SEAL que ainda várias vezes acompanha as ações de campo, McRaven disse acreditar que, com a retirada das forças convencionais do Afeganistão, os agentes das forças especiais terão de desempenhar papel mais amplo do que atualmente. O Iraque, disse ele, muito terá a ganhar se agentes das forças especiais dos EUA continuarem ativas lá, mesmo depois de esgotado o prazo final para total retirada, em dezembro de 2011. E garantiu à Comissão das Forças Armadas do Senado que “como ex-comandante do JSOC, posso dizer que também estamos examinando com atenção os casos do Iêmen e da Somália”. 

Em discurso à Associação Nacional da Indústria de Defesa, no simpósio anual sobre Operações Especiais e Conflitos de Baixa Intensidade, no início de 2011, o almirante da Marinha Eric Olson, às vésperas de deixar o posto de Comandante do Comando de Operações Especiais, exibiu uma imagem noturna do planeta, feita de fotos feitas por satélites. Antes de 11/9/2001, a parte ‘iluminada’ do planeta – nações industrializadas do norte do globo – era definida como a área chave. “Mas o mundo mudou”, disse o almirante Olson. “Nosso foco estratégico e a ação da comunidade de operações especiais olham hoje sobretudo para o sul (...); temos de lidar com ameaças que vêm de áreas não iluminadas”. 

Para essa finalidade, Olson lançou o “Projeto Lawrence” – esforço para ampliar as competências culturais dos agentes – estudos avançados de idiomas e melhor conhecimento da história e costumes locais, com vistas a preparar os agentes para operações em outras terras. O programa recebeu o nome do oficial britânico Thomas Edward Lawrence (“Lawrence da Arábia”), que se aliou a combatentes árabes numa luta de guerrilhas no Oriente Médio, durante a I Guerra Mundial. Falando sobre Afeganistão, Paquistão, Mali e Indonésia, Olson disse que o SOCOM precisa contar agora com “Lawrences de seja onde for”. 

Olson falou de apenas 51 países como principais pontos de preocupação para o SOCOM; Nye disse-me em entrevista que, em termos gerais, há forças de Operações Especiais ativas hoje em aproximadamente 70 países em todo o mundo. E todas, apressou-se a esclarecer, a pedido dos respectivos governos locais. 

Segundo depoimento que Olson prestou à Comissão de Forças Armadas da Câmara de Deputados no início desse ano, cerca de 85% dos agentes de operações especiais estão ativos em 20 países da área de operação do CENTCOM no Grande Oriente Médio: Afeganistão, Bahrain, Egito, Irã, Iraque, Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Quirguistão, Líbano, Omã, Paquistão, Qatar, Arábia Saudita, Síria, Tadjiquistão, Turcomenistão, Emirados Árabes Unidos. Uzbequistão e Iêmen. Os demais estão distribuídos pelo planeta, da América do Sul ao Sudeste da Ásia, em alguns casos em pequenos números, em outros, com grandes contingentes. 

O Comando de Operações Especiais não diz em que países operam seus agentes. “Evidentemente há casos em que não nos interessa divulgar a nossa presença”, diz Nye. Nem todos os países querem divulgar essa colaboração por razões deles, internas ou regionais.” 

Mas se é segredo, é segredo mal guardado. Muitos sabem que os agentes ‘de uniformes pretos’ das operações especiais, como os SEALs e a Força Delta, estão engajados em ações de “matar/prender” no Afeganistão, Iraque, Paquistão e Iêmen; e que os agentes ‘de uniformes caquis’, como os Boinas Verdes e os Rangers treinam parceiros locais, como parte da guerra planetária contra a al-Qaeda e outros grupos militantes. 

Nas Filipinas, por exemplo, os EUA gastam 50 milhões de dólares por ano com um contingente de 600 agentes de forças das Operações Especiais, SEALs da Marinha, operadores especiais da Força Aérea e outros, que trabalham em operações de contraterrorismo com aliados filipinos, contra grupos insurgentes como Jemaah Islamiyah e Abu Sayyaf. 

Ano passado, como mostram análises de documentos do SOCOM, informações divulgadas pelo Pentágono e um banco de dados de missões das Operações Especiais reunido pela jornalista investigativa Tara McKelvey (para a Iniciativa “Jornalismo e Segurança Nacional” da Medill School of Journalism), as principais ações das tropas especiais dos EUA foram exercícios conjuntos no Belize, Brasil, Bulgária, Burkina Faso, Alemanha, Indonésia, Mali, Noruega, Panamá e Polônia. 

Até agora, em 2011, missões similares de treinamento foram realizadas na República Dominicana, Jordânia, Romênia, Senegal, Coreia do Sul e Tailândia, dentre outros países. Nye disse-me que, de fato, há ações de treinamento em praticamente todas as nações para as quais se enviam agentes das Forças Especiais. “Dos 120 países que visitaremos até o final do ano, posso dizer que haverá operações de treinamento, de um modo ou de outro. São classificados como exercícios de treinamento.” 

A elite do poder do Pentágono 

Inicialmente vistas como filhas bastardas do establishment militar, as forças de Operações Especiais cresceram exponencialmente não só em tamanho e orçamento, mas também em poder e influência. Desde 2002, o SOCOM foi autorizado a criar suas próprias Força-tarefas Conjuntas – como a Força-tarefa Filipinas, do JSOC –, prerrogativa que, antes, era privilégio de comandos maiores, como o CENTCOM. Esse ano, sem qualquer alarde, o SOCOM criou também sua própria Força-tarefa de Aquisições, quadro de especialistas em design e aquisição de equipamentos. 

Com autonomia sobre orçamento, treinamento e equipamento de suas forças, poderes que antes eram exclusivos de departamentos (como o Departamento do Exército ou o Departamento da Marinha), com dólares ‘carimbados’ em todos os orçamentos do Departamento da Defesa e com defensores influentes no Congresso, o SOCOM é hoje ator excepcionalmente poderoso no Pentágono. 

Com esse efetivo poder, pode vencer batalhas burocráticas, comprar tecnologia de ponta e fazer pesquisa reservada no campo das comunicações ou das tecnologias ‘de invisibilidade’, como a dos aviões stealth invisíveis aos radares. Desde 2001, sextuplicou o número de contratos entre o SOCOM e pequenas empresas – produtoras, quase sempre, de equipamento bélico e armas. 

O SOCOM tem quartel-general na base aérea de MacDill na Florida, mas opera em teatros de comando espalhados pelo planeta (com bases no Havaí, na Alemanha e na Coreia do Sul); ativo hoje na maioria dos países do planeta, o Comando de Operações Especiais já é força praticamente independente. 

Como disse o comandante Olson, pouco antes de deixar o comando do SOCOM no início de 2011, o SOCOM “é um microcosmo do Departamento de Defesa, com forças de terra, mar e ar, presença global e autoridade e responsabilidade correspondentes ao dos Departamentos e Serviços militares e das agências da Defesa”. 

Com a tarefa de coordenar todo o planejamento do Pentágono contra as redes globais de terrorismo e, como resultado disso, intimamente conectado a outras agências do governo dos EUA; a militares estrangeiros e a serviços de inteligência, e armado com enorme arsenal de helicópteros ‘invisíveis’, mísseis teleguiados, aviões-robôs (drones) pesadamente armados, barcos de alta velocidade armados e equipados com tecnologia ultrassofisticada, veículos Humvees especializados e veículos camuflados blindados à prova de minas [orig. Mine Resistant Ambush Protected vehicles (MRAPs)]; além de uma parafernália de equipamentos de tecnologias de última geração, com mais inovações já em planejamento e produção, o SOCOM representa algo completamente novo no campo militar. 

O falecido especialista em militarismo Chalmers Johnson costumava referir-se à CIA como “o exército privado do presidente”. Hoje, esse papel cabe aoJSOC. Esse Comando Associado de Operações Especiais atua como esquadrão da morte privado do chefe do executivo nos EUA; e seu parente próximo, o Comando de Operações Especiais, SOCOM, funciona como uma elite superarmada do Pentágono – um exército secreto dentro do exército, com poder doméstico e alcance global. 

Em 120 países em todo o globo, agentes do Comando de Operações Especiais fazem sua guerra secreta de assassinatos predeterminados pontuais de suspeitos ‘importantes’; ou de assassinatos ‘a granel’ de suspeitos menos ‘importantes’; operações de captura/sequestro; operações noturnas de derrubar portas de casas habitadas e explodir paredes; e missões de treinamento com parceiros ‘locais’ – ações de uma guerra clandestina sobre a qual os cidadãos norte-americanos nada sabem. Forças que já foram consideradas “especiais” por serem pequenas, ágeis e auxiliares no corpo do exército, são hoje “especiais”, pelo extraordinário poder que concentram, pelo acesso sem qualquer restrição a qualquer ponto de qualquer lugar do planeta, pela influência e pela “aura”. 

Essa “aura” cresce hoje, por efeito de uma incansável campanha de propaganda e publicidade, que divulga nos EUA e no exterior imagens de agentes sobre-humanos, como se fossem super-heróis, apesar de aqueles agentes, hoje, trabalharem cada vez mais escondidos na clandestinidade, exatamente o contrário do que fazem os heróis de televisão e histórias em quadrinho. Exemplar dessa visão de propaganda com que se querem travestir, foi a frase do almirante Olson: “Estou convencido de que as Forças [Especiais] são os parceiros mais culturalmente bem afinados, os caçadores-matadores mais eficientes, os assessores e instrutores mais empenhados, ágeis, criativos, inovadores, os mais eficientes solucionadores de problemas e guerreiros intrépidos que qualquer nação do mundo pode hoje oferecer”. Dão a impressão de que estão à venda, como numa feira de rua.

Recentemente, no Fórum de Segurança do Instituto Aspen, Olson repetiu esses comentários de propaganda, além de informação falsa, ao dizer que as Forças Especiais dos EUA estariam operando em apenas 65 países e engajadas em combate em apenas dois. Perguntado sobre os ataques com aviões-robôs não tripulados (drones) em território do Paquistão, Olson, segundo os jornais, respondeu: “Vocês estão falando daquelas explosões sem causa conhecida?” 

Mas há outras coisas reveladoras, no que disse. Olson observou, por exemplo, que operações “de uniformes pretos”, como a ‘missão bin Laden’, de agentes em helicópteros em ataque noturno, tornaram-se extremamente comuns. “Uma dúzia dessas missões, ou quase isso, acontecem por noite” – disse ele. Talvez ainda mais reveladora seja uma observação que fez sobre o tamanho do SOCOM. Hoje, disse Olson, as forças de Operações Especiais dos EUA têm números equivalentes a todo o exército canadense hoje em serviço ativo. As forças especiais dos EUA são, de fato, maiores que os exércitos regulares de muitas nações nas quais operam hoje. E esses números continuam a aumentar. 

Os cidadãos norte-americanos têm de enfrentar o significado de o país manter força “especial” tão gigantesca, tão ativa e tão secreta – o que jamais conseguirão fazer até que haja mais e melhor informação. Não é discussão que se possa esperar que Olson ou seus soldados proponham. “Nosso acesso [aos países estrangeiros] depende de nossa capacidade de não falar sobre o que fazemos” – disse Olson em resposta a perguntas sobre o segredo que cerca o SOCOM. Os soldados secretos reclamam, quando as missões são divulgadas e expostas, como aconteceu no assassinato de bin Laden. E concluiu: os exércitos secretos sempre querem voltar às sombras, “para fazer o que sabem fazer”.