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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Histeria da estagnação: Estourando Bolhas com Paul Krugman

22-24/11/ 2013, [*] Mike Whitney, Counterpunch (Weekend Edition)
Traduzido por João Aroldo



O “economista de alto nível” dos EUA pensa que precisamos de mais bolhas de ativos para combater as taxas de juros reais negativas e estagnação secular persistente.

Em um post controverso em seu blog, o colunista do New York Times, Paul Krugman discute que as bolhas podem ser necessárias para compensar demanda insuficiente, desemprego alto e crescimento lento. Eis um trecho do seu blog “The Conscience of a Liberal”:

Paul Krugman
Sabemos que a expansão econômica de 2003-2007 foi causada por uma bolha. Você pode dizer o mesmo sobre a última parte da expansão dos anos 90; e você pode de fato dizer o mesmo sobre os últimos anos de expansão Reagan, que foi levada a esse ponto por instituições de poupança fora de controle e uma grande bolha no setor imobiliário comercial

Então como você pode conciliar bolhas seguidas com uma economia mostrando nenhum sinal de pressão inflacionária? A resposta de Summers é que podemos ser uma economia que precisa de bolhas apenas para conseguir algo próximo do pleno emprego – que, na ausência de bolhas a economia tem uma taxa natural negativo de juros (…) (“Secular Stagnation, Coalmines, Bubbles, and Larry Summers”, Paul Krugman, New York Times)

Assim, sem bolhas, não há expansão de crédito, nem pleno emprego, nem recuperação forte? Isso soa muito como uma desculpa para manter a política atual [expansão monetária ou emissão de moeda sem lastro (orig. Quantitative Easing) – e juros zero], não é?

Mas que reivindicação audaciosa, e que triste reflexão sobre a profissão de economista, quando os seus porta-vozes mais célebres levantam as mãos em desespero e dizem: “É assim mesmo, gente. Lidem com isso”, em vez de oferecer alternativas construtivas. Não é isso o que os economistas devem fazer, descobrir como nos tirar da UTI e nos levar de volta ao pleno emprego e crescimento? Eis um outro trecho do seu post:

(...) nós somos uma economia em que a política monetária é de fato limitada pelo limite inferior zero ... e que isso corresponde a uma situação em que a taxa “natural” de juros - a taxa na qual a poupança desejada e o investimento desejado seriam iguais com o pleno emprego - é negativo ..... nesta situação as regras normais da política econômica não se aplicam. Como eu gosto de dizer, a virtude se torna vício e prudência torna-se loucura. (NYT)

Okay. Então, se a principal ferramenta política do Fed, a Taxa Feds Funds, não está fazendo efeito e estimulando a demanda, o que você faz? Manter as taxas em zero por 5 ou 10 anos, enquanto o Fed bomba trilhões em reservas bancárias levando as ações para a estratosfera e inflndo bolhas em todos os tipos de ativos financeiros?

Krugman parece achar que sim. E seu amigo, Larry Summers, também, cuja apresentação em uma conferência recente do FMI foi o catalisador para as reflexões de Krugman.

Larry Summers
Então, vamos fazer a pergunta óbvia primeiro: Será que Summers estaria igualmente entusiasmado com bolhas de ativos, se seus ricos amigos banqueiros tivessem sentido o impacto da última bolha, ou seja, se os nove maiores bancos do país tivessem sido nacionalizados, os acionistas eliminados, os detentores de títulos tivessem sofrido perdas, a gestão fosse substituída, e os ativos tóxicos vendidos em leilões públicos pelo maior lance? Ou a opinião de Summers foi moldada pelo fato de que os bancos foram socorridos e só a “patuléia” sofreu em termos de perda do valor imobiliário (8 trilhões de dólares), empregos perdidos (14 milhões), um recorde de execuções hipotecárias (6 milhões), e uma economia dos EUA dizimada?

Meu palpite é que os sentimentos de Summers sobre bolhas de ativos não têm nada a ver com a economia e tudo a ver com os resultados. É tudo uma questão de saber de quem é vaca que foi para o brejo. E todos nós sabemos de quem é a maior vaca que foi para o brejo; a das pessoas comuns.

E, por que Krugman finge que só agora se deu conta de que bolhas de ativos podem ser uma coisa boa? Eis uma citação do seu post:

Estou bastante irritado com Larry Summers agora. Sua apresentação na Conferência de Pesquisa do FMI está, justificadamente, recebendo muita atenção. E é o seguinte: estive pensando na mesma linha, e insinuei, eu acho, esta mesma análise em vários escritos. Mas a formulação de Larry é muito mais clara e mais convincente, e de modo geral melhor, do que qualquer coisa que eu fiz. Maldito seja, Barão Vermelho Larry Summers! (Paul Krugman, “A Consciência de um Liberal” NYT)

Krugman faz parecer que toda a coisa da bolha de ativos apenas lhe ocorreu, o que é bobagem. Krugman tem sido um estimulador de bolha desde o começo. Eis um trecho de um artigo que ele escreveu em 2002, dizendo que Greenspan deveria inflar uma bolha imobiliária para compensar as consequências da falência das empresas ponto com (.com):

(...) a recessão de 2001 não foi uma crise típica do pós-guerra, provocada quando um Fed em combate à inflação eleva as taxas de juros e facilmente termina por um repique no mercado imobiliário e gastos dos consumidores quando o Fed diminui as taxas novamente. Esta foi uma recessão de estilo pré-guerra, um dia seguinte provocado pela exuberância irracional. Para combater esta recessão, o Fed precisa de mais do que um repique, ele precisa de mais gastos das famílias para compensar o investimento empresarial moribundo. E para fazer isso, como Paul McCulley, da Pimco, explicou, Alan Greenspan precisa criar uma bolha imobiliária para substituir a bolha da Nasdaq. (“Dubya’s Double Dip?”, Paul Krugman, New York Times).

Bem, isso é muito claro, não é? Então, se Krugman era um proponente das bolhas em 2002, por que ele age como se nunca isso lhe ocorreu até que ouviu o discurso de Verão?

Será que é porque Krugman é um confiável liberal da situação, cujo trabalho é moldar a opinião pública? É isso? Neste caso, Krugman está tentando dignificar o meio pelo qual mais riqueza é transferida para os cleptocratas de Wall Street via bolhas de ativos. Ele também está preparando o terreno para manter as mesmas políticas estorsivas por tanto tempo quanto possível, o que o torna um ardente defensor do status quo.

Tenha em mente, este é o mesmo cara que, nos últimos cinco anos, vem dizendo que a única coisa que precisávamos para “Acabar com Esta Depressão Agora” (livro de Krugman) é ampliar os déficits orçamentários, aumentar os gastos do governo, e lançar uma nova rodada de estímulo fiscal. Agora ele deu uma guinada de 180 graus e está defendendo uma política que – de acordo com Yves Smith – do Naked Capitalism “retrata bolhas de ativos como necessárias e desejáveis”. Isso é uma bela inversão, você não acha?

Krugman novamente:

Se você levar uma visão da estagnação secular a sério, isso tem algumas implicações radicais... que mesmo a regulamentação financeira melhorada não é necessariamente uma coisa boa – que pode desencorajar os empréstimos irresponsáveis num momento em que mais gastos de qualquer tipo são bons para a economia... (NYT)

Essa é a visão de coisas do Partido Republicano, não é? “Por que precisamos de regulação”, eles dizem. “Eles simplesmente põem um amortecedor sobre o crescimento”. A abordagem de Krugman é um pouco mais sutil, mas equivale à mesma coisa. Ao sugerir que vencer a estagnação é a maior prioridade, ele implicitamente legitima tudo, desde a mega-alavancagem nos bancos até empréstimos de má-fé. Este é o mais próximo que você vai chegar à malversação econômica sem que o Comitê do Prêmio Nobel bata à sua porta exigindo sua estátua de volta.

Krugman novamente:

É claro que o problema subjacente a tudo isso é simplesmente que as taxas reais de juros são muito altas. Mas, você diz, elas são negativas - taxas nominais zero menos alguma inflação esperada, pelo menos. Qual é a resposta, então? Se o mercado quer uma taxa de juros real fortemente negativa, teremos problemas persistentes até encontrarmos uma maneira de entregar tal taxa. (NYT)

“Taxas de juros reais negativas!” “Estagnação secular persistente!” “Armadilha de liquidez, armadilha de liquidez, armadilha de liquidez”!

Ficou com medo? Você deveria ficar, afinal, é para isso que serve toda essa besteira alarmista. É só para meter medo. Com efeito, o que Krugman está dizendo é, “Isso é terrível, pessoal. O mundo vai acabar se não lidarmos com as taxas negativas rápido!…Não digam que não avisei”.

Mas, esperem um pouco; o afrouxo monetário não deveria resolver o problema? Não é por isso que o Fed está bombando 85 bilhões de dólares em títulos do tesouro e MBS (Mortgage-Backed Securities) [(trad. tentativa, Seguros Hipotecários Retroativos] - por mês, porque as taxas estão em zero e as compras de ativos deveriam levar a política de juros para território negativo, aliviando a carga de dívida e baixando o preço do crédito?

Claro que sim, mas a histeria de Krugman apenas reforça o fato de que o programa é uma grande fraude; que não fez nada, exceto aumentar a especulação irresponsável e, ao mesmo tempo, permitindo aos bancos desonestos rolarem sua maciça dívida a custo zero. (Uma rápida olhada nos últimos relatórios do de crédito do Fed mostra que o crédito só está expandindo nos empréstimos estudantis e empréstimos automotivos extorsivos “subprime” que estendem o prazo do empréstimo para 84 meses! Mais uma história de sucesso do afrouxo monetário!).

Quanto à estagnação, bem, ela já está aí há muito tempo, Paul, e pouquíssimos economistas veem as bolhas de ativos como uma saída. E enquanto alguns atribuem o problema à demografia,(como Krugman) outros acham que ela está mais ligada à supressão de salário, má distribuição de renda, juros, aumento da financeirização, ou o próprio capitalismo. De acordo com os autores John Bellamy Foster e Fred Magdoff, o aumento da financeirização nos EUA foi na verdade uma resposta à estagnação que estava causando um rápido declínio na taxa de acumulação. Confira esta sinopse em Monthly Review, onde os autores explicam as origens do fenômeno e como ele abriu o caminho para o sistema financeiro de grandes dimensões que temos hoje:

John Bellamy Foster
Foi a realidade da estagnação econômica a partir dos anos 1970, como enfatizaram recentemente os economistas heterodoxos Riccardo Bellofiore e Joseph Halevi, que levou ao surgimento do “novo regime capitalista financeirizado”, uma espécie de “keynesianismo financeiro paradoxal”, pelo qual a demanda na economia foi estimulada principalmente “graças a bolhas de ativos”. Além disso, foi o papel de liderança dos Estados Unidos na geração de tais bolhas — apesar do próprio enfraquecimento da acumulação de capital, juntamente com status de moeda de reserva do dólar, que tornou o capital do monopólio financeiro dos EUA o “catalisador da demanda efetiva mundo”, começando na década de 1980.

Mas esse padrão de crescimento financeirizado foi incapaz de produzir rápido avanço econômico por qualquer período de tempo, e era insustentável, levando a bolhas maiores, que periodicamente estouraram, trazendo cada vez mais estagnação para a superfície.

Fred Magdoff
Um elemento-chave para explicar toda esta dinâmica pode ser encontrado na taxa em queda dos salários como percentagem do rendimento nacional nos Estados Unidos. A estagnação na década de 1970 levou o capital a lançar uma guerra de classes acelerada contra os trabalhadores para conseguir lucros cortando os custos trabalhistas. o resultado foi décadas de desigualdade crescente.... um declínio acentuado na participação dos salários no PIB entre o final dos anos 1960 e o presente. (“Financial Implosion and Stagnation”, John Bellamy Foster and Fred Magdoff, Monthly Review).

Krugman sabe de tudo isso. Ele fez a pesquisa. Como dissemos antes, ele só está tentando dignificar o meio pelo qual os plutocratas estão nos roubando enquanto nos prepara para mais do mesmo no futuro próximo. Isso faz dele um defensor das bolhas de ativos no meu livro.

A teoria de “estagnação secular de taxas negativas” de Krugman é pura conversa fiada. O problema não é uma armadilha de liquidez, mas o que o economista Heiner Flassbeck chama de “armadilha da renda”, em que rendimentos em queda e salários achatados levaram à demanda em queda e investimento fraco. Aqui Eis um trecho de um artigo recente de Flassbeck:

Heiner Flassbeck
(...) os EUA hoje …. Estão restritos pela demanda e a demanda está restrita pela expectativa da renda das famílias com altos níveis de desemprego… É uma história do mercado de trabalho disfuncional (...).

(...) alto desemprego pressiona os salários, salários pressionados pressionam o consumo e consumo presisonado não permite à economia se recuperar apesar dos enormes lucros das empresas e tentativas desesperadas de política monetária (...)

(...) mesmo políticas bem-intencionadas podem levar a resultados questionáveis se a análise subjacente é falha. A Abenomics e a maioria dos seus seguidores acadêmicos, como Paul Krugman, consideram uma armadilha de liquidez prolongada como a principal razão para a fraqueza japonesa (...)

(...) as expectativas diminuídas e a incerteza das famílias japonesas quanto a sua renda futura e deflação enquanto tal evitam o consumo privado de tomar um papel de liderança em uma recuperação. Para chamar essa constelação de uma armadilha de liquidez é enganoso. Na verdade, a armadilha é muito mais uma armadilha de salário ou renda do que uma armadilha de liquidez. (“Japan: Why Paul Krugman doesn’t get it right and Martin Wolf has to move on”, Heiner Flassbeck, Flassbeck-Economics).

Bingo. Temos um vencedor!

Os problemas não são taxas negativas, estagnação secular, ou armadilhas de liquidez. São demanda, salário e distribuição. Se você pagar um salário decente às pessoas, eles têm mais dinheiro para gastar, a atividade aumenta, o desemprego cai, as vendas aumentam, as empresas reciclam seus lucros em investimento, o lucro melhora, a demanda por recursos (empréstimos) eleva as taxas, a economia cresce e o todo mundo fica feliz. Mas se você continuar esmagando o trabalho com austeridade, exportando postos de trabalho, desemprego elevado contínuo, acordos de livre comércio regressivos, cortes em programas sociais vitais, e políticas monetárias falsas que servem apenas aos ricos, então a demanda enfraquece, as expectativas das pessoas quanto ao futuro pioram, e a economia para ... Foi o que ocorreu.

Logos dos principais sindicatos de trabalhadores dos EUA
4As; AEA; AFSCME; AFTRA; AGMA; AGVA; Hebrew Actors' Union; GIAA; SAG; ALPA; NATCA; AWIU; UAW; BCTGM; IBB; BAC; CWA; IUEC; IUOE; UFW; IAFF; AFA; UFCW; GMP; AFGWU; AFGE; GCIU; Int'l Union of Journeymen Horseshoes of U.S. & Canada; HERE; Iron Workers; LIUNA; Laundry and Dry Cleaners Int'l Union AFL-CIO; NALC; BLE; ILA; ILWU; IAM; BMWE; New England PBA; MEBA; UMWA; AFM; Int'l Union of Novelty & Publication Workers; UAN; OPEIU; IUPAT; PACE; OP&CMIA; Int'l Plate Printers; Die Stampers & Engravers union of North America; UA; IUPA; APWU; Federation of Professional Athletes; IFPTE; ARA; United Union of Roofers, Waterproofers & Allied Workers; AFSA; CSEA; SIU; SEIU; SMVIA; BRS; IATSE; USWA; AFT; IBT; ATDD; ATU; TWU; TCU; UAW Skilled Trades; UAW Veterans; UNITE!; UWUA; WGAE                              
A boa notícia é que arrumar a economia é possível. Os trabalhadores norte-americanos só precisam de um aumento de salário e uma parcela maior nos ganhos de produtividade. Colocar dinheiro nas mãos das pessoas que vão gastá-lo é o caminho mais rápido para fortalecer a recuperação.

A má notícia é os caras que controlam o dinheiro gostam da maneira como as coisas estão agora. O que significa que esta quase-Depressão provavelmente vai se arrastar ainda por um bom tempo.
_______________________

[*] Mike Whitney mora em Snohomish, Wa (próximo de Seattle), Trabalha como articulista freelance há sete anos. Em 2006, ganhou um prêmio Project Censored por matéria investigativa sobre a Operation FALCON, um silencioso roubo generalizado, orquestrado pelo governo Bush, para concentrar mais poder na presidência. Em seu blog Grasping at Straws fornece aos leitores um instantâneo de alguns dos melhores artigos de economia do dia. Contribuiu na produção do livro: Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press); também disponível em Kindle edition. É articulista habitual do sítio Counterpunch.

E-mail: fergiewhitney@msn.com.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Pepe Escobar: “O enigma do mercado da China”

13/11/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online - The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os 7 mais importantes líderes da China são Xi Jinping (C), Li Keqiang (3ºD), Zhang Dejiang (3ºE), Yu Zhengsheng (2ºD), Liu Yunshan (2ºE), Wang Qishan(1ºD), Zhang Gaoli (1ºE) aguardam o início da 3a. Sessão Plenária do 18o CPC Comitê Central do PCC em Pequim, capital da China

“O foco da reestruturação do sistema econômico (...) é permitir que o [as forças do] mercado tenham “papel decisivo” na alocação de recursos”.

É isso? O mundo espera sem respirar – e só isso aparece: um enigma, embalado num quebra-cabeças dentro de uma “caixa chinesa”, em forma de comunicado encriptado distribuído pela muito aguardada 3ª Plenária do 18º Comitê Central do Partido Comunista da China.

Para saber quem, afinal, é responsável por isso – o primeiro documento político sério que chega ao público já com a China sob governo do presidente Xi Jinping e do premiê Li Keqiang – basta olhar a foto: são os sete membros do Comitê Dirigente do Politburo, os homens que realmente governam a China. E o que está em jogo não poderia ser mais sério; nada menos que as escolhas estratégicas sobre a inevitável ascensão da China ao status de n. 1 da economia mundial.

É preciso sempre lembrar o modo como trabalha o Partido Comunista da China. A sessão Plenária (O “Pleno”) é o momento em que “se forja o consenso” dentro da elite do PCC e quando se define o tom para o próximo estágio de desenvolvimento em velocidade vertiginosa-temerária chinês.

Fato é que o anticlímax parece ter-se tornado conceito operativo por aqui. O frenesi da mídia na China, pré-Pleno, foi total, incansável – do tipo “mudança na qual se pode crer” (mas, não, nada a ver com as campanhas políticas de estilo norte-americano de um bilhão de dólares). Afinal, o n. 4 no Comitê Dirigente do Politburo, Yu Zhengsheng, prometeu publicamente reformas “sem precedentes”, levando a uma “profunda transformação na economia, na sociedade e em outras esferas”.

China reajustando suas engrenagens políticas e econômicas
O frenesi foi gerado, sobretudo, por um mapa do caminho da reforma, publicado pelo Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento do Conselho do Estado – o chamado “plano 383”. Na numerologia marca registrada chinesa, o mapa do caminho delineou o “trem do pensamento três em um; as oito áreas chaves; e os três principais projetos de reforma”. “O segredo de uma reforma bem-sucedida seria o manejo adequado dos laços entre o governo e o mercado”.

Um dos autores daquele trabalho, Liu He, diretor do Central Leading Group para Assuntos Financeiros e Econômicos, e vice-diretor da Comissão de Reforma e Desenvolvimento Nacional, tornou-se, de fato, um superstar. E pouco antes do Pleno, o presidente da China – e secretário-geral do PCC – Xi Jinping repetiu que “reforma e abertura são processo continuado, sem fim”.

Para mim, uma glasnost com gelo, por favor

E então? O que realmente significará essa glasnost com características chinesas? A opinião pública chinesa ainda não tem acesso aos detalhes do enigma do dragão dentro da charada – ou vice-versa – embora tudo que tenha a ver com essas reformas tenha impacto direto sobre a vida de 1,3 bilhão de pessoas. De fato, a caixa dentro da qual está o enigma escondido dentro de uma pirâmide – que reflete o processo de decisão monopolizado por uma elite partidária sábia e benigna. “Transparência”, aqui, sequer se aproxima de uma imagem no espelho.

Todos esperavam promessas, pelo partido, de aumentar a independência do sistema judiciário chinês e de manter a luta contra a corrupção e a injustiça social.

Todos esperavam um abrandamento da política do “filho único”, que já dura 33 anos – permitindo que os casais tenham um segundo filho; é natural, considerando o objetivo do PCC, de uma economia baseada no consumo, com a população chinesa já envelhecendo.

A China enrenta o problema de êxodo rural, reforma agrária e reurbanização
Todos esperavam soluções para a reforma agrária, diretamente ligada ao movimento para a nova urbanização.

E, para registrar, é a primeira vez que o PCC reconhece que:

(...) ambos os setores, o público e o privado, são igualmente importantes como componentes de uma economia socialista de mercado, e as importantes bases do desenvolvimento econômico e social de nossa nação. 

Na prática, significará que o PCC estará quebrando o monopólio estatal em umas poucas indústrias estratégicas. Será permitido investimento privado, por exemplo, em bancos, energia, infraestrutura e telecomunicações. Significará também que muitas empresas que são propriedade do Estado deixarão de operar como braços da burocracia governamental. Nesse caso, esperem furiosa oposição dos interesses entrincheirados de sempre – com elites políticas regionais contra Pequim.

O plano máster do PCC é expandir a classe média chinesa para mais de 50% da população, até 2050 (atualmente, está em 12%) – equacionando mais consumo e estabilidade social.

Hoje, o setor público é responsável por mais de 25% do PIB da China. Muitos negócios na China já são empresas público-privadas – mas 25% de todas as empresas privadas têm alguma estatal, como empresas “parentes”. Só 1,3% dos trabalhadores chineses são empresários privados. 2/3 deles trabalhavam, antes, no sistema do partido-estado. E 20% ocupam posição de liderança no seu sistema local do governo ou do partido.

O papel central do estado não deve ser alterado pelas reformas vindouras. Afinal, 40% dos empresários são membros do PCC. Ganharam bom dinheiro da privatização da moradia. Não fazem oposição política ao PCC – e com certeza lucraram com as reformas. O que mais desejam, sobretudo, é um sistema mais eficiente e mais justiça social. Não cultivam nenhuma ideia de mudança de regime.

Watch these comrades rip (Rasgando a fantasia)

No final, o problema absolutamente chave para a próxima etapa da China pode ser facilmente formulado à moda chinesa: como cutucar a economia, sem nenhuma reforma política. Até o Pequeno Timoneiro, Deng Xiaoping – possivelmente o maior estadista da segunda metade do século 20 – disse, repetidas vezes, que nenhuma reforma econômica na China iria jamais muito longe, sem uma reforma no sistema político.

Xi Jinping, Presidente do PC chinês, discursa na 3a. Sessão Plenária do 18o CPC Comitê Central
No curto e médio prazo, é difícil antever o PCC dando licença à Deusa do Mercado para que deite e role à vontade, na economia chinesa. Mais “mercado” à moda ocidental, inevitavelmente acentuará até níveis proibitivos, a desigualdade entre as regiões – exatamente quando o PCC tenta com tanto empenho acelerar o desenvolvimento das províncias mais pobres do interior.

O comunicado críptico é, é claro, só um mapa abreviado do caminho. Serão necessários dias, semanas, até meses, para que se vejam em melhor detalhes as suas implicações. Certo, mesmo, é que o “papel decisivo” das reformas do mercado implica o PCC ao timão, monitorando cada passo do processo.

É feito um ninja que tenta, em tempo integral, domar um dragão imensamente poderoso. Será o combate épico de muitas eras, assistir ao Partido Comunista Chinês – uma imensa burocracia estrutural inserida no governo da China – a cumprir essa tarefa de equilibramento; tendo de domar os próprios instintos que sempre clamam por controle cada vez mais fortemente centralizado (na internet, por exemplo, não se cogita de muita glasnost) e uma explosão de darwinismo social causado por essas forças “irracionais” que absolutamente não dão importância alguma ao emprego e à estabilidade social.

Os Gweilos – estrangeiros bárbaros em geral – que subestimem a decisão chinesa, se quiserem subestimá-la, e por conta e risco deles. Quando o Pequeno Timoneiro lançou sua própria reforma econômica – uma espécie de glasnost – em 1978, ele virou o Partido Comunista Chinês de cabeça para baixo, de fora para dentro, de um lado para o outro, quadrangulou o círculo: o crescimento econômico em velocidade vertiginosa criou a deriva necessária para gerenciar os problemas políticos, com algumas mudanças políticas permitindo aumentar ainda mais a já alucinante velocidade do crescimento econômico.

Portanto... E se Xi eLi vêm aí como Deng remix – e inventam um novo conceito de mercado com características chinesas? O céu – ou a China de volta ao ponto onde permaneceu por 18 dos 20 séculos passados – é o limite.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista político do blog Tom Dispatch e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
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quarta-feira, 11 de julho de 2012

China-2012: “Aproveitar a força dos mercados”


Atualizado: 10/7/2012 às 8h07’, Chi Fulin, China Daily, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Chi Fulin é presidente do Instituto China para Reforma e Desenvolvimento, de Hainan.

Chi Fulin
O crescimento econômico da China tem-se mantido alinhado a uma economia de mercado. Mas, embora o arranjo institucional de transição tenha contribuído para o crescimento econômico da China, ainda continua dependente de forças burocrático-administrativas e de governo e não retribui ao mercado como se deve esperar que retribua; tampouco tem dedicado suficiente atenção ao desenvolvimento equitativo e sustentável. 

Sem mudanças no status quo, dificilmente o mercado conseguirá cumprir sua função fundamental na alocação dos recursos do país; e, sem isso, a China não conseguirá modificar um modelo de economia há muito tempo fixado, caracterizado pela expansão quantitativa. 

Para acelerar a transformação de seu modelo há muito tempo controverso de desenvolvimento, e começar a andar por uma trilha de desenvolvimento equitativo e sustentável, a China deve abandonar seu modelo de desenvolvimento econômico conduzido pelo governo, e acelerar a conversão da economia chinesa, há muito tempo esperada, em economia dirigida pelo consumo. 

Diferente dos EUA e dos países europeus, a economia chinesa manterá a tendência de crescente desenvolvimento ainda por longo período, se liberar a enorme demanda reprimida no país. Estima-se que o consumo doméstico na China subirá, de 16 trilhões de Yuan (US$2,5 trilhões) em 2011, para 50 trilhões em 2020. Esse considerável aumento no consumo doméstico servirá de base para uma taxa de crescimento de 8% na próxima década. 

Mas, para liberar esse potencial, é preciso introduzir mudanças nas instituições de mercado hoje vigentes, e criar melhor ambiente para uma economia comandada pelo mercado. 

Estatísticas mostram que a contribuição do consumo final no crescimento da economia caiu, de 62,3% em 2000, para 47,4% em 2010; simultaneamente, o consumo doméstico caiu, de 46,4% para 33,8%. Uma das razões fundamentais pelas quais a China conseguiu manter seu rápido crescimento econômico nesses dez anos foi a atenção que as autoridades governamentais dedicaram a puxar a economia mediante fortes investimentos. Mas esse modelo acentuou os desequilíbrios na distribuição da renda nacional. O modelo também afetou negativamente a inclinação das pessoas a gastar, contendo também a capacidade de consumo doméstico e o crescimento econômico nacional. 

Simultaneamente, o modelo de crescimento puxado por investimentos inegavelmente pendeu na direção do desenvolvimento de indústrias pesadas, em detrimento do setor de serviços. Resultado disso, a estrutura de oferta e demanda não conseguiu adaptar-se ao rápido crescimento da demanda doméstica por produtos e serviços públicos, o que agravou os desequilíbrios e a baixa sustentabilidade. Para resolver esses problemas, o governo está alterando sua abordagem do desenvolvimento e promovendo uma transição: de modelo de desenvolvimento puxado por investimentos, para modelo de desenvolvimento puxado pelo consumo. 

A China tem imenso potencial, não só de consumo, mas também de investimento. Prevê-se que o ritmo de urbanização do país e a proporção de seu setor de serviços aumentarão 10-20 pontos percentuais ao longo da próxima década. Não obstante o papel crucial que tem na manutenção do crescimento econômico de curto prazo, o investimento só será força motriz do desenvolvimento econômico chinês se se adaptar à estrutura da demanda social, hoje em mutação. Para isso, o país deve integrar suas atividades de investimento – nessa transformação para a economia puxada pelo consumo. 

Só em sistema de pleno livre mercado alcançar-se-ão essa estrutura econômica transformada e uma estrutura otimizada de investimento. Dependência excessiva de investimentos, o consumo de energia e a excessiva priorização assegurada às indústrias pesadas resultaram em distorção na estrutura de investimentos do país, o que torna essa estrutura incapaz de adaptar-se à estrutura da demanda social, que está hoje em mutação. 

O crescimento puxado pelo governo comprovou-se insustentável, porque é dependente de forças e meios burocrático-administrativos. A China, baseada nas mudanças agora emergentes na estrutura de sua demanda social, deve permitir que as forças do mercado operem livremente; para isso, deve ajustar e otimizar sua estrutura de investimentos e tentar criar condições de longo prazo para que se desenvolva uma economia puxada pelo consumo – mantendo limitada a escala dos investimentos. 

A distribuição de recursos feita por forças da administração, que são manipuladas, resulta em desperdício de recursos. O preço super arrochado da terra, dos recursos, do capital, do trabalho e de outros elementos da produção inevitavelmente alimentará impulsos para investir e conterá o consumo popular. Mais importante, causará também má distribuição dos recursos nacionais e fará cair o consumo doméstico. Essa situação, se persistir, levará inevitavelmente à precarização das forças de mercado. 

As experiências econômicas em curso na China ao longo dos últimos 30 anos indicam que as forças do mercado, não as forças burocrático-administrativas e de governo, sustentarão, no futuro, o crescimento econômico nacional chinês.