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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Resposta a um leitor que protesta contra viés antiamericano e pró-russo no que escrevo

1/5/2015, [*] F. William EngdahlNew Eastern Outlook – NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Recebi recentemente reclamação forte de um leitor alemão, contra um suposto viés anti-norte-americanos e pró-russos que haveria no que escrevo. A reclamação dá boa ocasião para tratar de questões que andam por muitas cabeças ocidentais, atormentadas pela cobertura pervertida, fortemente enviesada pró-Washington e anti-Rússia, que a imprensa-empresa impinge à opinião pública, em tudo que tenha a ver com Ucrânia e Rússia – definidos como o novo demônio a ser combatido.

Aqui, a substância da reclamação, que traduzi do alemão:

Estou ficando cada dia mais furioso com o viés anti-norte-americano que há nos seus artigos que leio regularmente. Quer dizer então que supostamente os EUA são o bandido, e Putin, o eterno Guerreiro da Guerra Fria, é o herói dourado? Você não faz nem ideia de como estão hoje Rússia ou Ucrânia. Minha mulher chega de lá e diz que os russos são os agressores (...) Será que você jamais se perguntou a si mesmo, quando Putin anexou a Crimeia, por que não fez isso em 1999, quando foi presidente pela primeira vez? Ah, entendi! Não fez porque tinha de atacar a Chechênia para explodir esconderijos de extremistas (...)

Ou então, quem sabe, em 2000-2004 no seu primeiro mandado, por que não anexou a Crimeia? Ah, sei, sei... daquela vez tinha de meter Khodorkovsky (oligarca da Petróleo Yukos) na cadeia. Quanta merda! Admito que os norte-americanos também tem lá sua roupa suja, seja a Operation Condor no passado, ou a guerra no Iraque ou o apoio aos rebeldes na Síria, que é fracasso para todo o ocidente, que só conseguiu fortalecer os extremistas. Isso é indiscutível.

Ainda assim, acho os norte-americanos mil vezes preferíveis aos russos

[assina] Mr. Schneider

Primeiro, Sr. Schneider, permita-me dizer que sou norte-americano e com absoluta certeza não sou antiamericano. Amo meu país e meus concidadãos.

O que não amo é a claque dos muito ricos que – sobretudo ao longo das três últimas décadas, desde o tempo de Reagan e Bush Pai – subverteram passo a passo a Constituição dos EUA e as garantias que ela dava aos direitos dos cidadãos; destruíram a legislação prudente e aproveitável sobre saúde e segurança dos norte-americanos, afrouxando todas as regras de segurança da Agência de Proteção Ambiental só para beneficiar empresas como DuPont ou Monsanto à custa da saúde do povo dos EUA.

Não amo nem um pouco esses círculos de muito ricos à volta de David Rockefeller, George Soros, Bill Gates, Ted Turner, Warren Buffett, George Bush Pai & Filho 1, em breve talvez também Filho 2, Jeb, que usaram suas fortunas para comprar deputados e senadores que aprovam as leis contrárias ao bem-estar da maioria.

Não amo mesmo, nem um pouco, os bancos de Wall Street que sustentam deputados e senadores para que aprovem leis que afrouxam todas as regulações que há desde 1929, quando a bolsa veio abaixo e todos aprendemos que é indispensável controlar os abusos dos banqueiros.

Manifestação dos partidários de David Rockefeller, George Soros, Bill Gates, Ted Turner, Warren Buffett, George Bush, Barack Obama... et cataerva.
Não gosto nada-nada quanto o governo dos EUA – George W. Bush ou Barack Obama – usam centenas de bilhões do dinheiro dos contribuintes norte-americanos para resgatar grandes bancos corruptos e criminosos – Grandes Demais para Falir, como nos contaram. E, ao mesmo tempo que deixam os norte-americanos comuns a apodrecer no desemprego, sem teto, mandam os empregos deles para China, Romênia ou México, à caça de trabalho barato.

Consumi mais de 30 anos, como economista, como historiador da Economia, como jornalista, à procura do que deu errado com o meu país, os EUA. Se você está genuinamente interessado à procura da verdade, recomendo que leia meus livros (todos disponíveis a partir do meu  website).

Por tudo isso, é difícil para mim responder ao seu método retórico de formulação, de ou branco ou preto, no que você diz que escrevo que “os EUA são o bandido e Putin, o eterno Guerreiro da Guerra Fria, é o herói dourado”. Sempre acho importante e essencial para uma análise séria, ser muito objetivo e o mais preciso possível. Tomo então os seus exemplos sobre a Rússia.

Primeiro, se eu fosse Presidente da Rússia depois de 1999, acho que teria feito praticamente tudo como Vladimir Putin fez. Naquele ponto, Rússia e Ucrânia tinham um tratado assinado pelos dois governos em 1997 que dava à Rússia o direito de usar o porto de Sebastopol na Ucrânia por 20 anos, até 2017, para ali instalar a Frota da Rússia no Mar Negro, acordo de importância estratégica para a defesa russa. Em 1999 era inconcebível que Rússia e Ucrânia algum dia pudessem vir a estar em guerra. Tenho muitos amigos ucranianos que, se você pergunta a eles de onde vieram, eles automaticamente respondem “da Rússia”. A Ucrânia, desde a independência em 1991, sempre foi estado falhado, saqueado por oligarcas ucranianos imorais, perfeitos gângsteres como Leonid Kravchuk, criminosos como Leonid Kuchma, Viktor Yushchenko, Yulia Tymoschenko.

Mas em 1999 a segurança da Frota da Rússia no Mar Negro na Crimeia não era coisa que preocupasse Moscou. Importante, isso sim, para a segurança nacional do país, era a guerra que a CIA estava fazendo na Chechênia. A CIA ali estava usando Mujahidden importados, que a própria CIA treinara, ao tempo que treinava Osama bin Laden para a guerra dos soviéticos no Afeganistão, na década 1979-1989.

Já a CIA...
A política dos EUA no governo de George Bush Pai, e depois, de Clinton-Gore, era destruir a Rússia ao final da Guerra Fria, impedindo que permanecesse como nação funcional – o mesmo que Washington faz hoje, destruindo a Ucrânia. Washington & Bush Pai informaram ao G7 em 1990, que toda a reforma econômica na Rússia seria comandada pelo FMI (controlado pelo Tesouro dos EUA).

George Soros e os economistas da “terapia de choque” de Harvard, Jeffrey Sachs e Anders Aslund puseram-se a trabalhar com criminosos do quilate de Yegor Gaidar ou Anatoly Chubais para literalmente privatizar todas as empresas estatais russas consideradas “joias da coroa” – do alumínio, da indústria aeroespacial, do petróleo, dentre outros itens valiosos do patrimônio público russo. Tudo foi feito em nome da “eficiência do livre mercado”. No governo de Yeltsin-Chubais-Gaidar as aposentadorias não eram pagas, e um punhado de bandidos (que no futuro viriam a ser chamados de “oligarcas”) próximos da família do gângster Yeltsin, tornaram-se bilionários.

Aqui entra em cena Mikhail Khodorkovsky que em 2004 tornara-se o homem mais rico da Rússia, e estava em processo de comprar todo o Parlamento russo para conseguir mudar a lei que proibia a propriedade privada de minas de extração de minério, e trabalhava com o banqueiro londrino Jacob Lord Rothschild e Henry Kissinger, na sua Fundação Rússia Aberta (Open Russia Foundation), para comprar para Khodorkovsky a presidência da Rússia, com dinheiro da Petróleo Yukos, empresa que Khodorkovsky obtivera manipulando ilegalmente vários processos de privatização.

Nada disso é propaganda pró-Putin. Na revista Foreign Affairs, órgão do Conselho de New York para Relações Exteriores, Lee Wolosky, ex-funcionário de contraterrorismo no governo Clinton, detalhou o processo pelo qual a empresa Yukos “conseguiu arrancar cerca de US$ 800 milhões, no período de cerca de 36 semanas”, em 1999, graças aos preços de transferência de propriedade de empresas públicas. Wolosky também explica como Khodorkovsky conseguiu arrancar patrimônio de subsidiárias de sua empresa Yukos, depois da crise financeira de 1998. Khodorkovsky era – e ainda hoje, quando já vive muito provavelmente na Suíça como exilado rico, continua a ser – um gangster.

Sinto, Sr. Schneider, mas seus comentários e cronologia sobre Crimeia e Ucrânia são confusos, e não é possível responder-lhe diretamente sobre isso. Permita-me explicar, então, que, depois do golpe de estado orquestrado pelos EUA, dia 22/2/2014 em Kiev, que pôs no poder uma equipe cuidadosamente formada de criminosos literalmente neonazistas e realmente antissemitas, feito os Partidos Svoboda, Setor Direita (Pravy Sektor) e outros, qualquer um que tivesse olhos veria que, depois daquilo, o passo seguinte seria meterem a Ucrânia como membro da OTAN.

O novo regime em Kiev, não eleito, começou a preparar decretos com terminologia anti-Rússia, além de outros movimentos hostis contra russos étnicos – é o mesmo que dizer: contra as populações da Crimeia e do leste da Ucrânia.

Victoria Nuland
Washington desempenhou papel inacreditavelmente escancarado no golpe de fevereiro, especialmente o senador John McCain e a Secretária-Assistente de Estado Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland. Esse apoio escancarou-se, mesmo, um dia depois de o Ministro Steinmeier de Relações Exteriores e os Ministros de Relações Exteriores de Polônia e França terem obtido um compromisso de paz de todos os partidos em Kiev – que poderia ter evitado a guerra.

George Friedman, fundador de Stratfor, empresa de consultoria de inteligência que presta serviços à CIA, ao Pentágono e ao Departamento de Estado, declarou, em entrevista em dezembro de 2014 ao jornal russo Kommersant que Ucrânia-fev.-2014 foi “golpe de estado organizado pelos EUA. De fato, foi o golpe mais escancarado de toda a história”.

Tornou-se assim imediatamente claro em Moscou que a Crimeia seria convertida em base da OTAN, controlada pelo golpistas de Kiev controlados pelos EUA. Foi feito um referendo, e mais de 90% da população da Crimeia votou a favor de a Crimeia tornar-se independente de Kiev; e a favor de solicitar à Rússia a reintegração da Crimeia.

Nem Washington conseguiu negar que a maioria democrática preferira a Rússia, à bandidagem que os EUA haviam reunido e instalado em Kiev. Então, os EUA ignoraram o plebiscito, e Washington pôs-se a repetir que os crimeanos teriam votado sob mira de armas russas. Sei de gente que estava lá e viu tudo acontecer. Houve uma tentativa, sim, de um grupo de terroristas tártaros organizados pela CIA, com contatos com a inteligência turca, para iniciar movimento violento, ao estilo do ISIS, na Crimeia, contra a Rússia. Gorou.

Quanto a você achar os norte-americanos mil vezes preferíveis aos russos, é questão de gosto, direito seu. Eu tenho os meus gostos, direito meu.

Mais uma vez, obrigado por sua mensagem. Para encerrar: nos meus mais de 30 anos como jornalista profissional já vi, da corrupção da empresa-imprensa dominante nos EUA e Europa, coisas que você talvez nem consiga imaginar.

A imprensa-empresa alimenta os TROUXAS
Sempre que nos intimidamos e não expomos ideias diferentes da empresa-imprensa dominante, abrimos a porta para a manipulação do pensamento individual, seja por governo democrático, seja por oligarquias, concordemos ou não com isso.

Alegre-se, porque ainda conseguimos ler, online ou em outras mídias, pensamento diferente do pensamento único que os jornais publicam, ou as redes de TV “noticiam”.

Nunca peço a ninguém que concorde comigo. Se você encontrar erro no que escrevo, estou exposto para ser corrigido – e já aconteceu várias vezes.

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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência naPrinceton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em Nova York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Irã e uma possível nova geopolítica da energia

12.04.2015, [*] F. William EngdahlNew Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O recente esboço de acordo entre Irã e EUA sobre o programa nuclear iraniano abre a possibilidade de chegar ao fim quase 36 anos de sanções econômicas que os EUA impuseram ao Irã.

O esboço de acordo já foi recebido com ameaças de ataques unilaterais de Israel contra o Irã, para “prevenir” que o Irã venha a desenvolver uma bomba nuclear. E está emergindo a mais improvável das alianças, entre a monarquia ultraconservadora saudita e o governo de Israel: contra o Irã e o esboço de acordo.

A verdadeira questão é qual a motivação mais profunda, em relação ao Irã, no governo Obama.

Aqui, a geopolítica da energia tem papel decisivo, como tão frequentemente acontece em tudo que tenha a ver com o Oriente Médio. E o alvo dos EUA é a Rússia!



F. William EngdahlConversei recentemente sobre esses desenvolvimentos com Shervin, jornalista iraniano especialista em energia que conheci há dois anos em Teerã. Aqui, gostaria de partilhar alguns destaques daquela entrevista. Shervin é especialista em energia da principal agência de notícias do Irã, Tasnim News Agency. Espero que nossa conversa interesse a todos que procuram instrumentos para entender melhor as sanções impostas pelos EUA ao Irã, o possível papel do Irã no mundo e uma possível nova geopolítica da energia.

Tasnim: Qual sua opinião sobre as sanções contra o Irã?

F. William EngdahlAs sanções dos EUA contra o Irã são ilegais nos termos da lei internacional e são atos de guerra, exatamente como as sanções contra a Síria e, agora, também contra a Rússia.

Tasnim: Com as negociações sobre o Irã chegando a algum acordo, o senhor acha que as sanções econômicas do ocidente contra o Irã serão levantadas?

F. William EngdahlTemos de ser bem específicos. As sanções saíram de Washington e da unidade de guerra financeira do Tesouro dos EUA, especialmente a mais recente rodada de sanções, contra usarem o sistema de telecomunicações para compensações interbancárias (SWIFT) para vender petróleo iraniano – passo sem precedentes, que Washington jamais dera, e que agora já ameaça dar também contra a Rússia. A União Europeia adoraria reabrir seu comércio com o Irã. Enquanto Washington for governada pelos bancos de Wall Street e o complexo militar-industrial, vocês devem esperar que apareça algum pretexto, mesmo depois de um acordo nuclear, para continuar as sanções, de algum modo. Vejam Cuba.

Tasnim: Como os atuais baixos preços do petróleo afetam a economia nos EUA?

F. William EngdahlEm setembro passado, o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, reuniu-se com o rei na Arábia Saudita, e propôs que pusessem abaixo o preço do petróleo, para pressionar maximamente o Irã e, principalmente, a Rússia de Putin, que Washington está determinada a destruir, porque é a única grande potência militar que pode ameaçar a total hegemonia militar do Pentágono. Se a Rússia capitulasse – e tenho certeza de que não capitulará – o mundo como o conhecemos entraria em colapso, o Irã seria isolado e destruído, a China também, e todas as novas estruturas multipolares alternativas que se opõem ao totalitarismo cada dia mais descarado dos hegemonistas anglo-norte-americanos receberiam golpe devastador.

Ironicamente, o choque do petróleo de Kerry-sauditas está tendo impacto devastador sobre a enorme nova indústria de petróleo de xisto nos estados de North Dakota, Texas, Califórnia e outros. Estimo que se isso continuar por mais três, seis meses, começaremos a ver falências e calotes que crescerão como bola de neve, de empresas de petróleo e dívidas não pagas correspondentes a empréstimos de mais de US$ 1 trilhão a empresas de petróleo e outros “papeis podres”. Até aqui, as empresas de petróleo de xisto têm afogado o mercado com o petróleo que têm, para obter dinheiro para evitar o calote das próprias dívidas, na esperança de que a crise seja de curta duração. As empresas do Big Oil, como ExxonMobil, Chevron, BP, Shell podem surfar as ondas da tempestade, porque estão bem capitalizadas e são globais. Em termos da economia norte-americana mais ampla, o único ponto em que se viu aumento no número de empregados foi nas centenas de milhares de novos postos de trabalho na indústria doméstica do xisto. Esses empregos já começaram a desaparecer novamente, bem depressa. O governo Obama, mais uma vez, não soube prever as consequências de mais longo alcance dos seus atos. O governo Obama atirou nos próprios dois pés, nessa guerra do petróleo contra Putin.

Tasnim: Como as sanções econômicas contra o Irã impactam também a economia dos EUA?

F. William EngdahlAs sanções que o Tesouro dos EUA impôs ao Irã praticamente não têm impacto algum sobre a economia dos EUA. É o que as torna tão diabólicas.

Tasnim: As sanções econômicas contra o Irã beneficiam mais os EUA ou o Irã?

F. William EngdahlRealmente, e foi o que vi quando estive em Teerã há dois anos, beneficiam muito mais o Irã. Digo isso, porque as sanções forçam vocês a serem cada vez mais autossuficientes e a não deixar que sua economia, suas indústrias, sua agricultura sejam destruídas por produtos baratos importados do ocidente, como aconteceu com tantos países na Ásia, África, América do Sul. As sanções forçam o Irã a desenvolver internamente as suas próprias maravilhosas capacidades, a controlar o próprio crédito, a não se deixar prender como vassalo de um sistema-dólar que está falindo. Os iranianos são pessoas muito bem educadas e inteligentes, cheias de recursos. Tenho certeza de que se darão muito bem, sem importar iPhone6 e sementes de soja tóxica da Monsanto.

Tasnim: Washington arregimentou os sauditas para derrubarem o preço, para ferir a Rússia e talvez o Irã?

F. William EngdahlNão tenha dúvidas disso. Foi repetição do que George Schultz e o Vice-Presidente Bush Pai fizeram em 1986 para conseguir que os sauditas inundassem o mercado, naquele momento, e derrubassem os preços para menos de US$ 10 o barril, para quebrar a União Soviética durante a guerra afegã dos soviéticos contra os mujahideen de Osama bin Laden financiados pelos EUA.

Mas desta vez o pessoal do Departamento de Estado e da CIA em  Washington era muito mais estúpido do que antes. Não calcularam que os sauditas já têm agenda própria e metas próprias a alcançar com o petróleo barato, a saber, destruir a nascente indústria concorrente do petróleo de xisto dos EUA. Agora já é tarde demais para que Obama e Washington consigam facilmente reverter os preços do petróleo. A qualidade intelectual do pessoal que vive na burocracia de Washington, mesmo comparada à do pessoal que lá estava há 30 anos, é escandalosamente baixa. São perfeitos ignorantes de história, cultura, economia, estratégia. Observe que até algumas das pessoas mais torpes do establishment da política exterior dos EUA, como Brzezinski e Kissinger, não se cansam de alertar Obama para que não provoque guerra contra a Rússia. Esses, pelo menos, sabem um pouco de história. Neoconservadores como Victoria Nuland no Departamento de Estado, ou o Secretário da Defesa, Ashton Carter ou Hillary Clinton, que já pôs seu olhar de gelo sobre a Casa Branca, não têm um palmo de profundidade e não são pessoas de bom caráter. Implica dizer que são gente tão perigosa para o próprio país deles, como para o planeta.

Tasnim: Os sauditas terão visto no pedido de Washington uma oportunidade para quebrar a indústria norte-americana do fracking, preservando para os sauditas o mercado norte-americano?

F. William EngdahlNão se trata do mercado norte-americano para os sauditas. Os sauditas exportam muito mais para a Ásia e bem pouco, cerca de 800 mil barris/dia, para os EUA, para um consumo diário de petróleo nos EUA de cerca de 19 milhões de barris dia; cerca de 4%. Os sauditas estão preocupados é com o mercado global, que eles querem dominar, alavancando a OPEP árabe – Arábia Saudita, Kuwait, Emirados.

Sem o Irã para os sauditas, é claro, mas com o conflito sunitas-xiitas especialmente depois que Washington deliberadamente iniciou as “revoluções coloridas” da chamada “primavera árabe” no final de 2010, a meta sempre foi criar total desordem entre os membros antes cooperantes da OPEP no Oriente Médio. E estabelecer o controle militar direto dos EUA sobre toda a região. Os países da OPEP e seus Fundos Soberanos, usando suas imensas rendas do petróleo, estavam começando a estabelecer redes independentes de banking islâmico; independentes da usura e da escravidão do endividamento como é rotina no ocidente – Tunísia, Líbia, Egito... Se aquilo continuasse, o dólar, em alguns anos, se tornaria inútil como moeda de república-de-bananas, quase exatamente como a ameaça que Washington vê hoje nos países BRICS e no Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), liderado pela China.

É útil ter em mente que a hegemonia de Washington depende de dois pilares: controle da moeda por Wall Street, o dólar como moeda internacional de reserva; e o controle da força militar. O controle sobre o dinheiro começou a desmontar-se e entrar em colapso com a alucinada desregulação dos bancos na gestão de Alan Greenspan no Fed e a consequente orgia de especulação chamada “patrimônio sustentado por seguros” que levou à inevitável crise financeira de 2007-2008. Depois disso, a “solução” militar tornou-se mais claramente dominante, porque o pilar financeiro estava debilitado demais para servir como motor da dominação global ou da, como Bush e David Rockefeller a batizaram, Nova Ordem Mundialdeles.

Ajuda saber que hoje esses oligarcas norte-americanos, como os chamo, estão entrando em pânico que não acontecia há, no mínimo cem anos, temendo que possam perder tudo que têm. Estão desesperados. Washington hoje está cheia de gente confusa em luta uns contra os outros e contra o mundo. É mais ou menos como os últimos anos do Império Romano do século IV d.C. Faz-me lembrar do que diziam os antigos gregos:

Os deuses primeiro enlouquecem quem eles querem destruir.

Hoje Washington é lar do Hegemon Perdido e de gente muito doida, como se vê em Israel, governada por aquele gângster, Benjamin Netanyahu.

Tasnim: A redução do preço do petróleo é ameaça ou oportunidade, para o Irã?

F. William EngdahlÉ oportunidade, e oportunidade maravilhosa, para que o Irã assuma lugar de destaque num novo sistema de comércio internacional que seja justo, e no qual o preço do petróleo não seja feito em dólares. Enquanto o mundo negocia seu petróleo em dólares, todos apoiamos o Império do Dólar e nos autodestruímos. Nesse ponto, China, Rússia e outros países desempenham papel crucial, no trabalho de fazer o preço do petróleo em moedas locais e, assim, desdolarizando as respectivas economias. Hoje, os únicos itens que ainda se compram e vendem-se pelo viciado e endividado sistema do dólar norte-americano são petróleo, drogas e soldados norte-americanos, vendidos como se fossem policiais globais. É sistema bem frágil, em minha opinião.

Tasnim: Que sugestões o senhor tem, para as autoridades econômicas?

F. William EngdahlO Irã é terra maravilhosa, com povo caloroso e muitos recursos econômicos e de inteligência. Se eu fosse governante do Irã, dirigiria o meu governo para criar processos de planejamento por todo o Irã, em todas as regiões onde ainda não existam, e engajaria os cidadãos em diálogo com funcionários regionais da economia, para assim definir os objetivos econômicos de cada região do país para os próximos cinco anos (projetos de maior prazo quase sempre se tornam excessivamente rígidos). Mais ou menos como fez Charles de Gaulle, que com certeza jamais foi comunista, com a “Planification” dele e de Jacques Rueff.

Então os ministros do governo central reúnem-se e revisam os desejos e necessidades das pessoas em todo o Irã e define prioridades exequíveis. Pessoalmente, eu baniria para sempre todas as vacinas ocidentais, todas. Dieta saudável e família e comunidades afetivamente generosas é a única “receita” infalível para ter um sistema imunológico que funcione bem. Eu também proibiria todos os matadores químicos de sementes, como Monsanto Roundup, que seria proibida até de chegar indiretamente ao país pela soja dos EUA ou Argentina, ou por milho geneticamente modificado. A China já começa a perceber a extensão do erro que cometeu ao permitir a importação de 60% da soja que o país consome, e toda essa soja é material geneticamente modificado. Eu desenvolveria naturalmente a maravilhosa cultura alimentar iraniana, com métodos livres de produtos químicos, subsidiada por política positiva de impostos e imporia impostos punitivos contra o agronegócio à moda dos EUA.

Hoje, os oligarcas ocidentais têm agenda simples: genocídio contra todas as linhagens de sangue não anglo-saxão, que exibam peles morenas. Tenho cruzado com muitos deles ao longo dos anos, em conferências e reuniões em Davos, Frankfurt, em vários locais. São amaldiçoados racistas, eugenistas, gente como Gates com suas vacinas que matam bebês e esterilizam meninas e moças.

Bill Gates, George Soros, David Rockefeller, Warren Buffett, os DuPonts, a família Russell da Yale University e outros, cujos nomes não são tão conhecidos. Gente fundamentalmente estúpida e ridícula, incapaz de ver as consequências da vida normal que eles roubam de toda a espécie humana. 

Para matarem “comedores inúteis” como nós, eles fazem guerras, disseminam doenças, tornam nossas crianças cada dia mais doentes e aleijadas; com as vacinas venenosas que distribuem, destroem a medicina tradicional sem drogas industrializadas como ainda existe em partes da China, do Irã e da Rússia. Tudo isso, para criar “mercados” para as drogas e toxinas das empresas ocidentais de medicamentos industrializados as quais, por falar delas, controlam a Organização Mundial da Saúde. Eles criam organizações terroristas para disseminar suas guerras de destruição. Essa é a origem da Al Qaeda, que destruiu a Líbia, o Iraque, o Iêmen e continua ativa em todo o mundo árabe; do grupo Cemaat, de Fethullah Gülen na Turquia e também fora de lá; do ISIS que foi criado pela inteligência dos EUA e Israel para destruir Bashar al-Assad e os laços que ligam os sírios ao Irã e ao Iraque.

Washington agora quer seduzir o Irã e fazê-lo dar as costas ao antigo aliado, a Rússia, e quer cortar as exportações de gás russo para Turquia e União Europeia. Minha opinião é que o futuro do Irã não está em tornar-se novo aliado dos neoconservadores que governam os EUA hoje, para receber algumas migalhas econômicas do ocidente, caso o Irã abandone sua aliança natural com a Eurásia, especialmente com Rússia, China e os países da Organização de Cooperação de Xangai.

A reservas conhecidas e comprovadas de gás natural do Irã foram estimadas, pela empresa British Petroleum, em cerca de 34 trilhões de metros cúbicos; as da Rússia, em 33 trilhões de metros cúbicos. A cooperação agora entre essas duas superpotências do gás natural é essencial para construir a arquitetura da Eurásia de modo que beneficie todos, inclusive a Alemanha e o resto da União Europeia. É uma oportunidade de ouro para mudar o locus da geopolítica da energia global, levando-a para bem longe das potências do eixo Washington-Londres-Riad que a controlam desde o acordo inicial entre o presidente Roosevelt dos EUA e o rei saudita Ibn Saud em 1943, que deu às grandes empresas norte-americanas Rockefeller do petróleo o controle exclusivo sobre os ricos recursos de petróleo da Arábia Saudita.

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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online  New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

domingo, 12 de abril de 2015

Os 45 anos finais do Império Anglo-Saxão

9/4/2015, [*] William EngdahlFort Russ, entrevista gravada por Sergey PravosudovGazprom Magazine
Traduzido para o inglês por Kritina Rus e para português pelo pessoal da Vila Vudu



Em março desde ano, desencontrei-me, literalmente por uma semana, de William Engdahl, autor do notável A Century of War [Um século de guerra], livro e autor sobre os quais falei no meu antigo blog, antes mesmo de o livro ser lançado pela editora “Selado” em versão impressa.

Mesmo assim, embora não tenha podido encontrá-lo pessoalmente, consegui obter uma entrevista exclusiva com Engdahl para a revista Gazprom, gravada pelo editor-chefe Sergey Pravosudov.

Espero que o ponto de vista de um dos autores já clássicos do moderno jornalismo geopolítico ajude vocês a compreender os sempre repetidos “saltos” da geopolítica e da geoeconomia, e a extrair conclusões sobre essas repentinas mudanças na ordem mundial que se veem aí, diante de nossos olhos.

Para mim, a entrevista com William Engdahl é interessante, porque se trata de conhecido crítico da “Teoria do Pico do Petróleo, que pessoalmente sempre me pareceu muito razoável e influente nos processos globais.

O mais interessante é que, apesar de partir de premissas quase diametralmente opostas, Engdahl chega a conclusões semelhantes, em alguns pontos idênticas, sobre o futuro dos processos globais.

Alex Ampilogov



Frederick William Engdahl

O economista e cientista político Frederick William Engdahl respondeu nossas perguntas.

Gazprom Magazine (GM) – Mr. Engdahl, em seu livro Um século de Guerra, o senhor oferece análise interessante dos eventos do século XX. Gostei especialmente do que o senhor escreveu sobre a crise de 1973, quando o petróleo subiu muito.

Frederick William Engdahl (FWE) – Em minha opinião, é óbvio que o aumento dos preços do petróleo não foi culpa exclusiva dos xeiques do petróleo, mas de EUA e Grã-Bretanha. Mais precisamente, dos bancos anglo-saxões, das empresas de petróleo e do complexo industrial militar. À altura de 1971, as reservas de ouro mal chegavam a um quarto das dívidas oficiais dos EUA. Isso, basicamente, significava que, se todos os proprietários de dólares exigissem o correspondente ouro, Washington não teria como pagar.

Quando anunciou (em 1971) aos proprietários estrangeiros de dólares que o papel que tinham nos cofres não mais seria trocado por ouro, o presidente Nixon “desligou os aparelhos” que mantinham viva a economia global. O comércio mundial, depois de 1971, converteu-se em mais uma arena de especulação com diferentes moedas.

Os reais autores da estratégia de Nixon estavam em influentes bancos comerciais, na City de Londres. Sir Siegmund Warburg, Edmond de Rothschild, Jocelyn Hambro e outros viram uma oportunidade gigante no movimento de Nixon separar-se do padrão ouro de Bretton Woods, no verão de 1971.

Depois de agosto de 1971, quando Henry Kissinger tornou-se conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, a política norte-americana dominante passou a ser controlar, não desenvolver economias, por todo o mundo. Durante os anos 1970s, passou a ser prioridade reduzir a população de países em desenvolvimento, e não, absolutamente, fazer qualquer transferência de tecnologias e estratégicas para o crescimento industrial local.

O Ministério das Finanças dos EUA firmou um acordo secreto com a Agência da Moeda [orig.Currency Agency] da Arábia Saudita, aprovado oficialmente em fevereiro de 1975. Por esse acordo, a massiva quantidade de dinheiro que os sauditas receberiam pela venda de petróleo teria de ser aplicada, toda ou quase toda, para pagar as dívidas do governo dos EUA. Um jovem banqueiro de banco de investimentos de Wall Street, David Mulford, foi mandado viver na Arábia Saudita, e tornou-se o principal “conselheiro de investimentos” no Banco Central da Arábia Saudita, encarregado de direcionar os petrodólares para os bancos “certos”, em Londres e New York, claro.

É preciso considerar com especial atenção o modo como a crise do petróleo afetou a Alemanha Ocidental. A economia alemã desenvolveu-se muito bem, os indicadores de crescimento industrial surpreenderam o mundo. Depois de 1971, quando os EUA pararam de devolver ouro em troca de dólar-papel, muitos países começaram a preferir receber pagamento em marcos alemães. Resultado disso, o marco ficou muito fortalecido contra o dólar; nos EUA esse fator passou a ser visto como ameaça.

Além disso, em 1969 o chanceler era o social-democrata Willy Brandt, que começava a seguir uma política de reaproximação com a URSS, na esfera econômica e na esfera política. Foi Brandt quem, em 1970, assinou o famoso acordo “gás-em-troca-de-gasodutos” [orig. Gas-Pipes]. E também, durante a guerra Israel-Árabes de 1973, Willy Brandt anunciou que a Alemanha Ocidental assumiria posição de neutralidade e proibiu os norte-americanos de usarem suas bases em território alemão para fornecer armas a Israel. Os EUA ignoraram a proibição. Resultado dela, contudo, a Alemanha, como outros países ocidentais sentiram o peso da “arma-petróleo”.

Claro que os EUA nunca perdoariam tal insubordinação, principalmente do país europeu que, desde a IIª Guerra Mundial, estava sob virtual ocupação por soldados norte-americanos. Em 1974 os efeitos da crise do petróleo levaram à falência vários bancos alemães; e ao enfraquecimento do marco alemão. O custo do petróleo importado pela Alemanha aumentou, em 1974, em cerca de inacreditáveis $17 bilhões de marcos alemães. Meio milhão de alemães ficaram desempregados. O choque desse repentino aumento de 400% no preço desse recurso básico de energia teve efeito devastador sobre a indústria, o transporte e a agricultura alemães.

Em 1974, Willy Brandt foi forçado a renunciar. Foi acusado de não ter sabido prever e enfrentar a crise do petróleo. E como se não bastasse, descobriu-se, “repentinamente”, que Günter Guilliom, conselheiro do Brandt, era agente da inteligência da Alemanha Oriental.

A vasta maioria das economias menos desenvolvidas do mundo, que não têm recursos significativos de petróleo, foram repentinamente forçadas a encarar um aumento inesperado e impossível para elas, de 400%, no custo das importações de energia, para nem falar no custo de produtos químicos e fertilizantes derivados do petróleo. A Índia, em 1973, tinha saldo positivo na balança comercial e vivia como saudável economia em desenvolvimento. Em1974, a Índia tinha, como reservas totais em moeda estrangeira, US$ 629 milhões, com as quais teria de pagar a conta anual de petróleo importado, de US$ 1,2 bilhões (mais que o dobro da moeda estrangeira disponível). Sudão, Paquistão, Filipinas, Tailândia e muitos outros países na África e na América Latina enfrentaram, em 1974, déficits sempre crescentes na balança de pagamentos. [1] No total, segundo o FMI, em 1974 os países em desenvolvimento tinham um déficit total na balança de pagamentos de US$ 35 bilhões, quantia gigantesca naqueles dias. Não surpreendentemente, esse déficit era quatro vezes maior que em 1973, i.e., era proporcional ao aumento nos preços do petróleo.

Ao mesmo tempo em que o choque do petróleo teve impacto devastador no crescimento industrial mundial, resultava em lucros gigantes para alguns círculos bem conhecidos: os maiores bancos em New York e Londres e para as “Sete Irmãs” – empresas de petróleo dos EUA e Grã-Bretanha. A maior parte dos lucros em dólar dos países da OPEP foi depositada em grandes bancos em Londres e New York, que operavam com dólares, como em todo o comércio internacional de petróleo.

Diferente da Alemanha, a Grã-Bretanha lucrou com a crise do petróleo. O aumento dos preços do petróleo tornou viável o desenvolvimento do campo de petróleo no Mar do Norte, e as empresas anglo-saxônicas conseguiram fazer bom dinheiro.

GM – Por que, em meados dos anos 1980s, os preços do petróleo caíram vertiginosamente?

FWE – Durante o governo Reagan, a prosperidade econômica dos EUA alicerçada em investimentos nas mais avançadas tecnologias industriais, acabou. O aço foi declarado o “cinturão de ferrugem” da indústria, usinas fabricantes de aço foram abandonadas. Onde “havia dinheiro”, construíram-se shopping centers, novos cassinos e hotéis de luxo.

Para financiar essa orgia durante essa bolha de especulação, praticamente durante todo o mandato de Reagan o dinheiro veio de fora. Ninguém jamais pensa sobre o fato de que, ao longo desses cinco curtos anos, pela primeira vez desde 1914 os EUA passaram, da posição de maior credor do planeta, para a posição de estado devedor. O crédito era “barato” e crescia exponencialmente. Famílias alcançaram níveis recorde de endividamento, para comprar casas, carros, carros de luxo. O governo endividou-se para financiar a diminuição da arrecadação e o aumento nos gastos militares do governo Reagan. Em 1983, o déficit anual em orçamento alcançou o nível sem precedentes de US$ 200 bilhões. Com um déficit recorde, cresceu a dívida nacional, enquanto os corretores de ações de Wall Street e seus clientes recebiam dividendos recordes. Os juros a pagar sobre o total da dívida do governo dos EUA, em seis anos, subiram de US$ 52 bilhões em 1980, quando Reagan chegou à presidência, para mais de US$ 142 bilhões em 1986 (1/5 de tudo que o estado arrecadava). Mas, apesar desses sinais tão preocupantes, o dinheiro continuava a sair da Alemanha, Grã-Bretanha, Holanda, Japão, todos ansiosos para pôr a mão nos lucros de especulação no mercado imobiliário e no mercado financeiro. Em 1980, a soma da dívida pública e privada dos EUA chegou a US$ 3,9 trilhões. Ao final da década, chegou a US$ 10 trilhões.

Para qualquer pessoa com senso de história ou boa memória, tudo isso é bem familiar. Já acontecera nos “loucos anos 1920s” até 1929, quando o crash do mercado fez a roleta parar de repente. Quando, em 1985, nuvens de tempestade começaram a acumular-se no horizonte da economia dos EUA, ameaçando as ambições presidenciais do então vice-presidente George H. W. Bush, o petróleo, mais uma vez, lá estava, para fazer o papel de “salvador da pátria”. Apenas que, dessa vez, de modo muito diferente do que se vira nos choques do petróleo anglo-norte-americanos dos anos 1970s.

Obviamente, Washington raciocinou assim: “Se podemos fazer subir o preço, porque não poderíamos fazê-lo despencar, se é o que mais interessa aos nossos objetivos?”

A Arábia Saudita foi persuadida a entrar em modo de “choque de petróleo reverso” e a afogar, com seu petróleo, o deprimido mercado mundial. Na primavera de 1986, o preço OPEP do petróleo caiu como pedra, até abaixo de US$ 10 por barril, a partir de um preço médio de quase US$ 26 por barril apenas uns poucos meses antes. Em março de 1986, quando queda ainda maior nos preços do petróleo ameaçava já desestabilizar os interesses vitais, não só dos concorrentes independentes pequenos, mas das maiores empresas britânicas e norte-americanas de petróleo, George Bush Pai fez uma viagem secreta a Riad onde, como o comprovam inúmeras testemunhas, e disse ao rei Fahd que fizesse parar a queda do preço do petróleo. O Ministro do Petróleo de Arábia Saudita, Zaki Yamani, serviu com o bode expiatório conveniente para políticas inventadas em Washington, e os preços do petróleo estabilizaram-se num nível relativamente baixo, de US$ 14-US$ 16 por barril.

O Texas e outros estados produtores nos EUA entraram em depressão, mas a especulação imobiliária em outros estados subiu à estratosfera, e o mercado de ações entrou novamente em ascensão subindo a alturas estonteantes.

A queda nos preços do petróleo em 1986 deu origem a uma bolha especulativa, comparável à situação em 1927-1929 nos EUA. As taxas de juros caíram ainda mais, com o dinheiro sempre voando rumo à Bolsa de Valores em busca de grandes lucros. Nasceu então, e logo virou moda em Wall Street, uma nova perversão financeira – a compra de dívidas.

Em 1979, quando em plena segunda crise do petróleo Paul Volcker começou seu choque monetário, o governo contou 24 milhões de norte-americanos vivendo abaixo da linha de pobreza, definida essa linha em 6 mil dólares anuais. Em 1988, o número já crescera mais de 30% , para 32 milhões de pessoas.

Como nunca antes na história dos EUA a política tributária dos Reagan-Bush concentrara a riqueza do país em mãos de uma pequena elite. A partir de 1980, conforme estudo feito pela Comissão de Orçamento da Câmara de Deputados do Congresso dos EUA, a renda real dos 20% mais ricos dos EUA crescera 32%.

Apelo direto de Washington ao governo japonês do Primeiro-Ministro Nakasone, dizia que presidente do Partido Democrata, fosse quem fosse, agrediria o comércio nipo-norte-americano. Funcionou. Nakasone pressionou o Banco do Japão e o Ministério da Finança, para “amaciá-los”, torná-los mais flexíveis. As taxas de juro japonesas desde outubro de 1987 continuaram caindo, o que fazia com que ações e títulos dos EUA, bem como a propriedade imobiliária, aparecessem como investimentos relativamente “baratos”. Bilhões de dólares viajaram de Tóquio para os EUA. Durante o ano de 1988, o dólar permaneceu forte e Bush deu jeito de vencer as eleições contra o candidato do Partido Democrata, Dukakis. Para assegurar o apoio do Japão, Bush deu aos mais altos funcionários japoneses garantias privadas de que sua presidência faria melhorar as relações Japão-EUA.

GM – Qual o objetivo dos dois ataques dos EUA contra o Iraque?

FWE  Em 1990, o Iraque tinha enorme dívida externa e o governo dos EUA fizeram saber a Saddam Hussein que os EUA não se incomodariam se ele assaltasse o Kuwait. Mas, quando o Iraque invadiu o Kuwait, os EUA declararam guerra contra o Iraque. Importante a considerar, porque é traço característico: essa guerra foi financiada pelos aliados: Alemanha, Japão, Arábia Saudita e Kuwait, que pagaram US$ 54,5 bilhões aos norte-americanos. Como resultado, os EUA completaram a operação “Tempestade no Deserto” com lucro líquido de US$ 19 bilhões de dólares. Foi guerra necessária para que os EUA fortalecessem sua posição no Oriente Médio, e para ameaçar os aliados dos EUA na Europa e na Ásia. As causas da guerra de 2003 foram semelhantes.

GM – Por que os EUA permitiram declínio tão acentuado nos preços do petróleo no final do ano passado, se levou a uma drástica redução do investimento na produção do petróleo de xisto? Não poderiam, em vez disso, usar as conexões que têm com os terroristas, para organizar ataques aos campos de petróleo no Iraque, Nigéria, Angola, Argélia e outros países?

FWE  Sobre a questão do petróleo: a estratégia do Departamento de Estado dos EUA e daCIA é que a Arábia Saudita derrube os preços do petróleo, em primeiro lugar para pressionar Rússia, Irã e Venezuela. Não acho que tenham considerado qualquer efeito sobre o petróleo de xisto nos EUA, pelo menos inicialmente. Nunca subestime a estupidez das figuras chaves em Washington, tampouco a superestime. Acho que, nesse caso, o mais provável é que tenha avaliado que ExxonMobil, Chevron e British Petroleum conseguiriam sobreviver a seis meses de preços reduzidos. A indústria do petróleo de xisto, nos EUA são empresas médias e pequenas. O Big Oil nos EUA foi empurrado para o fundo do palco. Ano passado, a Shell definiu o investimento em petróleo de xisto como o maior erro da empresa, e saiu, antes de os preços caírem.

É possível que logo recomecem os ataques terroristas à infraestrutura e à capacidade de produção do petróleo. A estratégia de Washington é quebrar a Rússia. Essa é a missão da facção do complexo militar–industrial, Lockheed-Martin, Boeing, Raytheon, General Dynamics, etc. e bancos de Wall Street que querem destruir a Rússia por motivos geopolíticos.

Em termos geopolíticos, com a volta de Vladimir Putin à presidência, a Rússia passou a recusar-se a ajoelhar e rezar como vassalo do “ocidente”. A Rússia recusa-se a envolver-se em qualquer questão que afete a segurança do país, como mísseis de defesa e ataque nuclear preventivo aos EUA.

A cooperação econômica, política e militar entre a Rússia e os BRICS e entre a Rússia e a China representa ameaça à hegemonia da elite política dos EUA: uma Eurásia única economicamente e financeiramente, e militarmente independente (principalmente graças às capacidades militares da Rússia).

Há 20 anos, Washington eliminou todas as defesas de qualquer União Europeia independente que houvesse, com a assinatura do Tratado de Maastricht. Agora, a União Europeia está voltando a falar de constituir exército seu, independente da OTAN. Washington deu risada. Além do mais, a Rússia está cada vez mais atraente para a indústria alemã.

Segundo o diretor da empresa privada de inteligência norte-americana “Stratfor”, George Friedman, nos últimos cem anos a estratégia dos EUA foi impedir qualquer aproximação entre Rússia e Alemanha. Essa aproximação agora, em minha opinião, é a razão pela qual Washington convocou a Arábia Saudita para que encenasse o colapso nos preços do petróleo. Nada tem a ver com empresas de petróleo à beira da falência. Só tem a ver com as elites arruinadas do Império norte-americano: a Síria não trabalha para elas, o Egito não funciona a favor delas, a Turquia não funciona a favor delas, os países BRICS estão criando um novo banco de infraestrutura fora de qualquer controle pelo FMI e o Banco Mundial.

O que há é um bando de oligarcas norte-americanos tentando desesperadamente remendar os buracos no casco do “Titanic” deles. Mas nada poderá ajudá-los. O povo já ficou esperto demais.
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[1] Para ter ideia pálida do que foi o ano de 1974 no Brasil, ver: 16/3/1974 Folha de São Paulo em: Toma posse o general Geisel: Esse é o ano da esperança.
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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência naPrinceton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em Nova York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.