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domingo, 1 de março de 2015

“V de Varoufakis” ou “Os destinos da Grécia estão nas mãos de Angela Merkel?


20/2/2015, Shawn Tully entrevista [*] James K. GalbraithFortune
Traduzido do inglês para espanhol em 22/2/2015, Sin Permiso Rebelión
Traduzido do espanhol para português pelo pessoal da Vila Vudu


Um dos mais afamados economistas vivos, estreitamente ligado ao Ministro grego de Finanças, Yanis Varoufakis, diz que o obstáculo fundamental que atravessava o caminho do acerto-compromisso foi a incrível divisão registrada dentro do próprio governo alemão, com uma parte a exigir total adesão da Grécia aos compromissos prévios, e outra parte, também muito poderosa, que defendia concessões e acordo.


James Kenneth Galbraith
“Tudo depende de Merkel” – diz-nos James Galbraith, que passou sete dias em meados de fevereiro ao lado de Varoufakis em Bruxelas e em Atenas.

Ouvimos o Ministro de Finanças de Merkel, com atitude negativa; e ouvimos o vice-chanceler, que queria o diálogo. Só não ouvimos a própria chanceler Merkel. Sabemos que não quer falar, só se for estritamente imprescindível. São os mais duros que podem ser, depois fazem uma concessão no último minuto, para não ter de fazer duas.

Galbraith resume numa pergunta o dilema de Merkel (e a melhor esperança de que cheguem a um acordo):

Que interesse terá Merkel em converter-se na governante que presidiu a desintegração da Eurozona?

Difícil imaginar dupla mais díspar que essa, Galbraith e Varoufakis. O primeiro é filho – educado em Harvard, Yale e Cambridge – do legendário economista John Kenneth Galbraith. Varoufakis é agitador incendiário, que veste jaquetas de couro e camisetas azul-brilhantes nas reuniões com as engravatadas elites europeias, e para relaxar pilota motocicletas de alta cilindragem.

Apesar das diferenças, e colegas na Universidade de Texas em Austin, não apenas travaram profunda amizade pessoal, mas, também, tornaram-se almas intelectualmente gêmeas, e produziram juntos , em 2013, em trio com o economista britânico Stuart Holland – um opúsculo sobre a solução da crise na eurozona, no qual advogam a substituição de boa parte da dívida soberana das nações com problemas, por bônus de baixo rendimento supergarantidos pelo Banco Central Europeu. [Há tradução ao espanhol, em SinPermiso: “Modesta Proposición”].

É claro que as ideias de Galbraith ajudaram a modelar a controvertida campanha de Varoufakis para “pôr fim” à austeridade [arrocho] na Grécia e proteger os empregos públicos e as pensões dos gregos.

Yanis Varoufakis
Trabalhando esses dias ombro a ombro com Varoufakis, Galbraith está tendo a chance de ver “por dentro” o manejamento caótico do Eurogrupo, que reuniu os ministros europeus de finanças, dia 16/2/2015, em Bruxelas:

Estive com as equipes técnicas entre os dias 11 e 17 de fevereiro (2015), incluída a reunião de Bruxelas. Estava na sala das máquinas, acompanhando a equipe de trabalho grega.

Na reunião do Eurogrupo, Pierre Moscovici, Comissário da União Europeia para assuntos econômicos e financeiros, apresentou a Varoufakis um rascunho de comunicado que permitia à Grécia solicitar uma extensão de seu acordo de empréstimo, garantindo-lhe tempo para discutir um novo plano de crescimento para a Grécia. Como Varoufakis disse à imprensa logo depois da reunião, estava pronto para assinar o comunicado de Moscovici, que elogiou como “documento esplêndido” e “verdadeiro ponto de abertura”.

Mas o diretor do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, estava preparando seu próprio documento.

Yanis disse:

Tenho um texto .

E Dijesselbloem disse:

Não. O texto é esse [outro!].

Jeroen Dijsselbloem
Galbraith e a equipe grega trataram então de combinar partes dos dois rascunhos, para produzir um documento aceitável para ambas as partes:

Dediquei-me então, com as outras pessoas, a combinar os dois rascunhos [o de Moscovici e o de Dijeselbloem] tentando chegar a um texto que pudesse ser assinado. Não demoramos nisso mais que meia hora.

Mas então, segundo o testemunho de Galbraith, o Ministro alemão de Finanças, Wolfgang Schäuble, deu a reunião por encerrada.

Disse “não” à elaboração de uma declaração conjunta como prelúdio de um acordo – no depoimento de Galbraith.

Para Galbraith, a falta de coordenação entre os europeus parecia absolutamente inacreditável:

Sou veterano conhecedor dos assessores especialistas que trabalham no Congresso dos EUA. E ver um corpo institucional oficial trabalhando com tamanho descaso, com tamanha incompetência, de forma imediatista, tão ad hoc, assistir ao vivo ao Eurogrupo, ver aquela forma atrabiliária de fazer as coisas, foi para mim uma verdadeira revelação.

Dia 18 de fevereiro (2015), Varoufakis apresentou solicitação formal para que fosse prorrogado o acordo de empréstimo como o Eurogrupo. Mais uma vez, as respostas divergentes deixaram Galbraith assombrado:

Jean-Claude Juncker [presidente da Comissão Europeia] disse seria um “ponto de partida”. O Vice-Chanceler alemão, Sigmar Gabriel, também disse que a carta sobre a prorrogação do empréstimo seria um “ponto de partida”. Mas Schäuble desmentiu o Vice-Chanceler. Disse que a posição de Gabriel, de defender a prorrogação, seria “posição sem substância”.

Fiquei boquiaberto, de olhos arregalados – disse Galbraith. – E o desmando acontecendo ali, à minha frente, dentro do governo alemão, o governo mais poderoso da Europa!


Jean-Claude Juncker
Para Galbraith, as divisões internas na Alemanha, e entre as próprias nações, deixaram bem evidente que os dirigentes europeus são maus negociadores:

Cometeram o erro de deixar claro diante de Yanis que eles estavam jogando com extrema violência, mas sem saber jogar, se se considera a coisa do pondo de vista da perícia política mais elementar.

Galbraith rechaça enfaticamente a ideia de que a posição grega fosse confusa:

Acho que os europeus querem fazer crer que seja confusa, mas a confusão só existe na cabeça deles mesmos, não na posição dos gregos.

Para Varoufakis e Galbraith, a politicagem mesquinha comprometeu até a sensatez econômica:

Os atores institucionais – o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu – foram construtivos. Mas os credores, os jogadores ativos, são os Ministros de Finanças; e esses estão divididos e são hostis.

No campo dos que se opunham radicalmente incluem-se Espanha, Portugal e Finlândia:

Os dirigentes políticos nesses países enfrentam processos eleitorais e oposição crescente. Estão apavorados com a possibilidade de que as respectivas oposições políticas tirem vantagem da posição grega.

Para esses, o importante é a sobrevivência política em seus cargos, muito mais que salvarem a Eurozona.

Pierre Moscovici
Para romper o impasse será preciso, muito provavelmente, a intervenção de Angela Merkel, único dirigente político suficientemente poderoso para esvaziar essas manobras da política mais rasteira.

Em toda essa terrível confusão, a admiração que Galbraith sente por seu amigo Varoufakis só faz aumentar. Quando muitos dizem que as roupas heterodoxas e declarações provocativas de Varoufakis – quando observou, por exemplo, que o acordo das reformas à moda europeia era semelhante à tortura de simulação de afogamento – atraem cada vez mais a hostilidade do establishment financeiro europeu, Galbraith diz, na direção oposta, que os Ministros das Finanças europeus deviam dar as boas vindas ao Ministro grego, como alguém que diz sempre a verdade, nada além da verdade:

A honradez intelectual, a clareza de pensamento, sua erudição, são absolutamente raras, nos círculos europeus. Acho que quando aquela gente o vê pela primeira vez, ou o ouve falar, sentem alguma espécie de choque.

Galbraith lembra, como exemplo da honradez intelectual de Varoufakis, uma observação do amigo, segundo a qual dentre todos com quem estava negociando, Schäuble, o seu mais duro antagonista, “é o único que dá sinais de ter alguma substância intelectual”.

Muito diferente do que em Bruxelas, Galbraith encontrou em Atenas um ambiente exultante:

Há de três a seis meses, Atenas era absolutamente deprimente. Agora tudo mudou, o sentimento de orgulho está restaurado e o humor mudou completamente.

Varoufakis parece ser quem melhor simboliza esse novo otimismo:

Fomos a pé, do Ministério até o Parlamento. Que experiência! Pessoas nos carros abriam o vidro para estender-lhe a mão e cumprimentá-lo, os motoristas de ônibus paravam para saudá-lo. Por onde anda as crianças o cercam.

Varoufakis deteve-se no caminho, para falar atentamente, apoiando-a pelo cotovelo, com uma senhora que procurava emprego como varredora:Varoufakis é estrela tão popular quanto o próprio Alexis Tsipras”.

Varoufakis conseguirá manter a Grécia no euro, mas ao preço de ceder no programa de crescimento que levou ao poder esse governo de esquerda? Para Galbraith,

É impossível. Varoufakis está montado em sua super motocicleta e é bom piloto. Aceitou o cargo porque o que mais quer é pôr suas ideias em prática.

Angela Merkel
Os Ministros europeus de Finanças nunca conheceram nada igual a Varoufakis. E Merkel terá de decidir se a melhor opção para ela é realmente aceitar compromissos com alguém tão radical e transgressor. Mas em todos os casos, está em jogo o futuro do euro.



[*] James K. Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs de la Universidad de Texas (Austin). Dentre seus últimos livros, Inequality and Instability: A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis (2012) e The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). É coautor, com Yanis Varoufakis e Stuart Holland, da Modesta Proposición para o fim da crise na eurozona (2013).

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Rússia deterá a queda do rublo e continuará a extrair petróleo

20/12/2014, Marin Katusa, Fortune, Strategic Culture - “Editor Choice”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Rublo: variação da cotação de 10/6 até 16/12/2014
O rublo pode ter subido fortemente na 4ª-feira (17/12/2014), mas a queda, em dias recentes, estimulou muita conversa sobre a catástrofe do país, com gente dizendo, até, que a nova Rússia estaria a ponto de seguir a trilha da velha URSS. Não acreditem em nada disso.

A Rússia não é os EUA, e os efeitos de moeda em queda livre por lá são muito menos dramáticos do que seriam nos EUA.

Importante, para lembrar, é que a queda do rublo foi acompanhada de queda igualmente vertiginosa do preço do barril de petróleo. Mas nem esses dois preços não são tão intimamente conectados como se poderia supor. Sim, a Rússia tem economia baseada em recurso principal, que se ressente de qualquer abalo que o petróleo sofra. Mas seu petróleo é vendido em dólares norte-americanos em praticamente todos os pontos do mundo, e o dólar goza de considerável poder, ainda.

Significa que os produtores de petróleo russo podem vender o produto deles nesses dólares fortes, mas pagar suas despesas em rublos desvalorizados. Assim, podem fazer melhorias de capital, investir em novas capacidades, prospectar mais por menos do que lhes custaria antes de o valor do rublo ser ceifado pela metade contra o dólar. O setor permanece saudável e capaz de continuar a fornecer a parte do leão, das taxas governamentais.

Nem a volatilidade do rublo afetará a capacidade de muitas empresas russas pagar o serviço de suas respectivas dívidas. A maior parte da dívida privada denominada em dólares a ser rolada nos próximos meses foi contraída por empresas estatais, que têm entrada estável de moeda estrangeira, das exportações de gás e petróleo.

Vladimir Putin, popularidade em alta
Os consumidores russos serão atingidos, é claro, dados os altos preços dos bens importados, e o aperto que a inflação impõe aos salários. Mas, pelo mesmo processo, as exportações serão muito mais atraentes para compradores estrangeiros. Rublo barato faz crescer a perspectiva de lucros para todas as empresas russas envolvidas no comércio internacional. Além do mais, quando à atual fraqueza da moeda soma-se a sanção que impede que se importem alimentos da União Europeia, as duas forças podem eventualmente levar a um boom de substituição de importações na Rússia.

Em qualquer caso, aconteça o que acontecer, que ninguém espere que as privações inspirem tumultos nas ruas de Moscou. A popularidade do presidente Vladimir Putin já chegou à estratosfera, desde o início da crise na Ucrânia. Os russos confiam no presidente. Apertarão os cintos e não se verá nenhuma revolta contra suas políticas.

Além do mais, o alto preço do petróleo durante o super ciclo da commodity, combinado a uma taxa de câmbio alta, levou a um grave declínio nos setores russos de manufatura e agricultura ao longo dos últimos 15 anos. Essa correlação – que os economistas chamam de “doença holandesa” – fez baixar a parte correspondente ao setor de manufatura na economia russa, de 21%, para 8%, em 2000.

Quanto mais tempo o rublo permanecer fraco, porém, menos a doença holandesa dará as cartas. Moeda mais baixa significa que volta a fazer pleno sentido econômico investir na agricultura e na manufatura russas. Ambos devem receber impulso real.

Baixos preços também são bons para os grandes consumidores do petróleo russo, especialmente a China, com quem Putin está construindo laços cada vez mais fortes. Se, como se espera que aconteça, Rússia e China passem a fazer transações em rublos e/ou yuan, o mecanismo aproximará ainda mais os dois países e minará mais ativamente a hegemonia do dólar em todo o mundo. Putin sempre pensa décadas à frente. Qualquer perda nas entradas de energia no curto prazo será largamente recompensada em ganhos de longo prazo das alianças econômicas que estão sendo construídas.

No desenvolvimento mais recente, o Banco Central Russo reagiu e elevou as taxas de juro para 17%. Por um lado, visa também a conter a inflação. Por outro, é resposta direta aos vendedores especuladores de curto prazo que estão atacando o rublo. Agora, terão de pagar prêmios adicionais, dado que a razão risco/recompensa aumentou. Os especuladores terão de pensar duas vezes, antes de atirar-se novamente ao ataque.

O aumento nas taxas de juro faz lembrar o modo como Paul Volcker, ex-presidente do Fed dos EUA, combatia a inflação nos EUA no início dos anos 80s. Funcionou para Volcker, quando o mercado de ações nos EUA embarcou em disparada vertiginosa. Os russos – cujo mercado foi derrubado na crise petróleo/moeda – esperam resultado similar.

Mas o mercado russo não é, nem de perto, tão importante para a economia daquele país, quanto o mercado dos EUA é importante para a economia norte-americana. Os russos não usam o mercado como os norte-americanos. Na Rússia, não há nada semelhante ao Mad Money de Jim Kramerovsky da CNBC. 

Mas a Rússia não está em vias de virar um Zimbábue. Está assentada sobre vasto superávit de moedas estrangeiras e confortável fundo de reserva de cerca de US$ 375 bilhões. Mais que isso, tem forte razão dívida/PIB de apenas 13% e estoque gigante e crescente de ouro.

Putin enxerga longe...
E há o relacionamento de energia entre Rússia e a União Europeia, principalmente com a Alemanha. Putin mostrou seu peso quando “costurou” o gasoduto “Ramo Sul” e anunciou que faria passar as tubulações através da Turquia. Bastou anunciar, para que a União Europeia voltasse atrás e lhe desse o que ele exigia para repor o Ramo Sul no trajeto anterior. A Alemanha jamais admitirá que a Turquia converta-se em guardião da segurança energética da Europa.

Com o inverno chegando [hoje, 21/12, é o solstício de inverno, no hemisfério norte (NTs)], a dependência da União Europeia, do gás e do petróleo russos assumirá o centro do palco, e a interação terá, mais uma vez, influência estabilizadora sobre a Rússia.

Em resumo: por menos que a atual situação trabalhe a favor da Rússia, o país está longe da bancarrota. Com certeza os russos conterão a queda do rublo e continuarão a bombear petróleo. A economia se contrairá, mas não quebrará.

A dura realidade é que os campos de xisto dos EUA têm muito mais a temer dos preços em queda livre do petróleo, que os russos (ou os sauditas), porque os custos de produção são aí muito mais altos. Muitos dos poços de xisto dos EUA tornar-se-ão antieconômicos, se o preço do petróleo cair mais. E se começarem a fechar, será desastroso para a economia dos EUA, uma vez que o crescimento da indústria do xisto serviu 100% como base para o crescimento econômico dos EUA nos últimos vários anos.


Os que estão festejando a queda do rublo, bem fariam se observassem o que se passa em outros países que enfrentam crise real de moeda, e países integralmente dependentes da economia do petróleo, como Venezuela e Nigéria, além da Ucrânia. Daí, não da Rússia, é que virão os problemas realmente graves.