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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Marxismo e o caráter social da China

13/6/2013, Fred Goldstein, Workers World -
Marxism and the social character of ChinaExtraído de palestra proferida no Left Forum, New York City, 9/6/2013
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fred Goldstein
A China é das mais importantes questões do século 21 para os trabalhadores e todos os pobres oprimidos, tanto quanto as classes imperialistas opressoras de todo o mundo.

Os movimentos progressistas e revolucionários, sobretudo nos EUA, têm muito a ganhar se chegarem a uma política correta em relação à China.

Para começar, a China foi país oprimido, que se libertou do imperialismo britânico, francês, alemão, norte-americano e japonês em 1949, e fez uma das maiores revoluções da história. Naquele momento, um quarto da humanidade estava sob as garras do imperialismo. Como país oprimido por muito tempo, lutando pelo desenvolvimento nacional, a China tem de ser defendida contra todas as variantes do imperialismo militar e econômico e contra a agressão política, independente do que cada um pense do caráter social do governo chinês.

A China hoje é fenômeno complexo, contraditório e novo na história: estruturas fundamentalmente socialistas, ao lado de penetração imperialista e desenvolvimento capitalista. As lideranças chamam a isso “socialismo de mercado” ou “socialismo com características chinesas”.

O socialismo está firmemente inscrito na Constituição da China. A classe capitalista internacional é profundamente hostil à China e nunca desiste de tentar solapar esse caráter socialista fundante.

Mas os trabalhadores chineses estão submetidos à exploração capitalista e os trabalhadores das indústrias do Estado perderam muito do suporte econômico que, antes, vinha associado aos seus postos de trabalho. Acidentes industriais horrendos acontecem, e os problemas ambientais ainda são severos.

O caráter dual dos fundamentos da economia chinesa

Só o marxismo permite analisar a China. O marxismo mostrou que o caráter de uma sociedade é determinado pelo fundamento econômico; e que a superestrutura da sociedade – política, ideologia etc. – é determinada também pelo fundamento econômico.

Como esses princípios aplicam-se à China e como podem ajudar a ver a China com mais clareza?

Para começar, o fundamento econômico chinês não é homogêneo: é em parte socialista e em parte capitalista. A questão para nós e para os trabalhadores do mundo é: qual deles é dominante? – o fundamento socialista ou as empresas capitalistas que visam exclusivamente a acumular lucros pela exploração da classe operária?

Do mesmo modo, a superestrutura tampouco é homogênea. Por um lado, há o Partido Comunista, o Exército do Povo e a doutrina que declara o socialismo como pilar sobre o qual a China está sendo erguida. Por outro lado, há a incansável promoção da abertura do país ao imperialismo e as reformas capitalistas de mercado. E, sobretudo, há uma luta por reformas políticas, para assegurar direitos à burguesia e à pequena burguesia para que se organizem politicamente, ou dentro ou fora do Partido, ou nos dois espaços simultaneamente. Há clamor incansável por “reformas políticas” – vindo dos imperialistas e das classes a ele aliadas, dentro da China.

A crise econômica de 2008-2009 foi teste crucial

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Como se pode avaliar essa situação? Devemos começar por um exame das condições objetivas na China, por um lado; e das mesmas condições, no mundo do capital.

Um teste crucial aconteceu quando as lideranças chinesas tiveram de lidar com os efeitos da pior crise que o mundo do capital conheceu desde a 2ª Guerra Mundial.

Quando a crise se abateu em 2008-2009, muitas dezenas de milhões de trabalhadores nos EUA, Europa, Japão e em todo o mundo capitalista foram lançados ao desemprego.

A China, a qual, muito temerariamente, havia-se deixado converter em dependente de exportações ao ocidente capitalista, viu-se repentinamente diante do fechamento de milhares de fábricas, sobretudo nas províncias da costa leste e nas zonas econômicas especiais. Mais de 20 milhões de trabalhadores chineses perderam o emprego, num curto período de tempo.

O que fez o governo chinês?

Discutimos o que aconteceu num artigo de 27/3/2012 neste Workers World intitulado The struggle in China: Capitalist crisis versus planning. O artigo explicava que os planos traçados nos idos de 2003, para entrar em vigência em anos subsequentes, foram acelerados e implementados.

Citamos ali a pesquisa de Nicholas Lardy, especialista burguês que estuda a China, do prestigiado Peterson Institute for International Economics, que mostrava como o consumo realmente cresceu, na China, durante a crise de 2008-09, os salários aumentaram, o governo criou empregos em número realmente suficiente para compensar as demissões provocadas pela crise global. Disse Lardy

Nicholas Lardy
Num ano no qual a expansão do PIB [na China] foi a menor em quase uma década, como o consumo poderia ter crescido tão poderosamente em termos relativos? Como aconteceu, em tempos em que o emprego nas indústrias orientadas para a exportação estava em colapso, com pesquisa realizada pelo Ministério da Agricultura mostrando mais de 20 milhões de postos de trabalho extintos em centros de produção para exportação em toda a costa sudeste, sobretudo na província de Guangdong? O crescimento relativamente forte do consumo em 2009 pode ser explicado por vários fatores. Primeiro, o boom em investimentos, sobretudo em atividades de construção, parece ter gerado número adicional de empregos, suficiente para compensar grande parte dos empregos perdidos no setor de exportação. Naquele ano, no total, a economia chinesa criou 11,02 milhões de empregos em áreas urbanas, bem próximo dos 11,13 milhões de empregos urbanos criados em 2008.

Embora o crescimento do emprego tenha diminuído um pouco, os salários continuaram a aumentar. Em valores nominais, o salário no setor formal subiu 12%, poucos pontos percentuais abaixo da média dos cinco anos anteriores (National Bureau of Statistics of China 2010f, 131). Em termos reais, o crescimento foi de quase 13%. Terceiro, o governo continuou seus programas de aumentar o valor de pensões e aposentadorias, e aumentou os repasses para os chineses de mais baixa renda. Aposentadorias para ex-empregados de empresas privadas aumentaram em cerca de 10%, em  janeiro de 2009, substancialmente mais que o aumento de 5,9% nos preços ao consumidor em 2008. Com isso, o aumento do pagamento total a aposentados aumentou RMB75 bilhões. O Ministério do Interior aumentou em um terço os repasses para cerca de 70 milhões de chineses de baixa renda, que aumentaram RMB20 bilhões em 2009 (Ministry of Civil Affairs 2010).

O mesmo autor explicava que o Ministério das Estradas de Ferro introduziu oito planos específicos, a serem concluídos em 2020, iniciados no auge da crise. Para o Banco Mundial, “foi talvez o maior investimento em programa de construção de estradas de ferro para transporte de passageiros que o mundo jamais viu.” Além disso, também se iniciou a construção de usinas e redes de transmissão de alta voltagem, dentre outros projetos.

As estruturas socialistas reverteram o colapso

A renda cresceu, o consumo aumentou e o desemprego foi superado na China — tudo isso enquanto o mundo capitalista afundava-se no desemprego, na austeridade, na recessão, na estagnação, no baixo crescimento e na miséria crescente.

Fazer reverter os efeitos da crise na China é resultado direto de planejamento nacional, empresas estatais, bancos estatais e decisões políticas do Partido Comunista Chinês.

China "Bubble" (Bolha Cinesa)
Houve uma crise na China, e foi causada pela crise no mundo capitalista. A questão foi que princípio prevaleceria ante o desemprego em massa – o princípio racional e humano do planejamento, ou o mercado capitalista. Na China, o princípio do planejamento, o elemento consciente, prevaleceu sobre a anarquia da produção gerada pelas leis do mercado e a lei do valor-trabalho.

Mas as instituições baseadas nas estruturas remanescentes do socialismo chinês, que salvaram as massas do desastre econômico, são as mesmas instituições que o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, Wall Street e Londres querem reduzir e eventualmente destruir. São as empresas estatais geridas pelo Estado, o planejamento do Estado e o controle pelo Partido Comunista Chinês.

Há quem diga que a liderança chinesa fez o que fez para evitar as agitações sociais. Sem dúvida, os capitalistas na Europa e nos EUA também gostariam de conseguir evitar as agitações sociais. Mas nem por isso cuidaram de devolver os empregos de milhões de trabalhadores, aumentaram as aposentadorias ou aumentaram as transferências de renda ou o investimento em bem-estar. Cuidaram, exclusivamente, de impor a “austeridade”, para assegurar os lucros dos banqueiros.

Em termos, pois de análise marxista, é evidente, pelo modo como a liderança chinesa enfrentou essa crise, que o lado socialista do fundamento econômico ainda é predominante na China. E o mesmo se pode dizer da superestrutura política.

Atuais dirigentes chineses (jun/2013)
Os inimigos do socialismo alegam que o capitalismo seria o responsável pelos grandes sucessos na China.

É falso. A China teve sucesso no seu desenvolvimento econômico porque o setor socialista conteve o avanço do capitalismo doméstico e os investimentos imperialistas, mantendo-os subordinados às metas econômicas estipuladas para o país pela liderança política.

Sem isso, a China seria como a Índia – onde também há planejamento estatal, mas em país predominantemente capitalista.

Na Índia, a pobreza é tão profunda que há quem viva em lixões, lavam roupas em água contaminada e nas favelas urbanas em Kolkata e Mumbai a miséria equipara-se à miséria no campo. As massas indianas são desesperadamente pobres – vivendo com US$1 a US$2 ao dia – enquanto as mais fulgurantes indústrias de alta tecnologia desenvolvem-se lado a lado com condições de inacreditável miséria em que vivem centenas de milhões de indianos.

Nada disso é assim na China. Mas se os imperialistas forem deixados livres, podem destruir o fundamento socialista e o Partido Comunista, e farão, da China, uma outra Índia. Isso é que está em jogo, na luta para deter a contrarrevolução na China.

“Socialismo de mercado” é conceito falso e perigoso

Essa análise não deve ser interpretada como argumento a favor da doutrina do “socialismo de mercado”. Na nossa visão, a anarquia do mercado capitalista é oposta ao planejamento de uma sociedade socialista e a uma construção socialista. A propriedade privada capitalista é antagônica à propriedade socialista; e a produção para acumulação privada é antagonista à produção para uso social e para necessidades humanas.
Lênin (1918)

Há condições históricas de extremo subdesenvolvimento que forçam um governo socialista a empregar métodos privados e de capitalismo de estado, para promover o desenvolvimento de forças produtivas e a criação de uma classe operária, da população rural.

Outra coisa, contudo, é usar esses métodos como recurso temporário, afastar-se temporariamente do socialismo, para conseguir fazê-lo triunfar na luta contra os métodos capitalistas. Esse era o pensamento de Lênin, por trás da Nova Política Econômica. Começou em 1921 na URSS, nos tempos mais duros, depois que a guerra civil deixara o país em ruínas e a classe operária sobrevivente teve de voltar ao campo para conseguir comida.

Mas Lênin sempre entendeu esse processo como uma retirada estratégica, numa luta crucial. A questão, como Lênin a propôs, foi “Quem vencerá?”

Deng Xiaoping
A China desenvolveu-se economicamente há muito tempo, depois das reformas capitalistas instituídas por Deng Xiaoping. Mas o que poderia ter sido retirada estratégica, converteu-se em política nova, de tomar o capitalismo como parceiro do socialismo. O capital privado cresce automaticamente e, com ele, a força econômica e política da classe capitalista, dos pequenos burgueses que a parasitam, e da intelligentsia pequeno-burguesa. Daí advêm graves perigos de longo prazo para a China.

O componente socialista do fundamento econômico é hoje dominante. Mas o capitalismo continua a erodir esse fundamento e a sacrificar os trabalhadores. Além disso, os novos líderes, Xi Jiping e Li Keqiang já deram sinais de que querem empurrar a economia para a direita. Expandir as oportunidades para o investimento imperialista e andar mais e mais na direção de reformas burguesas na economia é brincar com fogo.

Reviver o espírito de Mao, o poder dos trabalhadores

Bo Xilai
Bo Xilai, ex-líder do Partido para a Província de Chongqing está preso há mais de um ano, porque tentou reviver o espírito cultural e igualitário de Mao Tse Tung e porque tinha um programa que visava a retardar o avanço pela estrada do capitalismo. (Sobre isso, ver artigos em Workers World).

Bo representou uma resistência de esquerda às atuais políticas que prosperam no plano da alta liderança do Partido. Derrotado Bo, o caminho estava aberto para andar ainda mais para a direita.

E o que é preciso é firme volta à esquerda. Os trabalhadores têm de reivindicar os direitos socialistas estabelecidos pela Revolução Chinesa e aprofundados durante o período de Mao. Só isso pode fazer renascer e garantir o socialismo chinês no longo prazo.

Daqui até lá, é preciso defender a China, com firmeza, contra todos os ardis do imperialismo e da classe capitalista doméstica chinesa, que visam a minar o fundamento socialista que ainda existe lá.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O capitalismo num beco sem saída: uma visão marxista da atual crise


10/12/2012, Manuel Raposo, Jornal Popular “Mudar de Vida”, Portugal 
Extraído do Diário da Liberdade” [3]
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Manuel Raposo
O Capitalismo num Beco Sem Saída [1] é o expressivo título de um livro, publicado este ano nos EUA, que analisa a presente crise do capitalismo mundial de um ponto de vista marxista.

Centrado sobretudo na situação dos EUA, o livro mostra o significado da destruição de emprego e da sobreprodução numa era de alta tecnologia e grande produtividade do trabalho. Uma obra que, a partir da atualidade, aborda não apenas os aspectos econômicos da crise mas também os movimentos sociais e políticos que ela está a gerar.

Fred Goldstein
O autor, o norte-americano Fred Goldstein, colabora no jornal Workers World e publicou em 2008 uma outra obra, Capitalismo de Baixos Salários [2], em que aponta os efeitos do novo imperialismo globalizado e de alta tecnologia na luta de classes nos EUA.

A exposição de O Capitalismo num Beco Sem Saída, ao qual se dedica esta recensão, assenta em três ou quatro dados decisivos para entender a atual crise, mas muito pouco falados pelas correntes de opinião dominantes. São eles, a nosso ver, os seguintes:

  • Esta crise é de longa duração, estamos ainda nos seus primeiros estágios, e, pela sua natureza, não se compara aos normais altos e baixos da atividade econômica.
  • Na sua raiz está uma quebra na taxa de acumulação do capital, o que faz dos aspectos financeiros uma decorrência e não uma causa dos problemas presentes.
  • A crise estalou depois de décadas de grande progresso tecnológico, de aumento da produtividade do trabalho e da concorrência, o que desmente a ideia espalhada de falta de produção e de competitividade, e mostra, pelo contrário, que o sistema rompe pelas costuras em resultado da sua própria capacidade de produzir em larga escala.
  • Nos casos em que se pode falar de alguma retoma econômica após o colapso de 2008 (como nos EUA), essa retoma faz-se sem recuperação do emprego entretanto destruído em números sem precedentes.
Daí, todo o sistema capitalista se encontrar num beco sem saída. Ou, como diz o autor, “O capitalismo chegou a um ponto em que nada de natureza econômica, só por si, poderá fazer o sistema avançar e crescer mais”.

A partir destas constatações, e fazendo comparações com as grandes crises mundiais de 1873-96 e de 1929-39 – das quais o capitalismo saiu sob o impulso da guerra (guerra americana-espanhola de 1898, guerras mundiais de 1914-18 e de 1939-45), enveredando pela expansão imperialista – a resposta do capitalismo mundial à sua crise de hoje aponta igualmente para a “destruição maciça de meios de produção e de infraestruturas”.

Com os cataclismos verificados desde 2008, o panorama da luta de classes também se altera. A tendência para lucrar a taxas cada vez menores, a incapacidade de recuperar, mesmo parcialmente, os níveis de emprego – traduzem-se numa quebra generalizada dos salários (um “capitalismo de baixos salários”). E, portanto, no dizer de Fred Goldstein, “A era das concessões deu lugar à época das devoluções” – como é bem patente, dizemos nós, do lado de cá do Atlântico, não apenas na redução dos salários como nos cortes dos apoios sociais, na crescente insegurança do emprego, no ataque aos direitos laborais e sindicais. Tudo aquilo, enfim, que na Europa do pós-guerra e no Portugal pós 25 de Abril era apresentado como um “ganho civilizacional”, supostamente irreversível.

Esta crise mostra ainda ser diferente, sublinha Goldstein, por outra razão. “Todos os métodos tradicionais pelos quais o sistema foi estimulado [em situações anteriores] estão as ser aplicados, mas já não funcionam”. A prova está nos bilhões de dólares (e de euros) injetados sobretudo no sistema financeiro com o único efeito de arrastar a crise, mas sem sinais de uma retomada econômica.

Mais: o fato de os negócios nos EUA marcharem a passo de caracol e de a Europa e o Japão estarem à beira do declínio, faz aumentar, mesmo nos bastidores do poder, o temor de um novo retrocesso econômico global.

Ora, uma crise de extensão mundial, que não se resume a uma quebra cíclica dos negócios nem tem à vista nenhuma verdadeira recuperação, assume então, parece-nos, um sentido histórico de fim de época.

Na verdade, afirma o autor, “O sistema do lucro entra num estágio no qual só consegue arrastar para trás a humanidade”. Então, “As massas da população hão de chegar a um ponto em que não poderão continuar a seguir o mesmo caminho porque o capitalismo lhes bloqueia todas as vias de sobrevivência”. E, chegada a este ponto, “a humanidade só pode avançar limpando a estrada da sobrevivência, o que significa nada menos do que destruir o próprio capitalismo”.

As teses do livro de Fred Goldstein, conduzem-nos, com efeito, a uma questão a que os marxistas e o movimento comunista terão de prestar a maior atenção: com esta crise encerrou-se a época de expansão do capitalismo iniciada após a segunda grande guerra; e, consequentemente, estão a criar-se as condições para um novo ciclo de revoluções sociais à escala mundial.

Devem, portanto, em nossa opinião, ser lidas como sendo da maior atualidade as palavras de Karl Marx no balanço que fez à crise econômica de 1847. Refletindo sobre a recuperação do capitalismo nos anos de 1848 e 1849, uma vez vencidas as revoluções verificadas na Europa em 1848, dizia ele:

Karl Marx (1818-1883)
Nesta prosperidade geral, em que as forças produtivas da sociedade burguesa se desenvolvem com toda a exuberância de que são capazes no quadro das relações burguesas, não se pode dar nenhuma verdadeira revolução. Uma tal revolução só é possível em períodos em que estes dois fatores, as forças de produção modernas e as formas de produção burguesas, entram em conflito.

E conclui Marx:

Uma nova revolução só será possível na sequência de uma nova crise. Mas aquela é tão certa como esta.

Não é a crise que estamos a viver afinal, mas a evidência do conflito entre as forças de produção modernas e as formas de produção burguesas?



Notas

[1] Capitalism at a dead end – Job destruction, overproduction and crisis in the high tech era. A marxist view. Fred Goldstein. World View Forum, New York, 2012 (em inglês). Pode também ser lido em espanhol. [De Tlaxcala, rede internacional de tradutores] [NTs].

[2] Low-wage capitalism: colossus with feet of clay – what the new globalized, high-tech imperialism means for the classstruggle in the US. Fred Goldstein. World View Forum, New York, 2008

[3] Adptação ao português do Brasil: redecastorphoto

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Aprofunda-se a crise para os trabalhadores – Momento de revidar

Fred Goldstein


A economia capitalista inclinou-se rumo a uma renovação da crise quando o governo dos EUA anunciou que nenhum novo emprego foi criado no mês de agosto. Esta notícia desastrosa para os 30 milhões de trabalhadores desempregados e subempregados nos EUA verifica-se contra um pano de fundo de um ameaçador arrefecimento da economia mundial.

Além do crescimento zero no número de empregos de agosto, tanto os números de junho como de julho da criação de empregos foram revistos para baixo num total de 58 mil. O número de zero emprego [criados] faz parte de uma tendência descendente firme.

Se bem que isto seja má notícia para os desempregados, aqueles que continuam a trabalhar também levaram uma pancada no mês de agosto. Quanto maior o desemprego, maior a pressão sobre aqueles trabalhadores que ainda têm empregos. Esta pressão verifica-se nas estatísticas mais recentes.

As horas semanais trabalhadas caíram de 34,3 para 34,2, enquanto os salários horários declinaram numa média de 3 centavos. Estes números parecem pequenos, mas eles somam-se a um declínio médio em salários semanais de quase 5 por cento numa base anual.

Além disso, houve um aumento de 430 mil trabalhadores em “tempo parcial involuntário” — trabalhadores que necessitam um emprego em tempo integral, mas têm de trabalhar em tempo parcial, tanto por terem sido colocados em horários curtos, como porque era o que o patronato oferecia nas novas contratações.

O patronato aprecia o desemprego em massa devido à competição que cria entre trabalhadores, tornando mais fácil cortar salários, forçar acelerações, cortar benefícios e, portanto, arrancar cada vez mais lucros do suor dos trabalhadores. E, muito importante, quanto mais alto o nível de desemprego, maior a ameaça aos sindicatos, pois tanto empresas como governos têm como alvo os contratos coletivos, sabendo que greves são difíceis de acontecer durante períodos de alto desemprego.

Os efeitos racistas do desemprego tornaram-se ainda mais dramáticos em agosto quando a taxa de desemprego para afro-americanos atingiu oficialmente os 16,7 por cento; ao passo que para os latinos foi de 11,3 por cento. Quando se olha para o número de trabalhadores que caíram fora da força de trabalho e não são contados nas estatísticas do desemprego, a percentagens de trabalhadores oprimidos sem trabalho são muito maiores.

Dois anos após a recuperação sem empregos, uma nova crise está em fermentação

Faz pouco mais de dois anos da chamada “recuperação”. O sistema de lucro capitalista, o chamado “mercado livre”, deixou dezenas de milhões sem emprego a tempo inteiro. A taxa de pobreza está em ascensão; um sexto da população estadunidense sofre de fome, incluindo um quarto das crianças; milhões estão enfrentando arrestos [hipotecários] e expulsões das casas.

Agora, acumulando-se a esta recuperação sem empregos está a ameaça de nova onda de demissões. O crescimento da economia estadunidense arrefeceu para 1 por cento no primeiro semestre deste ano. Em todo o mundo o capitalismo está, de fato, desacelerando; seja na Europa, incluindo Alemanha, França e Inglaterra; seja na Ásia, incluindo Japão, Coreia do Sul, Índia e China, ou na América Latina, incluindo a sua maior economia, o Brasil.

Crescimento econômico e trabalhadores sob o capitalismo

A questão do crescimento econômico é crucial para a condição da classe trabalhadora. Sob o capitalismo os trabalhadores têm apenas duas condições em relação a empregos. Um trabalhador ou está sendo explorado por um patrão capitalista ou por alguma instituição do governo e, portanto, tem um emprego, ou um trabalhador está desempregado. Não há nada de intermediário.

O crescimento da produção capitalista significa que mais trabalhadores são necessários para serem explorados e os serviços precisam expandir-se. Portanto trabalhadores têm empregos, mesmo se cada vez mais empregos disponíveis sejam de baixo salário, tempo parcial e/ou temporário.

A contradição do crescimento capitalista significa que trabalhadores não necessários para o patronato e são despedidos. As receitas do Estado/governo declinam, mas os bancos continuam a exigir os seus juros e o principal desses Estados/governos; e os gastos militares continuam aos milhões de milhões — e como resultado, trabalhadores do governo são despedidos.

A mais recente e mais perigosa ameaça para trabalhadores do governo vem do U.S. Postal Service, o qual está ameaçando despedir 120 mil trabalhadores, encerrar mais de 3.000 agências de correio e livrar-se de mais outros 100 mil trabalhadores pelo desgaste (aposentadoria precoce).

Superprodução e desemprego

Por que o crescimento do capitalismo estadunidense está desacelerando? O patronato está sentado em cima de US$2 trilhões cash. Por que não está contratando e, ao invés disso, está demitindo? Não é por causa da incerteza, como afirmam seus apologistas. Não é por causa de regulamentações do governo, tão pouco.

É por causa da contradição fundamental do próprio capitalismo — a superprodução. A produção capitalista cresce cada vez mais rápido quando os patrões aplicam mais tecnologia, aceleram trabalhadores, terceirizam e deslocalizam produção em busca de lucro.

Cada vez mais trabalhadores, não só nos Estados Unidos como no mundo todo, produzem cada vez mais em cada vez menos tempo por salários cada vez mais baixos.

O pagamento que os trabalhadores levam para casa não só não aumenta, ele está diminuindo, enquanto a produção de mercadorias que devem ser vendidas com lucro expande-se a um ritmo galopante. O poder consumidor do povo ou se leva a um ritmo igualmente crescente ou vem abaixo.

Quanto mais tecnologia o patronato utiliza, menos e menos trabalhadores ele precisa.

Hoje, nos EUA, há 131 milhões de trabalhadores em folha de pagamento, o que é menos do que o número de trabalhadores em folha de pagamento no ano 2000. Hoje a economia dos EUA está no mesmo nível de produção que estava em 2007, antes do estouro da bolha habitacional e da crise econômica que atingiu o mundo.

Isso significa que os patrões precisam de menos 10 a 11 milhões de trabalhadores hoje do que precisavam há quatro anos. Esta é a razão da eliminação de empregos com a tecnologia capitalista e a globalização do sistema de exploração com baixos salários.

Exigência de um maciço programa do governo para o emprego
Manifestação de trabalhadores em S. Francisco a favor do WPA.

Está previsto que o presidente Obama faça um discurso sobre “empregos” dentro de poucos dias. Este  discurso não apresentará um programa que possa inverter o desastre do desemprego no país. O único meio de começar a tratar o desemprego em massa, o qual se tornará pior se houver um novo período de baixa, é lançar um maciço programa de empregos promovido pelo governo.

Tem que ser à escala do Works Progress Administration (WPA) durante a Grande Depressão. Sete milhões de trabalhadores receberam empregos e  construíram tudo, desde barragens e pontes a parques, escolas e rodovias; eles criaram arte, escreveram peças, plantaram árvores e fizeram trabalhos socialmente úteis.

Naquela época, tal como hoje, os patrões não contratavam porque numa depressão eles não podiam expandir os seus lucros vendendo o que era produzido. O povo estava sem dinheiro e não podia comprar. Mas, sob a pressão de manifestações em massa de desempregados, greves gerais e tomadas de fábricas, o governo federal foi forçado a tornar-se o empregador principal.

Palácios do governo e municipalidades tornaram-se a antecâmara do emprego. Milhões que queriam trabalhar obtiveram trabalho.

Quando uma nova crise ameaça, a única possibilidade de minimizar a nova onda de demissões e reverter o que aconteceu é lançar uma luta maciça por empregos ou rendimentos e serviços em todos os níveis de governo — federal, estadual e local. Os republicanos estão abertamente contra a resolução da crise, enquanto o Partido Democrático que também está ligado à Wall Street e nada avançou para o ataque à crise.

Ambos os partidos e governos, em todos os níveis, estão afirmando que não têm dinheiro. Mas o chamado debate do déficit é um debate falso. Trabalhadores, comunidades, juventude e estudantes vêm em primeiro lugar.

O direito dos trabalhadores a um emprego, alimentação, habitação, educação é um direito fundamental; superior aos direitos de milionários e bilionários; superior ao direito de banqueiros viverem à custa de fundos públicos; superior ao direito do complexo militar-industrial enriquecer com lucros de guerra quando expandem guerras de conquista e ocupação.

Uma luta de massa por uma classe trabalhadora mobilizada por toda a parte nas ruas e lugares de trabalho pode começar a sacudir o dinheiro solto nos sacos de dinheiro da classe dominante. Este é o único meio de fazer a atual crise recuar.

A longo prazo, mesmo um programa governamental de empregos, sob o capitalismo pode ser apenas um remendo temporário. O WPA não ultrapassou a depressão; o desemprego em massa prevaleceu até a IIa. Guerra Mundial.

A única solução permanente para a crise de empregos é livrarmo-nos juntos do sistema do lucro e colocar a economia trabalhando para as necessidades humanas e não para a cobiça humana.

A distribuição da riqueza criada pela classe trabalhadora deve ter lugar com base na necessidade social e econômica. Isso se chama socialismo e funciona melhor onde o nível de produtividade é alto — o que é exatamente onde o capitalismo fracassa.

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O artigo original, em inglês encontra-se em: Workers’s crisis deepens Esta tradução foi extraída de: Resistir.info
adaptação ao português do Brasil: redecastorphoto