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sábado, 9 de novembro de 2013

Drones: vingança da CIA e bloqueio da estratégia do Paquistão

7/11/2013, [*] Gareth Porter, Inter Press Service
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Manifestação de integrantes do partido PTI contra os drones já em 2009
WASHINGTON, (IPS) – Depois que um ataque de um veículo aéreo armado pilotado à distância, um drone, matou, segundo o noticiário, o comandante dos Talibã-No-Paquistão Hakimullah Mehsud dia 1/11, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA declarou que, se a notícia fosse verdadeira, seria “uma séria perda” para aquela organização terrorista. A reação refletiu acuradamente o argumento da Agência de Inteligência Central [orig. Central Intelligence Agency, CIA] para promover aquele ataque.

Mas a história de fundo que realmente interessa nesse episódio é por que o presidente Barack Obama apoiou os interesses corporativistas, paroquiais da CIA na guerra de drones, e atropelou o esforço do governo do Paquistão, que tenta uma nova abordagem política na crise do seu país contra o terrorismo.

O fracasso da estratégia dos drones e das operações militares dos paquistaneses nas Áreas Tribais sob Administração Federal [orig. Federal Administrated Tribal Areas, FATA], que não conseguiram conter a maré terrorista, levou o primeiro-ministro, Nawaz Sharif, a tentar a via do diálogo político com os Talibã.

Mas o ataque de um drone que matou Mehsud pôs fim às conversações de paz, antes mesmo de elas começarem.

Chaudhry Nisar Ali Khan
O ministro do Interior, Chaudhry Nisar Ali Khan, denunciou imediatamente o ataque do drone que matou Mehsud como “uma conspiração para sabotar as conversações de paz”. Acusou os EUA de terem “detonado” a iniciativa, na véspera, 18 horas antes de uma delegação de respeitados ulemá [clérigos islâmicos] decolar para Miranshah e entregar o convite formal”.

Funcionário não identificado do Departamento de Estado recusou-se a comentar a crítica que o ministro paquistanês acabava de fazer aos EUA; declarou, sem se alterar, que a questão era “assunto interno do Paquistão”.

Três diferentes comandantes Talibã disseram à Agência Reuters, dia 3/11, que estavam organizando os preparativos para participar das conversações de paz, mas que, depois do assassinato de Mehsud, sentiram-se atraiçoados e juraram vingá-lo com uma onda de ataques.

A estratégia de engajar os Talibã em conversações de paz, que recebeu apoio unânime de uma “Conferência de Todos os Partidos”, dia 9/9, não foi ingenuidade ou sinal de ignorância sobre os Talibã, como sugeriu uma coluna do dia 3/11 do New York Times, sobre a reação dos paquistaneses ao drone e ao assassinato.

Uma das principais fraquezas dos Talibã-No-Paquistão [orig. Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP)] está em ser uma coalizão de cerca de 50 diferentes grupos, cujos comandantes, em muitos casos são menos comprometidos, que outros, com a campanha terrorista contra o governo paquistanês. No dia seguinte, depois do assassinato de Mehsud, vários comandantes Talibã disseram à Agência Reuters que ainda havia comandantes a favor das conversações com o governo.

O mais importante sucesso que o Paquistão alcançou na luta contra a violência dos Talibã nos últimos vários anos foi ter-se aproximado e construído uma base de entendimento e acomodação com alguns líderes militantes que haviam sido aliados dos Talibã, mas passaram a opor-se aos ataques contra funcionários do governo e soldados das forças militares e de segurança paquistanesas.

Sharif e outros funcionários do governo do Paquistão sabiam bem que os EUA poderiam impedir unilateralmente o prosseguimento dessas conversações; que bastaria que assassinassem Mehsud ou outro alto comandante dos Talibã; e que, para isso, os EUA têm os drones.

Protestos de 2/11/2013 contra o ataque de drone que assassinou Mehsud 
Em setembro e outubro, o governo paquistanês trabalhou para conseguir que os EUA dessem fim à guerra dos drones no Paquistão – ou que, pelo menos, dessem algum tempo ao governo do Paquistão para tentar sua nova estratégia política.

Dia 23/5, em discurso na Universidade de Defesa Nacional, Obama já sugerira que a necessidade de usar os drones estaria acabando, porque já praticamente não restavam “alvos de alto valor” a serem assassinados, e porque os EUA estariam retirando seus soldados do Afeganistão. Em agosto, o secretário de Estado, John Kerry, dissera que o fim dos ataques com drones poderia estar “muito, muito próximo”.

Depois da reunião com Sharif, dia 23/10, Obama disse que os dois haviam feito acordo para cooperarem “por modos que respeitem a soberania do Paquistão e considerem as preocupações de nossos dois países”; e falou favoravelmente dos esforços de Shariff para “reduzir esses incidentes de terrorismo”.

Pouco depois da reunião, o conselheiro de segurança nacional e assuntos exteriores de Sharif, Sartaj Aziz, disse em entrevista à rede Al-Jazeera que o governo Obama prometera “considerar” o pedido do primeiro-ministro, para que os EUA suspendessem os ataques com drones enquanto o governo fazia avançar seu plano de diálogo político.

John Kerry e Sartaj Aziz
Um “alto funcionário paquistanês” disse ao Express Tribune que Obama havia “assegurado ao premiê Nawaz que os ataques com drones só seriam usados como uma última opção” e que ele estava planejando pôr fim à guerra dos drones tão logo “uns poucos alvos remanescentes” fossem eliminados.

O funcionário disse que o governo paquistanês acreditava agora que os ataques unilaterais terminariam “em questão de meses”.

Mas a reunião de Obama com Sharif aconteceu, evidentemente, antes que a CIA procurasse Obama com inteligência específica sobre Mehsud, para propor usar os drones para assassinar o comandante Talibã.

A CIA tinha uma “questão” institucional a acertar com Mehsud, desde que ele distribuiu um vídeo ( logo abaixo) com Humam Khalil Abu-Mulal al-Balawi, o suicida-bomba jordaniano que enganara a CIA e fizera-se convidar para o interior do complexo de Camp Chapman na província de Khost, onde o suicida se autodetonou e matou sete altos funcionários e fornecedores da CIA, dia 30/12/2009.


A CIA já havia tentado matar Mehsud em dois ataques com drones, em janeiro de 2010 e janeiro de 2012.

Assassinar Mehsud não reduzirá a maior ameaça do terrorismo e com certeza disparará outra onda de ataques de suicidas-bombas dos Talibã-No-Paquistão, nas principais cidades paquistanesas.

Embora talvez satisfaça a sede de vingança da CIA, e melhore a imagem da CIA junto ao público norte-americano na luta contra o terror, o assassinato de Mehsud tornará impossível para o governo paquistanês eleito tentar uma abordagem política contra o terrorismo dos Talibã-No-Paquistão.

Obama parece ser simpático ao argumento de Sharif na luta contra o terrorismo e não tem ilusões de que alguns ataques a mais ou a menos de drones impedirão que a organização continue a mobilizar seus seguidores, inclusive os suicidas-bombas.

Drones atiram em vários alvos, quase sempre em civis
Mas a história da guerra de drones no Paquistão mostra que a CIA tem conseguido fazer o que quer, mesmo quando os alvos propostos foram altamente questionáveis. Em março de 2011, o embaixador dos EUA no Paquistão, Cameron Munter, opôs-se à proposta da CIA para um ataque de drones, pouco antes de Raymond Davis ser solto da prisão em Lahore.

Munter fora informado de que a CIA insistia no ataque de drones porque estavam irados com os serviços secretos (ISI) do Paquistão, que consideravam o grupo Haqqani como aliados, no caso da prisão de Davis, segundo matéria publicada pela Associated Press dia 2/8/2011. O grupo Haqqani estava pesadamente envolvido em combates contra tropas dos EUA e OTAN no Afeganistão, mas se opunha aos ataques terroristas dos Talibã-No-Paquistão em território paquistanês.

Leon Panetta, então diretor da CIA, rejeitou a objeção do embaixador Munter ao ataque, e Obama apoiou Panetta. Só mais tarde revelou-se que, naquele ataque, a CIA confiara em informação errada de inteligência. O míssil lançado pelo drone, naquele caso, não atingiu reunião do grupo Haqqani, mas uma reunião de líderes tribais de toda a província, que tratavam de uma questão econômica.

A CIA simplesmente se recusou a reconhecer o erro e continuou a repetir para os jornalistas que só havia terroristas naquela reunião.

Cameron Munter
Depois daquele ataque, Obama deu ao embaixador, como disse, um “cartão amarelo” [Munter renunciou ao posto de embaixador)]. De fato, apesar da evidência de que a CIA executara o ataque por razões corporativas, não por qualquer avaliação objetiva da inteligência de que dispunha, Obama deu ao diretor da CIA o poder para passar por cima de um embaixador discordante... ainda que o embaixador tenha o apoio do secretário de Estado.

O extraordinário poder que tem o diretor da CIA sobre a política “dos drones”, que Obama formalizou depois daquele ataque, estava novamente confirmado na decisão de Obama de aprovar a proposta da CIA, de usar um míssil disparado por um drone, para assassinar Mehsud.

Hoje, o diretor da CIA já é John Brennan, que trabalhou a opinião pública dos EUA a favor dos drones, em declarações, entrevistas e vazamentos, desde quando foi vice-conselheiro de Obama para segurança nacional, de 2009 a 2013.

Ainda que Obama estivesse decidido a reduzir a guerra dos drones no Paquistão e, ainda que, aparentemente, simpatizasse com a necessidade dos paquistaneses de por fim aos ataques dos EUA em seu território, mesmo assim Obama não soube rejeitar um pedido da CIA, que insistia em ataque no qual, mais uma vez, só se consideravam os interesses corporativos da própria agência.

No final de julho de 2013, uma pesquisa ainda mostrava que 61% dos cidadãos dos EUA apoiavam o uso dos drones. Depois de já ter modelado a percepção dos norte-americanos para a questão do terrorismo, Obama em seguida deixou que os interesses da CIA atropelassem, de uma só vez, os interesses dos EUA e do Paquistão.
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[*] Gareth Porter (nascido em 18 junho de 1942) é um historiador americano, jornalista investigativo, autor e analista político especializado na política de segurança nacional dos EUA.Especialista em Vietnã e ativista anti-guerra durante a Guerra do Vietnã, servindo em Saigon como chefe do departamento de expedição do News Service International nos anos 1970-1971 e, mais tarde, como co-diretor do Centro de Recursos da Indochina.Foi muito criticado por seu entusiasmo pelo Khmer Rouge, partido do governo do Camboja, na época. Escreveu vários livros sobre os conflitos no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, o mais recente dos quais é Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War in Vietnam; uma análise de como e por quê os Estados Unidos foram à guerra no Vietnã. Porter também tem escrito para Al Jazeera – em inglês, The Nation, Inter Press Service, The Huffington Post e Truthout. Foi vencedor em 2012 do Prêmio Martha Gellhorn de jornalismo, que é atribuído anualmente pelo Club Frontline em Londres. Porter é formado na Universidade de Illinois. Recebeu seu mestrado em Política Internacional na Universidade de Chicago e seu Ph.D. em Estudos sobre o Sudeste Asiático na Universidade de Cornell. Ministrou cursos sobre Estudos sobre Política Internacional no City College of New York e na American University. Atualmente atua como jornalista free-lancer para inúmeras publicações internacionais.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Imran Khan: - “Será que os EUA não “autorizaram” a paz no Paquistão?”

5/11/2013, [*] Mian Abrar, Pakistan Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Imran Khan
ISLAMABAD – Em mais um movimento importante, Imran Khan, presidente do Partido Pakistan Tehreek-e-Insaf (PTI), anunciou na 2ª-feira que ampliou por mais 15 dias o prazo para iniciar o bloqueio das linhas de suprimento da OTAN que atravessam a província Khyber Pakhtunkhwa. Mas repetiu que ou os EUA param completamente os ataques com drones em território do Paquistão, ou as linhas de suprimento para a OTAN no Afeganistão serão bloqueadas.

Em inflamado discurso à Assembleia Nacional, Khan disse que dia 20/11 a província Khyber Pakhtunkhwa, governada por seu partido, suspenderá todas as autorizações para que comboios de suprimento que vão e vem para e do Afeganistão, para as tropas dos EUA-OTAN, atravessem aquele território. E conclamou o primeiro-ministro Nawaz Sharif a obter a confirmação e garantias dos EUA de que nenhum futuro ataque do programa norte-americano de drones voltará a ameaçar o processo de conversações de paz com os Talibã. (...)

Khan disse que há poucas ou nenhuma chance de paz, e que o ataque norte-americano semana passada praticamente destruiu as poucas possibilidades ainda existentes.

“Tinham de matar Mehsud, exatamente quando havia uma chance de paz? Significará que os EUA não “autorizaram” a paz no Paquistão?” – perguntou Khan, que insistiu em que o país vive “momento de definição”, embora, mesmo assim, as chances de paz continuem praticamente fechadas. Mas disse que esforços concentrados e dirigidos ainda podem mudar os resultados.

Um drone idêntico a este foi a arma que os EUA usaram para assassinar Mehsud
Khan disse claramente que compreende muito bem a situação e que não tem “intenção” de entrar em guerra com os EUA. Mas, disse ele, só uma nação unida e mobilizada poderá convencer os EUA a respeitarem a soberania do Paquistão. Para Khan, o ataque de drones que assassinou Mehsud às vésperas do início das conversações matou também, de fato, o processo de paz.

Maulana Fazlur
Rehman
Agora, quem vencerá a desconfiança e as suspeitas e convencerá os Talibã a sentarem à mesa de negociações?” (...) “Temos de nos manter unidos e dizer aos EUA que eles destruíram uma chance para a paz no Paquistão. E temos de assumir posição firme quanto a isso (...). Condenamos os ataques dos drones há nove anos. Mas só as condenações não mudaram coisa alguma. Agora, temos de enviar um sinal forte e claro” – disse Khan, que prosseguiu. “Estou pronto a procurar todos e qualquer grupo, até mesmo Maulana Fazlur Rehman, com quem minhas relações há algum tempo já não são boas”.

Khan disse também em discurso à Assembleia Nacional, que correr aos EUA a suplicar por dólares jamais ajudará o Paquistão a livrar-se da “mentalidade de escravo. Os patrões não levam a sérios os próprios escravos”.

Jamais seremos nação respeitada se continuarmos a mendigar como pedintes, aos pés dos EUA. Se queremos ser nação respeitada, temos de nos unir. E, se a união não funcionar para sustar os ataques dos drones, o Paquistão terá de cortar as linhas de suprimento das forças de EUA-OTAN e denunciar no Conselho de Segurança da ONU os ataques de drones em território paquistanês”.

Nisar Ali Khan
Imran reconheceu os esforços feitos pelo ministro do Interior Nisar Ali Khan, que trabalhou para assegurar o sucesso do processo de paz.

Todos os esforços feitos por Nisar nos aproximaram de conversações de paz, mas, agora, a jirga[assembleia] de paz está outra vez parada. E eu pergunto: os EUA são amigos ou inimigos do Paquistão?” – disse Khan.

Agora, faça o que faça o ministro do Interior, será extremamente difícil conseguir que algum novo comandante dos Talibã-No-Paquistão aceite voltar à mesa de conversação”.

No mesmo dia, mais cedo, Nisar informou a Assembleia sobre os esforços do governo para manter as conversações de paz com os Talibã, e as dificuldades surgidas. Outra vez, disse que o ataque pelos drones dos EUA, que na 6ª-feira matou o comandante dos Talibã-No-Paquistão, foi “conspiração para fazer desandar o processo de paz”.

Mas o ministro prometeu “prosseguir nos esforços para organizar conversações de paz com os Talibã”. “Mas só será possível depois que os militantes tiverem eleito o novo comandante” – acrescentou.

Lamentando que uma conspiração maior tivesse em vista interromper as conversas com os Talibã, Nisar disse que “infelizmente” não há no momento possibilidade de diálogo com os militantes.

Disse que a equipe formada para iniciar o diálogo com os Talibã-No-Paquistão marcara encontro com representantes do grupo, um dia antes do ataque de drone que assassinou Mahsud. Nisar conclamou todos os partidos políticos a unir-se em busca das conversações de paz, e a cultivar a paciência nos próximos tempos.

Informou que prosseguem as investigações sobre os ataques contra Qissa Khawani, contra a igreja em Peshawar e sobre o assassinato do major-general Sanaullah Niazi; acrescentou que o timing desses atos terroristas foi, em todos os casos, muito suspeito. E agradeceu ao exército, por ter avançado “um quilômetro a mais” nas ações para proteger o diálogo de paz, apesar da grave situação de segurança que o país enfrenta.
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[*] Mian Abrar é repórter de política nacional e internacional dos jornais paquistaneses online Pakistan Today e The News

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Como os EUA assassinaram o nº 1 dos Talibã-No-Paquistão

Hakimullah Mehsud raramente permanecia mais de seis horas em cada local

2/11/2013, [*] Rob Crilly (Islamabad), The Telegraph, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nota dos tradutores: (...) a questão real é o timing do ataque dos drones norte-americanos. Em resumo: por que agora? Evidentemente, se tomou a decisão crucial de iniciar a detonação final dos Talibã-No-Paquistão, para que as conversações de paz com os Talibã-No-Afeganistão possam seguir como o esperado, em trilha paralela à reunião da Loya Jirga em Kabul, que se iniciará em 10-12 dias, para aprovar o acordo pelo qual se estabelecerão nove bases militares dos EUA no Afeganistão”.
[5/11/2013, MK Bhadrakumar, Indian Punchline, em: US did a favour killing Mehsud]

Hakimullah Mehsud

Durante anos, Hakimullah Mehsud, o líder de longos cabelos, dos Talibã-No-Paquistão, sempre tomou todos os cuidados com a própria segurança. Raramente passava mais de seis horas num mesmo local, trocando de casa dentre as suas várias fortalezas espalhadas por toda a região tribal paquistanesa.

Mas, com as negociações com o governo do Paquistão já entrando em nova fase, parece que um dos homens mais procurados do mundo teria cometido erro fatal: relaxou, assumindo que o próximo processo de paz significaria que estaria salvo. E demorou-se descuidadamente por tempo demais em sua casa nova. Foi tempo bastante para que os drones dos EUA que sempre rondam os céus da região tribal montanhosa o localizassem – e disparassem dois mísseis contra o carro 4x4 de Mehsud, quando entrava pelo portão de casa, na 6ª-feira. (...)

Assim morreu um dos mais competentes comandantes dos Talibã, homem que, pelo menos aos olhos de Washington, valia até o último tostão da recompensa de US$5 milhões prometida por sua cabeça. Porque Mehsud não só levou o terror ao Paquistão; foi também quem planejou e comandou a execução do mais mortal ataque contra a CIA dos últimos 25 anos, quando um suicida-bomba, que se fazia passar por informante da al-Qaeda, se autoexplodiu numa base no Afeganistão em 2009, matando vários agentes da CIA.


Mas, por mais que o assassinato de Mehsud esteja sendo apresentado no ocidente como silencioso triunfo do controverso programa dos drones da CIA, a reação durante o final da semana, no Paquistão, foi muito diferente.

Ontem à noite, o governo paquistanês convocou o embaixador dos EUA, Richard Olson, ao qual apresentou protesto formal contra o ataque, o qual, ao que se diz, teria interrompido as conversações de paz iniciadas pelo novo primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif, eleito em maio passado.

Declaração do Serviço Exterior diziam que o ataque da 6ª-feira foi “contraproducente para os esforços do Paquistão na direção de trazer paz e estabilidade ao país e à região”.  

Mas a retórica oficial não calou a especulação segundo a qual o governo paquistanês dera luz verde à operação desde o início, e possivelmente também forneceu a indispensável inteligência sobre os movimentos de Mehsud.

Emb. Richard Olson (E) reunido com o PM Newaz Sharif  (D) em maio/2013
Mehsud foi morto menos de um mês depois de dar uma entrevista à BBC, na qual disse que estava preparado para iniciar conversações de paz com o Paquistão, se os EUA suspendessem o emprego dos drones. (...)

Seja como for, o assassinato de personagem tão importante no contexto do terror paquistanês, criará novo período de incertezas. Ontem, a polícia apertou o cerco de segurança em várias cidades do país, ante o temor de que recomecem os ataques, no momento em que o conselho dos Talibã No Paquistão reúne-se para indicar o substituto de Mehsud.

Enquanto isso, detalhes reunidos de várias fontes de militantes e moradores em Danda Darpa Khel, a vila na qual Mehsud estava morando, permitem reconstruir as circunstâncias nas quais aconteceu o assassinato. Um conjunto de casas de tijolos, a vila fica na periferia da cidade de Miranshah, capital da região do Waziristão Norte, junto à fronteira afegã.

Embora os militares paquistaneses mantenham ali uma base, cujas metralhadoras leves alcançam a vila, esses militares não controlam de fato essa área.

Visitantes contam que a casa de Mehsud era casa simples, do tipo que se espera de um asceta e islamista religioso: quatro quartos e uma espaçosa ala para hóspedes, própria para receber comandantes ou mulás visitantes.

“Mehsud não dormia duas noites no mesmo local” – disse um comerciante da região, que pediu para não ser identificado, temendo represálias dos Talibã – “mas, de fato, todos sabiam onde ele estava, cada noite. Aqui, não é possível manter esse tipo de segredo”.

Manifestação em Danda Darpa Khel contra o assassinato com drones
A vila e a área circundante são controladas pelos Talibã-No-Paquistão, que comandam a região como parte de um miniestado, onde há livre comércio de armas e a lei da Xaria é implantada em sua modalidade mais brutal.

Ocasionalmente, reféns ocidentais são mantidos em casas nessa área, fora do alcance de qualquer autoridade do estado paquistanês. Mas o governo paquistanês mantém também sua rede local de espiões; e o que se diz é que um desses agentes teria transmitido aos norte-americanos a informação sobre os movimentos de Mehsud que levou ao assassinato. Embora a informação, sim, também possa ter vindo de um agente da CIA, fato é que a rede norte-americana tem sido duramente atingida em anos recentes e está muito reduzida, ao mesmo tempo em que se vai configurando uma situação em que o governo do Paquistão vai dando sinais cada vez mais claros de que não quer ser visto como colaborador que estaria operando ao lado dos EUA.

Quem quer que tenha informado sobre o movimento de Mehsud, a informação foi passada a uma sala de operações a milhares de quilômetros de distância, em pleno deserto de Nevada, no oeste dos EUA, de onde os drones são comandados e atacam acionados por controle remoto.

Em uma sala com ar condicionado, cercado de telas de computados, um operador norte-americano examinou imagens de satélites vindas do Waziristão, enviadas de um veículo aéreo armado tripulado à distância, um drone MQ-1 Predator que voava a mais de 7 mil metros de altitude.

Drone MQ-1 Predator idêntico ao que assassinou Mehsud
O Predator é equipado com um sensor constituído de três câmeras com mira a laser e sensores de radar. Um fluxo continuado de imagens é enviado através de um link por satélite, diretamente para a equipe que comanda a operação, para que confirme que o alvo está à vista.

Quando o comboio no qual Mehsud viajava afastou-se de uma mesquita na qual já fora confirmada a presença do líder dos Talibã-No-Paquistão, as imagens na tela, em Nevada, eram tão claras que o operador podia identificar os algarismos da chapa do carro. Com o Predador voando na sua velocidade mínima possível – cerca de 120 km/h – deve ter sido dada a ordem de “disparar míssil”; e partiram dois mísseis Hellfire, diretamente contra o alvo.

Testemunhas disseram que houve nove mortos, entre os quais dois guarda-costas mortos no ataque, que aconteceu segundos depois das 18h da 6ª-feira.

Inúmeros visitantes estiveram no conjunto de casas cercadas por um muro, ontem, para apresentar suas homenagens junto ao que restou da casa de Mehsud; circulavam notícias de que o corpo de Hakimullah teria sido enterrado em local secreto, depois de funeral realizado à noite, para evitar novos ataques de drones dos EUA. Moradores de áreas próximas de Miranshah também assinalaram o dia de luto, ontem, atirando com seus rifles e metralhadoras contra outros drones que sobrevoavam a região, entre os quais um significativamente maior que os demais.

“Pensamos que fosse um avião C-130, mas era avião espião especial, maior que os demais” – disse Farhad Khan, que mora por ali. – “Os militantes atiraram contra ele com suas armas antiaéreas, mas não conseguiram atingi-lo”.

Hakimullah comandou uma campanha para derrubar o governo do Paquistão, que ele desejava substituir por um Emirado Islâmico. Ganhou reputação de comandante impiedoso, que organizava e distribuía onda após onda de jovens homens-bomba.

Latif Mehsud
O primeiro sinal de que o reinado de quatro anos de Mehsud como o homem mais procurado no Paquistão poderia estar sob nova pressão surgiu no mês passado, quando seu “secretário” Latif Mehsud foi capturado por forças dos EUA no Afeganistão.

A função de Latif era levar mensagens e visitantes ilustres até Mehsud, onde estivesse, posição sensível, na qual era mantido atualizado sobre os deslocamentos do chefe, seus contatos e suas medidas contra-drones. Latif esteve em contato com o Diretorado de Segurança do Afeganistão, a agência afegã de inteligência, “por longo período de tempo”, segundo um porta-voz do presidente Karzai. Se foi ele quem deu as informações sobre o deslocamento de Mehsud naquele dia, ou não, é detalhe que talvez jamais seja completamente esclarecido.

Seja como for, contudo, a morte de Mehsud é vingança-acerto de contas promovido pela CIA, que contalibiza seus sucessos em termos de assassinatos bem-sucedidos de terroristas versus mortos em ataques terroristas. Até agora, já foram assassinados muitos dos terroristas “mais procurados” no Paquistão, apesar de alto número de baixas “colaterais” entre civis, cujos números os militares ocultam atentamente. Recentemente, uma família paquistanesa depôs numa audiência pública do Congresso dos EUA, denunciando que a avó da família fora morta num desses ataques dos drones norte-americanos.

“É um duro golpe contra os Talibã No Paquistão, que pode levar a graves divisões dentro do movimento” – disse Bruce Riedel, ex-agente e conselheiro da CIA no governo Obama, que ajudou a criar e desenvolver a campanha dos drones.

O Paquistão sempre condenou os ataques, reclamando que são violação à soberania. Mas várias informações vazadas sugerem que o governo e os militares há muito tempo autorizaram os ataques pelos drones dos EUA e, inclusive, “encomendaram” ataques a determinados alvos.

Shaukat Qadir
O mais recente ataque pode bem ter sido parte de uma estratégia aprovada por Islamabad para bombardear os Talibã-No-Paquistão e empurrá-los na direção da mesa de negociações, segundo opinião de Shaukat Qadir, militar já aposentado, que trabalha hoje como analista militar.

“Hakimullah Mehsud era um impedimento às conversas de paz” – disse Shaukat Qadir. – “Diga o governo o que disser agora, a morte de Mehsud ajudará a atrair os Talibã-No-Paquistão para as negociações”.

Mas isso dependerá de quem assuma agora como novo líder, e se conseguirá manter unidas as várias linhas e grupos e facções que constituem o Talibã-No-Paquistão, ao mesmo tempo em que assume via pragmática, a favor da paz.

Os altos dirigentes Talibã reuniram-se ontem em sua assembleia (shura, também “órgão de aconselhamento”) para definir o novo comandante. Fontes militantes informaram a jornalistas locais que a reunião muda várias vezes de lugar, para que os drones não a localize.

Os candidatos com mais chances são Maulana Fazlullah, conhecido como o “Mulá do Rádio”, chefe dos Talibã-do-Swat. Outro nome possível é Sheheryar Mehsud, do mesmo clã do Waziristão do Sul que Baitullah Mehsud, comandante que antecedeu Hakimullah.

Ou, também, Khan Said – mais conhecido como “Sajna” [“tio”] – que é analfabeto, responsável pelo recrutamento e treinamento de suicidas-bomba. Apesar dessas táticas, sua posição como aliado de comandantes que fizeram mais ataques contra o Afeganistão que contra o Paquistão, e sempre manteve fortes laços com o estado paquistanês, sugere que possa ser mais aberto à ideia de buscar uma acomodação pragmática com Islamabad.

Isso, contudo, depende de se Islamabad ainda deseja conversar – ou se, diferente disso, já entende que possa obter alguma vantagem com uma ofensiva militar no Waziristão Norte.

Quanto ao Talibã, não há dúvida de que haverá mais violência. “Cada gota de sangue de Hakimullah se transformará em um homem-bomba” – disse Azam Tariq, um dos porta-vozes dos Talibã-No-Paquistão. “EUA e seus amigos, que não festejem. Vingaremos o sangue do nosso mártir”.
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[*] Rob Crilly é correspondente do The Telegraph no Paquistão. Anteriormente foi repórter no Oriente Médio e África Oriental do The Times. Fez coberturas das guerras da Somália, Sudão e na República do Congo. É também autor de: Saving Darfur: Everyone’s Favourite African War, uma crítica dos esforços internacionais para trazer a paz para o Sudão.