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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Balé da energia: Irã, Rússia e o “Oleogasodutostão”

20/8/2014, [*] Pepe Escobar, RT − Russia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Usina nuclear de Bushehr, sul do Irã
(fornecida pela Rússia)
Um fascinante balé nuclear/de-energia envolvendo Irã, Rússia, EUA e a União Europeia está a ponto de decidir grande parte do que acontecerá adiante, no novo grande jogo na Eurásia.

Comecemos pelo que está acontecendo com o dossiê nuclear iraniano.

Conselheiro para assuntos de lei do Ministério de Relações Exteriores do Irã, Jamshid Momtaz, foi forçado a esclarecer que o acordo provisório assinado pelo Irã e os países do P5+1 em novembro de 2013 não é – ainda – acordo internacional.

No ponto em que estamos, a ravina que separa EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e Alemanha de um lado, e o Irã do outro lado, permanece muito larga. Na essência a ravina que realmente conta é entre Washington e Teerã. E isso infelizmente se traduz em alguns meses a mais, para que uma vasta brigada de sabotadores – de neoconservadores norte-americanos a sortimento variado de fazedores-de-guerra israelenses e da Casa de Saud – empurre o acordo na direção do colapso total.

Um dos mantras da sabotagem a partir de Washington é a tal “breakout capability” [aproximadamente, “capacidade para converter (qualquer coisa) em arma”] [1]; é conceito esquivo, impalpável, que se resume à possibilidade de centrífugas serem “adaptadas” de modo a adquirirem capacidade para produzir urânio enriquecido em quantidade suficiente para uma única bomba. Por causa dessa possibilidade, os EUA concluem que seria necessário impor uma limitação arbitrária sobre toda a capacidade de o Irã enriquecer urânio.

O outro mantra da sabotagem força o Irã a pôr fim a todo o seu programa de enriquecimento de urânio e, como se não bastasse, a abrir mão também dos seus mísseis. É ridículo: todos os exércitos do mundo têm mísseis, que são item de todas as forças armadas convencionais. Então, Washington muda de assunto e passa a falar só de mísseis que possam transportar ogivas nucleares que o Irã não possui. Por isso, todos os mísseis teriam de ser banidos.

Moscou e Pequim veem a tal “capacidade para converter (qualquer coisa) em arma” (“breakout capability”) pelo que a coisa é: problema inventado. Enquanto Washington só diz que quer algum acordo, Moscou e Pequim realmente querem um acordo – e afirmam que terá de ser respeitado, mediante monitoramento estrito.

(Da esq. p/ a dir.) Pres. Vladimir Putin da Rússia; PM Narendra Modi, da Índia; Pres. Dilma Rousseff, do Brasil: Pres. Xi Jinping da China em Fortaleza (BRICS - 2014)
O Supremo Líder Aiatolá Khamenei já demarcou publicamente a própria linha vermelha, para que não haja mal-entendidos: o acordo nuclear final terá necessariamente de preservar o direito de enriquecer urânio, que é direito legítimo de Teerã – e em escala industrial – como parte de uma política de energia de longo prazo. É o que os negociadores iranianos dizem desde o início. Assim sendo, impor como “condição inicial” que o Irã extinga seu programa de enriquecimento de urânio não é condição inicial de coisa alguma: é condição para que nada aconteça.

“Me sancione”, baby, outra vez, outra vez

O enriquecimento de urânio, como se podia prever, é a chave do problema. No ponto em que estão as coisas hoje, Teerã mantém mais de 19 mil centrífugas de enriquecimento instaladas. Washington quer reduzir esse número a umas poucas mil. Desnecessário acrescentar que Israel – que tem mais de 200 ogivas nucleares e os necessários mísseis de transporte para bombardear o Irã, e a coisa toda comprada e montada em negócios ilegais de compra de armas e muita ação clandestina de espionagem – insiste na cláusula de “enriquecimento zero”.

Numa corrente subterrânea simultânea, operam os “especialistas” norte-americanos/ israelenses que vivem de prever que o Irã pode produzir uma bomba em dois, três meses, ao mesmo tempo em que acusam Teerã por criar “obstáculos” em defesa de seu programa nuclear “ilegal”. Pelo menos por hora, afinal, a Conselheira de Segurança Nacional dos EUA, Susan Rice, calou a boca.

Outro ponto crítico de desacordo é o reator de água pesada de Arak, para pesquisas. Washington quer vê-lo por terra – ou convertido em usina hidrelétrica. Teerã rejeita e argumenta que o reator só produz isótopos para finalidades médicas e usos na agricultura.

E há também a histeria das sanções. A ONU e os EUA vêm surfando uma maré de sanções desde 2006. Teerã, no início, quis que aquelas pesadas sanções, que equivalem a guerra econômica total, fossem imediatamente levantadas; depois passou a preferir uma abordagem escalonada. Obama talvez até consiga levantar algumas das sanções – mas um Congresso dos EUA comandado de Telavive por controle-remoto tentará manter outras, por toda a eternidade.

Neste documento do NIAC (National Iranian American Council), a ser abordado com as devidas cautelas, há uma defesa bem detalhada da alternativa de assinar um bom acordo, em comparação com a alternativa de uma trilha apocalíptica rumo à guerra.

Supondo-se que venha a haver algum acordo, ponto crucialmente importante é a duração, a vigência do acordo. Washington quer acordo para duas décadas. Teerã, para cinco anos – e então o Irã passaria a ser tratado como qualquer outro dos 189 países signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear – que permite que estados que não tenham armas nucleares desenvolvam programas de energia nuclear para finalidades civis. Para conhecer uma perspectiva iraniana civilizada e bem informada, leiam “Negociações devem ser baseadas em realidades, não em ilusões: notas sobre as complexidades do caso nuclear do Irã”, Gholamali Khoshroo, 20/5/2014, Iranian Review (ing.).

De fato, é uma tragicomédia. Washington faz-se de The Great Pretender [“O grande fingidor”, The Platters, 1956; também, ótimo, Fred Mercury (NTs)], fingindo em tempo integral que Israel não tem armas nucleares, ao mesmo tempo em que tenta convencer todo o planeta de que Israel teria direito de armazenar quantas armas atômicas queira, enquanto o Irã não teria direito, nem aos meios convencionais para a própria defesa. Isso, sem dizer que Israel, armada com bombas atômicas, já ameaçou invadir e invadiu praticamente todos os países à sua volta, e o Irã nunca invadiu nada.

Dance no balé da energia

Duras que sejam, como realmente são, as sanções não forçaram Teerã a ajoelhar-se e render-se. Khamenei disse repetidas vezes que não era otimista quanto à possibilidade de efetivo acordo nuclear. O que realmente quer, muito mais que algum acordo, é economia melhorada. Agora, com as sanções começando a ruir, depois do acordo inicial de Genebra, há luz no fim do túnel.

Entram em cena as negociações super turbinadas entre Rússia e Irã. Incluem um negócio de energia de mais de US$ 10 bilhões, com novas usinas térmicas e hidrelétricas e uma rede de transmissão.

E, claro, o negócio de troca [ing. swap] pelo qual a Rússia pode comprar 500 mil barris de petróleo iraniano por dia. Detalhes serão finalizados no início de setembro. Não surpreende que Washington esteja em fúria; esse negócio eleva as exportações do Irã para mais de um milhão de barris/dia, questão que já havia sido acertada desde anteriormente, em Genebra.

Com a Rússia agora também sob sanções dos EUA e da União Europeia, Teerã previsivelmente teve de começar a fazer a corte à Europa como fonte alternativa ideal de gás natural. Escrevo há anos sobre isso. A Europa quer desesperadamente livrar-se da dependência da Gazprom russa. O Irã tem tudo para vender gás à Europa, transportando-o especialmente através da Turquia. Mas há muitos bloqueios políticos e logísticos – a começar pela necessidade de um acordo nuclear final – o que faz desse um cenário de longuíssimo prazo, na melhor das hipóteses.

Estação de bombeamento da Gazprom - Gás para a Europa
O balé da energia em que bailam Irã, Rússia, a União Europeia e os EUA é digno de um neo-Stravinsky geopolítico. Teerã cuida para não antagonizar Moscou – o maior fornecedor de gás natural para a Europa. Mas Teerã também sabe que, com EUA-Irã iniciando uma possível détente, a União Europeia fará absolutamente qualquer negócio, custe o que custar, para conseguir seduzir o Irã e investir no Irã.

O Vice-Ministro do Petróleo para Negócios Internacionais e de Comércio do Irã, Ali Majedi, com certeza já viu claramente de onde sopra o vento. Já fala de três diferentes rotas que Teerã pode usar para suas exportações de energia para o ocidente.

Segundo a Revista Estatística do Mundo da Energia da British Petroleum [orig. BP Statistical Review of World Energy], as reservas comprovadas de gás natural do Irã alcançam enormes-gigantescos 33,6 trilhões de metros cúbicos; as da Rússia estão em 32,9 trilhões de metros cúbicos. São duas usinas-monstro.

O problema é que o Irã está muito atrasado em relação à Rússia, nos quesitos investimentos e produção. Há poucos anos, em Teerã, especialistas em energia estimaram, a meu pedido, em cerca de US$ 200 bilhões o investimento necessário para modernizar a indústria iraniana e investir em infraestrutura doméstica de transporte e exportação.

Assim sendo, em termos realistas, a Rússia permanecerá como fornecedor-chave de gás para a União Europeia no futuro previsível, predominando sobre o valor estratégico do gás do Irã e da Ásia Central. E isso inclui o fato de que muitas das nações da União Europeia, apesar das futricas produzidas em tempo integral em Bruxelas, apoiam a construção do gasoduto Ramo Sul [orig. South Stream] que a Rússia escolheu.

Mas, agora, Teerã está no jogo – já atraindo um enxame de investidores estrangeiros poderosos e interessados, que chegam da Europa e da Ásia. Recente exposição internacional de produtos petroquímicos, petróleo, gás e refino, montada em Teerã, atraiu nada menos que 600 empresas estrangeiras, de 32 países.

O Supremo Líder já cobriu todas as trilhas

Majid Takht Ravanchi, Vice-Ministro de Relações Estrangeiras do Irã – e membro da equipe de negociadores do acordo nuclear – anda absolutamente em êxtase:

Naturalmente, Irã e Europa podem trabalhar em cooperação muito melhor no campo da economia, comércio e energia. Acreditamos que há espaço para melhorar muito.

Mas quem deu passo gigante à frente foi o Vice-Ministro do Petróleo do Irã, Ali Mejidi – ao ressuscitar o moribundo gasoduto Nabucco:

Com Nabucco, o Irã pode abastecer de gás a Europa. Somos a melhor alternativa à Rússia.

Nabucco, saga do “Oleogasodutostão” é questão que acompanhei já em detalhe, a história de um gasoduto que chegaria à Europa atravessando Turquia, Bulgária, Romênia, Hungria e Áustria carregando gás às vezes do Azerbaijão às vezes do Iraque, antes de naufragar espetacularmente por falta de investimentos.

Significa que o Irã estaria abrindo uma guerra de energia contra a Rússia. De fato, não. Nabucco é um gigantesco “se”, caríssimo, projeto para muito, muito longo prazo. E o gasoduto South Stream, embora esteja momentaneamente empacado, está pronto para funcionar.

Bulgária (próximo de Rasovo)  - Soldando gasoduto South Stream da Gazprom (31/102013)
O que aconteceu nas sombras é que Washington levou ao conhecimento de Teerã que, se desistisse do projeto de gasoduto de US$ 10 bilhões Irã-Iraque-Síria, as sanções seriam “aliviadas”, e o Irã poderia ser autorizado a reviver o projeto Nabucco, obsessão europeia apoiada pelos EUA, concebida para rivalizar com o Ramo Sul.

Falar é fácil. No pé em que estão as coisas, é maior a probabilidade de o gasoduto Irã-Iraque-Síria conseguir financiamento nos próximos dois, três anos, que o Nabucco.

Paralelamente, por mais que as sanções de EUA e União Europeia contra a Rússia fortaleçam o Irã nas conversações nucleares, sobretudo em relação aos europeus, não significa que Teerã vá descartar a carta russa. Assim como os iranianos tiram proveito máximo da mais recente virada na trama, toda a política iraniana, de fato, já costura laços bilaterais muito mais íntimos com Moscou, para neutralizar “por bem” aquelas sanções contra o Irã.

E se Washington decidir manter as sanções para sempre, já há à mão um Plano B: cooperação ainda mais íntima com ambos, Rússia e China. Não por acaso, o Presidente Rouhani do Irã já descartou qualquer alvoroço sobre dificuldades nas relações Irã-Rússia:

Fortes laços políticos nos domínios de relações bilaterais, regionais e internacionais, além de firmes laços econômicos entre os dois países, demarcam o cenário para promovermos a paz e a estabilidade.

Isso recobre tudo, desde todos usarem o sistema paralelo do Banco da China para pagar pela energia iraniana que comprem, até as trocas acertadas só entre Irã-Rússia.

Em vários sentidos que se sobrepõem, o dossiê nuclear iraniano é agora como um salão de espelhos. Reflete um sonho nunca declarado de Washington: acesso absolutamente desimpedido, garantido às corporações norte-americanas, a um mercado virgem de 77 milhões de pessoas, inclusive uma jovem população urbana finamente educada, além debonanza de energia para o “Big Oil” dos EUA.

Mas naquele mesmo salão de espelhos, vê-se também uma imagem iraniana: o Irã vai realizando seu destino como a maior das superpotências geopolíticas do Sudeste Asiático, a última encruzilhada entre Oriente e Ocidente.

Assim, em certo sentido, pode-se dizer que o Supremo Líder já cobriu todas as trilhas. Se Rouhani brilhar e acontecer um acordo nuclear final, o cenário econômico melhorará muito, especialmente mediante massivos investimentos europeus. Se Washington abortar o acordo, pressionada pelos lobbies corriqueiros, Teerã sempre poderá exercitar toda a sua “flexibilidade heroica”, [2] e seguir adiante – em integração cada vez mais próxima e mais completa com ambos, Rússia e China.


Notas dos Tradutores:

[1] “Breakout capacity” [de CIA Glossary (aqui traduzido): aprox. “capacidade básica para conversão”]: “Conhecimento, infraestrutura e material que comumente permanecem abaixo do nível de tornarem-se suspeitos, mas que podem ser rapidamente adaptados ou reorganizados para permitir que o mesmo processo seja usado para produzir armas. Essa capacidade exige recursos previamente organizados e frequentemente se serve de tecnologia, equipamento ou conhecimento de duplo uso”.

[2] 19/9/2013, redecastorphoto, Pepe Escobar, “Obama-Rouhani: luz, câmera, ação”, Asia Times Online:

Khamenei avalizou plenamente a ofensiva diplomática de Rouhani, enfatizando – muito clara e explicitamente – dois conceitos: a “flexibilidade do herói”, como o lutador que cede, num momento ou noutro, por interesse tático, mas que jamais desvia os olhos e mantém o rival sempre à vista; e a “leniência do campeão” – que é o subtítulo sutilíssimo de um livro que o próprio Khamenei traduziu do árabe, sobre como o segundo Imã xiita, Hasan ibn Ali, conseguiu evitar uma guerra no século 7º, mostrando flexibilidade na relação com o inimigo. 
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge,  Nimble Books, 2007.     
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Pepe Escobar: A verdadeira revolução “nuclear” do Irã

18/2/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Aiatolá Ali Khamenei
As conversações nucleares entre o Irã e o grupo P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) recomeçam hoje, 3ª-feira (18/2/2014), em Viena. As apostas não poderiam ser mais altas. Será estrada longa e sinuosa. Agendas ocultas dos dois lados querem muito que as conversações fracassem – e não poupam esforços nessa direção.

Gareth Porter
O Supremo Líder Aiatolá Khamenei pode ser interpretado como realista monolítico, quando diz que as conversações não levarão a lugar algum. É como se o Supremo Líder tivesse lido Manufactured Crisis: The Untold Story of the Iran Nuclear Scare [Crise fabricada: a história não contada do medo de um Irã nuclear], livro crucial, de autoria de Gareth Porter, Prêmio Martha Gellhorn, que está sendo lançado hoje em New York. No livro, Porter desmonta completamente toda a narrativa do dossiê nuclear do Irã como foi impingida ao mundo pelo governo de George W Bush, sortimento variado de neoconservadores e o Likud israelense.

E a coisa é ainda muito pior, em termos de possibilidade de que se chegue a algum acordo final ainda esse ano. Segundo Porter,

(...) o governo Obama introduziu nas negociações nucleares o tema das “possíveis dimensões militares”. Significa que os EUA exigirão explicações... para a “prova” que o livro mostra que foi fabricada. É decisão que pode ameaçar a conclusão de acordo definitivo com o Irã.

Enquanto isso, na 3ª-feira (11/2/2014) da semana passada, milhões de pessoas saíram às ruas em Teerã, em celebração massiva dos 35 anos da revolução islâmica. Como é possível?

Apesar de todos os erros econômicos, a taxa de analfabetismo no Irã caiu para bem perto de zero. As mulheres são eleitoras ativas e participantes (tente propor, que seja, o voto feminino, naquele paraíso que é a Casa de Saud). Houve notável progresso científico, mesmo sob sanções duríssimas. E é consenso nacional que o programa nuclear para finalidades civis tem de ser mantido.

Artigo – significativamente reproduzido em al-Arabiya, jornal controlado pela Casa de Saud – tenta, pelo menos, não soar totalmente como propaganda barata, e chama a atenção para a real ameaça contra a revolução islâmica, vinda de jovens alienados em todo o Irã.

Mas esse não é o ponto chave. A república islâmica não se desintegrará amanhã. Muito mais crucial é revisitar hoje as razões chaves pelas quais a revolução aconteceu há 35 anos, e por que, no que tenha a ver com a independência geopolítica do Irã, a revolução, de certo modo, continua popular até hoje.

Assim talvez se consiga lançar alguma luz sobre por que o ocidente – e especialmente os EUA – ainda se recusam a normalizar suas relações com o Irã. O que aconteceu há 35 anos no Irã não foi jamais bem compreendido, para começar, nos próprios EUA. Em termos geopolíticos, aquela foi a verdadeira revolução “nuclear” – um dos desenvolvimentos de mais longo alcance, do que Eric Hobsbawm definiu como “o curto século 20”.

E talvez esse tenha sido o significado do que disse o Supremo Líder, quando disse que as conversações não irão a lugar algum; com certeza não irão, enquanto Washington, especialmente, insistir em continuar a reduzir o Irã a um bando de fanáticos.

Aquele choque do petróleo de Kissinger

Nos idos da presidência de Harry Truman, os EUA apoiavam a ditadura do Xá do Irã, sem medir custos e consequências. Não surpreende que tantos sofram tanto pelo fim daqueles dias.

Mossadegh
Em 1953, depois do golpe da CIA contra Mohammad Mossadegh, o Xá – que vivia a maior parte do tempo na Riviera francesa – foi “convidado” a reinar como fantoche da CIA (John F Kennedy cruzou com eles em festas de arromba na Riviera, e o considerava megalomaníaco perigoso). Em troca de ter reestabelecido os “direitos” dos britânicos sobre o petróleo iraniano, Washington se autoatribuiu 55% das concessões; os britânicos ficaram com o resto.

A CIA treinou a Savak – polícia secreta do Xá. Aquilo, sim, era vida boa! O Xá não apenas foi magnífico no papel de cão de guarda dos interesses políticos e econômicos dos EUA no Golfo Pérsico; dado que o Xá não partilhava o ódio dos árabes a Israel, Telavive também ganhou acesso ao petróleo persa (o que só terminou depois que a revolução do Aiatolá Ruhollah Khomeini chegou ao poder).

O Xá reprimiu com crueldade e perseguiu com fúria todos os partidos políticos no Irã e até massacrou curdos (Saddam Hussein ia anotando tudo). Começou por acreditar em sua própria propaganda, inclusive crer no mito de que ele próprio seria um novo Rei dos Reis. Tornou-se chefe da torcida organizada a favor do choque do petróleo da OPEP de 1973, movimento para o qual obteve luz verde de ninguém menos que Henry Kissinger.

"Tricky Dick" Nixon
Em resumo, foi desenvolvimento da “doutrina Nixon” de 1972, depois que se tornou absolutamente claro que a derrota dos EUA no Vietnã era assunto encerrado. Foi quando Tricky Dicky [1] começou a promover sentinelas avançadas espalhadas por todo “o mundo livre”. E nenhuma região era mais crucialmente importante que o Golfo Pérsico.

O Xá adorou a ideia. Mas vivia a reclamar de falta de dinheiro para comprar aquelas armas que o complexo industrial militar sempre lhe oferecia. Então Kissinger – moleque de recados de David Rockfeller – fez a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) subir os preços do petróleo.

Com essa jogada, Kissinger instantaneamente inflou os lucros do Big Oil norte-americano – que naquele momento eram cinco das “Sete Irmãs”, três das quais (Exxon, Mobil e Socal) eram propriedade de Rockfeller. Ao mesmo tempo, dado que Japão e Alemanha Ocidental e o resto da Europa ocidental dependiam muito mais do que os EUA do petróleo do Golfo Pérsico, Kissinger havia construído a máquina perfeita para devastar a competitividade industrial e comercial do Japão e da Alemanha.

Ninguém encontrará nada disso contado nos túrgidos, ambiciosos volumes que Kissinger publica; nem ninguém jamais encontrará provas disso nos registros da imprensa-empresa. Mas isso explica muito sobre o mundo que nasceu daquele “choque do petróleo”.

Como a maioria dos fantoches dos EUA – ah, húbris, húbris! – o Xá nunca compreendeu que não passava de fantoche. Seu modelo econômico corporativo multinacional aplicado ao Irã teve os efeitos previsíveis; mais ou menos como hoje (até na Europa e nos EUA), uma microscópica minoria consumindo como se não houvesse amanhã, e uma vastíssima maioria cada dia mais miserável, e o Xá insistindo em colher dinheiro, em vez de fazer uma reforma agrária que garantisse comida a milhões de camponeses – a maioria dos quais xiitas pios e analfabetos – expulsos de suas terras pelo agrobusiness norte-americano, que os expulsou, como força de trabalho descartável.

Aiatolá Khomeini
Essas massas miseráveis encheram Teerã e outras grandes cidades do Irã, e viriam a ser a base de massa para a revolução de Khomeini. E o resto é história.

Nada é inacessível

Jimmy Carter – aquele Hamlet caipira – quando estava em campanha à presidência contra Gerald Ford, em 1976, admitiu num debate que o Xá torturava. Dois anos depois, já presidente, Carter o apresentava como “um amigo” e “uma ilha de estabilidade”.

Xá Reza Pahlavi
Nos anos 1970s, era para o Irã criar “só” um programa nuclear, dentre outras funções, para intimidar o nacionalismo revolucionário árabe. Agora, na República Islâmica, um programa nuclear civil é apresentado como “ameaça existencial”.

O banqueiro do Xá era David Rockfeller, que nunca se cansava de exaltar o “patriotismo” e a “tolerância” de seu cliente, além do ímpeto modernizador – tudo devidamente papagueado pela imprensa-empresa norte-americana, apesar de a Anistia Internacional e até o próprio Departamento de Estado já terem himalaias de documentos que comprovavam que o Xá era um dos principais torturadores da história moderna. O que interessava é que o Xá trazia excelentes dividendos para o Chase Manhattan Bank.

Ninguém jamais perdeu dinheiro subestimando a ignorância da imprensa-empresa norte-americana. Quando a revolução islâmica começou, a mídia dos EUA, em uníssono, noticiou, para o mundo, que o Xá seria inderrubável; que Khomeini e seus seguidores não passavam de pequena minoria de fanáticos religiosos; e que o real motivo da revolução seria o ímpeto do Xá, de Grande Modernizador (a pauta decidida por Rockfeller), rejeitado por aqueles mesmos muçulmanos fanáticos. É justo dizer que a mesma pauta continua a ser recopiada até hoje.

Quando o Xá fugiu do Irã, toda a imprensa-empresa dos EUA noticiou que ele teria “viajado em férias”. Quando Khomeini embarcou em Paris naquele vôo da Air France e desembarcou em absoluto triunfo em Teerã, não surpreende que ninguém, nos EUA, tivesse sequer qualquer pálida ideia do que estava acontecendo. O “jornalismo” norte-americano preferiu zombar do “fanatismo” de Khomeini – que, naquele momento, empalidecia ante o fanatismo do papa João Paulo II, para o qual as mulheres seriam espécie inferior.

Eric Rouleau
A burguesia iraniana – moderna, socialdemocrata, herdeira da linha política de Mossadegh – conseguiu mobilizar forte apoio dos progressistas em toda a Europa. Num tempo em que o Le Monde ainda era jornal muito bom, não o lixo sub-EUA que é hoje, bastava ler os despachos do correspondente Eric Rouleau, um ás, para confirmar.

Khomeini, por seu turno, tinha carisma (e aquela voz espectral que se ouvia de fitas cassetes) e foi apoiado pela única organização política que o Xá deixara sobreviver, os cerca de 160 mil mulás, que mobilizaram devidamente aquelas massas de miseráveis desalojadas e desempregadas pelos interesses do agrobusiness norte-americano.

Mas, desde o início, Khomeini negociou com a burguesia – como quando nomeou Mehdi Bazargan Primeiro-Ministro e Bani Sadr, Presidente (modernizador de estilo ocidental e socialista). Só depois que o sistema do Xá já fora totalmente erradicado é que Khomeini partiu para expurgar todos que não fossem seus seguidores religiosos – e recriou, em escala menor, o inferno do Xá, só que em nome de Alá. É. Como disse Mao, nenhuma revolução é um piquenique.

Quanto a Jimmy “Hamlet” Carter, jamais reconheceu oficialmente Khomeini como líder iraniano. Washington sequer tentou conversar com ele. Um lampejo de inteligência geopolítica teria feito os norte-americanos tentar uma aproximação, uma chávena de chá, quando ele ainda vivia exilado em Paris... Mas David Rockfeller e Kissinger, seu papagaio de repetição teriam protestado, furiosos; e um Carter acovardado recolheu-se de volta à sua concha. Depois da revolução islâmica, Washington jamais devolveu os estimados US$60 bilhões que o Xá, família e agregados roubaram do povo do Irã.

Esse catálogo de desinformação durante os anos 1970s e 1980s reproduz-se hoje na desinformação dos anos recentes sobre o programa nuclear iraniano. Não surpreende que a maioria dos norte-americanos – e muitos europeus – permaneçam na mais total ignorância.

Dariush Shayegan
Quando Khomeini morreu – e lembro claramente que todos os jornais na Europa, do dia 5/6/1989, dividiam a primeira página, Khomeini e o massacre da Praça Tiananmen ordenado por Deng Xiaoping – o grande filósofo Daryush Shayegan, ex-professor da Universidade de Teerã, publicou artigo soberbo no Libération em que explicou o Grande Quadro, do “legado” do Xá até Khomeini.

Shayegan escreveu que os dois homens, o Xá e o imã, cometeram os mesmos erros fatais e “encarnaram, cada um a seu modo, dois traços tipicamente iranianos: a esquizofrenia cultural e o sonho de grandeza”. O drama todo, portanto, tinha a ver com dois Irãs justapostos: o Irã Imperial e o “Irã que sofre pelo sangue do Mártir”. Os dois manifestavam sonho impossível e, como diria Ruzbehan de Xiraz, o poeta místico do século 12, também a mesma “demência do inacessível”.

Hoje, 35 anos depois da revolução islâmica, o que o iranianos buscam nada tem de inacessível: o fim das sanções ocidentais e que um setor do Ocidente deixe de tratar o país, eternamente, como um bando de “fanáticos” religiosos.

Rússia, China, Turquia, Paquistão, outras nações asiáticas, todas as nações latino-americanas, todas as nações africanas, todos tratam o Irã de igual para igual. À parte o choque entre a “flexibilidade heroica” e o “excepcionalismo” norte-americano, se, pelo menos, o establishment dos EUA conseguisse superar e começar a lidar – com realismo – com o que aconteceu em Teerã há 35 anos! Porque só depois que isso acontecer, aquelas conversações em Viena poderão afinal andar rumo a alguma coisa e, talvez, se possa ter um acordo nuclear definitivo ainda em 2014.




Nota dos tradutores
[1] Lit. “Ricardinho, o Sujo”; aplica-se aí a Richard Nixon; mas vale consultar o Urban Dictionary em Tricky Dick sobre outras possibilidades.
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[*] Pepe Escobar 1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.