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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Keynes está morto. Viva Marx

1/9/2014, [*] Ismael Hossein-Zadeh, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

No coração da frustração ou do desapontamento dos economistas keynesianos está a percepção não realista de que políticas econômicas seriam produtos intelectuais, e que construir políticas seria, antes de tudo, questão de expertise técnica e de preferência pessoal. O que esses economistas não veem é que construir políticas econômicas não é simples questão de escolha, quer dizer, de política “boa” versus política “má”. Muito mais importante: construir políticas econômicas é fazer política de classes. (...)

Talvez mais importante que isso, a visão marxiana de que programas duradouros, significativos de redes de segurança social só podem ser criados e mantidos se houver dedicada e grande pressão das massas e só em escala global coordenada garante solução mais lógica e mais promissora ao problema dos sofrimentos econômicos que sempre pesam sobre a maioria da população mundial. Muito mais lógica e mais promissora que os pacotes “limpos”, puramente acadêmicos e essencialmente despolitizados dos estímulos keynesianos em nível nacional.


Muitos economistas liberais viram uma nova aurora para o keynesianismo no desastre financeiro de 2008. Quase seis anos depois, já é claro que as muito aguardadas prescrições keynesianas foram e são completamente ignoradas. Por quê? Resposta do economista keynesiano: por culpa da “ideologia neoliberal”, que [no governo dos EUA] eles rastreiam até o governo do presidente Reagan.

Nesse artigo, ao contrário, argumento que (a) a transição da economia keynesiana para a economia neoliberal tem raízes muito mais profundas que a pura ideologia; que a transição começou muito antes de Reagan ser eleito presidente; que a confiança que os keynesianos têm em os governos serem capazes de re-regular e reviver a economia mediante polícias de gestão de demanda repousa sobre uma percepção-desejo de que o estado possa controlar o capitalismo; mas que (b), ao contrário dessas percepções-desejos, políticas públicas são mais que questões de escolha administrativa ou técnica; e que, mais importante que isso, são políticas de classe.

O estudo também argumenta que a teoria marxiana do desemprego, baseada na teoria de Marx, do exército de reserva de mão de obra, oferece explicação muito mais robusta para os prolongados altos níveis de desemprego, que o que dizem os keynesianos, que atribuem a praga do desemprego “às más políticas do neoliberalismo”. Assim também, a teoria marxiana da persistência de salários sempre próximos à linha da miséria dá conta, com muito mais consistência, de como ou de por quê esses salários de miséria, e a predominância em geral da miséria, podem acompanhar e de fato acompanham altos níveis de lucros e de riqueza concentrada, muito mais do que os keynesianos percebem, quando pregam altos níveis de empregos e de salários como condições necessárias para um ciclo econômico de expansão. [1]

Além das Explicações Comuns da Crise Financeira
O Capital Financeiro Parasitário
Mais profundo que “ideologia neoliberal”

O questionamento e o abandono gradual das estratégias keynesianas de gestão da demanda aconteceram não simplesmente por causa de proclividades puramente ideológicas de Republicanos “de direita” ou de preferências pessoais de Ronald Reagan, como muitos economistas liberais e radicais argumentam, mas por causa de mudanças estruturais reais nas condições econômicas ou de mercado, no plano nacional e internacionalmente.

As políticas do New Deal/Social-Democratas foram implantadas depois da Grande Depressão, enquanto trabalhadores e outros movimentos de base recém acordados em termos políticos, e as condições econômicas favoráveis do momento, tornaram efetivas aquelas políticas. Uma daquelas condições favoráveis era a necessidade de investir e reconstruir economias devastadas do pós-guerra por todo o mundo, a demanda quase ilimitada por manufaturas norte-americanas, tanto em casa como no exterior, e a nenhuma concorrência contra o capital e o trabalho norte-americanos.

Essas condições propícias, assim como a pressão de baixo, permitiu aos trabalhadores norte-americanos demandarem salários e benefícios respeitáveis, ao mesmo tempo em que gozaram de taxas mais altas de emprego. Os altos salários e a forte demanda então serviu como delicioso estímulo que precipitou o longo ciclo expansional do período do imediato pós-guerra, na modalidade de um ciclo virtuoso. 

Mas no final dos anos 1960s e começo dos 1970s, contudo, ambos, o capital e o trabalho norte-americanos já não eram dominantes nos mercados globais. Mais que isso, durante o longo ciclo da expansão no imediato pós-guerra as manufaturas norte-americanas haviam investido tanto em capital fixo, ou construção de capacidade [orig. capacity building], que ao final dos anos 1960s suas taxas de lucro já começavam a declinar, quando quantidades enormes dos chamados custos irrecuperáveis [orig. “sunk costs”; lit. “custos naufragados”], principalmente sob a forma de fábricas e equipamentos, tornaram-se altos demais. [2]

Mais que qualquer outra coisa, foram essas importantes mudanças nas reais condições de produção, e o concomitante realinhamento dos mercados globais, que ocasionaram ocasionais reservas contra e, afinal, o abandono da economia keynesiana. Ao contrário do que muito repetem os liberais e partidários do keynesianismo, não foram as ideias ou os esquemas de Ronald Reagan que levaram aos planos para desmantelar as reformas do New Deal; em vez disso, foi a globalização, primeiro do capital e, depois, do trabalho, que tornaram as economias de tipo keynesiano pouco atraentes para a lucratividade capitalista, e geraram a economia de Ronald Reagan e a austeridade neoliberal. [3]

Deve-se enfatizar que as políticas keynesianas de estabilização não foram abandonadas por razões puramente ideológicas; i.e., por que, como insistem muitos críticos do neoliberalismo, espalhou-se a partir de Chicago um animus de laisser-faire, que teria infectado políticos de todos os partidos e os teria persuadido das grandes vantagens e benefícios dos livres mercados (...). Sistema keynesianos de regulação financeira (controle de capitais e taxas de juro gerenciadas) não conseguiriam sustar os crescentes pools de créditos internacionais não regulados, os euromercados, que vieram para dominar a finança internacional. [4]

Quando as regulações financeiras, controles de capital e um novo sistema monetário internacional foram estabelecidos na Conferência de Bretton Woods logo depois da IIª Guerra Mundial, os mercados financeiros ou de crédito, internacionais, eram efetivamente inexistentes. O dólar norte-americano (e em menor extensão o ouro) foi, de longe, amplamente, o único meio internacional de comércio e de crédito. Nessas circunstâncias, o crédito internacional aconteceu amplamente entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os bancos centrais dos países emprestadores/tomadores – daí a possibilidade, a viabilidade, de aplicarem-se os controles.

Esse quadro dos mercados internacionais de crédito/financeiros, contudo, mudou gradualmente; e ao final dos anos 1960 e início dos 1970s, aqueles mercados já alcançavam centenas de bilhões de dólares, permitindo portanto transações internacionais de crédito por fora do canal FMI−bancos centrais. Os dois maiores fatores que contribuíram significativamente para a drástica inflação dos mercados financeiros internacionais foram (a) o crédito internacional gerado por computador; e (b) a imensa proliferação de eurodólares, isto é, dólares norte-americanos depositados em bancos do outro lado do Atlântico. A finança/crédito global completamente “solta” havia crescido tanto durante as últimas várias décadas que tornara quaisquer controles ou regulações domésticas ou nacionais já virtualmente inefetivos:

Críticos da finança internacional fizeram várias propostas para estabilizar o sistema e torná-lo mais propício para os objetivos do desenvolvimento econômico e social. A sugestão mais comum foi um retorno aos controles transfronteiriços de capital que existiam nos anos 1940s e 1950s. Esses controles, em muitos casos, não foram eliminados até os anos 1990s. Mas depósitos bancários internacionais e ativos financeiros mantidos no exterior são hoje tão grandes, que seria difícil implantar tais controles. De fato, a principal razão para livrar-se de tais regulações foi, exatamente, que não havia como aplicá-las. [5]

É óbvio, pois, que o enfraquecimento ou o depauperamento dos controles ou das salvaguardas regulatórias foi provocado não tanto por tendências puramente ideológicas de algum eleitos ou estrategistas políticos, mas, mais, pelos desenvolvimentos reais nos mercados financeiros internacionais.

Começou muito antes de Reagan

O argumento de que o abandono de políticas keynesianas em favor de políticas neoliberais começou com a chegada de Ronald Reagan à Casa Branca nos anos 1980 é factualmente falso. Provas incontornáveis mostram que o prazo de validade das receitas keynesianas haviam expirado pelo menos uma dúzia de anos antes. As políticas keynesianas de expansão econômica mediante gerenciamento da demanda haviam perdido o gás (vale dizer: haviam chegado ao seu limite sistêmico) ao final dos anos 1960s e início dos 1970s; não aconteceram de repente, do nada, no momento em que Reagan assumiu o timão.

Como o professor Alan Nasser do Evergreen State College anota, argumentos de que “políticas de igualdade econômica representam redução em termos de eficiência” já se faziam ouvir, produzidos por conselheiros econômicos de governos Democratas muito antes de a “Reaganomics” dar solenidade àqueles argumentos. Arthur Okun e Charles Schultze, ambos, serviram como presidente do Grupo de Aconselhamento Econômico de presidentes Democráticos. Em seu Equality and Efficiency: The Big Tradeoff, Okun (1975) já dizia que “o objetivo intervencionista de maior igualdade teve custos em ineficiência, que muito feriram a economia privada”. Schultze (1977) também dizia que “políticas de governo que impactam os mercados em nome da justiça e da igualdade são necessariamente ineficientes” – e essas políticas “geram desvantagens para o mesmo povo que os políticos pensaram estar protegendo, e desestabilizam a economia privada no processo”. [6]

Jerome Kalur diz também que “esforços de Mesas Redondas de Câmaras do Comércio e Associações de Empresários  para conseguir controlar o sistema governamental de tomadas de decisões regulatórias começaram pelo menos nove anos antes” de Ronald Reagan ser eleito, “quando o advogado de corporações Lewis Powell apresentou à Câmara de Comércio seu hoje bem-conhecido “Ataque contra o sistema da livre empresa nos EUA”. [7] Em concerto com a ofensiva “advocatícia” de Powel contra o trabalho e padrões regulatórios, o big business movimentou-se firmemente para “impedir a organização sindical” e para “eliminar quaisquer controles regulatórios mediante fluxos gigantes de propaganda produzida por think-tanks do tipo do The American Enterprise Institute (1972), The Heritage Foundation (1973) e o Cato Institute (1977)”. [8] Kalur escreve, ainda mais:

Lewis Powell
Quando Powell entregou seu memorando à Câmara, o business norte-americano já tinha registradas 175 empresas de lobby a seu serviço. Em 1982, o número de “torcedores-de-braços” pagos por empresas já subira para 2.500. O número desses “assessores” mantidos por empresas já chegara a 400 no início dos anos 1970s, e a 1.200, em 1980. Em resumo, o big business já estava provocando um declínio no número de empregados sindicalizados; já influenciava fortemente legisladores e agências federais; e controlava o quadro muito antes de começar o governo Reagan. Com Powell nomeado afinal para a Suprema Corte, o business norte-americano já marchava, em 1978, na direção da sua meta de acabar com toda e qualquer restrição às contribuições para campanhas eleitorais através de veículos clandestinos. [9]

Se a virada teórica da economia do New Deal−keynesiana dentro da cabeça dos luminares do Partido Democrata aconteceu antes do governo Carter, a implementação daquelas teorias começou já sob governo do presidente Carter. E Reagan pegou a cópia da agenda gradual de neoliberalismo dos Democratas e a fez correr mais depressa; substituiu a retórica do capitalismo-com-face-humana, pela retórica imperiosa, arrogante, do mais feroz individualismo, com a cobiça, a ganância e o autointeresse como principais virtudes a serem promovidas. Tampouco o presidente Clinton cuidou de aliviar as políticas econômicas dos anos Reagan. E Obama, como se sabe, não hesitou em fazer a mesma coisa.

O papel do estado

A ideia keynesiana de que o governo poder fazer a sintonia econômica fina mediante políticas fiscais e monetárias, para manter crescimento contínuo, baseia-se na ideia de que o capitalismo pode ser controlado ou manipulado pelo estado e gerido por economistas profissionais de departamentos governamentais com vistas a preservar o interesse de todos. A efetividade do modelo keynesiano portanto depende, em vasta medida, de uma esperança, ou de uma ilusão; porque, na realidade, a relação de poder entre o estado e o mercado/capitalismo é, quase sempre, exatamente o contrário disso. Ao contrário da percepção keynesiana, fazer política econômica é mais do que simplesmente questão administrativa ou de tomadas de decisões técnicas; muito mais importante que isso, fazer política econômica é questão profundamente sociopolítica, organicamente entrelaçada com a natureza de classe do governo e do aparelho de produzir políticas.

A ilusão keynesiana foi alimentada, ou mascarada, por dois grandes mitos

John Maynard Keynes
O primeiro mito brota da percepção que atribui a implementação do New Deal e das reformas Social-Democratas que se seguiram à Grande Depressão e à IIª Guerra Mundial, ao gênio de Keynes. Provas mostram contudo que a implementação daquelas reformas e, portanto, a ascensão de Keynes ao “estrelato” foram, mais, produto de ferozes lutas de classes e das fortíssimas pressões dos movimentos de base, que “recompensa” pelo “brilho” dos neurônios de especialistas como Keynes. De fato, fora dos estreitos círculos acadêmicos, Keynes não era absolutamente conhecido nos EUA, quando as principais reformas do New Deal foram postas em prática.

O segundo mito brota da visão que atribuiu a longa expansão econômica do período 1948-68 nos EUA à eficácia ou ao sucesso das políticas keynesianas de gestão da demanda. Embora seja com certeza certo que as políticas de governo expansionistas do tempo tiveram grande papel nos fantásticos desenvolvimentos econômicos daquele período, outras condições ou fatores favoráveis também contribuíram para o sucesso daquela expansão. Dentre essas, a necessidade de investir e reconstruir as economias devastadas do pós-guerra em todo o mundo; a necessidade de suprir a vasta demanda global dos consumidores; por bens de capital; e a falta de concorrentes para os produtos e capitais norte-americanos nos mercados globais – em resumo, o fato de que havia espaço gigantesco para crescimento e expansão no período imediatamente depois da guerra.

Acolhendo esses mitos e ilusões, os economistas keynesianos anteviram para eles mesmos a moldura de ouro ideal, na quebradeira e no período que se seguiu à Grande Recessão: uma oportunidade para uma nova alvorada de economia keynesiana. Quase seis anos depois, é muito claro que as prescrições de políticas keynesianas estão caindo em ouvidos surdos.

Ignoradas e deixadas de lado, as esperanças e ilusões keynesiana converteram-se em amargura, desapontamento e ira. Por exemplo, servindo-se de sua coluna no New York Times [que O Estado de S.Paulo reproduz caninamente, porque esse pensamento liberal à Keynes de Paul Krugman é o máximo que a UDN admite nas suas páginas de jornalismo econômico (e qualquer outro) imprestável (NTs)], o professor Paul Krugman frequentemente ataca o governo Obama por ignorar políticas keynesianas de expansão econômica e geração de empregos:

Paul Krugman
A verdade é que criar empregos em economia em depressão é coisa que o governo pode e deve fazer (...) Pensem bem: onde estão os grandes projetos de obras públicas? Onde estão os exércitos de trabalhadores do estado? Há hoje de fato meio milhão de empregados do governo a menos, do que quando o Sr. Obama assumiu a Casa Branca. [10]

No coração da frustração ou do desapontamento dos economistas keynesianos está a percepção não realista de que políticas econômicas seriam produtos intelectuais, e que construir políticas seria, antes de tudo, questão de expertise técnica e de preferência pessoal. O que esses economistas não veem é que construir políticas econômicas não é simples questão de escolha, quer dizer, de política “boa” versus política “má”. Muito mais importante: construir políticas é fazer política de classes.

Não basta ter coração ou alma compassiva; também é preciso não perder de vista o modo como se faz política pública sob o capitalismo. Não basta espancar repetidamente Ronald Reagan como o rei mau, e elogiar Franklin Delano Roosevelt como rei bom. A tarefa realmente importante é explicar por que a classe dominante expulsou o rei bom, nos EUA, e pôs no trono o rei mau.

Como diz o professor Peter Gowan da London Metropolitan University, “keynesianos fazem uma discussão essencialmente falsa a favor da re-regulação, quando absolutamente não veem que o Estado e Wall Street são uma e a mesma entidade”. [11]

Desemprego
Crescimento e emprego: Keynes versus Marx

Não foi só o modo como economistas liberais veem os desenvolvimentos reais, que levaram ao abandono do keynesianismo e ao aparecimentos dos vícios neoliberais; também o modo como explicam os problemas correntes de desemprego e de estagnação econômica. Ao persistentemente culpar o “capitalismo neoliberal” – em vez de culpar o próprio e total capitalismo – pelas altas taxas de desemprego, os propositores de economias keynesianas tendem a perder de vista as causas estruturais ou sistêmicas do desemprego: a tendência secular e/ou sistêmica da produção capitalista para constantemente substituir o trabalho humano por máquinas, e, assim, criar massa considerável de desempregados, um “exército de reserva de mão de obra”, nas palavras de Karl Marx.

As leis fundamentais da oferta e demanda de mão de obra no capitalismo são pesadamente influenciadas, ensina Marx, pela capacidade do mercado para produzir regularmente um exército de reserva do mão de obra, um “superávit populacional”. Esse exército de reserva de mão de obra é portanto tão importante para a produção capitalista quanto o exército ativo (realmente já empregado) de mão de obra. Assim como um ajuste regular e na hora devida, do nível do corpo de água de uma represa usada para irrigação é crucial para o aproveitamento estável da água, assim também o tamanho “adequado” de um corpo de desempregados é criticamente importante para a rentabilidade da produção capitalista:

Karl Marx
O exército industrial de reserva, durante os períodos de estagnação e prosperidade média, derruba todo o exército de trabalho ativo; durante os períodos de superprodução e paroxismo, mantém em xeque suas pretensões. Populações em relativo superávit são, pois, o pivô sobre o qual opera a lei de oferta e demanda de trabalho. Assim se limita o campo de ação dessa lei, dentro dos limites absolutamente convenientes para a atividade de exploração e para a dominação pelo capital. [12]

Na era da globalização da produção e do emprego, o exército de reserva de mão de obra foi drasticamente expandido para fora das fronteiras nacionais. Segundo pesquisa recente da Organização Mundial do Trabalho (OMT), entre 1980 e 2007 a força de trabalho global cresceu cerca de 63%. O relatório também mostra que, dada a urbanização em todo o planeta e/ou a saída dos camponeses dos campos, a razão entre exército ativo de exército de reserva de trabalho é hoje de menos que 50%, quer dizer, mais da metade da mão de obra global está hoje desempregada. [13]

Esse vasto e rapidamente acessível bolsão de desempregados, além da facilidade relativa para mudar a produção para qualquer ponto do mundo – e não alguma “intenção malévola de Republicanos direitistas ou de neoliberais safados” – é que obrigaram a classe trabalhadora, principalmente nos países capitalistas centrais, a baixar a cabeça: e a submeter-se aos brutais esquemas de austeridade nos salários e cortes de benefícios, às demissões, ao esvaziamento dos sindicatos, aos empregos de meio período, ao trabalho precário e a tudo mais que se vê.

Isso também explica por que repetidas convocações, feitas pelos keynesianos, para que se embarque em pacotes de estímulo de tipo keynesiano, para ajudar a pôr fim à recessão e aliviar o desemprego, continuam a soar como propostas ocas. Sob as novas condições de produção, que deixaram o nível nacional e ganharam níveis globais, e na ausência de fortes pressões políticas que os trabalhadores e movimentos de base em geral possam exercer, simplesmente não há refills para as receitas do Dr. Keynes – as quais foram pensadas para condições socioeconômicas radicalmente diferentes das que há hoje, e para circunstâncias nacionais, não globais.


Teoricamente, a estratégia keynesiana de um “ciclo virtuoso” de altas taxas de crescimento e emprego é ao mesmo tempo simples e racional: gastos governamentais massivos em períodos de sério revés econômico fazem aumentar empregos e salários, injetam poder de compra na economia, o que, por sua vez, empurra os produtores a produzir e contratar, o que, por sua vez, faz subir emprego, salários, demanda, oferta... ad infinitum. Mas, por mais que a estratégia soe relativamente simples e satisfatoriamente racional, ela está cheia de falhas.

Para começar, ela implicitamente assume que empregadores e fazedores de políticas governamentais estejam genuinamente interessados em gerar pleno emprego, mas, apenas, ‘não sabem’ como alcançar essa boa meta comum. Mas produção de pleno emprego pode não ser necessariamente o nível ideal ou nível de máximos lucros, da produção capitalista; significa que pode não ser o objetivo real dos empresários, empregadores e ou políticos encarregados de conceber políticas públicas.

Como já anotamos aqui, um bolsão considerável de desempregados é essencial para manter a lucratividade capitalista, tanto quanto o número de empregados a ser realmente posto a trabalhar. Em sua ânsia para manter o custo do trabalho o mais baixo possível, mantendo a classe trabalhadora o mais dócil possível, o capitalismo tende sempre a preferir altas taxas de desemprego e salários baixos, a baixas taxas de desemprego e salários altos.

Isso também explica por que, por exemplo, o mercado de ações sempre tende a subir, quando há relatos de desemprego crescente, e vice-versa. Também explica por que, colhendo vantagens do longo (e ainda em andamento) ciclo de recessão, os empresários/políticos criadores de políticas públicas nos países capitalistas centrais, embarcaram em programa de austeridade sem precedentes, com cortes de gastos e redução do setor público, movimentos cujo objetivo é enfraquecer o trabalho e baixar os salários (“reduzir o custo do trabalho”).

Em segundo lugar, o argumento keynesiano, de que um “ciclo virtuoso” de alto emprego, altos salários e alto crescimento seria facilmente alcançável, não fossem as “más” políticas do neoliberalismo ou a oposição dos empresários empregadores, baseia-se no pressuposto de que empregadores/produtores estariam “deixando de lado” os seus próprios interesses. Se prestassem atenção aos benefícios proverbiais dos “salários fordistas” sobre as vendas, prossegue o argumento keynesiano, eles conseguiriam ajudar-se simultaneamente a eles próprios e aos trabalhadores... e teríamos crescimento econômico e prosperidade para todos.

A visão do conhecido professor liberal (e ex-secretário do Trabalho no governo Clinton) Robert Reich sobre esse tema é típica do que dizem e pensam os keynesianos:

Robert Reich
Durante a maior parte do século passado, a barganha básica no coração da economia norte-americana foi que empregadores pagassem o suficiente aos seus empregados, de modo a que empregados pudessem comprar o que os empregadores estivessem vendendo (...) Essa barganha básica criou um ciclo virtuoso de alto padrão de vida, mais empregos e melhores salários (...) A barganha básica acabou-se (...) Os lucros das empresas estão no alto, em vasta medida porque o salário está no muito baixo e as empresas não estão contratando. Mas esse é jogo de perde-perde para as empresas, no longo prazo. Sem número suficiente de consumidores norte-americanos, seus dias de lucros estão contados. Afinal, há um limite para o máximo de lucros que podem obter cortando na folha de pagamento dos norte-americanos. [14]

Há duas grandes falhas nesse argumento. O primeiro problema é que o argumento assume (implicitamente) que os produtores norte-americanos dependem dos trabalhadores que vivam nos EUA, não só como mão de obra, mas também como consumidores – como aconteceria numa economia fechada. Na realidade porém, os empresários norte-americanos estão-se tornando cada dia menos e menos dependentes seja da mão-de-obra doméstica seja para vendas, dado que vão expandindo sempre a produção e as vendas para mercados externos:

Nas duas pontas, na oferta [de empregos] e na demanda, o trabalhador/ consumidor norte-americano já é visto como cada dia mais inessencial. [15]

O segundo problema com o argumento é que salários e benefícios são categorias micro (ou de nível empresarial) decididas por empregados individuais e/ou gerentes de corporações, não por algum tipo de planejador macro (ou estatal/nacional) de demanda agregada (numa economia centralmente planejada). Produtores individuais (pequenos ou grandes) veem salários e benefícios primeiro, e sobretudo, como altos custos de produção que sempre têm de ser minimizados o mais possível; e só em segundo lugar (quando acontece!) é que os veem como parte da demanda nacional agregada que pode (por vias complexas e não garantidas) contribuir para a venda de seus produtos.

Marx caracterizou a capacidade e a disposição do capitalismo para criar grandes bolsões de desempregados (para criar uma classe trabalhadora cada vez maior e mais pobre), como capacidade e disposição para “miserificar” [é a “miserificação”, orig. ing. “immiseration”] e para submeter a força de trabalho – um mecanismo inserido no capitalismo, essencial para a “lei geral” da acumulação capitalista:

O Capital
Decorre daí portanto que na proporção em que o capital acumula, a parte do trabalhador, seu pagamento, alto ou baixo, vai piorando. Essa, afinal, é a lei que equilibra o superávit de população, ou o exército industrial de reserva, conforme a extensão e a energia da acumulação, a lei que solda o trabalhador ao capital, mais firmemente do que as correntes de Vulcano prenderam Prometeu àquela montanha. Ela estabelece a acumulação da miséria, correspondente à acumulação do capital. Acumulação de riqueza num polo; e,  portanto, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, agonia do trabalho sem fim, escravidão, ignorância, brutalidade, degradação mental, no polo oposto, quer dizer, no lado oposto da classe que produz seu próprio produto na forma de capital. [16]

Conclusão

A teoria marxiana do desemprego, baseada na teoria do exército industrial de mão de obra de reserva, oferece explicação muito mais potente para os altos e prolongados níveis de desemprego, que a ideia keynesiana que atribui a praga do desemprego a políticas “malévolas” ou “mal orientadas” do neoliberalismo. Assim também, a teoria marxiana da subsistência dos salários de miséria oferece explicação muito mais cogente de como ou por que esses níveis de salários de miséria, além de uma predominância generalizada ou nacional da miséria, podem sempre andar de mãos dadas com altos níveis de lucros de empresas e do mercado de ações, do que as ideias keynesianas; para essas, altos níveis salariais seriam condição necessária para ciclo econômico de expansão.

Franklin Delano Roosevelt e o New Deal
Talvez mais importante que isso, a visão marxiana de que programas duradouros, significativos de redes de segurança social só podem ser criados e mantidos se houver dedicada e grande pressão das massas – e só em escala global coordenada − garantindo solução mais lógica e mais promissora ao problema dos sofrimentos econômicos que sempre pesam sobre a maioria da população mundial. Muito mais lógica e mais promissora que os pacotes “limpos”, puramente acadêmicos e essencialmente despolitizados dos estímulos keynesianos em nível nacional.

Não importa por quanto tempo ou com quanto entusiasmo os keynesianos de bom coração supliquem por empregos e por outras reformas de tipo New Deal; as suas súplicas para implantação desses programas serão sistematicamente ignoradas por governos que são eleitos e controlados por poderosos interesses do dinheiro.

A falha fundamental nas prescrições keynesianas de demanda administrada é que não passa de um conjunto de propostas populistas que atropelam a política de classes, quer dizer, que ignoram as condições necessárias para pôr em execução aquelas propostas.

Só com mobilizações de massas de trabalhadores (e outros movimentos de base) e com luta, em vez de só suplicar, por fatia justa do que, de fato, é produto do trabalho da maioria que trabalha, essa maioria poderá alcançar segurança econômica e dignidade humana.


Notas de rodapé

[1] Esse artigo é versão muito reduzida do Cap. 2 de meu livro Beyond Mainstream Explanations of the Financial Crisis: Parasitic Finance Capital (Routledge 2014).

[2] Anwar Shaikh, “The Falling Rate of Profit and the Economic Crisis in the US”, in The Imperiled Economy, Book I, New York, NY: Union for Radical Political Economy (1987).

[3] Harry Shutt, The Trouble with Capitalism: An Enquiry into the Causes of Global Economic Failure, London: Zed Books (1998).

[4] Jan Toporowski, Why the World Economy Needs a Financial Crash and Other Critical Essays on Finance and Financial Economics, London: Anthem Press, 2010, p. 18.  

[5] Jan Toporowski, Why the World Economy Needs a Financial Crash and Other Critical Essays on Finance and Financial Economics, London: Anthem Press, 2010, p 25. 

[6] Citado em Alan Nasser, New Deal Liberalism Writes Its Obituary

[7] Jerome S Kalur, Review of Andrew Kliman's: The Failure of Capitalist Production

[8] Ibid.

[9] Ibid.


[11] Peter Gowan, “The Crisis in the Heartland,” in M. Konings (ed.) The Great Credit Crash, London and New York: Verso, 2010.

[12] Karl Marx, Capital, vol. 1, New York: International Publishers, 1967, p 639.

[13] International Labor Organization (ILO), The Global Employment Challenge, Geneva, 2008; as cited in John Bellamy Foster, Robert W McChesney and R Jamil Jonna, The Global Reserve Army of Labor and the New Imperialism.

[14] Robert Reich, Restore the Basic Bargain.  


[16] Karl Marx, Capital, vol. 1, New York: International Publishers, 1967, p 645.
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[*] Ismael Hossein-Zadeh é Professor Emérito de Economia (Drake University). É autor de Beyond Mainstream Explanations of the Financial Crisis (Routledge 2014), The Political Economy of U.S. Militarism (Palgrave- Macmillan 2007) e Soviet Non-capitalist Development: The Case of Nasser's Egypt (Praeger Publishers 1989). É um dos autores-contribuidores que publicaram Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press 2012).


terça-feira, 10 de junho de 2014

É guerra mundial entre classes, não entre países

9/6/2014, [*] Ismael Hossein-zadeh, Speaking Freely, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

É a essência do imperialismo metido a golpista-espertalhão característico do governo Obama, versus o imperialismo de delinquente juvenil do governo Bush (filho).

Guerra é negócio
Muitos dos especialistas em desenvolvimentos históricos tendem a considerar outra guerra mundial como deslocamento em grande escala de meios militares, para forçar a derrota, a destruição ou a subjugação de oponentes desafiantes. Embora não se deva descartar a possibilidade desse cenário terrível, já há motivos para começar a trabalhar com a possibilidade de que a muito discutida IIIª Guerra Mundial será guerra diferente: mais guerra entre classes, que entre exércitos.

Vista sob essa luz, a IIIª Guerra Mundial já está aí; e, de fato, já está sendo guerreada há anos: de um lado, a guerra neoliberal, unilateral, transfronteiras, da economia da austeridade, cujos ‘guerreiros’ são a classe transnacional da oligarquia financeira, contra a vastíssima maioria dos cidadãos do mundo – os 99% globais.

A globalização do capital e interdependência dos mercados mundiais alcançaram um ponto no qual confrontos militares de larga escala, como se viram na Iª e na IIª Guerra Mundial podem levar à catástrofe financeira de todos. Não surpreendentemente, a rede das elites financeiras transnacionais, que com frequência elegem políticos e controlam o governo por trás das cortinas, não manifestam qualquer interesse por outra querra de liquidação internacional, que poderia paralisar os mercados financeiros mundiais.

Isso explica por que as agressões imperialistas recentes têm tão frequentemente assumido a forma de intervenções de “soft-power” [“poder suave”]: revoluções ‘batizadas’ com líricos nomes de cores, golpes de estado ditos “democráticos”, guerras civis pré-fabricadas, sanções econômicas e ações assemelhadas. Claro que a opção militar sempre aparece como pano de fundo, a ser ‘acionada’ quando/se as estratégias do tal “poder suave” da tal “mudança de regime” fracassam ou se comprovam insuficientes.

Mas mesmo nesse caso, todos os esforços se empreendem (pelas grandes potências capitalistas) para que tais intervenções militares sejam “controladas” ou “gerenciáveis”, vale dizer, limitadas ao nível ou local ou nacional. Essas guerras “controladas” tendem a salvaguardar as fortunas dos que lucram com guerras e dos beneficiários dos gastos militares (principalmente os grandes bancos e o complexo militar-industrial); elas não levam à paralisia dos mercados financeiros internacionais.

O mesmo processo também explica por que grandes potências mundiais como China, Rússia, Índia e Brasil tendam a se afastar e a não apoiar mais robustamente as políticas de abuso e provocação [orig. bullying] promovidas pelos EUA. Os círculos oligárquicos ricos nesses países têm mais a ver com as elites nos EUA e em outros países capitalistas centrais, que com o resto da população local em seus países.

Independente de se residam em New York ou Hong Kong, Moscou ou Mumbai, os super-ricos, hoje e cada vez mais constituem uma nação, eles próprios – diz Chrystia Freeland, editora-global da Reuters, que viaja com as elites para vários lugares do mundo.

Independente de se residam em New York ou Hong Kong, Moscou ou Mumbai, Brasil, os super-ricos, hoje e cada vez mais constituem uma nação, eles próprios
É portanto lógico acreditar que, sim, há uma aliança de fato entre membros dessa “nação” global dos super-ricos, a qual ajuda a facilitar a operação dos esquemas imperialistas da mudança de regime. Por exemplo, quando/se a Rússia é ameaçada pelos EUA e seus aliados, os oligarcas russos tendem a colaborar clandestinamente com os oligarcas seus “companheiros” de classe, no ocidente; assim, esses oligarcas, juntos, minam a resistência da Rússia contra a interferência das potências ocidentais.

Rápido exame dos esquemas para mudar regimes em países como Iraque e Líbia por um lado; e Ucrânia e Irã, pelo outro lado, pode ajudar a compreender quanto ou onde as potências imperialistas recorrem à ação militar direta para fazer a tal “mudança de regime” (como no Iraque e na Líbia), e quando ou onde elas recorrem a táticas de “soft-power” para obter o mesmo resultado – como na Ucrânia e no Irã. Duas principais razões ou considerações podem ser identificadas aí, quer dizer, em relação à escolha, pelos imperialistas, de meios ou táticas para mudar regimes.

A primeira dessas razões está relacionada ao nível de diferenciação de classes dentro dos países tomados como alvo para mudança de regime. Dada a extensa (e muitas vezes escandalosa) privatização de propriedade pública tanto na Ucrânia como no Irã, emergiram nesses dois países círculos de oligarcas financeiros muito, muito ricos.

Esses magnatas do dinheiro orientado pelo ocidente tendem a colaborar com as forças intervencionistas imperialistas que visam à mudança de regime aliadas a imperialistas internas. Assim se explica (pelo menos em parte) por que esquemas de mudança de regime nesses países sempre começam com táticas de “soft-power” e revoluções coloridas, em vez de intervenção militar direta.

Líbia por Latuff (2011)
Diferente disso, no Iraque de Saddam Hussein e na Líbia de Muammar Gaddafi não havia essas classes ricas influentes e internacionalmente conectadas com as classes ricas do mundo. Por menos que Saddam ou Gaddafi fossem parâmetros de virtude e campeões de democracia, operaram como o que algumas vezes se chama “ditadores ilustrados”: implementaram vastos programas de bem-estar social, mantiveram economias fortes no setor público; resistiram contra a privatização de serviços públicos como saúde e educação, e mantiveram como propriedade estatal e sob o controle do estado as chamadas grandes indústrias, ou indústrias “estratégicas”, como a indústria da energia e o sistema bancário/financeiro.

Combinadas, essas políticas impediram o crescimento de elites financeiras poderosas, como as que emergiram e desenvolveram-se no Irã ou na Ucrânia. Significa, dentre outras coisas, que táticas de “mudança de regime”, que dependem fortemente de elites nativas ou locais, a chamada burguesia comprador, não têm boa chance de serem bem-sucedidas nesses países. Daí o uso do “hard-power”, vale dizer, da intervenção/ ocupação militar direta dos países, no Iraque e na Líbia.

A segunda consideração imperialista na escolha entre táticas “soft” e “hard” no processo de “mudança de regime” está relacionada a se a guerra a ser provocada para “mudar o regime” pode ser controlada e gerenciada no nível local ou nacional; ou se a guerra pode escapar ao controle local e tornar-se guerra regional e/ou global.

No caso da Ucrânia, por exemplo, uma agressão militar direta com certeza envolveria a Rússia, e muito provavelmente se tornaria global, com consequências econômico/ financeiras desastrosas que as potências imperialistas não conseguiriam controlar. Daí a escolha de golpe de estado de tipo “soft”, dito “democrático”, na Ucrânia.

Problema semelhante – o temor de que se origine ali uma guerra total, que escape ao controle –, bloqueia sempre a possibilidade de ataque militar contra o Irã; e explica também por que o golpe de mudança de regime naquele país tem-se focado (pelo menos até agora) em sanções econômicas e outras táticas de “soft-power” – inclusive a tentativa de “revolução verde”, de 2009.

Por outro lado, o “poder duro”, a força militar mais brutal, foi usada para o golpe de “mudança de regime” no Iraque e na Líbia, por causa da certeza praticamente total de que guerras que se originassem do golpe para mudança de regime naqueles países poderiam ser controladas com sucesso satisfatório, vale dizer: seria possível impedir que se convertessem em guerras regionais ou globais.

O caso da Ucrânia

A recente crise na Ucrânia, que continua, serve como exemplo claro de o quanto as elites financeiras transnacionais tendem a evitar guerras internacionais cataclísmicas da escala da Iª ou da IIª Guerras Mundiais, em favor de guerras controláveis e quase sempre entre classes, mediante sanções econômicas e outras táticas de “soft-power”.

Imediatamente depois do putsch de 22 de fevereiro em Kiev, que derrubou o presidente legalmente eleito Viktor Yanukovich e pôs no poder um governo de golpistas neofascistas apoiados pelos EUA, as tensões entre a Rússia e as potências ocidentais subiram tanto, que houve quem falasse de uma “iminente IIIª Guerra Mundial”.


Embora aquelas tensões persistam e ainda haja risco de grande confronto militar entre aqueles dois lados, tudo isso diminuiu muito depois do início de maio, depois que o presidente Putin da Rússia anunciou, dia 7 de maio/2014, que a Rússia respeitaria o resultado da eleição presidencial na Ucrânia e trabalharia com qualquer dos candidatos que fosse eleito (e Petro Proshenko foi eleito).

Apesar de que os autonomistas pró federalização do sul e leste da Ucrânia continuem sob ataque violentíssimo, prosseguem manobras diplomáticas, e é bem evidente que representantes das elites financeiras de EUA, Europa, Ucrânia e Rússia conseguiram impedir um confronto militar entre EUA e Rússia.

Assim sendo, o que mudou, das primeiras ameaças de sanções paralisantes e/ou ataque militar contra a Rússia, para o que temos hoje, com tensões diminuídas e busca de “soluções diplomáticas”?

A resposta, em resumo apertado, é que os poderosos interesses econômicos investidos na finança, no comércio e nos investimentos internacionais (vale dizer: os interesses da elites financeiras na Rússia, na Ucrânia e nos países capitalistas centrais) simplesmente não podem correr o risco de uma guerra mundial incontrolável. Sim, é verdade que grandes bancos e influentes complexos militar-industrial-de-segurança tendem a florescer onde haja guerra perpétua e tensões internacionais. Mas eles também tendem a preferir guerras “gerenciáveis” “controláveis” em nível local ou nacional (como as guerras que fizeram contra o Iraque ou a Líbia, por exemplo), a guerras cataclísmicas em grande escala, em níveis regional ou global.

Não é segredo que a economia da Rússia vai-se tornando cada dia mais mesclada às economias ocidentais (em larga medida por causa do poder e do modo de atuar dos oligarcas russos), e que também se tornou sempre mais vulnerável a flutuações do mercado global e a ameaças de sanções econômicas. Isso explica, em boa medida, os gestos conciliatórios e as políticas de acomodação do presidente Putin, para diluir diplomaticamente as hostilidades em torno da crise na Ucrânia.

Menos discutido, contudo, é o fato de que as economias ocidentais também são vulneráveis às sanções que a Rússia venha a impor, caso decida retaliar. Verdade é que a Rússia controla algumas armas econômicas muito poderosas, com as quais poderá retaliar, se decidir fazê-lo. Os ferimentos econômicos produzidos por sanções recíprocas podem ser muito, muito dolorosos para vários países europeus. Dada a interconexão da maioria das economias e mercados financeiros, sanções recíprocas podem exacerbar muito gravemente a já fragilizada Europa e, daí, também a economia mundial. (...)

Os números podem ser vistos em [1]

Alexei Miller
A Rússia também pode retaliar contra políticas das potências ocidentais e suas ameaças de congelar ativos de indivíduos e empresas, congelando, também os russos, patrimônio de empresas e investidores ocidentais:

No caso de sanções econômicas ocidentais, deputados russos já anunciaram que aprovarão autorização para congelar ativos de empresas europeias e norte-americanas que operam na Rússia. Por sua vez, mais de 100 empresários e políticos russos podem ter bens congelados na União Europeia.

Além de Alexey Miller, presidente da Gazprom, também o presidente da Rosneft, Igor Sechin, parece estar na lista dos “sancionados”. Rosneft é a maior empresa privada de petróleo do mundo e, nessa condição, tem acionistas e sócios espalhados por todo o planeta, inclusive no ocidente. Por exemplo, a Exxon-Mobil, empresa que tem sede nos EUA, é parceira da Rosneft num projeto conjunto de exploração de petróleo, de US$ 500 milhões, na Sibéria; e a Exxon-Mobil também é sócia da gigante do petróleo russo na exploração das reservas de petróleo do Mar Negro. [2]

Igor Sechin
A Rússia tem à sua disposição armas econômicas suficientes para infligir considerável dano às economias dos EUA e de países europeus. Por exemplo, em reação a ameaças de ter bens congelados por EUA e aliados europeus, a Rússia liquidou (no final de fevereiro e início de março de 2014) mais de $100 bilhões em papeis do Tesouro dos EUA.

A escalada dessas ameaças temerárias de congelar bens de governos “não amistosos” pode vir a envolver também a China, com consequências desastrosas para o dólar norte-americano, uma vez que “a China possui estimados $1,3 trilhão em bônus do Tesouro dos EUA, e é o investidor número 1, dentre governos estrangeiros”. [3]

Esse alto grau de interconexão econômica/financeira explica por que – com o apoio de Washington e acenos favoráveis de Moscou – diplomatas de Berlim e Bruxelas acorreram a Kiev, construíram uma chamada “Mesa Redonda de Discussões” e abriram caminho para a eleição-presidencial farsesca realizada dia 25/5/2014, o que deu legitimidade ao golpe de Estado e permitiu evitar uma possível escalada destrutiva de sanções econômicas e/ou ações militares.

Comparação com Iraque e Líbia

A “mudança de regime” na Líbia (2011) e no Iraque (2003) mediante intervenções de “poder violento” (em oposição aos esquemas de “poder-suave” para mudança de regime) tende a dar suporte ao argumento base que se desenvolve nesse ensaio, segundo o qual, na busca da mudança de regime, as potências imperialistas recorrem a ação militar nos casos em que (a) o envolvimento militar possa ser controlado e restrito exclusivamente ao país-alvo; e (b) não se veem aliados locais significativos ou poderosos no país-alvo, vale dizer, forças locais de oligarcas ricos com laços nos mercados globais e, assim, com laços que as unam a forças externas às que promovem a mudança de regime.

Embora ambos, Gaddafi e Saddam governassem seus países com mão-de-ferro, ambos mantiveram economias de setor-público forte e indústrias e serviços amplamente nacionalizados. É verdade, especialmente no caso de indústrias estratégicas, como energia, bancos, transportes e comunicações, e em serviços vitais como saúde e educação.

Fizeram o que fizeram, menos por convicções socialistas (embora ocasionalmente se apresentassem como líderes do “socialismo árabe”), mas porque, em suas lutas contra regimes rivais anteriores de aristocracias tribais ou de proprietários de terras, ambos aprenderam que controlar as economias nacionais mediante administração burocrática de estado, com estado de bem-estar eficaz, contribuíam muito mais para a causa da estabilidade e da continuidade de seus respectivos governos; muito mais, com certeza, do que deixar que as forças do mercado reinassem sem freio, com emergência de industriais e financistas no setor privado, sempre muito poderosos.

Saddam e Gaddafi assassinados
Fosse qual fosse o motivo, fato é que nem Saddam nem Gaddafi conseguiram impedir que crescessem poderosas elites financeiras, com laços significativos com mercados globais ou potências ocidentais. Não surpreendentemente, as figuras da oposição e forças que colaboraram para os esquemas imperialistas de mudança de regime naqueles dois países foram, em larga medida, remanescentes dos dias da realeza e das tribos, ou intelectuais menores expatriados e perseguidores militares incansáveis de Saddam e Gaddafi, forçados a viver no exílio.

Diferentes das elites financeiras na Ucrânia, por exemplo, as forças da oposição no Iraque e na Líbia não tinham fossem meios financeiros para financiar a guerra de mudança de regime, nem base de apoio social suficiente em seus países nativos. Tampouco tinham laços financeiros e políticos fortes ou, pelo menos, confiáveis, com mercados e os establishments políticos ocidentais.

Isso explica por que as sanções econômicas e outras táticas de “soft-power” (como mobilizar, treinar, financiar e armar forças de oposição interna) se comprovaram insuficientes para derrubar (“mudar”) os regimes de Saddam e Gaddafi; explica também por que o imperialismo dos EUA e suas elites tiveram de usar “poder-violento” de ação/ocupação militar no Iraque e na Líbia, para alcançar aquele seu objetivo nefando. Além do mais, como já disse, as potências intervencionistas imperiais tinham certeza de que (ao contrário, por exemplo, dos casos da Ucrânia ou Irã) aquelas invasões militares poderiam ser controladas, e seria possível impedir que extravasassem para fora das fronteiras de Líbia ou Iraque.

O caso do Irã

A política dos EUA para derrubar o governo (‘mudar o regime’) do Irã parece mais próxima do padrão seguido na Ucrânia que do padrão que se viu no Iraque ou na Líbia. Isso, em larga medida, porque (a) temem que uma intervenção militar direta no Irã não possa ser “contida” e controlada de modo a que a guerra fique restrita só ao Irã; e porque (b) o Irã tem uma oligarquia financeira bem desenvolvida, orientada pelo/para o ocidente, na qual EUA e aliados podem confiar para fazer reformas e/ou derrubar o governo (‘mudar o regime’) de dentro para fora.

Claro que não é política de “ou-ou”: ou força militar ou “soft power”. Trata-se, isso sim, de confiar mais numa ou noutra política, dependendo de circunstâncias específicas. Na verdade, a agenda imperialista para derrubar o governo (“mudar o regime”) no Irã, desde a revolução de 1979 naquele país, sempre incluiu cesta sortida de táticas (muitas delas às vezes discrepantes entre elas). Vão desde estimular e apoiar Saddam Hussein para que invadisse o Irã (em 1980), até treinar e pagar organizações terroristas anti-Irã; repetir constantes ameaças militares e de guerra; esforços para sabotar a eleição presidencial de 2009, com a chamada “revolução verde”; a escalada sistemática de sanções econômicas.

Hassan Rouhani e Javad Zarif representam a oligarquia financeira do Irã
Tendo sempre falhado (até agora) nos seus amaldiçoados esforços para derrubar o governo do Irã (“mudar o regime”) de dentro para fora, os EUA parecem, recentemente, ter mudado de planos. Em vez de derrubar o governo do Irã de fora para dentro, ultimamente os EUA parecem mais interessados em reformar o governo do Irã de dentro para fora, vale dizer, mediante colaboração política e econômica com correntes “ocidentalizantes” dentro dos círculos de poder do Irã.

O que parece ter tornado essa opção mais atraente para os EUA e aliados é a ascensão de uma ambiciosa classe capitalista no Irã, cujas prioridades parecem ser a capacidade para negociar com seus contrapartes ocidentais. São sobretudo ricos oligarcas iranianos, cujo interesse são sempre negócios e mais negócios; gente para quem questões como tecnologia nuclear ou soberania nacional são temas de segunda importância.

Tendo enriquecido metodicamente (não raras vezes também escandalosamente) nas sombras do setor público da economia iraniana, ou por força de posições que ocupassem (ou continuam a ocupar) na burocracia governante em vários pontos do aparelho governamental, essa gente hoje já perdeu o apetite que um dia teve por medidas necessárias para que o país sobrevivesse à violência das brutais sanções econômicas. Em vez disso, hoje querem saber de negócios e mais negócios e investimentos e mais investimentos; portanto, precisam manter contato amplo com seus aliados de classe transnacionais, em todo o mundo.

Mais que qualquer outro estrato social, o presidente Hassan Rouhani e seu governo representam os interesses e aspirações dessa classe capitalista-rentista iraniana. Representantes dessa classe de oligarquia financeira manobram o poder econômico e político mediante, principalmente, a super influente Câmara de Comércio, Indústrias, Minas e Agricultura do Irã [orig. Iran Chamber of Commerce, Industries, Mines, and Agriculture (ICCIMA)].

As afinidades ideológicas e/ou filosóficas entre o presidente Rouhani e os corretores “de poder” que operam dentro da ICCIMA aparecem refletidas no fato de que, imediatamente depois de eleito, o presidente nomeou para o cargo de seu chefe de gabinete, o ex-presidente da ICCIMA, Mohammad Nahavandian – economista neoliberal formado nos EUA e conselheiro econômico do ex-presidente Hashemi Rafsanjani.

Foi através da Câmara de Comércio do Irã que, em setembro de 2013, uma delegação de economistas acompanhou o presidente Rouhani à ONU, em New York, para negociar negócios e investimentos possíveis com contrapartes norte-americanos. A mesma Câmara de Comércio do Irã também organizou várias delegações econômicas que acompanharam o ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, à Europa, também em busca de negócios e investimentos.

Muitos observadores das relações entre EUA e Irã tendem a pensar que o diálogo diplomático recentemente iniciado entre os dois países, incluindo contatos regulares no quando das negociações nucleares do Irã, teriam começado com a eleição de Rouhani à presidência. Mas há evidências de que, por trás das cortinas, contatos entre representantes das elites financeiras dentro e em torno dos governos dos EUA e do Irã já vinham acontecendo desde bem antes de Rouhani ser eleito. Por exemplo, matéria publicada pelo Wall Street Journal com pesquisa relativamente bem feita e aproveitável, revelou que:

Jay Solomon
Altos funcionários do Conselho Nacional de Segurança dos EUA começaram a plantar as sementes dessa troca vários meses antes – em uma série de encontros e telefonemas secretos e em reuniões com vários monarcas árabes, exilados iranianos e ex-diplomatas norte-americanos, que levavam mensagens clandestinamente entre Washington e Teerã, segundo atuais e ex-funcionários dos governo dos EUA, de países do Oriente Médio e da Europa, informados sobre o esforço. [4]

A matéria, mostrando como a “a complexa rede de comunicações ajudou a fazer avançar a recente aproximação EUA-Irã”, indicava que as reuniões quase sempre secretas “acontecera na Europa, principalmente na capital da Suécia, Estocolmo”. Usando canais diplomáticos internacionais, como a Asia Society, a United Nations Association e o Council on Foreign Relations, “os lados norte-americano e iraniano reuniram-se em hotéis e salas de conferência, procurando fórmulas para diluir a crise sobre o programa nuclear iraniano e evitar uma guerra”, como se lê adiante, na mesma matéria. E Jay Solomon e Carol E Lee, autores da matéria, também escreveram:

Carol E Lee
A Asia Society e o Council on Foreign Relations (Organizações Não Governamentais) hospedaram mesas redondas para os senhores Rouhani e Zarif, à margem da Assembleia Geral da ONU ano passado, em setembro. Os dois homens usaram aquelas reuniões para explicar os planos de Teerã a empresários norte-americanos, ex-funcionários do governo, acadêmicos e jornalistas.

O próprio Obama falou pessoalmente com Rouhani no verão passado, pouco depois da eleição de Rouhani. O presidente dos EUA escreveu ao novo presidente do Irã, falando do desejo de Washington de pôr fim pacificamente à disputa nuclear. Rouhani respondeu com sentimentos semelhantes.

Zarif, entrementes, fez contato com altos funcionários da política exterior dos EUA com os quais já trabalhara quando servira como embaixador do Irã à ONU nos anos 2000s.

[Suzanne] DiMaggio, da Asia Society diz que esteve entre os que contataram Zarif pouco depois de ele ser nomeado para o governo de Rouhani. Veterana facilitadora de contatos informais entre funcionários iranianos e norte-americanos, ela organizara várias reuniões ao longo da década passada com o diplomata iraniano, educado nos EUA, sobre meios para pôr fim ao impasse nuclear. [5]

Isso explica por que o presidente Rouhani (e seu círculo de conselheiros pró-ocidente) escolheram Zarif como ministro de Relações Exteriores, e por que, talvez pouco inteligentemente, depositaram todas as suas esperanças de uma recuperação econômica do Irã na aproximação política e econômica com o ocidente, vale dizer: no livre comércio e em investimentos ilimitados dos EUA e de outros grandes países capitalistas.

(Vale registrar também que isso também explica por que a equipe de negociadores nucleares do presidente Rouhani, foi, muito contra sua vontade, condenada a uma posição muito fraca na barganha dentro do grupo dos países P5+1; e também explica por que os negociadores iranianos cederam tanto, em troca de tão pouco).

Conclusão e implicações

Apesar de poderosos beneficiários da guerra e de altos gastos militares – grandes bancos (como principais emprestadores de dinheiro aos governos) e o complexo militar-industrial-de-segurança – sempre ansiarem por mais e mais guerras e por novas tensões internacionais, eles sempre preferem guerras locais, nacionais, limitadas ou “administráveis”, em vez de grandes guerras em escala regional ou mundial, cataclismos que podem paralisar completamente os mercados globais.

Essa ideia ajuda a compreender por que, ao obrar para derrubar os governos (“mudar regimes”) do Iraque e da Líbia, por exemplo, os EUA e seus aliados partiram imediatamente para ação/ocupação militar direta; mas, nos casos da Ucrânia e do Irã, os mesmos EUA e aliados têm evitado (até agora) a intervenção militar direta, e têm preferido táticas de “soft-power” e de “revoluções” com nomes de cores.

Revoluções "coloridas"
Como já dissemos, essa preferência se explica, em grande parte, porque, por um lado, teme-se que guerra e intervenção militar na Ucrânia ou no Irã podem não ser “controláveis”; e, por outro lado, porque há elites financeiras ricas, fortes e suficientemente pró-ocidente no Irã e na Ucrânia, nas quais EUA e aliados acreditam poder confiar para promover ou “reformas” ou, não sendo elas possíveis, para derrubar o governo (“mudar o regime”) lá mesmo, de dentro para fora, de um modo que não cria o risco de gerar outra guerra catastrófica, que ameaça destruir as fortunas da classe transnacional dos capitalistas, além de gerar devastação geral.

Potências intervencionistas sempre acreditaram muito na velha tática do “dividir para governar”. Novidade, pelo menos relativa, nesse contexto, é que, além dos velhos padrões de aplicação dessa tática (que sempre se apoiaram em questões que geram divisionismo, como nacionalidade, etnia, raça, religião e outras questões semelhantes), casos recentes do uso da mesma tática começam a apoiar-se em divisões de classe.

O cálculo parece ser que, quando/se país como o Irã ou a Ucrânia pode ser dividido por linhas de classe, e é possível construir alianças entre os oligarcas dos países atacantes e os oligarcas do país-alvo do ataque (“mudança de regime”)... não é preciso embarcar em ataque militar amplo, que pode sempre, de um ou de outro modo, ferir também o atacante e seus aliados, tanto quanto, quando não até mais, que o regime a ser derrubado (“mudado”).

Quando sanções econômicas e alianças e colaboração com os oligarcas nativos podem ser construídas e usadas para levar a cabo “golpes democráticos” ou “revoluções com nomes de cores” (quase sempre acompanhadas de eleições-farsa), por que arriscar ataque militar indiscriminado, com consequências incertas e potencialmente catastróficas?!

Assim se vê (dentre outras coisas) como as políticas imperiais de agressão evoluíram ao longo do tempo – desde os estágios inicias de ocupação militar “nua-e-crua” dos dias coloniais, até as táticas que se veem hoje, sutis, de vários ramos, com vias invisíveis de intervenção.

Em termos ou no contexto das recentes aventuras da política exterior dos EUA, pode-se dizer que, enquanto o velho padrão de agressões imperialistas declaradas e descaradas, foram preferidas nas políticas externas de acintosas ações militaristas do presidente George W Bush, o novo padrão encaixa-se bem nas políticas ditas mais “sofisticadas”, de intervencionismo invisível, do presidente Barack Obama.

Enquanto setores da elite que governa os EUA defendem ação acintosamente militarista e criticam Obama como presidente “fraco”, fato é que a política de Obama, de metodicamente e sem alarde construir coalizões – tanto com aliados tradicionais dos EUA quanto com as forças oligárquicas ou “comprador” nos países-alvo para golpes de estado (“mudar o regime”) – vem-se comprovando mais efetiva (em termos de golpes bem-sucedidos) que a política de Bush-Cheney, de ação militar unilateral.

Não se trata aqui, nem de pura teoria, nem de especulação: o secretário de estado John Kerry disse exatamente isso, recentemente, em termos muito claros, no contexto da política do governo Obama para Ucrânia e Irã. Perguntado, dia 30/5/2014, por Gwen Ifill da rádio PBS (Public Broadcasting System),

Gwen Ifill
Na sua opinião, o presidente jogou mal, mostrou-se fraco, ao não optar pelas fortes tacadas de longa distância (ing. “home runs”) e ficar só no jogo curto de disputar base a base?, Kerry respondeu:

Não acho que o presidente, francamente, tem sido avaliado com justiça pelos muitos sucessos que obteve (...) Quero dizer: se se olha o que temos na Ucrânia, o presidente liderou um esforço para manter a Europa unida aos EUA; para pôr sobre a mesa sanções difíceis. A Europa não estava adorando a ideia, mas nos acompanhou. Isso é liderança! E o presidente conseguiu obter forte impacto, recentemente, liderando os europeus, quanto às escolhas que impôs ao presidente Putin.

Além disso, o presidente atraiu e engajou o Irã. Estávamos em rota de colisão total, com eles construindo armas atômicas e o mundo em posição de oposição a eles... Mas o presidente impôs várias sanções, que obrigaram o Irã a sentar para negociar. Agora estamos em plenas negociações. Todos concordarão que o regime de sanções funciona muito bem. A bomba – o programa nuclear foi congelado e recolhido. E agora já aumentamos a quantidade de tempo que o Irã deve obedecer, antes de poder enriquecer [urânio]. Isso é sucesso!

Quer dizer: acho que estamos engajados, mais engajados que em qualquer outro momento da história dos EUA. Acho que é o que está aí, bem provado e comprovado.

E essa é a essência do imperialismo metido a golpista-espertalhão característico do governo Obama, versus o imperialismo de delinquente juvenil do governo Bush (filho).

[*] Ismael Hossein-zadeh é curdo, nascido no Irã; vive nos EUA desde 1979. É Professor Emérito de Economia (Drake University). É autor de Beyond Mainstream Explanations of the Financial Crisis [Além das Explicações Dominantes da Crise Financeira] (Routledge 2014), The Political Economy of US Militarism [A Economia Política do Militarismo dos EUA] (Palgrave - Macmillan 2007) e Soviet Non-capitalist Development: The Case of Nasser's Egypt [O desenvolvimento não capitalista: o caso do Egito de Nasser] (Praeger Publishers 1989). É autor de um dos ensaios reunidos em Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion [Sem esperanças: Barack Obama e a Política da Ilusão] (AK Press 2012).
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Notas de rodapé

[1] 28-30/3/2014, Gilbert Mercier, Counterpunch em: Ucrânia’s Crisis: Economic Sanctions Could Trigger a Global Depression.
[2] Ibid.
[3] Ibid.
[4] 7/11/2013, Jay Solomon e Arol E. Lee, Wall Street Journal, em: “US-Irã Thaw Grew From Years Of Behind-the-Scenes Talks 
[5] Ibid.