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domingo, 18 de maio de 2014

Guerras, assassinatos e sanções

17/5/2014, [*] John Kozy, Global Research
Traduzido por mberublue



“O líder do mundo livre” – é assim que os EUA gostam de chamar a si mesmos. Difícil atinar por que alguém acreditaria. Obviamente, as pessoas não são, por aqui, mais livres que em qualquer outra nação. Pergunte a um americano no que ele seria “mais livre” que qualquer cidadão da Holanda para fazer o que quiser; não espere nem conte com ouvir resposta muito significativa. Levando-se em conta apenas o tamanho do PIB, claro que os EUA são uma grande economia; nesse sentido, trata-se, afinal, de um grande país. Apenas Canadá e Rússia são maiores em extensão territorial, mas com populações menores. E os Estados Unidos nem são assim tão bem governados, lá que se diga! Enquanto uma minoria de americanos é obscenamente rica, outros mal ganham o suficiente para sobreviver. Embora a nação como um todo seja evidentemente próspera, grande parte da população é muito pobre. O poderio militar dos EUA é enorme; mas as vitórias militares, ínfimas!

Henry Kissinger
Henry Kissinger certa vez disse que :

(...) em minha vida, vi quatro guerras que começaram com grande entusiasmo e apoio público; em nenhuma delas sabíamos como terminar; e de três delas nos retiramos unilateralmente.

Perderam essas guerras. Mas não, ninguém “perde” guerras: o derrotado “retira-se unilateralmente”. Significa que um lado abandona a guerra sem pedir autorização para sair: isso, precisamente, significa “retirar-se unilateralmente”. Essas guerras, como soldados velhos, acabam, e pronto.

Umair Haque, Diretor do Havas Media Labs, e tido pela revista Thinkers50  como um dos mais influentes pensadores de gestão-management do mundo, escreveu na Harvard Business Review a seguinte descrição dos Estados Unidos contemporâneos:

Umair Haque
Os Estados Unidos são ricos em quê? Começam a parecer pobres, para as pessoas comuns. A infraestrutura dos EUA está ruindo. O sistema educacional dos EUA educa mal. O sistema de saúde dos EUA é simplesmente inexistente. Posso atravessar a Europa por trem de alta velocidade em oito horas; mal consigo ir de Washington a Boston em nove. Pior que isso: os EUA estão estragando seus suprimentos de água e comida mediante o envenenamento ininterrupto por energia poluente, enquanto o resto do mundo rico está trocando essa energia por outro tipo, renovável. Os Estados Unidos são flagrantemente deficitários em todos os serviços públicos de educação, saúde, transporte, energia, infraestrutura, para não dizer de outros, raramente listados, mas não menos importantes: parques, centros comunitários e serviços sociais.  

Assim, mesmo dizendo ser o líder do mundo livre e enquanto tenta ensinar ao mundo como governar, quando os EUA se olham para eles mesmos – o que só muito raramente fazem – veem um consumado idiota.

A política implementada continuará a mesma, por mais persistentemente se prove ser errada e ineficiente. A “guerra às drogas”, iniciada em 1971, tem sido tão desastrosa que vários estados já legalizaram substâncias ainda proibidas pelo governo federal. A dependência viciosa a políticas econômicas há tempos desacreditadas quebrou o mundo duas vezes nos últimos setenta anos. As ruas dos Estados Unidos viraram campo de batalha, porque não há via pela qual o país consiga derrotar o lobby da indústria de armas e não há meio que leve a aprovar qualquer medida que limite a propriedade de armas.

Por muito que os EUA sejam tolos nas políticas internas, é no trato com outros países que o horror aparece mais pleno. Considere-se, por exemplo, a política de chantagear outros países, para fazerem o que não querem fazer, mas interessa aos EUA que façam, usando, como arma de chantagem, as chamadas “sanções econômicas”.

Aplicar sanções é uma modalidade de guerra econômica e, como guerra real que é, os dois lados em luta sofrem baixas, sempre que um lado aplica sanções as quais, em teoria, deveriam ter efeito exclusivamente contra o outro lado.

Já se aplicaram e aplicam-se hoje sanções em, pelo menos, 25 “conflitos” internacionais. Nada, na lista do Departamento do Tesouro dos EUA, indica que a meta estabelecida teria sido alcançada. Hoje, há sanções vigentes aplicadas pelos EUA contra sete países: Cuba (desde 1960), Irã (1979), Myanmar (1997), Coréia do Norte (1993), Costa do Marfim (2006), Síria (2012) e Rússia (2014).

Ora! E não se trata de clara lista de potências econômicas? Pois até a publicação deste artigo, por várias e boas razões, os EUA não conseguiram nenhuma das metas a que visavam com a imposição dessas sanções.

A prática de impor sanções contra nações cujos atos desagradem aos EUA é política orientada para objetivos ou tolos ou infames. É prática que visa a destruir a soberania de outras nações. Tanto quanto sei, até hoje os EUA nada conseguiram, desses objetivos, servindo-se de sanções.


Os EUA são nação narcisista que só enxerga o próprio reflexo em seja qual for a superfície para a qual olhe. A húbris norte americana faz os norte-americanos crerem que o mundo inteiro teria de operar como os EUA operam.

Assim sendo, dado que desde o nascimento da nação a corrupção gerada e alimentada pelos mercadores e pela classe mercantil predomina na política econômica dos EUA, impondo as políticas nacionais, os norte americanos creem que a classe mercantil de outras nações também teriam o poder e a força para mandar e desmandar no plano político e na construção das políticas. Obviamente isso nem sempre acontece. Em Cuba e na Coréia do Norte a classe mercantil praticamente inexiste. No Irã, está submetida às ordens dos aiatolás; em Myanmar e na Costa do Marfim, o controle é exercido totalmente pelos dirigentes corruptos. Quanto à Síria e à Rússia, o relacionamento entre o governo e a classe mercantil é no mínimo ambíguo.

Impor sanções contra essas nações pode causar algum abalo em suas economias, sim; mas é pouco provável que cause qualquer grave efeito contra os seus respectivos governos.

Para que as sanções levem ao resultado que os EUA esperam delas, é indispensável que se configurem algumas condições necessárias. Em primeiro lugar, a nação sancionada tem de ter grande classe mercantil, com poder suficiente para influenciar o próprio governo do país. O governo tem de ser atento e preocupado com atender bem às necessidades da classe mercantil. 

Em segundo lugar, não se sanciona país que tenha ou dívida internacional muito pequena, ou carteira de comércio internacional muito grande. Em nada ajuda o governo de um país dizer aos seus comerciantes que não podem fazer negócios com outra nação, com a qual eles já não tenham comércio. Mas dizer aos próprios comerciantes que interrompam o comércio com determinada nação, com a qual eles têm substancial negociação e muitos interesses, pode vir a ser economicamente mais prejudicial para a nação que sanciona, que para a nação sancionada.

Em terceiro lugar, restam as nações com comércio internacional médio. Alguns danos podem ser causados, se se sancionam essas nações, mas não serão danos suficientes para forçar o país a mudar na direção em que interessa aos EUA que o país mudem. Tais sanções raramente são bem-sucedidas. E o que acontece quando esse tipo de sanção é tentado e falha? Muitas vezes, esses fracassos levam à guerra.

Apenas um ano após os Estados Unidos sancionarem Cuba, o país foi invadido por um grupo paramilitar patrocinado pela CIA.

Oito bombardeios B-26 fornecidos pela CIA atacaram os campos aéreos cubanos. Na noite seguinte, os invasores desembarcaram na Baía dos Porcos. Os norte-americanos supunham que o povo cubano se levantaria e derrubaria o governo Castro. Em vez disso, viram o exército cubano cercar e prender os invasores norte-americanos, em apenas três dias. A invasão foi fracasso escandalosamente vergonhoso para os EUA. Em grande parte da América Latina e do mundo, comemorou-se ali a falibilidade do imperialismo dos Estados Unidos.

Charge de Latuff
Pois, apesar do fracasso escandalosamente vergonhoso, ante o povo cubano, os EUA, ali, “inauguraram” a guerra de sanções.

Desde então os norte americanos têm feito guerra, às vezes sem aviso ou conhecimento, em numerosos lugares onde as sanções falharam: Bálcãs, Iraque, Líbano, Líbia, Somália, Sudão (e mais outra longa lista de potências econômicas).

E, quando as sanções falham pela primeira vez, e vêm as sanções; e as sanções falham, e vem a guerra; e, ainda depois da guerra, vêm mais e novas sanções... o absurdo é flagrante.

Nesse momento do processo, a política de guerra dos EUA evolui para a política de assassinatos dos EUA.

Talvez o propósito das sanções, das guerras que acompanham as sanções, e dos assassinatos que vêm subsequentes, não seja alcançar algum sucesso, nem provocar mudanças. Todo o programa é absurdo, mas repete-se tanto, tão pontualmente, há tanto tempo, que tem de haver alguma explicação. Uma possibilidade para chegar a alguma explicação razoável talvez se possa extrair de um exame atento do sistema penal americano.

Roger Williams
Toda sociedade tem cidadãos que, de tempos em tempos, põem em risco outros cidadãos. Eventualmente, esses indivíduos podem pôr em risco a própria existência da sociedade como tal. Em sociedades primitivas, esse pessoal daninho é ou extirpado ou banido ou exilado. Na infância histórica dos Estados Unidos, essa forma de punição foi usada pelos puritanos, quando exilaram Roger Williams (fundador de Rhode Island e da Primeira Igreja Batista). A teologia de Williams colocava em risco a unidade religiosa da sociedade puritana.

Sob vários aspectos, o atual sistema penal é mais duro e desumano com os inconformados, que a antiga pena de exílio. Mas o problema é que vai ficando cada dia mais difícil encontrar lugares para onde exilar alguém; e acabou por prevalecer o sistema penal atualmente vigente, de encarceramento. E tudo se complicou muito.

Em vez de simplesmente remover cidadãos que apresentam perigo para a sociedade, o povo começou a usar as próprias prisões como forma de punição: isso, precisamente, é o que são as prisões como as conhecemos hoje. Quando a vítima (ou o juiz) diz: “quero que seja feita a justiça” ele/ela está dizendo que quer que o criminoso “pague”. Então, os perpetradores de crimes pagam o preço de se deixar aprisionados pela sociedade; e a sociedade paga o preço de manter todo o sistema penal. É um preço pago tanto pelos criminosos, quanto pelos cidadãos que respeitam a lei. O intuito do sistema penal é meramente punitivo, independente do custo. Não há outra função.

Charge de Latuff
Nunca houve qualquer resultado favorável aos Estados Unidos oriundo das sanções contra Cuba e a Baía dos Porcos, mas isso não importa. O povo de Cuba está sendo punido há mais de meio século, por não se ter levantado em revolta e derrubado o governo de Castro em 1961. No Iraque, o povo iraquiano é castigado pelo governo Obama, pelas ações de Saddam Hussein. Assim também, o povo afegão está sendo punido porque o governo afegão não entregou Osama Bin Laden aos EUA quando lhe foi “ordenado”, para ser “julgado” por ter – supostamente – planejado o incidente de 11/9. Não importa que esse castigo tenha custado e continue a custar também muito caro aos Estados Unidos. O custo dos castigos não vem ao caso. Não apenas não é importante o custo da punição, como também é irrelevante que povo será punido...

O mundo ocidental continua, até hoje, a castigar os palestinos, pelo holocausto de judeus europeus assassinados por europeus da Europa ocidental!

Essa política não é exclusividade dos EUA

Os EUA só continuam a aplicar essa política “de sanções”, porque seus fracassos são anotados como sucessos. O princípio que rege essas operações “de sanções” é deixar claro que quem não “respeite’” (no sentido de “obedeça servilmente”) os EUA, desencadeará sobre a própria cabeça fúria tão violenta e avassaladora que faria tremer de medo o demônio.





[*] John Kozy é professor aposentado de Lógica e Filosofia, que escreve sobre questões sociais, políticas e econômicas. Depois de servir no exército dos EUA durante a guerra da Coréia, viveu 20 anos como professor universitário e outros 20 como escritor. Seus trabalhos online podem ser encontrados no blog.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Violência: “The American Way of Life”

15/11/2013 e 12/1/2013, [*] John Kozy - Global Research
Traduzido por João Aroldo

Matando + matando = Segurança?
Os EUA foram concebidos e criados pela violência.

Os americanos não só participam da violência, eles se divertem com ela.

Assassinatos ocorrem nos EUA em média 87 vezes por dia. Ir à guerra no Afeganistão é menos perigoso do que viver em Chicago.

Os romanos iam ao Coliseu para assistir pessoas morrerem. Nas grandes cidades, os americanos só precisam olhar pela janela. O beisebol, que já foi o esporte nacional americano, um esporte benigno e soporífero, foi substituído pelo futebol americano que é tão violento que destrói o cérebro dos jogadores. Filmes violentos, eufemizados como filmes de ação, dominam nossos cinemas e aparelhos de TV. Nossas crianças jogam videogames de matança.

Então você acha mesmo que o controle de armas vai miraculosamente tornar os EUA uma nação tranquila? Você acha mesmo que proibir produtos e práticas vai tornar os americanos amantes da paz? Uma cultura não pode ser mudada por leis, a mudança necessita de esforço consistente ao longo de várias gerações. Será que os americanos são capazes disso?
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Carrie Nation
Carry Amelia Moore Nation nasceu em 25 de novembro de 1846. Tornou-se um membro radical do movimento de temperança, que se opunha ao consumo de álcool. Descrevia-se como “um buldogue correndo aos pés de Jesus, latindo para o que Ele não gosta”, e alegou uma ordenação divina para promover a temperança ao destruir bares.

Ela começou seu trabalho de temperança em Medicine Lodge, Kansas ao formar um ramo local da Woman’s Christian Temperance Union e fazer campanha para a proibição da venda de bebidas alcoólicas no Kansas.

Ficou famosa por vandalizar tavernas. Frequentemente acompanhada de mulheres cantando e músicos, ela marchava até um bar, cantando e rezando enquanto quebrava a mobília e o estoque do bar com um machado. Entre 1900 e 1910 ela foi presa por volta de 30 vezes pelas “machadadas,” como ela as chamava. Morreu em 9 de junho de 1911 e foi enterrada em um túmulo não marcado em Belton, Missouri.

A Woman’s Christian Temperance Union depois colocou uma pedra com a inscrição “Fiel à Causa da Proibição, Ela Fez o Que Pode”. Se ela tivesse vivido mais oito anos, teria visto a proibição tornar-se lei.

Mas, claro, isso não durou. A Lei Seca foi invalidada em 5 de dezembro de 1933. Durou apenas 14 anos. Não teve nenhum efeito benéfico na sociedade. De fato, ajudou a estabelecer o crime organizado nos EUA.

Mas os americanos não desistem tão fácil. Nessa sociedade anti-intelectual onde dizem que as pessoas precisam de mais cientistas, prevalecem as práticas não científicas. Aquilo que não funciona é repetido diversas vezes.

Richard Nixon
Então, em 1971, a administração Nixon declarou guerra às drogas. Agora, quase 50 anos depois, as trincheiras estão começando a desmoronar. Este longo esforço pela proibição também não funcionou, e também não teve nenhum efeito benéfico na sociedade. De fato, resultou na morte de milhares nos EUA e em outros países, arruinou inúmeras vidas de jovens, e desperdiçou grande quantidade de dinheiro.

Assim como a Lei Seca, alimentou a criação de cartéis criminosos internacionais.

Aquilo que as pessoas com inclinação científica abandonariam como ineficaz, os americanos colocaram em prática com vigor cada vez maior.

Poderíamos pensar que alguém reconheceria a loucura. Mas não, o povo está clamando novamente. Agora, quanto às armas.

Não me entenda mal. Eu não tenho armas; eu não posso pensar em alguma razão pela qual pessoas vivendo em um estado civilizado precisam de armas. As armas têm apenas um objetivo – matar! As pessoas em um estado civilizado não deveriam ter uma razão para fazer isso. Se as armas são necessárias para proteção pessoal, o estado fracassou em sua função primária de garantir a tranquilidade doméstica. (Leia a Constituição!)

Uma nação que não pode garantir nem isso falhou completamente. E o fato de que há aqueles que insistem em possuir armas nos EUA fala mais sobre eles e o fracasso da nação do que sobre as armas.

Mas mais uma tentativa de proibição é nada mais que uma tentativa emocional de se fazer alguma coisa, mesmo que seja algo que não terá qualquer efeito no nível de violência nos EUA.

Alguns se referiram às leis de controle de armas como atos “para se sentir bem”. Talvez, mas atos para se sentir bem são melhores que atos para se sentir mal, e não conheço alguma boa razão para se opor ao controle de armas. O que eu sou contra é a crença Poliana de que o controle de armas vai reduzir a violência na sociedade americana. As armas não são a causa dessa violência; a natureza violenta da sociedade norte-americana é a causa do namoro dos americanos com as armas.

Os EUA foram concebidos e criados pela violência. Os europeus que colonizaram os EUA não eram nem tolerantes nem esclarecidos; eles eram a escória da sociedade, e eles se desprezavam entre si.

Os puritanos totalmente impuros de Massachusetts desprezavam os quakers da Pensilvânia e os católicos de Maryland. Na Guerra de Pequot, colonos ingleses comandados por John Mason lançaram um ataque noturno a uma grande aldeia Pequot no rio Mystic e queimaram os habitantes nas suas casas e mataram todos os sobreviventes.

A Guerra de Pequot e o massacre do rio Mystic
Por estimativas conservadoras, a população dos EUA antes da colonização europeia era maior que 12 milhões. Quatro séculos depois, esse número foi reduzido para 237.000. Quatro séculos de violência contínua contra os americanos nativos; e a violência continua.

Abraham Lincoln, consagrado como o grande emancipador, libertou os escravos incitando uma guerra que matou algo em torno de 750 mil americanos. A emancipação veio aos escravos por violência inédita. Em contraste e, aproximadamente, na mesma época, o autocrático czar Alexandre II da Rússia emancipou mais de 23 milhões de servos sem matar uma única pessoa.

Oh, esses horríveis czares russos!

Rifle Winchester modelo 1873, calibre .44
Após a Guerra Civil, os americanos levaram as fronteiras da América até o Oceano Pacífico. Fizeram isso com armas.

Colt Peacemaker .45 
O rifle de repetição Winchester modelo 1873 e o revólver Colt Peacemaker são coloquialmente conhecidos como “as armas que conquistaram o Oeste”, por seus papéis predominantes nas mãos dos colonizadores ocidentais. Os americanos abriram o caminho à bala doMississippi ao Pacífico.

A política externa americana durante décadas consistia principalmente de desventuras militares – política externa pelas armas!

Hoje, a arma tornou-se o drone e a bala, o míssil Hellfire.

O general Smedley Butler (1881-1940), um dos dois únicos americanos a ganhar a medalha de honra em duas ocasiões distintas, escreveu:

Smedley Butler
Passei a maior parte do meu tempo sendo um capanga de alta classe para os grandes negócios, para Wall Street e os banqueiros.

Em suma, eu era um escroque, um gângster para o capitalismo...

Ajudei a tornar o México, especialmente Tampico, seguro para os interesses petrolíferos americanos em 1914.

Ajudei a fazer do Haiti e Cuba um lugar decente para os rapazes do National City Bank para coletarem os lucros.

Ajudei no estupro de uma meia dúzia de repúblicas da América Central para o benefício de Wall Street.

Ajudei a purificar a Nicarágua para a casa bancária internacional Brown Brothers em 1909-1912.

Eu trouxe luz para a República Dominicana para os interesses açucareiros americanos em 1916.

Na China, eu ajudei a fazer com que a Standard Oil seguisse seu caminho sem ser molestada.

Agora, é claro, estamos usando as armas para tornar o Oriente Médio e o Sudeste Asiático “seguros para a democracia”.

Mas essa tentativa não está dando certo.

A violência permeia essa cultura. Os americanos não só participam da violência. Eles se divertem com ela. Assassinatos ocorrem nos EUA em média 87 vezes por dia.

Ir à guerra no Afeganistão é menos perigoso do que viver em Chicago. Os romanos iam ao Coliseu para assistir pessoas morrerem. Nas grandes cidades, os americanos só precisam olhar pela janela.

O beisebol, que já foi o esporte nacional americano, um esporte benigno e soporífero, foi substituído pelo futebol americano que é tão violento que destrói o cérebro dos jogadores.

Filmes violentos, eufemizados como filmes de ação, dominam nossos cinemas e aparelhos de TV. Nossas crianças jogam videogames de matança.

Você acha mesmo que o controle de armas vai fazer dos EUA uma nação mais tranquila? Você acha mesmo que proibir produtos e práticas vai tornar os americanos mais pacíficos?

Drones com mísseis Hellfire. Matam pessoas indiscriminadamente em outros países
Uma cultura não pode ser mudada por leis; a única função da lei é justificar a vingança. Nenhuma lei em toda a história mundial eliminou as práticas que ela deveria reduzir. A profissão mais antiga era ilegal desde o começo da história registrada. Ela ainda continua.

A verdade é que uma sociedade baseada na lei é uma sociedade sem lei.

A sociedade americana é violenta não por causa das armas, mas por causa das atitudes dos americanos.

Quando os primeiros europeus vieram às Américas, eles achavam que tinham descoberto um novo mundo. Ao invés disso, eles encontraram uma terra já habitada por pessoas com seus próprios modos de vida. A intolerância cristã precisava do uso da violência. Assim como os romanos tomaram partes da Europa que eles queriam, esses europeus tomaram as Américas. A violência estava em suas almas. Os americanos atuais herdaram isso.

Wayne LaPierre, um porta voz da National Rifle Association, disse:

A única coisa que para um cara mau com uma arma é um homem de bem com uma arma.

Wayne LaPierre
Alguém deveria dizer a ele que muitos o consideram um cara mau com uma arma.

Então, claro, façam leis para controlar a proliferação de armas, mas não fiquem otimistas quanto ao resultado. Tais leis podem ajudar, mas não contem com isso. A menos que você possa mudar o caráter americano, nossa natureza violenta vai continuar até exterminarmos a nós mesmos.

Viver pela… Oh, você sabe como isso termina.

As culturas são difíceis de se mudar; mudá-las necessita de esforço contínuo por várias gerações. Duvido que os americanos sejam capazes disso.
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[*] John Kozy é um professor aposentado de filosofia e lógica que escreve sobre questões sociais, políticas e econômicas. Depois de servir no Exército dos EUA durante a Guerra da Coréia, passou 20 anos como professor universitário e outros 20 anos de trabalho como escritor. Publicou um livro de lógica formal no comércio, em revistas acadêmicas e um pequeno número de revistas comerciais, e tem escrito uma série de editoriais, como convidado, para jornais. Seus artigos podem ser encontrados em seu sítio na internet. 

domingo, 18 de setembro de 2011

O triunfo do capitalismo: empregos zero

18/9/2011, John Kozy, Global Research
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

O governo Obama está empenhado em aplicar princípios do lado da oferta, para tirar a economia dos EUA da atual recessão, mas princípios do lado da oferta baseiam-se na crença de que, se o governo cortar impostos dos mais ricos, os mais ricos investirão sua riqueza em novas fábricas, que novas contratações de empregados aumentarão as taxas de emprego; e que, assim, com maior número de empregados, a arrecadação aumenta. Mas não há nenhuma garantia de que os mais ricos realmente invistam sua riqueza em empresas produtivas, sobretudo nos EUA. 

Toda essa teoria baseia-se numa mera fé pop-psicológica segundo a qual, se se dá dinheiro a alguém, o alguém investirá produtivamente aquele dinheiro. Mas não há como obrigar os ricos a fazerem isso, eles não fazem, pior, nunca fizeram, de fato, porque criar empregos não é missão da empresa. Missão da empresa é fazer dinheiro, e obter incentivos do estado é, só, mais um jeito de fazer dinheiro. Dar dinheiro às empresas nunca porá fim a recessões e depressões. De fato, o mais provável é que as prolongue, porque nenhuma empresa jamais criará empregos se não estiver convencida de que criar empregos aumentará os lucros. 

Durante a Corrida do Ouro na Califórnia, os comerciantes só iam para os campos de garimpo depois de o ouro já ter sido descoberto, e saíam dos garimpos no instante em que o veio secava. Nunca usaram o capital que lá acumularam arrancado dos mineiros para abrir negócios produtivos que gerassem empregos para os garimpeiros que, no final, estavam desempregados. Nas economias capitalistas, o capital não existe para ser gasto em empreendimentos: ele existe para ser acumulado. A empresa não existe para criar empregos. A empresa só cria empregos se os novos empregos servirem aos seus objetivos de obter mais dinheiro.

A chamada “sabedoria convencional” é sempre perigosa. Na maioria das vezes, a sabedoria convencional está errada. Mas a sabedoria convencional pode ser classificada em dois grandes blocos: a sabedoria a favor e a sabedoria contra. Todas as manifestações de sabedoria convencional têm seus “do contra”, e, assim como toda a sabedoria convencional pode não passar de meras crenças, sem qualquer fundamento, as posições ‘do contra’ aquela sabedoria sem fundamento tampouco têm qualquer fundamento. 

Por exemplo, todos veem que a economia está desabando, mas muitos críticos parecem crer que os problemas que a economia enfrenta hoje sejam problemas novos. Nada disso. Esses são problemas muito antigos. A economia hoje pouco difere da economia dos anos 1600s, quando a economia chegou aos EUA, trazida da Inglaterra. Os horrores da economia da Inglaterra no século 17 são exatamente os mesmos da economia de hoje. A riqueza concentrada em poucas mãos, a miséria distribuída igualmente para muitos. Alta criminalidade em toda a sociedade. Desemprego generalizado, subempregos, empregos degradantes. A dignidade humana destruída. Famílias sem teto, fome e muitas guerras nas quais morrem muitos pobres em benefício dos comerciantes. Discriminação por todos os lados, de vários tipos. Governos que governam para os ricos, não para os pobres nem, sequer, para todos, que fosse. E, embora tenha havido curtos períodos em que o povo foi levado a acreditar que a vida estaria melhorando, esses períodos sempre acabaram em colapsos econômicos que consumiram todos os ganhos que as pessoas comuns tivessem tido.

As características universais dessa economia aparecem exemplificadas na seguinte historinha, plenamente histórica:

Dia 24/1/1848, James W. Marshall descobriu ouro em Sutter's Mill, Coloma, Califórnia.

Quando a novidade espalhou-se, centenas de milhares de pessoas correram para a Califórnia. No local onde o ouro fora descoberto, mineiros trabalharam juntos e ergueram um acampamento e declararam-se proprietários. Nasceram assim as vilas de Rough and Ready, Hangtown e Portuguese Flat, além de várias outras, e os comerciantes acorreram para lá em enxames, montaram negócios, logo construíram prédios, acampamentos, tendas e ali se passou a vender de tudo, bens e serviços. Os mineiros viviam em tendas, barracos, cabines arrancadas de barcos abandonados. Cada grupamento tinha seu próprio saloon e respectivo cassino. Mulheres de várias etnias desempenhavam diferentes funções, de prostitutas a empresárias single.

No início, o ouro jorrou fácil, “livre, para quem pegasse”. As disputas resolviam-se pessoal e violentamente. Quando a extração do ouro começou a ficar cada vez mais difícil, os americanos começaram a atrair estrangeiros para lá. O Senado Estadual aprovou então um imposto para mineiros estrangeiros, de 20 dólares por mês, e os norte-americanos que faziam prospecção de novos veios organizavam ataques contra os estrangeiros, sobretudo contra latino-americanos e chineses. Além disso, o grande número de recém-chegados expulsava norte-americanos nativos de suas áreas tradicionais de caça, pesca e reunião. Vários revidaram e atacaram mineiros. O que provocou retaliações. Os nativos foram muitas vezes massacrados. Os sobreviventes, incapazes de sobreviver, morriam de fome. Nativos morriam de catapora, gripe e rubéola, aos magotes. O Estado da Califórnia aprovou a Lei de Governo e Proteção aos Índios, que permitia que os colonos capturassem e usassem nativos como escravos. Permitia também o tráfico de força de trabalho de norte-americanos nativos, sobretudo de mulheres jovens e crianças – tráfico tratado como empresa comercial legal. Generalizou-se a caça a nativos, as vilas de nativos eram regularmente atacadas e saqueadas, mulheres e crianças capturadas para serem vendidas. Não era melhor a situação dos imigrados: morreu um em cada doze (as taxas de mortalidade e crime durante a Corrida do Ouro foram extraordinariamente altas e, correspondentemente, cresceu muito a obsessão com a segurança, que também matou muitos).

As técnicas hidráulicas de extração de ouro tornaram-se prevalentes. Subproduto delas, cresceram muito os depósitos de poluentes, metais pesados e outros, que foram, todos, parar nos rios e riachos. No século 21 ainda há áreas contaminadas pelos resíduos da mineração hidráulica do ouro, além de terras tornadas imprestáveis.

Os comerciantes ganharam muito mais dinheiro que os mineiros. O homem mais rico da Califórnia nos primeiros anos da Corrida do Ouro foi Samuel Brannan, incansável autopromotor, dono de lojas e de jornais. Cerca de metade dos que prospectavam ouro tiveram lucro modesto. Mas a maioria ou ganhou pouco ou perdeu dinheiro. Em 1855, o clima econômico mudara dramaticamente. Só se encontrava ouro a explorar com lucro mediante grandes empresas organizadas, com muitos trabalhadores que eram, ou sócios, ou empregados. Em meados dos anos 1850s, só os donos dessas grandes empresas de mineração ganhavam dinheiro. E quando os veios secaram, de vez, os comerciantes saíram de lá muito mais depressa que os mineiros. Foi o fim da corrida do ouro.

Já escrevi várias vezes sobre esses traços horrendos das economias capitalistas, especialmente sobre a sua abjeta imoralidade. Hoje, prefiro discutir uma falsidade óbvia que ainda se escuta, incansavelmente repetida, sobretudo por políticos da direita e seus parceiros, os economistas por profissão: todos esses vivem de dizer que as empresas, não os governos, criam empregos.

É ideia evidentemente falsa, e a generalização a torna perigosamente ambígua. O quê, precisamente, significa essa ideia, sobretudo se se sabe que os políticos que vivem a repeti-la consomem toneladas de dinheiro para gerar os empregos que as empresas absolutamente não geram?! Nenhuma empresa jamais criou os empregos de deputado, senador ou presidente. Que sentido faz que deputados, senadores e presidentes vivam a repetir que são as empresas, não os governos, que criam empregos? Não há mais completa estupidez, que essa.

A verdade é que a empresa não tem qualquer interesse e criar empregos. Basta considerar a historieta acima. Os comerciantes afluíram como enxame para os campos de mineração de ouro depois de o ouro ter sido descoberto e, como enxame, voaram para longe de lá, quando os veios secaram. Não usaram o capital lá acumulado para criar empregos para os mineiros e buscadores de ouro, quando desempregados. 

Nas economias capitalistas, o capital não existe para ser consumido: existe para ser acumulado. Empregados são simples meios para essa finalidade, e, se um empresário puder acumular capital sem usar empregados, ele o fará. É, em grande medida, o que acontece hoje nos EUA. Os empresários descobriram modos de acumular capital sem precisar dos trabalhadores norte-americanos e o governo muito ajudou os empresários a fazer exatamente isso.

Portanto, quando um político advoga que se deem incentivos fiscais a empresários, para induzi-los a criar empregos, esses políticos empenham-se num absurdo sem limites. Esse tipo de proposta só faz prover os empresários com uma ferramenta a mais para extrair dinheiro das pessoas comuns, sem sequer precisar negociar com elas, e o capital que os empresários obtêm desse modo apenas se soma aos depósitos no banco de acumulação de capital. Por que um empresário pensará em criar empregos e, simultaneamente, inventar riscos para o próprio capital? Supor que algum empresário algum dia usará aquele capital para criar empregos é a falácia da economia de oferta, a qual, aliás, baseia-se em nada além de alguma vaga pop-psicologia.

A economia de oferta baseia-se na crença de que se o governo reduzir impostos dos ricos, eles investirão suas economias em novas fábricas, nas quais se instalarão modernas tecnologias que produzirão bens a baixos custos, que empregados contratados farão subir as taxas de empregos , e que mais empregados farão aumentar a arrecadação. A economia puxar-se-á para cima, ela própria, puxando-se pelos cadarços dos próprios sapatos. Não acontece, não acontecerá e, com certeza, nunca aconteceu.

Toda essa teoria baseia-se numa mera fé pop-psicológica segundo a qual, se se dá dinheiro a alguém, o alguém investirá produtivamente aquele dinheiro. Mas não há como obrigar os ricos a fazerem isso, eles não fazem, pior, nunca fizeram, de fato, porque criar empregos não é missão da empresa. Missão da empresa é fazer dinheiro, e obter incentivos do estado é, só, mais um jeito de fazer dinheiro. Dar dinheiro às empresas nunca porá fim a recessões e depressões. De fato, o mais provável é que as prolongue, porque nenhuma empresa jamais criará empregos se não estiver convencida de que criar empregos aumentará os lucros.