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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Em Paris, a "intelligentsia" do silêncio

Thomas Wieder

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido, aqui na Vila Vudu: 
“Por aqui, artigo semelhante teria de levar o título de: 
“No Brasil, a burrítsia da falação da UDN-tucano-uspeana-sionista no Estadão, na Folha de S.Paulo, na Globo... [pano rápido].

Obnubilados pelo islamismo, incapazes de pensar uma democracia árabe, ou apenas ignorantes, os intelectuais fazem-se discretos sobre as revoltas em curso. Aplaudir, até aplaudem. Júbilo, até que há. Mas ninguém se mostra empolgado. A palavra de ordem é prudência. Face à contestação que agita o mundo árabe-muçulmano, os intelectuais franceses parecem dilacerados entre duas injunções contraditórias. Em geral lépidos para inflamarem-se quando um povo ergue-se contra a tirania, eis agora os intelectuais franceses, surpreendentemente discretos. “Esse silêncio ensurdecedor não é habitual”, reconhece o sociólogo Rémy Rieffel, autor de Intellectuels sous la Ve République [Os intelectuais na 5ª República] (Hachette, 1995). Mas explica-se, porque muitos de nossos intelectuais estão um pouco sem jeito.” 

“Sem jeito”, que seja. Eis, de fato, o que estaria perturbando os intelectuais franceses da hora. Para o filósofo Régis Debray, a explicação é clara: “E o que queriam ouvir desse pessoal que passa as férias em Marrakech ou em palácios na Tunísia ou no Egito?” A esse argumento, o autor de Pouvoir intellectuel en France [Poder intelectual na França] (Ramsay, 1979) acrescenta um segundo: “Estão mentalmente catatônicos, porque padecem de medo pânico do islamismo e não sabem o que pensar de movimentos populares que, mais cedo ou mais tarde, podem virar-se contra Israel”. 

Quase sempre em desacordo com Régis Debray, sobretudo na questão israelenses-palestinos, Alain Finkielkraut aproxima-se dele nesse ponto: “Digo ‘admiração’, mas digo também ‘vigilância’, porque o que se sabe hoje, especialmente, é que ninguém sabe o que surgirá disso tudo”. O filósofo, além do mais, distingue cuidadosamente os casos tunisiano e egípcio: “Na Tunísia, considerado o papel das mulheres e a compostura dos manifestantes, tudo faz crer que se trate de verdadeiro movimento democrático, que tirou Ben Ali do poder. No Egito é mais complicado: se se veem os ataques contra os coptas, se se sabe que o país vive há anos sob campanha anti-Israel e antissemita, se se lêem cartazes do tipo “Moubarak sionista” e se se sabe que o Irã se beneficia do que está acontecendo, não digo que se deva esperar o pior, mas que há motivo para estarmos preocupados, e que é preciso evitar avaliações definitivas.” 

Banir todos os “slogans simples”, eis a tarefa à qual se dedica Bernard-Henri Lévy. Mas para o filósofo (membro do conselho de supervisão do Monde), essa “indispensável consideração à complexidade da situação” não deve impedir o engajamento. Ao contrário. “Temos dois deveres”, explica o diretor da revista La Règle du Jeu. O primeiro é ajudar os democratas a levar avante sua aposta política e, isso, encorajando-os para que se engajem com clareza: a favor da liberdade de expressão, por exemplo; a favor do respeito ao pluralismo; e também, porque isso também é democracia, a favor do respeito ao Tratado de Paz Israel-Egito de 1979. O segundo dever é desejar que os movimentos democráticos estendam-se ao conjunto do mundo árabe-muçulmano.” 

Uma “timidez” legítima ligada, como resume o historiador Jean Lacouture, a uma modalidade de “incerteza quanto ao rumo dos acontecimentos” e ao “medo de ver triunfar os fundamentalismos”. É uma explicação positiva, a qual, pelo menos, honra, adornando-os com os trunfos da prudência, os intelectuais franceses contemporâneos. Mas há explicações menos honrosas, que também devem ser expostas.

Umas, consideram uma “cegueira” que acometeria alguns que se sentem culpados face aos regimes hoje contestados. É a tese de Olivier Mongin. Repetindo que "melhor Ben Ali que Ben Laden", e “melhor Mubarak que a Fraternidade Muçulmana”, muitos deixaram-se prender numa contradição: os mesmos que defendiam o respeito aos direitos humanos na Europa do Leste, estariam apoiando ditadores do mundo árabe sob o pretexto de que seriam escudos contra o islamismo. “A dificuldade, para os intelectuais é conceber os valores democráticos em culturas diferentes da sua”, explica o diretor da revista Esprit.

Na base desse moralismo de geometria tão mutável, Daniel Lindenberg identifica o que não hesita em chamar de “preconceito racista”. Autor de ensaio consagrado à deriva “neoconservadora” de parte da intelligentsia (Le Rappel à l’ordre [Chamado à ordem], Seuil, 2002), esse especialista em história das ideias vai direto ao ponto. “É preciso, infelizmente, dizer o que é: muitos intelectuais creem, no fundo deles mesmos, sinceramente, que os povos árabes são geneticamente atrasados e que só respondem à política do chicote.” 

Herdado do período colonial, esse preconceito foi reforçado depois do 11 de setembro. “Para muitos, é muito difícil sair da sequência iniciada em 2001 e marcada pelo credo neoconservador, para o qual o Islã seria sinônimo de terrorismo”, explica Daniel Lindenberg. Obcecados pelo medo da Xaria, foram apanhados ‘de calças curtas’, como se não tivessem sido programados para compreender que o que se passa, especialmente na Tunísia, é simplesmente uma “primavera dos povos”. 

Esse estado de “confusão mental” é percebido também por André Glucksmann. Para o filósofo, “a surpresa pela qual passam, como ele, muitos intelectuais, não é consequência apenas do fato de que todas as revoluções, por sua natureza, sempre surpreendem”. Aquela surpresa explica-se, mais fundamentalmente, pela “ideia de que tal sopro de liberdade parecia impossível no que se convenciona chamar de ‘mundo árabe’”. 

Para André Glucksmann, contudo, os eventos em curso devem conduzir-nos sobretudo a “separarmo-nos definitivamente de duas grandes teorias em voga logo depois da queda do muro de Berlim”. A primeira, chamada “do fim da história”, e divulgada em 1989 pelo politólogo norte-americano Francis Fukuyama, pretendia que “a modernização econômica implica a democratização”. A segunda, chamada “do choque das civilizações” e defendida em 1996 pelo politólogo norte-americano Samuel Huntington, tende a fazer do mundo islâmico um bloco monolítico hostil por natureza aos valores ocidentais. “O que hoje acontece no Egito lembra, por um lado, que um regime que se desenvolve economicamente (sic) não se democratiza necessariamente; e, por outro lado, que os árabes não são condenados pelo nascimento nem pela cultura ao despotismo”, explica André Glucksmann.

Intelectuais prisioneiros de esquemas de pensamento que os tornam pouco aptos a refletir sobre o novo? Para Henry Laurens, titular da cadeira de História Contemporânea do Mundo Árabe no Collège de France, o problema começa antes da queda do muro de Berlim. “Se os intelectuais midiáticos não têm grande coisa a dizer, é porque a maioria deles continua a raciocinar com categorias brotadas da Guerra Fria: analisam o totalitarismo islâmico como analisaram o totalitarismo soviético”. 

Destacando que “muitos, como Raymond Aron, souberam pensar a democracia liberal mas foram incapazes de pensar o terceiro mundo”, o historiador observa que “a discrição dos intelectuais ditos generalistas” não nos deve fazer esquecer “a força que ganham os especialistas”, também chamados pesquisadores especializados. “O mundo árabe”, explica ele, “é setor muito bem investigado pelos pesquisadores franceses. Mas é verdade que os ‘academics’, mesmo quando ultracompetentes em seus campos, tendem a ser reticentes quando se trata de tomar posição sobre áreas geográficas que não conhecem como a palma da mão. São os que se manifestam de modo quase sempre muito nuançado, e cujas vozes ouvem-se menos que as dos “grandes” intelectuais sempre prontos a deitar lições a torto e a direito.”  É um modo de dizer que as próprias mutações da própria cena intelectual, elas também, e não só alguma louvável circunspecção ou eventuais culpas ligadas a circunstâncias de momento, estariam levando os maîtres à penser franceses a se mostrarem tão discretos, dessa vez.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Julian Assange, homme de l’année pour “Le Monde”

Julian Assange, le co-fondateur de WikiLeaks, a été désigné par Le Monde homme de l'année 2010. Sylvie Kauffmann, directrice de la rédaction, explique ce choix :


Ci-dessous, un extrait du portrait que consacre Le Monde Magazine, dans son édition du 25 décembre, à Julian Assange :

Grand, mince, élégant, Julian Assange, fondateur et patron de WikiLeaks, s'impose d'abord à ses interlocuteurs comme un orateur talentueux, à la voix grave et posée, sachant manier la rigueur, l'humour, l'émotion, mais aussi le sarcasme. En le regardant travailler, on découvre un professionnel surdoué, ultra-performant : dès qu'il se lance dans un projet, il s'y consacre totalement, nuit et jour, jusqu'à épuisement.

Quand on lui demande ce qu'il fait exactement dans la vie, sa réponse est longue, mais précise : "Je suis militant, journaliste, programmeur de logiciels expert en cryptographie, spécialisé dans les systèmes conçus pour protéger les défenseurs des droits de l'homme." WikiLeaks, site consacré à la divulgation de documents confidentiels, est le fruit de ce mélange unique de compétences, acquises au cours d'une vie hors du commun.

Né en 1971 dans une petite ville d'Australie, Julian Assange eut une enfance nomade, car sa mère voyageait sans arrêt à travers le pays. A l'adolescence, il découvre les réseaux informatiques et devient hacker, et militant de la liberté d'expression sur Internet. A force de prendre des risques, il est arrêté et inculpé pour piratage, mais il s'en tire avec une amende.


POUR LA TRANSPARENCE INTÉGRALE

Sa vie privée est tout aussi mouvementée. A 18 ans, il se met en ménage avec une jeune fille. Le jeune couple a un enfant, mais se sépare peu après. Julian Assange se lance dans une bataille juridique pour la garde de l'enfant, qui se transforme en croisade contre les services sociaux australiens.

Parallèlement, il commence des études de maths et de physique, avant de revenir à l'informatique. Il devient programmeur, puis crée l'un des premiers fournisseurs d'accès Internet australiens. Dans le même temps, il parcourt le monde, et découvre des pays où la liberté de parole n'existe pas. Il en revient convaincu que la transparence intégrale est l'arme la plus efficace contre la tyrannie.

En 2006, il crée WikiLeaks, site crypté et sécurisé permettant à des internautes de dénoncer des scandales tout en restant anonymes. Très vite, il réussit à rassembler autour de lui une petite armée internationale de geeks et de journalistes bénévoles.

Début 2007, WikiLeaks est prêt. En quelques mois, il rencontre un succès inattendu dans le monde entier. La vie de Julian Assange bascule. Il devient d'abord un globe-trotter permanent, puis une star médiatique planétaire. En 2010, son combat change d'échelle quand il révèle des secrets militaires et diplomatiques appartenant aux Etats-Unis. Dès lors qu'il s'attaque à la première puissance mondiale, sa vie va se compliquer énormément.

Yves Eudes


La "une" du "Monde Magazine" daté 25 décembre.

La “une” du “Monde Magazine daté 25 décembre.  "Julian Assange, justicier (dé)masque". L’Australien fondateur du site de révélation WikiLeaks a été élu “homme de l’année” par la rédaction du Monde et par les internautes du Monde.fr. Retour sur le parcours hors norme de la personnalité la plus controversée de la planète.


Julian Assange

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enviado por MVM News

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Brésil : Marina Silva, l'ancienne disciple


Hors-série du "Monde" sur le Brésil, en vente jusqu'au 6 novembre, en kiosque (7,50 euros)
Hors-série du "Monde" sur le Brésil, en vente jusqu'au 6 novembre, en kiosque (7,50 euros)DR

Classée troisième (19,35% des voix) au premier tour de l'élection présidentielle brésilienne, la candidate écologiste, Marina Silva, va jouer un rôle clé pour le second tour, le 31 octobre, entre Dilma Rousseff, candidate du Parti des travailleurs (PT), arrivée en tête, dimanche, avec 46,9% des suffrages, et le social-démocrate José Serra (32,6%). Voici son portrait extrait du hors-série du Monde sur le Brésil publié avant le premier tour.

Elle se compare à une jaguatirica, l'ocelot d'Amazonie, ce chat sauvage "paisible et léger" mais qui attaque toutes griffes dehors, et "s'isole pour lécher ses plaies", avant de repartir à l'assaut. Marina Silva a la patience intrépide d'un félin. Douce, frêle et déterminée.

En mai 2008, la ministre brésilienne de l'environnement démissionne. Le président Lula, son aîné, son ami, ne l'appuie pas assez, explique-t-elle, dans son combat pour un développement durable. En 2009, elle quitte le Parti des travailleurs (PT) et rejoint le petit Parti vert (PV). Sous sa bannière, elle brigue la présidence de la République.

L'histoire de Marina Silva ressemble à celle de Lula. Issue d'une famille nombreuse et très pauvre, elle a, comme lui, pris en main son destin. Et avec peut-être encore plus de mérite, car elle est femme et métisse.

Elle naît en 1958 dans une petite communauté de seringueiros – les récolteurs de latex – de l'Etat amazonien d'Acre. Le sang portugais et celui des anciens esclaves se mêlent dans ses veines. Elle découvre le marxisme à l'université, devient professeur d'histoire, milite contre la dictature militaire et se lance dans l'action syndicale. Conseillère municipale, puis membre de l'Assemblée législative locale, elle devient à 35 ans la plus jeune sénatrice de l'histoire du Brésil.

LÂCHÉE PAR LULA
Marina Silva, candidate des Verts à l'élection présidentielle brésilienne, arrivée troisième au premier tour.
AFP/VANDERLEI ALMEIDA
Marina Silva, candidate des Verts à l'élection présidentielle brésilienne, arrivée troisième au premier tour.

Ministre, elle bataille contre les adeptes de la croissance à tout prix. Face à l'agrobusiness, elle tente de résister au soja transgénique. En vain. Elle réussit à réduire le rythme du déboisement de l'Amazonie. Mais lorsqu'elle prétend imposer à chaque projet le respect scrupuleux de l'environnement, elle s'aperçoit que Lula, sans le dire, la "lâche" et Marina Silva préfère tirer sa révérence.

Elle a pour atouts sa cohérence politique et sa rectitude morale. Elle évite toute attaque personnelle mais critique les partis qui n'ont pas, à ses yeux, compris la force de la "grande utopie du XXIe siècle" : le développement durable.

Mère de quatre enfants issus de deux mariages, Marina Silva est une personnalité complexe, politiquement progressiste et socialement conservatrice. Elle a pour handicap la faible influence du Parti vert, qui n'aura droit qu'à un temps d'antenne limité lors de la campagne officielle à la télévision. Les sondages ne lui promettent au mieux que 10 % des suffrages, mais sa présence dans la course contribue à faire de l'environnement l'un des grands thèmes de la campagne.

Jean-Pierre Langellier

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Brésil : les années Lula, une assez belle histoire

Le Financial Times le représente dans la figure du Christ rédempteur, la statue qui, du haut du mont Corcovado, domine la baie de Rio de Janeiro. Bras grands ouverts, protecteur, veillant pour l'éternité sur ses concitoyens. Aux Oscars d'Hollywood 2011, le film qui portera les couleurs du Brésil est un long-métrage retraçant sa vie : Lula, le fils du Brésil. A cette date, le président Luiz Inacio Lula da Silva aura quitté le pouvoir - quasi sanctifié, héros national, avec un taux de popularité record. L'élection présidentielle a lieu cet automne.


Dilma Rousseff, 62 ans, la candidate adoubée par Lula est donnée gagnante : portée par le soutien du "grand homme", elle pourrait l'emporter dès le premier tour, le 3 octobre. Elle entrera en fonctions en janvier. Ce sera la fin des "années Lula", ces deux mandats exercés à la tête de l'Etat par le chef du Parti des travailleurs, l'ancien patron du Syndicat de la métallurgie, huitième enfant d'une famille modeste, qui quitte l'école à 12 ans pour devenir cireur de chaussures, vendeur de cacahuètes puis tourneur dans une firme automobile à 14 ans. De cette adolescence en usine, le président Lula da Silva porte la marque : un doigt amputé - pas si fréquent dans la corporation.

C'est tout cela qui crée le mythe. Mais pas seulement. Si les années de la présidence Lula, 2002-2010, sont célébrées à plaisir, c'est parce que l'homme incarne un moment-clé dans l'histoire du pays : l'accès du Brésil au statut de grande puissance émergente. Avec la Chine, l'Inde et quelques autres, le Brésil est l'un de ces Etats qui modifient la carte de la répartition du pouvoir en ce début de XXIe siècle. Lula est le porte-drapeau de cette transformation, le passage de la puissance virtuelle - "le Brésil, ce pays d'avenir et qui le restera longtemps", disait-on au début du siècle dernier - à la puissance réelle.

C'est d'abord un succès économique. L'ancien chef du Syndicat des métallos "a eu l'intelligence de surfer sur la politique menée par son prédécesseur", explique Alfredo Valladao, professeur à Science Po et animateur du centre d'études Union européenne-Brésil. Lula parachève l'oeuvre du président Fernando Henrique Cardoso, l'homme de la stabilisation du real, la monnaie nationale : orthodoxie monétaire, privatisations, ancrage du pays dans la mondialisation. Réaliste mais fidèle à ses engagements, Lula y ajoute sa marque sociale : hausse du salaire minimum, bourse d'aide pour les familles les plus pauvres.

Huitième économie mondiale, le Brésil - 190 millions d'habitants - cumule une liste d'atouts proprement scandaleuse : richesses naturelles infinies, industrie diversifiée et, dans ce pays grand comme quinze fois la France, une exploitation de la terre qui en fait la première puissance agricole mondiale.

En seize ans - les mandats Cardoso et Lula -, la classe moyenne, déjà centrale, s'est accrue de 35 millions de personnes. L'économie s'appuie sur une forte demande intérieure ; elle peut résister aux chocs extérieurs. Elle est portée par une confiance dans l'avenir que transcrivent tous les sondages. Les Brésiliens sont optimistes pour leur pays, convaincus, à l'inverse des Européens ou même des Américains, que leurs enfants vivront mieux qu'eux. Cette assurance, c'est aussi Lula, grande gueule, sourire jovial, épaules de bûcheron, charme à revendre.

Lula prédit : "Le Brésil ne restera pas à l'écart du XXIe siècle, comme ce fut le cas au XXe." Fort du poids de son économie, le Brésil, comme ses compagnons du ticket de tête des puissances émergentes, la Chine et l'Inde, veut sa part de pouvoir politique dans l'arène internationale. Il réclame un siège de membre permanent au Conseil de sécurité de l'Organisation des Nations unies (ONU) ; plus de droits au Fonds monétaire international (FMI) ; la mort du G8, qui réunit les puissances les plus anciennes, celles du Nord, au profit de la pérennisation du G20, où des pays comme le Brésil, la Turquie et l'Indonésie jouent un rôle à la hauteur de leur importance économique.

Le Brésil veut peser sur les affaires du monde. Mais dans quel sens ? Ici, pas de naïveté, pour justifiée qu'elle soit, cette ambition ne doit pas être interprétée comme particulièrement altruiste ou généreuse. La diplomatie Lula est celle d'une puissance qui défend d'abord ses intérêts. Elle est le parfait reflet du comportement des émergents sur la scène internationale.

Les émergents sont, le plus souvent, libre-échangistes : à l'Organisation mondiale du commerce (OMC), le Brésil veut un nouveau round de libéralisation des échanges et peste contre le protectionnisme agricole de l'Europe. Les émergents sont souverainistes : rien n'est plus étranger à des pays comme le Brésil ou la Chine que l'idée d'un droit d'ingérence - fût-il humanitaire - qui viendrait empiéter sur le principe de la souveraineté des Etats. Et de cette position découle une autre : les émergents ne sont pas droits de l'hommistes , au sens où la défense de certains principes justifierait sinon d'enfreindre celui de la souveraineté des Etats, du moins d'être prudent dans le choix de ses amitiés.

C'est la face sombre des années Lula. Au nom d'une solidarité Sud-Sud, il copine avec l'Iranien Mahmoud Ahmadinejad au-delà de ce qu'imposerait la realpolitik ; au lendemain d'élections truquées, en fait transformées en putsch militaire par le même Ahmadinejad, il tonne, péremptoire, qu'il n'y a pas eu de fraude à Téhéran ; en visite à Cuba, bras dessus, bras dessous avec un autre barbu, il se moque de la grève de la faim observée par les prisonniers politiques du régime castriste - lui qui, un temps incarcéré par la dictature militaire brésilienne, mena aussi une grève de la faim...

C'est une leçon. Même présidée par Lula, une puissance émergente reste un Etat ; elle n'est pas une ONG.

Post-scriptum : Cette chronique emprunte honteusement au "Hors-série" du Monde, Brésil, un géant s'impose (98 pages, 7,50 €), en vente jusqu'en novembre, et qui doit beaucoup à Martine Jacot et à notre correspondant à Rio, Jean-Pierre Langellier.


Alain Frachon (Chronique "International")



Courriel : frachon@lemonde.fr.
extraído do jornal Le Monde 


TRADUÇÃO:





Lula é o porta-estandarte da transformação do Brasil de potência virtual para potência real 
Foto: Lula é o porta-estandarte da transformação do Brasil de potência virtual para potência real

O “Financial Times” o retratou como o Cristo Redentor, a estátua que, do alto do Corcovado, domina a baía do Rio de Janeiro. De braços abertos, protetor, zelando para sempre pelos brasileiros. Na premiação do Oscar 2011, o filme que representará as cores do Brasil é um longa-metragem que conta sua vida: “Lula, o filho do Brasil”. Até esse dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já terá deixado o poder – quase santificado, herói nacional, com um índice de popularidade recorde. A eleição presidencial acontecerá neste semestre.

Dilma Rousseff, 62, a candidata consagrada por Lula, está sendo dada como vencedora: levada pelo apoio do “grande homem”, ela poderá ganhar logo no primeiro turno, no dia 3 de outubro. Ela assumirá o cargo em janeiro. Será o fim dos “anos Lula”, os dois mandatos exercidos à frente do Estado pelo líder do Partido dos Trabalhadores, ex-líder do sindicato dos metalúrgicos, oitavo filho de uma família humilde, que deixou a escola aos 12 anos para se tornar engraxate de sapatos, vendedor de amendoins e depois torneiro mecânico na indústria automobilística aos 14 anos. Dessa adolescência passada em fábrica, o presidente Lula guarda a marca: um dedo amputado – não muito frequente na profissão.

Foi tudo isso que criou o mito. Mas não só isso. Se os anos da presidência Lula, 2002-2010, são celebrados desenfreadamente, é porque o homem está encarnando um momento-chave na história do país: o acesso do Brasil ao status de grande potência emergente. Juntamente com a China, a Índia e alguns outros, o Brasil é um dos Estados que estão modificando o mapa da distribuição do poder nesse início de século 21. Lula é o porta-estandarte dessa transformação, a passagem da potência virtual – “o Brasil, esse país do futuro e que continuará o sendo por muito tempo”, diziam no início do século passado – para potência real.

Primeiramente, é um sucesso econômico. O ex-líder do sindicato dos metalúrgicos “teve inteligência para aproveitar a onda da política conduzida por seu antecessor”, explica Alfredo Valladão, professor no Instituto Sciences Po e coordenador do centro de estudos União Europeia-Brasil. Lula aperfeiçoou a obra do presidente Fernando Henrique Cardoso, o homem da estabilização do real, a moeda nacional: ortodoxia monetária, privatizações, estabelecimento do país na globalização. Realista, mas fiel a seus compromissos, Lula somou a isso sua marca social: aumento do salário mínimo, bolsa de auxílio às famílias mais pobres.

Oitava economia mundial, o Brasil – 190 milhões de habitantes – acumula uma lista de trunfos impressionantes: riquezas naturais infinitas, indústria diversificada e, nesse país que tem 15 vezes o tamanho da França, um aproveitamento de terras que faz dele a principal potência agrícola mundial.

Em 16 anos – os mandatos FHC e Lula - , a classe média, já central, ganhou 35 milhões de pessoas. A economia se apoia em uma forte demanda interna e consegue resistir aos choques externos. Ela é levada por uma confiança no futuro apontada por todas as pesquisas de opinião. Os brasileiros estão otimistas em relação ao seu país; ao contrário dos europeus ou até mesmo dos americanos, eles estão certos de que seus filhos viverão melhor do que eles. Essa confiança também tem Lula, falastrão, de sorriso jovial, ombros de lenhador, charme para dar e vender.

Lula prevê: “o Brasil não ficará de fora do século 21, como foi o caso no século 20”. Fortalecido pelo peso de sua economia, o Brasil, assim como seus companheiros do topo das potências emergentes, a China e a Índia, quer sua parte de poder político na arena internacional. Ele briga por uma vaga de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU; por mais direitos no Fundo Monetário Internacional (FMI); pelo fim do G8, que reúne as potências mais antigas, as do Norte, em benefício da perpetuação do G20,onde países como o Brasil, a Turquia e a Indonésia exercem um papel à altura de sua importância econômica.

O Brasil quer ter peso sobre as questões do mundo. Mas em que sentido? Aqui, sem ingenuidade: por mais justificada que seja, essa ambição não deve ser interpretada como particularmente altruísta ou generosa. A diplomacia de Lula é a de uma potência que defende primeiramente seus interesses. É o perfeito reflexo do comportamento dos emergentes no cenário internacional. Os emergentes são, na maioria das vezes, adeptos do livre-comércio: na Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil quer uma nova rodada de liberalização do comércio e protesta contra o protecionismo agrícola da Europa. Os emergentes são soberanistas: nada é mais estranho a países como o Brasil ou a China do que a ideia de um direito de ingerência – ainda que humanitário – que passaria por cima do princípio da soberania dos Estados. E dessa posição advém outra: os emergentes não são adeptos dos direitos humanos, no sentido em que a defesa de certos princípios justificaria se não transgredir aquele da soberania dos Estados, pelo menos ser prudente na escolha de suas amizades.

É o lado sombrio dos anos Lula. Em nome de uma solidariedade Sul-Sul, ele mantém com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad uma relação de camaradagem além do que uma política real exigiria; no dia seguinte às eleições fraudadas, na verdade transformadas em golpe militar pelo mesmo Ahmadinejad, ele esbravejou, peremptório, que não havia ocorrido fraude em Teerã; em visita a Cuba, de braços dados com outro barbudo, ele fez pouco da greve de fome mantida pelos prisioneiros políticos do regime castrista – ele que, preso por um tempo pela ditadura militar brasileira, também fez greve de fome...

É uma lição. Mesmo presidida por Lula, uma potência emergente continua sendo um Estado; ela não é uma ONG.

Post Scriptum
Esta crônica foi inspirada na série especial do Le Monde, “Brasil, um gigante se impõe” (98 páginas, 7,50 euros), à venda até novembro, e que deve muito a Martine Jacot e a nosso correspondente no Rio de Janeiro, Jean-Pierre Langellier

Tradução: Lana Lim

enviado por MVM = News