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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

OccupyLSX analisa proposta da Prefeitura de Londres


2/11/2011, Occupy London Stock Exchange (OccupyLSX)
(Occupy Bolsa de Valores de Londres)  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O movimento Occupy London Stock Exchange (OccupyLSX) reuniu-se hoje com a Prefeitura de Londres, a pedido das autoridades londrinas: sete representantes do movimento OccupyLSX, entre os quais nosso advogado, Paul Ridge of Bindmans, e dois representantes da Prefeitura.

A Prefeitura disse que não faz objeção a que o acampamento continue até o Ano Novo, com a única condição que deixemos caminho aberto para os bombeiros ao longo da área à frente da Igreja St Paul – o que implica uma pequena diminuição na área do acampamento. Os representantes de OccupyLSX concordamos em levar a proposta para ser discutida e examinada na Assembleia Geral, antes de decidir o que faremos.

A Prefeitura de Londres pediu que representantes do movimento OccupyLSX voltassem a se reunir com as autoridades, dentro de uma semana, para comunicar o que a Assembleia decidir sobre o acampamento.

Tina Rothery, representante do movimento OccupyLSX naquela reunião, comentou:

“Foi maravilhoso. A Prefeitura de Londres mudou completamente de atitude. Agora, depois de termos recebido o apoio do Arcebispo e da Igreja St Paul, estamos vivendo um novo momento do nosso movimento. Há apenas alguns dias, a Prefeitura ameaçava invadir o acampamento e nos expulsar. Agora, já querem conversar. Seja como for, nada será decidido senão na Assembleia Geral, em discussão com todos, sem a presença da Prefeitura.

“Nosso movimento – e todos os movimentos Occupy em todo o mundo – luta por justiça social e democracia real, já. É muito bom ver que já não falam de nos atacar nem de nos processar, e queremos usar a oportunidade e o crescimento do movimento, que está ganhando influência, para atacar as desigualdades geradas pela crise financeira e os que causaram tudo isso”. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

David Harvey: “O capitalismo bestial ataca nas ruas”


David Harvey

 12-14/8/2011, David Harvey, Counterpunch
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


David Harvey é Professor Emérito do Graduate Center da City University of New York.
Pode ser encontrado através de sua página.

“Adolescentes niilistas e bestiais”. Foi como o Daily Mail apresentou-os: os jovens enlouquecidos, vindos de todas as vias da vida, que correram pelas ruas sem pensar,  desesperadamente atirando tijolos, pedras e garrafas contra os policiais, saqueando aqui, incendiando ali, levando as autoridades a uma também enlouquecida caçada de salve-se quem puder/agarre o que conseguir, enquanto os jovens iam alterando seus alvos estratégicos, saltando de um para outro.

A palavra “bestial” saltou-me à vista. Lembrou-me que os communards em Paris em 1871 foram mostrados como animais selvagens, como hienas, que mereciam ser (como foram, em vários casos) sumariamente executados, em nome da santidade da propriedade privada, da moralidade, da religião e da família. Mas em seguida a palavra trouxe-me outra associação: Tony Blair atacando a “mídia bestial”, depois de ter vivido por tanto tempo confortavelmente alojado no bolso esquerdo de Rupert Murdoch, até que Murdoch meteu a mão no bolso direito e de lá tirou David Cameron.

Evidentemente haverá o debate histérico de sempre entre os sempre prontos a ver a agitação das ruas como questão de pura, simples e imperdoável criminalidade, e os ansiosos por contextualizar eventos em termos de polícia incompetente; de eterno racismo e injustificada perseguição aos jovens e às minorias; de desemprego em massa entre os jovens; de pauperização incontrolável da sociedade; de uma política autista de austeridade que nada tem a ver com a economia e tudo tem a ver com a perpetuação e a consolidação da riqueza e do poder individuais. Haverá até quem condene o sem sentido e a alienação de tantos trabalhos e empregos e tal desperdício da vida de todos os dias, de tão imenso, mas desigualmente distribuído, potencial para o florescimento humano.

Se tivermos sorte, haverá comissões e relatórios que dirão tudo, outra vez, que já foi dito sobre Brixton e Toxteth nos anos Thatcher. Digo “sorte”, porque os instintos bestiais do atual primeiro-ministro parecem tender mais a mandar usar canhões d’água, a convocar a brigada do gás lacrimogêneo e a usar balas revestidas de borracha, ao mesmo tempo em que ele untuosamente pontifica sobre a perda da bússola moral, o declínio da civilidade e a triste deterioração dos valores da família e da disciplina entre os jovens sem lar.

Mas o problema é que vivemos em sociedade na qual o próprio capitalismo se tornou besta fera rampante. Políticos-feras mentem nos gastos, banqueiros-feras assaltam a bolsa pública até o último vintém, altos executivos, operadores de hedge funds e gênios do lucro privado saqueiam o mundo dos ricos, empresas de telefonia e cartões de crédito cobram misteriosas tarifas nas contas de todos, varejistas aumentam preços, por baixo do chapéu artistas vigaristas e golpistas aplicam seus golpes até entre os mais altos escalões do mundo corporativo e político.

Uma economia política de saqueio das massas, de práticas predatórias que chegam ao assalto à luz do dia, sempre contra os mais pobres e vulneráveis, os simples e desprotegidos pela lei – isso é hoje a ordem do dia. Alguém ainda crê que seja possível encontrar um capitalista honesto, um banqueiro honesto, um político honesto, um comerciante honesto ou um delegado de polícia honesto? Sim, existem. Mas só como minoria, que todos os demais consideram idiotas. Seja esperto. Passe a mão no lucro fácil. Fraude, roube! A probabilidade de ser apanhado é baixa. E em qualquer caso, há muitos meios para proteger a fortuna pessoal e impedir que seja tocada pelos golpes das corporações.

Tudo isso, dito assim, talvez choque. Muitos de nós não veem, porque não queremos ver. Claro que nenhum político atreve-se a dizer essas coisas e a imprensa só publicaria, se algum dia publicasse, para escarnecer de quem dissesse. Mas acho que todos os que correm pelas ruas agitando a cidade sabem exatamente a que me refiro. Estão fazendo o que todos fazem, embora de modo diferente – mais flagrante, mais visível, nas ruas. O thatcherismo despertou os instintos bestiais do capitalismo (o “espírito animal” do empreendedor, como o chamam timidamente) e, desde então, nada surgiu que os domasse. Destruir e queimar é hoje a palavra de ordem das classes dominantes, de fato, em todo o mundo.

Essa é a nova normalidade sob a qual vivemos. Isso deveria preocupar o presidente do inquérito que logo será nomeado. Todos, não só os jovens agitadores, devem ser chamados à falas. O capitalismo bestial deve ser levado a julgamento por crimes contra a humanidade, tanto quanto por crimes contra a natureza.

Infelizmente, isso é o que os agitadores nem veem nem exigem. Tudo conspira para nos impedir de ver ou exigir exatamente isso. Por isso o poder político tão facilmente se traveste na roupagem da moralidade e de uma razão repugnante, de modo que ninguém veja a corrupção nua e a irracional estupidez.

Mas há réstias de esperança e luz em todo o mundo. O movimento dos indignados na Espanha e na Grécia, os impulsos revolucionários na América Latina, os movimentos camponeses na Ásia, todos esses começam a ver através da imundície que o capitalismo global, predatório, bestial lançou sobre o mundo. O que ainda falta para que todos vejamos e comecemos a agir? Como se poderá começar tudo outra vez? Que rumo tomar? As respostas não são fáceis. Mas uma coisa já se sabe: só chegaremos às respostas certas, se fizermos as perguntas certas.

sábado, 26 de março de 2011

LONDRES: A rua em marcha - “São multidão, na rua, hoje, em Londres”

Alan Jones

26/3/2011, Alan Jones, The Independent, UK
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Protesto de massa agita hoje as ruas de Londres contra “os cortes de austeridade” que o governo planeja impor nos gastos públicos, no que todos estimam que já seja o maior movimento de massas há anos, e que traz dura mensagem ao governo Cameron. (...)

Estimava-se que cerca de 100 mil ativistas sindicalistas e outros grupos viessem à rua, hoje em Londres, mas já está claro que esse número foi largamente ultrapassado: centenas de milhares de manifestantes, de todo o país, vieram a Londres.

As primeiras estimativas falam de pelo menos 250 mil manifestantes que tomavam o centro de Londres, mesmo antes do início da marcha.


Members of the public attend a mass rally in Hyde Park
Passeata em Londres - ontem, 25 de março de 2011 
Um primeiro grupo de centenas de sindicalistas interrompeu o tráfico no centro comercial da cidade. A marcha começou com fogos de artifício e rojões, quando a multidão começou a deslocar-se de Piccadilly Circus para Oxford Street e Regent Street.

Na Bond Street, houve confronto entre um grupo de manifestantes e a polícia.

Uma agência do Royal Bank of Scotland foi atacada com garrafas de vidro e restos de comida.

Muitos manifestantes cobriam o rosto com lenços e levavam bandeiras vermelho-pretas.

Gritavam “a rua é nossa” e carregavam cartazes com “não aos cortes!” 

Uma linha de 50 policiais foi obrigada a recuar e dispersou, sobrepujada pela massa de manifestantes.

Muitas lojas fecharam, tentando resistir ao avanço de manifestantes vestidos de negro dos pés à cabeça, que forçavam as vitrines e portas.

O grupo desceu por Topshop até a Oxford Street, quebrando janelas e lançando bexigas carregadas de tinta.

Muitos cantavam “paguem os impostos que nos faltam”, enquanto a polícia tentava proteger lojas de roupa e vitrines.

Dave Prentis, secretário-geral da Unison, disse à Press Association que o número de manifestantes “é absolutamente gigantesco e mostra o estado de espírito dos trabalhadores, furiosamente contra os cortes que o governo deseja nos impor”.

Enquanto esperava que a marcha chegasse ao ponto onde estava, para inserir-se na linha de frente dos manifestantes, acrescentou: “Esperávamos muita gente, porque só a Unison organizou 500 ônibus e vários trens especiais para trazer gente que se inscreveu. Mas o que se vê aqui é simplesmente inacreditável”.

The march sets off from Embankment
Impressionante manifestação em Londres, ontem, 25 de março de 2011
“São famílias inteiras, trabalhadores comuns, muitos trouxeram os filhos, para dizer alto e claro a David Cameron que suspenda esses cortes inadmissíveis que estão provocando o fim de dezenas de milhares de empregos e o fechamento de serviços públicos essenciais, entre os quais bibliotecas, hospitais e postos de saúde”.

Os manifestantes começaram a chegar a Londres horas antes da marcha, o que converteu o Embankment num mar de bandeiras e cartazes, muitos balões e discursos, que encheram completamente as margens do Tâmisa.

Bandas, músicos, coros, artistas e bailarinos tocavam, cantavam e dançavam à frente da marcha, e dezenas de milhares de pessoas, muitos trazendo crianças sobre os ombros ou no colo, crianças pequenas e crianças maiores, que tocavam cornetas e apitos, enquanto, pacientemente, andavam pelo centro de Londres em direção ao Hyde Park.

O líder do partido Labour (Trabalhista), Ed Miliband, ainda dava retoques no discurso que faria, instantes antes de começar a falar.

Ed Balls, “Shadow chancellor”, foi vaiado por alguns manifestantes, quando se apresentou para falar com os líderes sindicalistas que abriam a marcha, logo pela manhã.

Disse que o partido Labour está decidido a continuar a trabalhar contra os cortes nos gastos públicos e a favor de que se criem mais empregos e construam-se mais casas, se voltar ao poder.

A multidão respondeu: “E o que você fará por nós, Ed?” 

Len McCluskey, secretário-geral de Unite, estimou em meio milhão de pessoas o número de manifestantes.

“É incrível. Nunca antes se viu tanta gente em manifestação contra o governo. Dessa vez, o governo não conseguirá fingir que não nos viu”.

Riot police stand in front of a burning barricade during clashes with protesters
Manifestantes provocaram pequenos incêndios e depredaram lojas
Centenas de policiais postaram-se à frente do Parlamento, por trás de uma barreira de placas de metal, quando a marcha passou por ali e seguiu para Whitehall, onde, ano passado ocorreram cenas de violência em manifestações estudantis.

Peter Keats, 54, de Lowestoft, Suffolk, já festejava o sucesso da manifestação, quando ainda estava chegando gente, às 11h30. Erguendo uma taça de vinho branco, disse: “Brindo ao sucesso da manifestação e brindo às pessoas que saíram às ruas”. 

“A imprensa está falando de 100 mil pessoas, mas há muito mais. Espero que chegue a meio milhão. Espero que o governo comece a ouvir o que tanta gente tem a dizer”. 

Mr Keats, que trabalha para Jobcentre Plus, acrescentou: “Pessoalmente, acho errado o modo como os pobres estão sendo sacrificados. Nem me preocupo muito comigo, mas meus clientes estão cada dia mais vulneráveis e preocupo-me com eles e com os filhos deste país.” 

Alan Dowling, 40, trabalha para a UK Border Agency em Sheffield. Disse que os cortes o levaram a sair de casa para participar da marcha. Disse que teve de sair de casa às 4h40 da madrugada, para chegar a Londres a tempo.

“Outro dia, o ministro da imigração disse, pela TV, que temos de fazer mais. Como podemos fazer mais, se nos tiram pessoal, se cortam verbas, se cortam empregos?”, perguntou. (...)

Keith Williamson, 55, professor no Shelley College, Huddersfield, disse: “O governo diz que não há cortes na educação, mas é mentira. Estamos ameaçados de perder vários alunos, porque eles perderão as bolsas de manutenção, sem as quais não poderão continuar os estudos.” 

Cerca de 50 gurkhas uniram-se à manifestação, em apoio às subvenções. 

Ragprasad Purja, 44, gurkha do Nepal, que vive em Morden, sul de Londres, disse: “Os gurkhas lutam por esse país há 200 anos. Os cortes nos benefícios afetarão muitos de nós. Os cortes têm de parar”. 

Mais de uma hora depois do início da marcha, ainda estava chegando gente. Richard Evans, 46, andou 166 milhas, de Cardiff, para unir-se à manifestação. “Queria encorajar as pessoas a tomar um ônibus e vir. Acho que o melhor modo de fazer isso, é dar o primeiro passo”. Mr. Evans partiu de Cardiff sábado passado, e chegou a Londres na noite de 6ª-feira, em torno das 20h. Mr. Evans, que lamentou apenas que “meus pés estão muito doloridos”, agradeceu as pessoas que o acompanharam por trechos da caminhada e os muitos que o estimularam pelo Facebook.