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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dilma Rousseff, Presidenta do Brasil, país membro do BRICS, é próximo alvo de Washington

18/11/2014, [*] F. William Engdahl, NEO – New Eastern Outlook
Traduzido por Renato Guimarães e distribuído p/ Vila Vudu

O porquê do terceiro turno...
Para ganhar o segundo turno das eleições contra o candidato apoiado pelos Estados Unidos, Aécio Neves, em 26 outubro de 2014, a presidenta recém-reeleita do Brasil, Dilma Rousseff, sobreviveu a uma campanha maciça de desinformação do Departamento de Estado estadunidense. Não obstante, já está claro que Washington abriu uma nova ofensiva contra um dos líderes chave do BRICS, o grupo não alinhado de economias emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Com a campanha de guerra financeira total dos Estados Unidos para enfraquecer a Rússia de Putin e uma série de desestabilizações visando a China, inclusive, mais recentemente, a Revolução dos Guarda-Chuvas financiada pelos Estados Unidos em Hong Kong, livrar-se da presidente socialmente propensa do Brasil é uma prioridade máxima para deter o polo emergente que se opõe ao bloco da Nova (des)Ordem Mundial de Washington.

A razão por que Washington quer se livrar de Rousseff é clara. Como presidente, ela é uma das cinco cabeças do BRICS que assinaram a formação do Banco de Desenvolvimento do BRICS, com capital inicial autorizado de 100 bilhões de dólares e um fundo de reserva de outros 100 bilhões de dólares. Ela também apoia uma nova Moeda de Reserva Internacional para complementar e eventualmente substituir o dólar. No Brasil, ela é apoiada por milhões de brasileiros mais pobres, que foram tirados da pobreza por seus vários programas, especialmente o Bolsa Família, um programa de subsídio econômico para mães e famílias da baixa renda. O Bolsa Família tirou uma população estimada de 36 milhões de famílias da pobreza através das políticas econômicas de Rousseff e de seu partido, algo que incita verdadeiras apoplexias em Wall Street e em Washington.

Líderes dos países BRICS

Apoiado pelos Estados Unidos, seu rival na campanha, Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), serve aos interesses dos magnatas e de seus aliados de Washington.

O principal assessor econômico de Neves, que se tornaria Ministro da Fazenda no caso de uma presidência de Neves, era Armínio Fraga Neto, amigo íntimo e ex-sócio de Soros e seu fundo hedge Quantum. O principal conselheiro de Neves, e provavelmente seu Ministro das Relações Exteriores, tivesse ele ganhado as eleições, era Rubens Antônio Barbosa, ex-embaixador em Washington e hoje Diretor da ASG em São Paulo.

A ASG é o grupo de consultores de Madeleine Albright, ex-Secretária de Estado norte-americana durante o bombardeio da Iugoslávia em 1999. Albright, dirigente do principal grupo de reflexão dos Estados Unidos, o Conselho sobre Relações Exteriores, também é presidente da primeira ONG da “Revolução Colorida” financiada pelo governo dos Estados Unidos, o Instituto Democrático Nacional (NDI). Não é de surpreender que Barbosa tenha conclamado, numa campanha recente, o fortalecimento das relações Brasil-Estados Unidos e a degradação dos fortes laços Brasil-China, desenvolvidos por Rousseff na esteira das revelações sobre a espionagem norte-americana da Agência Nacional de Segurança (NSA) contra Rousseff e o seu governo.

Surgimento de escândalo de corrupção

Durante a áspera campanha eleitoral entre Rousseff e Neves, a oposição de Neves começou a espalhar rumores de que Rousseff, que até então jamais fora ligada à corrupção tão comum na política brasileira, estaria implicada num escândalo envolvendo a gigante estatal do petróleo, a Petrobras. Em setembro, um ex-diretor da Petrobras alegou que membros do governo Rousseff tinham recebido comissões em contratos assinados com a gigante do petróleo, comissões estas que depois teriam sido empregadas para comprar apoio congressional. Rousseff foi membro do conselho de diretores da companhia até 2010.

Agora, em 2 de novembro de 2014, apenas alguns dias depois da vitória arduamente conquistada por Rousseff, a maior firma de auditoria financeira dos Estados Unidos, a Price Waterhouse Coopers se recusou a assinar os demonstrativos financeiros do terceiro trimestre da Petrobras. A PWC exigiu uma investigação mais ampla do escândalo envolvendo a companhia petrolífera dirigida pelo Estado.

Dilma Rousseff
A Price Waterhouse Coopers é uma das firmas de auditoria, consultoria tributária e societária e de negócios mais eivadas de escândalos dos Estados Unidos. Ela foi implicada em 14 anos de encobrimento de uma fraude no grupo de seguros AIG, o qual estava no coração da crise financeira norte-americana de 2008. E a Câmara dos Lordes britânica criticou a PWC por não chamar atenção para os riscos do modelo de negócios adotado pelo banco Northern Rock, causador de um desastre de grandes proporções na crise imobiliária de 2008 na Grã-Bretanha, cliente que teve que ser resgatado pelo governo do Reino Unido. Intensificam-se os ataques contra Rousseff, disto podemos ter certeza.

A estratégia global de Rousseff

Não foi apenas a aliança de Rousseff com os países do BRICS que fez dela um alvo principal da política de desestabilização de Washington. Sob seu mandato, o Brasil está agindo com rapidez para baldar a vulnerabilidade à vigilância eletrônica norte-americana da NSA .

Dias após a sua reeleição, a companhia estatal Telebras anunciou planos para a construção de um cabo submarino de telecomunicações por fibra ótica com Portugal através do Atlântico. O planejado cabo da Telebras se estenderá por 5.600 quilômetros, da cidade brasileira de Fortaleza até Portugal. Ele representa uma ruptura maior no âmbito das comunicações transatlânticas sob domínio da tecnologia norte-americana. Notadamente, o presidente da Telebras, Francisco Ziober Filho, disse numa entrevista que o projeto do cabo será desenvolvido e construído sem a participação de nenhuma companhia estadunidense.


As revelações de Snowden sobre a NSA em 2013 elucidaram, entre outras coisas, os vínculos íntimos existentes entre empresas estratégicas chave de tecnologia da informática, como a Cisco Systems, a Microsoft e outras, e a comunidade norte-americana de inteligência. Ele declarou que:

A questão da integridade e vulnerabilidade de dados é sempre uma preocupação para todas as companhias de telecomunicações.

O Brasil reagiu aos vazamentos da NSA periciando todos os equipamentos de fabricação estrangeira em seu uso, a fim de obstar vulnerabilidades de segurança e acelerar a evolução do país rumo à autossuficiência tecnológica, segundo o dirigente da Telebras.

Até agora, virtualmente todo tráfego transatlântico de TI encaminhado via costa leste dos Estados Unidos para a Europa e a África representou uma vantagem importante para espionagem de Washington.

Espionagem!

Reagindo aos vazamentos de Snowden, o governo Rousseff ordenou a extinção dos contratos com a Microsoft para serviços de e-mail com Outlook. Rousseff declarou na época que o gesto visava ajudar a “impedir possíveis espionagens”. Em vez disso, o Brasil está se nacionalizando com o seu próprio sistema de e-mail, denominado Expresso, desenvolvido pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), de propriedade do Estado. O Expresso já é utilizado por 13 dos 39 ministérios do país. O porta-voz do Serpro, Marcos Melo, declarou:

O Expresso está 100 por cento sob nosso controle.

Se verdadeiro ou ainda incerto, o fato é que sob Rousseff e de seu partido o Brasil está trabalhando para fazer o que ela considera ser o melhor para interesse nacional do Brasil.

A geopolítica do petróleo também é chave

O Brasil também está se livrando do domínio anglo-americano sobre sua exploração de petróleo e de gás. No final de 2007, a Petrobras descobriu o que considerou ser uma nova e enorme bacia de petróleo de alta qualidade na plataforma continental no mar territorial brasileiro da Bacia de Santos. Desde então, a Petrobras perfurou 11 poços de petróleo nesta bacia, todos bem-sucedidos. Somente em Tupi e em Iara, a Petrobras estima que haja entre de 8 a 12 bilhões de barris de óleo recuperável, o que pode quase dobrar as reservas brasileiras atuais de petróleo. No total, a plataforma continental do Brasil pode conter mais de 100 bilhões de barris de petróleo, transformando o país numa potência de petróleo e gás de primeira grandeza, algo que a Exxon e a Chevron, as gigantes do petróleo norte-americano, se esforçaram arduamente para controlar.

Em 2009, segundo cabogramas diplomáticos norte-americanos vazados e publicados pelo Wikileaks, a Exxon e a Chevron foram assinaladas pelo consulado estadunidense no Rio de Janeiro por estarem tentando, em vão, alterar a lei proposta pelo mentor e predecessor de Rousseff em seu Partido dos Trabalhadores, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, ou Lula, como ele é chamado.

Esta lei de 2009 tornava a estatal Petrobras operadora-chefe de todos os blocos no mar territorial. Washington e as gigantes estadunidenses do petróleo ficaram furiosos ao perderem controles-chave sobre a descoberta da potencialmente maior jazida individual de petróleo em décadas.

Dilma Rousseff e Joe Biden
Para tornar as coisas piores aos olhos de Washington, Lula não apenas afastou a Exxon Mobil e a Chevron de suas posições de controle em favor da estatal Petrobras, como também abriu a exploração do petróleo brasileiro aos chineses. Em dezembro de 2010, num dos seus últimos atos como presidente, ele supervisionou a assinatura de um acordo entre a companhia energética hispano-brasileira Repsol e a estatal chinesa Sinopec. A Sinopec formou uma joint venture, a Repsol Sinopec Brasil, investindo mais de 7,1 bilhões de dólares na Repsol Brasil. Já em 2005, Lula havia aprovado a formação da Sinopec International Petroleum Service of Brazil Ltd, como parte de uma nova aliança estratégica entre a China e o Brasil, precursora da atual organização do BRICS.

Washington não gostou

Em 2012, uma perfuração conjunta, Repsol Sinopec Brazil, Norway’s Stateoil e Petrobras, fez uma descoberta de importância maior em Pão de Açúcar, a terceira no bloco BM-C-33, o qual inclui Seat e Gávea, esta última uma das 10 maiores descobertas do mundo em 2011. As maiores do petróleo estadunidense e britânico absolutamente sequer estavam presentes.

Com o aprofundamento das relações entre o governo Rousseff e a China, bem como com a Rússia e com outros parceiros do BRICS, em maio de 2013, o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, veio ao Brasil com sua agenda focada no desenvolvimento de gás e petróleo. Ele se encontrou com a presidenta Dilma Rousseff, que havia sucedido ao seu mentor Lula em 2011. Biden também se encontrou com as principais companhias energéticas no Brasil, inclusive a Petrobrás.

Embora pouca coisa tenha sido dita publicamente, Rousseff se recusou a reverter a lei do petróleo de 2009 de maneira a adequá-la aos interesses de Biden e de Washington. Dias depois da visita de Biden, surgiram as revelações de Snowden sobre a NSA, de que os Estados Unidos também estavam espionando Rousseff e os funcionários de alto escalão da Petrobras. Ela ficou furiosa e, naquele mês de setembro, denunciou a administração Obama diante da Assembleia Geral da ONU por violação da lei internacional. Em protesto, ela cancelou uma visita programada a Washington. Depois disso, as relações Estados Unidos-Brasil sofreram um grave resfriamento.

Dilma e Lula

Antes da visita de Biden em maio de 2013, Dilma Rousseff tinha uma taxa de popularidade de 70 por cento. Menos de duas semanas depois da visita de Biden ao Brasil, protestos em escala nacional convocados por um grupo bem organizado chamado Movimento Passe Livre, relativos a um aumento nominal de 10 por cento nas passagens de ônibus, levaram o país virtualmente a uma paralisação e se tornaram muito violentos. Os protestos ostentavam a marca de uma típica “Revolução Colorida”, ou desestabilização via Twitter, que parece seguir Biden por onde quer que ele se apresente. Em semanas, a popularidade de Rousseff caiu para 30 por cento.

Washington enviara claramente um sinal de que Rousseff teria que mudar de curso ou enfrentar sérios problemas. Agora que ela ganhou a reeleição e derrotou os oligarcas bem financiados da direita e a oposição, está claro que Washington vai lançar mão de uma energia renovada para tentar se livrar de mais um líder do BRICS, numa tentativa cada vez mais desesperada de manter o status quo. Parece que o mundo já não se põe mais em prontidão como fez nas décadas passadas quando Washington dava suas ordens de marcha. O ano de 2015 será uma aventura não só para o Brasil, mas para todo o mundo.  


[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência naPrinceton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em Nova York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Eleições no Brasil: Marina Silva e a CIA-EUA é “caso” antigo

12/9/2014, [*]  Nil NikandrovStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

George Soros e Marina Silva
Marina Silva é atual candidata do Partido Socialista à presidência do Brasil. Em meados dos anos 1980s, ela já atraíra a atenção da CIA, quando frequentava a Universidade do Acre. Naquele momento, estudava marxismo e tornara-se membro do Partido Comunista Revolucionário, clandestino. Durou pouco aquele “compromisso”: ela rapidamente se transferiu para a “proteção do meio ambiente’ na Região Amazônica. Os serviços especiais dos EUA sempre tiveram interesse muito especial naquela parte do continente, na esperança de construírem meios para controlar a área no caso de emergência geopolítica.

CIA fez contato com Marina Silva. Não por acaso, em 1985 ela alistou-se no Partido dos Trabalhadores (PT), o que lhe abriu novas possibilidades de crescimento político.

Em 1994, Marina Silva foi eleita para o senado brasileiro, com fama de ativista apaixonada a favor da proteção ao meio ambiente. Foi quando começaram a circular informações sobre laços entre Marina Silva e a CIA. Em 1996, ela recebeu o Goldman Environmental Prize. [1]E recebeu inúmeras outras importantes condecorações: é praxe, quando se trata de “candidatos” que a CIA tem interesse em promover, que o “candidato” seja coberto de medalhas e condecorações.

Marina Silva serviu como Ministra do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até que, interessada em”‘voos mais altos” e, preterida, ela abandonou o Partido dos Trabalhadores e mudou-se para o Partido Verde, de início dedicada a protestar contra políticas ambientais apoiadas pelo PT. Foi realmente um choque, na política brasileira, que a ex-ministra tenha mudado tão completamente de lado, depois de quase 30 anos de atividade a favor do Partido dos Trabalhadores.

Marina Silva no Governo Lula
Nas eleições de 2010, a candidata da CIA obteve quase 20 milhões de votos, como candidata do Partido Verde; na sequência, para as eleições de 2014, aceitou lugar na chapa de Campos, como vice-presidenta, quando fracassaram seus esforços para criar seu “não partido”, mas “rede”, chamada “Sustentabilidade”. Dilma Rousseff, candidata do PT contra a qual se alinhavam já em 2010 todas as demais candidaturas, trazia planos para dar continuação às políticas independentes do presidente Lula. Nada disso interessava a Washington em 2010, como tampouco interessa hoje, em 2014.

Daquele momento até hoje, as relações entre Brasil e EUA só fizeram piorar, resultado do escândalo da espionagem & escutas clandestinas. A Agência de Segurança Nacional dos EUA espionou a presidenta Dilma Rousseff e membros de seu gabinete. A presidenta brasileira chegou a cancelar visita oficial que faria aos EUA, como sinal de protesto. Os EUA jamais apresentaram pedido de desculpas ou comprometeram-se a pôr fim às atividades de espionagem. A presidenta Dilma, então, agiu: denunciou as atividades da Agência de Segurança Nacional e da CIA dos EUA na América Latina e tomou medidas para aumentar a segurança nas comunicações e controle sobre representantes dos EUA ativos no Brasil. Obama não gostou.

As eleições presidenciais no Brasil estão marcadas para 5 de outubro de 2014. E Washington está decidida a fazer de Dilma Rousseff presidenta de mandato único. Não há dúvida alguma de que os serviços especiais já iniciaram campanha para livrar-se da atual governante brasileira. Começaram a agir com movimentos de protesto ditos “espontâneos”, que encheram algumas ruas e foram amplamente “repercutidos” na imprensa-empresa, nos quais os “manifestantes” pedem mudanças (aparentemente, qualquer uma, desde que implique “mudança de regime”) e o fim das “velhas políticas” [de fato, nenhuma política é ou algum dia será “mais velha” que o golpismo orquestrado pela CIA no Brasil e em toda a América Latina (NTs)]. Ouviram-se grupos de jovens em protestos contra a propaganda e os símbolos dos partidos políticos, especialmente do PT.

Alguma dúvida?
Não se sabe até hoje de onde surgiram os recursos com os quais Marina Silva começou a organizar sua “rede” Sustentabilidade. A nova “organização” visava a substituir os partidos tradicionais, que a candidata declarou “velhos”. Tendo obtido 19 milhões de votos, o que lhe valeu o 3º lugar nas eleições passadas, ela contudo não conseguiu cumprir todas as exigências legais para criar oficialmente sua nova “rede”. Até que a tragédia que matou Eduardo Campos e seis outras pessoas, perto de São Paulo, mês passado, deu a Marina Silva uma surpreendente segunda chance para tentar chegar à presidência do Brasil. Para conseguir ser a primeira mulher mestiça a chegar à presidência do Brasil, terá de derrotar a primeira mulher que chegou lá antes dela, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, PT; além o candidato Aécio Neves do PSDB, partido pró-business, que hoje amarga um 3º lugar nas pesquisas. A Casa Branca tem-se sentido frustrada.

Dia 13 de agosto de 2014, a campanha eleitoral presidencial no Brasil foi lançada em área de incerteza, quando um jato que conduzia o candidato do partido socialista, Eduardo Campos, tombou sobre bairro residencial de Santos, próximo de São Paulo. Morreram o candidato e seis outras pessoas, passageiros e da tripulação, no acidente que pode ter acontecido por causa do mau tempo, quando o Cessna preparava-se para pousar. As mortes geraram uma onda de comoção nacional, que provavelmente evoluirá para especulações sobre o efeito que terão nas eleições do próximo 5 de outubro de 2014. A presidenta Rousseff declarou três dias de luto oficial por Campos, ex-ministro do governo do presidente Lula. A aeronave passara por manutenção técnica regular e nenhum problema foi detectado. De estranho, só, que o gravador de vozes da cabine do avião não estava operando, o que gerou suspeitas. O gravador operara normalmente e gravara várias conversações na cabine, mas nada gravou no dia da tragédia. O avião já passara por vários proprietários (empresários norte-americanos e brasileiros, representantes de empresas de reputação duvidosa), antes de chegar à campanha dos candidatos Eduardo Campos e Marina Silva. 

Dilma Rousseff e Eduardo Campos
Para alguns comentaristas brasileiros e dos EUA, há forte probabilidade de que tenha havido um atentado, que resultou no assassinato de Eduardo Campos. Antes da tragédia, o avião foi usado pela agência antidrogas dos EUA, Drug Enforcement Administration (DEA). Enviados de antigos proprietários do avião tiveram acesso ao local do acidente, sob os mais diferentes pretextos. Difícil não conjecturar se teria havido agentes dos EUA por trás da tragédia. Mas ainda não se sabe exatamente sequer o que aconteceu. Saber quem fez, se algo foi feito,  demorará ainda mais.

O avião decolou do Rio de Janeiro, onde opera uma estação da CIA, em território do consulado dos EUA. Não há dúvidas de que aquele escritório é usado pela Agência. Talvez os serviços especiais do Brasil devessem dar atenção especial a personagens que rapidamente deixaram o país, imediatamente depois da tragédia em Santos. A morte de Eduardo Campos teve efeito instantâneo sobre a candidatura do Partido Socialista: Eduardo Campos jamais passara dos 9-10% de preferência nas pesquisas, mas Marina Silva rapidamente surgiu com 34-35%, na votação em primeiro turno. Agora, se prevê que a eleição seja levada para o segundo turno.

O principal problema de Marina Silva é que é sempre difícil entender quais seriam suas reais intenções e projetos. É uma espécie de “imprecisão” que se observa constantemente no discurso de candidatos promovidos pelos EUA. Marina Silva  mudou de lado, sempre muito dramaticamente, inúmeras vezes. Ao unir-se a Eduardo Campos, por exemplo, a candidata várias vezes se manifestou a favor de manter bem longe do Brasil as ideias de Chavez (Hugo Chavez – falecido presidente da Venezuela, conhecido pelas convicções socialistas e políticas de esquerda). Mas ela serviu ao governo do presidente Lula, conhecido e muito respeitado defensor do chavismo. (...)

BRICS
De fato, ao tempo em que a campanha avança e as eleições aproximam-se, Marina Silva vai-se tornando cada vez mais neoliberal. Já disse que não vê sentido em fazer dos BRICS um centro de poder multipolar, nem em apressar a implementação de medidas já decididas dentro do bloco, como criar um banco de desenvolvimento, um fundo de reserva, etc. Já manifestou “dúvidas” sobre o Conselho Sul-Americano de Defesa, e diz, em discussões com assessores íntimos, que quer dar menos atenção ao MERCOSUL e à UNASUL (União das Nações Sul-Americanas, união intergovernamental em que se integram duas uniões aduaneiras, o MERCOSUL e a Comunidade de Nações Andinas, como parte do processo de integração sul-americana). Para Marina Silva, mais importante é desenvolver relações bilaterais com os EUA.

Fato é que os brasileiros estão já habituados a quase 20 anos de progresso social no país, com os governos do presidente Lula e da presidenta Rousseff. A população é ouvida, as reformas acontecem, o que foi prometido está sendo construído, o Brasil vive tempos de estabilidade e de avanços.

Se Marina Silva chegar à presidência (George Soros, magnata norte-americano, investidor e filantropo, tem alimentado a campanha dela com quantidade significativa de fundos), deve-se contar com o fim de vários programas sociais e políticos, o que pode vir a gerar grave descontentamento popular. Há quem diga que os escritórios dos EUA no Brasil estão repletos de agentes dos serviços especiais, encarregados de “gerar” “protestos” naquele país.
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Nota dos tradutores:
[1] Conheça o Goldman Environmental Prize; além de Marina Silva, outro brasileiro recebeu esse prêmio, um “Carlos Alberto Ricardo”, fundador da ONG Instituto Socioambiental, em 1992.
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[*] Nil Nikandrov é um jornalista sediado em Moscou cobrindo a política da América Latina e suas relações com os EUA; crítico ferrenho das administrações neoliberais sobre as economias nacionais latino-americanas. Especializou-se em desmascarar os esforços feitos pela CIA e outros serviços de inteligência ocidentais para minar governos progressistas na América Latina. Autor de vários livros - tanto de ficção e estudos documentais - dedicados a temas latino-americanos, incluindo a primeira biografia em língua russa de Hugo Chávez.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Manifestantes brasileiros – “O assalto ao poder: com quem e contra quem?”

28/6/2013, Jean-Luc Mélenchon, Courrier du Blog
Le Brésil en question [*]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jean-Luc Mélenchon
No Brasil, um potente movimento popular e jovem invade as ruas. Não tenho, cá da minha mesa em Paris, a pretensão de que saberia o que se passa nesse momento no Brasil e de que eu teria a resposta política mais certa. Mas a prática que tenho daquele continente e meu trabalho sobre os eventos que ali se veem já há 15 anos me permitem, sem temeridade, propor alguns elementos à reflexão.

Mesmo visto de bem longe, salta aos olhos o conteúdo progressista do movimento, que exige melhores serviços públicos, protesta contra a corrupção e denuncia o jogo dos jornais e redes de televisão. Essas demandas formam o tripé de base dos primeiros passos de todas as revoluções cidadãs pelo mundo. Mas, no Brasil, esse movimento aparece sob governo de esquerda, da presidenta Dilma Rousseff.

O governo Dilma, depois do governo de Lula, é parte constitutiva da onda de revoluções democráticas que atravessaram o continente. E obteve vitórias brilhantes na luta contra a pobreza. Em período recente, Dilma Rousseff deu provas de coragem e de determinação, nas respostas que deu contra manobras do império norte-americano que obra para desestabilizar o país, naquela região. Deu provas de que vê com lucidez os limites da Europa atual em geral, apesar dos movimentos eurobéats [1] do grupo social-democrata de seu partido.

Rio de Janeiro (Pozzebon)
A proposição de Dilma, para responder positivamente ao movimento em andamento nas ruas foi, na minha avaliação, completa novidade na arte da gestão de situações insurrecionais. Foi, em minha opinião, resposta perfeitamente adaptada ao que é mais necessário no momento. Não o digo pensando no interesse do partido da presidente, nem, sequer, em sua presidência. Digo-o pensando do ponto de vista do país e do futuro revolucionário do processo para o qual os governos do PT abriram caminho em 2002. A presidenta propôs convocar uma Assembleia Constituinte. Que melhor via para refundar a sociedade política e repensar seus valores e objetivos, dando ao povo o meio pra se construir politicamente? Essa proposta foi engolida pelos protestos dos especialistas constitucionalistas conservadores cabeças-de-ovo brasileiros, por um lado. E, por outro lado, pelo tiroteio que a presidente recebeu, pelas costas, de seu próprio campo. Não haverá Assembleia Constituinte. Essa é a pior notícia de todas. Adiante, tentarei explicar-me melhor.

Antes disso, temos outra discussão a fazer: o movimento que cresce com palavras de ordem hostis ao governo de Dilma Rousseff exige todo o nosso empenho. É nosso dever intelectual analisá-lo com seriedade. Afinal, se trata de compreender o que se passa, para extrair lições e, com elas, conduzir nossa estratégia.

Na emergência desse processo quase insurrecional, sabe-se que se conjugam vários parâmetros e que é perda de tempo procurar alguma causa única. Dentre as várias causas, muitas são clara e pesadamente imputáveis ao próprio governo, ao sistema do Partido dos Trabalhadores (PT), à política produtivista e extrativista ainda seguida por vários setores decisivos. Mas, para produzir reflexão útil, acho que temos de nos propor novas perguntas, tão novas, pelo menos, quanto a situação. De nada nos servirá retomar os termos habituais: “eles” fizeram pouco, “eles” foram insuficientes”. Mudemos de cantoria.

Uma boa pergunta a propor, me parece, é “como o PT – se ainda houver tempo – pode repensar e encontrar, no movimento atual, algum elemento positivo para aprofundar o que o partido começava a ter, com Lula”. Essa não é discussão, nem esse é assunto reservado só aos brasileiros. Minha intuição diz que temos de aprender a pensar de outro modo nossa ação de governo. Não só em torno do nosso programa, mas também em termos de como fazer a gestão da mais longa duração.

Arcos da Lapa (RJ) - J.Cruz
Situo-me aqui como alguém que se sente muito próximo do governo do Brasil, o suficiente para não querer vê-lo se estatelar sob golpes e mais golpes de um movimento que, como se vê, une muita gente. Escolho esse ângulo de análise, para não me deixar prender na armadilha de discutir duas conhecidas linhas de crítica de esquerda que, como entendo, nos levariam ao impasse.

A primeira dessas linhas sem saída, em minha opinião, é nos deixar consumir, escrevendo o catálogo das críticas pequenas e grandes contra tudo o que não foi feito, que foi mal feito ou que não foi suficientemente feito. Falo aqui, para fugir dela, da crítica de tipo “ala esquerda”, que vive a lamentar que ela própria nunca consiga fazer coisa melhor. Essa crítica está abaixo da realidade que se vai produzindo nas ruas. Para dizê-lo bem diretamente: se, amanhã, Dilma Rousseff anunciasse a imediata construção de todas as escolas que todos exigem, duvido muito que essa “resposta” bastasse para acalmar alguém. O movimento parece já ter chegado ao ponto no qual suas reivindicações parecem inscritas num projeto muito maior do que o que se manifesta nas reivindicações pontuais. De onde vem essa dinâmica?

Vejo aí razões de efeito quase mecânico, que estão operando dentro da sociedade. Adiante, também voltarei a esse assunto.

A segunda das linhas sem saída é a que se autolimita a uma via revolucionária tradicional do século 19 e 20. Para esses, tratar-se-ia de varrer tudo, numa vassourada só, não só os avanços já conquistados pelos governos do PT (apresentados como incertos e superficiais), mas também o método democrático de conquistar e de exercitar o poder. Esse caminho me parece condenado a fracassar, fracasso cruel, que custará muito caro.

As massas populares recentemente chegadas à classe média e as massas recém saídas da miséria não parecem dispostas a desprezar suas recentes aquisições. Diferente disso, tudo leva a crer que o movimento começou e cresceu para proteger e para ampliar essas aquisições. Essa circunstância soma-se ao que a história ensina: a consciência de um movimento não lhe vem de fora para dentro. É resultado da dinâmica própria do movimento e do desenrolar de etapas que o movimento percorre até alcançar seus objetivos. É imperioso compreender esse recurso íntimo, e está na ordem do dia brasileiro.

Os fenômenos que se veem nascendo no Brasil resultam do estado da sociedade que é hoje governada por nossos amigos. Quero dizer: de uma sociedade como é hoje, em processo de se reformatar por sua própria ação. A característica de base desse processo é, essencialmente, a saída da miséria – que alcança uma grande maioria da população; a elevação do nível de educação e de saúde de muitos.

Cartazes (RJ)  Tomas Silva
A sociedade que caminha pelas ruas ante nossos olhos é a mesma que tornou possíveis as conquistas sociais dos governos do PT. Nesse contexto, o primeiro fato a registrar, na minha avaliação, é o seguinte: os movimentos de rua no Brasil não se opõem ao que foi feito. Ao contrário: os movimentos são o atestado, a prova do que foi feito. Menos pobre, mais bem educada, mais segura do que é e do que pode, uma nova geração está entrando num processo legítimo de vontade de controlar as questões públicas. Já sentiu a necessidade de influir. E identifica uma insuportável perda de legitimidade das autoridades às quais cabe fazer a sociedade funcionar bem. Estão errados? Estão certos?

Se for justa a causa do movimento, a via a adotar é assumir e pôr em prática o programa que o movimento popular trouxe à luz. Esse movimento não se oporá aos partidos progressistas, senão no caso de esses partidos se oporem a eles, ou se derem as costas ao movimento, porque não o compreendem ou porque não gostam dele, ou porque desprezam a direção que tome o próprio movimento.

Sei que é paradoxal evocar um modo de avaliar positivamente, para nosso benefício, um movimento que se constrói em oposição a governo “nosso”. Meu ponto de vista só é compreensível no quadro de uma análise que parte da teoria da revolução cidadã.

A teoria da revolução cidadã não descreve um formato de uma grande noite revolucionária, primícias e apoteose eterna. Ela descreve um processo permanente que se nutre de seus próprios sucessos e fracassos e rebate sempre, inscrevendo novas questões a acertar, à medida que se amplia o campo da consciência social e política dos cidadãos. O objeto desse amadurecimento não é saber qual, dentre os partidos políticos em confronto, deve ser apoiado; nem produzir um efeito de balanceio eleitoral sob a forma de alternâncias políticas. O objeto da revolução cidadão é o exercício da soberania popular.

As pessoas que se põem em movimento querem decidir. Outro modo de dizer a mesma coisa é dizer que já não se trata de ‘permitir’ que os que hoje decidem decidam. Esses que hoje decidem estão sendo eliminados, não por razões “políticas” ou ideológicas, mas porque são vistos como incapazes para resolver os problemas que lhes cabia resolver diante da sociedade. São as duas faces da mesma moeda. A fórmula “que se vão todos!”, que se ouviu na Argentina ou o “caiam fora!” [orig. “dégage!”] repetido na Tunísia e no Egito não significava “que venham outros”.

Insisto na ideia de que a crise de autoridade traduz-se como crise de legitimidade. Nessas condições, a revolução cidadã não é uma ideologia que venha trazida por um partido, de fora para dentro, mas um produto quase mecânico da evolução da sociedade, de seu desenvolvimento educacional.

Reunião com Dilma (Brasília) -  Pozzebon
Naturalmente, o parâmetro decisivo é a parte jovem da população, na população total. E simplesmente porque, para que a sociedade entre em movimento, todos dependemos do impulso que nos venha da fração menos integrada nas rotinas do cotidiano e da reprodução do cotidiano.

O outro parâmetro de igual importância é a parte urbanizada da população. As revoluções cidadãs acontecem nas cidades, porque só aí as populações mantêm entre elas o tipo de relação de interdependência e de socialização que cria um tecido social altamente condutor e reativo. Por isso, só muito raramente se veem representadas nas revoluções cidadãs as formas tradicionais da ação operária. Sem ver aquelas formas tradicionais da ação operária nos advém, muitas vezes, uma espécie de perplexidade ante tais movimentos. O erro está também em acreditar que os assalariados só assumiriam sua identidade social no quadro de seus postos de trabalho. O conjunto das relações sociais implicadas na vida urbana não participam também, se não até mais do que o trabalho, dessa identidade social?

Por tudo isso, entendo como muito eloquente a evidência de que, nos atuais movimentos no Brasil, a fagulha que desencadeou a ação tenha sido o aumento no preço dos bilhetes de ônibus. Não é o próprio símbolo da reivindicação urbana? Não é revelador de uma condição social de classe média jovem, sem carro próprio? Aliás, foi um movimento semelhante ao que se vê hoje no Brasil, que deflagrou o processo que levou Chávez à vitória.

Para não desencaminhar o leitor, suspendo por aqui a discussão de outros aspectos estruturantes da formação da consciência cidadã – dentre os quais a existência de densas redes sociais. Mas é importante, quanto a isso, não se deixar convencer de que se trate de alguma simples comodidade técnica de “comunicação”! As redes sociais contribuem para a consciência política instantânea dos que se ligam nelas.

Em resumo, o movimento que se manifesta sob formas mais ou menos agudas e que designamos como “a revolução cidadã” é resultado de uma dinâmica autônoma cujos ingredientes, princípios de auto-organização, estão nos dados permanentes e evidentes da vida, não em alguns circunstância particular extrema que os provocariam.

Já estudei neste blog essa forma de mudança brutal na trajetória da sociedade sobre seus próprios parâmetros, que chamei de “bifurcação”. Se essa tese é bem fundada, todos os países da revolução democrática começada há quinze anos no continente, precisamente pelos resultados sociais positivos que gerem, conhecerão movimentos semelhantes aos que se observam no Brasil.

Não se os deve interpretar como incidentes de percurso, mas como bifurcações no interior do processo revolucionário – seja para prolongá-los seja para dele se separar definitivamente.

Para refletir sobre os eventos no Brasil, gostaria de sugerir uma lista breve do que não se deve fazer. Para começar, não zombar. É verdade que a tentação está aí, depois de ouvir tudo que se disse na Europa, especialmente na França, onde as boas almas opunham, de modo caricaturesco, o bom social-democrata Lula e o odioso Chávez, comunizante. E eu acrescentaria alguns sarcasmos dirigidos a nossos próprios bons camaradas, casca grossa antigos, reconvertidos agora aos ternos e coletes da diplomacia. Como esquecer os pudores de gazela, quando se falava de organizar um encontro entre a Frente de Esquerda, ainda há pouco, quando Dilma Rousseff passou por Paris? Tiveram medo de ofender nosso bom Hollande e sua corte EUA-atlanticista [2].

Assembleia (RJ) - Wilson Dias
Longe vai o tempo em que eu era encarregado de receber Lula-candidato em Paris, quando ninguém do Partido Socialista o recebia!

Longe vai o tempo em que a sede do Partido Comunista Francês acolhia as reuniões do PT na França, porque o Partido Socialista não queria nem ouvir falar deles!

Longe vai o tempo quando os socialistas de terno e colete de hoje contavam com o dinheiro que nós recolhíamos para mandar para grupos guerrilheiros! Não se incomodavam. O bom Brasil moderado contra a Venezuela perigosíssima era invenção de propaganda. E depois? De que serviria validar aquela esquerda, se tão pouco ajudava a compreender o que acontecia?!

O prazer pueril de demonstrar que movimentos populares só acontecem entre os destinados a servir de modelo seria de bem curta duração. Se minha tese está correta, não tarda e se verá na Venezuela e em outros países o mesmo movimento que já se vê no Brasil.

ATENÇÃO: SEGUNDO ALERTA IMPORTANTE: Não cedamos à paranoia de ver no desencadear do movimento e no seu desenvolvimento o resultado de um complô da direita oligárquica local e dos EUA. Seria deixar de lado o essencial: a oportunidade que esse movimento oferece à nossa própria ação.

É evidente que a oligarquia e os EUA têm dedos nisso tudo. Mas não são o fator decisivo. Se a irrupção nas ruas de uma população hostil ao governo agrada a eles, nem por isso significa que o andamento e o rumo dos eventos lhes deem muito prazer. Nenhuma das palavras de ordem do movimento interessa aos objetivos deles. Pode-se, é claro, considerar que qualquer rejeição ao PT de Dilma Rousseff lhes interessa. Disso não há dúvida, de um ponto de vista político superficial.

Quem conhece a ferocidade de besta da direita brasileira e da imprensa no Brasil encontrará mil e um exemplos do que estão fazendo na “repercussão” dos tumultos em curso, como manifestações contra o governo Dilma. Não há como duvidar que, chegada a hora, serão rápidos a exigir “que a ordem seja restabelecida”. E acusarão Dilma por não ter protegido suas propriedades e a “liberdade de imprensa”. Basta, para isso, que vejam bancos quebrados, jornalistas perseguidos e os escritórios e estúdios da “Rede Globo” tomados como objeto de protestos.

Em resumo: se nossos camaradas encontrarem o caminho que os leve ao coração do movimento, pode-se dizer que ali mesmo terá início a revolução democrática no Brasil.

Todos devemos buscar nossas referências nessa direção e só nessa direção.

Ao dizer isso, não estou dizendo que os anos Lula e Rousseff nada tenham tido a ver com a emergência da democracia no Brasil. Digo, sim, exatamente o contrário disso!

Estou dizendo que arrancar tanta gente da miséria foi condição necessária, básica, para a renovação do país. Mas as formas revolucionárias que conhecemos, pelas quais passaram outros países, são diferentes demais do processo em curso no Brasil, para que já saibamos identificar, no percurso brasileiro, os pontos-marcos de passagem pelos quais têm de passar as transições revolucionárias.

Multidão em frente ao Municipal (RJ) - Tomas Silva
Uma Assembleia Constituinte que dê conta de novos tempos é um desses pontos-marcos a ultrapassar. Para começar, pela simples convocação e pela campanha que a precederá. Além disso, pelo desenrolar dos trabalhos, sobretudo se forem conduzidos em osmose com uma implicação popular de todos os instantes, de todas as categorias, de todos os pontos do país implicados. Tudo isso é um processo de educação popular e de politização da sociedade que decida fazê-lo e o faça em profundidade, que altera todas as rotinas e revoluciona todos os compartimentos sociais. Esse foi o método aplicado com sucesso no Equador e na Venezuela. Sua potência operacional está plenamente demonstrada. Sim: também já se conhece seu limite: a segunda reforma da Constituição na Venezuela foi um fracasso. Perdemos o referendo sobre aquela reforma.

Na Venezuela, muitos camaradas me explicaram que esse segundo tempo nada teve a ver com o primeiro. Muito pesadamente institucionalizada, com discussões políticas opacas, o processo não teve potência para empolgar as camadas populares. Anoto aqui esse episódio, apenas para mostrar melhor que a Constituinte só é significativa se encaminhada em momento essencial e como modo insubstituível da atividade popular para refundar a nação e o próprio povo. Não leva a resultado algum se for tratada como ferramenta “ocupacional”, nem como item de barganha política.

A ideia essencial é que o povo “refunda-se”, aproprie-se da identidade coletiva dos princípios que decida implantar na Constituição e das regras democráticas que daí o povo deduza. A Constituição está no coração da estratégia da revolução cidadã e de seu desdobramento real, quando ela alcança o extremo de sua lógica.

Caminhada (RJ) - Tomas Silva
Ao propor uma Constituinte limitada a alguns temas, Dilma Rousseff, infelizmente, retirou de sua proposta a carga emocional radical. Foi contida e limitada por adversários da ideia, todos em postos influentes, precisamente quando a rua começava a ensaiar as primeiras respostas positivas!

Sem Constituinte, Dilma Rousseff ficou sem o ponto de apoio do qual muito precisa para fazer avançar o programa que a insurreição levou-lhe em mãos. Explico por quê.

O processo de ebulição que a Constituinte dispara é o ponto de apoio para o assalto social. Porque é claro, absolutamente claro, que a sociedade tem de assaltar o poder.

Não se pode esvaziar, deixar de lado a partilha das riquezas. Os sociais-democratas vivem a tentar substituir a batalha social e o assalto social ao poder, por o que chamam “batalha democrática”. Mesmo que o “prêmio” já esteja reduzido a um mínimo, que já não implique partilha alguma de riqueza alguma, ainda assim a “batalha democrática” fracassa. Nenhuma sociedade pode pretender “esquecer” essa questão, sobretudo ante a grande finança que nosso tempo tem de enfrentar. Nenhuma solução que alguma sociedade encontre para os problemas de momento, hoje, jamais implicará qualquer solução de fundo e estável, se a questão do assalto social ao poder não for discutida e encaminhada.

Mas a partilha das riquezas dispara o espírito de guerra total entre nossos adversários nas classes dominantes. Daí resulta um conflito no qual os dominantes e seus veículos e empresas-imprensa passam a combater em tempo integral em todos os fronts. As manobras mais vis, mais baixas. Nem preciso me deter nisso, porque todos aqui conhecem esse processo de cor e salteado.

A discussão que nos interessa é que método usar para replicar. A fórmula algébrica é nossa velha conhecida: não temos outro meio além de ganhar a adesão e a iniciativa popular. O que significa, concretamente, essa ideia? Significa convocar uma Assembleia Constituinte.

A mobilização para a Assembleia Constituinte permite articular duas demarches: uma, que fixa a regra do jogo democrático; e a outra, que lhe dá o conteúdo social. Sem isso, de mãos vazias, sem arma e de cima para baixo, não há nem uma remota chance de levar a cabo, com sucesso, o assalto ao poder. Não, com certeza, se só se conta, nessa luta, com um Partido e suas redes, por mais extensas que sejam.

Por isso, me parece erro grave e pesado, que o governo do Brasil tenha renunciado à ideia de uma Assembleia Constituinte no Brasil. Qualquer resposta positiva às demandas populares exige e impõe a partilha efetiva da riqueza, naquela sociedade.

Como agir, sem o peso da massa popular? Dito de outro modo: como fazer política popular de esquerda, sem relação de forças menos desigual? E quanto a construir relação de forças, a primeira pergunta que temos de responder a nós mesmos é: com quem e contra quem?



[*] Quem quiser pode ler este artigo em espanhol.

Notas dos tradutores
[1] Eurobéats (fr.) (aprox. “beatos do euro”, “eurófilos”, que batem tambor a favor do euro); em oposição semântica aos eurocéticos). Por ex.: “Os eurobéats partem do princípio que nada existia antes do euro, reinava a anarquia, andávamos de carroça puxada por burros etc.”. 
[2] Ver, sobre isso em português: 31/5/2013, redecastorphoto, Jean-Luc Mélenchon: “URGENTE. Impedir o acordo secreto entre UE e EUA (TTIP)”