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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Um “Marine” morto e o ataque à Síria

7/7/2013, [*] Rami G. Khouri, The Daily Star, Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chegada do corpo de Marine morto na explosão de 23/10/1983 em Beirute, Líbano
O intenso debate que se trava hoje nos EUA sobre se o país deve ou não atacar a Síria como punição ao regime sírio, acusado ainda sem qualquer prova de ter usado armas químicas, é dos exemplos mais dramáticos que jamais vi de democracia em ação. É o “consentimento dos governados” em operação.

É sabido que vasta maioria dos norte-americanos não apoia a ação militar. Só 36% dos pesquisados aprovam que os EUA ataquem a Síria, segundo pesquisa do Washington Post/ABC divulgada na 3ª-feira, muito menos que os 63% que aprovavam a ação militar em dezembro. E a oposição é quase a mesma nos dois principais partidos políticos.

O mesmo ceticismo vê-se também no debate na Câmara dos Deputados dos EUA. Parece ser criticamente importante que qualquer decisão que os EUA tomem em relação à Síria reflita razoavelmente os sentimentos do povo americano. E como se pode conhecer melhor esses sentimentos, por meios mais precisos que pesquisas de opinião ou declarações da imprensa-empresa?

Recentemente, tive o privilégio de poder ver mais de perto os sentimentos de uma família no Alabama, que merece todo o crédito se consultada sobre que sentido teriam os ataques norte-americanos contra o mundo árabe.

Há alguns anos, pouco antes da guerra síria, recebi uma carta de Peggy Stelpflug, mãe do cabo Bill J. Stelpflug, morto em guerra, que se alistou nos Marines em 1982, logo depois de saído do ginásio em Auburn, Alabama. Em maio de 1983 foi mandado para Beirute com o contingente encarregado de ocupar o aeroporto de Beirute.

25 anos depois de sua morte, a mãe dele, Peggy, que lecionou inglês na Universidade de Auburn, reuniu uma seleção das cartas que Bill enviou à família e mandou para mim.

Li as cartas com profundo respeito por esse jovem que serviu lealmente seu país (como o pai dele, William, piloto aposentado da Força Aérea dos EUA). Na sequência, troquei e-mails com Peggy e nos falamos pelo telefone.

Foi experiência duplamente comovedora. Comoveram-me, primeiro, as cartas de Bill para a família. Refletiam o anseio típico, tão norte-americano, por coisas como jogos de futebol e piqueniques na praia com amigos e parentes, ao mesmo tempo em que ia-se tornando adulto, responsável por armas poderosas, quase sempre contra inimigos que não via ou que jamais conheceu. As cartas mostram esses sentimentos, observações, sensibilidade à devastação em Beirute e também temores e frustrações sobre a própria missão dele ali.

Dia 7/9/1983, escreveu aos pais:

Estou vivo e bem. Meio sujo, cansado e bombardeado, mas andando e falando. Nossa “guerra” até aqui só durou três dias. Dois Marines foram mortos por foguetes e há mais feridos. A coisa é entre o Exército Libanês que mete as calças e põe-se a bombardear muçulmanos sem mais nem menos. Começaram a atacar pelo nosso perímetro, e fomos envolvidos nos combates. Ficamos aqui levando bala e foguete... Temos revidado, com algum sucesso, mas só pegamos atiradores isolados, ou destruímos uma ou outra posição dos foguetes, com artilharia. Estou imundo, cansado demais e 100% inteiro. Preocupo-me mais com vocês preocupados comigo, do que comigo mesmo... Como vocês disseram, aqui não há paz nenhuma a ser mantida. Se você não é inventador de guerra, caia fora! Acho que Beirute é, de fato, uma base de treinamento realista para o U.S. Marine Corps, para se habituarem com a coisa de verdade. Digam a todos que estou bem e planejo continuar assim. Nada de me meter a ser herói. Cumpro meu tempo de alistamento nesse quintal de lixo no Mediterrâneo. Penso em vocês, em casa. Amo vocês muito.

As cartas chamam a atenção – e, acho, são típicas de muitos soldados norte-americanos em terras estrangeiras – pela nenhuma informação sobre o local onde os soldados servem. Ele compensa a nenhuma informação, com humor e manifestações de orgulho por estar servindo o seu país. Fez muito bem o seu trabalho (foi várias vezes promovido antes e durante a estada em Beirute).

USS Bowen - 1079
No dia seguinte àquela carta, dia 8/9/1983 – exatos 30 anos hoje – o torpedeiro USS Bowen lançou seus torpedos de 5 polegadas contra posições druzas no Líbano. Foi a primeira vez que se viu fogo naval dos EUA por ali, o que envolveu os EUA como protagonistas ativos da guerra, aliados do governo local. Logo depois, dia 23/10/1983, um caminhão-bomba explodiu no quartel dos Marines e matou 241 norte-americanos; 58 soldados franceses foram mortos em outros ataques semelhantes. Bill Stelpflug apareceu listado como “desaparecido em ação”. Dia 29/10/1983, um oficial visitou a família Stelpflug e informou que seu filho Bill fora morto naquele ataque.

Peggy Stelpflug
O mesmo episódio emocionou-me outra vez, há 25 anos. Peggy Stelpflug escreveu-me de repente, sem mais nem menos – soube que eu estava vivo e que escrevia de Beirute sobre temas políticos, quase sempre criticando a política exterior dos EUA – e perguntou-me honestamente:

Bill serviu e morreu por alguma boa causa? A missão dos EUA no Líbano foi algo que o povo libanês tenha aprovado? Os EUA acertaram ao usar força militar no Líbano em 1982-84?

Um quarto de século depois da morte do filho em Beirute, ela precisava saber por que seu filho morrera, se a causa daquela missão fora causa justa.

Peggy e eu conversamos algumas vezes sobre o Líbano e os EUA. Acho que ela aprendeu algumas coisas novas e eu, com certeza, aprendi muito com a reação digna dela e daquela família. Pedi autorização a ela e ao marido para escrever aqui sobre as cartas de Bill e sobre a preocupação da família com as amplas questões políticas que modelam a política externa dos EUA, e eles concordaram gentilmente.

Peggy e seu marido William partilharam o meu sentimento de que a vida e a morte de Bill podem enriquecer “nosso desejo comum de sabermos mais uns dos outros, para ampliar nossa partilhada humanidade (...) e que as lições da vida e da morte de Bill podem talvez iluminar outros”.

É muito adequado que hoje – 30 anos depois de navios de guerra dos EUA terem bombardeado as montanhas do Líbano – todos nós estejamos bem certos, antes que mais homens e mulheres dos EUA sejam mandados outra vez atacar alvos árabes, de que cidadãos como a família Stelpflug sejam atentamente consultados e ouvidos sobre decisão tão importante.

Os que já se manifestaram contra o envolvimento dos EUA em mais essa guerra merecem ser ouvidos e merecem resposta clara. O mesmo vale para o povo sírio. O mesmo vale para todo o mundo. (...) É disso que se trata, me parece, quando se fala da democracia e do “consentimento dos governados”.
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[*] Rami Khouri George nasceu em 22/10/1948, em Nova York, de uma família árabe/cristã/palestina. Seu pai, George Khouri, jornalista Nazareno durante o mandato britânico da Palestina, tinha viajado com a esposa para Nova York em 1947 para cobrir os debates na ONU sobre o futuro da Palestina. Rami é jornalista e co-editor de publicações, palestino-jordanianas e dos EUA. Tem família residente em Beirute, Amã e Nazaré. Ele também é um orador público altamente considerado. Após frequentar o ensino secundário na International School of Geneva Suíça, Rami voltou para os EUA para completar sua educação. Atuou por muitos anos como o principal árbitro de baseball na Jordânia. Publica semanalmente duas colunas no jornal libanês The Daily Star.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Terceira Intifada: contra a frente EUA-Israel

26/9/2011, Rami G. Khouri, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Rami G. Khouri é Editor Geral do The Daily Star, e Diretor do Issam Fares - Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais na Universidade Americana de Beirute, em Beirute, Líbano.

Ainda não se pode saber tudo que realmente mudará, nas condições objetivas, nos meses à frente, depois de os palestinos terem tomado a iniciativa de requerer às Nações Unidas que reconheça um estado palestino nos territórios que Israel ocupou em 1967 e garanta aos palestinos seja o estatuto de estado-membro pleno, ou de observador. O movimento pode revelar-se como ganho substantivo para o povo palestino, como vitória apenas simbólica ou como considerável risco de retrocesso, se EUA e Israel converterem sua ácida retórica vingancista em políticas ainda mais duras. Ainda que se deva esperar para poder avaliar com mais clareza o real impacto da iniciativa dos palestinos, parece não haver qualquer dúvida de que, desde já, em vários sentidos, vivemos uma semana histórica.

I.

O principal importante desenvolvimento, que historiadores futuros registrarão, é que essa última semana de setembro de 2011 marcou o momento em que o conflito entre árabes e Israel foi estruturalmente transformado em conflito entre árabes, de um lado e, de outro, EUA-Israel – por causa do modo explícito e profundo como o governo dos EUA assumiu o lado de Israel. Os EUA historicamente sempre tentaram, sem grande sucesso, mas com empenho, manifestar apoio à sobrevivência e à segurança de Israel enquanto, simultaneamente, tentavam mediar uma solução para o conflito que levasse ao nascimento de um estado palestino em parte, pelo menos, das terras ocupadas em 1967. Esse movimento de equilibração, por menos convincente que tenha sido, foi formalmente extinto: foi morto a tiros, vários tiros no coração, por um esquadrão-da-morte constituído de políticos dos EUA que dispararam saraivadas de tiros contra o frágil e já fracassado personagem que um dia atendeu pelo nome de “os EUA como mediadores”.

Os EUA optaram por defender Israel e o fizeram de duas maneiras importantes:

[1] O presidente disse claramente que a Casa Branca preza mais os direitos de Israel que os direitos dos palestinos; e
[2] o Congresso dos EUA, dominado pelos Republicanos, assumiu que representa não só a vontade do povo dos EUA mas, também, a vontade dos sionistas.

Israel passou, da fase em que considerava o próprio bem-estar nacional e a restauração de tempos ancestrais como “cidade na colina”, para a situação de hoje, quando toda a segurança dos israelenses passou a depender exclusivamente de os sionistas controlarem ‘a Colina do Capitólio’  [ing. The Hill], quer dizer, de controlarem o Congresso dos EUA.

O novo conflito, no qual o mundo árabe vê-se confrontado pelo par EUA-Israel, não será disputado por meios militares, como aconteceu desde 1947, no ‘velho’ conflito entre árabes e Israel. Esse novo conflito encontra os árabes e seus apoiadores, aliados e amigos já explorando meios políticos e outros meios pacíficos para resistir e simultaneamente desafiar  EUA-Israel pelas vias pelas quais o mundo inteiro desafiou a África do Sul do Apartheid, há décadas. Tudo isso, porque os EUA já mostraram, acima de qualquer dúvida, que encampam a posição de Israel nas questões existenciais de reconhecimento do estado, soberania e direitos nacionais, que são o cerne do conflito entre Israel e os palestinos e, também, do conflito mais amplo entre Israel e os povos árabes. 

Esse novo ator político coletivo (EUA-Israel) posicionou-se claramente na oposição, contra vasta gama de sentimentos universais e morais, além de legais, em todo o mundo, que veem o reconhecimento de um estado palestino como o melhor meio para pôr fim às fracassadas negociações bilaterais ‘mediadas’ pelos EUA; e que querem garantir justiça e segurança para os dois lados daquele conflito. 

EUA-Israel, esse ente recém criado, nasce isolado e é visto como autor de crimes pela maioria dos povos do mundo. Não é visto como “nova Jerusalém”, pela qual EUA-Israel às vezes tenta fazer-se passar; a nova entidade EUA-Israel está sendo vista como “nova África do Sul do Apartheid”.

II

Igualmente importante é o segundo evento histórico desse mês: palestinos, árabes e o resto do mundo democrático já não têm medo de fazer frente a EUA-Israel. O imenso poder de EUA-Israel já nada intimida os que discordam ou estão decididos a resistir contra seus excessos e a condenar os crimes que cometem contra palestinos e outros árabes. 

O fato de que um líder palestino sem representatividade popular, muito fraco, em termos políticos, como Mahmoud Abbas, tenha resistido às pressões fortíssimas, ameaças e tentativas de suborno às quais Israel-EUA submeteu-o ao longo das últimas várias semanas indica que já entramos na 3ª Intifada.

A 3ª Intifada será disputada contra a posição política de EUA-Israel, não mais contra exclusivamente a ocupação israelense. As implicações de palestinos e outros estarem desafiando EUA-Israel serão imensas; e precisarão de tempo, para poderem ser avaliadas com clareza. 

Se se combinarem iniciativas como o requerimento à ONU; desobediência civil popular; e resistência de massa contra Israel em todas as arenas nas quais haja contato entre Israel e árabes – nas fronteiras, na Cisjordânia, em Gaza, em Jerusalém Leste, dentro de Israel e nas embaixadas de Israel em todo o mundo – é provável que se vejam pressões significativas para que se formule e construa algum outro mecanismo, inteiramente novo, para tentar resolver por vias pacíficas o conflito entre árabes e Israel. E a opção pacífica é sempre preferível.

III

O Oriente Médio vive dias históricos em todos os fronts:

  1.  dentro dos países árabes;
  2.  nas relações da Turquia na região;
  3.  no conflito entre árabes e Israel;
  4.  nas interações entre os países árabes e os EUA; e talvez, de alguma forma, também
  5.  em novos papéis para Europa ou Rússia.

Serão necessários anos, para que se sintetizem esses cinco domínios. Quando acontecer, poderemos, provavelmente, revisitar esse setembro de 2011 e vê-lo como ponto de mudanças cruciais na atuação de todos esses atores chaves.