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terça-feira, 2 de junho de 2015

Pepe Escobar: Patrulhando a quebrada, do mar (da China) ao “shining sea”

27/5/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 
 
 


Se pelo menos os Mad Men na vida real fossem como Don Draper – canalizando o verdadeiro eu-interior, depois de muito agito, num “tudo bem comigo, tudo bem com você”. 
 
Em vez disso, o que há é um punhado de doidos (do Pentágono) provocando todos os seus maiores concorrentes geoestratégicos, todos ao mesmo tempo. 
 
Os Mestres da Guerra, no governo Obama autodescrito como “Não façam merda coisa estúpida”, anunciam agora que estão prontos para despachar aeronaves e navios de guerra para bem perto (a 18km de distância) de sete ilhas artificiais que a China construiu nas Ilhas Spratly. 
 
A resposta de Pequim, pelo Global Times, não poderia ser diferente de “Haverá guerra” [ing. There Will be War]. 
 
Se a última palavra dos EUA é que a China teria de suspender suas atividades, nesse caso uma guerra EUA-China é inevitável no Mar do Sul da China (...) A intensidade do conflito será mais alta do que em geral define-se como “atrito”.
 
Segundo Pequim, os faróis construídos, um no Recife de Huayang, outro no Recife de Chigua – áreas agora em discussão – foram construídos “para aumentar a segurança de navegação no Mar do Sul da China”. 
 
Não há qualquer sinal de que a China venha a suspender seu trabalho de construir ilhas, mesmo com navios de guerra dos EUA por ali, de um lado para o outro, naquela quebrada naval. Será que os EUA darão uma de heavy metal e desencadearão o maior atrito, para impedir que navios chineses civis naveguem por ali? Ou quem sabe a Marinha dos EUA espera que Pequim meta a viola no saco e colapse? 
 
O que o Global Times deixa implícito é que com certeza absoluta a China revidará, se navios de guerra dos EUA entrarem nos 18km demarcados em torno das ilhas. 
 
Pequim já calou eletronicamente os drones Global Hawk de vigilância de longo alcance que espionavam as Ilhas Nansha. E Pequim considera demarcar uma Zona Aérea de Identificação de Defesa [orig. Air Defense Identification Zone (ADIZ)] no Mar do Sul da China, tão logo esteja completo o trabalho nas sete ilhas artificiais. 
 
Esse aventureirismo excepcionalista dos EUA no Mar do Sul da China pode fugir de qualquer controle em velocidade alarmante. Combine isso e o “patrulhamento” do Pacífico Ocidental – com os EUA e Austrália já bem perto de receberem por ali o Japão em pleno processo de remilitarização, para seus joguinhos bienais de guerra. O resultado é um Diálogo Xangrilá – reunião de cúpula, sobre segurança, que se realiza a cada dois anos em Cingapura, e que começa no próximo sábado – ainda mais quente que o habitual. Melhor que aquele sortimento de agentes provocadores não se metam com o almirante Sun Jianguo, subcomandante do Alto Comando do Exército Popular de Libertação, que será o convidado-estrela do show
 
Tudo sobre a Rota da Seda Marítima
 
A mais nova escalada acontece no momento em que Pequim divulga seu mais recente documento militar, [2] no qual detalha uma nova estratégia defensiva – a qual é, agora, para todas as finalidades práticas, defensiva/ofensiva de tipo Pleno Espectro Terra-Mar-e-Ar-e-Ciber). Planejadores do Pentágono, mastigai vosso coração coletivo: o tal “pivoteamento para a Ásia” acaba de encontrar adversário à altura. 

Rota da Seda Marítima (em azul)
Dentre os destaques, sabe-se agora que a China está oficialmente aderindo ao princípio segundo o qual “Nós não atacaremos, a menos que sejamos atacados, mas com certeza contra-atacaremos se formos atacados”. – É amostra gráfica do que pode acontecer a seguir no Mar do Sul da China. 
 
Pequim passa a focar-se em “vencer guerras informacionais locais” (está ativada uma verdadeira tempestade elétrica para desmontar nuvens de informação eletrônica). 
 
E a ELP-Marinha [ing. PLA Navy (PLAN)], a Marinha do Exército Popular de Libertação, mudará gradualmente de foco: de “defesa de águas territoriais”, para uma combinação de “defesa de águas territoriais” com “proteção de mares abertos” [3]. Bem-vindos à doutrina chinesa que bem se pode intitular “Do mar (da China) ao shining sea”. 
 
Zhang Yuguo, coronel sênior do comando do Exército Popular de Libertação, estava visivelmente muito satisfeito na conferência de imprensa, quando disse que: 
 
Há países que escolhem estratégias preventivas, enfatizando a intervenção preventiva e tomando a iniciativa de atacar. Nossa estratégia é totalmente diferente dessa.
 
E então, a frase-suspense-não-percam-o-próximo-capítulo, no melhor estilo Sun Tzu: 
 
Ser “ativo” não passa de uma espécie de recurso. Nosso objetivo principal é “defesa”.
 
Para os que insistem em não captar a mensagem, o documento é a prova clara de que a China posicionou-se agora como aspirante a grande potência marítima. 
 
Na verdade, é genético. A China já tinha a maior frota naval do mundo pelo menos desde 200 anos antes de Cristóvão Colombo, e foi devidamente utilizada pela dinastia Ming para explorar os litorais da Ásia, do arquipélago indonésio, da África e do Oriente Médio. 
 
E adivinhem o que eles queriam, naqueles idos: comércio/negócios de “ganha-ganha” e intercâmbio cultural. Faça negócios, não faça guerra. Séculos adiante, tudo volta, remixado, na(s) Nova(s) Rota(s) da Seda, ou no projeto “Um Cinturão, Uma Estrada”. 
 
E não esqueçam: Urfa vem aí 
 
A estratégia de Pequim para o Mar do Sul da China sempre foi clara. Todos – sem discriminação – terão direito de passagem. Todas as disputas – de exploração de petróleo e gás a direitos de pesca – devem ser resolvidos bilateralmente no quadro da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ing. ASEAN). E todo o processo nada tem, absolutamente nada, a ver com Washington. 
 
Os EUA insistem que a “linha de nove traços” [ing. nine-dash-line] da China infringe a lei internacional. É risível. 
 
De fato, aquela linha foi sonhada pelos chineses nacionalistas do Kuomintang dois anos antes do nascimento da República Popular da China em 1949. 
 
Washington diz que a implementação da linha de nove traços permitirá que a China controle a navegação no Mar do Sul da China. Mais uma vez: Pequim não tem interesse em controlar coisa alguma, só quer negócios e mais negócios, o que já é fato: 80% do tráfego comercial marítimo mundial é serviço de navios chineses. 
 
Não há o que faça Pequim retroceder da negociação no âmbito da ASEAN – porque o Mar do Sul da China é elemento chave da Rota Marítima da Seda. O que Pequim quer são negócios de “ganha-ganha” com todos, do Vietnã às Filipinas, especialmente em termos de explorar toda aquela energia submersa. 

Países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ing.: ASEAN)

 
Quanto a Washington — como Pequim a vê – tudo se resume à total obsessão de manter-se como o hegemon dos mares, pelo planeta inteiro, do Pacífico Asiático ao Estreito de Malaca e o Oceano Índico. 
 
Daí aparecer o documento chinês, para fazer lembrar a todos em todo o mundo, que o Mar do Sul da China não é lago norte-americano; que o Mar do Leste da China e o Mar Amarelo não são lagos nipo-americanos; e que o Oceano Índico não é Oceano Norte-Americano. Não há o que contestar. 
 
Todos esses desenvolvimentos cruciais foram estudados em detalhe no início dessa semana, na 11ª rodada de consultas estratégicas China-Rússia em Moscou – quando o Conselheiro de Estado chinês, Yang Jiechi, um segundo Ministro de Relações Exteriores muito ativo na promoção das políticas de Estado da China, sentou-se frente a frente com o Secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Nikolai Patrushev. 
 
Enquanto o Pentágono corre e bufa, Pequim lança sua doutrina militar anti-nonsenses; russos e chineses afinam sua parceria estratégica; e constroem o ato que levarão juntos para a próxima e crucialmente importante reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (ing.: SCO), que acontecerá nesse verão, em Urfa. Preparem-se, porque os doidos-aqueles pirarão completamente. Ah, sim: de agora em diante, nada de cruzeiros românticos pelos mares.
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Notas dos tradutores 
 
[1] From sea to shinning sea [literalmente, “do mar ao mar brilhante”, no sentido de “costa a costa”] é expressão de um canto patriótico, America the Beautiful, que se ouve frequentemente como o hino dos EUA. A tradução que aí se lê é uma tentativa, para recuperar parte desses significados complexos].
 
[2] 26/5/2015, redecastorphoto em:Estratégia Militar da China. Pequim. Documento emitido pelo Gabinete de Informação do Conselho de Estado da República Popular da China (ing.Full text: China’s Military Strategy).
 
[3] Mares abertos: Que têm ligação direta com águas oceânicas; p. ex., o Mar das Antilhas e o Mar da China.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.


sábado, 18 de abril de 2015

Pepe Escobar – Rússia, China, Irã: sincronia

16/4/2015, [*] Pepe EscobarRussia Today - RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


MRE do Irã, Javad Zarif e o MRE da Rússia, Sergey Lavrov em Moscou
O mito pré-fabricado de uma “bomba iraniana” impalpável jamais foi, ao longo de décadas, o problema real entre EUA e Irã; o problema aí sempre foi como submeter – ou “isolar” – uma nação poderosa e independente que se recusou a curvar-se ao mando excepcionalista.

Mas nem agora, quando a “reabilitação” do Irã – pelo menos para alguns excepcionalistas e seus criados – pode estar iminente, dependendo só de um acordo nuclear a ser sacramentado em junho, nem agora as várias facções em Washington conseguem agir coordenadamente.

O Pentágono só faz admitir que o sonho molhado perene de neoconservadores e da empresa-mídia continua sobre a mesa: a opção militar.

O Congresso dos EUA não poupa armas nem golpes para tentar fazer gorar o acordo. A Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou por unanimidade um projeto de lei que pode dar ao Congresso o direito de intervir em qualquer coisa relacionada ao fim das sanções.

O Ministro de Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif enfrenta batalha ainda mais feroz, agora que a “lista de temas a serem discutidos publicamente” [orig. “fact sheet”] que o governo Obama insistiu que teria de ser distribuída, para promover o acordo em Washington... tumultua completamente a aceitação do acordo no Irã. Para piorar, a tal “lista de temas a serem discutidos publicamente” de Obama não ajudou em nada, a promover o acordo em Washington.

E agora os suspeitos de sempre – do Departamento de Estado ao Congresso e o lobby de Israel – também já estão completamente enlouquecidos por causa de uma narrativa alucinada circulante, segundo a qual “Putin está vendendo mísseis aos aiatolás”.

Got “S”, will sell [Tenho “S”, vou vender”] [1]

O que o presidente Vladimir Putin da Rússia acaba de fazer é, simplesmente, voltar aos negócios, como sempre: já antes de as sanções serem levantadas, Putin assinou um decreto que põe fim à autoproibição, que Moscou impusera a ela mesma, e que impedia a entrega a Teerã do sistema terra-ar S-300, de mísseis antimísseis, depois de um contrato de US$ 800 milhões assinado em 2010 não poder ser cumprido, por causa de obsessiva pressão dos EUA. Teerã espera receber o sistema S-300 até o final do ano.

S-300, sistema antiaéreo de mísseis para o Irã
(clique na imagem para aumentar)
A linha oficial de Moscou sempre foi que o embargo de armas contra o Irã teria de ser levantado tão logo se chegasse a um acordo nuclear final. O governo Obama insiste em que as sanções sejam removidas gradualmente. Teerã, do Supremo Líder Aiatolá Khamenei para baixo, não arreda pé da ideia de que as sanções têm de ter fim “no dia do acordo”, palavras do próprio Aiatolá Khamenei.

Mas o Supremo Líder acrescentou uma nota conciliatória, comentando que “se o outro lado evitar ambiguidades nas conversações [nucleares], será experiência interessante mostrar que é possível negociar com eles sobre outras questões”.Ainda é um “se” de proporções galácticas.

Entrementes, e em sincronia, Anatoly Isaykin, Diretor-Geral da maior empresa russa exportadora de armas, a Rosoborobexport, confirmou que a China acaba de comprar, da Rússia, sistemas de mísseis de defesa antimísseis tipo S-400. Pequim é a primeira, numa longa lista de espera, de compradores estrangeiros – porque a indústria russa de defesa é obrigada a garantir prioridade, na entrega dos S-400s, ao Ministério da Defesa da Rússia.

Cada S-400 é capaz de lançar simultaneamente até 72 mísseis contra 36 alvos, e blinda o território contra ataques aéreos, mísseis estratégicos, cruzadores, táticos e que operem mísseis balísticos táticos, e contra mísseis balísticos de médio alcance. O S-400 já é operacional desde 2007, substituindo os sistemas S-300 agora vendidos ao Irã.  

S-400, sistema antiaéreo de mísseis
(clique na imagem para aumentar) 
A questão crucial é que os S-300s tornarão as defesas aéreas do Irã virtualmente invioláveis, contra virtualmente qualquer coisa que o Pentágono use contra elas, exceto os bombardeiros de 5ª geração de tecnologia stealth [“invisíveis”]. E os dois sistemas – o S-300 e o S-400 – nem são o estado-da-arte na Rússia. Estado-da-arte será o sistema S-500, sobre o qual já escrevi, capaz de blindar definitivamente o território russo – e qualquer outro! – contra qualquer coisa que o Pentágono use.

Sistema de mísseis s-500 (protótipo)
Estrategicamente em sincronia

A venda simultânea dos sistemas S-300s e S-400s ao Irã e à China é mais uma mostra muito clara da parceria estratégica que reúne as três nações da Eurásia que ativamente contestam a hegemonia da hiperpotência. Não há dúvida de que estão em sincronia.

Paralelamente, discretamente, Moscou já começou, na prática, um negócio de troca de petróleo por produtos, de US$ 20 bilhões, com Teerã. Trocará grãos, equipamentos e materiais para construção, por 500 mil barris do cru iraniano por dia. Segundo o Vice-Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov:

(...) o atual regime de sanções não proíbe esse tipo de negócio.

Ryabkov só fez reafirmar o óbvio:

Para dançar o tango, tem de haver dois. Estamos prontos para fornecer nossos serviços e tenho certeza de que serão muito vantajosos, na comparação com outros países (...). Jamais abandonamos o Irã, em situação difícil...

Teerã respondeu em sincronia, pelo presidente da Comissão de Política Exterior e Segurança Nacional da Assembleia Consultiva Islâmica do Irã, Alaeddin Boroujerdi:

(...) o Irã está pronto a expandir a cooperação com a Rússia em todas as esferas no mais alto nível.

E completou, importante:

(...) essa é também a opinião de nosso Supremo Líder religioso, o Aiatolá Ali Khamenei, sobre o desenvolvimento das relações com a Rússia.

Os suspeitos de sempre, como sempre, têm-se agarrado a qualquer argumento que “prove” que a cooperação Rússia-Irã dará em nada. Por exemplo, que o Irã “reabilitado” destruirá a indústria russa de energia, por causa do “sério impacto” sobre o mercado de petróleo, do excesso de oferta do Irã e da concorrência com a exportadora russa Gazprom.

Ryabkov foi direto ao ponto em questão:

Acho que o lado iraniano ainda não está preparado para fornecer gás natural de seus grandes campos, rapidamente e em grandes quantidades, à Europa. Para isso é preciso infraestrutura difícil de construir.

Essa atualização da infraestrutura é cara e exigirá anos; pode acontecer, mas com a ajuda – mais uma vez, de russos e chineses. A Rússia estará de volta ao setor de energia iraniano, com toda a força, pela Gazprom Neft, braço do petróleo russo, e a Lukoil teve de suspender vários projetos por causa das sanções. E a Rosatom, por sua vez, ainda assinará outros contratos na usina nuclear de Bushehr.

Oleogasoduto TANAP será ligado ao TAP
A União Europeia – e especialmente os EUA – está apostando na “reabilitação” do Irã, como numa bonança econômica/política; a primeira vantagem real seria Teerã tornar-se fornecedora de mais outro difícil gambito no Oleogasodutostão, a saber o gasoduto Trans-Anatolian (TANAP), que talvez esteja, ou talvez não esteja, pronto em 2018. O gasoduto TAP(Trans Adriatic) levará gás até a Europa cruzando a Turquia, mas ainda não há certeza sobre quanto gás os fornecedores potenciais – Azerbaijão ou Irã – poderão disponibilizar.

O gasoduto TAP/TANAP em operação, não significa que as exportações da Gazprom para a União Europeia tenham de ser diminuídas. De fato, o que funcionários russos e iranianos vêm discutindo já há algum tempo é o quão lucrativo pode vir a ser para os dois países exportar para a União Europeia. Além do mais, a Rússia ainda tem, para jogar, mais uma carta chave no Oleogasodutostão – o Ramo Turco [orig. Turk Stream], que canalizará gás russo para Turquia e Grécia.

Oleogasoduto Ramo Turco (Turk Stream)
E, sim, a Gazprom apronta-se para ser fornecedora chave, ao mesmo tempo, de dois mercados essenciais. Eis o que disse ao canal Rossiya-24, o presidente da Gazprom, Alexei Miller:

O recurso base da Sibéria Ocidental é recurso usado para exportar gás para a Europa. Em outras palavras, nesse momento estamos no momento perfeito, quando começará verdadeira concorrência, pelos nossos recursos entre dois megamercados: o mercado asiático e o mercado europeu.

Negócios rápidos-SWIFT

Pequim, enquanto isso, está também na ofensiva. Como grande fornecedor de energia – de petróleo e de gás – o Irã é questão de segurança nacional para a China. Assim sendo, mesmo com sanções sobre sanções, o governo dos EUA sempre foi forçado a renovar autorizações e mais autorizações para a China, com Pequim sempre importando energia à vontade, do Irã.

Negócios e comércio sem uso do US$
O Irã é nó absolutamente chave da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda comandada pelos chineses – seja como parte da rota por terra, seja como parte da Rota Marítima da Seda, que tocará o porto de Chabahar. E a parceria China-Irã não se expande só em laços mais estreitos na energia e no comércio/trocas: ela também inclui avançada tecnologia de defesa chinesa, e a contribuição dos chineses no programa de mísseis balísticos do Irã.

A China criou um sistema paralelo ao da já existente Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Globais [ing. SWIFT], para pagar pela energia que compra do Irã; depois do acordo nuclear, Teerã terá livre acesso àqueles fundos, em Yuan. Executivos iranianos da energia já estiveram em Pequim para discutir os investimentos chineses na indústria iraniana de energia. As chinesas Sinopec e CNPC serão importantes para desenvolver projetos nos campos de gás de Pars Sul – o maior do planeta – e nos campos-gigantes de Yadavaran e Azadegan Norte, de petróleo.

Para o Irã, tudo isso acontecerá paralelamente, enquanto as gigantes europeias de energia investem no desenvolvimento e na tecnologia de gás natural liquefeito [ing. liquefied natural gás (LNG).

Investindo em várias frentes, a China também contribuirá para finalmente ajudar a completar o muito complicado oleogasoduto Irã-Paquistão (IP), que no futuro poderá incluir até uma extensão até Xinjiang.

Xi faz Teerã

A cobertura desse imenso bolo de energia é o quanto ambas, Rússia e China estão profundamente dedicadas a integrar o Irã em sua visão eurasiana. O Irã pode finalmente ser admitido como membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)], já na próxima assembleia de verão, na Rússia. Implica ampla e crescente parceria política/ comercial/ de segurança reunindo Rússia, China, Irã e a maioria dos “-stões” da Ásia Central.

Países da Organização de Cooperação da Xangai
O Irã já é membro fundador do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) [orig. Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)]; significa financiamento para muitos projetos relacionados à(s) Nova(s) Rota(s) da Seda que certamente beneficiarão a economia iraniana. Os fundos que o BAII proverá com certeza se fundirão com empréstimos e outras contribuições para o desenvolvimento da infraestrutura relacionadas ao Fundo Rota da Seda, criado pelos chineses.

E por fim, mas não menos importante, a parceria estratégica China-Irã será discutida detalhadamente durante a visita que o presidente Xi Jinping da China fará a Teerã, no próximo mês de maio/2015.

É fácil recordar o quanto o Irã foi menosprezado, tratado como “isolado” pela camarilha excepcionalista há bem poucos meses. A verdade é que o Irã jamais esteve isolado; todo o tempo trabalhou empenhada, incansavelmente, construindo blocos para a integração da Eurásia.

Empresas europeias, é claro, estão ansiosíssimas para deslanchar uma avalanche de investimentos no mercado iraniano pós-sanções, e a maioria das gigantes de energia sonham com reduzir a dependência da UE à Gazprom. Mas enfrentarão concorrência formidável, porque já há muito tempo Moscou e Pequim identificaram de que lado soprava ao vento: a favor da inevitável (re)emergência do Irã como potência eurasiana crucialmente decisiva.

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Nota dos tradutores

[1] A tradução é tentativa. Impossível saber com certeza, mas a expressão parece ser um reaproveitamento metafórico de Have Gun. Will Travel [aproximadamente, talvez, “Tenho arma. Vou viajar”], título de um seriado norte-americano (1957-1963), do gênero western.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Pepe Escobar: Irã, EUA, Rússia e China, a verdadeira história

4/3/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Epígrafe acrescentada na Vila Vudu, colhida de mensagem que recebemos hoje, boa demais para não aproveitar aqui:
[Netanyahu] is trying to kill ME, Yossarian told him calmly.
No one's trying to kill you, Clevinger cried.
Then why [Netanyahu] is shooting at ME? Yossarian asked.
Not at you! [Netanyahu] is shooting at everyone, Clevinger answered. [Netanyahu]’s trying to kill everyone.
I told ya.
Adaptada de HELLER, Joseph, Catch-22, 1961, (ing. PDF grátis).
Tradução:
[Netanyahu] quer ME matar, Yossarian disse calmamente.
Ninguém quer matar você, Clevinger berrou.
Então, por que [Netanyahu] está atirando em MIM? Yossarian perguntou.
Não em você! [Netanyahu] está atirando em todo mundo, disse Clevinger. [Netanyahu] quer matar todo mundo.
Foi o que eu disse.


Mohammad Javad Zarif - MRE do Irã
A verdadeira história nunca teve coisa alguma a ver com o primeiro-ministro de Israel, doente-por-guerras, Bibi Netanyahu, líder estrangeiro que se serviu violentamente do Castelo de Cartas (House of Cards), desculpem, do Capitólio, nos EUA, como palancão de campanha de reeleição e para enquadrar a presidência e a política externa dos EUA.

Prova muito clara disso é que, enquanto em Washington, Bibi “Bombardeie o Irã” destilava aquela arenga de 39 minutos, em Montreux o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry e o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif trabalhavam na terceira rodada de negociações nucleares.

A verdadeira história é também, em parte, sobre esse novelão perene – o dossiê nuclear iraniano. Mas ao final do corrente mês há um prazo a ser cumprido para um primeiro arranjo; e em junho – com otimismo – um acordo final amplo.

O que está em jogo nesse mais alto nível é coisa que todos os principais jogadores já sabem há eras. Teerã não assinará acordo algum que não ponha fim ao imundo e ilegal pacote de sanções ainda vigentes. E Washington, inspirada sempre pela política de “Não faça nenhuma merda coisa estúpida” do governo Obama, só faz puxar as traves do gol, de um lado para o outro, ao longo das negociações.

A mais recente “ideia” de Obama foi “exigir” que o Irã suspenda toda a atividade nuclear por dez anos. Para Zarif, a coisa é “ilógica” e “excessiva”.

É. Tão ilógica quando a paranoia que é marca registrada da cesta de neoconservadores e extremistas de direita no governo dos EUA. Comparem-se a reação dos norte-americanos e o modo como o líder supremo do Irã, Aiatolá Khamenei considera o poder nuclear – com todas as implicações que tem; e é posição divulgada há eras, para todos verem. Assista vídeo dele a seguir legendado em inglês:


China, Rússia e o Plano B

Diferente do regime Cheney, o governo Obama parece ter chegado a uma conclusão lógica – induzida por horas e horas que o Pentágono perde de joystick na mão: Washington não pode destruir o sistema nuclear iraniano – a não ser que use armas nucleares.

Ao longo da maior parte da década passada, esse foi o Plano A. Plano B são as “negociações” que nunca terminam, que se resumem a aparecer sempre com várias limitações ao programa nuclear iraniano em troca de um sempre muito duvidoso fim das sanções.

De fato, o verdadeiro objetivo dos Masters of the Universe que controlam o teatro de sombras no eixo Washington/Wall Street é administrar o declínio imperial. Implica, no sudeste da Ásia, uma nova sessão de “Dividir para Governar”, dessa vez com Turquia, Irã, Arábia Saudita e Israel nos papeis principais.

Alguns jogadores−chave em Washington estão ficando cada dia mais impacientes com a Casa de Saud, a qual – com sua estratégia de baixo preço do petróleo – está bombardeando a indústria de petróleo de xisto dos EUA. Outros se preocupam por a Turquia – depois de negócio-monstro no Oleogasodutostão, o Ramo Turco – estar-se deslocando para mais perto da Rússia. Assim, enquanto não for fechada, a opção de reintegrar o Irã numa colaboração com o ocidente, continua a render negócios lucrativos para empresas norte-americanas.

Mas Rússia e China tampouco estão sentadas vendo a vida passar: lá estão, como partes importantes do grupo P5+1 que negocia com os especialistas e autoridades do Irã. Os dois países BRICS podem usar – e usam – o Irã como alavanca no modo como negociam com o hegemon, sempre encontrando vias pelas quais minar o “pivoteamento para a Ásia”, dos EUA.

Organização de Cooperação de Xangai

Tão logo estejam normalizadas as relações com o Irã, Teerã será admitida à Organização de Cooperação de Xangai [Shanghai Cooperation Organization (SCO)]; atualmente, o Irã participa como observador. Washington teme esse movimento – porque acelera a integração eurasiana do Irã, e dá firmeza a um eixo político/comercial Moscou-Teerã-Pequim.

A Rússia já mantém bons negócios com o Irã – de usinas nucleares à venda de armas. Nenhum acerto EUA-Irã acontecerá sem aquiescência tácita (no mínimo) dos russos – e os norte-americanos sabem disso. Pequim, por sua vez, tende a firmar-se no status quo. A China não quer Teerã muito mais próxima do ocidente, porque implicaria um hegemon muito mais ‘'solto'’ no movimento de “pivotear-se” para a Ásia. A China corretamente vê o Irã numa função de conter o “ocidente”.

No futuro, passos adiante, nessa estrada, Teerã pode usar essa alguma ‘'reaproximação'’ com o ocidente, para aumentar seu poder de barganha com Pequim. Se algum acordo for obtido nesse verão, Teerã estará numa excelente posição para extrair concessões – na economia, segurança, defesa – de seus parceiros chineses. Mas em todos os casos o nome do jogo sempre é integração eurasiana.

O Califato, “nossos” filhos-da-puta

Quanto ao vociferante Bibi, só lhe restou mais uma vez tentar vender a Washington a escolha de uma guerra israelense contra um Irã demonizado ensandecidamente. Não funcionou – mais essa tentativa de os suspeitos de sempre, o lobby organizado no AIPAC, ordenarem, sem meias palavras, que suas tropas de choque dissessem ao Castelo de Cartas [House of Cards], digo, ao Congresso dos EUA, que guerra é paz, e acordo nuclear é acordo com o demônio em pessoa.

Como escreveu Trita Parsi, para Bibi, a verdadeira “ameaça existencial” é a paz.

O culpado é o Irã!
Mais uma vez, também aqui a história verdadeira não é algum Irã nuclear; é a possibilidade de uma détente EUA–Irã; nesse caso, as garras de Israel sobre a política exterior dos EUA enfraquecem, deixam de ser garras de ferro.

Como se poderia prever, Bibi esbravejou furiosamente contra aquelas forças do mal que pululam em sua “vizinhança”, de Irã e “Líbano” (falava do Hezbollah), à Síria de Assad e ao Hamas. Mas... nem uma palavra contra ISIS/ISIL/Daesh. É como declarar que um Irã não nuclear é ameaça pior à civilização que o Califato fake, viciado em degolas. Esposando tal visão de mundo, Bibi não pode aspirar nem a extra no seriado House of Cards [Castelo de Cartas] – agora no Netflix.

Enquanto isso, a verdadeira história de Israel – o apartheid/ocupação ilegal imposto aos palestinos – prossegue, ocultada pelo cacarejo daqueles sonâmbulos que circulam na House of Cards, desculpem, no Senado dos EUA, que Bibi bombardeou até deixar em ruínas.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books.