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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sobre a crueldade

17/7/2014, [*] Judith ButlerLRB, vol. 36, n. 14, pp. 31-33
On Cruelty
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Resenha de: The Death Penalty [Pena de morte][**]: Vol. I by Jacques Derrida, trad. (ao ing.) Peggy Kamuf, Chicago, 328 pp, £24.50, January, ISBN 9780226144320


“De onde vem essa ideia bizarra, bizarra,” – Jacques Derrida pergunta, lendo Nietzsche sobre a dívida, em Para a Genealogia da Moral. Uma Polêmica (1877), [1] “essa ideia antiga, ancestral, arcaica (uralte), tão, tão profundamente enraizada, ideia talvez indestrutível, de uma possível equivalência entre dano e dor (Schaden e Schmerz)? De onde vem essa estranha hipótese ou pressuposição de equivalência entre duas coisas tão incomensuráveis? O que poderia haver em comum entre um malfeito e um sofrimento?” Para responder, ele aponta que “a origem do objeto legal, e notavelmente da pena legal, é a lei comercial; é a lei do comércio, a dívida, o mercado, a troca entre coisas, corpos e signos monetários, com seu equivalente geral e sua mais-valia, o lucro”.

No primeiro volume de The Death Penalty [Pena de morte (a trad. ao inglês, aqui resenhada)], Derrida considera o jus talionis [a pena de Talião], o princípio de equivalência segundo o qual se estabelece uma relação “entre o crime e a punição, entre o dano e o preço a pagar”. A dívida, em Para a Genealogia da Moral, dá a Nietzsche uma via para compreender como “a consciência da culpa”, a “má consciência”, veio ao mundo.

Antes, já lamentara que “aquela coisa sombria, chamada reflexão”, na qual o self torna-se seu próprio objeto de incansável escrutínio e autopunição. Se alguém quer cumprir uma promessa, é preciso queimar a lembrança ante a vontade, submetê-la – ou se autossubmeter – a um reino de terror, em nome da moralidade, administrar dor a si mesmo para assegurar a continuidade e a calculabilidade de cada um ao longo do tempo. Se é para eu ser moral e manter minhas promessas, recordarei o que prometi e manter-me-ei sempre o mesmo ‘eu’ que primeiro lançou a tal promessa, resistindo a qualquer circunstância que possa mudar a continuidade dele ao longo do tempo, jamais adormecendo quando é indispensável manter-se completamente desperto.

A promessa assume outro significado em Nietzsche, quando o que eu prometi é precisamente pagar uma dívida, promessa que faço e à qual me mantenho ligado por uma determinada espécie de contrato. O que aparentemente queimei ante a vontade, ou queimou-se lá, é uma promessa de lembrar e pagar aquela dívida, cumprir a promessa num período calculável de tempo e assim me tornar criatura calculável. Sou confiável para calcular prazos e para calcular dinheiro para pagar o que devo: essa possibilidade de prestar contas por coisa devida é a promessa. Posso contar comigo mesmo; e outros podem contar comigo. Se me provo capaz de fazer um contrato, então posso receber um empréstimo, e acredita-se que pagarei a dívida e os juros, de modo que o emprestador pode acumular riqueza a partir da minha dívida, de modo previsível. Se eu fracasso, se “dou calote”, a lei intervém para proteger o interesse dele, com o interesse (juro) que arranca de mim.

Friederich Nietzsche
Nietzsche pergunta como dívida e pagamento-de-dívida tornaram-se o contexto primário para que se conceitualizassem criminalidade e sanção. Rastreando a persistência da lei romana na jurisprudência alemã no século XIX, Nietzche argumenta que o dano é conceitualizado como uma dívida, e todo o castigo é compreendido como um pagamento. A partir disso, todo o campo do sofrimento é pervasivamente economistizado; e o contrato converte-se em modelo destacado da troca humana. Para Nietzsche, todo e qualquer tipo de dano ou injúria é agora modelado a partir da relação credor-devedor.

Com o dano já concebido como pagamento devido (eventualmente em situação de “calote”), a psique desenvolve uma lógica de penitenciária.

A forma psíquica que o pagamento assume é a culpa, entendida como uma espécie de pagamento perpétuo de dívida que jamais é dada por saldada. A sanção se torna uma forma de subjetivação: ao punir o criminoso que infligiu dano/incorreu em dívida, forma-se um sujeito que pune, que castiga [ele/ela] por [ele/ela] ter falhado no dever de ser calculável. Se ele ou ela se tivesse comprovado calculável, não teria acontecido dano algum? Mesmo assim algum dano aconteceria, porque a única via para tornar-se animal comprovável e calculável, segundo Nietzsche, é precisamente se autoinfligir dano/sofrimento, queimando uma lembrança ante a vontade, de tal modo que a lembrança arde outra e outra e outra vez, sempre que a promessa é quebrada, e também sempre que a promessa é cumprida.

A culpa torna-se a modalidade psíquica do devedor que não pode nem romper nem cumprir o contrato. Qual, então, é a modalidade psíquica do credor? Nietzsche comenta aquelas leis romanas que permitiam que o devedor fosse esquartejado pelo credor ou por seus procuradores legais. Derrida continua o pensamento: [2]

Ao credor é assegurado o reembolso psíquico (...) Em vez de uma coisa, em vez de algo ou alguém, ele recebe algum prazer, algum gozo [jouissance], um sentimento de bem-estar ou de maior bem-estar (Wohlgefuehl), receberá um prazer que consiste no voluptuoso prazer de causar sofrimento ao outro (...)“faire le mal pour le plaisir de le faire”, [fazer o mal pelo prazer de fazê-lo] (...) Em lugar de algum equivalente, algo ou alguém, o credor recebe, como retorno, como pagamento, o prazer de fazer violência (Genuss in der Vergewaltigung).

E apesar de Derrida aceitar a tradução de Vergewaltigung como “violência” (usualmente, Gewalt), essa é também a palavra em alemão para “estupro”, o que levanta o problema de se é possível distinguir em formas sexualizadas e dessexualizadas de destrutividade nas formas do castigo legal. De fato, o movimento para fazer injúria como dívida que exige pagamento produz a culpa e o sadismo: o devedor torna-se o que está perenemente pagando numa situação na qual nada afinal pode ser pago & quitado; o credor está sempre castigando e gozando nessa tarefa aparentemente infinita. A ideia de equivalência, introduzida pela pena de Talião [jus talionis], permite que uma coisa substitua outra por meio do pagamento. Vídeo a seguir:


O ponto não parece ser realmente recompor o todo, mas lucrar e punir mais gozosamente por um período indefinido de tempo. Manter suas partes circulando é o que da ao credor seu prazer; e punir dívidas, estabelecendo-as como impagáveis, abre um futuro potencialmente infinito de delícia sádica. A prisão é estabelecida sobre o modelo de dívida social, de modo que ditar a sentença passa a ser um modo de regular e estender, o tempo da dívida.

Para Nietzsche, e nisso Derrida o segue bem de perto, a punição legal, além de servir aos objetivos declarados, mantém uma vocação furtiva na qual o sadismo opera mediante ambos os termos, da lei e da moralidade. Nietzsche descobriu que a crueldade – de fato, “crueldade festiva” – invadiu esses dois domínios. Aparece explicitamente nas reflexões de Bentham sobre o castigo, mas também pode ser encontrada operante numa forma mais sutil no imperativo categórico de Kant, o qual, disse Nietzsche, “fede à [reicht nach] cruedade”. Quando Kant justifica a pena de morte à base do imperativo categórico, demonstra o ponto de vista nietzschiano de que a crueldade pode ser, e é, mascarada como moralidade, e que o prazer de infligir crueldade pode ser, e é, racionalizado como dever moral. Pressagiando Kant avec Sade de Lacan, Nietzsche procura expor a gozosa crueldade da moralidade de Kant. Derrida leva isso um passo adiante, figurando Meursault, o assassino absurdista em O Estrangeiro de Camus, como kantiano paradigmático:

Se eu sei por que mato, acho que estou certo por matar, e essa razão que dou a mim mesmo é uma razão que qualquer um pode defender racionalmente com a ajuda de princípios universalizáveis. Mato alguém e sei por que, porque acho que é necessário, que é justo, que qualquer outro em meu lugar faria o mesmo, que o outro é culpado em relação a mim, fez-me algum malfeito ou fará e assim por diante... isso posto, o crime é significante, deliberado, calculado premeditado, orientado por um objetivo, pertence à ordem da justiça penal e não é mais dissociável de uma condenação à morte, de um ato propriamente penal. Nesse ponto, a distinção entre vingança e justiça torna-se precária

Mastroiani no papel de Meursault 
Mas Nietzsche também escreve algo mais, a saber que contratos comerciais são modelo de contrato social, que requer que os humanos passem pela internalização de seus impulsos agressivos. O que é internalizado ou, de fato, reprimido por entrar no contrato social é “hostilidade, crueldade, o gozo de processar, atacar, mudar, destruir”. Essa internalização pode operar como sublimação, dando origem à alma, a todo o mundo interior, à má consciência e à culpa – tudo que torna um homem interessante.

O desenvolvimento dessa capacidade custa preço altíssimo, que alguns chamam de neurose, e que Nietzsche descreve como “doença grave que o homem pode contrair sob o estresse da mais fundamental mudança pela qual jamais passou – aquela mudança que ocorreu quando ele viu-se finalmente fechado entre as paredes da sociedade e da paz”. O contrato social exige que o sujeito renuncie à opção de agir agressivamente e destrutivamente e produza uma formação psíquica na qual o sujeito se autoesmurra e, portanto, expõe-se ao risco de vir a ser seu próprio carrasco executor.

E os que se opõem à pena de morte podem fugir à crueldade? Nietzsche previne que a crueldade bem pode ser primária. Pode ser reprimida, que é um modo para dirigir a crueldade contra si próprio, ou dirigida contra outros em alguma versão moralizada, por exemplo, fazendo preferir a prisão à pena de morte (prolonga-se a ação da crueldade, pode-se dizer, em vez de uma morte imediata). A proibição da ação agressiva é ataque agressivo contra a agressão, o qual paradoxalmente preserva, ou redobra, a agressão, ainda que vise a erradicá-la. Ninguém pode livrar-se dela. “A figura da abolição” – escreve Derrida – “é de uma morte da pena de morte”.

Derrida recorre a reflexões de Freud sobre a agressão e à pulsão de morte para perseverar nessa questão mais ampla sobre a crueldade. Além do Princípio do Prazer põe em questão a operação exclusiva do princípio do prazer como princípio que organiza a vida psíquica. Há modos de destrutividade que não podem ser explicados pelo princípio do prazer? A pulsão de morte emerge como modo de explicar as compulsões à repetição que não conseguem estabelecer nenhum tipo de mando [orig. mastery] sustentável. Aparecem para Freud primeiro como parte da “neurose de guerra” e foram separadas de formas de neurose organizadas pela realização de desejo. Essas formas de repetição compulsiva não buscavam gratificação: eram repetições não desejadas que consumiam o ego. Derrida é franco: “[o que está em questão] é um diagnóstico de uma crueldade que não tem contrário porque é originária”.

Essa inversão dialética característica da má consciência – redobrar a agressão no esforço para estabelecer o oposto dela – prova-se importante para a abordagem de Derrida, da pena de morte e do abolicionismo.

Para Derrida, os que se opõem à pena de morte – como ele – são colhidos no mesmo problema que colhe os que pregam a pena de morte, mas por quê? Os abolicionistas estarão talvez tentando erradicar a pulsão de morte – a “hostilidade à vida”, como diz Derrida, que é “inerente à própria vida?”. Será esse o furtivo propósito deles? “Ultrapassar a crueldade por alguma aparente não crueldade” – ele continua – “seria mero ultrapassamento em crueldade, um excesso, uma superoferta de crueldade”.

Robespierre
Derrida observa que Robespierre mudou de ideia, de opositor a afirmador da pena de morte, no espaço de dois anos, dependendo do que lhe pareceu mais útil – se mais temia pela própria vida ou se mais desejava a morte dos adversários.

Os que se opõem à pena de morte, como Beccaria e às vezes Bentham, parecem preferir uma longa, prolongada forma de prisão cruel, o que leva à pergunta: que campo nesse debate defende a forma mais humana de castigo? Desconfiado de formas de agressão disfarçadas como benevolência, Derrida pergunta se alguns abolicionistas estão comprometidos com outras formas de violência mascaradas sob formulações morais elegantes, diferentes das que racionalizam o prolongamento do tempo da crueldade e o mandato do gozo sádico.

Assim como Nietzsche descobriu que o imperativo categórico de Kant estava encharcado em sangue, assim Freud pensou que o mandamento cristão “ama teu próximo como a ti mesmo” seria de obediência absolutamente impossível. Por que meu vizinho teria de me amar? – pergunta. E por que deveria eu amar meu vizinho? “É muito provável que meu vizinho, se lhe for ordenado que me ame como ele se ama ele mesmo, responderá exatamente como eu respondi, e me repelirá pelas mesmas razões”. Freud sugere que só podemos realmente amar quem conheçamos, e que é absurdo ordenar que amemos o resto da humanidade: como posição padrão normal, a hostilidade parece posição mais razoável.

O que parece estar em jogo aqui não é nem uma atitude padrão de hostilidade, nem sequer alguma propensão ocasional para a crueldade, mas o problema mais amplo da pulsão de morte. Em Além do Princípio do Prazer e em O Mal-estar da Civilização escrito dez anos depois do primeiro, em 1930, Freud escreve sobre uma espécie de destrutividade que visa a desmantelar formas sociais construídas à base de objetivos sexuais reprimidos, como família, comunidade e nação. Observa em várias ocasiões, em particular quando considera a ambivalência constitutiva do amor, que o princípio de prazer e a pulsão de morte trabalham em conjunto, mas têm de ser distintos, mesmo assim, em termos dos respectivos objetivos finais. Em Além do Princípio do Prazer, Freud faz duas afirmações inversas sobre a relação entre o prazer e a pulsão de morte: primeiro, dá o exemplo do sadismo, no qual a pulsão de morte “é posta a serviço da função sexual”; segundo, poucas páginas adiante, “o princípio do prazer parece realmente servir aos instintos de morte”, que estão “especialmente vigilantes contra aumentos de estimulação de fora, que tornariam mais difícil a tarefa de viver”. Assim, cada um pode estar a serviço do outro, o que significa que nenhum dos dois é necessariamente primário. A pulsão de morte nos encaminha para a morte, num circuito de retorno ao inorgânico que milita contra um senso progressivo do tempo, repetidamente quebrando as relações sociais que construímos, e nos devolvendo a um estado de quiescência. Assim as duas pulsões – ou princípios, se se prefere – parecem reunir-se outra vez nessa quiescência final na qual tudo que é construído é desfeito, espalhado, voltando o ego evanescente a uma condição inorgânica na qual o organismo é aliviado de qualquer excitação.

Sigmund Freud
Sabemos que a civilização produz infelicidade porque normas sociais exigem que não atuemos todos os nossos desejos à procura de gratificação. Idealmente, laços sociais surgidos de desejos inibidos criam comunidades, e a sublimação de desejos imediatos cria arte, instituições ou trabalhos como o de Freud. Mas o outro problema com a civilização é que parece ativamente desmantelar o que ela construiu, destruir o que alguém fez ser, e atacar os que se ama; toma como alvos suas próprias criações e ligações, perseguindo um furtiva vocação – repetitiva, sem saber – que trabalha na direção contrária às suas tarefas orientadas avante e a todos os conceitos de progresso. Freud encerra O Mal-estar na Civilização observando que a civilização corre o risco de ser desfeita por sua própria agressão; e chega ao ponto de manifestar sua ansiedade ante a possibilidade do extermínio.

Uma curta passagem no livro prova-se muito importante para o argumento de Derrida. Freud está escrevendo sobre a pena de morte: “Não podemos deixar de lembrar um incidente ocorrido na Câmara dos Deputados francesa (assumo que nos anos 1790s), quando a pena capital estava em debate. Um dos membros acabara de defender apaixonadamente a abolição da pena capital e seu discurso estava sendo recebido com tumultuosos aplausos, quando uma voz vinda do plenário exclamou: ‘Que messieurs les assassins commencent!’ [3] [Que os senhores assassinos comecem! (NTs)].

É como se a convocação para deixar que os assassinos começassem seu trabalho fosse parte das paixões incendiadas pelo discurso abolicionista. Serão os abolicionistas como campanhistas antipornografia que acabam por excitar seus apoiadores com descrições detalhadas da pornografia que querem erradicar?

O abolicionismo da pena capital tem problema diferente, dado que aqui nem é tanto o desejo, mas a pulsão de morte que se põe, ela mesma, em oposição moral às próprias expressões. Será que a leitura de Derrida sugere que a oposição à pena de morte possa rapidamente ser convertida em seu oposto, desencadeando uma afirmação celebratória da própria destrutividade?

Charles Baudelaire
Derrida retoma a crítica de Baudelaire ao abolicionismo de (Victor) Hugo em O Último Dia de um Condenado (1829) [4] cujo argumento é que se tem de ser contra a pena de morte porque o direito à vida é absoluto. Pregar o fim da pena de morte em defesa de um absoluto direito à vida é, para Baudelaire, como Derrida nos lembra, “duplamente culpado”: é apegar-se à existência animal e abandonar a existência humana. A paixão dos que se opõem à pena de morte é a culpa, observa ele, “porque temem pela própria pele, porque se sentem culpados e seus tremores são confissão, e o abolicionismo é sintoma neles; só querem salvar a própria vida, tremem por si mesmos, porque (...) inconscientemente sentem-se culpados de pecado mortal”. Assim a paixão contra o castigo é articulada pelos que são culpados, não por o que fazem, mas por o que desejam não desejar: livrar-se de alguém. Mas também porque temem perder a própria vida. Então formulam a própria posição, não por princípio, mas por medo de serem liquidados por outro: “Quero abolir a pena de morte, porque tenho medo de ser condenado”. (...)

“Ah, a hipocrisia que anima e agita os defensores de causas justas!”

A posição de Derrida implica que a única via para uma posição abolicionista é mediante a supressão violenta do impulso agressivo, um redobrar da agressão que é hoje promovido e amplificado por instrumentos morais. Mas dado que a agressão pode ser interrompida por orientações mais relacionais, por que a oposição à pena de morte não poderia emergir delas? O princípio do prazer sempre intervém para descarrilhar a agressão, e já observei que, para Freud, a pulsão de morte pode ser posta a serviço do princípio do prazer, e que o prazer pode servir ao objetivo de criar e reproduzir laços sociais. No contexto de laços sociais preservados, agressão pode tornar-se agonismo ou pode ser estritamente contida em regras de um jogo: uma cena sexual sadomasoquista, por exemplo, ou outra atividade de sujeição com regras.

Mas há argumento mais geral a apresentar, sobre a ideia de ambivalência emocional de Freud. Essa ideia aparece desde cedo em suas interpretações de Hamlet em A Interpretação dos Sonhos; merece um capítulo em Totem e Tabu; e é central na explanação da melancolia, em Luto e Melancolia. Depois de 1920, foi refeita como modo de interpenetração do princípio do prazer e da pulsão de morte. Não há superação da ambivalência no amor, porque estamos sempre sob o risco de destruir aquilo a que mais somos ligados, e vulneráveis a ser destruídos por aqueles dos quais mais dependemos. Conforme esse modelo posterior, o Édipo não necessariamente mata o pai para possuir a mãe (implicaria postular a realização do desejo como objetivo final de todos os desejos assassinos); ele pode ser empurrado por vários motivos inconscientes a matar o pai, e a gratificação sexual pode estar, ou não, entre aqueles motivos.

Assim, o problema com a inversão dialética de Derrida é que depende da pulsão de morte, ou de seu principal expoente, a agressão, como único motivo ativo na cena.

Que decisões éticas emergem da situação ambivalente de desejar que alguém morra e, ao mesmo tempo, desejar que viva, e mesmo de desejar as duas coisas com igual intensidade, mas em diferentes níveis de consciência?

Ambivalência não é exatamente o mesmo que hipocrisia.

Sou hipócrita se, ainda que furtivamente, quero que alguém morra, ou sou possuído de desejo assassino ainda que eu oculte aquele desejo num argumento moral, digamos: sou contra a pena de morte. Sou hipócrita só se há desejo de fingir que não tenho o desejo, mas de fato o tenho.

Na condição de ambivalência contudo, há pelo menos dois desejos em operação, dois verdadeiros motivos em luta para coexistir, apesar da incompatibilidade. O que, então, trabalha contra a demanda interna de que alguém pague por um crime com a própria vida? Será que só desejamos que o/a criminoso/a viva quando podemos gozar ao infligir-lhe mais dor? Ou há outras razões pelas quais podemos desejar que ele/ela viva? Há, mesmo em termos de psicanálise, razões para manter o outro vivo e que não dependam primariamente de nosso desejo de continuar a torturar o outro, mesmo que não seja alguém em particular, mas um anônimo, ou qualquer da população em geral?

Para responder essa pergunta, temos de perguntar também se há relações sociais externas aos termos de dívida e pagamento, relações que possam ser compreendidas fora do capital, ou fora dos termos psíquicos e morais pelos quais a injúria-cum-dívida autoriza o encarceramento e a pena de morte.

Isso já é andar, de uma teoria da pulsão, para considerar a racionalidade, mas não significa que se possa dispensar tão facilmente o problema da destrutividade. Afinal, quando Freud põe Eros e Thanatos como dois princípios separados, como pulsões que pertenciam à linguagem figural acessível para ele, está tentando dar conta da ambivalência. Eros pode bem ser definido como o que constrói laços sociais mediante a sublimação, mas o amor – é preciso não esquecer – também é constituído por ambivalência. Esse é precisamente o ponto do qual parte Melanie Klein, sugerindo que a ambivalência de todos os laços humanos é a base de uma demanda ética para preservar precisamente a vida que alguém tenha poder para, e às vezes também interesse em, destruir.

Eros e Thanatos por Taito-nii-san
“O poder do amor – que é a manifestação das forças que tendem a preservar vida – ali está, no bebê, como também estão os impulsos destrutivos”, escreve Klein em Amor, Culpa e Reparação. [5] A fantasia de destruição torna-se acoplada ao medo de perder aqueles dos quais se é absolutamente dependente. Executar aquele do qual eu dependo para comida, abrigo e sobrevivência é pôr em risco minha própria existência. O “medo de perder” emerge vezes seguidas em Klein: “Há (...) na mente inconsciente uma tendência a entregar [a mãe], que é contra-atuada pelo desejo urgente de mantê-la para sempre”. Essa forma de ambivalência emerge desenvolvimentalmente como laço emocional quando a individuação não é completa. Mas dado que a individuação jamais é completa, e a dependência jamais realmente superada, emerge um dilema ético mais amplo: como não destruir o outro ou os outros dos quais careço para viver.

Não se trata de calcular que destruí-los seria, provavelmente, má ideia. Em vez disso, se trata de reconhecer que a dependência nos define fundamentalmente: é algo que eu jamais ultrapasso, não importa quanto tempo viva e o quanto possa parecer individualizado. E não é que você e eu sejamos iguais; em vez disso, é que nós invariavelmente tendemos para e sobre um o outro, e é impossível pensar em qualquer um de nós, sem o outro. Se procuro preservar sua vida, não é só porque é do meu autointeresse fazê-lo, ou porque tenha calculado que essa preservação trará melhores consequências para mim. É porque já estou ligado a você num laço social sem o qual esse “eu” não pode ser pensado.

Assim, que implicações tem para o amor a tese da ambivalência emocional, para que se pensem alternativas à pena de morte e, em termos gerais, à violência legal? Há alguma via pela qual se possa ir além da relação dialética entre o castigo da pena de morte e da prisão perpétua?

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Acompanhando a “Crítica da Violência” de Benjamin, [6] Derrida desvela a intimidade tóxica entre crime e remédio legal. A lei distingue entre formas legítimas e ilegítimas de pena de morte, estabelecendo os procedimentos pelos quais aquela distinção é feita. Também estabelece os casos nos quais o estado pode infligir violência mortal, seja em guerra seja mediante instrumentos legais como a pena de morte. A pena de morte, para Derrida, considerada como modalidade de violência legal, acaba com a distinção entre justiça e vingança: a justiça passa a ser a forma moralizada que a vingança assume.

Chama a atenção que essa seja visão que se encontra, comum a ambos, em Derrida e na intelectual e ativista Angela Davis. Os dois requereram o rejulgamento ou a libertação imediata de Mumia Abu-Jamal (prisioneiro político condenado à morte em 1982 pelo assassinato de um policial: sua sentença foi convertida em prisão perpétua sem possibilidade de recurso ou perdão em 2012); os dois argumentam que o “crime” de Mumia Abu-Jamal é seu relacionamento com os Panteras Negras. Para Davis, a alternância entre sentença de morte e prisão perpétua é dialética:

Angela Davis
Por importante que seja abolir a pena de morte, temos de estar conscientes do modo como a campanha contemporânea contra a pena capital tende a recapitular os próprios padrões históricos que levaram à emergência do emprisionamento como forma dominante de castigo. A pena de morte coexistiu com o emprisionamento, mas supunha-se que o emprisionamento devesse servir como alternativa ao castigo corporal e à pena de morte. Essa é uma grande dicotomia. Engajar-se criticamente com essa dicotomia implica considerar seriamente a possibilidade de conectar a meta de abolir a pena de morte com estratégias para abolir as prisões.

Como Davis, Derrida compreende que a pena de morte e de emprisionamento absolutamente não se opõem, mas são duas modalidades de uma economia da vingança.

Quando o estado mata e justifica que assim faça, ele consuma a vingança mediante seus processos de raciocínio: a violência legal deixa de ser diferente da violência não legal, exceto que, agora, o estado perpetra o ato e oferece a justificativa. Mas para Davis, a tarefa é avançar além da vingança.

Herbert Marcuse
Em dado momento, o mentor intelectual de Davis foi Herbert Marcuse, o qual, em Eros e Civilização, [7] no qual se reencontra com O Mal-estar na Civilização, sugere que Eros possa ser expandido para criar formas de comunidade que fariam frente à força de Thanatos, ou à pulsão de morte aumentada sob o capitalismo. Referiu-se ao superávit de agressão gerado sob o capitalismo e sugeriu que Freud estivesse descrevendo uma muito específica organização social da agressão, não uma pulsão pré-social de morte. Para Marcuse, além disso, a energia revolucionária, como tal, teria de ser dirigida contra instituições repressivas, dentre as quais o capitalismo e a família.

Que eu saiba, não há uma teoria das pulsões no trabalho de Davis: a sexualidade e a agressão são socialmente organizadas. Mas, ao mesmo tempo, há uma clara compreensão de que a resistência política tem de fazer as duas coisas: construir e destruir. Não há meio para fugir dessa dupla demanda. Davis clama pela abolição, não só da pena de morte, mas da instituição e da indústria do aprisionamento. Negar instituições violentas e de exploração exige que se use a destrutividade, mas também busca estabelecer e reforças os laços sociais mediante a reparação e a “justiça restaurativa”, não mediante a vingança e a retribuição.

Se permanecemos dentro do problema da relação entre crueldade e pulsão de morte, chega a ser surpreendente o quanto a pulsão de morte – ou a agressão – pode ser plenamente dirigida por programas políticos conscientes, como os que Davis propõe, e nos quais sempre há um excesso de destrutividade que não pode ser controlado nem explicado pela organização social da vida. A pergunta importante aqui parece ser se os laços sociais podem ser compreendidos no quadro da civilização, ou de algum outro modo.

Para Freud, em O Mal-estar na Civilização, a civilização dificilmente nos salvará: a face moral da civilização é, afinal de contas, a vingança; e as prisões são suas instituições-modelo. Em lugar das prisões, Davis imagina comunidades focadas em curar e reparar, em formas de responsabilidade que forjam novos laços sociais, para os que os tenham quebrado. Esses laços seriam explicitadamente anticapitalistas, e poriam fim a formas racistas de exploração.

Davis insiste que nos EUA as duas coisas, as prisões e a pena de morte, têm de ser compreendidas como parte do legado da escravidão, dado que número desproporcional de prisioneiros e de hóspedes dos corredores da morte nos EUA são homens, negros e latinos, já com porcentagem crescente de mulheres negras ou latinas (a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (ing. National Association for the Advancement of Colored PeopleNAACP) estima que norte-americanos negros “constituam hoje cerca de um milhão, do total de 2,3 milhões da população encarcerada nos EUA. Negros norte-americanos aparecem na proporção de 6 vezes mais que brancos norte-americanos. Somados, norte-americanos negros e de origem hispânica constituem 58% de todos os prisioneiros nos EUA em 2008, apenas de a população de norte-americanos negros e de origem hispânica não passar de ¼ da população dos EUA”. Em anos recentes, esses números ainda aumentaram. Nos EUA hoje há mais de 3.000 prisioneiros hóspedes de corredores da morte. Todos são pobres. E a maioria deles é de norte-americanos negros ou de origem latina.

Davis argumenta também que o amor e o perdão devam ser buscados, como alternativas a penas para retribuir o crime. Não implica que não haja destrutividade nesse quadro, mas a destrutividade assume a forma de ‘'negar'’ as prisões, cuja modalidade de destrutividade fere a vida que, em tese, deveria estar sendo reparada e até restaurada para um mundo social mais amplo.

Estaremos aqui realmente nos afastando da pulsão de morte?

E se compreendemos a pulsão de morte não só como manifesta dentro da psique individual, ou em termos de psicologia de grupos, mas como algo que passa a controlar instituições e orienta seus objetivos, uma força com furtiva tenacidade?

Exigir o fim das prisões e das penas de aprisionamento pode não ser possível, ou exequível, mas a exigência estabelece uma perspectiva a partir da qual podemos ver o quanto o “remédio” legal incorpora de crueldade.

Exigir o fim da crueldade é exigir a destruição das instituições da crueldade; a única questão que permanece é se é possível controlar os efeitos destrutivos que adviriam de desinstitucionalizar os criminosos. Fato é que as consequências destrutivas de atos que visam a destruir a destruição não podem ser conhecidas na totalidade, antes.

É aí, talvez, que Freud, que vê a operação inconsciente da pulsão de morte, parece ter a última palavra, indicando um futuro de destruição cujos exatos contornos não conhecemos, e ante o qual só sabemos sentir ansiedade.

Para Davis, o abolicionismo [da pena de morte] refere-se à demanda de que sejam abolidas a pena capital e as prisões, mas também a escravidão, que continua como fenômeno global, ativo não só nos buracos escuros do mundo em desenvolvimento, mas também no trabalho forçado no campo, nos EUA. Prisões são também um legado da escravidão, agindo hoje como o mecanismo institucional pelo qual um número desproporcional de negros são privados da cidadania. O fato de a pena de morte ser desproporcionalmente aplicada a negros implica que aí está um meio para regular a cidadania por outros meios e, no caso da pena de morte, concentrando o poder do estado sobre questões de vida e morte e que afetam diferentemente minorias populacionais. Mas esse poder não é simplesmente ou exclusivamente soberano.

Achille Mbembe
Com a ideia de uma demografia dos condenados, entramos no terreno que Achille Mbembe chamou de “necropolítica” [orig. necropolitics].

A evidência de que empresas de segurança já assumiram a administração de prisões nos EUA, no Reino Unido e por toda parte, expõe a ligação que há entre quem é propriedade de outrem, quem é posto fora do jogo, cuja dívida social ou econômica já não é pagável e agora define quem deve ser protegido contra a classe criminosa, que produz uma classe de gente cuja vida valeria a pena preservar, e outra, cuja vida pode ser facilmente perdida ou destruída.

O perdão da dívida entra nesse quadro? Qual seria seu equivalente psíquico? Seria talvez a operação do “perdão” como força de desinstitucionalização, incluindo a desinstitucionalização da soberania e da pena de morte? As reflexões de Derrida sobre o “perdão” foram o foco de seu seminário em 1997-99, que precedeu diretamente seu seminário sobre a pena de morte. Uma questão levantada então foi se o perdão deve ser figurado como ato soberano, ou pode ser modo para desconstituir formas estabelecidas de soberania. Há modo para conceitualizar o perdão como forma de vida institucional, talvez como força motriz que pode levar à desistitucionalização de ambas, da prisão e da pena de morte?

Talvez a oposição à pena de morte tenha de ser ligada a uma oposição a formas de precariedade induzida tanto dentro como fora da prisão, de modo a expor os vários diferentes mecanismos de destruir a vida e para encontrar meios, conflitantes e ambivalentes que sejam, de preservar vidas que, de outro modo, seriam perdidas. 
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Notas sobre autores

[*] Judith Butler (nasceu em 24/2/1956, Cleveland, Ohio) é uma filósofa pós-estruturalista estadunidense, uma das principais teóricas da questão contemporânea do feminismo, teoria queer, filosofia política e ética. É professora do departamento de retórica e literatura comparada da University of California em Berkeley (Professor Maxine Elliot).
Butler obteve seu Ph.D. em filosofia na Yale University em 1984, e sua dissertação foi publicada comoSubjects of DesireHegelian Reflections in Twentieth-Century France. No final da década de 1980, entre diversas designações de ensino e pesquisa (tais como no Centro de Humanidades na John’s Hopkins University), ela envolveu-se nos esforços de crítica ao estruturalismo presente na teoria feminista ocidental (Claude Lévi-Strauss), questionando os "termos pressuposicionais" do feminismo vigentes.
Seus trabalhos mais recentes focam a filosofia judaica, centrando-se em particular nas "críticas pré-sionistas da violência estatal”.

[**] ROUDINESCO, Elisabeth; DERRIDA, Jacques. De que amanhã... Diálogo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004, 240 p..
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Notas de rodapé

[1] NIETZCHE, F. Para a Genealogia da Moral. Uma polêmica (1877) (Pode ser lido em português) [NTs].

[2] Esses fragmentos do livro resenhado foram traduzidos aqui, sem referência ao original, sem qualquer rigor terminológico ou tradutológico, apenas para ajudar a ler, por superficial que seja a leitura. Nosso trabalho é distribuir iscas às massas, não vender peixe assado anteontem [NTs].

[3] FREUD, S. O Mal-estar na Civilização, cap. 5, vol. XXI da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969 [NTs].

[4] VICTOR HUGO, O Último Dia de um Condenado, São Paulo: Estação Liberdade. Trad. Joana Canêdo, 2002 [NTs]

[5] KLEIN, Melanie. Amor, Culpa, Reparação e Outros Trabalhos, in OBRAS COMPLETAS DE MELANIE KLEIN, São Paulo: Imago, 1996, 504 pp.

[6] BENJAMIN, Walter. “Crítica da Violência”, in Escritos sobre mito e linguagem (1915-1921) (1ª. ed., 2011; 2ª. ed. 2013), São Paulo: Ed. 34/Duas Cidades. Trad. Susana Kampff Lages e Ernani Chaves. Org., Apres. e Notas de Jeanne Marie Gagnebin, 176 p.

[7] MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização: Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, Rui de Janeiro: Civilização Brasileira, trad. Álvaro Cabral.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Musil e meta-Musil: a inevitável Iª Guerra Mundial

1/7/2014, [*] David P Goldman, “Spengler”, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"O Homem sem qualidades" (capas originais)
O Ocidente não estava grávido, em agosto de 1914; só estava com prisão de ventre. Em vez de parir o futuro, esvaziou os intestinos com fúria.

Robert Musil
Nenhum desastre na história do mundo foi mais previsível nem de preparação mais demorada. O grande romance de Robert Musil, O homem sem qualidades, [1] mostra a elite vienense nos meses antes da guerra, com suas preocupações pequenas, sem se dar conta de que o mundo dela estava às vésperas de sumir. É o maior antirromance europeu, porque a premissa autorreferencial – os protagonistas não sabem o que todos os leitores sabem – impede que o romance tenha fim. Não há escolhas certas, porque nada pode impedir que aquele mundo-bolha exploda. Depois de Musil – meta-Musil, por assim dizer – vem a grande evacuação. O romance é considerado obra-prima no mundo de língua alemã. Poucos norte-americanos o conhecem e, dentre esses, ainda menos são os que compreendem o romance.

Agora, quando se aproxima o 100º aniversário da Iª Guerra Mundial, ouviremos número infindável de variações de lamentos pela Civilização Ocidental. Todos dirão mais ou menos o seguinte: no auge de sua prosperidade, de descobertas científicas e de realizações de grande arte, as nações europeias, de repente, inexplicavelmente, mergulharam em massacres mútuos e prepararam o terreno para o grande massacre que viria, de 1939 a 1945. Nada disso. Está errado, simplesmente errado.

A Europa já fizera a mesma coisa antes, por duas vezes: primeiro, na Guerra dos 30 Anos, de 1618-1648; e depois, outra vez, nas Guerras Napoleônicas, de 1797-1814.

Napoleão Bonaparte
As baixas francesas nas Guerras Napoleônicas foram comparáveis às da Iª Guerra Mundial, em relação à população. A França perdeu de 1,4 a 1,7 milhões de homens, sob Napoleão, de uma população total de 29 milhões. Tipicamente, no século XVIII, homens de 17-49 anos constituíam 1/5 da população. O total de contingente militar humano da França Napoleônica era de menos de 6 milhões de homens, o que significa que as baixas alcançaram 23-28% do total da população masculina ativa, mais do que na Iª Guerra Mundial. Muitos mais de outras nações também morreram; dos 500 mil soldados do exército poliglota de Napoleão que marchou para a Rússia em junho de 1812, só 16 mil voltaram.

Os eventos de 1914-1939, como Winston Churchill disse bem, foram “uma segunda Guerra dos 30 Anos”. De fato, a primeira Guerra dos 30 Anos foi, em vários sentidos, pior. Matou quase metade da população da Europa Central e deixou vazias grandes áreas da Espanha e da França.

Obnubilados como somos pela ideia de Progresso, do Iluminismo, rapidamente apagamos o precedente de nossos próprios problemas. Na leitura “das Luzes”, a Guerra dos 30 anos foi conflito religioso, a última orgia de sangue da superstição medieval, antes que a Idade da Razão varresse de vez as teias do fanatismo. É absolutamente falso: depois da revolta inicial, abortada, dos Protestantes da Boêmia contra o Império Austríaco, a Guerra dos 30 Anos tornou-se conflito franco-espanhol, luta de fanáticos dos dois lados, que acreditavam que a respectiva nação teria sido escolhida por Deus para ser agente Dele na Terra. Foi guerra religiosa, afinal de contas, mas guerra entre duas leituras nacionalistas pervertidas do cristianismo católico. A mesma megalomania etnocêntrica impeliu as nações da Europa na direção de 1914.

A guerra poderia ter sido evitada, afinal; e montar cenários nos quais teria sido evitada é uma espécie de prática artesanal doméstica, para historiadores. Esses cenários são mal disfarçadas ‘lições’ de política para o presente. Sou autor de um livro desses, de cenário em que a guerra seria evitada, a saber, uma guerra alemã preventiva contra a França durante a Primeira Crise do Marrocos de 1906 (vide Why war comes when no one wants it, Asia Times Online, 2/5/2006).

As causas objetivas da guerra são bem conhecidas e infindavelmente analisadas. A Alemanha tinha a economia e população que mais rapidamente cresciam; os rivais, para conter sua influência, a cercaram.

● – Com a população estagnada, a França não poderia esperar reconquistar para si as províncias de Alsácia e Lorena que perdera para a Alemanha em 1870 – nem vencer qualquer guerra futura, a menos que fosse guerra imediata. Da paridade em meados do século 19, em 1914 a população alemã já era 1,5 vezes maior que a da França.

Mapa da França (Alsácia e Lorena no NE, em vermelho)
● – A Alemanha não poderia concentrar seu exército num ataque esmagador contra a França, se esperasse até a Rússia ter construído sua rede ferroviária interna.

● – A Áustria não conseguiria manter as etnias fracionadas dentro do Império, sem castigar a Sérvia. Não poderia garantir direitos iguais aos sérvios, sem provocar os húngaros, que tinham posição privilegiada no império; só restava suprimi-los.

● – A Rússia não poderia manter controle sobre a parte oeste industrializada do império – Polônia, Ucrânia, os estados do Báltico e a Finlândia – se a Áustria humilhasse seu aliado sérvio, e a Rússia dependia dessas províncias para o grosso dos impostos que arrecadava.

● – A Inglaterra não poderia manter o equilíbrio de poder na Europa, se a Alemanha esmagasse a França.

Alianças na Ia. Guerra Mundial (1914-1918)
Nenhuma dessas potências conseguiria prosseguir sem encarar risco existencial: no caso da França, uma posição enfraquecida, sem esperanças, ante a Alemanha; no caso da Alemanha, uma eventual ameaça por uma Rússia industrializada; no caso da Áustria, rompimento do Império, por efeito de agitação eslavófila; no caso da Rússia, a perda das províncias do oeste, que cairiam na órbita teutônica; e no caso da Inglaterra, a irrelevância no continente, com desafio inevitável contra seu poderio nos mares.

Há vários excelentes relatos dos eventos que levaram à eclosão da guerra em agosto de 1914, um mais recente dos quais é Os Sonâmbulos, de Christopher Clark. [2] Cada um dos combatentes, de fato, dar-se-ia melhor se conseguisse declinar dos combates. Mas isso significaria abrir mão da reivindicação de superioridade nacional que motivara os combates. Combateram, em outras palavras, não porque tivessem, no sentido estrito da palavra, de combater, mas por causa do tipo de gente que eram. Evan deixa implícito que não estariam raciocinando. Mas com o quê, então, estariam sonhando?

Os europeus lutaram a Grande Guerra de 1914 para evitar converterem-se no que são hoje. Mas, como o homem na história de Somerset Maughan, [3] que tinha encontro com a morte em Samarra, deram um jeito de apressar o encontro.

Thomas Mann
Ainda causa escândalo na Alemanha, que o maior romancista alemão do século XX, Thomas Mann, tenha saudado com entusiasmo a chegada da guerra. Tinha o “coração incendiado” na declaração de guerra, e “sinto-me em triunfo com o colapso do odiado mundo da paz, com a desgraça da corrompida “civilização” mercantil-burguesa, eternamente inimiga do heroísmo e do gênio”. Mann louvou o “indispensável papel, como missionário”, da Alemanha; contrastou a Kultur alemã à mercenária Zivilisation ocidental.

Mann capturara o humor nacional. A Alemanha combateu a Iª Guerra Mundial sob o estandarte da Kultur. Em 1915, 93 dos principais intelectuais e artistas alemães assinaram manifesto em que justificavam o clamor da Alemanha por guerra, em nome da superioridade cultural. Esse é o cerne de uma fala de feia fama de Hans Johst, autor de uma peça teatral de propaganda nazista, Schlageter, [4] apresentada no aniversário de Hitler, depois de os nazistas terem chegado ao poder, em 1933: “Quando ouço a palavra cultura, solto a trava da minha pistola”. Entende-se, em geral, que essa fala mostraria que os nazistas eram analfabetos, o que não é verdade; Hitler era pintor, mau pintor, mas pintor; e amante da música. Na verdade, sempre manifestou rancor contra o sacrifício inominável que o velho regime exigia, a serviço dos velhos ideais.

Thomas Mann entusiasmava-se com a estética da guerra: as mesmas qualidades e as mesmas atitudes que dão forma à arte dão forma à guerra. Por estranho que soe, por mais que perturbe, Mann estava absolutamente certo: a arte e a guerra exigem o mesmo irrestrito comprometimento existencial.

Num artigo de 2010, argumentei que isso ajuda a explicar por que os israelenses tão frequentemente são músicos tão notáveis, os melhores musicistas do mundo clássico. Não apenas herdaram muitos dos melhores professores da Europa Central, mas, como nação, amam e buscam, muito mais do que temem e rejeitam, o risco; e o que faz as grandes interpretações musicais é um senso de risco. “Und setzet ihr nicht das Leben ein/Nie wird euch das Leben gewonnen sein” cantam os soldados da cavalaria de Wallenstein, no drama de Schiller, de 1799, sobre a Guerra dos 30 Anos: se você não aposta a própria vida, não ganha a vida para você mesmo. Com a Alemanha destroçada em 1945, Mann declarou então que a cultura alemã chegara ao fim. Esse é o ponto de seu grande romance do pós-guerra, Doutor Fausto: [5] o protagonista, Adrian Leverkuhn, enlouquece compondo uma cantata atonal cujo objetivo é “retomar” a 9ª Sinfonia de Beethoven – para substituir por aleatoriedade vazia, a harmonia ordenada do passado europeu.

Europa durante a Guerra dos 30 anos (1618-1648) 
(Clique na imagem para aumentar)
Os asiáticos, que abraçaram em grandes números a música clássica ocidental, devem estranhar muito que essa arte magnífica seja tão negligenciada em suas terras de origem. A resposta é que nós, no ocidente, nós todos, soltamos a trava da pistola quando ouvimos a palavra “cultura”. A cultura harmoniosa, ordeira e otimista da Europa de pré-1914 é carregada de lealdade à tradição, quer dizer: de atitudes que nos levaram para as trincheiras. Desprezamos a cultura, porque abominamos a autoridade, a tradição, a lealdade, quer dizer, virtudes que os asiáticos ainda cultivam. Abominamos arte que exija de nós que reconheçamos autoridade superior – do gênio subordinado à tradição, ao precedente – e preferimos uma cultura popular que tudo nivelaria, com a qual nós podemos nos identificar como supostos iguais (vide American Idolatry, Asia Times Online, 29/8/2006). Mas há uma dimensão da arte ocidental – a abertura para o risco – que a maioria dos asiáticos tem muita dificuldade para entender.

George Weigel
O importante historiador católico George Weigel observa que, em 1914, até o clericato católico “bebeu fundo no poço de um nacionalismo que parecia além do alcance da crítica cristã moral. Assim, quando o Colégio de Cardeais reuniu-se em setembro de 1914 para eleger um sucessor do Papa Pio (...), o cardeal alemão Felix von Hartmann disse ao cardeal belga Desiré Mercier “Espero que não tenhamos de falar de guerra”, ao que Mercier respondeu de bate pronto: “E eu espero que não tenhamos de falar de paz”.  

Weigel cita o capelão alemão que cantava “Fúria sobre a Alemanha! Oh, grande guerra santa da liberdade!”, e o bispo anglicano de Londres, que conclamava os fiéis de sua congregação a matar alemães: “Matem-nos, não matar por matar, mas matar para salvar o mundo; matar os bons, e também os maus. Matar”. Weigel pensa que esse nacionalismo maligno tem raízes no século anterior à Iª Guerra Mundial. Não concordo. A megalomania da “nação eleita” motivou franceses e espanhóis, os dois lados da Guerra dos 30 Anos. Como escrevi em meu livro de 2011, How Civilizations Die (and Why Islam is Dying, Too) [Como as civilizações morrem (e por que o Islã também está morrendo)]:

Não só os interesses temporais do estado francês, mas a crença apaixonada em que a França seria A Nação Eleita, motivaram Richelieu e Tremblay a prolongar as guerras religiosas dos anos 1620s por trinta anos, matando vasta proporção da população da Europa Central (…) Se a Guerra dos 30 Anos foi genuinamente guerra religiosa, de católicos contra protestantes, a França, como o mais poderoso país católico, deveria ter apoiado a Áustria católica. Mas a França não podia apoiar a demanda das dinastias Habsburgo austríaca e espanhola, que queriam o título imperial e o direito de representar a Cristandade. E a França, em vez de apoiar, decidiu arruinar a Áustria e a Espanha, para estabelecer-se ela mesma.

Como os franceses (...) a corte espanhola também acreditava que a Espanha era a nação escolhida por Deus como sua Procuradoria terrena. O monge e teórico político Juan de Salazar escreveu, em 1619, em seu tratado Politica Española que “os espanhóis foram eleitos para realizar o Novo Testamento assim como Israel foi eleita para realizar o Velho Testamento. Os milagres com que a Providência favoreceu a política espanhola confirmam essa analogia do povo espanhol com o povo judeu, de modo que a similaridade dos eventos em todas as épocas, e o modo singular como Deus manteve a escolha e o governo do povo espanhol, declaram que esse é o povo escolhido pela lei da graça, assim como o outro foi o escolhido antes, no tempo das escrituras (...) Daí se pode concluir, das atuais circunstâncias, como das sagradas Escrituras, que a monarquia espanhola perdurará por muitos séculos e será a última monarquia”. Segundo Stanley Payne, aí se vê “atitude não incomum na corte e em parte da elite de Castela”.

E adiante:

A atormentada urgência de cada nação de ser “a escolhida”, experimentada na pele, começou com a primeira conversão de pagãos europeus; estava incorporada na Cristandade Europeia, na fundação. Cronistas cristãos põem os monarcas europeus recém batizados no papel de reis bíblicos; e suas nações, no papel da Israel bíblica. A primeira vez que se ouviu autoproclamação como “nação escolhida” foi no auge da primeira das Idades das Trevas: do cronista do século VIº, São Gregório de Tours (538-594); e do clérigo ibérico do século VIIº, Santo Isidoro de Sevilha.

Os Santos Isidoro de Sevilha e Gregório de Tours foram, de certo modo, os Bialystock e Bloom, [6] da Idade das Trevas; os Produtores do show “a fundação da Europa”: venderam 100% do show a cada um e a todos os reizinhos. Não se pode culpar os produtores. Transmutar os invasores bárbaros que infestavam o arruinado império dos romanos, em cristãos, foi talvez o mais notável feito político de toda a história mundial, mas requereu muita lábia, que teria consequências assustadoras, chocantes, no longo prazo. Os restos das imundícies do velho paganismo europeu acumularam-se nos enroscados intestinos da Europa, até que os terríveis eventos de 1914-1945 puseram tudo para fora.

Sigmund Freud
A visão autenticamente católica de um império universal não conseguiu impor-se, ela própria, sobre os reclamos mais tangíveis de sangue e terra. Os europeus não lutaram as guerras de 1618, 1814 ou 1914 como cristãos, mas como criptopagãos. Essa foi a discussão entre os críticos judeus, de Heinrich Heine a Franz Rosenzweig e Siegmund Freud. Freud escreveu:

Não podemos esquecer que todos os povos que hoje se destacaram na prática do antissemitismo só se tornaram cristãos em tempos relativamente recentes, às vezes obrigados por compulsão sangrenta. Pode-se dizer que todos foram ‘mal batizados’ [também “mal cristianizados” (NTs)]; sob um fino verniz de cristianismo, permaneceram o que seus ancestrais sempre foram, barbaramente politeístas. Ainda não superaram o ressentimento e a rejeição que lhes inspira a nova religião, que foi imposta a eles; e que eles projetaram sobre a fonte da qual veio a eles o cristianismo. [7]

Os homens não são moderados. Não somos tão diferentes de nossos pais como gostamos de crer. Os europeus hedonistas, sem filhos, de hoje, são o mesmo povo que lutou e morreu aos milhões pelo rei pelo país em 1618 ou 1814. Qualquer coisa pela qual valha a pena viver vale também que se morra por ela; se não se consegue pensar em nada por que morreríamos, implica que tampouco temos algo por que viver – exatamente como os europeus de hoje. A Europa aprendeu por muito tempo que sangue e terra, Kultur e Grandeur, eram itens pelos quais não valeria a pena lutar. Mas a Europa nada encontrou, pelo qual viver, depois que rejeitou para sempre os deuses nacionais de seu passado violento. Está morrendo de nervoso e tédio, desgostosa do próprio passado e descuidosa do próprio futuro, sem querer pôr filhos no mundo nem, que fosse, para assegurar a própria sobrevivência por mais um século.

“Muito foi salvo”, escreveu um soldado da Grande Guerra, J R R Tolkien, mas “muito tem agora de morrer”. Apesar de Hans Johst, a cultura europeia não morrerá: como aconteceu com a guarda da cultura grega clássica, que passou para as mãos de europeus, a arte europeia – pelo menos, com certeza, sua música – passará para as mãos de asiáticos.



Notas dos tradutores

[1] MUSIL, Robert [1880-1942], O homem sem qualidades (1930-33-43), Nova Fronteira, 1978, trad. Lya Luft e Carlos Abbenseth, 2 vol., 786 pp (romance inacabado).

[2] CLARK, Christopher. Os sonâmbulos: como eclodiu a primeira guerra mundial, 1914. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[3] Encontro com a morte em Samarra. É o trecho final de uma peça escrita por Somerset Maughan em 1932. Lê-se, em português
.
[4] Schlageter, Albert Leo: sobre o personagem título.

[5] MANN, Thomas [1875-1955]. Doutor Fausto (1947), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, trad. Herbert Caro, s/d.

[6] Referência aos personagens do filme The Producers, primeiro filme de Mel Brooks, de 1968 (Zero Mostel faz o papel de Max Bialystock, produtor de uma peça teatral; e Gene Wilder é Leo Bloom, seu secretário). Em português, lê-se alguma coisa (de segunda mão) em O Estado de S.Paulo, em 1969 sobre a peça teatral (“Os Produtores”) que foi montada no Brasil; talvez ajude a entender a metáfora.

[7] FREUD, S. Moisés e o monoteísmo (1939 [1934-38]). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XXIII.
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[*] Spengler, apelido de David P. Goldman, escreve a coluna Spengler para o Asia Times Online e contribui frequentemente para as publicações The Tablet, First Things (2009-2011) e outras. Foi Chefe Global de Pesquisa de Dívida do Bank of America (2002-2005), Diretor Global de Estratégia de Crédito do Credit Suisse (1998-2002). Ocupou cargos importantes nas organizações financeiras Bear Stearns e Cantor Fitzgerald. Foi colunista da revista Forbes (1994-2001). Seu livro How Civilizations Die (and why Islam is Dying, Too) foi lançado em setembro de 2011.