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terça-feira, 19 de maio de 2015

EUA acordam assombrações históricas contra a Eurásia


4/5/2015, [*] Andrew Korybko, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


The Saker
A Eurásia caminha para se tornar mais integrada do que jamais antes, com o Cinturão Econômico e a Rota da Seda chineses e a União Econômica Eurasiana patrocinada pela Rússia oferecendo a base estrutural para essa conexão histórica entre continentes. Os EUA compreendem a ameaça que daí advém para sua hegemonia (vide O Grande Tabuleiro de Xadrez de Brzezinski). E puseram a trabalhar sua mais recente arma pós-moderna: a militarização da memória histórica.

A Eurásia é como uma colcha de retalhos de memórias conflituosas, mas nenhuma mais controversa, polarizadora e conveniente ao objetivo norte-americano de dividir a Eurásia que a 2ª Guerra Mundial e a divisão sunitas/xiitas. Examinemos mais de perto:

Ásia

Os EUA estão apoiando empenhadamente a remilitarização do Japão, sobretudo porque o tema faz encrespar os nervos da China e evoca memórias de um retorno ao passado fascista de Tóquio. A China perdeu dezenas de milhões de cidadãos por efeito da brutal agressão japonesa e na ocupação subsequente, e tem planos para homenagear a memória desses chineses durante o próximo 70º aniversário do Dia da Vitória na Ásia. Os EUA veem tudo isso como absolutamente desnecessário, segundo o principal conselheiro de Obama para a Ásia, Evan Medeiros, nos termos da transcrição de material que o Departamento de Estado fez chegar à Agência Reuters, segundo a qual Medeiros teria dito que:

Queremos que toda a região supere tudo isso, para que a região possa realizar seu pleno potencial como motor do crescimento global, por exemplo. Assim, quando pensamos nessas questões históricas e quando pensamos sobre essa cerimônia na China... São ideias que gostaríamos de ver superadas.

Calma lá! Os EUA estão dizendo que as vítimas de agressão patrocinada pelo estado, e o país que perdeu milhões de vida por causa daquela agressão, deveriam “superar” essas “ideias”? Bem, sim, é o que disse o homem, mas lembremos que os EUA são sempre muito consistentemente subjetivos na aplicação das políticas que eles mesmos inventam. Não fosse isso, como se entenderia que a abordagem seja absolutamente oposta àquela, no que tenha a ver com a mesma IIª Guerra Mundial, mas na Europa Oriental? Mas antes de examinar isso, temos de examinar com mais detalhes a mesma militarização da memória histórica na Ásia.

Os EUA compreendem que o único modo factível de construírem alguma Coalizão para Conter a China [orig. China Containment Coalition (CCC)] é inflarem o envolvimento regional crescente do Japão, como seu procurador principal na operação de “Liderar pela Retaguarda” [orig. Lead From Behind] naquele específico teatro.

Liderar pela retaguarda
É como uma liderança real exceto que
SEM CORAGEM, SEM HONRA ou COMPROMISSO
A única ocasião em que Tóquio esteve no papel de hegemon regional foi durante a IIª Guerra Mundial. E por mais que para alguns, inclusive a China, doa admitir, muitos dos povos da região sentiram-se certo alívio ao tombarem sob o controle japonês, porque qualquer coisa lhes parecia melhor que a colonização europeia (Indochina e Indonésia são os principais exemplos).

É verdade que houve grupos de resistência e os japoneses, sem dúvida, cometeram atrocidades em grande escala nas terras ocupadas, mas de modo geral não houve resistência contra o Japão, que se compare à resistência que os chineses impuseram. Os chineses literalmente combateram pela própria sobrevivência (assim como a União Soviética e seu povo combatiam pela sobrevivência deles, contra os nazistas).

Por mais que se chamem de “colaboradores” do Japão, à maioria dos asiáticos não chineses na Ásia ocupada, ou que sejam acusados de aceitar passivamente a tirania de Tóquio, nada disso altera o fato de que o Japão ocupante encontrou considerável apoio entre a população, e esses apoiadores não se sentiram compelidos a levantar-se e iniciar algum tipo de resistência semelhante à chinesa.

É esse, precisamente, o estado de coisas que os EUA querem “reatualizar” nesse século XXI, com o Japão Imperial servindo de modelo para a Coligação para Conter a China no nordeste e sudeste da Ásia, exatamente como se viu durante a IIª Guerra Mundial.

Como se vê na declaração de Medeiros, a atitude oficial dos norte-americanos ante a crítica que os chineses têm feito contra a remilitarização do Japão e a clara adesão dos EUA àquele mesmo modelo da era fascista da história do Japão é que Pequim deveria “superar tudo isso” – o que é fácil de dizer, porque os EUA perderam fração mínima do que a China perdeu na IIª Guerra Mundial. E os EUA nunca lutaram guerra dentro do próprio território por mais de 200 anos. [1]

Moscou, 9/5/2015 - Desfile de tropas chinesas no
70º aniversário da vitória da Rússia sobre o nazismo

Europa

Como os EUA reagem à invocação do criticismo dos tempos da IIª Guerra Mundial, pelos seus aliados nacionalistas radicais do leste europeu? Será que já disseram a Kiev, à Polônia, aos Estados Bálticos, que tratem de “superar isso” e cuidem de enterrar o passado fascista deles todos?

Por que não teriam de simplesmente aceitar o fato histórico de que foram libertados pelo Exército Vermelho e agradecer à União Soviética que pôs fim à guerra? Nada disso! O que se vê é o exato oposto, como todos com certeza já sabem.

No leste da Europa, os EUA também estão apoiando o renascimento de movimentos e de interpretações históricas da era do fascismo, precisamente como têm feito no leste da Ásia com o Japão, e também reagem furiosamente contra quem (sobretudo, a Rússia) que sugira que os EUA estão do lado errado da história, seguindo suas instáveis alianças neofascistas.

Nesse teatro ocidental do tamanho da Eurásia onde cresce a tendência regressista estimulada pelos EUA, Washington não quer que ninguém, absolutamente, jamais “supere” a IIª Guerra Mundial, exceto, claro, a Federação Russa e o período vitorioso da União Soviética.

Exceto Moscou, o resto do mundo no Leste da Europa tem de manter a guerra no centro de todos os seus pensamentos e planos, mas só se se tratar da versão fascista da história da guerra que os EUA só superficialmente “desinfetaram”.

A versão da guerra que os EUA divulgam está longe de realmente desinfetada para o ser humano médio, mas para os EUA, que nunca se servem ou ensinam alguém a servir-se de princípios morais ou éticos ou legais na política exterior, (quaisquer referências aos itens acima citados, quando as há, são cortinas “marketadas” para vender seja qual for a guerra da hora), é a única interpretação que se pode aceitar para os eventos da IIª Guerra Mundial. De fato, os EUA prefeririam que tais ideias fossem promovidas, de interpretação, a ideologia regional, tudo para construir um “cordão sanitário” no século XXI em torno da Federação Russa.

Norte da Europa (países Bálticos e Nórdicos)
Quanto mais subjetivamente (e em muitos casos, falsamente) os “fatos” acima possam servir para separar Rússia e Europa, melhor; e dado que a Europa Oriental á a mais receptiva a essa guerra de informação, faz perfeito sentido que metade dos “centros de comunicação estratégica” da OTAN estejam localizados naquela área. Pode-se dar por dado sabido e confirmado que essas entidades estão agora dedicadas a desenterrar toneladas de material revisionista da era da IIª Guerra Mundial, numa campanha frenética para reescrever rapidamente a história aprovada pelos EUA para todos os eventos, e para “implantar” a “memória” desses eventos na mente das maiorias regionais.

O que os EUA fazem hoje é obrar para replantar raízes de ódio intergeneracional contra a Rússia naquela parte do mundo. Assim, os EUA parecem sentir-se mais seguros de que seus vassalos regionais permanecerão sob seu controle nas décadas futuras.

Oriente Médio

Os planos dos EUA para estimular o crescimento de ódio intergeneracional contra a Rússia parecem pouca coisa, se comparados ao que os EUA estão fazendo no Oriente Médio, onde estão recriando o ódio entre seitas islamistas.

Embora a cisão entre sunitas e xiitas tenha acontecido há mais de mil anos, e o rápido período de guerras sangrentas que resultaram da cisão tivessem sido já, de pleno direito, relegados ao passado, os estrategistas dos EUA decidiram desenterrar essa memória amarga, para ajudar a promover a estratégia norte-americana contemporânea.

A última coisa que os EUA desejam é que os muçulmanos “superem” suas divisões sectárias. Se em algum momento eles conseguiram superá-las (como, sim, conseguiram, por bem mais de mil anos), então é preciso imediatamente fazê-los relembrar todas as diferenças que, um dia, jogaram-nos num mesmo banho de sangue.

O conceito aqui é dividir para governar o Oriente Médio, mediante a militarização da divisão entre sunitas e xiitas, fazendo com que cada seita ponha-se a matar as demais simplesmente porque praticam ritos religiosos diferentes.

Europa: pós Guerra dos 30 anos
Aqui, o modelo que os EUA almejam implantar no Oriente Médio é guerra equivalente a Guerra dos 30 Anos na Europa, quando forças católicas e protestantes engalfinharam-se em guerra tão terrível que Oxford Bibliographies estima que 15-20% da população europeia pré-guerra estava morta ou ferida quando a guerra acabou:

(...) a extensão da miséria e da destruição levadas a todos que experienciaram aquela guerra foi comparável, se não superior, às das duas guerras mundiais e à Peste Negra.

No Oriente Médio, o objetivo dos EUA é criar tal vórtice de caos, que ele acabe por sugar também a Rússia e o Irã, graças à natureza expansionista de um movimento anti-Estado Islâmico. Esse Estado Islâmico, por sua vez nada é além de um crescimento ideológico metastático, viabilizado por meios militares.

O perigo desse “Estado Islâmico” advém do fato de que pode recolher adeptos de qualquer ponto onde vivam muçulmanos, e a violência sectária animalesca que o EI exibe ao mundo é ideal para provocar os ataques reativos necessários para iniciar uma guerra entre sunitas e xiitas que inflame todo o Oriente Médio, precisamente o objetivo dos EUA.

Passada essa conflagração catastrófica que os EUA esperam conseguir fazer acontecer (o pavio, infelizmente, já conseguiram acender), então se escreverá uma versão para o Oriente Médio de uma “Paz de Westphalia”, que pôs fim à guerra entre católicos e protestantes e iniciou a era dos estados-nação; e será escrita conforme interesse aos imperativos geopolíticos dos EUA. Pode-se prever que seja escrita na linha das propostas divisionistas e cartograficamente revisionistas de Ralph “Serviços de Limpeza Étnica” Peters, ou do New York Times em “Como cinco países podem virar 14”, ou alguma formação híbrida.

Recapitulação histórica

Nas sessões anteriores foram listadas muitas informações históricas, e parece necessário fazer uma rápida recapitulação histórica para pôr todos os detalhes no devido lugar de um quadro mais amplo.

Os EUA estão tentando fazer reviver as divisões históricas da IIª Guerra Mundial e a fissura entre sunitas e xiitas, para alcançar seu principal objetivo estratégico: dividir a Eurásia e impedir a integração de Rússia-China-Irã num supercontinente.

Ásia Central - união entre Rússia China e Irã
O foco no fascismo para a Ásia visa a empoderar o agressor japonês como procurador preferido dos EUA (Liderando pela Retaguarda), e convencer os vizinhos da China a colaborar com o Japão, como fizeram no passado. A proposta desse tipo de relacionamento está antecipada para formar a base de uma proto-OTAN no Leste e Sudeste da Ásia, com o Japão operando como elo de conexão entre os dois teatros de contenção.

Na Europa Oriental as coisas são um pouco diferentes. Os EUA celebram governos e movimentos fascistas colaboracionistas que lutaram contra a URSS na campanha antiesfacelamento, na esperança de que isso faça surgir obstáculos entre os cidadãos e o impulso pragmático de cooperarem com a Rússia. O efeito final dessa estratégia é fortalecer o comprometimento das populações com a OTAN, a ponto de, um dia, as populações realmente convidarem os EUA a aprofundar a ocupação de seus territórios, como já se vê acontecer nos países do Báltico e na Polônia.

A Ucrânia é o experimento epistemológico do qual depende o futuro de outras aventuras europeias dos EUA nesse campo; até aqui, essa tática tem sido retumbante sucesso na linha de gerar sentimentos anti-Rússia na Europa, que já invadem a periferia da Europa, Escandinávia e Europa Ocidental.

Se se anda para a parte sul-centro da Eurásia, não se trata de reviver divisões da IIª Guerra Mundial, mas divisões religiosas velhas de mais de um milênio. Os EUA querem dividir e governar toda a região, na esperança de que a guerra sectária que deseja lançar completará o serviço sujo do Pentágono.

O jogo consiste em inflar o poder da Arábia Saudita, verdadeiro caldeirão de ódio sectário, de tal modo que o Reino torne-se o cerne de uma OTAN-Árabe (coligada com Israel) para ataque futuro ao Irã. Para complementar, a virulenta expansão de um “Estado Islâmico” visa a minar a estabilidade regional (e talvez algum dia também a estabilidade interna) do Irã – além de gerar um dilema para os estados da Ásia Central que são a base da segurança russa e chinesa.

Uma insurgência islamista de grande escala desencadeada no coração da Ásia com certeza respingaria sobre os dois gigantes eurasianos, forçando-os à posição defensiva e reabrindo a Caixa de Pandora da desestabilização doméstica.

À guisa de conclusão

Os EUA estão fazendo experiência com novo método de guerra, no esforço para conter e desmembrar Rússia, China e Irã: a militarização da memória histórica. A IIª Guerra Mundial foi reinterpretada de tal modo que passa a ser usada como arma contra Rússia e China; e a cisão sunitas/xiitas, que se manteve dormente e pacificada por mais de mil anos, foi novamente despertada com vigor religioso militante jamais visto desde as Cruzadas.

Pesadelo dos EUA=Asia Central+ Irã+China+Rússia
Cada teatro e cada reinterpretação da história orienta-se contra um diferente pilar de sustentação da Eurásia, mas o padrão de guerra pós-moderna é bem claro.

Ao mesmo tempo em que os EUA continuam a confrontar de modo direto os adversários identificados, estão agora tentando acelerar também suas estratégicas indiretas, vale dizer, a invocação de memórias históricas de cisões, novamente militarizadas, tentando criar amplas coalizões contra seus rivais (pressupostos).

Os fatos históricos estabelecidos já não interessam aos EUA – pode-se até dizer que jamais, de fato, interessaram muito. – Mas o que agora tem importância para os EUA é se seus públicos-alvo permanecem receptivos à história revisada ou não. Fato é, e pode-se ver com os próprios olhos, que os EUA estão conseguindo fazer rebrotar essas sementes de ódio e discórdia histórica. Até já começam a colher os seus primeiros frutos envenenados.
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Nota dos tradutores
[1] Os que não saibam nada sobre as guerras sino-japonesas, podem ler alguma coisa em “Primeira Guerra Sino-Japonesa”, “História da República da China” e “Guerra China-Japão na IIª Guerra Mundial”; para ter, pelo menos, uma ideia geral mínima. No Brasil, ensinar ignorância é prática prestigiada como uma das Belas Artes.
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[*] Andrew Korybko é Analista Político e escreve extensivamente sobre as relações internacionais da Rússia. É especialista em política do Oriente Médio, Ásia Central e Europa Oriental. Freqüente comentarista de TV e rádio. Originário de Cleveland, Ohio, está concluindo estudos de pós-graduação em Relações Internacionais na Universidade Federal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO).

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Musil e meta-Musil: a inevitável Iª Guerra Mundial

1/7/2014, [*] David P Goldman, “Spengler”, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"O Homem sem qualidades" (capas originais)
O Ocidente não estava grávido, em agosto de 1914; só estava com prisão de ventre. Em vez de parir o futuro, esvaziou os intestinos com fúria.

Robert Musil
Nenhum desastre na história do mundo foi mais previsível nem de preparação mais demorada. O grande romance de Robert Musil, O homem sem qualidades, [1] mostra a elite vienense nos meses antes da guerra, com suas preocupações pequenas, sem se dar conta de que o mundo dela estava às vésperas de sumir. É o maior antirromance europeu, porque a premissa autorreferencial – os protagonistas não sabem o que todos os leitores sabem – impede que o romance tenha fim. Não há escolhas certas, porque nada pode impedir que aquele mundo-bolha exploda. Depois de Musil – meta-Musil, por assim dizer – vem a grande evacuação. O romance é considerado obra-prima no mundo de língua alemã. Poucos norte-americanos o conhecem e, dentre esses, ainda menos são os que compreendem o romance.

Agora, quando se aproxima o 100º aniversário da Iª Guerra Mundial, ouviremos número infindável de variações de lamentos pela Civilização Ocidental. Todos dirão mais ou menos o seguinte: no auge de sua prosperidade, de descobertas científicas e de realizações de grande arte, as nações europeias, de repente, inexplicavelmente, mergulharam em massacres mútuos e prepararam o terreno para o grande massacre que viria, de 1939 a 1945. Nada disso. Está errado, simplesmente errado.

A Europa já fizera a mesma coisa antes, por duas vezes: primeiro, na Guerra dos 30 Anos, de 1618-1648; e depois, outra vez, nas Guerras Napoleônicas, de 1797-1814.

Napoleão Bonaparte
As baixas francesas nas Guerras Napoleônicas foram comparáveis às da Iª Guerra Mundial, em relação à população. A França perdeu de 1,4 a 1,7 milhões de homens, sob Napoleão, de uma população total de 29 milhões. Tipicamente, no século XVIII, homens de 17-49 anos constituíam 1/5 da população. O total de contingente militar humano da França Napoleônica era de menos de 6 milhões de homens, o que significa que as baixas alcançaram 23-28% do total da população masculina ativa, mais do que na Iª Guerra Mundial. Muitos mais de outras nações também morreram; dos 500 mil soldados do exército poliglota de Napoleão que marchou para a Rússia em junho de 1812, só 16 mil voltaram.

Os eventos de 1914-1939, como Winston Churchill disse bem, foram “uma segunda Guerra dos 30 Anos”. De fato, a primeira Guerra dos 30 Anos foi, em vários sentidos, pior. Matou quase metade da população da Europa Central e deixou vazias grandes áreas da Espanha e da França.

Obnubilados como somos pela ideia de Progresso, do Iluminismo, rapidamente apagamos o precedente de nossos próprios problemas. Na leitura “das Luzes”, a Guerra dos 30 anos foi conflito religioso, a última orgia de sangue da superstição medieval, antes que a Idade da Razão varresse de vez as teias do fanatismo. É absolutamente falso: depois da revolta inicial, abortada, dos Protestantes da Boêmia contra o Império Austríaco, a Guerra dos 30 Anos tornou-se conflito franco-espanhol, luta de fanáticos dos dois lados, que acreditavam que a respectiva nação teria sido escolhida por Deus para ser agente Dele na Terra. Foi guerra religiosa, afinal de contas, mas guerra entre duas leituras nacionalistas pervertidas do cristianismo católico. A mesma megalomania etnocêntrica impeliu as nações da Europa na direção de 1914.

A guerra poderia ter sido evitada, afinal; e montar cenários nos quais teria sido evitada é uma espécie de prática artesanal doméstica, para historiadores. Esses cenários são mal disfarçadas ‘lições’ de política para o presente. Sou autor de um livro desses, de cenário em que a guerra seria evitada, a saber, uma guerra alemã preventiva contra a França durante a Primeira Crise do Marrocos de 1906 (vide “Why war comes when no one wants it”, Asia Times Online, 2/5/2006).

As causas objetivas da guerra são bem conhecidas e infindavelmente analisadas. A Alemanha tinha a economia e população que mais rapidamente cresciam; os rivais, para conter sua influência, a cercaram.

● – Com a população estagnada, a França não poderia esperar reconquistar para si as províncias de Alsácia e Lorena que perdera para a Alemanha em 1870 – nem vencer qualquer guerra futura, a menos que fosse guerra imediata. Da paridade em meados do século 19, em 1914 a população alemã já era 1,5 vezes maior que a da França.

Mapa da França (Alsácia e Lorena no NE, em vermelho)
● – A Alemanha não poderia concentrar seu exército num ataque esmagador contra a França, se esperasse até a Rússia ter construído sua rede ferroviária interna.

● – A Áustria não conseguiria manter as etnias fracionadas dentro do Império, sem castigar a Sérvia. Não poderia garantir direitos iguais aos sérvios, sem provocar os húngaros, que tinham posição privilegiada no império; só restava suprimi-los.

● – A Rússia não poderia manter controle sobre a parte oeste industrializada do império – Polônia, Ucrânia, os estados do Báltico e a Finlândia – se a Áustria humilhasse seu aliado sérvio, e a Rússia dependia dessas províncias para o grosso dos impostos que arrecadava.

● – A Inglaterra não poderia manter o equilíbrio de poder na Europa, se a Alemanha esmagasse a França.

Alianças na Ia. Guerra Mundial (1914-1918)
Nenhuma dessas potências conseguiria prosseguir sem encarar risco existencial: no caso da França, uma posição enfraquecida, sem esperanças, ante a Alemanha; no caso da Alemanha, uma eventual ameaça por uma Rússia industrializada; no caso da Áustria, rompimento do Império, por efeito de agitação eslavófila; no caso da Rússia, a perda das províncias do oeste, que cairiam na órbita teutônica; e no caso da Inglaterra, a irrelevância no continente, com desafio inevitável contra seu poderio nos mares.

Há vários excelentes relatos dos eventos que levaram à eclosão da guerra em agosto de 1914, um mais recente dos quais é Os Sonâmbulos, de Christopher Clark. [2] Cada um dos combatentes, de fato, dar-se-ia melhor se conseguisse declinar dos combates. Mas isso significaria abrir mão da reivindicação de superioridade nacional que motivara os combates. Combateram, em outras palavras, não porque tivessem, no sentido estrito da palavra, de combater, mas por causa do tipo de gente que eram. Evan deixa implícito que não estariam raciocinando. Mas com o quê, então, estariam sonhando?

Os europeus lutaram a Grande Guerra de 1914 para evitar converterem-se no que são hoje. Mas, como o homem na história de Somerset Maughan, [3] que tinha encontro com a morte em Samarra, deram um jeito de apressar o encontro.

Thomas Mann
Ainda causa escândalo na Alemanha, que o maior romancista alemão do século XX, Thomas Mann, tenha saudado com entusiasmo a chegada da guerra. Tinha o “coração incendiado” na declaração de guerra, e “sinto-me em triunfo com o colapso do odiado mundo da paz, com a desgraça da corrompida “civilização” mercantil-burguesa, eternamente inimiga do heroísmo e do gênio”. Mann louvou o “indispensável papel, como missionário”, da Alemanha; contrastou a Kultur alemã à mercenária Zivilisation ocidental.

Mann capturara o humor nacional. A Alemanha combateu a Iª Guerra Mundial sob o estandarte da Kultur. Em 1915, 93 dos principais intelectuais e artistas alemães assinaram manifesto em que justificavam o clamor da Alemanha por guerra, em nome da superioridade cultural. Esse é o cerne de uma fala de feia fama de Hans Johst, autor de uma peça teatral de propaganda nazista, Schlageter, [4] apresentada no aniversário de Hitler, depois de os nazistas terem chegado ao poder, em 1933: “Quando ouço a palavra cultura, solto a trava da minha pistola”. Entende-se, em geral, que essa fala mostraria que os nazistas eram analfabetos, o que não é verdade; Hitler era pintor, mau pintor, mas pintor; e amante da música. Na verdade, sempre manifestou rancor contra o sacrifício inominável que o velho regime exigia, a serviço dos velhos ideais.

Thomas Mann entusiasmava-se com a estética da guerra: as mesmas qualidades e as mesmas atitudes que dão forma à arte dão forma à guerra. Por estranho que soe, por mais que perturbe, Mann estava absolutamente certo: a arte e a guerra exigem o mesmo irrestrito comprometimento existencial.

Num artigo de 2010, argumentei que isso ajuda a explicar por que os israelenses tão frequentemente são músicos tão notáveis, os melhores musicistas do mundo clássico. Não apenas herdaram muitos dos melhores professores da Europa Central, mas, como nação, amam e buscam, muito mais do que temem e rejeitam, o risco; e o que faz as grandes interpretações musicais é um senso de risco. “Und setzet ihr nicht das Leben ein/Nie wird euch das Leben gewonnen sein” cantam os soldados da cavalaria de Wallenstein, no drama de Schiller, de 1799, sobre a Guerra dos 30 Anos: se você não aposta a própria vida, não ganha a vida para você mesmo. Com a Alemanha destroçada em 1945, Mann declarou então que a cultura alemã chegara ao fim. Esse é o ponto de seu grande romance do pós-guerra, Doutor Fausto: [5] o protagonista, Adrian Leverkuhn, enlouquece compondo uma cantata atonal cujo objetivo é “retomar” a 9ª Sinfonia de Beethoven – para substituir por aleatoriedade vazia, a harmonia ordenada do passado europeu.

Europa durante a Guerra dos 30 anos (1618-1648) 
(Clique na imagem para aumentar)
Os asiáticos, que abraçaram em grandes números a música clássica ocidental, devem estranhar muito que essa arte magnífica seja tão negligenciada em suas terras de origem. A resposta é que nós, no ocidente, nós todos, soltamos a trava da pistola quando ouvimos a palavra “cultura”. A cultura harmoniosa, ordeira e otimista da Europa de pré-1914 é carregada de lealdade à tradição, quer dizer: de atitudes que nos levaram para as trincheiras. Desprezamos a cultura, porque abominamos a autoridade, a tradição, a lealdade, quer dizer, virtudes que os asiáticos ainda cultivam. Abominamos arte que exija de nós que reconheçamos autoridade superior – do gênio subordinado à tradição, ao precedente – e preferimos uma cultura popular que tudo nivelaria, com a qual nós podemos nos identificar como supostos iguais (vide American Idolatry, Asia Times Online, 29/8/2006). Mas há uma dimensão da arte ocidental – a abertura para o risco – que a maioria dos asiáticos tem muita dificuldade para entender.

George Weigel
O importante historiador católico George Weigel observa que, em 1914, até o clericato católico “bebeu fundo no poço de um nacionalismo que parecia além do alcance da crítica cristã moral. Assim, quando o Colégio de Cardeais reuniu-se em setembro de 1914 para eleger um sucessor do Papa Pio (...), o cardeal alemão Felix von Hartmann disse ao cardeal belga Desiré Mercier “Espero que não tenhamos de falar de guerra”, ao que Mercier respondeu de bate pronto: “E eu espero que não tenhamos de falar de paz”.  

Weigel cita o capelão alemão que cantava “Fúria sobre a Alemanha! Oh, grande guerra santa da liberdade!”, e o bispo anglicano de Londres, que conclamava os fiéis de sua congregação a matar alemães: “Matem-nos, não matar por matar, mas matar para salvar o mundo; matar os bons, e também os maus. Matar”. Weigel pensa que esse nacionalismo maligno tem raízes no século anterior à Iª Guerra Mundial. Não concordo. A megalomania da “nação eleita” motivou franceses e espanhóis, os dois lados da Guerra dos 30 Anos. Como escrevi em meu livro de 2011, How Civilizations Die (and Why Islam is Dying, Too) [Como as civilizações morrem (e por que o Islã também está morrendo)]:

Não só os interesses temporais do estado francês, mas a crença apaixonada em que a França seria A Nação Eleita, motivaram Richelieu e Tremblay a prolongar as guerras religiosas dos anos 1620s por trinta anos, matando vasta proporção da população da Europa Central (…) Se a Guerra dos 30 Anos foi genuinamente guerra religiosa, de católicos contra protestantes, a França, como o mais poderoso país católico, deveria ter apoiado a Áustria católica. Mas a França não podia apoiar a demanda das dinastias Habsburgo austríaca e espanhola, que queriam o título imperial e o direito de representar a Cristandade. E a França, em vez de apoiar, decidiu arruinar a Áustria e a Espanha, para estabelecer-se ela mesma.

Como os franceses (...) a corte espanhola também acreditava que a Espanha era a nação escolhida por Deus como sua Procuradoria terrena. O monge e teórico político Juan de Salazar escreveu, em 1619, em seu tratado Politica Española que “os espanhóis foram eleitos para realizar o Novo Testamento assim como Israel foi eleita para realizar o Velho Testamento. Os milagres com que a Providência favoreceu a política espanhola confirmam essa analogia do povo espanhol com o povo judeu, de modo que a similaridade dos eventos em todas as épocas, e o modo singular como Deus manteve a escolha e o governo do povo espanhol, declaram que esse é o povo escolhido pela lei da graça, assim como o outro foi o escolhido antes, no tempo das escrituras (...) Daí se pode concluir, das atuais circunstâncias, como das sagradas Escrituras, que a monarquia espanhola perdurará por muitos séculos e será a última monarquia”. Segundo Stanley Payne, aí se vê “atitude não incomum na corte e em parte da elite de Castela”.

E adiante:

A atormentada urgência de cada nação de ser “a escolhida”, experimentada na pele, começou com a primeira conversão de pagãos europeus; estava incorporada na Cristandade Europeia, na fundação. Cronistas cristãos põem os monarcas europeus recém batizados no papel de reis bíblicos; e suas nações, no papel da Israel bíblica. A primeira vez que se ouviu autoproclamação como “nação escolhida” foi no auge da primeira das Idades das Trevas: do cronista do século VIº, São Gregório de Tours (538-594); e do clérigo ibérico do século VIIº, Santo Isidoro de Sevilha.

Os Santos Isidoro de Sevilha e Gregório de Tours foram, de certo modo, os Bialystock e Bloom, [6] da Idade das Trevas; os Produtores do show “a fundação da Europa”: venderam 100% do show a cada um e a todos os reizinhos. Não se pode culpar os produtores. Transmutar os invasores bárbaros que infestavam o arruinado império dos romanos, em cristãos, foi talvez o mais notável feito político de toda a história mundial, mas requereu muita lábia, que teria consequências assustadoras, chocantes, no longo prazo. Os restos das imundícies do velho paganismo europeu acumularam-se nos enroscados intestinos da Europa, até que os terríveis eventos de 1914-1945 puseram tudo para fora.

Sigmund Freud
A visão autenticamente católica de um império universal não conseguiu impor-se, ela própria, sobre os reclamos mais tangíveis de sangue e terra. Os europeus não lutaram as guerras de 1618, 1814 ou 1914 como cristãos, mas como criptopagãos. Essa foi a discussão entre os críticos judeus, de Heinrich Heine a Franz Rosenzweig e Siegmund Freud. Freud escreveu:

Não podemos esquecer que todos os povos que hoje se destacaram na prática do antissemitismo só se tornaram cristãos em tempos relativamente recentes, às vezes obrigados por compulsão sangrenta. Pode-se dizer que todos foram ‘mal batizados’ [também “mal cristianizados” (NTs)]; sob um fino verniz de cristianismo, permaneceram o que seus ancestrais sempre foram, barbaramente politeístas. Ainda não superaram o ressentimento e a rejeição que lhes inspira a nova religião, que foi imposta a eles; e que eles projetaram sobre a fonte da qual veio a eles o cristianismo. [7]

Os homens não são moderados. Não somos tão diferentes de nossos pais como gostamos de crer. Os europeus hedonistas, sem filhos, de hoje, são o mesmo povo que lutou e morreu aos milhões pelo rei pelo país em 1618 ou 1814. Qualquer coisa pela qual valha a pena viver vale também que se morra por ela; se não se consegue pensar em nada por que morreríamos, implica que tampouco temos algo por que viver – exatamente como os europeus de hoje. A Europa aprendeu por muito tempo que sangue e terra, Kultur e Grandeur, eram itens pelos quais não valeria a pena lutar. Mas a Europa nada encontrou, pelo qual viver, depois que rejeitou para sempre os deuses nacionais de seu passado violento. Está morrendo de nervoso e tédio, desgostosa do próprio passado e descuidosa do próprio futuro, sem querer pôr filhos no mundo nem, que fosse, para assegurar a própria sobrevivência por mais um século.

“Muito foi salvo”, escreveu um soldado da Grande Guerra, J R R Tolkien, mas “muito tem agora de morrer”. Apesar de Hans Johst, a cultura europeia não morrerá: como aconteceu com a guarda da cultura grega clássica, que passou para as mãos de europeus, a arte europeia – pelo menos, com certeza, sua música – passará para as mãos de asiáticos.



Notas dos tradutores

[1] MUSIL, Robert [1880-1942], O homem sem qualidades (1930-33-43), Nova Fronteira, 1978, trad. Lya Luft e Carlos Abbenseth, 2 vol., 786 pp (romance inacabado).

[2] CLARK, Christopher. Os sonâmbulos: como eclodiu a primeira guerra mundial, 1914. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[3] “Encontro com a morte em Samarra”. É o trecho final de uma peça escrita por Somerset Maughan em 1932. Lê-se, em português
.
[4] Schlageter, Albert Leo: sobre o personagem título.

[5] MANN, Thomas [1875-1955]. Doutor Fausto (1947), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, trad. Herbert Caro, s/d.

[6] Referência aos personagens do filme The Producers, primeiro filme de Mel Brooks, de 1968 (Zero Mostel faz o papel de Max Bialystock, produtor de uma peça teatral; e Gene Wilder é Leo Bloom, seu secretário). Em português, lê-se alguma coisa (de segunda mão) em O Estado de S.Paulo, em 1969 sobre a peça teatral (“Os Produtores”) que foi montada no Brasil; talvez ajude a entender a metáfora.

[7] FREUD, S. Moisés e o monoteísmo (1939 [1934-38]). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XXIII.
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[*] Spengler, apelido de David P. Goldman, escreve a coluna Spengler para o Asia Times Online e contribui frequentemente para as publicações The Tablet, First Things (2009-2011) e outras. Foi Chefe Global de Pesquisa de Dívida do Bank of America (2002-2005), Diretor Global de Estratégia de Crédito do Credit Suisse (1998-2002). Ocupou cargos importantes nas organizações financeiras Bear Stearns e Cantor Fitzgerald. Foi colunista da revista Forbes (1994-2001). Seu livro How Civilizations Die (and why Islam is Dying, Too) foi lançado em setembro de 2011.