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terça-feira, 19 de maio de 2015

EUA acordam assombrações históricas contra a Eurásia


4/5/2015, [*] Andrew Korybko, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


The Saker
A Eurásia caminha para se tornar mais integrada do que jamais antes, com o Cinturão Econômico e a Rota da Seda chineses e a União Econômica Eurasiana patrocinada pela Rússia oferecendo a base estrutural para essa conexão histórica entre continentes. Os EUA compreendem a ameaça que daí advém para sua hegemonia (vide O Grande Tabuleiro de Xadrez de Brzezinski). E puseram a trabalhar sua mais recente arma pós-moderna: a militarização da memória histórica.

A Eurásia é como uma colcha de retalhos de memórias conflituosas, mas nenhuma mais controversa, polarizadora e conveniente ao objetivo norte-americano de dividir a Eurásia que a 2ª Guerra Mundial e a divisão sunitas/xiitas. Examinemos mais de perto:

Ásia

Os EUA estão apoiando empenhadamente a remilitarização do Japão, sobretudo porque o tema faz encrespar os nervos da China e evoca memórias de um retorno ao passado fascista de Tóquio. A China perdeu dezenas de milhões de cidadãos por efeito da brutal agressão japonesa e na ocupação subsequente, e tem planos para homenagear a memória desses chineses durante o próximo 70º aniversário do Dia da Vitória na Ásia. Os EUA veem tudo isso como absolutamente desnecessário, segundo o principal conselheiro de Obama para a Ásia, Evan Medeiros, nos termos da transcrição de material que o Departamento de Estado fez chegar à Agência Reuters, segundo a qual Medeiros teria dito que:

Queremos que toda a região supere tudo isso, para que a região possa realizar seu pleno potencial como motor do crescimento global, por exemplo. Assim, quando pensamos nessas questões históricas e quando pensamos sobre essa cerimônia na China... São ideias que gostaríamos de ver superadas.

Calma lá! Os EUA estão dizendo que as vítimas de agressão patrocinada pelo estado, e o país que perdeu milhões de vida por causa daquela agressão, deveriam “superar” essas “ideias”? Bem, sim, é o que disse o homem, mas lembremos que os EUA são sempre muito consistentemente subjetivos na aplicação das políticas que eles mesmos inventam. Não fosse isso, como se entenderia que a abordagem seja absolutamente oposta àquela, no que tenha a ver com a mesma IIª Guerra Mundial, mas na Europa Oriental? Mas antes de examinar isso, temos de examinar com mais detalhes a mesma militarização da memória histórica na Ásia.

Os EUA compreendem que o único modo factível de construírem alguma Coalizão para Conter a China [orig. China Containment Coalition (CCC)] é inflarem o envolvimento regional crescente do Japão, como seu procurador principal na operação de “Liderar pela Retaguarda” [orig. Lead From Behind] naquele específico teatro.

Liderar pela retaguarda
É como uma liderança real exceto que
SEM CORAGEM, SEM HONRA ou COMPROMISSO
A única ocasião em que Tóquio esteve no papel de hegemon regional foi durante a IIª Guerra Mundial. E por mais que para alguns, inclusive a China, doa admitir, muitos dos povos da região sentiram-se certo alívio ao tombarem sob o controle japonês, porque qualquer coisa lhes parecia melhor que a colonização europeia (Indochina e Indonésia são os principais exemplos).

É verdade que houve grupos de resistência e os japoneses, sem dúvida, cometeram atrocidades em grande escala nas terras ocupadas, mas de modo geral não houve resistência contra o Japão, que se compare à resistência que os chineses impuseram. Os chineses literalmente combateram pela própria sobrevivência (assim como a União Soviética e seu povo combatiam pela sobrevivência deles, contra os nazistas).

Por mais que se chamem de “colaboradores” do Japão, à maioria dos asiáticos não chineses na Ásia ocupada, ou que sejam acusados de aceitar passivamente a tirania de Tóquio, nada disso altera o fato de que o Japão ocupante encontrou considerável apoio entre a população, e esses apoiadores não se sentiram compelidos a levantar-se e iniciar algum tipo de resistência semelhante à chinesa.

É esse, precisamente, o estado de coisas que os EUA querem “reatualizar” nesse século XXI, com o Japão Imperial servindo de modelo para a Coligação para Conter a China no nordeste e sudeste da Ásia, exatamente como se viu durante a IIª Guerra Mundial.

Como se vê na declaração de Medeiros, a atitude oficial dos norte-americanos ante a crítica que os chineses têm feito contra a remilitarização do Japão e a clara adesão dos EUA àquele mesmo modelo da era fascista da história do Japão é que Pequim deveria “superar tudo isso” – o que é fácil de dizer, porque os EUA perderam fração mínima do que a China perdeu na IIª Guerra Mundial. E os EUA nunca lutaram guerra dentro do próprio território por mais de 200 anos. [1]

Moscou, 9/5/2015 - Desfile de tropas chinesas no
70º aniversário da vitória da Rússia sobre o nazismo

Europa

Como os EUA reagem à invocação do criticismo dos tempos da IIª Guerra Mundial, pelos seus aliados nacionalistas radicais do leste europeu? Será que já disseram a Kiev, à Polônia, aos Estados Bálticos, que tratem de “superar isso” e cuidem de enterrar o passado fascista deles todos?

Por que não teriam de simplesmente aceitar o fato histórico de que foram libertados pelo Exército Vermelho e agradecer à União Soviética que pôs fim à guerra? Nada disso! O que se vê é o exato oposto, como todos com certeza já sabem.

No leste da Europa, os EUA também estão apoiando o renascimento de movimentos e de interpretações históricas da era do fascismo, precisamente como têm feito no leste da Ásia com o Japão, e também reagem furiosamente contra quem (sobretudo, a Rússia) que sugira que os EUA estão do lado errado da história, seguindo suas instáveis alianças neofascistas.

Nesse teatro ocidental do tamanho da Eurásia onde cresce a tendência regressista estimulada pelos EUA, Washington não quer que ninguém, absolutamente, jamais “supere” a IIª Guerra Mundial, exceto, claro, a Federação Russa e o período vitorioso da União Soviética.

Exceto Moscou, o resto do mundo no Leste da Europa tem de manter a guerra no centro de todos os seus pensamentos e planos, mas só se se tratar da versão fascista da história da guerra que os EUA só superficialmente “desinfetaram”.

A versão da guerra que os EUA divulgam está longe de realmente desinfetada para o ser humano médio, mas para os EUA, que nunca se servem ou ensinam alguém a servir-se de princípios morais ou éticos ou legais na política exterior, (quaisquer referências aos itens acima citados, quando as há, são cortinas “marketadas” para vender seja qual for a guerra da hora), é a única interpretação que se pode aceitar para os eventos da IIª Guerra Mundial. De fato, os EUA prefeririam que tais ideias fossem promovidas, de interpretação, a ideologia regional, tudo para construir um “cordão sanitário” no século XXI em torno da Federação Russa.

Norte da Europa (países Bálticos e Nórdicos)
Quanto mais subjetivamente (e em muitos casos, falsamente) os “fatos” acima possam servir para separar Rússia e Europa, melhor; e dado que a Europa Oriental á a mais receptiva a essa guerra de informação, faz perfeito sentido que metade dos “centros de comunicação estratégica” da OTAN estejam localizados naquela área. Pode-se dar por dado sabido e confirmado que essas entidades estão agora dedicadas a desenterrar toneladas de material revisionista da era da IIª Guerra Mundial, numa campanha frenética para reescrever rapidamente a história aprovada pelos EUA para todos os eventos, e para “implantar” a “memória” desses eventos na mente das maiorias regionais.

O que os EUA fazem hoje é obrar para replantar raízes de ódio intergeneracional contra a Rússia naquela parte do mundo. Assim, os EUA parecem sentir-se mais seguros de que seus vassalos regionais permanecerão sob seu controle nas décadas futuras.

Oriente Médio

Os planos dos EUA para estimular o crescimento de ódio intergeneracional contra a Rússia parecem pouca coisa, se comparados ao que os EUA estão fazendo no Oriente Médio, onde estão recriando o ódio entre seitas islamistas.

Embora a cisão entre sunitas e xiitas tenha acontecido há mais de mil anos, e o rápido período de guerras sangrentas que resultaram da cisão tivessem sido já, de pleno direito, relegados ao passado, os estrategistas dos EUA decidiram desenterrar essa memória amarga, para ajudar a promover a estratégia norte-americana contemporânea.

A última coisa que os EUA desejam é que os muçulmanos “superem” suas divisões sectárias. Se em algum momento eles conseguiram superá-las (como, sim, conseguiram, por bem mais de mil anos), então é preciso imediatamente fazê-los relembrar todas as diferenças que, um dia, jogaram-nos num mesmo banho de sangue.

O conceito aqui é dividir para governar o Oriente Médio, mediante a militarização da divisão entre sunitas e xiitas, fazendo com que cada seita ponha-se a matar as demais simplesmente porque praticam ritos religiosos diferentes.

Europa: pós Guerra dos 30 anos
Aqui, o modelo que os EUA almejam implantar no Oriente Médio é guerra equivalente a Guerra dos 30 Anos na Europa, quando forças católicas e protestantes engalfinharam-se em guerra tão terrível que Oxford Bibliographies estima que 15-20% da população europeia pré-guerra estava morta ou ferida quando a guerra acabou:

(...) a extensão da miséria e da destruição levadas a todos que experienciaram aquela guerra foi comparável, se não superior, às das duas guerras mundiais e à Peste Negra.

No Oriente Médio, o objetivo dos EUA é criar tal vórtice de caos, que ele acabe por sugar também a Rússia e o Irã, graças à natureza expansionista de um movimento anti-Estado Islâmico. Esse Estado Islâmico, por sua vez nada é além de um crescimento ideológico metastático, viabilizado por meios militares.

O perigo desse “Estado Islâmico” advém do fato de que pode recolher adeptos de qualquer ponto onde vivam muçulmanos, e a violência sectária animalesca que o EI exibe ao mundo é ideal para provocar os ataques reativos necessários para iniciar uma guerra entre sunitas e xiitas que inflame todo o Oriente Médio, precisamente o objetivo dos EUA.

Passada essa conflagração catastrófica que os EUA esperam conseguir fazer acontecer (o pavio, infelizmente, já conseguiram acender), então se escreverá uma versão para o Oriente Médio de uma “Paz de Westphalia”, que pôs fim à guerra entre católicos e protestantes e iniciou a era dos estados-nação; e será escrita conforme interesse aos imperativos geopolíticos dos EUA. Pode-se prever que seja escrita na linha das propostas divisionistas e cartograficamente revisionistas de Ralph “Serviços de Limpeza Étnica” Peters, ou do New York Times em “Como cinco países podem virar 14”, ou alguma formação híbrida.

Recapitulação histórica

Nas sessões anteriores foram listadas muitas informações históricas, e parece necessário fazer uma rápida recapitulação histórica para pôr todos os detalhes no devido lugar de um quadro mais amplo.

Os EUA estão tentando fazer reviver as divisões históricas da IIª Guerra Mundial e a fissura entre sunitas e xiitas, para alcançar seu principal objetivo estratégico: dividir a Eurásia e impedir a integração de Rússia-China-Irã num supercontinente.

Ásia Central - união entre Rússia China e Irã
O foco no fascismo para a Ásia visa a empoderar o agressor japonês como procurador preferido dos EUA (Liderando pela Retaguarda), e convencer os vizinhos da China a colaborar com o Japão, como fizeram no passado. A proposta desse tipo de relacionamento está antecipada para formar a base de uma proto-OTAN no Leste e Sudeste da Ásia, com o Japão operando como elo de conexão entre os dois teatros de contenção.

Na Europa Oriental as coisas são um pouco diferentes. Os EUA celebram governos e movimentos fascistas colaboracionistas que lutaram contra a URSS na campanha antiesfacelamento, na esperança de que isso faça surgir obstáculos entre os cidadãos e o impulso pragmático de cooperarem com a Rússia. O efeito final dessa estratégia é fortalecer o comprometimento das populações com a OTAN, a ponto de, um dia, as populações realmente convidarem os EUA a aprofundar a ocupação de seus territórios, como já se vê acontecer nos países do Báltico e na Polônia.

A Ucrânia é o experimento epistemológico do qual depende o futuro de outras aventuras europeias dos EUA nesse campo; até aqui, essa tática tem sido retumbante sucesso na linha de gerar sentimentos anti-Rússia na Europa, que já invadem a periferia da Europa, Escandinávia e Europa Ocidental.

Se se anda para a parte sul-centro da Eurásia, não se trata de reviver divisões da IIª Guerra Mundial, mas divisões religiosas velhas de mais de um milênio. Os EUA querem dividir e governar toda a região, na esperança de que a guerra sectária que deseja lançar completará o serviço sujo do Pentágono.

O jogo consiste em inflar o poder da Arábia Saudita, verdadeiro caldeirão de ódio sectário, de tal modo que o Reino torne-se o cerne de uma OTAN-Árabe (coligada com Israel) para ataque futuro ao Irã. Para complementar, a virulenta expansão de um “Estado Islâmico” visa a minar a estabilidade regional (e talvez algum dia também a estabilidade interna) do Irã – além de gerar um dilema para os estados da Ásia Central que são a base da segurança russa e chinesa.

Uma insurgência islamista de grande escala desencadeada no coração da Ásia com certeza respingaria sobre os dois gigantes eurasianos, forçando-os à posição defensiva e reabrindo a Caixa de Pandora da desestabilização doméstica.

À guisa de conclusão

Os EUA estão fazendo experiência com novo método de guerra, no esforço para conter e desmembrar Rússia, China e Irã: a militarização da memória histórica. A IIª Guerra Mundial foi reinterpretada de tal modo que passa a ser usada como arma contra Rússia e China; e a cisão sunitas/xiitas, que se manteve dormente e pacificada por mais de mil anos, foi novamente despertada com vigor religioso militante jamais visto desde as Cruzadas.

Pesadelo dos EUA=Asia Central+ Irã+China+Rússia
Cada teatro e cada reinterpretação da história orienta-se contra um diferente pilar de sustentação da Eurásia, mas o padrão de guerra pós-moderna é bem claro.

Ao mesmo tempo em que os EUA continuam a confrontar de modo direto os adversários identificados, estão agora tentando acelerar também suas estratégicas indiretas, vale dizer, a invocação de memórias históricas de cisões, novamente militarizadas, tentando criar amplas coalizões contra seus rivais (pressupostos).

Os fatos históricos estabelecidos já não interessam aos EUA – pode-se até dizer que jamais, de fato, interessaram muito. – Mas o que agora tem importância para os EUA é se seus públicos-alvo permanecem receptivos à história revisada ou não. Fato é, e pode-se ver com os próprios olhos, que os EUA estão conseguindo fazer rebrotar essas sementes de ódio e discórdia histórica. Até já começam a colher os seus primeiros frutos envenenados.
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Nota dos tradutores
[1] Os que não saibam nada sobre as guerras sino-japonesas, podem ler alguma coisa em “Primeira Guerra Sino-Japonesa”, “História da República da China” e “Guerra China-Japão na IIª Guerra Mundial”; para ter, pelo menos, uma ideia geral mínima. No Brasil, ensinar ignorância é prática prestigiada como uma das Belas Artes.
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[*] Andrew Korybko é Analista Político e escreve extensivamente sobre as relações internacionais da Rússia. É especialista em política do Oriente Médio, Ásia Central e Europa Oriental. Freqüente comentarista de TV e rádio. Originário de Cleveland, Ohio, está concluindo estudos de pós-graduação em Relações Internacionais na Universidade Federal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO).

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Calcanhar de Aquiles dos EUA

12/5/2015, [*] Dmitri Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

  
Baltimore

Sábado passado, houve em Moscou um vastíssimo Desfile da Vitória, comemorativo dos 70 anos da rendição dos nazistas alemães ao Exército Vermelho, e da implantação da bandeira soviética no alto do prédio do Reichstag em Berlim. Houve alguns aspectos raros nesse desfile, que gostaria de destacar, porque conflitam com a narrativa da propaganda ocidental oficial.

Primeiro, não desfilaram só soldados russos, naquele dia: soldados de dez outras nações também tomaram parte, inclusive a Guarda de Honra chinesa (vídeo no fim do parágrafo) e um contingente de Granadeiros da Índia. Dignitários dessas nações lá estavam presentes, e o Presidente chinês Xi Jinping e a esposa estavam sentados ao lado do Presidente Vladimir Putin, o qual, no discurso de abertura do desfile, alertou contra as tentativas para criar um mundo unipolar – palavras fortes, destinadas declaradamente aos EUA e aos aliados ocidentais dos EUA.


Segundo, exame rápido do equipamento militar que atravessou pelo chão a Praça Vermelha, ou que a sobrevoou, indica que, exceto a mútua autoaniquilação nuclear, não há muito que os EUA possam lançar contra a Rússia, que a Rússia não consiga neutralizar.

Tudo sugere que as tentativas dos EUA para isolar a Rússia resultaram no exato oposto: se 10 nações, entre as quais a maior economia do mundo, somando 3 bilhões de pessoas, querem deixar de lado as diferenças e se pôr ombro a ombro com os russos para enfrentar as tentativas dos EUA de implantar alguma dominação global, nesse caso é bem claro que o plano dos EUA não tem possibilidade de funcionar.

A mídia-empresa ocidental só fez repetir que “líderes ocidentais” não compareceram à celebração, em surto de vaidade ferida ou porque obedecem ordens do governo Obama. Mas seja pelo motivo que for, a ausência só chama a atenção para a irrelevância daqueles “líderes”, seja para derrotar Hitler, seja para comemorar a derrota sobre Hitler 70 anos depois.

Putin, em seu discurso, contudo, agradeceu especificamente aos franceses, britânicos e norte-americanos pela ajuda para o esforço de guerra. Lamento que não tenha agradecido também aos belgas, que tanto ajudaram em Dunquerque.

Um pequeno detalhe do desfile chamou especialmente a atenção: o Ministro da Defesa Sergei Shoigu, budista, nascido na República de Tuva, e um dos mais respeitados líderes russos, que comandou o Ministério de Emergências, antes de assumir o Ministério da Defesa, fez algo que nenhum de seus antecessores jamais fez: no instante de iniciar a cerimônia, antes de pôr o quepe, o Ministro fez o sinal da Cruz, à maneira dos russos ortodoxos. Esse simples gesto converteu o desfile, de simples exibição de pompa militar, num ritual sagrado.

Na sequência, veio a marcha, em passos lentos, com duas bandeiras lado a lado [não começaram lado a lado: a bandeira soviética veio à frente [1]] da bandeira russa, a bandeira que foi desfraldada no topo do Reichstag em Berlim no Dia da Vitória, há 70 anos [a bandeira que foi posta no topo do Reichstag em Berlim é outra, diferente da que desfilou sábado [2]]. A marcha foi acompanhada por uma canção popular durante a IIª Guerra Mundial. O título? “A Guerra Sagrada” – vídeo no fim do parágrafo] . A mensagem é clara: o povo russo e os militares russos outra vez se põem nas mãos de Deus, a serviço de Deus, para sacrificar-se mais uma vez para salvar o mundo das violências de (mais) um império do mal.


Para os que tentem desmentir qualquer dessas ideias, porque seriam propaganda do estado russo, há mais uma coisa que todos têm de saber. Ouviram falar da procissão que se organizou espontaneamente, na qual, depois do desfile oficial, meio milhão de pessoas marcharam por Moscou com retratos de parentes mortos na IIª Guerra Mundial? O evento recebeu o nome de “O Regimento Imortal” (Бессмертный полк). [3] Vídeo a seguir: 


Procissões semelhantes aconteceram em muitas cidades em toda a Rússia, com número estimado de participantes em torno de 4 milhões. A imprensa ocidental ou não noticiou ou apresentou o Regimento Imortal como tentativa de Putin, para provocar sentimentos antiocidentais. Ora! Pura propaganda, isso sim, meus companheiros de viagem espacial, é esse tipo de “cobertura jornalística”!

Não, não foi propaganda. Foi manifestação entusiasmada, espontânea, de sentimento público genuíno. Quem se dedicar a refletir sobre isso, um instante que seja, logo perceberá que não se pode “montar” artificialmente cenas desse tipo. E a ideia de que milhões de pessoas prostituiriam a própria morte para finalidades de propaganda é, sinceramente, cínica e insultante.

Em vez de entrar em colapso silencioso, os EUA resolveram comprar briga com a Rússia. Parece que já perderam a briga, mas permanece uma questão: quantos países a mais os EUA ainda conseguirão destruir, antes de os EUA aprenderem a suportar a ideia de que sua derrota e desintegração são inevitáveis?

Como Putin disse no verão passado, no fórum da juventude Seliger,

Tenho a impressão de que basta os EUA tocarem, que qualquer coisa vira Líbia e Iraque.

Vladimir Putin no Fórum da Juventude em Seliger
(29/8/2014)
É verdade. Os EUA têm vivido em frenesi de destruição, um país depois do outro. O Iraque foi esquartejado, a Líbia é terra de ninguém, a Síria está convertida em área de desastre humanitário, o Egito, em ditadura militar que executa programa de prisões em massa.

O mais recente fiasco dos EUA é o Iêmen, onde o governo pró-EUA foi recentemente derrubado, e os cidadãos norte-americanos que não conseguiram escapar a tempo tiveram de esperar que russos e chineses os resgatassem e os despachassem para os EUA.

Mas foi o fiasco norte-americano anterior ao Iêmen, o fiasco na Ucrânia, que mobilizou os russos, bem como os chineses, que afinal decidiram que os EUA foram longe demais, e que novos passos na mesma direção resultarão em escalada automática.

O plano dos russos, com chineses, indianos e grande parte do resto do mundo, é preparar-se para guerra com os EUA, ao mesmo tempo em que fazem o possível para evitar qualquer guerra. O tempo está do lado dos pacifistas, porque a cada dia que passa eles se fortalecem, enquanto os EUA só enfraquecem. Mas enquanto esse processo prossegue, os EUA podem “tocar” mais alguns países, convertendo tudo em Líbia ou Iraque.

A Grécia será a próxima da lista? Ou, quem sabe, jogam sob o trem os estados bálticos (Estônia, Letônia, Lituânia), que são hoje membros da OTAN (quer dizer, cordeiros a serem sacrificados)? A Estônia está apenas a algumas horas de carro da segunda maior cidade russa, São Petersburgo; tem grande população russa; tem capital habitada por maioria russa; e tem governo furiosamente antirrusso. Dos quatro itens, só um não faz sentido algum. Será o próximo, em fase de preparação para a autodestruição?

Algumas repúblicas da Ásia Central, no sensível “baixo ventre” da Rússia, também podem já estar maduras para serem também “tocadas” pela vara de condão de desgraças dos EUA.

Não há dúvida possível de que os norte-americanos continuarão a espalhar desgraças pelo mundo, sempre “tocando” países vulneráveis, exploráveis, pelo maior tempo que consigam. Mas há outra pergunta que se tem de perguntar: os norte-americanos nunca usam a própria vara de condão de desgraças para se autodesgraçarem? Porque, se se pensa bem, o próximo candidato a desgraça extrema com conversão em terra arrasada a bombas, pode ser o próprio país, os EUA eles mesmos. Consideremos essa opção.

Como os eventos em Ferguson, e mais recentemente também em Baltimore, já indicaram, as tensões entre afro-norte-americanos e a Polícia só fazem escalar, a tal ponto que explosões começam a acontecer por todos os lados, cada vez mais prováveis.

Protestos em Baltimore (maio/2015)
A “guerra às drogas”, nos EUA, foi guerra essencialmente contra homens negros latinos; cerca de 1/3 da população de negros jovens está encarcerada. Os mesmos homens jovens negros norte-americanos estão também expostos a alto risco de serem baleados pela Polícia. A bem da verdade deve-se dizer que a Polícia também está exposta a alto risco de ser baleada por homens jovens negros, o que leva os policiais a viverem com medo e a reagir sem qualquer ponderação ou equilíbrio.

Com a economia andando a passos firmes rumo ao colapso – perto de 100 milhões de norte-americanos em idade laboral estão desempregados (“fora da força de trabalho”, como dizem os técnicos, como se os pobres lá estivessem por vontade própria) – já pode estar bem claro, para parcela sempre crescente da população, que continuar a cooperar com as autoridades deixou de ser estratégia útil: de um modo ou de outro, você sempre acaba ou preso ou morto; mas você nunca alcança qualquer dos benefícios temporários que advêm de ignorar a lei.

Há uma interessante assimetria na habilidade da mídia-empresa nos EUA para bloquear informações sobre agitação e insurgência civis: se a coisa acontece do outro lado do mundo, então as notícias são, ou cuidadosamente calibradas, ou totalmente suprimidas. (Alguma rede norte-americana de notícias informou sobre o recente reinício dos bombardeiros contra áreas civis, pelos militares ucranianos? Claro que não). Isso é possível, porque os norte-americanos são notoriamente narcísicos e muitíssimo indiferentes ao resto do planeta, do qual os norte-americanos pouco sabem (e o que pensam que sabem frequentemente está errado).

Mas se a agitação acontece dentro dos EUA, então os mais variados veículos da mídia-empresa disputam entre eles a coroa do “noticiário” mais sensacionalizado, para obter maior “visibilidade” e atrair mais dinheiro de anunciantes. 

A mídia-empresa dominante nos EUA é controlada com mão de ferro por um pequeno grupo de grandes empresas e conglomerados, o que faz da informação nos EUA um só enorme monopólio, mas no que tenha a ver com vender tempo a anunciantes, ainda predominam os princípios do mercado de publicidade.

Assim sendo, há potencial para um ciclo positivo de retroalimentação: mais agitação civil corresponde a “noticiário” mais sensacionalizado, o qual, por sua vez amplifica a agitação civil, o que permite noticiário ainda mais sensacionalizado. E há um segundo ciclo positivo de retroalimentação: quanto mais agitação civil há (ou é noticiada, mesmo que nem haja), mais a política responde com mais violência mais desequilibrada, o que gera mais indignação e fúria nas ruas, o que amplifica a agitação social.

Esses dois ciclos de retroalimentação podem continuar a desenvolver-se sem qualquer controle por algum tempo, mas o final, como se viu em todos os incidentes recentes desse tipo, é sempre igual: aparecem os soldados da Guarda Nacional, toque de recolher, lei marcial.

A rápida intromissão dos militares pode parecer meio estranha, considerando que a maioria dos departamentos de Polícia, até nas menores cidades, já foram nos anos recente pesadamente militarizados, e até o pessoal da segurança em algumas áreas de escolas já andam em veículos militares e armados com metralhadoras. Mas a progressão é natural.

Por um lado, quando as pessoas que habitualmente recorrem à força bruta descobrem que a força bruta não está funcionando, elas naturalmente assumem que não esteja funcionando porque estão usando pouca força bruta, força bruta de menos. Por outro lado, se o sistema de justiça criminal já não passa de travesti e se converteu em matadouro, por que não encurtar a tramitação burocrática e impor logo a lei marcial?

Protestos em Baltimore (maio/2015)
Já há quantidade escandalosamente gigantesca de armas de todos os tipo nos EUA, e mais armas virão, sobretudo agora, quando os EUA estão sendo forçados a fechar bases militares no exterior por falta de dinheiro para mantê-las. E todas essas armas serão usadas, pela mesma razão e do mesmo modo como se passou a usar tantos tijolos vermelhos em Boston. Vocês sabem: começaram a chegar a Boston muitos, muitos tijolos vermelhos, descarregados aqui por navios britânicos, que os traziam como lastro.

Daí surgiu o ímpeto de fazer alguma coisa com tantos tijolos vermelhos. Mas construir prédios de tijolos é processo difícil, trabalhoso, sobretudo se os construtores vivem bêbados. Então a solução encontrada foi usar os tijolos vermelhos para pavimentar calçadas – coisa que qualquer um faz, mesmo caído de quatro pelo chão. O mesmo vai acontecer com o equipamento militar que está sendo repatriado para os EUA. Será usado, porque aí estará, à mão; e será usado do modo mais estúpido possível: um mesmo povo, uns atirando contra os outros.

Mas coisas ruins sempre acontecem a militares que recebam ordens para matar o seu próprio povo. Uma coisa é andar matando aqueles “cabeças de toalha” [orig. “towel-heads”] em terra distante; outra coisa, bem diferente, é receber ordens para atirar em alguém que pode ser seu próprio irmão que vem pela rua na qual você nasceu e foi criado. Esse tipo de ordens resulta em fragging (soldados que assassinam os próprios superiores), em desobediência e em movimentos de deserção ou de defesa do lado oposto.

E é aí que as coisas ficam interessantes. Porque, você sabe, se você atira contra, prende, detém ou por qualquer modo abusa de uma população civil desarmada por tempo suficiente, a resposta que fatalmente surge é uma insurgência armada. Não há como as prisões, para organizar insurgências.

Por exemplo: o ISIS, ou o Califato Islâmico, foi ideado por gente que, antes, trabalhara para Saddam Hussein, durante o tempo em que os norte-americanos os mantiveram presos. Colheram aquela oportunidade para planejar e construir uma estrutura organizacional eficiente; na sequência, quando foram soltos, voltaram a encontrar-se e puseram-se a trabalhar. Manter presos 1/3 dos norte-americanos negros jovens é a melhor maneira de favorecer que eles se organizem e organizem uma insurgência efetiva.

Para ser efetiva, uma insurgência carece de muitas, muitas armas. Aqui, mais uma vez, há um procedimento para adquirir tecnologia militar que já se tornou quase rotina.

Terroristas do ISIS usam armas e veículos cedidos pelos EUA
Que armas estão sendo usadas pelo ISIS? Ora, armas norte-americanas, é claro, que os EUA forneceram ao regime, em Bagdá, e que o ISIS capturou como troféus quando o exército iraquiano recusou-se a lutar e se escafedeu. E que armas estão sendo usadas pelos rebeldes houthis no Iêmen? Ora, armas norte-americanas, é claro, que os EUA forneceram ao governo que lá havia e que já foi derrubado, e que era pró-EUA. E que armas estão sendo usadas contra o regime de Bashar al-Assad na Síria? Ora, armas norte-americanas, é claro, vendidas aos terroristas pelo governo ucraniano, que as obteve dos EUA.

Há um padrão aqui: seja onde for que os EUA armem, treinem e equipem um exército, esse exército tem fortes chances de simplesmente derreter, com as suas armas caindo imediatamente nas mãos dos que precisam delas para usá-las contra os interesses norte-americanos.

E por que, afinal, esse mesmo padrão não se aplicaria também nas muitas áreas nas quais os EUA já puseram o próprio país sob ocupação militar?

Mais uma vez, é onde as coisas ficam realmente interessantes: uma insurgência bem armada, bem organizada, constituída por e composta de pessoas realmente radicais, gente furiosamente indignada, pessoas que absolutamente nada têm a perder e estão lutando pelo próprio palmo de terra e pelas próprias famílias, e que encontrarão pela frente militares norte-americanos derrotados, desmoralizados, que sempre falharam espetacularmente em absolutamente todos os países que eles “tocaram”.

Há quem diga que “a burocracia do establishment é invencível”. Mas e se você tiver uma divisão de tanques para controlar as quatro esquinas em torno do palácio do governo, canhões apontados em todas as direções, atirando contra tudo que se mova? E se você tiver infantaria suficiente para tocar a campainha de todas as casas de todos os burocratas-chefes da cidade? Não se alterariam as probabilidades de vitória contra pelo menos uma burocracia de um establishment?

Os EUA talvez tenham de “tocar” mais alguns países, antes de se verem diante desse cenário, mas é provável que (exceto no caso de guerra total) mais dia menos dia o “feitiço” que os EUA espalham pelo mundo como destruição completa e garantida volte-se contra o “feiticeiro” (vídeo no fim do parágrafo). Quando acontecer, todos aqueles países cujos soldados desfilaram pela Praça Vermelha no sábado passado já não precisarão se preocupar com os EUA.


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Notas dos tradutores

[1] A bandeira soviética (da 79ª Divisão de Infantaria do Exército Vermelho, que lutou em Stalingrado) pode ser vista, desfraldada aos 7’54 do vídeo a seguir; e novamente, melhor, logo depois, sempre à frente da bandeira da Federação Russa.



Ver também, sobre isso, o postado em: 11/5/2015, redecastorphoto, “Hoje aconteceu algo verdadeiramente extraordinário”


[2] A bandeira abaixo, desfraldada no topo do Reichstag, é outra bandeira, também soviética; mas não é a bandeira que desfilou.



[3] ATENÇÃO: Esse tipo de precisão é indispensável, não porque altere o espírito do argumento de Orlov (e não altera), mas porque estamos trabalhando aqui com vários sinais significativos, que não podem ser alterados, sem que se altere a mensagem dos russos. E nada mais importante, hoje, que a mensagem dos russos (que são BRICS, como o Brasil, a Índia, a China e a África do Sul), se se sabe que, do outro lado, há as Nulands, as Clintons, os Bushes & canalha “midiática” adjunta.

Digam o que disserem cronistas anticomunistas (o Saker, de The Vineyard of the Saker, por exemplo, que acompanhamos, sim, mas que, sim, é militantemente anticomunista), os russos não descartam o próprio passado comunista, com a facilidade com que os cronistas anticomunistas fazem crer que teriam descartado. O passado comunista dos russos apareceu bem marcado, também, por exemplo, na bela cerimônia de abertura dos jogos de Socchi. Só o “jornalismo” ocidental não viu e ensinou a não ver.

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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, “A Nova Era da Vela”. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net