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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sobre “State of the Union” (SOTU), 2012 (2): “GM é o pior modelo possível para recuperar os EUA”


Frank Hammer

25/1/2012, Frank Hammer, The Real News Network 
(vídeo e entrevista traduzida)
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Frank Hammer é empregado aposentado da General Motors de Detroit, onde trabalhou durante 32 anos, e ex-presidente de Local 909 em Warren, Michigan. Atualmente, está organizando a Auto Worker Caravan [Caravana dos Trabalhadores da Indústria Automobilística], associação de trabalhadores ativos e aposentados, que viajará a Washington para apresentar suas reivindicações ao governo.


PAUL JAY, editor sênior de TRNN: Pode-se dizer que a peça central do discurso do presidente Obama foi restaurar as fábricas norte-americanas. E o modelo de sucesso da intervenção do governo Obama teria sido a ‘salvação’ da General Motors e da indústria automobilística. Que lhe parece?

HAMMER: Acho que o modelo é ruim, é péssimo. Acho que se alguém soubesse o que realmente foi feito, que fomos jogados à falência pela crise financeira e, claro, Wall Street traçou o plano e ditou os termos do que fazer para tirar os bancos da falência. Resultado disso, os empregos desapareceram na indústria automobilística. Mais ainda: para recuperar a GM, foi preciso atar mãos e pés e amordaçar os trabalhadores. E tudo, a partir do mito inicial: de que a causa da falência teriam sido os salários. Não foram. A causa da falência foi a crise financeira.

JAY: O que você quer dizer, quando fala em atar mãos e pés e amordaçar os trabalhadores?

HAMMER: O presidente Obama mencionou que seu governo deixou que as empresas e os trabalhadores resolvessem suas diferenças. É. O que o governo Obama fez foi, primeiro, acabar com o direito de greve. Segundo, o governo Obama fixou, como salário máximo aqui em Detroit, o salário das fábricas do sul onde os trabalhadores não são sindicalizados. Assim reduziram nossos salários e nossa expectativa de vida decente. As fábricas em Detroit foram equiparadas às fábricas dos sul, cujos trabalhadores não são sindicalizados. Tudo isso foi feito pelo governo Obama, sim. Que obedeceu ordens de Wall Street.

E se esse é o modelo que Obama usou em seu discurso, o que Obama disse, de fato, é que todos devem reduzir o padrão de vida dos trabalhadores, equipará-los ao padrão de vida de trabalhadores do Terceiro Mundo, para que os EUA – lembre-se ele citou o exemplo da Master Lock[1] . O presidente Obama disse, isso sim, é que os trabalhadores chineses têm tido aumentos no salário mínimo e, portanto, é agora melhor negócio para a Master Lock voltar para os EUA, onde os salários dos trabalhadores são menores a cada dia. O que ele de fato disse é que está convertendo os EUA em país do Terceiro Mundo. E que, assim, seremos mais competitivos e que assim criaremos empregos. Mas só se os trabalhadores dos EUA aceitarem trabalhar por salários de Terceiro Mundo e sem direito de greve.

JAY: Obama também falou sobre desenvolver energia limpa. O que lhe pareceu?

HAMMER: Pareceu-me que ele mencionou a mudança climática uma vez. E só disse, sobre mudança climática, que o Congresso talvez esteja excessivamente dividido para discutir o problema. Foi muito pouco, uma droga de concessão, se se sabe que os cientistas têm dito que é preciso agir rapidamente. E continua repetindo aquelas bobagens, energia nuclear, biocombustíveis e petróleo. Quer dizer: Obama não parece ter ideia clara de que a questão central, definitória desse nosso tempo, são as energias renováveis, não os bicombustíveis, nem a energia nuclear, mas energia limpa. Para Obama, a questão definitória desse nosso tempo é se os EUA conseguirão manter o padrão de vida da classe média dos EUA. E ninguém manterá padrão algum de vida de classe média alguma, se não começar a preocupar-se com a mudança climática.

JAY: Um dos temas sobre os quais conversamos em outras entrevistas é que a recuperação da indústria de transportes poderia ser ponto de partida para outro tipo de economia. Mas Obama voltou ao modelo de Detroit.

HAMMER: Ele mencionou, a certa altura, que entende que as empresas devem receber incentivos para construir novas fábricas, nas áreas que foram mais duramente atingidas pela crise. Em 2009, Obama disse que cuidaria de áreas como Detroit como o governo Bush deveria ter cuidado de New Orleans depois do Katrina. Gostei daquela ideia, achei que ia na direção certa. Mas nesse discurso já nem apareceu um tópico que aparecera nos outros discursos Estado da União: a questão de construir transporte público, linhas férreas, transporte leve. Há muito tempo nós repetimos que algumas das grandes fábricas que foram fechadas em Detroit deveriam ser convertidas em fábricas de vagões, vagões leves, para linhas de alta velocidade. Em 2012, o presidente nem falou sobre isso. Tenho esperança de que se possa ver algum movimento na direção de utilizar energia solar e eólica, para reabrir algumas das fábricas que continuam fechadas. E que apareçam os incentivos que Obama mencionou no discurso.

JAY: Em termos gerais, qual foi sua impressão do discurso? Alguns dos que entrevistei hoje disseram que estão felizes de Obama ter falado, pelo menos, da desigualdade de renda. Quero dizer... Alguma coisa que se ouviu nesse discurso permite esperar que algum dia apareça um Obama diferente do que se viu?

HAMMER: Olhe, francamente, discordo muito de alguns dos meus queridos amigos afro-americanos, que ainda creem que, no segundo mandato, Obama será presidente diferente. Acho que, se for reeleito, veremos mais do mesmo Obama. O momento perfeito para um discurso que incendiasse a base foi ontem, naquela fala do Estado da União (State of the Union). E não aconteceu. Sei disso, porque minha filha, por exemplo, trabalhou muitíssimo para eleger Obama em 2008. Falei com ela hoje, e com meu genro, e nenhum dos dois estava muito entusiasmado com o discurso. Essa era a base de Obama. São os jovens que votaram aos milhões e o elegeram. E não acho que Obama os tenha emocionado, com o discurso de ontem. Fiquei com a impressão de que Obama cantava pelo livro de salmos dos Republicanos. Perdi a conta de quantas vezes repetiu que regulações são péssimas. Acho que o que se viu foi mais rendição, mais um passo na direção do que para muitos seria o centro, mas que cada dia mais é mais à direita, à direita, à direita, mais a cada ano que passa. Acho que Obama teria de tentar incendiar a sua base, em ano eleitoral. Fiquei com a impressão de que Obama está dando por garantidos os votos de sua base. Obama nem falou, nenhuma vez, sobre Occupy Wall Street – e é o movimento que está varrendo todo o país. Aliás... não falou de 99%, mas falou de 98% (os que estão com os salários estagnados). Entendeu?

JAY: Talvez tenha redefinido a base. Talvez esteja jogando para a base. Só que não é a base que acredita que ainda seja a base de Obama.

HAMMER: Pode ser. Mas a base de Obama em 2008 foi fonte de energia e entusiasmo para a campanha. Se Obama redefiniu sua base... Escolheu caminho terrivelmente perigoso.

JAY: Obrigado pela entrevista, Frank.




Nota dos tradutores
[1]   Master Lock  fabrica produtos de segurança, com sede em Milwaukee; há pouco tempo a empresa declarou que traria de volta os empregos que exportou para a China, se encontrasse condições de apoio econômico. Desde meados de 2010, a empresa “reimportou” 100 postos de trabalho, que voltaram à fábrica em Milwaukee (25/1/2012).

sábado, 6 de agosto de 2011

Há 30 anos, nos EUA: “O dia em que o homem comum foi assassinado”


Michael Moore 

5/8/2011, Michel Moore
(Dica do Eliseu, amigo do pessoal da Vila Vudu que nos acompanha da Itália) 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Amigos,

Volta e meia, alguém, com menos de 30 anos, me pergunta: ”Quando começou tudo isso, os EUA despencando ladeira abaixo?”

Dizem que ouviram falar de um tempo em que os trabalhadores norte-americanos podiam sustentar a família e mandar os filhos à escola, só com o salário do pai (nos estados da Califórnia e de New York, por exemplo, o ensino era quase gratuito). Que quem quisesse salário decente, encontrava. Que as pessoas só trabalhavam cinco dias por semana, oito horas por dia, descansavam nos fins de semana e, no verão, tinham férias pagas. Que muitos empregos eram protegidos por sindicatos, de empacotadores nas lojas ao sujeito que pintava sua casa, o que significava que, por menos ‘elevado’ que fosse o seu trabalho, você tinha garantia de aposentadoria, aumentos de salário vez ou outra, seguro-saúde, e alguém que o defendia, se você fosse desrespeitado ou tratado de modo injusto.

Os mais jovens ouviram falar desse tempo mítico – mas não é mito: esse tempo existiu. E quando perguntam “Quando isso acabará?”, sempre respondo: “O que acabou, acabou há exatos 30 anos, dia 5/8/1981”.

Naquele dia, há 30 anos, a Grande Finança e a direita norte-americana decidiram “ir p’rás cabeças” de uma vez por todas e destruir os homens comuns, toda a classe média. E enriquecerem eles mesmos, só eles, a valer. 

E conseguiram.

Dia 5/8/1981, o presidente Ronald Reagan demitiu todos os empregados sindicalizados do Sindicato dos Controladores de Tráfego Aéreo [orig. Air Traffic Controllers Union, PATCO] que desobedeceram sua ordem para que voltassem ao trabalho e declarou ilegal o sindicato deles. Estavam em greve há apenas dois dias.

Foi gesto violento. Ninguém antes jamais se atrevera a tanto. E foi ainda mais violento, porque o PATCO foi um dos três únicos sindicatos que haviam apoiado a candidatura de Reagan à presidência! A decisão de Reagan disparou uma onda de choque que atingiu todos os trabalhadores nos EUA. Se fez o que fez contra sindicato que o apoiara, o que mais faria contra nós? 

Reagan tivera o apoio de Wall Street nas eleições à Casa Branca e eles, aliados aos cristãos de direita, queriam “reestruturar” os EUA e fazer recuar a maré que aumentava desde o primeiro governo do presidente Franklin D. Roosevelt – maré que visava a garantir melhores condições de vida aos trabalhadores norte-americanos da classe média, as pessoas comuns. Os ricos detestaram ser obrigados a pagar melhores salários e a garantir benefícios. Mais ainda, odiavam ter de pagar impostos. E desprezavam os sindicatos. Os cristãos de direita odiavam tudo que cheirasse a socialismo ou desse qualquer sinal de estender a mão às minorias ou às mulheres.

Reagan prometeu pôr fim a tudo aquilo. Então, quando os controladores de tráfego aéreo declararam-se em greve, ele aproveitou a ocasião. Ao demitir todos e ao tornar ilegal seu sindicato, enviou mensagem clara e violenta: acabava ali o tempo da vida decente e confortável para as pessoas comuns. Os EUA, daquele dia em diante, passavam a ser governados do seguinte modo:

* Os super-ricos ganharão mais, mais, mais, cada vez mais dinheiro, e o resto de vocês terão de satisfazer-se com as migalhas que sobrarem das mesas deles.

* Todo mundo terá de trabalhar! Mãe, pai, adolescentes, todos! O pai, que consiga um segundo emprego! Crianças, não percam a chave sobressalente! De agora em diante, pai e mãe só chegarão em casa para metê-los na cama! 

* 50 milhões de norte-americanos terão de viver sem seguro-saúde! Empresas serviços de saúde: encarreguem-se, vocês mesmas, de decidir quem querem atender e os que não serão atendidos.

* Sindicatos são a casa do demônio! Ninguém será sindicalizado! Gente comum não precisa de advogado nem de defesa! Trabalhador tem de trabalhar. Calem o bico e voltem à fábrica. Não, ninguém pode sair. O trabalho não está feito. As crianças, em casa, que preparem o próprio jantar.

* Quer estudar? Na universidade? OK. Basta assinar as promissórias, e você estará endividado pelos próximos 20 anos, preso a um banco, até ficar velho!

* Aumento? Que aumento? Volte ao trabalho e cale o bico! 

E assim foi. Mas Reagan não conseguiria, sozinho, fazer tudo que fez em 1981. Contou com uma grande ajuda:

Da Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (orig. American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations – AFL-CIO [1]) 

A maior organização de sindicatos dos EUA disse aos trabalhadores que furassem os piquetes da greve dos controladores de tráfego aéreo e voltassem ao trabalho. E foi o que os empregados sindicalizados fizeram. Pilotos, comissários de bordo, encarregados de bagagens, motoristas de empilhadeiras, carregadores – todos furaram os piquetes e ajudaram a pôr fim àquela greve. E todos os sindicalizados furaram todas as greves e continuaram a encher os aviões de carreira.

Reagan e Wall Street quase nem acreditaram no que viram! Centenas de milhares de trabalhadores, apoiando a demissão de outros trabalhadores, sindicalizados como eles. Foi um Papai Noel em agosto, para as grandes empresas dos EUA.

E foi o começo do fim. Reagan e os Republicanos sabiam que se safariam – e safaram-se. Cortaram impostos dos ricos. Tornaram impossível organizar sindicatos nos locais de trabalho. Eliminaram leis de segurança no trabalho. Ignoraram leis antimonopólios e permitiram milhares de fusões entre empresas, com muitas empresas vendidas para serem fechadas. As empresas congelaram salários e ameaçaram os trabalhadores com a chantagem da transferência de empresas e empregos para o exterior, caso não aceitassem trabalhar por salários menores e sem garantias nem benefícios. E os trabalhadores aceitaram trabalhar por menores salários... E mesmo assim as empresas mudaram-se para o exterior, levando com elas os nossos empregos.

E em cada passo desse processo, a maioria dos norte-americanos também se deixou levar. Praticamente não houve nem oposição nem resistência. As “massas” não se levantaram nem defenderam seus empregos, suas casas, a escola dos filhos (consideradas das melhores do mundo). Apenas aceitaram o destino e curvaram-se.

Muitas vezes me pergunto o que teria acontecido se todos, simplesmente, tivéssemos deixado de viajar de avião, ponto final, em 1981. E se todos os sindicatos tivessem dito a Reagan “Devolva os empregos dos controladores, ou fechamos o país: ninguém entra e ninguém sai.” Sabem o que teria acontecido? A elite corporativa e Reagan, seu moleque de recado, teriam afinado.

Mas não fizemos nada disso. E assim, pedaço a pedaço, peça a peça, ao longo dos 30 anos seguintes, os que passaram pelo poder destruíram as pessoas comuns nos EUA e, em troca, desgraçaram o futuro de, no mínimo, uma geração de jovens norte-americanos. Os salários permaneceram estagnados durante 30 anos. Basta olhar as estatísticas e vê-se que todas as perdas de tudo que hoje tanta falta nos faz começaram no início de 1981 (assista: cenas de meu último filme, que ilustram isso).

Tudo começou no dia 5 de agosto, há 30 anos. Foi dos dias mais terríveis em toda a história dos EUA. E deixamos que acontecesse. Sim, eles tinham o dinheiro, a imprensa e os policiais. Mas nós éramos 200 milhões! Quem duvida de que teríamos vencido, se nós, todos os 200 milhões de enganados, ficássemos realmente furiosos e decidíssemos recuperar para nós o nosso país, nossa vida, nosso trabalho, nossos fins de semana, nosso tempo para educar e ver crescer nossos filhos?

Será que já desistimos, mesmo? O que estamos esperando? Esqueçam aqueles 20% que apóiam o Tea Party – ainda temos os outros 80%! Esse declínio, nossa queda ladeira abaixo só parará quando exigirmos que pare. E não por “abaixo-assinado” ou gorjeios pelo Twitter.

Temos de desligar a televisão e o computador e os videogames e sair às ruas (como fez o pessoal de Wisconsin). Alguns de nós têm de candidatar-se às prefeituras, ano que vem. Temos de exigir que os Democratas, ou criem vergonha e parem de viver sustentados pelo dinheiro dos bancos e grandes empresas – ou pulem fora e devolvam os postos para os quais foram eleitos para fazer o que não estão fazendo.

Quando chega, chega, ok? O sonho comum da vida das pessoas comuns nos EUA não renascerá por mágica ou milagre. O plano de Wall Street é claro e está aí à vista de todos: os EUA serão nação dividida entre os Que-têm e os Que-não-têm. Está bom, assim, prá vocês?

Vamos usar esse fim de semana para parar e pensar sobre os pequenos passos que podemos dar para virar esse jogo, com os vizinhos, no trabalho, na escola. Que melhor dia para começar que hoje, 30 anos depois?!

Fraternalmente,
[assina] Michael Moore

PS. Aqui vão alguns endereços onde todos podem se encontrar e começar:

How to Join a Union, from the AFL-CIO (O pessoal lá aprendeu a lição e afinal elegeu um bom presidente) ou UE
High School Newspaper (Você ter menos de 18 anos não significa que você nada possa fazer. Acorde!)




Nota de tradução
[1] AFL-CIO é a maior central operária dos EUA e Canadá. Formada em 1955 pela fusão da AFL (1886) com a CIO (1935). É composta de 54 federações nacionais e internacionais de sindicatos dos EUA e Canadá que juntos representam mais de 10 milhões de trabalhadores. É membro da Confederação Internacional das Organizacões Sindicais Livres. Até 2005, operou na prática como central sindical unitária, mas devido a discrepâncias internas, várias das maiores agremiações que a formavam se separaram da organização.

sábado, 9 de julho de 2011

Os sindicatos, na Praça Tahrir: “PRESENTE!” (excerto)


8/7/2011, Sarah Lynch, The Christian Science Monitor
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu



Os manifestantes entoam palavras de ordem durante um protesto na Praça Tahrir, ponto focal da revolta egípcia, no Cairo, Sexta, 8 de julho. Milhares de egípcios tomaram as ruas de todo o país para exigir justiça para as vítimas do regime de Hosni Mubarak e pressionar o novo governo militar para um plano claro de transição para a democracia.

Manifestantes cantam palavras de ordem na Praça Tahrir, ponto focal do levante egípcio no Cairo, nessa 6ª-feira, 8 de julho. Milhares de egípcios tomaram as ruas em todo o país, exigindo justiça para as vítimas de Hosni Mubarak e para pressionar o novo governo militar a apresentar plano claro da transição para a democracia.

Numa sala de um prédio centenário no centro do Cairo, Kamal Abu Eitta levanta-se da cadeira e junta as mãos, braços esticados acima da cabeça, para mostrar o tipo de tortura que sofreu durante o governo de Mubarak.

Membro ativo de seu sindicato e militante há muito tempo, durante a ditadura de Mubarak, Abu Eitta diz que passou por queimaduras, choques elétricos, chicoteamento, pendurado a um gancho na parede, naquela posição.

É um dos milhares de egípcios reunidos na Praça Tahrir na 6ª-feira, 8 de julho, para exigir o fim dos tribunais militares para civis e julgamento imediato dos funcionários do governo Mubarak acusados de corrupção. Mas diz que vem também por outro motivo: para lutar por direitos dos trabalhadores que ele e muitos outros defendem há décadas, no Egito.

O movimento sindical é uma das forças mais influentes durante esse período crítico da transição democrática no Egito.

“O movimento sindical é o único que nunca parou de lutar. Trabalhou todos os dias, na resistência à ditadura” – diz o ativista e jornalista Hossam al-Hamalawy. “Se bombardearem a Praça Tahrir, chamaremos uma greve geral”. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

EUA: Dia de muito trabalho para os sindicatos


31/8/2010, Washington Post - Katrina vanden Heuvel é editora e publisher de The Nation e assina coluna semanal no WPost.

Traduzido pelo coletivo Vila Vudu


O Dia do Trabalho – primeira 2ª-feira de setembro, nos EUA – virá vestido de luto, dia 6/9/2010.


Mais da metade dos trabalhadores nos EUA conheceram o medo do desemprego, viram seus salários reduzidos, foram forçados a aceitar empregos de meio-período ou outros tantos problemas que, por aqui, são a história da Grande Recessão. Ações em colapso e o preço das casas destruíram 1/5 da riqueza das famílias médias. Quase seis, de cada dez norte-americanos, cancelaram ou reduziram as férias. Nesse quadro, os trabalhadores cada vez menos buscam os sindicatos como resposta possível às suas inseguranças – apesar da evidência bem clara de que, de todas as instituições norte-americanas, os sindicatos quase sempre acertaram ao avaliar as grandes questões que o país enfrentaria e enfrenta, na disputa contra os consensos políticos bipartidários e das elites.


Os sindicatos vivem momentos difíceis. Representam menos de 13% da força de trabalho e menos de 8% dos empregados de empresas privadas. Os empregados sindicalizados ainda recebem salários maiores que os não sindicalizados e em maior número de casos conseguem obter seguro-saúde, pensões e licença-doença pagos pelo empregador.


Mas quando os sindicatos representavam mais de 30% de todos os empregados de empresas privadas, nos anos 1940s, eles lutavam por melhores salários para todos – e as empresas às quais os sindicatos não tinham acesso tinham de competir para encontrar boa mão de obra. Hoje, os sindicatos lutam quase exclusivamente para defender salários e benefícios. Ao longo da última década antes da Grande Recessão, a produtividade aumentou muito, os lucros dispararam, os salários e bônus para os altos executivos chegaram à estratosfera, mas a maioria dos empregados perderam terreno e poder.


Os sindicatos são alvo de repetidos ataques que vêm dos conservadores e das corporações. A mais recente campanha – construída como sempre para dividir os trabalhadores – tem atacado os salários e, sobretudo, as aposentadorias dos funcionários públicos. Por que mereceriam aposentadorias, quando tantos trabalhadores perdem tudo e, no máximo, conseguem algum plano de aposentadoria privada, se tiverem a sorte de continuarem empregados? De fato, em sociedades civilizadas, a pergunta certa deve ser exatamente o contrário dessa. Como criar programas de aposentadorias e pensões – além da Seguridade Social – para todos os trabalhadores de toda a economia, nivelando-os por cima, não por baixo?


A verdade é que, se tivéssemos dado ouvidos mais atentamente aos sindicatos no passado, os EUA não estaríamos vivendo a tragédia de hoje. Por muitos anos os sindicatos alertaram para os riscos dos déficits comerciais que nunca pararam de aumentar, a loucura de admitir que Japão e China e outros jogassem segundo suas próprias regras. Mas um consenso bipartidário, inventado em Wall Street e abraçado pelos dois presidentes, primeiro por Bush, depois por Clinton, conseguiu impor o ideário de acordos de livre-comércio definidos pelas grandes corporações e que só a elas interessava.


Os resultados foram calamitosos. Só na última década as perdas comerciais dos EUA alcalçaram $5,8 trilhões de dólares. No setor de manufatura nos EUA, desapareceu um de cada três postos de trabalho. O presidente do Federal Reserve Ben Bernanke observava que os desequilíbrios do comércio global ajudaram a inflar a bolha que fez despencar a economia global como caída despenhadeiro abaixo. Agora, novos e crescentes desequilíbrios impedem qualquer recuperação que arranque os EUA da Grande Recessão. O crescimento decepcionante de apenas 1,6% no último trimestre teria alcançado robustos 5%, não fosse o aumento no déficit comercial. Hoje até Andy Grove (da Intel) e Jeff Immelt (GE) concordam que foram temerários e incompetentes ao mandar para o exterior tantos empregos e tanta capacidade de produção da indústria de manufatura.


Na governança corporativa, o consenso bipartidário pregava o culto dos “altos executivos”, defendia que se associassem “pagamento e performance” e ações na Bolsa de Valores. Os sindicatos foram descartados, vistos como impedimento ao pleno desenvolvimento de “mercados de trabalho flexibilizado”. Os líderes sindicais argumentaram à exaustão, que era necessário responsabilizar as corporações por mais do que só pelos resultados financeiros do balanço do trimestre seguinte. Falaram o mais que puderam, sem qualquer sucesso, a favor de incluírem-se o trabalho e a comunidade, ao lado dos acionistas, de modo que tivessem mais peso nas práticas e decisões das corporações. Resultado, os altos executivos partiram para uma onda de crimes: Enron, WorldCom, Global Crossing, Adelphi. Centenas de corporações “refizeram” os relatórios de lucros, depois que os altos executivos foram tornados pessoalmente responsáveis. Dúzias de altos executivos foram apanhados na operação de adulterar datas de vencimento de opções de ações. Os grandes bancos apostaram cada vez mais alto, mais alto, com os contribuintes obrigados a cobrir todas as perdas. Altos executivos receberam incentivos pessoais multimilionários, para adulterar números; nem surpreende que tenham encontrado modos tão criativos para adulterá-los.


No plano das regulações, os sindicatos travaram batalha sem tréguas contra as privatizações e a desregulação, que os conservadores da era Reagan e os neodemocratas e neoliberais converteram em última moda. Hoje se vê que, nos EUA, numa área depois da outra e em praticamente todas, as privatizações foram fonte de mau uso e desperdício de bens públicos, de fraude e de roubo – da Halliburton à Blackwater. A desregulação contribuiu diretamente para a débâcle financeira e das grandes corporações, que derrubou a economia, com custos humanos visíveis do Golfo do México a Appalachia e até na qualidade dos ovos que os EUA comemos hoje.


Sábado passado em Washington, Glenn Beck tentou confiscar o movimento dos direitos civis. No mesmo dia, em Detroit, viu-se o mundo real: os sindicatos UAW [1], SEIU [2] e AFSCME [3] reunidos à Rainbow PUSH Coalition [4], à NAACP [5], à Urban League [6], organizações religiosas e ativistas dos direitos civis, em marcha por empregos e justiça social. O apoio dos sindicatos foi vital para organizar a marcha comandada pelo Reverendo Martin Luther King em Washington, há 47 anos. E o apoio dos sindicatos é vital para todos os movimentos de direitos civis – pela reforma das leis de imigração, tanto quanto pela igualdade de gêneros e salários iguais para homens e mulheres, na luta por empregos – hoje.


Com todos os defeitos que tenham, os sindicatos dão voz a todos os trabalhadores, aos empregados e aos desempregados, não só aos trabalhadores sindicalizados. A força democrática que têm os sindicatos, nascida de baixo para cima, é contrapeso vital contra os interesses da ‘grande finança’ que tanto mal fizeram e fazem à vida política nos EUA. Fazer reviver o movimento sindical é essencialmente importante para construir novas fundações para alguma nova economia que se reconstrua nos EUA, fundações que assegurem que os EUA voltem a dar certo para os que trabalham.


Notas de rodapé:


[1] International Union, United Automobile, Aerospace and Agricultural Implement Workers of America (UAW) é dos maiores e mais diversificados sindicatos dos EUA, com membros em praticamente todos os setores de economia.

[2] Service Employees International Union (SEIU) .

[3] American Federation of State, County and Municipal Employees (AFSCME) .

[4] A Rainbow PUSH Coalition (RPC) é organização multirracial, pluralista, progressista internacional, que luta por mudança social. Foi criada em dezembro de 1996 pelo Reverendo Jesse L. Jackson, Sr., resultado da fusão de duas organizações também fundadas por ele, a People United to Serve Humanity (PUSH, 1971) e a Rainbow Coalition (1984).

[5] A National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), fundada em 1909, é a mais antiga organização de defesa de direitos civis nos EUA.
[6] A Urban League reúne, nas cidades dos EUA, afro-americanos e outros não-brancos, na luta por direitos iguais para todos. Foi fundada em 1916. Para saber mais clique em Detroit Urban League.


O artigo original, em inglês, pode ser lido em: No holiday for labor unions