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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

EUA: Viciados em dominação

8/1/2014, [*] Peter Lee, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Poder Absoluto Corrompe Absolutamente

Lord Acton, historiador e político britânico do século 19, disse, em frase que ganhou fama, que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Quase parece que os EUA tiveram acesso a documento actoniano secreto que autorizaria uma ressalva: “Mas e a dominação pelo poder dos EUA? Ah, bom! Aí, é diferente. Aí, pode!” – porque o governo em Washington parece gostosamente cego e surdo a todos os perigos, os riscos, os custos de adquirir e afirmar sua (de Washington) dominação global total.

“Dominar” – ter capacidade não superada para dirigir os eventos, praticamente o contrário de ter poder suficiente só para proteger e deter – é coisa que parece misturada e assada na própria massa da política dos EUA.

Como o presidente Barack Obama disse em documento intitulado “Sustaining US Global Leadership” [Sustentar a Liderança Global dos EUA] (no qual, compreensivelmente, prefere dizer que a liderança dos EUA é “demandada” pelo resto do mundo, em vez de dizer que é buscada pelos EUA, porque interessa aos interesses dos EUA):

Barack Obama
Estou decidido a conseguir que superemos com responsabilidade os desafios desse momento e que possamos emergir ainda mais fortes, de modo que preserve a liderança global norte-americana, [e] mantenha nossa superioridade militar (...) superar aqueles desafios não pode ser trabalho só dos militares, razão pela qual reforçamos as ferramentas do poder norte-americano (...) num mundo em mudança que demanda nossa liderança, os EUA permanecerão como a maior força pela liberdade e pela segurança, que o mundo jamais conheceu.

Como se lê na edição mais recente da Quadrennial Defense Review:

Os interesses e o papel dos EUA no mundo exigem forças armadas com capacidades não superadas e disposição da nação para usá-las em defesa de nossos interesses e do bem comum. Os EUA continuam a ser a única nação capaz de projetar e sustentar operações de grande escala sobre grandes distâncias. Essa posição exclusiva gera uma obrigação de ser guardiões do poder e da influência que recebemos da história, de nossa determinação e da circunstância.

Como se lê, da Agência da Defesa Para Projetos de Pesquisa Avançada [orig. DARPA, Defense Advanced Research Projects Agency): A missão da DARPA é manter a superioridade tecnológica dos militares norte-americanos e impedir surpresa tecnológica que cause dano a nossa segurança nacional, mediante o financiamento de pesquisa revolucionária, de alto resultado, que preencha a distância entre descobertas e invenções fundamentais e seu uso militar.

E como se lê da irmã menos afamada da DARPA, a IARPA , que serve à CIA, à Agência de Segurança Nacional e ao resto da comunidade da espionagem:

A Atividade de Projetos de Pesquisa de Inteligência Avançada [orig. Intelligence Advanced Research Projects Activity (IARPA)] investe em programas de pesquisa de alto risco e altos resultados que têm potencial para suprir os EUA com vantagem notável de inteligência sobre futuros adversários.

Edward Snowden
Deve-se notar que o elemento que mais chama a atenção nas revelações de Edward Snowden sobre a Agência de Segurança Nacional e na resposta do governo Obama, é que a ASN teria a atribuição de “guardar tudo”, quer dizer, teria total dominação sobre toda a vigilância em todas as jurisdições não norte-americanas, e parece visceralmente e constitucionalmente incapaz de tolerar qualquer tipo de limite teórico às suas habilidades para interceptar todas e quaisquer comunicações.

Dominação é vício que custa caro, em termos políticos, sociais e, também financeiros. Com a parte que cabe aos EUA no latifúndio planetário já diminuindo a olhos vistos, não surpreende que a dominação pelos EUA esteja sendo desafiada; e mais indiretamente, em termos de desintermediação (o surgimento de estruturas alternativas não centradas nos EUA, de uma das quais já se ouviu falar, na ameaça, feita pelo Brasil, de desconectar-se da internet norte-americana), que em algum tipo de confrontação mano a mano.

O resultado é instabilidade assustadora, em vez da ordem tranquilizadora que se espera obter de uma hegemonia [2] não desafiada.

O maior desafio contra a dominação pelos EUA é a Ásia.

No Oriente Médio, onde a força militar decisiva estava nas mãos de nossa aliada, Israel; o nosso adversário designado, o Irã, era uma clara potência de terceira ordem; os EUA tinham a notável, servil assistência da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, para organizar e liderar seus aliados; e campanhas contra cinco potências refratárias (Iraque, Afeganistão, Irã, Síria e Líbia) produziram vastos resultados que podem ser divulgados como Vitória”, os EUA ainda encontraram considerável e custosa resistência, quando tentaram falar como manda-chuvas.

E que fim levou o “movimento de pivô” do governo Obama rumo à Ásia, onde nosso adversário não designado, a República Popular da China, tem população de 1,6 bilhões, bombas atômicas, e a segunda maior economia do mundo, e nosso aliado chave, o Japão, está emergindo como força regional independente?

Essa não é receita para dominação confortável, nem unilateralmente, nem como líder de uma coalizão regional.

O indicador chave das ambições de dominação dos EUA na Ásia é a notória “Batalha Ar-Mar” [orig. “Air Sea Battle”], peça quase pornográfica de autogratificação de think-tank que recomenda que os EUA construam colossal presença militar no Pacífico Ocidental para sobreviver (e, claro, triunfar) no pior cenário possível de ataque de “pleno espectro”, pela China, contra instalações militares dos EUA.

Batalha Ar-Mar na Ásia (clique na imagem para aumentar)
A “Batalha Ar-Mar” está agora em situação de hiato, não por suas premissas improváveis, suspeito eu, mas por causa do caráter explode-orçamento daquele esforço para enfiar, como penetra em baile, alguma absoluta dominação militar norte-americana na equação da segurança asiática.

Mesmo que a “Batalha Ar-Mar” esteja posta de lado, nem assim vejo qualquer indicação de que os EUA deem-se conta da preocupante implicação, pela qual essa ambição de dominação militar absoluta pelos EUA, nos desmesuradamente caros confins da Ásia, é sonho inatingível; nem creio que os EUA tenham consciência – nem, tampouco, doutrina ou estratégia – para lidar com a mais apavorante das contingências: um “mundo multipolar”, no qual os EUA, como outras potências regionais – Índia, Brasil e África do Sul – são forçados a definir, refinar e buscar os próprios interesses, sempre mediante dura barganha com uma nuvem sempre mutável de parceiros militares, econômicos e diplomáticos oportunistas.

No meu artigo de final de ano, para Asia Times Online, (Erase that war with China 'in 2014', 23/12/ 2013), escrevi que o último ano do governo Obama parecia reconhecer, parcialmente, a existência de uma hegemonia-charada da Ásia; e tinha recuado da confrontação “na cara deles” que Hillary Clinton e o tal “movimento de pivô” encarnavam.

John Kerry
Como sintoma – que é o contrário de “causa” – falei da migração do portfólio “China”, para bem longe de Susan Rice, primeira escolha do presidente Obama para sua Secretária de Estado (além de autora dos desastres líbio e sírio, e cápsula viva a injetar vitríolo anti-Rússia e anti-China na ONU), e na direção do secretário “sempre se dará algum jeito” (e arquiteto da reaproximação Vietnã-EUA) John Kerry.

O governo da República Popular da China tem esperanças, creio eu, de que esse desenvolvimento represente uma evolução do pensamento norte-americano, de afastar-se da estratégia da “contenção-só-que-mudou-de-nome” chamada “pivô”, que parecia somar uma catarata estratégica e uma catarata econômica de tensões extremadas entre as democracias asiáticas e a China, para um arranjo de poder mais bem equilibrado, que reconhece as vantagens de os EUA ocasionalmente aliarem-se à China para moderar as ações desestabilizadoras do Japão e de outros países asiáticos, excessivamente reforçadas pelo “movimento de pivô”.

Por baixo do rancor (e da cobertura negativa) gerado pelo abuso serial, pela China, contra jornalistas de veículos ocidentais de prestígio, foi o que aconteceu em 2013, com os EUA cautelosamente colhendo alguns ganhos geopolíticos do pivô, especialmente Mianmar, mas lutando para manter o Japão na categoria de “poodle britânico” dos aliados úteis, sem deixar que caísse na categoria “Israel do Pacífico” e perpétua dor de cabeça, sempre a explorar o poder dos EUA.

No longo prazo, não estou otimista: não conto com que os EUA aceitarão um arranjo de equilíbrio de poder na Ásia.

A irrazoabilidade dos EUA no Pacífico em 2013 foi, com certeza, questão de conveniência e tática, não de convicção.

Vladimir Putin
Na Europa Oriental, tratou-se de contenção, como sempre, com EUA e forças ocidentais combinadas para malhar Vladimir Putin por sua política externa desagradavelmente assertiva e independente. Aí se incluem atividades como a inserção de apoio ocidental pró elementos europeus na crise política da Ucrânia, e esforços infantilóides para arruinar para Putin os Jogos Olímpicos de Putin, anunciando o envio legiões de atletas homossexuais, em lugar de chefes de Estado, para as cerimônias de abertura em Sochi.

Espero ansiosamente que aconteça o concerto da banda Agito das Bucetas (Pussy Riot), para o presidente Obama, no Kennedy Center, com os pagãos da empresa-imprensa ocidental em êxtase ante aquela mágica convergência de arte, ativismo e princípios.

Seja como for, de volta à Ásia.

Prevejo que, tão logo Japão e EUA alcancem um encontro das mentes (o qual incluirá provavelmente os EUA aceitarem a completa reconstrução militar do Japão e o abandono da Constituição pacifista, enfiando-se embaixo do tapete a certeza de que o Japão já está no limiar, como potência nuclear; em troca de alguma obediência pública ao princípio, se não à realidade, da liderança dos EUA na Ásia), a República Popular da China terá pela frente uma renovada campanha de mentiras, pressão e desprezo.

Trabalho com a hipótese-aposta de que o ponto de virada bem pode ser Taiwan.

Se os índices de desaprovação de Ma Ying-jeou, atual líder supremo do Kuomintang, são indicativos de alguma coisa, é bem possível que, à altura de 2017, o governo de Taiwan venha a estar nas mãos do Partido Democrático Progressista [orig. Democratic Progressive Party (DPP)], tradicionalmente o partido dos taiwaneses nativos (em oposição aos “continentais” pós-1949), que não se interessam pela “reunificação” com o continente e têm declarada preferência por formalizar a independência de facto de Taiwan.

Taiwan, desde 1895, recebe os efeitos inegavelmente benéficos da atenção imperial japonesa, e muitos taiwaneses da velha geração ainda guardam lembranças positivas fortes de seu relacionamento com o Japão. Lee Teng-hui, o primeiro líder taiwanês nativo da República da China e figura política ainda importante, não tem feito segredo de que prefere o Japão à República Popular da China. Depois que deixou o poder, visitou o Japão e visitou, até, o afamado Santuário Yasukuni, para prestar homenagem ao seu irmão, que morreu como soldado japonês nos anos 1940s.

Os nacionalistas japoneses de direita (em cujas hostes brilha o Primeiro-Ministro Shinzo Abe, embora esse seja um dos fatos desconfortáveis fixados por jornalistas ocidentais entre os males da República Popular da China, e que as virtudes do Japão democrático não parecem capazes de engolir), cultivaram relações com o Partido Democrático Progressista , antecipando o momento em que um regime de um DPP hostil à República Popular da China e amigo do Japão possa voltar ao poder.

Su Tseng-chang,                                    Ma Ying-jeou
Quando Su Tseng-chang, presidente do DPP e provável candidato presidencial na próxima eleição, visitou o Japão em fevereiro de 2013, a mídia em Taiwan noticiou que ele tinha planos para visitar Shintaro Ishihara, nacionalista japonês muito conhecido, que iniciou a compra nacional das três ilhas Senkaku. (No artigo de final de ano para Asia Times Online, escrevi, talvez incorretamente, que o encontro aconteceu; o grupo de Su declarou que não haveria encontro; mas desconfio que não passasse de formalidade – “não há encontros individuais formais previstos na agenda de viagem” – e que Su e Ishihara deram jeito de reunir-se).

Ideia popular dentro do DPP é que as Senkakus pertencem ao Japão; seja como for, há poucos votos a obter dentro do DPP para quem se posicione a favor da China e contra o Japão, na questão das ilhas.

Se, em 2017, o DPP estiver no poder em Taiwan e o grupo de Abe do LDP ainda tiver votos no Japão, o cenário estará pronto para uma escalada interessante e bastante perigosa, que talvez envolva Taiwan renunciar aos direitos que diz ter sobre as ilhas, em favor do Japão. O pior caso, é claro, é que se anuncie um referendum da independência de Taiwan, apoiado pelo governo japonês.

Nessa situação, os EUA, ante essa escolha de Hobson (“escolha o que quiser” – mas, de fato, você só pode escolher uma das alternativas), entre repudiar a independência de Taiwan e a posição do Japão-aliado, ou apoiar a tirania da República Popular da China, ficará absolutamente sem espaço para barganhar.

E o resultado paradoxal do vício obcecado pela dominação será os EUA já reagindo, encurralados pelos eventos na Ásia, em vez de comandando os eventos na Ásia.
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Notas dos tradutores

[1] Orig. US: Hooked in hegemony. Decidimos que, como leitores aplicados de Gramsci, não traduziremos “hegemony” por “hegemonia”, sempre que a palavra for usada por não gramscianos como sinônimo de “dominação” (em Gramsci, “hegemonia” não é “dominação”). Então aí fica “dominação”, onde o autor quis dizer “dominação” (e diz!), mas escreveu “hegemony”. Comentários e correções são bem-vindos.

[2] Aqui se vê, clara, a diferença entre “hegemonia” e “dominação”, para Gramsci: nenhuma “dominação” gera(ria) “ordem tranquilizadora”.
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[*] Peter Lee é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.

sábado, 30 de junho de 2012

Pepe Escobar: “Dançando miudinho. Como se fosse... 1997”


29/6/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
HONG KONG. Aconteceu há 15 anos: o dia em que os britânicos devolveram Hong Kong à China. [1] O general China fez os britânicos dançarem miudinho. Recuperar Hong Kong foi um dos pilares da estratégia de “cruzar o rio sentindo as pedras” de Deng Xiaoping, o Pequeno Timoneiro. Regra n. 1, “enriquecer é glorioso”. Depois, desenvolver as zonas econômicas especiais. Recuperar Hong Kong, tirando-a dos britânicos. Depois, um dia, anexar Taiwan. E, talvez lá por 2040, chegar a alguma variante de democracia parlamentar à europeia.

Tempos inebriantes, aqueles. Apenas fracos rumores sobre uma possível crise financeira na Ásia. Na China continental, a mídia relembrava as “humilhações” do passado – com direito a promoção pesada de um filme arrasa-quarteirões que contaria a verdade sobre as Guerras do Ópio. Nos jornais, na ilha de Hong Kong, reinava medo sinistro. E se o Exército de Libertação do Povo [orig. People's Liberation Army (PLA), o exército da República Popular da China] cruzar a fronteira à meia noite, numa blitzkrieg e militarizar todos os shopping-centers em Kowloon? Seremos todos doutrinados até nos transformarem em comunistas-modelo?

Deng Xiaoping
Era onde todos os correspondentes estrangeiros tinham de estar. O Clube dos Correspondentes Estrangeiros fervilhava como perpétuo concerto de rock. Na loja Shanghai Tang, o hit era um relógio Deng, de pulso. Os dias passavam em perene agitação, na luta para conseguir entrevistas e aferir a iminência do apocalipse, na opinião de residentes e analistas. À noite, as suarentas festas no Club 1997, em Lan Kwai Fong. Depois, era arrastar a ressaca de volta para o hotel e escrever matéria suficientemente densa para encher duas páginas de jornal por dia.

No final, tudo transcorreu numa normalidade que Deng apreciaria. [2] Chris Patten – o último governador britânico – partiu, num anticlímax. O Império Britânico era passado. O Exército chinês não invadiu a ilha. Festa monstro, no Club 1997. Dia seguinte, ressaca monstro e tudo, começava a verdadeira celebração. Meti-me num avião rumo à China.

Impensável indizível 

Mal sabia eu que a crise financeira asiática acabava de eclodir – com desvalorização monstro do Baht tailandês. Bom. Ainda dia 1º de junho, muitos de nós teríamos previsto alguma coisa, mas seria problema pequeno – mas ninguém preveria, nem ninguém previu, o tsunami financeiro que logo chegaria.

Robert Plant (Led Zeppelin)
Eu tinha planos de mergulhar na China profunda – nas entranhas da besta que, agora, mandava em Hong Kong. Robert Plant viajou no mesmo voo para Xian. Sim, ele, o Robert Plant (guitarrista do Led Zeppelin [3])menos Jimmy Page. Resisti à tentação de falar com ele, ante as barreiras abertas para a Caxemira. Mas acabou que estávamos no mesmo hotel em Xian – e cruzávamos no café da manhã. Ele viajava com o filho e o secretário. E, sim – estávamos na mesma viagem. Nada de Estrada 66 – mas a estrada mãe de todas as estradas. 

Sempre fui fanático pela Rota da Seda. A “Estrada da Seda” não é só o grande portão aberto para a Eurásia – de desertos letais como o Taklamakan a picos de montanhas nevadas – mas também ondas e ondas de história cultural que liga a Ásia à Europa. São impérios esquecidos como os Sogdianos, cidades de fábula como Merv, Bukhara e Samarcanda, oásis de fábula como Kashgar. Não é “uma” estrada, mas um labirinto de “estradas” – cujos braços alcançam o Afeganistão e o Tibete.

Tinha de começar pelo começo, em Xian, ex-Chang'an – embora muita seda chinesa viesse ainda mais do sul. Xian foi capital da China durante a dinastia Han, quando Roma dava a alma pela seda da China. E foi capital outra vez na dinastia Tang – quando a conexão com a Índia solidificou a Rota da China.

As galerias de Hong Kong estavam cheias de cópias de figuras Tang de terracota, como a Yang Guifei, também conhecida como “a concubina gorda”, [4] a mais afamada femme fatale na história da China. Turcos, uigures, sogdianos, árabes e persas, todos viveram nessa Roma chinesa – e construíram templos (a mesquita ainda é a mais bela na China; mais os três templos zoroastrianos já se foram).

Rota da Seda
Eu precisaria de mais alguns anos – e sucessivas viagens – para percorrer finalmente o núcleo da Rota da Seda, em diferentes trechos, obsessão que carregava desde o ginásio. Mas daquela vez queria concentrar-me na parte chinesa da Rota da Seda.

Comecei com um pintor/calígrafo que fazia cópias sublimes, em mandarim, de sutras do coração de Buda para monges que viviam há anos em cavernas nas montanhas ao norte de Chang'an. Foi supremamente difícil resistir a duas tentações: adeus jornalismo, por que não virar calígrafo, ou monge? Então, comecei a andar rumo oeste, através de Lanzhou – com desvio até o imaculado enclave tibetano de Xiahe e, no caminho, enorme concentração de Hui, muçulmanos chineses. Sempre por trem, ônibus e caminhões locais.

De Lanzhou fui até Chengdu, em Sichuan, de ônibus, depois a Lhasa no Tibete, de avião, ida e volta. Essa é uma ramificação clássica da Rota da Seda. Mas o que realmente me atraía era ir “ao impensável indizível” [orig. “beyond the pale”, intraduzível, nesse contexto]. Seguir o braço no extremo oeste da Grande Muralha e finalmente chegar a Jiayuguan – o “Primeiro e Maior Desfiladeiro sob os Céus”.

Foi tudo que eu esperava que fosse: uma espécie de cenário desolado para o fim do império. O fim (literal) da Grande Muralha. A oeste dali seria “o impensável indizível” [orig. “beyond the pale"]. Chineses banidos para oeste dali jamais voltariam. Ainda em 1997, olharam-me com ar incrédulo, quando eu disse que continuaria adiante, até Gansu, rumo aos desertos de Xinjiang. “Por quê? Lá não há nada.”

Faltavam ainda dois anos, para que Pequim lançasse oficialmente a política “Rumo ao Oeste”. A neocolonização superturbinada do “impensável indizível” além daquele ponto – uma Xinjiang extremamente rica em recursos naturais, mas povoada (ainda naquele momento) sobretudo por uigures muçulmanos – ainda não começara.

Morte, também chamada Taklamakan

Pelo desfiladeiro Gansu, cheguei finalmente às cavernas Dunhuang – dos maiores centros budistas da China por mais de 600 anos: uma festa de afrescos e imagens esculpidas em cavernas escavadas numa montanha na face leste do deserto de Lop e face sul do deserto de Gobi. Esplendor, deslumbramento, não bastam nem para começar a descrevê-las.

Um dos meus heróis eternos, o grande peregrino budista Xuanzang (602-664), parou em Dunhuang a caminho da Índia – onde recolheu textos sagrados para traduzi-los ao chinês (o que explica aquele calígrafo, lá atrás, em Xian).

O relato que o próprio Xuanzang escreveu de suas viagens épicas, Xiyuji (“Registro das Regiões Ocidentais”, ing.Record of the Western Regions  [5]) continua insuperado. Começou – e por onde começaria? – em Chang'an. Aconteceu de tudo, inclusive ter sido “torturado por alucinações” e ter de safar-se de “todos os tipos de demônios e seres estranhos”. Mas conseguiu voltar à China 16 anos depois, carregando uma fortuna em livros e estátuas de Buda.

A Rota da Seda bifurca-se em torno de Dunhuang. Tive de decidir. A estrada do norte segue a face sul das espetaculares montanhas Tian Shan – que acompanham o norte do aterrorizante deserto Taklamakan (cujo nome, em uigur, significa “você pode entrar, mas nunca sairá”). Ao longo do caminho, muitas cidades-oásis – Hami, Turfan, Aksu – antes de chegar a Kashgar.

Tomei essa estrada, sob temperaturas sempre próximas de 50 graus Celsius, montado numa Land Rover em ruínas com um Hui monossilábico que deu conta da trilha pelo deserto como um Ayrton Senna. E aquela era a rota “mais fácil” – comparada à rota do sul. Eu imaginava os monges budistas, montados em camelos, pelas montanhas Karakoram até Leh (em Ladakh) e Srinagar (na Caxemira) e dali até a Índia.

Sven Hedin 
Até tentar enfrentar as horrendas tempestades de areia do Taklamakan é absolutamente impossível. Resta contornar o deserto. Foi o que não fez o mais safo dentre os gigantes modernos da Rota da Seda, Sven Hedin (1865-1952), autor de My Life as an Explorer [6] (1926), homem de colhões de aço que enfrentou a morte incontáveis vezes e deixou atrás de si uma trilha cavalos, camelos e, claro, homens, mortos. 

Numa de suas aventuras, quando Hedin tinha esperanças de conseguir cruzar um canto sudoeste do Taklamakan em menos de um mês, os camelos morreram, um depois do outro; a caravana foi atingida por uma tempestade de areia; o último dos seus homens morreu; só Hedin chegou ao outro lado, “como se guiado por uma mão invisível”.

Eu, guiado pelo meu Hui bem visível, finalmente cheguei a Kashgar – uma volta alucinante à Eurásia medieval. Também ali, naquele momento, a neocolonização forçada dos Han estava apenas começando, em torno da estátua de Mao na Praça do Povo. A feira do domingo saía diretamente do século 10. Não se via um único chinês Han nem por perto da mesquita Id Kah verde-clara, nas rezas da madrugada.

Em Kashgar a Rota da Seda novamente se divide e desdobra-se. Os monges budistas viajariam pelo Hindu Kush por Tashkurgan, até os reinos budistas de Gandhara e Taxila, no Paquistão de hoje. Viajei pela estrada da amizade motorizada China-Paquistão – quero dizer, tomei a fabulosa autopista Karakoram de Kashgar pelo desfiladeiro Khunjerab, de jipe e ônibus local, direto até Islamabad, com uma parada no idílico vale Hunza. O norte do Paquistão estava em paz, naqueles dias pré-guerra-ao-terror; apesar de os Talibã estarem no poder no Afeganistão, não havia à vista praticamente nenhum islamista hardcore.

Rota da Seda percorrida pelo explorador Sven Hedin
Os mercadores da Rota da Seda fariam diferente. Tomariam o rumo norte, das montanhas Pamir até Samarcanda e Bukhara; ou rumo sul, das Pamirs a Balkh (no Afeganistão de hoje) e dali até Merv (no Irã). De Merv, uma rede de Rotas da Seda parte diretamente até o Mediterrâneo via Bagdá-Damasco, Antióquia ou Constantinopla (Istambul). Eu precisaria de mais vários anos para seguir trechos de todas essas estradas.

O caso é que, de repente, eu estava em Islamabad em negociações com os Talibã, enquanto por toda a Ásia o mundo financeiro vinha abaixo. Voltei a Cingapura e dali a Hong Kong. A Tailândia, a Indonésia, a Coreia do Sul estavam desmoronando. Mas Hong Kong sobrevivia, mais uma vez – agora, atentamente inspecionada por Pequim.

A mãe-pátria sabe das coisas

15 anos depois, nenhuma das tolas predições ocidentais sobre os chineses ‘endurecerem’ em Hong Kong, se confirmaram. A terceira transição suave de poder em Hong Kong, sob mando chinês, já está em andamento. O vice-presidente chinês Xi Jinping – próximo Imperador Dragão – já espalhou suas generosas bênçãos.

Eis o citação chave, do que disse Xi: “15 anos depois de devolvida à China, Hong Kong sobreviveu a várias tempestades. Acima de tudo, o princípio de “um país, dois sistemas” obteve enormes avanços (...). A economia de Hong Kong desenvolveu-se bem e a vida dos cidadãos melhorou. Houve avanços também no desenvolvimento democrático, e a sociedade tornou-se harmoniosa.”

Bem... Nem tão harmoniosa. É verdade: Hong Kong é a capital da Instant Profit Opportunity (IPO), Oportunidade de Lucro Instantâneo. É o principal centro offshore do mundo para o comércio de Yuans. É capital planetária sem igual – em muitos aspectos, põe New York no chinelo; é o melhor que o mundo tem a oferecer em ambiente ultracompactado. A economia da cidade cresceu todos os anos, exceto em 2009 – ano do abismo da economia mundial. O PIB cresce 4,5% ao ano, em média. O desemprego jamais ultrapassou 6%.  

Mas Hong Kong ainda não fez a transição para uma economia de alto valor agregado, economia baseada no conhecimento. O governo atual, de Donald Tsang aposta em “seis novas indústrias pilares”, que devem trazer “claras vantagens” com vistas ao crescimento: indústrias culturais e ‘criativas’; serviços médicos; educação; inovação e tecnologia; serviços de testagem e certificação; e indústrias ambientalmente orientadas.

O desenvolvimento desses “pilares”, até agora, é desprezível. Hong Kong continua a depender de suas quatro indústrias-núcleo: serviços financeiros, turismo, serviços profissionais e comércio. Mais de 36 milhões de turistas/ano não farão de Hong Kong uma sociedade baseada no conhecimento. A maioria dos turistas vêm – e de onde viriam? – da mãe-pátria. O chicote volta, bravo, sobre quem chicoteia: a maioria dos Hong-Konguenses os veem como “gafanhotos” – camponeses grosseirões, as malas estufadas de Yuan, pagando tudo à vista. E, isso, quando a desigualdade na própria Hong Kong cresce dramaticamente.

No que tenha a ver com Pequim, tudo é, sempre, “atravessar o rio, sentindo as pedras”. Eis, mais uma vez, o que disse Xi: “O governo da SAR [Special Administrative Region/Região Administrativa Especial] reuniu vários setores sociais sob forte apoio do governo central e da pátria-mãe.” A pátria-mãe tem lá suas próprias ideias de fazer reviver a Rota da Seda – e Hong Kong talvez possa ser parte do projeto, pelo menos no que tenha a ver com serviços financeiros.

Vai-se ver, talvez seja hora de bailar outra vez, como se fosse 1997, e outra vez atacar o Taklamakan. É... Pode-se tirar o menino de dentro da Rota da Seda, mas não se pode tirar a Rota da Seda de dentro do menino.



Notas dos tradutores

[1] 1/7/1997, Grã-Bretanha devolve Hong Kong à China (mais em: BBC ON THIS DAY -  1997: Hong Kong handed over to Chinese control).

[2] Deng Xiaoping morrera, aos 92 anos, dia 19/2/1997, menos de seis meses antes, portanto, do que Pepe Escobar narra aí (mais em: BBC ON THIS DAY1997: China's reformist Deng Xiaoping dies).

[3]
Assista a seguir: Robert Plant em “Stairway to heaven”, 1983.

[4] Imagem em: Yang Guifei

[5] Pode ser lido (em inglês) em: Xuanzang’s Record of the Western Regions

[6] Veem-se a capa e algumas páginas em: My Life as an Explorer