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sábado, 22 de novembro de 2014

O culto aos “especialistas em China”

23/10/2014, [*] Thorsten Pattberg, Speaking Freely, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pergunte a você mesmo: quando você encontrou alguma matéria, coluna, ensaio, o que for, assinado por analista chinês não “dissidente”, publicado em qualquer dos jornais e noticiosos e telejornais redigidos no idioma de seu país [no nosso caso: em língua portuguesa]? Nem precisa pensar muito: você jamais leu, nunca. O cerco orwelliano é total, apertado, absoluto. Sobre a China, o cidadão comum não lê, no ocidente, absolutamente nada que preste. Nada. Zero.




PEQUIM – Há alguns anos, encontrei um alemão, em Harvard, que se vangloriava do próprio “engajamento” na luta política, de uma palestra que daria em New York City, de como trabalhava duro a favor da liberdade para o Tibete e sanções contra a China. Que não havia direitos humanos na China – ensinou-me ele. Fiquei impressionadíssimo. Alertei-o para que não fizesse nada daquilo contra o nosso governo alemão, porque poderia ser condenado por traição. O homem balançou a cabeça com ar de profundo desprezo pela minha falta de fé democrática.

Não é o único. Há um culto a intelectuais evangelizadores anti-China, no Ocidente, aqueles arrogantes cruzados determinados a construir golpes nas mais diferentes nações não ocidentais e usurpar quaisquer governos democráticos.

Sobre a China, agem e falam como se estivessem acima da lei. Isso, porque entendem que o governo chinês seria corrupto, não eleito e comunista, vale dizer, ilegítimo. Assim sendo, por que alguém teria de respeitar o que a China faz, defende ou propõe? Além do mais, esses intelectuais evangelizadores pró-ocidente acham que ocidentais podem fazer o que bem entendam contra a China, porque os EUA comandam todo o aparelho de comunicação-propaganda “midiática”, o que sempre os salvará de qualquer dificuldade, caso haja.

Os tais ditos ‘'especialistas'’ em China são hoje uma força política que faz oposição direta ao Partido Comunista. Formam ninhos e redes, com hierarquia muito forte e rígido código de ética: todos se autoelogiam uns os outros, “retuítam” tuítes uns dos outros, fazem propaganda dos livros uns dos outros, e castigam furiosamente todos os “traidores”, que chamam de “elogiadores da China”.

Quando Yang Rui, âncora de um noticiário na rede CCTV, condenou as atividades de estrangeiros em Pequim, foi vítima de assassinato de reputação e, na sequência, mostrado por “especialistas em China”, em todo o ocidente, como exemplo do que acontece a quem se atreva a defender a China.

Yang Rui
No ocidente, grupos extremistas estrangeiros, de direita ou de esquerda, são atentamente monitorados e controlados. Mas que ninguém se atreva a controlar os imperialistas ocidentais. Alemães financiam separatistas chineses em Xinjiang; norte-americanos financiam separatistas no Tibete. Empresas da imprensa norte-americana até deslocam seus “militantes” para Hong Kong, decididas a derrubar Xi Jinping, o presidente, a mulher dele e toda sua família.

Na hierarquia dos “especialistas” em China, vê-se o seguinte: no topo, estão filósofos e estadistas, que definem o contexto e a agenda da ideologia universal – atenta sempre, e só, aos interesses do ocidente. Invariavelmente vivem no ocidente, pouco sabem da China, ou nada sabem absolutamente. Pouco sabem, de fato, do resto do mundo e discutem a China exclusivamente em termos ocidentais. [1] No passado, os alemães tivemos Kant, Hegel e Wilhelm II; hoje temos Henry “sobre a China” Kissinger, Francis “Fim da História” Fukuyama e Samuel "Choque de Civilizações” Huntington. [2]

Na sequência vêm jornalistas e editores, [3] a maioria dos quais são impecavelmente brancos, sempre empregados em cargos de destaque no New York Times, Wall Street Journal, Economist e coisa e tal.

Graças ao monopólio planetário das empresas-imprensa ocidentais, todos esses constituem hoje a nova elite global fascista no campo das “comunicações”. A cultura deles todos é mal ajambrada e frouxamente costurada, e a maioria das relações dentro das empresas-imprensa beiram o incesto, [4] de tal modo que todos se repetem uns os outros, todos empurram o bote uns dos outros e todos escrevem e dizem praticamente as mesmas palavras sobre sempre os mesmos temas que eles mesmos pautam ou apenas repetem, para eles e para todos. Na China todos sabem quem são essas figuras. E o que dizem e escrevem contra a China é como um sinal verde para que todos os “jornalistas” do mundo ponham-se a repetir o que esses dizem/escrevem. Assim, o massacre contra a China não acaba nunca.

Imperialismo
A maioria dos “especialistas em China” são preconceituosos até a última fibra. Toleram todas as cores de pele, desde que ocidentalizadas e falantes de inglês, mas manifestam o mais total desprezo por termos em outras línguas, conceitos, terminologia (a isso se chama “imperialismo linguístico”). E são quem decide quem – chinês ou não chinês – é elogiado e repetido e quem será difamado, com suas opiniões – o que é ainda mais grave – varridas para sempre de qualquer matéria ou coluna sobre a China. A corrupção pessoal desses “jornalistas” e “especialistas” é cuidadosamente apagada dos registros.

Pergunte a você mesmo: quando você encontrou alguma matéria, coluna, ensaio, o que for, assinado por analista chinês não “dissidente”, publicado em qualquer dos jornais e noticiosos e telejornais redigidos no idioma de seu país [no nosso caso: em língua portuguesa]? Nem precisa pensar muito: você jamais leu, nunca. O cerco orwelliano é total, apertado, absoluto. Sobre a China, não se lê no ocidente absolutamente nada que preste. Nada. Zero.

E a China não é a única vítima. Todas as civilizações não ocidentais estão sentindo o açoite do imperialismo ocidental. O ocidente apresenta-se como se fosse “universal” e diz que não pode assumir responsabilidades por indivíduos que, em outros países, cometam abusos, porque todos são agentes “livres”. Os mesmos dizem exatamente a mesma coisa, desde o auge do colonialismo.

Participar da missão ocidental para civilizar o Oriente é empreitada espiritualmente muito recompensadora. E o que seria a desestabilização política, senão doce vingança a colher contra o pouco caso que a China dedica à hegemonia ocidental?! Os alvos favoritos são funcionários chineses corruptos, minorias em geral, o chauvinismo e a misoginia Han, manifestações de rua, manipulação da moeda e censura. A coisa é de tal ordem, que os “especialistas” chineses sinceramente se sentem os únicos seres bons, limpos e justos [cada um deles, é uma espécie de D. Dora Kramer da ética-universal! :-D)))) (NTs)] Sentem-se como se fossem guerreiros da justiça. O problema é que só fazem o que fazem, em país bem distante do seu. E o negativismo já envenena todos os discursos.

Bandeira dos EUA na Praça Tian'anmen
Assim, “especialistas em China” vivem à caça de chineses que apareçam na mídia: dissidentes, militantes pró-ocidente, qualquer Wang sabe agitar a bandeira norte-americana. Os colaboracionistas ganham tudo, da imprensa-empresa ocidental: cobertura, divulgação, propaganda, propinas, prêmios, até o Prêmio Nobel. A tática não escapa ao olhos interesseiros dos zhishi fenzi (“intelectuais midiáticos alugáveis”), categoria que faz qualquer negócio para atrair a atenção da mídia – como o sujeito, que se apresenta como artista e que, em maio, autofatiou-se para arrancar uma costela do próprio corpo, por uma “China mais aberta”.

Se Pequim protesta, as campanhas ocidentais tornam-se mais agressivas a cada protesto chinês: por toda a parte só se ouvirão lições, dirigidas à China, para que não atrapalhe a liberdade dos ocidentais, de modo que o “ocidente” possa, sem empecilhos, continuar a desestabilizar a China por dentro. A situação é: se são censurados, põem-se a falar dez vezes mais, pelos microfones ocidentais; se são presos, viram mártires. Resta a via de fingir que esses pseudo jornalistas e pseudo especialistas les não fazem o que fazem, de fato, como meio de vida. Mas nesse caso, sim, a China [como o Brasil (NTs)] começa a correr perigo.

Notas dos tradutores

Rubens Barbosa
[1] Exemplo desse tipo de “intelectual” que é frequentemente apresentado como “especialista em China” é o ex-embaixador e atual empregado da FIESP e do Instituto Milênio, Rubens Barbosa, figura incansavelmente repetida nos programas do canal (pago!) GloboNews.

[2] No Brasil, temos: o “historiador” Villa; ex-embaixadores reduzidos a serviçais da FIESP e de think-tanks fascistas; e professores de universidades privadas metidas a “excelências”, sempre os mesmos, figurinhas incansavelmente repetidas nos programas do canal GloboNews que são vendidos aos consumidores como se fossem programas de “análise” internacional, comandados por William Waack, e que nunca passam de propaganda contra os governos eleitos no Brasil desde 2003.

[3] No Brasil, o exemplo mais ridículo de “jornalista” “especialista em China” é SoniaBridi, da rede Globo, que passou um ano na China, entre 2005-2006, sem falar o idioma, com a missão de montar “o escritório da Globo em Pequim”. Depois de um ano (e sempre sem falar o idioma), a “jornalista” voltou ao Brasil, escreveu um livro sobre ela mesma, muito mais do que sobre a China; e para sua autopromoção pessoal, não para informar sobre a China; e passou a  ser  apresentada aos infelizes telespectadores da rede Globo, inclusive no afamado “Programa do Jô”, como... “especialista em China”. :-D)))))) Só rindo!

[4] Aí está um tema que não se estuda no Brasil: os filhos e esposas(os) e namoradas(os) de jornalistas “famosos” das maiores redes, invariavelmente obtêm empregos nas redes que já empregam pais/mães, esposos(as), namoradas(os). Tudo é espantosamente promíscuo nesse mundinho de meia dúzia de famiglias midiáticas onde todos se conhecem e todos se ajudam. É o caso, por exemplo, de inúmeras apresentadoras de noticiários considerados “sérios”, que muito evidentemente, dado que são jornalistas de péssima qualidade profissional, logo se vê que só ganharam o emprego porque são mulheres de grandes anunciantes da rede Bandeirantes, ou, então, primeiro ganharam depois perderam seus empregos, precisamente porque são mulheres de diretores das rede Globo.

Infelizmente, o único suposto “jornalista” que chegou perto de informar sobre essas relações sexo-afetivo-“jornalísticas” dentro das famiglias que controlam todo o “jornalismo” da empresas-imprensa no Brasil só denunciou o que todos os jornalistas sabem e não noticiam, porque tentava safar-se, no momento em que estava sendo acusado por outros crimes no Brasil; e vive hoje foragido. O seu nome e o de Merval Pereira apareceram citados nos telegramas diplomáticos divulgados por WikiLeaks como comensais frequentes da embaixada em Brasília e nos consulados no Rio de Janeiro e em São Paulo, dos EUA no Brasil. Mas o que aquele grande salafrário só denunciou porque se viu “apertado”, sobre relações carnais entre jornalismos e jornalistas e empresas-imprensa no Brasil (que se “aproximam do incesto”, como se lê no artigo acima), são, sim, informações altamente aproveitáveis para compreender melhor o “jornalismo” brasileiro. Infelizmente são informações que não são usadas na discussão para ajudar a redemocratizar o jornalismo brasileiro.

Aparentemente, ninguém quer estudar aquelas informações: nem os autoproclamados “críticos” das “comunicações”, nem as autoridades do governo brasileiro às quais cabe zelar pela qualidade da informação que chega aos cidadãos eleitores no Brasil.
_________________________

[*] Thorsten J. Pattberg é um escritor alemão, natural de North Rhine-Westphalia, linguista e crítico cultural. Escreveu e publicou extensivamente sobre a Linguagem global, a Concorrência para terminologias e o Fim da tradução.Ele também é ativo na promoção do confucionismo, em particular de terminologias chinesas, em uma escala global. Estudou na Universidade de Edimburgo, Universidade de Fudan, Universidade de Tóquio, e a Universidade de Harvard, e obteve seu doutorado no Instituto de Literatura na Universidade de Pequim. Foi orientado pelas estrelas-guia de Ji Xianlin, Gu Zhengkun, e Tu Weiming, a quem ele considera seus mestres espirituais.
Atualmente é professor visitante no Instituto de Estudos Avançados sobre a Ásia na Universidade de Tóquio; é um ex-pesquisador do Instituto de Estudos Avançados Humanísticos da Universidade de Pequim. É autor de quatro monografias: The East-West dichotomy, Shengren, Holy Confucius e Inside Peking University; alguns de seus artigos representativos são:Language hegemony – It's shengren, stupid!, Long into the West’s dragon business, China: Lost in Translation e The end of translation.
Pattberg tem contribuído para a Asia Times, China Daily, Global Times, Global Research, Corbett Report, China Hoje, Shanghai Daily, Die Zeit (Alemanha Times), Korea Herald, The Korea Times, Taipei Times, South China Morning Post, Sul Semanal, Diário do Povo, o diplomata, Dissident Voz, Thought Catalog, Big pensar, BRICS Magazine, RT Rússia, e The Japan Times, deu palestras públicas, e é membro de várias associações acadêmicas, como a Associação Internacional de Mitologia Comparada (IACM ), a Sociedade Alemã-Leste Asiático (OAG), e da Associação Internacional para o Estudo Comparativo da China e o Ocidente (IACSCW).
Anima os sítios:

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O fim da tradução


1/10/2012, Thorsten Pattberg, “Speaking Freely Blog”, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thorsten Pattberg
PEQUIM – Pouca gente parece perceber que, bem francamente, a Bíblia desestimula as pessoas a estudarem outras línguas. A história da Torre de Babel informa que há uma única humanidade (os filhos de Deus), mas “as línguas são confusas”. De uma perspectiva histórica europeia, isso sempre significou que, digamos, qualquer filósofo alemão sempre podia saber exatamente o que pensa o povo chinês; o único problema é que não entendia o que diziam. Então, em vez de buscar aprender a língua desconhecida, o filósofo encomendava uma tradução.

Por coincidência ou não, a História, com H maiúsculo, acompanhou a Bíblia. Ao tempo da nação alemã sob o Sacro Império Romano, quando os intelectuais alemães ainda falavam latim, o lógico alemão Christian Wolff pôs as mãos numa tradução latina de Clássicos de Confúcio. Sua reação teve de cômica o que teve de perturbadora: leu Kong Fu Zi ou K’ung-fu-tzu em Latim e concluiu alguma coisa como “Ótimo, a coisa soa-me bem familiar. Acho que entendi perfeitamente o tal de Confúcio!”.

Wolff ficou tão feliz com seus novos poderes mentais que passou a dar aulas sobre os chineses, como se fosse o rei da China. Seria brilhante, não fosse tão engraçado. Dentre suas obras inesquecíveis figuram coisas como “Os motivos dos chineses”, ou “O objetivo final dos chineses” e assim por diante.

E, claro, quando alguém vez ou outra perguntava ao máster por que jamais visitara a China, o maior sinólogo alemão de todos os tempos achava meios para valorizar ainda mais o seu grande triunfo intelectual. Respondia que “a sabedoria dos chineses nunca foi assim tão valiosa, que justificasse a viagem”.

Ficou assim estabelecido, entendo eu, que a “História” parou nesse Wolff, ou, no mínimo, cansou-se, de vez; ou tornou-se cínica demais. Wolff demonstrara satisfatoriamente que praticamente qualquer europeu podia converter-se em “especialista em China” mesmo sem saber sequer uma palavra em chinês.

O mesmo se aplicaria também a qualquer outra língua estrangeira. O suficiente para que o filósofo alemão Immanuel Kant pudesse, sem que ninguém se escandalizasse, anunciar “O fim de todas as coisas” [The End of All Things, 1794]; e Georg Hegel proclamasse o “fim da história”. Ambos homens letrados, sabiam muito bem que não dominavam qualquer idioma não europeu; resolveram então que, com a história, se passaria mais ou menos a mesma coisa.

Essa atitude no hemisfério ocidental não mudou. Resultado disso é que vivemos num mundo perfeitamente enlouquecido. A maioria dos intelectuais europeus e norte-americanos creem que os chineses “falam a nossa língua”. Diferente, só, que eles “conversam” em chinês.

Tome-se por exemplo o caso de “democracia” e “direitos humanos”. Não sei se alguém já pensou nisso, mas são palavras europeias, que absolutamente não existem em chinês. A China bem poderia retribuir a gentileza e exigir da Europa mais wenming [1] e tian ren he Yi. [2]

A atitude europeia reflete-se nas traduções europeias. A maioria dos ocidentais simplesmente converte os conceitos-chave chineses, para a terminologia bíblica ou filosófica mais conveniente. Resultado disso, os modernos estados-nação, como a Alemanha em 2012, são virtualmente vedados, à prova de China.

A tradução, é claro, é velho hábito da humanidade. O que não significa que não se deva questioná-lo. Sempre foi hábito da humanidade cortar os oponentes em pedaços, nas batalhas. Nem por isso continuamos o fatiamento (exceto no Afeganistão e no Iraque). Por que insistimos ainda em destruir o vocabulário que nos chegue de idiomas estrangeiros? Bem, acho que fazemos assim, em primeiro lugar, por motivos sociológios.

Na Alemanha, censuram-se sempre todos os termos significativos que apareçam em idioma estrangeiro. O povo alemão, assim, é levado a crer que só os alemães sabem tudo que é preciso saber no mundo e – metaforicamente falando – age como se soubesse. Esse é o motivo pelo qual a Alemanha produziu tantos “historiadores” e “filósofos” como Georg Hegel, Max Weber ou Karl Marx. Os intelectuais alemães chamam a isso deutungshoheit – que significa “plena soberania para definir o pensamento”.

Talvez soe deprimente, mas é a verdade e tem de ser dita: o ocidente sabe muito pouco sobre a China, e a China cultural jamais é apresentada como verdadeiro fenômeno global. Nem uma mínima porcentagem dos europeus letrados, pelas minhas contas, sabe o que é ruxue, ou um junzi ou shengren. E são alguns dos mais importantes conceitos chineses de todos os tempos.

Dito de outro modo: alguém aí algum dia pensou por que há tantos “filósofos” e “santos” pelo mundo, mas jamais houve um único shengren ou buddha no ocidente? Pensem bem: qual a probabilidade de que surja algum? Quem é o autor da versão de “História” que nos ensinam? O ocidente é presa e vítima e, no momento em que escrevo, está sendo sangrado pela própria noção de originalidade sociocultural.

Frequentemente sinto-me embaraçado, envergonhado, ao ver professores asiáticos (que obtiveram suas “qualificações” no ocidente) e que inauguram novos departamentos de “filosofia chinesa” ou “religião chinesa” na China, quase sempre zombando de empresários, missionários ou agências ocidentais de ajuda humanitária.

“Filosofia” é conceito greco-helênico apropriado pela tradução judaico-cristã. Rujiao, Fojiao, and Daojiao são jiao, ensinamentos. E “religião” só há uma: a concepção ocidental de religião. Vivemos no ano 2012 de Nosso Senhor Jesus Cristo. A chamada “liberdade de religião” tem de ser entendida como: “nesse mundo cristão, todos podem crer no que quiserem”. A China é pressuposta evangelizada, precisamente porque “todas as religiões chinesas” seguem a taxonomia judaico-cristã.

A China não é caso isolado. A Índia também, aos poucos, se vai dando conta de que há alguma coisa estranha no ar. A tradição sânscrito-indu inventou dezenas de milhares de conceitos não europeus que estão sendo simplesmente impedidos de entrar na História, por ação da mídia e da universidade ocidentais. Como se bilhões de chineses e indianos, ao longo de 3.000 anos, jamais tivessem inventado coisa alguma – como se lá tivessem ficado, só à espera de verem sua criatividade e sua propriedade intelectual serem roubadas, assaltadas.

Comentaristas ocidentais têm-me respondido, argumentando que precisamos de uma “linguagem global” – e que o inglês seria hoje candidato preferencial ao posto. Costumo responder: “Não sejam doidos! É exatamente o que fizeram os alemães! Hoje, vêm os anglo-saxões, que fecham os livros de história “deles” e declaram “vocês estão decifrados, já conhecemos vocês.”

Não. A verdadeira “linguagem global” será radicalmente diferente do inglês contemporâneo, ou não será nem linguagem, nem global. Terá de incorporar a originalidade de dezenas de milhares de palavras que outros idiomas têm a acrescentar ao patrimônio comum de toda a humanidade.

Qualquer aluno de idiomas ou de tradutologia experimenta, de tempos em tempos, uma espécie de profunda convicção, brotada do subconsciente, de que algo se perdeu na tradução, sempre, em todos os casos. Mas todos temos medo de deixar avançar nossa intuição.

É provável que haja uma espécie de vício na história da Torre de Babel – vício monstruoso, assustador. E se as línguas humanas absolutamente não estiverem confundidas e misturadas? E se aconteceu apenas que nenhum grupo de seres humanos foi jamais suficiente, em número, para explorar todas as possibilidades de todas as línguas humanas? E se os chineses já tiverem inventado conceitos – aos quais chamaram daxue, datong, wenming, tian ren he Yi e tantos outros – sobre os quais nenhum norte-americano tem ideia alguma, exatamente como – e, nisso, acho que todos concordamos – o ocidente sempre fez?

Diz-se sempre que a língua é a chave para entender a cultura e as tradições chinesas. O problema é: que língua?
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Tradução de alguns  COMENTÁRIOS

Abhishek Singh
Excelente artigo. Muitos conceitos indianos, como dharma, maya, mithya são sempre mal traduzidos. Por exemplo, “jagat mithya hai” é traduzido por “o mundo é irreal”, quando, de fato, deveria ser traduzido por “o mundo está sempre mudando”. A confusão começa quando indianos letrados que nada sabem sobre a própria cultura aceitam a tradução errada. Historiadores ocidentais pintam a filosofia indiana como coisa de gente espiritualizada, sem qualquer ambição pelo ganho material. Quem dera fosse! Ninguém entende a diferença entre sat, asat e mithya. Desculpe o comentário longo demais, mas esse artigo mexeu comigo.
“Sat” = constante, duradouro.
“asat” = falso, não existente.
“mithya” = o que antes não era mas agora é mas não permanecerá, i.e, está sempre mudando.

Finn McMillan · University of South Australia
Excelente comentário, Abhishek. Tendo a pensar que o próprio conceito de “religião” no ocidente tende a ser mal entendido e gera confusão, simplesmente porque traduzimos mal os textos das “grandes religiões” – escritos em sânscrito, pali, chinês, árabe, aramaico, etc. Você fala de dharma. Pode-se falar também do conceito budista de dukkha – conceito fundacional, em vários sentidos, do budismo – traduzido como “sofrimento”, quando há muitos outros modos, mais nuançados, de traduzi-lo.

Klaus Lee · Hong Kong Technical College
Artigo muito interessante. Lembrei que a palavra chinesa zongjiao (traduzido por “religião”) significa, de fato, “diferentes modos de ensinar”, o que está em direta contradição com a ideia cristã de “só há um Deus”. Assim, quando um cristão chinês refere-se às próprias crenças como zongjiao, melhor faria se parasse e pensasse: “mas, afinal, o que estou dizendo?!”

Gina Chang · Vancouver, British Columbia
Por isso mesmo, muitos cristãos chineses [oh! Eu também ;-)] nunca falamos do Cristianismo como “religião”.

Finn McMillan · University of South Australia
Excelente artigo. A “tradução” de conceitos chineses em falas ocidentais é sempre um risco de potencial tragicomédia. Basta ler as muitas traduções deDao De Jing ou de Yi Jing [em português, “Livro das Mutações”, I Ching] para constatar as muitas absolutas diferenças de terminologia e de conceitos.



Notas dos tradutores

[1] Em artigo intitulado “Traduções ocidentais distorcem a realidade na China” (1/5/2012, Korea Herald), Thorsten Pattberg discute o uso da palavra “civilização” como tradução do chinês wenming: “Wenming é em geral traduzido como “civilização”, mas há aí distorções graves. Em conferência recente na Universidade de Pequim (Civilization Cessation, Wenming Winning?) , o renomado linguista Gu Zhengkun explicou que wenming implica alto padrão ético e extrema gentileza; enquanto a palavra civilization [ing. “civilização”] designa o controle que o povo de uma cidade tenha sobre materiais e tecnologia, algo como a capacidade para construir mísseis e obras arquitetônicas.

[2] Segundo o professor Ji Xianlin, em “Harmony of Man with Nature”, cada um dos quatro caracteres chineses em tian ren he Yi simbolizam respectivamente “natureza”, “seres humanos”, “compreensão mútua” e “amizade”. Juntos, significam a consciência de que os seres humanos são parte (e pequena) do mundo, conectados ao mundo. É um conceito arraigado na cultura chinesa. Por exemplo, o aparelho tradicional de chá é composto sempre de três itens: o bule tampado, a xícara e a bandeja, simbolizando o céu, as pessoas e a terra.