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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Snowden: Rugir pode dar dor de garganta

1/10/2013, [*] MK Bhadrakumar, Rediff blogs – Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Estação de espionagem da NSA em Bad Aibling, Sul de Munique, Alemenha
O jornal Russia Today, rede mantida pelo governo russo, com sede em Moscou, publicou uma coluna de sátira mordente [1] contra o modo suave como New Delhi respondeu, até agora, ao affair Edward Snowden. A coluna aparece assinada por autor indiano e RT, é claro, dirá que nada tem a ver com a opinião assinada de seus colunistas. Mas, dada a cultura midiática na Rússia, é interessante que a coluna apareça num poderoso órgão de mídia, ao qual o presidente Vladimir Putin vive a dar entrevistas exclusivas.

Vladimir Putin
O principal argumento do colunista é que faltou coragem política à Índia para dar nomes aos bois. É argumento virtuoso, no plano moral.

Mas... considere-se o assunto, de um outro ponto de vista. De modo geral, a liderança indiana assumiu, sobre a saga Snowden, uma posição que não difere, no fundo, da posição de Putin sobre o mesmo caso — a saber, que nada que seja absoluta novidade, no que Snowden divulgou para a opinião pública.

Em recente entrevista à Associated Press, Putin falou em tom de quase pouco caso sobre Snowden, como “sujeito estranho”, espantado demais ante os fatos, para que o Kremlin se interesse muito por ele.

Dilma Rousseff
Como a Rússia, a Índia também parece manifestar visão realista sobre o “Informante sem Fronteiras”. Nos dois casos, são políticos pragmáticos, que não se deixam levar por emoções nuas e cruas. Além disso, nem o primeiro-ministro indiano,  Manmohan Singh, nem Putin tem sobre os ombros a tradição de um passado revolucionário, e não se deixam tomar pela compulsão, como no caso da presidenta Dilma Rousseff do Brasil, para “rugir”.

Xi Jinping da China alinhar-se-ia com Manmohan Singh e Putin, no modo pós-moderno de reagir a espionagens e bisbilhotices, vendo-as como práticas ancestrais, que se devem esperar que continuem, enquanto a natureza humana for o que é e o sistema de Westphalia não se esgotar e der lugar a um sistema genuíno de governança global.

Xi Jinping e Manmohan Sing
O problema de rugir é que pode dar dor de garganta. É o que pode acontecer a Rousseff se persistir nos rugidos, até que não lhe reste outro remédio além de gargarejos de salmoura e um voto de silêncio até que recupere a voz. A vantagem de miar é que atrai os sentidos do ouvinte e o gato assegura melhor chance para chegar ao prato e lamber o leite. Bem feitas as contas, e considerado o longo prazo, a Índia não parece ter errado muito.
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Nota dos tradutores
[1] “Revelações de Snowden: Índia mia, Brasil ruge” (orig. Snowden fallout: India’s meow, Brazil’s roar”, Sreeram Chaulia, Russia Today, 29/9/2013).
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Os EUA não ultrapassarão os BRICS

Comentário entreouvido na Ponta do Prego (na Vila Vudu): Mostra esta tradução Dona Míriam Leitão, a Urubóloga, e óóóótimos gráficos prô Sardenberg mostrar no jornal (?) da globo [gargalhada (respira) gargalhada].


9/5/2013, Mark Adomanis, The BRICS Post
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ruchir Sharma
Ruchir Sharma, autor de “Broken BRICs”, que a revista Foreign Affairs não se cansa de citar e elogiar e, portanto, a imprensa-empresa no Brasil só faz repetir e papaguear até quando finge que “critica” [1], escreveu, em resumo, que:

A China só conseguiu criar uma classe média confortável e dependente demais da construção de novas estradas e fábricas, e não conseguirá crescer em ritmo de dois dígitos. A extrema dependência russa, de petróleo e gás, produziu uma classe de petromagnatas que converteu Moscou em capital da decadência, que faz lembrar os últimos dias da Roma Antiga. O Brasil tem tanto medo da volta da volatilidade econômica dos anos 1980s e 90s [anos negros dos governos da tucanaria Chicago-Sorbonne-uspeana], que se dedica quase exclusivamente a proteger as pessoas do sofrimento econômico, produzindo um dos mais fracos crescimentos dentre os mercados emergentes. A Índia, que chegou a ser propagandeada como a próxima China, já cedeu ao crescimento lento no ano passado, mas é difícil estimar as possibilidades reais, nesse caso, por causa da fragmentação em uma coleção e economias estaduais.

Mark Adomanis
Na medida em que se considere que Sharma opera a partir da extrapolação direta de tendências lineares (se a China cresceu 10% durante os anos 2000s, “então” continuará a crescer 10% eternamente) seu argumento é aproveitável.

Escrevi sobre a demografia russa, e argumentava ali, com dados, para demonstrar que a projeção linear é extremamente problemática e que os analistas têm de incorporar dados e observações novas em suas análises ou suas teorias vão-se separando da realidade. Aconteceu com as “teorias” da despopulação constante da Rússia, com consequente declínio da economia do país; e pode-se dizer que aconteceu também com algumas “teorias” da ascensão dos BRICS, como se pudesse acontecer sem problema algum.

Mas Sharma parece argumentar contra um espantalho de palha, argumento que não encontrou eco nem entre os mais empenhados catastrofistas, pregadores da falência dos BRICS. Não tenho notícia de ninguém, mesmo entre os mais furiosos “declinistas”, que tenha sugerido que a história seguiria para sempre, exatamente como andou durante os anos 2000s e que o crescimento meteórico dos BRICS naquela década seguiria eternamente. De fato, se se ouvem os pronunciamentos dos ministros dos BRICS, sobretudo os ministros de Finanças e Comércio, nenhum soa arrogante ou autossuficiente: soam, sim, contidos, modestos, focados na solução de problemas, os quais, é claro, para eles, não são poucos.

A questão da crescente importância dos BRICS é muitíssimo mais sutil que a história que Sharma opera para desqualificar. Como sempre, injetar uma boa dose de dados atualizados ajuda a discutir com clareza. Abaixo, vê-se um gráfico que mostra como se comportou a paridade do poder de compra do PIB (ajustado) dos EUA e dos BRICS desde 2000, e a parte que lhes corresponde, respectivamente, da economia mundial. Para construir esses gráficos, usei dados do Banco Mundial de 2000-2011, números consensuais de crescimento para 2012, e previsões conservadoras, baseadas, bem de perto, em projeções do FMI para 2013. 

A evidência de que os EUA já foram ultrapassados pelos países BRICS chega a ser, como se vê, espantosa:




Naquele excerto de seu livro, e em escritos mais alentados sobre mercados emergentes, Sharma escreve sobre a possibilidade de os países BRICS ultrapassarem os EUA como se fosse uma espécie de sonho irrealizável: coisa que só aconteceria em algum futuro, se algumas tendências se mantivessem e se Brasil, Rússia, Índia e China, que formam o grupo, continuassem a “ter sorte”. Mas, como entendo que esses gráficos deixam bem claro, os BRICS já suplantaram os EUA em termos do tamanho de suas economias, e todas as previsões racionais razoáveis fazem crer que assim continuará, no futuro que se pode antever. Em larga medida, Sharma combate uma batalha que os EUA já perderam. 


E, em termos futuros, é difícil ver como os EUA podem esperar recuperar a vastíssima diferença de terreno que já perderam para os países BRICS. Até a mais tímida e pessimista previsão de crescimento de médio prazo de China e Índia as põem com crescimento de cerca de 5% para a próxima década, e há previsões ainda mais otimistas. Apesar de haver evidente desaceleração, se se consideram as taxas estratosféricas de crescimento dos anos 2000, e por mais que Sharma tome essa desaceleração como sinal de calamidade próxima, vale a pena ter em mente que qualquer crescimento de 5% já é crescimento muito mais rápido do que qualquer coisa que os EUA sejam capazes de obter hoje ou possam sonhar. Só para comparar, 2000 foi o último ano em que o PIB dos EUA cresceu em torno de 4% ou mais (o segundo melhor número foi os 3,5% de 2004, mas, em retrospecto, aconteceu durante o auge da bolha imobiliária, absolutamente ensandecida e insustentável).

Observado no longo prazo (50 anos), a queda do PIB dos EUA é espantosa:


O PIB dos EUA está desacelerado há várias décadas, em meio a uma variedade de situações externas e ao longo de governos Democratas e Republicanos, sem diferença. Além disso, a recuperação depois da crise econômica de 2008-09, a qual, só ela, já gerou recessões muito mais agudas que em momentos anteriores, foi e está sendo muito mais lenta do que se viu em experiências passadas. Na medida em que se pode confiar em projeções, o crescimento do PIB dos EUA permanecerá em torno de 2% ao longo de todo o período 2011-13: é crescimento até decente, se comparado ao europeu, mas muitíssimo lento, se comparado ao crescimento dos países BRICS.

Sugiro outro modo de analisar tudo isso. No período 2000-2012, os EUA conseguiram superar o PIOR desempenho dentre os BRICS, mas só em três momentos: do Brasil, em 2003 e 2012, e da Rússia, em 2009. Em todos os demais anos, ao longo de mais de uma década, o desempenho da economia dos EUA foi pior que o de todos os BRICS.

É repetir clichês dizer que o desempenho passado é o melhor elemento para prever desempenho futuro, mas, se se considera o quadro histórico da economia dos EUA, é impossível não ver bem claramente o crescimento declinante. É possível que essa tendência inalterada ao longo de décadas, que persiste apesar das mais variadas políticas macroeconômicas e comerciais tentadas, nos mais diferentes ambientes externos, seja revertida, como Sharma sugere, repentinamente, mediante o uso do gás de xisto, mais barato. Energia barata, afinal, sempre é melhor que energia cara, e energia doméstica barata é, de todas, a melhor possibilidade.

Porém, “resolver” os problemas da economia dos EUA com energia barata só será possível se todos os problemas atuais fossem realmente provocados só pela energia cara. O consenso entre muitos é que assim se resolve uma inconveniência menor e secundária, não o grande desastre em curso. Como se vê, se se analisa qualquer gráfico dos preços do petróleo, há mínima, e talvez não haja nenhuma, relação causal entre os preços das commodities e o crescimento da economia dos EUA: houve anos de energia barata e crescimento fraco; anos de energia cara e crescimento robusto; e anos em que os dois indicadores andam de lado.

Claro que o acesso pleno a energia abundante não causará dano à economia dos EUA, e espero que o impacto geral será moderadamente estimulante. Mas as raízes do declínio econômico dos EUA, incluído aí o encolhimento da classe média, a concentração de riqueza em círculos cada vez menores, o aumento do endividamento dos universitários, a superdependência do endividamento dos consumidores, são fatores muito mais profundos que o alto preço do gás natural, e não é possível “tratá-los” com fracking, assim como um câncer agressivo não pode ser “tratado” com antibióticos. A correção dos problemas que estão limitando o crescimento dos EUA exigirá concessões, projeto claro e razoável e visão de futuro, precisamente os elementos que hoje faltam completamente no Congresso. O que se tem de prever, como quase inevitável, é que os EUA continuarão a debater-se entre uma crise autoinfligida e outra, como a que está acontecendo desde que Obama foi eleito.

Os EUA continuarão país extremamente rico e poderoso, e “declinarão” em sentido relativo, não em sentido absoluto. Mas declínio relativo também é declínio, e, por esse padrão, o declínio dos EUA já é notável e chama a atenção, porque, principalmente, os EUA já perderam grande fatia de sua parte do PIB mundial. Isso já aconteceu. Há triunfalistas dos mercados emergentes que se excedem, na promoção dos BRICS e há os que subestimam as dificuldades inerentes ao governo e à administração desses países-gigantes.

Mas, se se examinam as evidências, se se olham os dados do crescimento do PIB, é difícil manter a esperança de que os EUA consigam ser bem-sucedidos. E vê-se, bem facilmente, como os mesmos problemas que acossam os EUA ao longo dos últimos 13 anos continuam e, pelo visto, continuarão a acossá-los.


Nota dos tradutores
[1]  Elio Gaspari: “criticou”, mas com rara doçura, crítica doce que a revista (não)Veja reproduziu, porque, afinal, as besteiras do cara deram MUITA bandeira. As gentilezas pretensamente “críticas” estão no blog do Ricardo Setti, em matéria típica do jornalismo brasileiro – que é o pior do mundo – e existe, sobretudo, para jornalista do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) promover jornalista do mesmo Grupo GAFE. Ah! E nem esse blog da Veja, nem o Estadão publicam OS GRÁFICOS acima [risos, risos].

terça-feira, 26 de março de 2013

Os BRICS e a questão síria


25/3/2013, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Encontro dos BRICS em Durban, África do Sul em 26/27 de março de 2013

O encontro dos BRICS em Durban prossegue, e ouvem-se os tambores da guerra pela Síria, cada vez mais próximos, dia a dia.

A reconciliação, na 6ª-feira que o Presidente Obama dos EUA costurou entre Turquia e Israel foi premontada em cenário dramático, na pista do aeroporto Ben Gurion próximo de Telavive, num trailer, quando Obama já partia, depois de concluída a visita a Israel. Foi preparada como espetáculo para a Região: para fazer crer que os EUA estão mudando de marcha para atacar a questão síria.

Dois dias antes, no domingo, veio a grave acusação, feita pelo poderoso presidente da Comissão de Inteligência do Senado e destacado Republicano, Mike Rogers, de que “acumulam-se evidências” de que o regime sírio já ultrapassou “completamente” a chamada “linha vermelha” que Obama fixou, sobre deslocamento e uso de armas químicas, pelas forças do governo sírio.

Tudo parece bem orquestrado. Na véspera, Obama anunciara em Jerusalém que qualquer uso de armas químicas pelas forças sírias seria fator para “mudança no jogo”. Agora, Obama tem o argumento perfeito para intervir militarmente na Síria.

CIA - Central Intelligence Agency Headquarters
Simultaneamente, o New York Times noticiou que a CIA já está metida até o pescoço no conflito sírio com tudo preparado para expandir suas operações clandestinas.

E Israel, por sua vez, já testa as defesas sírias nas colinas do Golan. O Ministro da Defesa israelense, Moshe Yaalon, alegou “ataque à soberania”, pela Síria. E tudo, na sequência imediata da visita de Obama a Israel e à Jordânia.

Ahmed Moaz al-Khatib
O mais revelador é a reestruturação na liderança da Coalizão das Oposições na Síria. No final da semana, Ahmed Moaz al-Khatib renunciou à presidência da coalizão. Khatib estava com viagem marcada a Moscou, para conversações.

Evidentemente, alguém ficou aflito com a possibilidade de Khatib ser persuadido pelos russos a dar uma chance ao diálogo nacional interno, na Síria.

Ghassan Hitto
Bingo! Um novo Primeiro-Ministro para a oposição síria surgiu repentinamente, do nada, no fim de semana, um sírio-norte-americano, profissional de Tecnologias da Informação, com base nos EUA: Ghassan Hitto.

Hitto tem sido vagamente apresentado como caixeiro-viajante a serviço da Fraternidade Muçulmana, mas o Embaixador dos EUA na Síria, Robert Ford, já apareceu citado pela Agência France Press, dizendo, simploriamente, que “ele é mais texano que da Fraternidade Muçulmana”.

De fato, não faz diferença que Hitto seja norte-americano ou Irmão. Mohamed Mursi do Egito é mais ou menos da mesma espécie. E os EUA estão bastante satisfeitos com o desempenho dos Irmãos até aqui, no Egito; e parecem bem interessados em ter mais regimes comandados pelos Irmãos no Oriente Médio Muçulmano. O Qatar e a Turquia não teriam o que objetar. 

Robert Ford
Sem dúvida alguma, o plano do jogo é estruturar um “governo no exílio” para a Síria firmemente controlado pelos EUA, antes de começar a intervenção militar de destruição total, ao estilo do que foi feito na Líbia, dessa vez na Síria. Nada de repetir as tolices que George W. Bush cometeu antes de partir para destruir o Iraque. Obama é gelado, cerebral e meticuloso, quando se trata de planejar eventos de tipo bélico.

Obama fará com que esses tumultos de mudança de regime agitem Damasco, quando os iranianos estiverem focados na eleição presidencial de junho, e a crucial formação de novo governo em Teerã (que jamais é fácil, dada as muitas divisões que cortam a política dos xiitas) estiver em curso. Obama foi a Israel e a Jordânia especificamente para organizar a guerra contra Síria e Irã, nada mais, nada menos.

No domingo, Obama despachou o Secretário de Estado, John Kerry, para Bagdá, em visita surpresa, para ler os mandamentos ao Primeiro-Ministro Nouri al-Maliki e fazê-lo pôr fim aos voos sobre território iraquiano, até a Síria. Apertem os cintos. Turbulências pela frente.

Encontro dos BRICS em Durban - 26 e 27 de março de 2013
Mas, voltando aos BRICS: essa reunião em Durban será crucial, como marco do desenvolvimento do grupo. Pelo sim, pelo não, Tio Sam está de olho no que os estadistas dos BRICS fazem em Durban.

Interessante: o Brookings Doha Centre, think-tank que opera nos EUA e no Qatar, conclamou abertamente os BRICS para um motim! Querem que os presidentes de África do Sul, Brasil e Índia metam a coleira em Rússia e China, na questão síria

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MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O fim da tradução


1/10/2012, Thorsten Pattberg, “Speaking Freely Blog”, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thorsten Pattberg
PEQUIM – Pouca gente parece perceber que, bem francamente, a Bíblia desestimula as pessoas a estudarem outras línguas. A história da Torre de Babel informa que há uma única humanidade (os filhos de Deus), mas “as línguas são confusas”. De uma perspectiva histórica europeia, isso sempre significou que, digamos, qualquer filósofo alemão sempre podia saber exatamente o que pensa o povo chinês; o único problema é que não entendia o que diziam. Então, em vez de buscar aprender a língua desconhecida, o filósofo encomendava uma tradução.

Por coincidência ou não, a História, com H maiúsculo, acompanhou a Bíblia. Ao tempo da nação alemã sob o Sacro Império Romano, quando os intelectuais alemães ainda falavam latim, o lógico alemão Christian Wolff pôs as mãos numa tradução latina de Clássicos de Confúcio. Sua reação teve de cômica o que teve de perturbadora: leu Kong Fu Zi ou K’ung-fu-tzu em Latim e concluiu alguma coisa como “Ótimo, a coisa soa-me bem familiar. Acho que entendi perfeitamente o tal de Confúcio!”.

Wolff ficou tão feliz com seus novos poderes mentais que passou a dar aulas sobre os chineses, como se fosse o rei da China. Seria brilhante, não fosse tão engraçado. Dentre suas obras inesquecíveis figuram coisas como “Os motivos dos chineses”, ou “O objetivo final dos chineses” e assim por diante.

E, claro, quando alguém vez ou outra perguntava ao máster por que jamais visitara a China, o maior sinólogo alemão de todos os tempos achava meios para valorizar ainda mais o seu grande triunfo intelectual. Respondia que “a sabedoria dos chineses nunca foi assim tão valiosa, que justificasse a viagem”.

Ficou assim estabelecido, entendo eu, que a “História” parou nesse Wolff, ou, no mínimo, cansou-se, de vez; ou tornou-se cínica demais. Wolff demonstrara satisfatoriamente que praticamente qualquer europeu podia converter-se em “especialista em China” mesmo sem saber sequer uma palavra em chinês.

O mesmo se aplicaria também a qualquer outra língua estrangeira. O suficiente para que o filósofo alemão Immanuel Kant pudesse, sem que ninguém se escandalizasse, anunciar “O fim de todas as coisas” [The End of All Things, 1794]; e Georg Hegel proclamasse o “fim da história”. Ambos homens letrados, sabiam muito bem que não dominavam qualquer idioma não europeu; resolveram então que, com a história, se passaria mais ou menos a mesma coisa.

Essa atitude no hemisfério ocidental não mudou. Resultado disso é que vivemos num mundo perfeitamente enlouquecido. A maioria dos intelectuais europeus e norte-americanos creem que os chineses “falam a nossa língua”. Diferente, só, que eles “conversam” em chinês.

Tome-se por exemplo o caso de “democracia” e “direitos humanos”. Não sei se alguém já pensou nisso, mas são palavras europeias, que absolutamente não existem em chinês. A China bem poderia retribuir a gentileza e exigir da Europa mais wenming [1] e tian ren he Yi. [2]

A atitude europeia reflete-se nas traduções europeias. A maioria dos ocidentais simplesmente converte os conceitos-chave chineses, para a terminologia bíblica ou filosófica mais conveniente. Resultado disso, os modernos estados-nação, como a Alemanha em 2012, são virtualmente vedados, à prova de China.

A tradução, é claro, é velho hábito da humanidade. O que não significa que não se deva questioná-lo. Sempre foi hábito da humanidade cortar os oponentes em pedaços, nas batalhas. Nem por isso continuamos o fatiamento (exceto no Afeganistão e no Iraque). Por que insistimos ainda em destruir o vocabulário que nos chegue de idiomas estrangeiros? Bem, acho que fazemos assim, em primeiro lugar, por motivos sociológios.

Na Alemanha, censuram-se sempre todos os termos significativos que apareçam em idioma estrangeiro. O povo alemão, assim, é levado a crer que só os alemães sabem tudo que é preciso saber no mundo e – metaforicamente falando – age como se soubesse. Esse é o motivo pelo qual a Alemanha produziu tantos “historiadores” e “filósofos” como Georg Hegel, Max Weber ou Karl Marx. Os intelectuais alemães chamam a isso deutungshoheit – que significa “plena soberania para definir o pensamento”.

Talvez soe deprimente, mas é a verdade e tem de ser dita: o ocidente sabe muito pouco sobre a China, e a China cultural jamais é apresentada como verdadeiro fenômeno global. Nem uma mínima porcentagem dos europeus letrados, pelas minhas contas, sabe o que é ruxue, ou um junzi ou shengren. E são alguns dos mais importantes conceitos chineses de todos os tempos.

Dito de outro modo: alguém aí algum dia pensou por que há tantos “filósofos” e “santos” pelo mundo, mas jamais houve um único shengren ou buddha no ocidente? Pensem bem: qual a probabilidade de que surja algum? Quem é o autor da versão de “História” que nos ensinam? O ocidente é presa e vítima e, no momento em que escrevo, está sendo sangrado pela própria noção de originalidade sociocultural.

Frequentemente sinto-me embaraçado, envergonhado, ao ver professores asiáticos (que obtiveram suas “qualificações” no ocidente) e que inauguram novos departamentos de “filosofia chinesa” ou “religião chinesa” na China, quase sempre zombando de empresários, missionários ou agências ocidentais de ajuda humanitária.

“Filosofia” é conceito greco-helênico apropriado pela tradução judaico-cristã. Rujiao, Fojiao, and Daojiao são jiao, ensinamentos. E “religião” só há uma: a concepção ocidental de religião. Vivemos no ano 2012 de Nosso Senhor Jesus Cristo. A chamada “liberdade de religião” tem de ser entendida como: “nesse mundo cristão, todos podem crer no que quiserem”. A China é pressuposta evangelizada, precisamente porque “todas as religiões chinesas” seguem a taxonomia judaico-cristã.

A China não é caso isolado. A Índia também, aos poucos, se vai dando conta de que há alguma coisa estranha no ar. A tradição sânscrito-indu inventou dezenas de milhares de conceitos não europeus que estão sendo simplesmente impedidos de entrar na História, por ação da mídia e da universidade ocidentais. Como se bilhões de chineses e indianos, ao longo de 3.000 anos, jamais tivessem inventado coisa alguma – como se lá tivessem ficado, só à espera de verem sua criatividade e sua propriedade intelectual serem roubadas, assaltadas.

Comentaristas ocidentais têm-me respondido, argumentando que precisamos de uma “linguagem global” – e que o inglês seria hoje candidato preferencial ao posto. Costumo responder: “Não sejam doidos! É exatamente o que fizeram os alemães! Hoje, vêm os anglo-saxões, que fecham os livros de história “deles” e declaram “vocês estão decifrados, já conhecemos vocês.”

Não. A verdadeira “linguagem global” será radicalmente diferente do inglês contemporâneo, ou não será nem linguagem, nem global. Terá de incorporar a originalidade de dezenas de milhares de palavras que outros idiomas têm a acrescentar ao patrimônio comum de toda a humanidade.

Qualquer aluno de idiomas ou de tradutologia experimenta, de tempos em tempos, uma espécie de profunda convicção, brotada do subconsciente, de que algo se perdeu na tradução, sempre, em todos os casos. Mas todos temos medo de deixar avançar nossa intuição.

É provável que haja uma espécie de vício na história da Torre de Babel – vício monstruoso, assustador. E se as línguas humanas absolutamente não estiverem confundidas e misturadas? E se aconteceu apenas que nenhum grupo de seres humanos foi jamais suficiente, em número, para explorar todas as possibilidades de todas as línguas humanas? E se os chineses já tiverem inventado conceitos – aos quais chamaram daxue, datong, wenming, tian ren he Yi e tantos outros – sobre os quais nenhum norte-americano tem ideia alguma, exatamente como – e, nisso, acho que todos concordamos – o ocidente sempre fez?

Diz-se sempre que a língua é a chave para entender a cultura e as tradições chinesas. O problema é: que língua?
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Tradução de alguns  COMENTÁRIOS

Abhishek Singh
Excelente artigo. Muitos conceitos indianos, como dharma, maya, mithya são sempre mal traduzidos. Por exemplo, “jagat mithya hai” é traduzido por “o mundo é irreal”, quando, de fato, deveria ser traduzido por “o mundo está sempre mudando”. A confusão começa quando indianos letrados que nada sabem sobre a própria cultura aceitam a tradução errada. Historiadores ocidentais pintam a filosofia indiana como coisa de gente espiritualizada, sem qualquer ambição pelo ganho material. Quem dera fosse! Ninguém entende a diferença entre sat, asat e mithya. Desculpe o comentário longo demais, mas esse artigo mexeu comigo.
Sat” = constante, duradouro.
“asat” = falso, não existente.
“mithya” = o que antes não era mas agora é mas não permanecerá, i.e, está sempre mudando.

Finn McMillan · University of South Australia
Excelente comentário, Abhishek. Tendo a pensar que o próprio conceito de “religião” no ocidente tende a ser mal entendido e gera confusão, simplesmente porque traduzimos mal os textos das “grandes religiões” – escritos em sânscrito, pali, chinês, árabe, aramaico, etc. Você fala de dharma. Pode-se falar também do conceito budista de dukkha – conceito fundacional, em vários sentidos, do budismo – traduzido como “sofrimento”, quando há muitos outros modos, mais nuançados, de traduzi-lo.

Klaus Lee · Hong Kong Technical College
Artigo muito interessante. Lembrei que a palavra chinesa zongjiao (traduzido por “religião”) significa, de fato, “diferentes modos de ensinar”, o que está em direta contradição com a ideia cristã de “só há um Deus”. Assim, quando um cristão chinês refere-se às próprias crenças como zongjiao, melhor faria se parasse e pensasse: “mas, afinal, o que estou dizendo?!”

Gina Chang · Vancouver, British Columbia
Por isso mesmo, muitos cristãos chineses [oh! Eu também ;-)] nunca falamos do Cristianismo como “religião”.

Finn McMillan · University of South Australia
Excelente artigo. A “tradução” de conceitos chineses em falas ocidentais é sempre um risco de potencial tragicomédia. Basta ler as muitas traduções deDao De Jing ou de Yi Jing [em português, “Livro das Mutações”, I Ching] para constatar as muitas absolutas diferenças de terminologia e de conceitos.



Notas dos tradutores

[1] Em artigo intitulado “Traduções ocidentais distorcem a realidade na China” (1/5/2012, Korea Herald), Thorsten Pattberg discute o uso da palavra “civilização” como tradução do chinês wenming: “Wenming é em geral traduzido como “civilização”, mas há aí distorções graves. Em conferência recente na Universidade de Pequim (Civilization Cessation, Wenming Winning?) , o renomado linguista Gu Zhengkun explicou que wenming implica alto padrão ético e extrema gentileza; enquanto a palavra civilization [ing. “civilização”] designa o controle que o povo de uma cidade tenha sobre materiais e tecnologia, algo como a capacidade para construir mísseis e obras arquitetônicas.

[2] Segundo o professor Ji Xianlin, em Harmony of Man with Nature, cada um dos quatro caracteres chineses em tian ren he Yi simbolizam respectivamente “natureza”, “seres humanos”, “compreensão mútua” e “amizade”. Juntos, significam a consciência de que os seres humanos são parte (e pequena) do mundo, conectados ao mundo. É um conceito arraigado na cultura chinesa. Por exemplo, o aparelho tradicional de chá é composto sempre de três itens: o bule tampado, a xícara e a bandeja, simbolizando o céu, as pessoas e a terra.