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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Talibã festeja com curry de bode e arroz

4/6/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoa da Vila Vudu

Ler também:
4/6/2014, Patrick Cockburn, ICH, redecastorphoto em: “Revelações de Bowe Bergdahl: E-mails mostram extensão do fracasso dos EUA no Afeganistão”.

Bode assado com arroz ao curry, prato típico do Afeganistão
O chefe Talibã, Mullah Omar, está coberto de razão, ao declarar uma “grande vitória” a troca de Prisioneiros de Guerra com os EUA. Muitos bodes foram carneados, e a tradicional ceia celebratória está sendo servida, nos vales e vilas de montanhas do Hindu Kush — curry de bode e arroz.

Fato é que os Talibã venceram em quatro diferentes modalidades:

Uma: não importa o que seja dito contra eles, os Talibã foram reconhecidos pela comunidade internacional. Pode ser pouco reconhecimento, mas reconhecimento é reconhecimento, e quando alguém é reconhecido, o reconhecimento tende a aumentar.

Duas: é imenso reforço na moral do movimento Talibã como um todo, que os EUA tenham sido forçados a libertar cinco altos comandantes Talibãs. É como prêmio à determinação obcecada dos Talibã, que qualquer acordo tenha de ser precedido pela libertação de seus comandantes ainda presos na Baía de Guantanamo.

Mullah Omar
Três: é claro que o Mullah Omar esteja sendo pintado como homem de 3m de altura, no bazaar afegão. Os afegãos respeitam muito uma boa barganha, e Omar venceu uma, das melhores, e barganhando contra uma superpotência.

Quatro, e por fim, o presidente Hamid Karzai termina sua presidência como força já completamente exaurida, e os Talibã, mais uma vez, veem confirmado o que sempre disseram com incansável insistência: que Karzai jamais teve qualquer importância para o futuro do Afeganistão.

E para onde vão os Talibã, a partir desse ponto a que chegaram? A declaração oficial diz que a libertação dos comandantes Talibã foi obtida pela “benevolência de Alá e pelos sacrifícios dos valentes e heróicos Mujahideen”. É justo. A declaração reconhece que houve “negociação indireta” entre os Talibã e os EUA, “mediada” pelo Qatar.

São fatos já de domínio público, mas é importante que os Talibã os tenham reconhecido oficialmente. Interessante: a declaração oficial dos Talibã afirma que as negociações podem continuar, para obter a libertação dos demais Talibã que permanecem presos em Guantánamo. A declaração não diz palavra sobre a resistência, nem traz sequer um termo de propaganda condenando os EUA.

Hamid Karzai ficou furioso...
Não surpreendentemente, Karzai está lívido de fúria por não ter sido envolvido nas negociações Talibã-EUA. Mas, já se sabe: no bazaar afegão Karzai sempre foi considerado sem importância para o futuro do Afeganistão. Não há dúvidas de que Washington humilhou Karzai além de qualquer limite reparável. O campo político de Karzai insiste que ele continuará a ter papel influente mesmo depois que deixar o poder. Mas é falar por falar.

O Dr. Abdullah Abdullah ou Asharf Ghani – os dois principais candidatos que disputam eleições dia 14 de junho, talvez não processem Karzai, mas tampouco quererão alguma eminência parda a pairar sobre eles. Perder poder implica perder capacidade para garantir apadrinhamento efetivo e quem não tem capacidade para apadrinhar efetivamente perde importância. É a lógica da vida desde tempos imemoriais na sociedade afegã.

Abdullah Abdullah e Asharf Ghani
Significativamente, nem Abdullah nem Ghani criticaram os EUA por negociarem com os Talibã. Claro: agora, como o resto do mundo, os dois também já sabem que o Paquistão está arbitrando todo o jogo envolvendo os EUA e os Talibã, e que o Qatar só está empurrando o carrinho com a bolsa de tacos. Há aí implicações para as políticas futuras de Abdullah e Ghani em relação ao Paquistão.

Como na Índia, há um campo barulhento nos EUA que também clama que a guerra contra os Talibã deve prosseguir até ser “vencida”, não importa o quanto demore ou custe. Uma avalanche de críticas apareceu no circuito de Washington contra o presidente Barack Obama. Mas logo amainará, porque há mais gente nos EUA que entende que essa não é guerra dos EUA e que os soldados têm de ser trazidos do Hindu Kush, de volta para casa, o mais depressa possível.

Barack Obama e Bowe Bergdahl
Claramente Obama está do lado certo da história. A troca de prisioneiros de guerra melhora consideravelmente as chances de negociar acordo que envolva os Talibã como elemento basilar da estabilização do Afeganistão. Os EUA estão caindo fora e tentando prender a maior quantidade possível de “fios soltos”: a troca de prisioneiros com os Talibã é movimento nessa linha.

Não esqueçam nem por um segundo que o sargento Bowe Bergdahl realmente desertou, desiludido com a guerra, há cindo anos: deu as costas e saiu andando da base dos EUA. Mesmo assim, Obama decidiu trazê-lo de volta para casa, ele também; e sabia que pagaria alto preço por isso. Minha opinião é que comandante-em-chefe existe para isso. Boa leitura o artigo de Paul Pillar, ex-analista da CIA, sobre a controversa decisão de Obama. 





[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Revelações de Bowe Bergdahl: E-mails mostram extensão do fracasso dos EUA no Afeganistão

3/6/2014, [*]  Patrick Cockburn − The Independent, UK e ICH
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Para os EUA, receber de volta o único prisioneiro norte-americano que ainda havia naquele país os afasta ainda mais do Afeganistão. Para os afegãos, receber de volta os seus cinco comandantes prisioneiros em Guantánamo é sinal de reconhecimento da força e da legitimidade dos Talibã.

Sargento Bowe Bergdahl
O exército dos EUA é a maior piada que há hoje para o mundo rir – escreveu o sargento Bergdahl num e-mail depois publicado pela revista Rolling Stone.

É dura condenação para qualquer exército em dificuldades. E foi escrita por um soldado norte-americano, Bowe Bergdahl, no último e-mail para o pai e a mãe, enviado pouco antes de ele abandonar sua base no leste do Afeganistão, dia 30/6/2009.

Em questão de horas Bergdahl foi capturado pelos Talibã, que o mantiveram prisioneiro por cinco anos, até ser trocado por cinco altos comandantes dos Talibã que estavam presos na prisão norte-americana na Baía de Guantánamo.

O exército dos EUA é a maior piada que há hoje para o mundo rir. É exército de mentirosos, traidores, doidos e pervertidos. Os poucos sargentos que prestam estão caindo fora o mais depressa que podem, e recomendam que nós, os cabos, façamos o mesmo − escreveu o sargento Bergdahl num e-mail depois publicado pela revista Rolling Stone.

O Sargento Bergdahl alistou-se no exército quando faltavam soldados para mandar ao Afeganistão como parte de “avançada” [orig. surge] no número de brigadas de combate naquele país. Com absoluta falta de alistados, os EUA começaram a distribuir “credenciais” a recrutas acusados de crimes ou que tinham problemas com drogas e que antes haviam sido rejeitados pelo Exército. No caso do Sargento Bergdahl, campeão de tiro, bem educado e com uma visão romântica do que seria servir profissionalmente ao exército, a desilusão não demorou a implantar-se.

Sua companhia estava em desarranjo e com o moral baixo. Ele reclama que três bons sargentos foram obrigados a trocar de companhia e “não há maior merda do que ser mandado comandar essa equipe”. O comandante de seu batalhão era “velho, doido e arrogante” e os outros oficiais não eram melhores:

No exército dos EUA, você é perseguido se for honesto (...), mas se for um merda arrogante rico você pode fazer o que quiser e sempre acabará promovido.

O Sargento Bergdahl levou a sério a estratégia de contrainsurgência, que ele supunha que visasse a ganhar “corações e mentes” dos afegãos. Mas em vez disso, só viu que os soldados norte-americanos tratavam os afegãos com menosprezo agressivo:

Tenho vergonha de tudo que vejo aqui. Essas pessoas precisam de ajuda, mas o que recebem é o país mais arrogante do mundo a dizer a eles que eles não prestam, que são estúpidos, que não sabem viver.

Conta que viu uma criança afegã ser esmagada por um tanque blindado dos EUA, evento que seus pais estimam que tenha sido o que o levou a abandonar a base. O pai do Sargento Bergahl respondeu à última mensagem do filho com um e-mail no qual se lia, no campo “Assunto”: “Obedeça sua consciência”.

A seguir vídeo completo (tradução desnecessária) da libertação do Sargento Bergdahl:


As histórias da vida dos seis homens – cinco afegãos e um americano – que foram trocados nessa final de semana mostra o quão rapidamente o espírito dos exércitos no Afeganistão pode mudar, de plena confiança na vitória, para frustração e derrota. No verão de 2001, os Talibã acreditavam, com razão, que estavam próximos de tomar todo o Afeganistão, com seus inimigos cercados nas montanhas do nordeste.

Mas o 11/9/2001 mudou tudo isso e, em novembro, os EUA estavam em avançada e já haviam obtido sucesso fácil. Oito anos depois, as razões do sargento Bergdahl para abandonar a própria base sem autorização ilustram o quanto, até que ponto, o Afeganistão converteu-se, para os EUA, em guerra desmoralizante e impossível de vencer.

Os Talibã também viram azedar suas esperanças de vitória, e em período ainda mais curto. Mullah Mohammed Fazl, também conhecido como Mullah Fazel Mazloom, comandava 10 mil Talibã considerados responsáveis pelos massacres dos hazara e tadjiques no norte do Afeganistão. Rendeu-se à Aliança do Norte, da oposição, em 2001. Com ele, estava o governador da província de Balkh, Mullah Norullah Noori. Foram embarcados no navio de guerra USS Bataan e dali enviados para a prisão de Guantánamo.

Desde o início das primeiras conversas exploratórias entre os EUA e os Talibã, a primeira demanda dos Talibã sempre foi a libertação desses dois comandantes. Outro nome, na mesma lista, era Khirullah Said Wali Khairkhwa, fundador dos Talibã em 1994.

Naqueles dias, EUA super-autoconfiantes não viam razão alguma para ceder a qualquer demanda dos Talibã, nem davam qualquer importância a ex-comandantes Talibã. Os dois detentos remanescentes, também trocados afinal essa semana pelo sargento Bergdahl, são altos oficiais da segurança dos Talibã.

QUEM teria suposto, no final de 2001, que 13 anos depois, os EUA estariam trocando prisioneiros com os Talibã? Para os EUA, receber de volta o único prisioneiro norte-americano que ainda havia naquele país os afasta ainda mais do Afeganistão. Para os afegãos, receber de volta os seus cinco comandantes é sinal e reconhecimento da força e da legitimidade dos Talibã.


[*] Patrick Cockburn (nasceu 05 de março de 1950) é um jornalista irlandês que tem sido correspondente no Oriente Médio desde 1979 para o Financial Times e, atualmente, The Independent.
Está entre os comentaristas mais experientes no Iraque; escreveu quatro livros sobre a história recente do país. Recebeu o vários prêmios por seu trabalho incluindo o Prêmio Gellhorn Martha em 2005, o Prêmio James Cameron em 2006 e o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009. 
Cockburn escreveu três livros sobre o Iraque: One, Out of the Ashes: The Resurrection of Saddam Hussein, escrito em parceria com seu irmão Andrew Cockburn, antes da guerra no Iraque. O mesmo livro foi mais tarde re-publicado na Grã-Bretanha com o título: Saddam Hussein: An American Obsession. Mais dois foram escritos por Patrick sozinho após a invasão dos EUA e após a sua reportagem premiada do Iraque. Escreve também para CounterPunch e London Review of Books.