quinta-feira, 28 de junho de 2012

Mundo Islâmico: “Uma nova geração de islamistas políticos chega à frente do palco”


20/1/2012, Olivier Roy, Washington Post, WPOpinions
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Olivier Roy
Por toda a parte, a Fraternidade Muçulmana beneficia-se de uma democratização que não foi proposta por ela. Há um vácuo político, porque a vanguarda liberal (não de esquerda, como se entendem essas divisões no ocidente) que iniciou a Primavera Árabe não tentou e não deseja, tomar o poder. Essa é revolução sem revolucionários e sem líderes. Apesar disso, a Fraternidade Muçulmana é a única força política organizada.

Os Irmãos têm raízes sociais profundas nas sociedades árabes e décadas de luta de resistência contra regimes autoritários. A luta deu-lhes experiência, legitimidade e o direito de serem respeitados. Sua agenda conservadora é adequada a uma sociedade conservadora, que pode acolher avanços democráticos, mas nem por isso se converteu à esquerda ou liberalizou-se.

Nessas circunstâncias, já há quem tema o espectro de um estado islamista totalitário, o espectro da Xaria imposta como lei geral e o fechamento de um curto parêntese democrático. Mas nada, na realidade, sugere que as coisas tomem esse rumo.

Para começar, os islamistas mudaram muito: são hoje “burgueses” de classe média, que se beneficiaram da liberalização das economias locais nas últimas décadas do século 20, sobretudo nos países não produtores de petróleo. Os islamistas extraíram proveitosas lições do fracasso dos regimes ideológicos e do sucesso do partido AKP turco. Já não pregam a jihad em todos os contextos e compreendem as limitações geoestratégicas, dentre as quais a necessidade de preservar a paz, mesmo que paz fria, com Israel. E o realismo é o ponto de partida da clareza política.

Os islamistas foram eleitos com agenda clara: estabilidade, bom governo e melhores práticas econômicas. Se atraíram os votos de mais eleitores que os apoiadores linha-dura da Xaria, foi precisamente porque podem combinar uma agenda reformista, sem abrir mão de valores religiosos, identidades e tradições locais.


O Partido Nahda obteve a maioria dos votos depositados na urna instalada no Consulado da Tunísia em San Francisco, EUA. E os expatriados tunisianos que vivem no Vale do Silício não se definem por qualquer espécie de fundamentalismo islâmico.

Essa mistura de modernidade tecnocrática e valores conservadores é marca típica dos candidatos egípcios “religiosos”. Se dessem as costas ao multipartidarismo e ao legalismo, alienariam grande parte de seus eleitores, num momento e num contexto nos quais não têm meios para confiscar o poder. Não têm nem forças militares nem lucros do petróleo que lhes permitam esquecer a importância do voto popular: são obrigados a negociar no mundo político e têm de cumprir o que prometam. Os eleitores egípcios querem estabilidade e paz. Não querem guerra e absolutamente não querem revolução como a entende o ocidente.

A Fraternidade Muçulmana está pondo os pés, pela primeira vez, numa nova paisagem política: em democracia, embora frágil e fugidia. O único modo de preservarem a própria legitimidade democrática é expor-se em eleições. Embora sua cultura política imaculada nunca tenha sido propriamente democrática, todos foram criados em “paisagem” democrática. De fato, o que se vê no Egito hoje é parte de um processo semelhante àquele pelo qual até a Igreja Católica Romana foi obrigada a aceitar as instituições democráticas. Mas é preciso tempo.

Mesquita e Universidade Al-Azhar (fundada em 972 DC)
Outra mudança importante, se se considera o período “revolucionário” dos anos 70s e 80s, é que os Irmãos muçulmanos não monopolizam o Islã, na esfera pública. De fato, o renascimento religioso que engolfou as sociedades árabes levou à diversificação e à individualização do campo religioso. Instituições religiosas do Estado, como a tradicional mesquita (e universidade) Al-Azhar, recentemente desautorizada, estão novamente reconquistando a autonomia que tiveram. O patriarca da mesquita Al-Azhar, Xeique Ahmed Al-Tayyeb, falou abertamente a favor da democracia e de separar as instituições religiosas, do Estado. Fenômeno novo é, também, a decisão dos salafistas, seita sunita ultraconservadora, de constituir partidos políticos. Por um lado, trabalharão a favor de uma agenda mais islamista, tentando ganhar terreno hoje ocupado pela Fraternidade Muçulmana no campo do Islã, mas o movimento dos salafistas também forçará os Irmãos a esclarecer a própria posição e a encontrar meio para distanciar-se da implantação da Xaria ortodoxa.

Para fazer isso, a Fraternidade Muçulmana terá de “traduzir” as normas puramente islâmicas em valores conservadores mais universais – como a proibição de venda e consumo de álcool, aproximando-a, por exemplo, de algo mais próximo do que é lei em Utah, EUA, do que das leis vigentes na Arábia Saudita; e promover “valores da família”, em vez de impor a Xaria só às mulheres.

Fraternidade Muçulmana (Logo/Armas em árabe)

Nos próximos meses, a questão candente no Egito, além do status das mulheres, será a liberdade religiosa. Não no sentido de suprimir liberdades de culto, por exemplo, dos cristãos coptas – e, de fato, havia inúmeras limitações de culto implantadas pela ditadura chamada “secular” de Hosni Mubarak - mas na direção de definir a liberdade religiosa não como direito de minorias, mas como direito humano individual, com o corolário de admitir-se o direito de o crente converter-se do Islã ao Cristianismo.

A questão é a institucionalização da democracia, não a promoção de políticas “de esquerda”. A democracia só se implantará se for baseada em valores bem estabelecidos na sociedade. O liberalismo ou alguma política dita “de esquerda” não são etapas que precedam a democracia. Nos EUA, os Pais Fundadores eram conservadores fundamentalistas puritanos europeus. Mas, depois que a democracia deita raízes, baseada em instituições e numa cultura política, então a discussão sobre liberdade, censura, normas sociais e direitos individuais pode ser gerida mediante garantias à liberdade de manifestação e trocas nas maiorias parlamentares. Fato é, porém, que nenhuma democracia se instituicionalizará no Egito, sem a participação da Fraternidade Muçulmana.

Pepe Escobar – “E aí, meu irmão, cadê você?*”


26/6/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online  - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
O mundo árabe e, de fato, o mundo inteiro, esperava ansiosamente para saber o que diria o novo presidente do Egito, recém eleito, quadro da Fraternidade Muçulmana (FM), Mohammed Mursi, em matéria de política externa, no discurso da vitória.

Clima de anticlímax. Do Egito, falou só de passagem (que respeitará “seus acordos internacionais” – expressão em código, referindo-se aos acordos de Camp David, de 1979, com Israel. Telavive e Washington que não se preocupem. Quanto à rua árabe, pode continuar preocupada.

Lacônico, Mursi parece ter evitado o grande problema. Mas nesse ambiente volátil, ccntrolado de facto pelo orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas, aparelho da ditadura militar egípcia, é como se a FM tivesse dito que não pensará duas vezes, se tiver de jogar os palestinos debaixo de um ônibus lerdo, se esse for o preço para manter-se no poder.

Pois nem isso bastou para acalmar a direitosfera nos EUA – com os cães raivosos de sempre pontificando sobre como o presidente Barack Obama “perdeu” o Egito, como se os EUA estivessem às vésperas de serem soterrados sob uma tempestade de areia movida a al-Qaeda.

As'ad AbuKhalil
Mais uma vez, coube ao blogueiro Angry Arab, As'ad AbuKhalil, introduzir algum muito necessário bom-senso na discussão. As'ad escreveu que:

“... as eleições, no mundo árabe, ficaram resumidas a uma disputa entre o dinheiro saudita e o dinheiro do Qatar”.

E, no Egito, a Casa de Thani, do Qatar venceu.

É sempre importante lembrar que a Casa de Saud e a FM vivem empenhadas em furiosa discussão sobre o significado do Islã puro. A política exterior do Qatar é apoiar a FM, sempre que possível. Do ponto de vista de Doha, a vitória é imensa: há hoje um islamista, na presidência da nação-chave no mundo árabe. Todos os islâmicos comprometidos, do Maghreb a Benghazi, e de Teerã a Kandahar, também têm motivos de júbilo.

Paralelamente, o candidato oficial à presidência dos EUA, a União Europeia, Israel, a Casa de Saud e o Ancient Regime egípcio – o ex-general da Força Aérea do Egito, Ahmed Shafik – perderam. Assim também, em teoria, a contrarrevolução no Egito, perdeu. Não. De fato, não. Ainda não.

Só os ingênuos terminais acreditarão que o orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas governa de facto o Egito sem consultar Washington e a Casa de Saud, a cada passo. Antes de Mursi ser oficialmente declarado vencedor, houve um acerto por trás das cortinas – noticiado em Ahram Online [1].

O acerto CSFA-FM resume-se a Morsi ter sido obrigado a aceitar trabalhar “segundo os parâmetros definidos pelo CSFA”. Implica que o aparelho da ditadura militar mandará em Mursi e mandará no parlamento. Só depois de sacramentado esse acerto, Mursi foi “legitimamente anunciado como presidente eleito”.

Droga! Apostamos no cavalo errado

Mohamed Mursi
A Casa Branca cumprimentou devidamente Mursi – e cumprimentou também o Conselho Supremo das Forças Armadas, aparentemente sem escolher lado. Mas Washington apressou-se a lembrar que o governo egípcio “deve continuar a cumprir o papel de pilar da paz, segurança e estabilidade regionais” (expressão em código equivalente a “nem pensem em rediscutir Camp David”. A Casa Branca também prometeu “manter-se ao lado do povo egípcio”. Com amigos desse tipo, o “povo egípcio” – metade do qual está passando fome – tem, garantido, um luminoso futuro.

Salomônico, Obama telefonou a Mursi e Shafiq, à FM e ao CSFA. Só ingênuos terminais acreditariam que o governo dos EUA tivesse algum temor de que Shafiq – seu candidato preferido – fosse declarado presidente. Por falar em Shafik, ele já não está no Egito: teve de fugir, coberto de infâmia, já na 3ª-feira, quando o Procurador Geral do Egito iniciou processo para investigar seus imundos negócios, durante os oito anos em que serviu como ministro civil da Aviação do governo Mubarak.

Assim sendo, pode-se dizer que, doravante, o Egito seguirá dois projetos de política exterior: o da Fraternidade Muçulmana e o do Conselho Supremo das Forças Armadas. O jogo de forças dependerá de se a Fraternidade Muçulmana conseguirá restaurar o Parlamento (a Câmara Baixa) que foi dissolvido; se obtiver tantos votos num segundo turno de eleições parlamentares quantos obteve no primeiro turno (que foi anulado). Tampouco se sabe que tipo de poder terá o presidente egípcio: a nova constituição ainda não foi redigida.

Ahmed Shafik
Do ponto de vista de Washington, aconteça o que acontecer, nada alterará o rumo do dhow [veleiro] real: apoio cego a Israel, faça o que fizer; mal disfarçado apoio cego à Casa de Saud e ao Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), faça o que fizerem (incluindo repressão violentíssima contra levantes da Primavera Árabe na Arábia Saudita, Bahrain e Omã); e se alguém nos desafiar, bombardeamos ou dronamos o desgraçado, até a morte.

Do ponto de vista de Washington, a Fraternidade Muçulmana, com Mursi, pode ser declarada facilmente “contível”. Mursi não se atreverá a confrontar Israel. Morsi, muito provavelmente, dará uma de Erdogan – o primeiro-ministro da Turquia. Protestos fortes contra o brutal gulag em Gaza imposto por Telavive; apoio firme ao Hamás... mas nada que tire do lugar as relações diplomáticas e o comércio. Eventualmente, pode acontecer de a liderança israelense aceitar, finalmente, que os palestinos também são seres humanos. Mas não se recomenda a ninguém apostar nisso.

Fraternidade Muçulmana
Resta saber, nesse cenário de “dois projetos de política exterior”, que lado prevalecerá no longo prazo, a Fraternidade Muçulmana ou o Conselho Supremo das Forças Armadas. O teste crucial é o Irã. Mursi, se obtiver alguma liderança efetiva, não seguirá cegamente Washington em sua obsessão de “incapacitar” o Irã – como o Iraque foi incapacitado nos anos 1990s (o longo prelúdio antes do golpe “mudança de regime”). Vê-se uma pista do que pode estar por vir: Mursi disse à Agência de Notícias Fars, iraniana, que que que as relações Cairo-Teerã voltem ao normal. Imediatamente depois veio o desmentido do Egito, que só pode ter sido orquestrado pelo Conselho Supremo das Forças Armadas.

Olivier Roy, professor do European University Institute em Florença adverte, com razão, sobre o Egito:

Foi revolução sem revolucionários. Mesmo assim, a Fraternidade Muçulmana é a única força política organizada. (...) Sua agenda conservadora é adequada a uma sociedade conservadora, que pode acolher avanços democráticos, mas nem por isso se converteu à esquerda.” Para Roy, “a democracia não se institucionalizará no Egito, sem a Fraternidade Muçulmana. [2]

O caminho é longo e pedregoso. Mursi terá de prestar contas não só ao Conselho Supremo das Forças Armadas, mas também aos líderes extremamente conservadores da Fraternidade Muçulmana; afinal de contas, o próprio Mursi, até ontem, não passava de quadro desconhecido do grande público. Mursi sabe que confrontar o Conselho Supremo das Forças Armadas é confrontar Washington. Se tentar qualquer medida mais ousada, logo acharão um jeito de matá-lo softly, suavemente, método muito prezado pela secretária Clinton.

Mas... E se Mursi conseguir mobilizar milhões, nas ruas? Estão abertas as apostas sobre onde está, de fato, esse Irmão.

Nota de rodapé
*Orig. O Brother, Where Art Thou? [lit. “Irmão, onde estais?”] é título de filme dirigido pelos irmãos Coen, 2002, adaptação da Odisseia, no “sul profundo” dos EUA; três fugitivos de uma prisão procuram um tesouro escondido, perseguidos, incansavelmente, pelos guardas e por vários outros tipos de “eventos”. Informações extraídas de “E aí meu irmão, Cadê você?



Notas dos tradutores
[1] 22/6/2012, Al-Ahram Online, Dina Ezzat em: A deal could be reached to end current confrontation: SCAF, Brotherhood sources.
[2] 20/1/2012, Washington Post, Olivier Roy em: A new generation of political Islamists steps forward

O mundo sobreviverá à ambição arrogante de Washington?


28/6/2012, Paul Craig Roberts, Institute of Political Economy
Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu


Paul Craig Roberts
Quando o presidente Reagan nomeou-me para o cargo de vice-secretário do Tesouro para Política Econômica, disse-me que tínhamos de restaurar a economia dos EUA, resgatá-la da estagflação, para voltarmos a ter economia forte, para enfrentar os soviéticos e convencê-los a negociar o fim da Guerra Fria. Reagan disse que não havia motivo algum para continuarmos a viver sob a ameaça de uma guerra nuclear. O governo Reagan alcançou os dois objetivos.

Mas, imediatamente depois, esses dois sucessos do governo Reagan foram descartados pelos governos que vieram depois dele. Foi o próprio vice-presidente de Reagan e seu sucessor na presidência, George Herbert Walker Bush, quem primeiro violou o acordo Reagan-Gorbachev: ao incorporar à OTAN partes do Império Soviético; e ao instalar bases militares ocidentais junto à fronteira da Rússia.

O processo de cercar a Rússia com bases militares prosseguiu sem descanso ao longo de vários governos nos EUA, com inúmeras “revoluções coloridas” pagas pelo Fundo Nacional dos EUA para a Democracia [orig. US National Endowment for DemocracyNED] que, para muitos, não passa de fachada para ações clandestinas da CIA. Washington tentou ‘mudança de regime’ na Ucrânia, para instalar ali um governo controlado por Washington; e na Georgia ex-soviética, terra natal de Joseph Stalin, conseguiu.

Mikheil Saakashvili
Presidente da Georgia
O presidente da Georgia, país entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, é reles fantoche de Washington. Anunciou, há pouco tempo, que a Georgia ex-soviética será incorporada à OTAN, como membro pleno, em 2014.

Os mais velhos ainda lembrarão que a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, é aliança criada entre a Europa Ocidental e os EUA, contra o perigo de o Exército Vermelho tomar toda a Europa Ocidental. O Atlântico Norte fica muito, muito longe do Mar Negro e do Mar Cáspio. Por quê a Georgia seria convertida em membro da OTAN... a menos que se trate de, assim, oferecer a Washington uma base militar no “baixo ventre macio da Rússia” [ing. russian soft underbelly, expressão criada por Churchill, no início do século 20]?

É absolutamente evidente, evidente demais, que os EUA – os dois principais partidos – já decidiram que Rússia e China são os inimigos “da hora”. Ainda não se sabe se o “projeto” é destruir os dois países ou apenas incapacitá-los e torná-los impotentes, para que não se possam opor ao avanço imperial de Washington. Seja qual for o projeto, todos os caminhos levam à guerra nuclear.

A prostituída imprensa-empresa norte-americana [orig, presstitute American press] insiste em que um diabólico governo Sírio “do mal” estaria assassinando civis inocentes, que só ansiariam por democracia; que se a ONU não intervier militarmente, os EUA terão de agir, em nome da defesa de direitos humanos. Rússia e China são pintadas como demônios-assessores do demônio-mor sírio, até por altos funcionários do governo dos EUA, porque se opõem ativamente à ideia ensandecida de que a OTAN “deve” atacar a Síria.

"Presstitute" (Imprensa-empresa prostituída)
Os fatos são muito diferentes e absolutamente não aparecem na prostituída imprensa-empresa norte-americana e nas “declarações” de altos funcionários do governo dos EUA. Os “rebeldes” sírios estão armados com armamento militar. Os “rebeldes” estão lutando contra o exército sírio. Os “rebeldes” massacram civis. Os mesmos “rebeldes”, em seguida, “informam” às mídias prostituídas que lhes prestam o sujo serviço de distribuir propaganda no ocidente, que os massacres seriam obra do governo sírio. E subprostitutas da subimprensa-empresa de repetição repetem para todo o ocidente a mesma propaganda.

Dado que as armas que se veem nas mãos dos “rebeldes” não estão à venda nos mercados sírios nem em banca de frutas, é óbvio que alguém está armando os “rebeldes”. Os melhores analistas e observadores do mundo têm repetido que aquelas armas são fornecidas aos “rebeldes” pelos EUA ou por subalternos aos quais os EUA atribuem a tarefa (local) de armar “rebeldes” (locais), em vários pontos do mundo.

Assim sendo, já não é segredo que Washington provocou uma guerra civil na Síria, exatamente como fez na Líbia. Apenas que, dessa vez, russos e chineses perceberam a tempo e absolutamente não permitirão que se aprove, no Conselho de Segurança da ONU, resolução-golpe semelhante à que o ocidente conseguiu arrancar do CS e usou contra Gaddafi.

Para contornar esse impedimento, peguem aí um avião Phantom velho, dos anos 1960s, da Guerra do Vietnã, e mandem a Turquia mandar o Phantom voar para dentro das fronteiras sírias. Os sírios derrubarão o jato velho e, então, a Turquia apelará aos seus aliados na ONU, para que acorram em seu socorro contra a Síria. Fracassada a opção ONU, Washington poderá invocar algum neo “dever-de-atacar”, nos termos do tratado que criou a OTAN, para defender aliado membro da OTAN... contra a Síria já eficazmente demonizada.

Presstitute (imprensa-empresa protituída)
A mentira neoconservadora que continua a ser usada como justificativa por trás das chamadas “guerras de hegemonia” de Washington é a mentira de que os EUA estariam levando democracia aos países que invade, ocupa e destrói com bombardeios. Mal parafraseando Mao, “a democracia nasce do cano do fuzil”. Contudo, pouca democracia há à disposição da Primavera Árabe; menos ainda, no Iraque e no Afeganistão, dois países que foram “libertados” na invasão-ocupação-bombardeio “democráticos” dos EUA.

Os EUA estão distribuindo guerras civis e países estilhaçados, pelo mundo. Exatamente o que o presidente Bill Clinton distribuiu na ex-Iugoslávia. Quanto maior o número de países desmontados, reduzidos a cacos e dilacerados por guerras entre grupos locais rivais... maior o poder de Washington.

A Rússia de Putin entende claramente que a própria Rússia está sob ameaças, não só porque Washington paga para criar uma “oposição russa”, mas, também, porque Washington trabalha para criar guerras entre facções islamistas, também em estados seculares de população muçulmana, como o Iraque e a Síria. Essas cisões respingam também sobre a Rússia e fazem despertar questões russas, como o terrorismo checheno.

Quando um estado secular é derrubado, as facções islamistas ficam liberadas para saltar, umas ao pescoço das outras. A guerra interna paralisa o país, torna-o impotente. Como já escrevi outras vezes, o ocidente sempre conseguiu controlar o oriente porque as facções islamistas odeiam-se umas as outras mais do que odeiam o conquistador ocidental. Assim, quando Washington destrói governos seculares não islamistas, como destruiu o Iraque e, agora, tenta destruir a Síria, os islamistas emergem e põem-se a disputar a supremacia entre eles mesmos. Nada melhor, do ponto de vista de Israel e Washington, que esses estados que perdem as condições de agir como adversário resistente coerente.

A Rússia é hoje vulnerável, porque Putin é demonizado pela mídia nos EUA em geral e por Washington em especial, e porque a oposição a Putin, dentro da Rússia é financiada por Washington e trabalha a favor dos interesses dos EUA, não dos russos. O inferno que Washington está construindo e espalhando pelos estados muçulmanos respinga sobre as populações muçulmanas dentro da Rússia.

Já se sabe que é mais difícil para Washington interferir nos assuntos internos da China, embora já haja sinais de que a semeadura de discórdia já começa a brotar em algumas províncias. Espera-se que, dentro de alguns anos, a economia chinesa suplante, em valores, a economia dos EUA; pela primeira vez na história, uma potência asiática aparecerá à frente das demais economias mundiais e à frente das mais poderosas economias ocidentais .

Essa possibilidade, já bem real, abala profundamente Washington. Washington, que se deixou derrotar e é hoje governada por Wall Street e outros grupos de negócios específicos, é absolutamente impotente para deter o continuado declínio da economia norte-americana.

Os especialistas que vivem da jogatina em Wall Street, aos quais só interessam os ganhos de curtíssimo prazo; o complexo militar/segurança, que lucra com a guerra; e as empresas que exportaram, com a produção de bens e serviços, também os postos de trabalho dos norte-americanos, e que hoje lucram com isso são as forças que elegem representantes e nomeiam autoridades em Washington. E assim, enquanto a economia norte-americana naufraga, a economia chinesa prospera.

A resposta de Washington a essa situação? Militarizar o Pacífico. A secretária de Estado Hillary Clinton “área de interesse nacional dos EUA”, o Mar do Sul da China.

Os EUA estão chantageando o governo das Filipinas, usando lá a “carta chinesa” (a ameaça viria da China) e trabalhando para conseguir que a Marinha dos EUA seja convidada a voltar para a base naval que ocupou, há tempos, na Baía Subic. Recentemente, houve manobras conjuntas entre exércitos e marinhas dos EUA e das Filipinas: treinamento para enfrentar “a ameaça chinesa”.

A Marinha dos EUA está deslocando navios para o Pacífico e construindo nova base naval numa ilha da Coreia do Sul. Os Marines dos EUA já estão baseados na Austrália e estão sendo realocados, do Japão, para outros países asiáticos. Os chineses nada têm de idiotas. Sabem perfeitamente que Washington está tentando encurralar a China.

Para um país incapaz de ocupar o Iraque depois de oito anos de guerra; e incapaz de ocupar o Afeganistão depois de 11 anos de guerra... imaginar-se capaz de tomar e ocupar simultaneamente duas potências nucleares é, simplesmente, ato de insanidade.

A húbris, a arrogância enlouquecida, alimentada diariamente em Washington por doidos neoconservadores que ainda não viram, até hoje, o extraordinário fracasso dos EUA no Iraque e no Afeganistão, meteram-se, agora, a provocar duas potências gigantes – Rússia e China. A história do mundo, em todos os tempos, jamais, antes, assistiu a tamanha imbecilidade.

Psicopatas, sociopatas, doidos varridos e idiotas “normais” que mandam em Washington estão arrastando os EUA e o mundo, para vastíssima desgraça. Os governos que se sucedem em Washington – tanto faz que sejam governos Democratas ou Republicanos – e independente de quem venha a ser o próximo presidente dos EUA são, hoje, a mais grave ameaça à vida nesse planeta, que jamais houve, em todos os tempos. Como se não bastasse, os criminosos de Washington contam com a cumplicidade incondicional da empresa-imprensa.

Em próxima coluna, examinarei a chance que talvez ainda haja de os criminosos de guerra que comandam Washington e sua empresa-imprensa de repetição conseguirem levar a termo o total colapso da economia dos EUA, antes de que os mesmos criminosos de guerra consigam por fogo no mundo.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Assange entrevista No. 11: Noam Chomsky & Tariq Ali


26/6/2012, Russia Today – 11º Programa - Episódio 10, 26'49"
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Assista também:


JULIAN ASSANGE: Durante os dois últimos anos, surgiram novas formas de revolução. Falo hoje com dois gigantes da esquerda intelectual: Noam Chomsky, linguista muito conhecido e pensador rebelde, e com Tariq Ali, cronista de revoltas de rua e especialista em história militar. Quero saber o que pensam esses incansáveis ativistas. Em que direção caminha o mundo? Em que direção deveria caminhar?

Noam, Tariq, o período 2011-2012 foi momento histórico de imensa envergadura para os movimentos de independência em muitas partes do mundo. Vocês pressentiram que o momento se aproximava?

TARIK ALI: Não, não, não pressenti nada. Acho que ninguém pressentiu. O mais interessante é que as revoluções árabes brotaram numa parte do mundo onde os analistas diziam que lá “as pessoas não se interessam pela democracia, que os muçulmanos são geneticamente hostis à democracia”...

JULIAN ASSANGE: É.

TARIK ALI: ... e lá surgiram os levantes, que logo se alastraram, porque foi a ocupação da Praça Tahrir no Cairo que inspirou ativistas nos EUA, até na Rússia. Quem esperaria que haveria movimentos populares também na Rússia, desafiando a autoridade do estado? A ‘primavera árabe’ foi muito contagiosa e continua a contagiar, de diferentes formas.

JULIAN ASSANGE: Noam Chomsky?

NOAM CHOMSKY: Não, não posso dizer que pressenti ou previ alguma coisa. Sempre assumi que, mais cedo ou mais tarde haveria reação popular, contra a violenta guerra de classes que a última geração moveu contra todos os pobres, e guerra de classes muito consciente: a classe empresária, que sempre foi consciente dos próprios interesses e que, de fato, teve êxito na promoção dos seus interesses. Nos EUA, por exemplo, todos sabemos, a geração anterior criou riqueza, mas riqueza que não se distribuiu pela sociedade e foi só para o bolso de uns poucos. Hoje, a desigualdade nos EUA é um abismo, 1/10 da população, principalmente gerentes de fundos de investimentos, diretores executivos de grandes empresas... Estou falando dos EUA, mas os fenômenos são mundiais. O Egito talvez seja um dos locais mais impressionantes.

O movimento que levou às manifestações da Praça Tahrir há um ano chamou-se “Movimento 6 de Abril”, porque dia 6/4/2008 houve muitas manifestações de trabalhadores nas principais fábricas egípcias, manifestações de apoio aos sindicatos, etc. Um pequeno grupo de profissionais de tecnologia queria participar... e participaram, de onde estavam,, usando os veículos de comunicação social. O movimento de 2008 foi sufocado pela ditadura, mas esse grupo de profissionais conservou até hoje o nome “Movimento 6 de Abril”. É sinal claro de o quanto as manifestações de massa que vimos são profundas. Sim, havia gente preparada, muita gente trabalhou para que acontecesse o que aconteceu, muita gente. Para muitos era só uma tentativa de começar a fazer alguma coisa. Quero dizer: mesmo que nós aqui não tenhamos previsto, houve, sim, muita preparação. Em Túnis aconteceu o mesmo. Você me pergunta se previ o que viria, não, eu não previ, mas está acontecendo em todo o mundo, com previsões ou não, de um modo ou de outro.

JULIAN ASSANGE: Tariq?

TARIK ALI: Acho que Noam tem razão. Acho que, de fato, o que estamos vendo acontecer, além da economia neoliberal, é uma espécie de contração da política. Tenho dito, já há algum tempo, que o que estamos vendo na política ocidental não é nem a extrema esquerda nem a extrema direita, mas uma política de ‘extremo centro’, no sentido de serem políticas de centro radical. E essas políticas de extremo-centro abarcam o centro-direita e o centro-esquerda e coincidem nos fundamentos: provocar guerras por todo o mundo; ocupar países; punir os mais pobres com as medidas de ‘austeridade’. Não importa que partido esteja no poder, nos EUA, no ocidente... tudo se repete quase exatamente como antes. Um regime sucede o outro, um regime depois do outro, uma continuidade que afeta o funcionamento dos meios de comunicação, que foram ficando cada vez mais rasos, mais estreitos, diversificação nenhuma, ninguém discute, todos concordam, os principais meios de comunicação não oferecem debates reais. Essa política de ‘centro radical’ leva diretamente à ditadura do capital. Os países árabes tiveram ditadores apoiados pelo ocidente durante muito tempo. Agora, a velocidade e a magnitude das revoltas populares pegaram todos eles de surpresa. Acho que nenhum de nós poderia ter previsto o que viria.

JULIAN ASSANGE: Creem que a falta de previsibilidade, de fato, influiu para o êxito dessas revoltas?

TARIK ALI: Sem sem dúvida.

JULIAN ASSANGE: Se tivessem sido previstas, teriam sido impostos alguns mecanismos, para impedir que acontecessem?

TARIK ALI: Sim, e teriam sido mecanismos radicais: teriam tentado deter as pessoas, massacrar, torturar, prender, meter na cadeia os ativistas. Mas tudo muito rapidamente escapou a qualquer controle, e os EUA, com os franceses, na Tunísia e no Egito, por exemplo, não conseguiram controlar nada. Quero dizer que também foram apanhados de surpresa. Para subverter o processo, só se reuniram depois de seis meses de bombardeio, pela OTAN, contra a Líbia. Foi quando conseguiram recuperar, pelo menos em parte, o controle, novamente, sobre o mundo árabe. Mesmo assim, tudo continua extraordinariamente instável. E há gente que diz “Mas nem houve tantas mudanças”. É verdade. Mas, mesmo assim, uma coisa, pelo menos, mudou: as pessoas, as massas, deram-se conta de que, para fazer mudanças, é preciso mobilizar-se, agir, ser ativos. Essa é a grande lição dessas revoltas.

JULIAN ASSANGE: Gostaria de considerar quantas opções existem, na realidade. É ilusão pensar em opções, em novos regimes, se são obrigados a atuar segundo a situação que os rodeia, algo que é uma limitação básica nas relações com outras nações? Se se pensa, por exemplo, que Cuba está a 150 quilômetros de Miami, a 150 quilômetros de uma superpotência agressiva que difunde propaganda em Cuba, introduziriam a censura? Introduziriam uma polícia nacional como método para impedir que a independência de Cuba fosse anulada? Acho que essas são as questões que as nações que estão em luta terão de enfrentar, não só para derrotar seus governos, mas também para conseguir, depois, ser nações independentes das potências ocidentais.

NOAM CHOMSKY: Bem... Cuba é caso muito específico. Quero dizer: até certo ponto, Cuba tem características de outros pequenos países, mas é caso único. Há 50 anos os EUA se dedicam a estrangular e derrotar Cuba. O conselheiro para assuntos latino-americanos de Kennedy disse que “O problema está na ideia de que Castro pode tomar os assuntos nas próprias mãos, o que pode fazer com que os outros países, em circunstâncias semelhantes, tentem seguir o mesmo caminho. Se começar a acontecer, rapidamente se arruinará todo o sistema norte-americano de controle.” Por essas razões, que ainda persistem, os EUA começou por mover uma massiva campanha de terror. Cuba é o país que mais sofreu ações terroristas em todo o mundo, terror internacional. E, além do terrorismo, o estrangulamento econômico, de um modo extraordinário.

JULIAN ASSANGE: Se você é um povo que quer ser independente, que quer ter um estado independente (talvez, adiante, possamos falar de outras formas de independência), se se quer ser estado independente que desafia a OTAN, ou se, se se está perto da China e você desafia a China, ou a Rússia, no caso das ex-repúblicas soviéticas... Essas ações sempre custam caro. Para Cuba, provavelmente, o preço seja uma situação de estado de guerra...

NOAM CHOMSKY: Se se olha o mundo em volta, veem-se problemas semelhantes, mas nunca tão graves como os que Cuba enfrenta. Veja, mais para o sul, a América do Sul. Um dos desenvolvimentos mais espetaculares e mais importantes do século 20 foi que, pela primeira vez, desde que os conquistadores europeus chegaram, pela primeira vez em 500 anos, a América do Sul, afinal, deu passos importantes na direção da independência, na direção da integração continental. Não resta nenhuma base militar dos EUA na América do Sul, o que, por si só, já é fenômeno que diz muito.

JULIAN ASSANGE: E você, Tarik, o que pensa?

TARIK ALI: Acho também que, nas últimas décadas, as mudanças mais importantes que o mundo viu aconteceram na América do Sul. Estive na Venezuela, Bolívia, no Brasil... O ambiente ali é absolutamente diferente. Muita gente diz “Pela primeira vez, nos sentimos verdadeiramente independentes”. Sejam quais sejam as fragilidades desses governos (e alguns têm, sim, fragilidades), são estados soberanos e atuam como tais. Quando Chávez, por exemplo, fala aos EUA, é direto e claro. Uma vez, Chávez me disse: “Fiz um discurso na ONU e, depois, representantes de vários países, que não podem dizer isso em público, aproximaram-se para me dar parabéns. Disseram ‘Obrigado, o senhor falou por todos nós’”. E Chávez continuou: “Disse a eles que eles podiam dizer o que quisessem! Que podiam falar também. Que ninguém poderia impedi-los de falar”... Mas sabe como é...

JULIAN ASSANGE: É evidente que pensam que não podem falar.

TARIK ALI: Pensam que não podem. Mas hoje, o padrão de Chávez começa a ser o padrão para quase toda a América Latina, com exceção da Colômbia, do México, em parte, do Chile. Nos outros lugares, as pessoas sentem-se independentes, pela primeira vez. Acho que esse será um enorme problema para os EUA. Os norte-americanos estão obcecados com o mundo árabe e com a China, agora, também com o Irã. Mas os EUA já não estão conseguindo controlar a América do Sul, já faz uma década, um pouco mais.

NOAM CHOMSKY: Isso preocupa imensamente os EUA. Até o Conselho de Segurança, entidade máxima de planejamento, já alertou: “Se não conseguirmos controlar a América do Sul, como vamos conseguir impor ordem, com êxito, sobre o resto do mundo?” declaração que implica que continuam a querer governar o mundo inteiro. “Se não conseguimos controlar nem o quintal de casa, como controlaremos o mundo”. Mas há questão mais profunda que essa. No caso do Oriente Médio, uma das grandes preocupações dos EUA e das outras tradicionais potências imperiais, particularmente Grã Bretanha e França, o que mais os preocupa agora é que o Oriente Médio também está escapando do controle dos EUA. É muito sério. É muito mais sério do que perderem a América do Sul.

TARIK ALI: Concordo plenamente. Por isso invadiram a Líbia, Noam, não tenho dúvida alguma. Invadiram a Líbia, tentando restabelecer o controle.

NOAM CHOMSKY: Concordo, mas acho que tudo isso é passado. Se se olha, por exemplo, o que aconteceu na ‘primavera árabe’: os países chave para as potências imperiais, os que produzem petróleo, estão sob governos duríssimos. Na Arábia Saudita, no Kuwait, nos Emirados Árabes, que são regiões importantes pela produção de petróleo, não eclodiu nenhuma revolta semelhante. A intimidação, pelas forças de segurança apoiadas pelo ocidente, foi e é terrível. As pessoas realmente têm medo de sair às ruas em Riad. O ocidente, em grande parte a França na Tunísia, e a Grã-Bretanha no Egito, seguem o padrão tradicional. Há um plano de jogo, um manual,  já pronto, para o caso de alguns ditadores favoritos perderem a capacidade de governar. O que se faz é apoiá-los até o último minuto. Quando se torna impossível apoiá-los (quando, por exemplo, o exército também se volta contra o ditador), então conseguem que os intelectuais ponham-se a fazer solenes declarações sobre a democracia, e começam a tentar repor no governo o sistema antigo, se lhes parecer que ainda seja possível. Foi o que os EUA fizeram com Somoza, Marcos, Duvalier, Mobutu, Suharto. Quero dizer: é rotina. Ninguém precisa ser gênio para ver o que os EUA fazem.


TARIK ALI: Mas, Julian, acho que o verdadeiro problema é que a própria democracia enfrenta hoje problemas muito sérios – por causa das grandes empresas. A prova é que já há dois países europeus, Grécia e Itália, onde os políticos já entregaram os pontos. Nesses países, os políticos já abdicaram, já disseram: “os banqueiros que governem...”

JULIAN ASSANGE: É.

TARIK ALI: O que quero dizer é... E onde isso tudo vai parar? O que estamos vendo é que a democracia, cada dia mais, está ficando vazia de conteúdo. É uma carcaça vazia. E isso é o que enfurece os mais jovens, que dizem “Não importa o que nós façamos, não importa quem elejamos, não importa em quem votemos... Nada muda nem mudará”. Daí estão nascendo todos os protestos de rua que se veem, em todo o mundo.

JULIAN ASSANGE: Você acha que esse problema está nos meios de comunicação? É problema estrutural? Pode-se dizer que os veículos têm hoje mais poder que os governos, e podem controlar tudo? Pode-se dizer que é resultado de haver telecomunicações mais sofisticadas? Quero saber: o que está movendo aqueles jovens?

TARIK ALI: São movidos... por uma democracia que se petrificou. Mas os meios de comunicação chegaram a ser um pilar, o pilar central, hoje, do sistema. Mais hoje do que foram durante a Guerra Fria. Naquele momento, os EUA queriam mostrar aos russos e chineses que “nosso sistema é melhor que o de vocês”...

JULIAN ASSANGE: É.

TARIK ALI: ... Agora, acham que já não precisam mostrar coisa alguma, que não haveria o que provar. Então... fazem o que querem.

JULIAN ASSANGE: Usaram a liberdade de expressão como porrete para bater na União Soviética. Agora, já não é necessário. Acho que... mantiveram esse tipo de aliança entre liberais e militares e a elite ocidental, todos unidos por interesses comuns, para comprovar a supremacia do Ocidente sobre a URSS. Agora, se rompeu esse tipo de aliança muito antinatural.

TARIK ALI: (a) Rompeu-se; e (b) no mundo ocidental, eles já controlam de tal modo e a tal ponto, que podem até assassinar, sem ser punidos. Quero dizer: Obama assinou uma lei, segundo a qual o presidente dos EUA tem pleno direito de ordenar o assassinato de um cidadão norte-americano, sem precisar prestar contas e sem agredir a lei. Sem acusação, nem processo, nada! Obama pode fazer hoje o que nenhum presidente dos EUA jamais foi autorizado a fazer, em toda a história...

JULIAN ASSANGE: É.

TARIK ALI: ... Nem na Guerra Civil. O grupo que planejou o assassinato de Lincoln – os conspiradores foram julgados por tribunal, houve processo, acusação, defesa, por mais culpados que se soubesse que eram. Não é admissível que alguém tenha ‘direito’ de ordenar um assassinato. Esse é um ataque às liberdades civis extremamente preocupante. E afeta realmente a democracia.

JULIAN ASSANGE: Se consideramos o modo como a América Latina adotou a tecnologia, foi mais ou menos como nos EUA em 1970. Os movimentos sociais que estão acontecendo na América Latina são resultado de interações tecnológicas? É impossível para um país mais industrializado adotar o modelo de um país menos industrializado. Será que... Seria preciso descartar a industrialização? Seria preciso [prescindir da industrialização] para fazer [o que os países menos industrializados] estão fazendo?

TARIK ALI: Não acho. A maioria dos estados ocidentais se desindustrializaram (felizmente) e converteram a China em potência econômica que domina o mundo, como os britânicos dominaram no século 19. A China é a fábrica do mundo...

JULIAN ASSANGE: É.

TARIK ALI: Enquanto a mão de obra vai diminuindo no ocidente, vai triplicando [na China]. Passou de um bilhão nos anos 70s e 80s, para mais de três bilhões hoje, por causa do que está acontecendo na China, na Índia, em partes da América do Sul. Acho é que as chamadas “potências avançadas” têm muito que aprender das boas coisas que estão acontecendo na América do Sul, por que não?

JULIAN ASSANGE: Noam, existe um modelo? Um modelo que funcione?

NOAM CHOMSKY: Acho que... Concordo com Tarik – há, mesmo, muitos modelos –, mas... Não acho que as forças populares preocupadas com mudar suas sociedades devam procurar modelos. Acho que devem criar modelos. E é justamente o que está acontecendo. Então, na América do Sul, onde houve muito progresso, estão desenvolvendo modelos a serem adotados, por exemplo, na Bolívia. Uma das coisas mais impressionantes que aconteceu ali foi que a parte mais oprimida da população em todo o hemisfério, a população indígena, chegou ao campo político. De fato, o que aconteceu é que tomaram o poder político e agora trabalham para promover seus próprios interesses. Está acontecendo também no Equador e também, até certo ponto, no Peru. Estão desenvolvendo modelos novos e significativos. Há vários aspectos desses modelos, que o ocidente bem faria se tratasse de adotá-los rapidamente, em vez de só pensar em derrubar governos e tentar acabar com seus projetos.

JULIAN ASSANGE: Sempre se disse que “capitalismo e democracia caminham juntos”. A China parece ser exemplo perfeito de que... De fato, parece ser mais eficiente como estado capitalista que como estado democrático.

TARIK ALI: Ora... Eu nunca acreditei que capitalismo e democracia andassem juntos. Os chineses, hoje o país capitalista mais bem-sucedido do mundo, não parecem ser democracia exemplar a ser copiada, no modo de funcionar. Mas também historicamente, por séculos, o capitalismo funcionou perfeitamente sem democracia alguma, até o começo do século 20. As mulheres só passaram a ter direito de votar, depois da I Guerra Mundial; e o capitalismo operou perfeitamente, mesmo sem democracia alguma. Há muitos casos de casamento feliz entre democracia-zero e capitalismo em perfeito funcionamento. 

A fantasia de que capitalismo e democracia sempre andariam juntos é invenção da propaganda da Guerra Fria, para desqualificar os russos, os europeus do leste e os chineses. É ideia de propaganda, sem qualquer fundamento em fatos históricos.

JULIAN ASSANGE: Noam?

NOAM CHOMSKY: Acho que, em primeiro lugar, não vivemos em sociedades propriamente capitalistas. Só conhecemos uma ou outra variedade de capitalismo de Estado – onde o Estado é o principal capitalista. Por exemplo... Nos EUA a influência do Estado no capitalismo é gigantesca. Nós três, agora, estamos reunidos nessa teleconferência, graças a uma revolução tecnológica, Internet, computadores, satélites, microeletrônica etc. A maior parte de tudo isso foi desenvolvido em agências estatais. Nos anos 50s e 60s, nesse prédio onde estou agora, no Instituto Tecnológico de Massachusetts, o MIT, estavam em desenvolvimento praticamente todos ou quase todos os projetos que levaram aos objetos tecnológicos que conhecemos hoje – quase todos, ou muitos deles, desenvolvidos com financiamentos do Pentágono. Houve financiamento para praticamente tudo, invenção, criação, produção, compra, ao longo de décadas. Tudo que, depois, chegou ao setor privado para ser comercializado e gerar lucro dependeu, antes, do setor estatal. E antes disso...

JULIAN ASSANGE: Na década dos 30s, segundo literatura da época, os soviéticos também diziam que o sistema deles era mais eficiente; e que, como era o mais eficiente também na indústria, seria fatalmente dominante. E os nazistas, idem, diziam exatamente a mesma coisa do sistema de produção nazista, que quem investisse mais massivamente em tecnologia e produzisse indústria mais eficiente dominaria todas as forças em volta. Talvez, algum dia, cheguemos todos a entender o que todos tentaram; e consigamos ser condescendentes uns com os outros. Talvez se chegue à simples decência humana.

Por hora, o que se sabe é que, independente do ideal do sistema a que aspiremos, se um sistema novo não é comparativamente mais eficiente que o velho, o sistema velho, o mais eficiente, sim, dominará o menos eficiente e, imediatamente depois o incorporará, como mais um obstáculo ideológico a ser superado por quem prefira outro tipo de sistema.

TARIK ALI: É, acontece exatamente assim, mas só se o sistema mais eficiente for mais eficiente também militarmente. Hoje, por exemplo, os EUA são sistema econômico fraquíssimo, em frangalhos. EUA está naufragado na própria dívida interna, vive crise estrutural profunda, como Noam já explicou tantas vezes. Mas é país militarmente muito poderoso e usa a própria força militar para dominar outras regiões do planeta... Algumas delas talvez estejam em melhor situação econômica que os EUA... mas não têm a mesma força militar. Esse é o problema do mundo, hoje.

JULIAN ASSANGE: O conflito entre o desejo de fazer algo por razões ideológicas e a realidade prática é consequência de que o totalitarismo capitalista talvez seja o sistema mais eficiente. E que portanto dominará.

NOAM CHOMSKY: Não. O sistema capitalista, totalitário ou não totalitário, não é sistema eficiente. Veja a China. Teve crescimento espetacular mas... A China cresceu como linha de montagem. De fato, a China ainda é, sobretudo, a linha de montagem dos países industrialmente avançados que a cercam: Japão, Taiwan, Coreia do Sul. Mas veja, por exemplo, a Foxconn, essa enorme e horrível fábrica na China, cujas condições de trabalho são grotescas. A fábrica pertence a Taiwan, produz computadores Apple, iPods, computadores Dell, etc. O que aconteceu nos últimos anos é que a China serviu como linha de montagem para os países industriais avançados de sua periferia e para as multinacionais ocidentais. Claro que, mais cedo ou mais tarde, a China começará a subir os degraus do progresso tecnológico. De fato, já está acontecendo. A China já começou a inovar com células de energia solar e, nisso, já está à frente de outros países. E o mesmo acontecerá em outros campos. Mas é progresso longo e lento.

JULIAN ASSANGE: Tariq, você e Noam têm longo passado como ativistas. Quando se vê a atual geração de ativistas no Ocidente, que começa a radicalizar nas posições políticas, acho que é uma juventude ‘radicalizada pela Internet’. Acho que essa é a melhor maneira de descrevê-los. O que você gostaria de dizer a eles? Que experiência vocês acumularam nessas muitas batalhas ao longo de décadas, e podem transmitir a eles? Porque acho que num certo momento, talvez nos anos 80s ou 90s, a tradição de dissidência no ocidente sofreu uma interrupção. Tariq?

TARIK ALI: Cuido de não dar conselhos aos mais jovens, porque as gerações são muito diferentes umas das outras; e dado que o mundo também mudou muito, o único conselho universal que posso dar é que não se rendam. Estão passando por tempos difíceis e sabem, ou pelo menos sentem, que está tudo perdido. Com isso, muitos se tornam passivos. E a passividade muitas vezes leva ao desespero. Acho extremadamente importante para os jovens que estão crescendo hoje, que se deem conta de que têm de manter-se ativos: nada lhes será dado de bandeja. É minha única lição, frente aos novos radicais. Não se rendam. Tenham fé. Não acreditem no que ouçam. Sejam críticos do sistema que nos domina. Mais cedo ou mais tarde, se não for para essa geração, para a próxima, as coisas mudarão.

JULIAN ASSANGE: Noam?

NOAM CHOMSKY: Muitas coisas já mudaram ao longo desses anos. Muitas vezes, para melhor, e mudaram porque muita gente empenhada, dedicada, comprometeu-se com o que faz. A história não acabou. Há caminhos à frente e se pode fazer alguma coisa. E, sim, há problemas muito, muito sérios. Se tudo continuar pelo caminho que se vê hoje, o mais provável é que enfrentemos a destruição de qualquer possibilidade de sobrevivência digna, simplesmente porque o mundo consome combustível fóssil. Claro que é assunto sério. Parece... aqueles lêmures que, [quando falta comida], se atiram no precipício. 

********* Fim da entrevista **********