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domingo, 29 de março de 2015

Como ler a guerra contra o Iêmen

26/3/2015, [*] As'ad Abu Khalil – The Angry Arab
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Muhammad bin Sultan, Min. da Defesa da Arábia Saudita
Já se pode dizer que será muito mais divertido assistir à segunda geração da Casa de Saud, enquanto procura o próprio caminho na política regional e internacional.

O rei Faysal acreditava que a estabilidade do regime e sua preservação exigiam que se recorresse ao máximo sigilo e a muita cautela na promoção dos interesses do regime saudita pelo mundo. Por isso, a família real aperfeiçoou a arte da dissimulação, sobretudo nas questões árabes-israelenses (apoiaram Sadat por trás das cortinas, ao mesmo tempo em que, em alguns momentos, financiavam também a coalizão anti-Sadat).

A nova guerra do Iêmen é também guerra dos EUA: é um presente que os EUA dão aos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) que não gostam das políticas dos EUA no Egito, Síria e Iêmen. O regime saudita agora se aliou à opção israelense: estará mais alinhado com os interesses israelenses na região e será também mais agressivo e violento na busca dos interesses do regime.

Qatar e UAE foram os primeiros países a aberta e oficialmente participar em guerra total na Líbia, e a família real saudita não gostou de assistir o Primeiro-Ministro do Qatar comandando a Liga Árabe de 2010 a 2012. O regime saudita tomou as coisas em suas mãos e decidiu embarcar numa política alternativa no Egito.

Países do CCG - Conselho de Cooperação do Golfo
Em todas as questões da política árabe, o regime saudita está alinhado ao lado de Israel. Que ninguém se engane quanto a isso: Israel é o membro secreto da coalizão de países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) que está bombardeando o Iêmen.

Nos anos 1960s, o regime saudita pôs fogo na guerra do Iêmen, para arrasar uma alternativa republicana e progressista ao regime reacionário alucinado (e naquela guerra Israel forneceu armas ao lado saudita). Na guerra de hoje, o CCG apoia um regime fantoche corrupto e reacionário criado por Arábia Saudita e EUA.

A Arábia Saudita jamais permitiu que o Iêmen tivesse alguma independência. A Arábia Saudita sempre viu nela mesma a legítima herdeira do poder imperial britânico na península.

Os huthis (com os quais nada tenho, absolutamente nada, em comum) são um bando de reacionários , mas que foram criados como resultado das próprias políticas sauditas e da guerra que o regime saudita moveu contra o Iêmen e seu então fantoche, ‘Ali’ Abdullah Salih.

O sul do Iêmen conheceu o único estado marxista que jamais houve no mundo árabe, e o experimento foi sabotado pela muito reacionária Casa de Saud.

Essa nova guerra tem um valor de entretenimento, com o regime saudita fazendo guerra, aberta e ativamente, contra outro país árabe. Quem não adorará ver, outra e outra vez, os huthis humilharem o exército saudita no campo de batalha (procurem em Youtube a derradeira batalha dos huthis contra os sauditas, com soldados sauditas correndo feito coelhos para salvar a própria vida). E quem não quer ver mais um rebento malcriado da família real saudita liderando seu exército para mais uma humilhação no campo de batalha?!

Grande protesto Houthi em Sanaa, no Iêmen (2014)
Em toda a guerra no Iêmen, o regime saudita sempre patrocinou a opção que assegurasse máxima longevidade para a guerra e a destruição. A nova guerra não é exceção.

Jamais pensei que o fim do regime saudita seria acelerado pela segunda geração de príncipes sauditas. Jamais pensei que pudesse haver príncipe mais incompetente e mais corrupto que Khalid bin Sultan: pois parece que há.

Oh, EUA e Israel, vosso homem é Muhammad bin Sultan (visto na foto acima, quando comandava seus soldados em batalha, sem sair do próprio escritório). Aproveitem!
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[*] As'ad AbuKhalil (em árabe: أسعد أبو خليل) (nascido em 16/3/1960) libanês−americano é professor de Ciência Política formado pela California State University, Stanislaus. É o autor doHistorical Dictionary of Lebanon (1998), Bin Laden, Islam & America's New “War on Terrorism” (2002) e The Battle for Saudi Arabia (2004). Atualmente anima o blog The Angry Arab News Service. Abukhalil nasceu em Tiro,no Líbano, e cresceu em Beirute. Recebeu seu bacharelado e mestrado em Ciência Política na American University de Beirute, e Ph.D. em Governo Comparativo na Georgetown University. Abukhalil é atualmente professor na California State Stanislaus. Foi, por curto período, professor visitante na UC Berkeley. Além disso, ele ensinou na Tufts University, Georgetown University, George Washington University, Colorado College, California State University Stanislaus, e Randolph-Macon Woman’s CollegeDescreve-se como “um ex-marxista-leninista” e “ateu secularista”. É pró−Palestina, descreve-se como anti-sionista que apoia um Estado Palestino secular. É defensor do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Critica o sionismo, a política externa dos EUA, do Irã, da Arábia Saudita e de ambos, Fatah e Hamas, nos TPO’s; e de todas as facções rivais no Líbano, incluindo o xiita Hezbollah. É altamente crítico da influência do lobby de Israel nos EUA. Em um debate televisionado que foi ao ar na TV Al-Jazeera em 23/2/2010 Abukhalil afirmou que o Presidente dos EUA, Barack Obama, é cúmplice do lobby sionista, tanto em termos de Política Externa como de Política Interna. Abukhalil também afirmou que “Os sionistas querem nos amordaçar, de modo que não possamos fazer oposição às guerras, violência ou ódio a Israel”.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Exército britânico cria força especial de combatentes de Facebook

2/2/2015, [*] As’ad AbuKhalil − The Angry Arab News Service
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O exército britânico está criando uma força especial de combatentes de Facebook, com treinamento para operações psicológicas e uso das mídias sociais para combater em fronts não convencionais da era da informação”.

Além dos britânicos, também os exércitos de Israel e dos EUA investem pesadamente em treinamento para operações psicológicas. Em contexto de combates ininterruptos, 24 horas de noticiário, smartphones e mídias sociais como Facebook e Twitter, a força armada já se prepara para controlar também completamente a narrativa”.

[*] As'ad AbuKhalil (em árabe: أسعد أبو خليل) (nascido em 16/3/1960) libanês−americano é professor de Ciência Política formado pela California State University, Stanislaus. É o autor doHistorical Dictionary of Lebanon (1998), Bin Laden, Islam & America's New "War on Terrorism" (2002) e The Battle for Saudi Arabia (2004). Atualmente anima o blog, The Angry Arab News Service. Abukhalil nasceu em Tiro,no Líbano, e cresceu em Beirute. Recebeu seu bacharelado e mestrado em Ciência Política na American University de Beirute, e Ph.D. em Governo Comparativo na Georgetown University. Abukhalil é atualmente professor na California State Stanislaus. Foi, por curto período, professor visitante na UC Berkeley. Além disso, ele ensinou na Tufts University, Georgetown University, George Washington University, Colorado College, California State University Stanislaus, e Randolph-Macon Woman’s College.Descreve-se como “um ex-marxista-leninista” e “ateu secularista”. É pró−Palestina, descreve-se como anti-sionista que apoia um Estado Palestino secular. É defensor do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Critica o sionismo, a política externa dos EUA, do Irã, da Arábia Saudita e de ambos, Fatah e Hamas, nos TPO’s; e de todas as facções rivais no Líbano, incluindo o xiita Hezbollah. É altamente crítico da influência do lobby de Israel nos EUA. Em um debate televisionado que foi ao ar na TV Al-Jazeera em 23 de fevereiro de 2010 Abukhalil afirmou que o presidente dos EUA, Barack Obama, é cúmplice do lobby sionista, tanto em termos de Política Externa como de Política Interna. Abukhalil também afirmou que “Os sionistas querem nos amordaçar, de modo que não possamos fazer oposição às guerras, violência ou ódio a Israel”.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A “correspondente” do New York Times, de Gaza: “Jornalismo” de inventar “contextos”

24/7/2014, [*] As’ad AbuKhalil, The Angry Arab
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Já vi essa rotina antes. Quando os fatos em campo falam contra Israel e sua imagem no mundo, os sionistas entram em pânico e põem-se a pressionar os principais jornais nos EUA.

Foi o que fizeram em 1982 e fazem sempre em todos os novos eventos das guerras e massacres israelenses. Acabam sempre arrancando promessas dos editores, de que publicarão mais ‘contextos’ e matérias ‘de contextualização’, para esvaziar de qualquer conteúdo algum noticiário sobre a realidade dos crimes de guerra e massacres israelenses.

Há dois dias, Anne Barnard, correspondente do NYTimes em Gaza, só publica as tais matérias ‘'de contexto'’.

Anne Barnard
Quando noticiou sobre a realidade em Gaza, fez bom trabalho. Mas ultimamente, são só contextos e mais “contextos”, quer dizer: só propaganda para promover os interesses militares de Israel.

Hoje, pelo Twitter, enviei a ela as seguintes perguntas:

1. − A senhora alguma vez escreveu da Síria, sobre como os rebeldes sírios operam em escolas e locais de culto?
2. − E o fato de que os rebeldes sírios usam locais civis apareceu ALGUM DIA nos jornais e na TV dos EUA para justificar que o governo sírio atacasse locais onde se abrigam civis?

O que ela respondeu, já se sabia desde antes de ela responder:

Mas é indiscutível que os militantes operam em áreas civis em Gaza. (???)

É meeeeeeeeeeeeeeesmo, Sra. Barnard?!

E onde a senhora queria que eles operassem? Na lua?! Os combatentes do Hamás são iguais aos combatentes do Hezbollah: são as pessoas que vivem em área ocupada e que se apresentam como voluntários da resistência contra a ocupação. De onde operariam?!

Deveriam talvez reunir-se, digamos, num estádio, e convidar Israel para bombardeá-los? E onde operava a resistência francesa ou a resistência argelina? De outro planeta?!

Nesse ponto, a Sra. Barnard faz uma analogia:

Algumas das táticas do Hamás são cópias das de outros grupos insurgentes, como o IRA (Exército Republicano Irlandês) e os Contras nicaraguenses.

Engraçado! Por que será que a “correspondente” do NYTimes não incluiu em sua listinha os sempre glorificados “rebeldes” sírios?!


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[*] As'ad AbuKhalil (em árabe: أسعد أبو خليل) (nascido em 16/3/1960) libanês−americano  é professor de Ciência Política formado pela California State University, Stanislaus. É o autor do Historical Dictionary of Lebanon (1998), Bin Laden, Islam & America's New "War on Terrorism" (2002) e The Battle for Saudi Arabia (2004). Atualmente anima o blog, The Angry Arab News Service. Abukhalil nasceu em Tiro,no Líbano, e cresceu em Beirute. Recebeu seu bacharelado e mestrado em Ciência Política na American University de Beirute, e Ph.D. em Governo Comparativo na Georgetown University. Abukhalil é atualmente professor na California State Stanislaus. Foi, por curto período, professor visitante na UC Berkeley. Além disso, ele ensinou na Tufts University, Georgetown University, George Washington University, Colorado College, California State University Stanislaus, e Randolph-Macon Woman’s College. Descreve-se como “um ex-marxista-leninista” e “ateu secularista”. É pró−Palestina, descreve-se como anti-sionista que apoia um Estado Palestino secular. É defensor do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Critica o sionismo, a política externa dos EUA, do Irã, da Arábia Saudita e de ambos, Fatah e Hamas, nos TPO’s; e de todas as facções rivais no Líbano, incluindo o xiita Hezbollah. É altamente crítico da influência do lobby de Israel nos EUA. Em um debate televisionado que foi ao ar na TV Al-Jazeera em 23 de fevereiro de 2010 Abukhalil afirmou que o presidente dos EUA, Barack Obama, é cúmplice do lobby sionista, tanto em termos de Política Externa como de Política Interna. Abukhalil também afirmou que “Os sionistas querem nos amordaçar, de modo que não possamos fazer oposição às guerras, violência ou ódio a Israel”.

domingo, 18 de agosto de 2013

Agentes de Sisi no Egito

17/8/2013, As’ad AbuKhalil, The Angry Arab News Service
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Militantes da Fraternidade Muçulmana assassinados pelo exército egípcio em 14/8/2013
Por mais que eu deteste a Ikhwan [Fraternidade Muçulmana], por mais que eu saiba do perigo que representam, e por mais que eu tenha apoiado a repressão relativamente limpa que Nasser moveu contra eles, e por mais que eu saiba do sectarismo da Ikhwan, não tenho, mesmo assim, qualquer dúvida de que os atos de violência contra igrejas e outros alvos esta semana (11 a 17 de ago/2013) foram perpetrados por agentes da polícia secreta de Sisi:
As'ad AbuKhalil

Também parecia haver agentes provocadores. Numa manifestação pró-Mursi, dois homens mascarados com uma metralhadora faziam-se de islamistas. Primeiro, pareciam apoiar a manifestação, tentando seduzir pessoas para suas fileiras. Depois, viraram as armas para as pessoas, que fugiam em pânico. Quem são esses homens armados? – perguntou aterrorizada, uma mulher entre os apoiadores de Mursi.
(em 17/8/2013, no New York Times em: “Blood and Chaos Prevail in Egypt, Testing Control”)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Primeiro foram os EUA, a querer civilizar (à bala) os africanos...


14/1/2013, As’ad Abu Khalil - The Angry Arab News Service
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

As'ad Abu Khalil
Por anos e anos os EUA tentaram conter o crescimento dos grupos de militância islamista na Região, implementando aqui o mais ambicioso programa de contraterrorismo jamais visto nessas longas, turbulentas trilhas do Saara.

Mas com os militantes avançando sempre mais pelo deserto, ano passado alguns comandantes militares das unidades de elite do Mali – que receberam anos e anos de treinamento atento por militares também de elite dos EUA – desertaram no calor da batalha, precisamente quando mais se precisava deles – e levaram com eles armas, soldados, caminhões, blindados e as novas competências militares recém-adquiridas, para usar contra o inimigo, segundo informaram altos oficiais militares (não desertores) do Mali.

Mapa político do Mali mostrando a região em poder dos islamistas
(hachurada em vermelho claro)

“Foi completo desastre” – disse um dos vários altos oficiais do Mali que confirmaram as deserções.

Em seguida, um dos oficiais que foram treinados pelos norte-americanos derrubou o governo eleito do Mali. Assim se criou o cenário perfeito para que mais de metade do território nacional caísse em mãos dos extremistas islamistas.

Aviões-espiões e aviões-robôs-de-vigilância dos EUA, os drones, bem que tentaram pôr ordem na confusão generalizada, mas os oficiais norte-americanos e seus aliados ainda não têm, sequer, ideia clara de contra quem ou o quê lutam.

... e agora, chegaram os franceses

Agora, apesar dos repetidos avisos emitidos pelos EUA, de que assalto direto contra aquela fortaleza islamista poderia gerar uma onda de terrorismo por todo o mundo, com alvos até na Europa... os franceses decidiram entrar (também) em guerra no Mali. [1]



Nota dos tradutores
[1] 13/1/2013, New York Times, Adam Nossiter, Eric Schimitt e Mark Mazzetti em: French Strikes in Mali Supplant Caution of U.S.

Soldados britânicos num cargueiro do exército inglês carregado com material francês, 
para entrega em Bamako, Mali (ex colônia francesa)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Pepe Escobar – “E aí, meu irmão, cadê você?*”


26/6/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online  - THE ROVING EYE
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
O mundo árabe e, de fato, o mundo inteiro, esperava ansiosamente para saber o que diria o novo presidente do Egito, recém eleito, quadro da Fraternidade Muçulmana (FM), Mohammed Mursi, em matéria de política externa, no discurso da vitória.

Clima de anticlímax. Do Egito, falou só de passagem (que respeitará “seus acordos internacionais” – expressão em código, referindo-se aos acordos de Camp David, de 1979, com Israel. Telavive e Washington que não se preocupem. Quanto à rua árabe, pode continuar preocupada.

Lacônico, Mursi parece ter evitado o grande problema. Mas nesse ambiente volátil, ccntrolado de facto pelo orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas, aparelho da ditadura militar egípcia, é como se a FM tivesse dito que não pensará duas vezes, se tiver de jogar os palestinos debaixo de um ônibus lerdo, se esse for o preço para manter-se no poder.

Pois nem isso bastou para acalmar a direitosfera nos EUA – com os cães raivosos de sempre pontificando sobre como o presidente Barack Obama “perdeu” o Egito, como se os EUA estivessem às vésperas de serem soterrados sob uma tempestade de areia movida a al-Qaeda.

As'ad AbuKhalil
Mais uma vez, coube ao blogueiro Angry Arab, As'ad AbuKhalil, introduzir algum muito necessário bom-senso na discussão. As'ad escreveu que:

“... as eleições, no mundo árabe, ficaram resumidas a uma disputa entre o dinheiro saudita e o dinheiro do Qatar”.

E, no Egito, a Casa de Thani, do Qatar venceu.

É sempre importante lembrar que a Casa de Saud e a FM vivem empenhadas em furiosa discussão sobre o significado do Islã puro. A política exterior do Qatar é apoiar a FM, sempre que possível. Do ponto de vista de Doha, a vitória é imensa: há hoje um islamista, na presidência da nação-chave no mundo árabe. Todos os islâmicos comprometidos, do Maghreb a Benghazi, e de Teerã a Kandahar, também têm motivos de júbilo.

Paralelamente, o candidato oficial à presidência dos EUA, a União Europeia, Israel, a Casa de Saud e o Ancient Regime egípcio – o ex-general da Força Aérea do Egito, Ahmed Shafik – perderam. Assim também, em teoria, a contrarrevolução no Egito, perdeu. Não. De fato, não. Ainda não.

Só os ingênuos terminais acreditarão que o orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas governa de facto o Egito sem consultar Washington e a Casa de Saud, a cada passo. Antes de Mursi ser oficialmente declarado vencedor, houve um acerto por trás das cortinas – noticiado em Ahram Online [1].

O acerto CSFA-FM resume-se a Morsi ter sido obrigado a aceitar trabalhar “segundo os parâmetros definidos pelo CSFA”. Implica que o aparelho da ditadura militar mandará em Mursi e mandará no parlamento. Só depois de sacramentado esse acerto, Mursi foi “legitimamente anunciado como presidente eleito”.

Droga! Apostamos no cavalo errado

Mohamed Mursi
A Casa Branca cumprimentou devidamente Mursi – e cumprimentou também o Conselho Supremo das Forças Armadas, aparentemente sem escolher lado. Mas Washington apressou-se a lembrar que o governo egípcio “deve continuar a cumprir o papel de pilar da paz, segurança e estabilidade regionais” (expressão em código equivalente a “nem pensem em rediscutir Camp David”. A Casa Branca também prometeu “manter-se ao lado do povo egípcio”. Com amigos desse tipo, o “povo egípcio” – metade do qual está passando fome – tem, garantido, um luminoso futuro.

Salomônico, Obama telefonou a Mursi e Shafiq, à FM e ao CSFA. Só ingênuos terminais acreditariam que o governo dos EUA tivesse algum temor de que Shafiq – seu candidato preferido – fosse declarado presidente. Por falar em Shafik, ele já não está no Egito: teve de fugir, coberto de infâmia, já na 3ª-feira, quando o Procurador Geral do Egito iniciou processo para investigar seus imundos negócios, durante os oito anos em que serviu como ministro civil da Aviação do governo Mubarak.

Assim sendo, pode-se dizer que, doravante, o Egito seguirá dois projetos de política exterior: o da Fraternidade Muçulmana e o do Conselho Supremo das Forças Armadas. O jogo de forças dependerá de se a Fraternidade Muçulmana conseguirá restaurar o Parlamento (a Câmara Baixa) que foi dissolvido; se obtiver tantos votos num segundo turno de eleições parlamentares quantos obteve no primeiro turno (que foi anulado). Tampouco se sabe que tipo de poder terá o presidente egípcio: a nova constituição ainda não foi redigida.

Ahmed Shafik
Do ponto de vista de Washington, aconteça o que acontecer, nada alterará o rumo do dhow [veleiro] real: apoio cego a Israel, faça o que fizer; mal disfarçado apoio cego à Casa de Saud e ao Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), faça o que fizerem (incluindo repressão violentíssima contra levantes da Primavera Árabe na Arábia Saudita, Bahrain e Omã); e se alguém nos desafiar, bombardeamos ou dronamos o desgraçado, até a morte.

Do ponto de vista de Washington, a Fraternidade Muçulmana, com Mursi, pode ser declarada facilmente “contível”. Mursi não se atreverá a confrontar Israel. Morsi, muito provavelmente, dará uma de Erdogan – o primeiro-ministro da Turquia. Protestos fortes contra o brutal gulag em Gaza imposto por Telavive; apoio firme ao Hamás... mas nada que tire do lugar as relações diplomáticas e o comércio. Eventualmente, pode acontecer de a liderança israelense aceitar, finalmente, que os palestinos também são seres humanos. Mas não se recomenda a ninguém apostar nisso.

Fraternidade Muçulmana
Resta saber, nesse cenário de “dois projetos de política exterior”, que lado prevalecerá no longo prazo, a Fraternidade Muçulmana ou o Conselho Supremo das Forças Armadas. O teste crucial é o Irã. Mursi, se obtiver alguma liderança efetiva, não seguirá cegamente Washington em sua obsessão de “incapacitar” o Irã – como o Iraque foi incapacitado nos anos 1990s (o longo prelúdio antes do golpe “mudança de regime”). Vê-se uma pista do que pode estar por vir: Mursi disse à Agência de Notícias Fars, iraniana, que que que as relações Cairo-Teerã voltem ao normal. Imediatamente depois veio o desmentido do Egito, que só pode ter sido orquestrado pelo Conselho Supremo das Forças Armadas.

Olivier Roy, professor do European University Institute em Florença adverte, com razão, sobre o Egito:

Foi revolução sem revolucionários. Mesmo assim, a Fraternidade Muçulmana é a única força política organizada. (...) Sua agenda conservadora é adequada a uma sociedade conservadora, que pode acolher avanços democráticos, mas nem por isso se converteu à esquerda.” Para Roy, “a democracia não se institucionalizará no Egito, sem a Fraternidade Muçulmana. [2]

O caminho é longo e pedregoso. Mursi terá de prestar contas não só ao Conselho Supremo das Forças Armadas, mas também aos líderes extremamente conservadores da Fraternidade Muçulmana; afinal de contas, o próprio Mursi, até ontem, não passava de quadro desconhecido do grande público. Mursi sabe que confrontar o Conselho Supremo das Forças Armadas é confrontar Washington. Se tentar qualquer medida mais ousada, logo acharão um jeito de matá-lo softly, suavemente, método muito prezado pela secretária Clinton.

Mas... E se Mursi conseguir mobilizar milhões, nas ruas? Estão abertas as apostas sobre onde está, de fato, esse Irmão.

Nota de rodapé
*Orig. O Brother, Where Art Thou? [lit. “Irmão, onde estais?”] é título de filme dirigido pelos irmãos Coen, 2002, adaptação da Odisseia, no “sul profundo” dos EUA; três fugitivos de uma prisão procuram um tesouro escondido, perseguidos, incansavelmente, pelos guardas e por vários outros tipos de “eventos”. Informações extraídas de “E aí meu irmão, Cadê você?



Notas dos tradutores
[1] 22/6/2012, Al-Ahram Online, Dina Ezzat em: A deal could be reached to end current confrontation: SCAF, Brotherhood sources.
[2] 20/1/2012, Washington Post, Olivier Roy em: A new generation of political Islamists steps forward

terça-feira, 12 de abril de 2011

O Banco Mundial vomitou mais um “conselho”!

Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Em relatório distribuído hoje, o Banco Mundial recomenda que o mundo gaste mais dinheiro para “construir governos estáveis” (epa!) e para promover a “justiça” (epa! epa!) e as “polícias” (epa! epa! e mais epa!), que em “saúde e educação”.



(agradeço a Hannoud, pela dica). O relatório está em: WDR2011 FULL TEXT. (em inglês)

Blog The Angry Arab, 11/4/2011, em: The World Banks vomits advice