Mostrando postagens com marcador Genocídio de Palestinos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Genocídio de Palestinos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Palestina − A lógica da violência israelense

30/7/2014, [*] Greg Shupak, Jacobin Magazine blog.
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Blindados de Israel invadem Gaza
A violência dos israelenses não é “sem sentido”: ela segue uma lógica colonial.

Entende-se que, para muitos, as ações de Israel na Faixa de Gaza sejam massacre e carnificina como tais. É interpretação plausível para a matança de 1.284 palestinos, pelo menos 75% dos quais são civis, e ferir outros 7.100.

Ver Israel como dedicado a derramamento gratuito de sangue parece até mais razoável, como conclusão, à luz do massacre de 63 pessoas em Shujaiya depois de “uso extensivo de fogo de artilharia em dúzias de áreas populosas em toda a Faixa de Gaza” que deixou cadáveres “espalhados pelas ruas”, ou o bombardeio de abrigos da ONU abertos para acolher os que fugiam da violência. É conclusão também tentadora, baseada em relados de Khuza’a, área no interior do território da Faixa, e que também foi cenário de mais um massacre pelos israelenses.

Mas descrever essa violência como ‘'maldade em si'’, como ‘'perversão'’ ou como ato sem outro objetivo além do assassinato em si deixa escapar a própria lógica que preside tudo que Israel está fazendo com sua Operação Linha de Proteção, agora, mas que de fato faz há muito tempo, ao longo de toda sua história.

Como diz Darryl Li, em A Solução Nenhum Estado,

“Desde 2005, Israel vem desenvolvendo um experimento raro, talvez sem precedentes, de gestão colonial na Faixa de Gaza”, procurando sempre “isolar os palestinos de qualquer contato com o mundo exterior, torná-los absolutamente dependentes da caridade externa” e, simultaneamente, cuidar de “absolver Israel de qualquer responsabilidade em relação a eles”.

Essa estratégia, prossegue Li, é o modo pelo qual Israel trabalha para manter maioria de judeus nos territórios que controla, de modo a poder continuar a negar direitos iguais para o restante da população.

Gaza - escola da ONU, aulas sob escombros
Suprimir a resistência palestina é crucial para o sucesso do experimento israelense. Mas há um corolário, a saber, uma interação cíclica entre o colonialismo israelense e o militarismo norte-americano.

Como explica Bashir Abu-Manneh, há uma relação entre o imperialismo norte-americano e as políticas sionistas.

Políticos norte-americanos creem que uma aliança com Israel ajuda os EUA a controlar o Oriente Médio. Assim sendo, os EUA viabilizam o colonialismo e a ocupação israelenses, o que, por sua vez, cria contextos para mais intervenções dos EUA na região, que podem ser usados para tentar aprofundar a hegemonia norte-americana.

O autor diz também que “os EUA têm determinado grandes resultantes econômicas e políticas” na região desde, pelo menos, 1967, e que Israel desempenha “papel crucial nas realizações norte-americanas. Em Israel-Palestina, o que se tem é que a força e uma paz colonial alternaram-se como principais instrumentos de política”. Mas, em todos os casos, permanece sempre “o mesmo objetivo, constante: a supremacia dos judeus na Palestina – o máximo possível de terra, com o mínimo possível de palestinos sobre ela”.

O que os dois analistas, Li e Abu-Manneh destacam é a preocupação de Israel com manter os palestinos em estado de impotência. Conduzida simultaneamente por sua própria agenda de ocupação com colonização e por sua função como parceira dos EUA no sistema geopolítico, Israel dedica-se a tentar equilibrar (I) seu desejo de maximizar o território que controla e (II) o imperativo de minimizar o número de palestinos vivos nos territórios que Israel aspira a usar para seus próprios objetivos.

Israel destrói a infraestrutura da Palestina
Um modo de destruir qualquer sinal do poder dos palestinos tem sido deixado bem à vista na Operação Linha de Proteção, durante a qual a violência dos israelenses foi aplicada a detonar quaisquer sinais da independência palestina – daí a conclamação que fez o ministro da Economia, Naftali Bennett, para “derrotar o Hamás”.

Resultado disso tudo, é que os palestinos não estão expostos exclusivamente à violência mais extrema. Também a capacidade de os palestinos viverem autonomamente na Palestina histórica tem sido atacada. A destruição da infraestrutura no recente ataque contra a única usina de produção de eletricidade de toda a Faixa de Gaza é sinal bem claro disso. O massacre-crime israelense em curso não põe fim só à vida de indivíduos palestinos, mas também visa a arrancar dos palestinos como povo a capacidade de viver independentemente em sua terra tradicional histórica.

Quando nega aos refugiados o direito natural protegido por lei de retornar, Israel deixa ver abertamente a tática de que se serve para manter o quadro demográfico com que sonha, criando condições inóspitas para a existência autônoma dos palestinos; ao mesmo tempo, a mesma tática também pode assegurar a Israel “o máximo possível de terra, com o mínimo possível de palestinos sobre ela”. 

A violência regida por essa lógica não é exclusividade do sionismo. É traço central no colonialismo e tem paralelo histórico, por exemplo, na Trilha das Lágrimas nos EUA ou no Canadá, com a limpeza étnica das planícies mediante o processo de provocar premeditadamente grandes fomes entre os povos nativos. A Operação Linha de Proteção, dos israelenses, hoje, é ação desse tipo.

Hospital de El-Wafa - atacado por míssil de Israel em 11/7/2014
Impedir que um povo proveja a própria sobrevivência é um meio de sabotar a capacidade de viverem autonomamente. Esse é o sentido do ataque de Israel contra 46 barcos pesqueiros de Gaza, ou dos ataques do 16º Dia da Operação Linha de Proteção contra as áreas plantadas no norte da Faixa de Gaza, na cidade de Gaza, na Faixa de Gaza Central, em Khan Yunis e em Rafah. Assim é que se tem de entender que Israel tenha-se dedicado a destruir 2/3 dos moinhos de trigo de Gaza, e unidades que produziam ração para 3.000 animais (para nem falar dos animais cuja morte também foi provocada). Assim é que se deve interpretar o que a Dra. Sara Roy, de Harvard, descreve como deliberada destruição de longo prazo e o desmanche da economia da Faixa de Gaza, ações que, a menos que haja aumento considerável na ajuda oferecida pelo Alto Comissariado para Refugiados da ONU, provocarão fome em massa.

Impedir absolutamente que os palestinos promovam a própria sobrevivência e de suas famílias é também roubar-lhes a capacidade de funcionar por conta própria. Essa é uma das implicações de “drogas psicotrópicas para pacientes de doenças mentais, trauma e ansiedade” terem desaparecido dos estoques de medicamentos e de o hospital de Shifa;

(...) precisar com urgência de neurocirurgiões, anestesiologistas, cirurgiões plásticos e gerais e ortopedistas, além de 20 leitos para UTI, uma máquina digital C-ARM para cirurgias ortopédicas, três mesas de cirurgia e sistema de iluminação para todas as cinco salas cirúrgicas.

Essa é a ação – como dizem os Médicos sem Fronteiras, em conclamação para que Israel “pare de bombardear civis cercados em locais sem saída” – que já matou dois paramédicos e feriu dois outros, quando tentavam resgatar feridos de Ash Shuja’iyeh. Essa é a implicação de Israel ter destruído 22 instalações de atendimento a doentes e feridos, inclusive pelo menos um ataque direto contra o hospital al-Aqsa e a destruição do hospital o hospital de reabilitação el-Wafa, que foram atacados dias seguidos, várias vezes.

Israel destrói Mesquitas e centros de refugiados
Esses ataques a hospitais foram causa de uma carta aberta publicada num dos mais prestigiosos periódicos médicos do mundo, The Lancet, na qual 24 médicos e cientistas relatam ter ficado

(...) horrorizados ante o massacre de civis em ações militares em Gaza, disfarçadas como se fossem ações para punir terroristas, massacre que não poupou ninguém, inclusive pacientes em cadeiras de rodas, em camas hospitalares e em leitos de doentes em hospitais.

Ataques a instituições religiosas, traço que se vê em todos os projetos de ocupação com colonização, são outro modo de interferir na independência dos palestinos. 88 mesquitas de Gaza foram danificadas, o que equivale a dizer que foram danificados 88 pontos nos quais as comunidades gazenses reuniam-se e tinham contato entre elas.

O ataque de Israel contra a cultura palestina também deve ser compreendido como ato de violência contra os palestinos como povo. As culturas não são estáticas e vivem processo infinito de construção, desconstrução e reconstrução das próprias narrativas, de tal modo que os grupos se autocompreendem como específicos e são compreendidos como tais por membros de culturas diferentes.

A capacidade de um povo para contar suas próprias histórias sobre eles mesmos é aspecto chave de sua existência autônoma. Impedir a capacidade de os palestinos desenvolverem essas práticas e respectivas narrativas é mais um crime de Israel, quando destrói a casa do poeta Othman Hussein e a casa do artista Raed Issa; quando mata o cameraman Khaled Reyadh Hamad em Shujaiya e Hamdi Shihab, motorista da agência de notícias Media 24 de Gaza; quando ataca jornalistas falantes de árabe da al-Jazeera e da BBC; ou quando destrói o prédio onde funcionava a rádio Sawt al-Watan.

Israel destruiu a casa do poeta Othman Hussein 
Minar a capacidade de um povo educar os seus jovens, treiná-los para trabalhar e ensiná-los a pensar criticamente é mais um meio para minar a possibilidade de existência independente. Por isso Israel destruiu completamente ou em parte, 133 escolas palestinas.

Ao mesmo tempo em que destrói instituições culturais e educacionais para impedir que os palestinos reproduzam-se culturalmente, Israel promove matança em massa de 229 crianças palestinas, com 1.949 outras crianças feridas; é o meio mais claro, e mais horrendo, de literalmente cortar a capacidade de os palestinos continuarem a existir como grupo. É o significado de Israel ter traumatizado 194 mil crianças, dependentes hoje de assistência psiquiátrica. É o significado também de Israel racionar o atendimento a “cerca de 45 mil grávidas na Faixa de Gaza, das quais 5 mil foram desalojadas”.

Israel impede também diretamente a vida dos palestinos quando destrói ou danifica gravemente as residências de 3.695 famílias palestinas, e cria condições nas quais se torna virtualmente impossível levar avante as atividades do dia a dia que dão forma à continuidades de outras gerações. Israel é causa hoje de 1,2 milhão de palestinos “não terem acesso, ou só terem acesso limitado a água e a serviços de esgoto, devido a danos no sistema de eletricidade ou falta de combustível para fazer funcionar geradores”.

Todos nós, cidadãos de estados que ajudam Israel a fazer o que faz, temos de forçar nossos governos a parar de colaborar com Israel. Enquanto não conseguirmos que parem, todos nós somos responsáveis por essa horrorosa violência lógica – que Israel “explica” todos os dias.


[*] Greg Shupak ensina JORNALISMO na University of Guelph no Canadá



segunda-feira, 28 de julho de 2014

Propaganda para encobrir as atrocidades que Israel comete: Como Israel “noticia” os próprios crimes de guerra

28/7/2014, [*] Patrick Cockburn, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na viela Oco do Mundo na Vila Vudu: Os “jornalistas” e “analistas” da imprensa-empresa ocidental especialmente os vira-latas do grupo GAFE (Globo, Abril, FSP, Estado) e congêneres seguem caninamente o “Dicionário de Linguagem Global do Projeto Israel 2009” do Dr. Luntz! E não sigam...

Foto tirada dia 13/7/2014 pelo jornalista dinamarquês Allan Sorrensen, na cidade israelita de Sderot – roubada aos palestinos − perto da fronteira de Gaza): Um grupo de israelenses, reunidos para assistir ao bombardeio da faixa de Gaza como se estivessem assistindo a um jogo de futebol. Umas cinquenta pessoas, em cima de uma colina, sentados em cadeiras de jardim e algumas comendo pipocas, comentam excitados os bombardeios, aplaudindo cada explosão. “É muito legal”, diz um jovem que vive em Jerusalém, a 150 km daqui, e que veio expressamente assistir aos bombardeios; é formidável estar aqui, podem-se ouvir os trovões e ver os foguetes, é muito excitante". Enviada por Harfang.
Os porta-vozes israelenses já têm muito trabalho tentando explicar como os israelenses assassinaram mais de 1.000 palestinos em Gaza, a maioria dos quais civis, em comparação com apenas 3 civis mortos em Israel por foguetes e fogo de morteiro do Hamás. Mas pela televisão e pelo rádio e pelos jornais, porta-vozes do governo israelense hoje, como Mark Regev, parecem menos enroladores e menos agressivos que predecessores, que eram muito mais visivelmente indiferentes ao número de palestinos mortos.

Há pelo menos uma boa razão para esse “aprimoramento” das capacidades de Relações Públicas dos porta-vozes de Israel. A julgar pelo que se os veem dizer, já estão trabalhando conforme um estudo feito por profissionais, bem pesquisado e confidencial, sobre como influenciar a mídia e a opinião pública nos EUA e na Europa.

Redigido pelo especialista em pesquisas e estrategista político dos Republicanos, Dr. Frank Luntz, aquele estudo foi encomendado há cinco anos por um grupo chamado “The Israel Project” [Projeto Israel], que mantém escritórios nos EUA e em Israel, para ser usado “por todos que estão na linha de frente da guerra midiática a favor de Israel”.

Cada uma das 112 páginas do folheto é marcada com “proibido distribuir ou publicar” [orig. “not for distribution or publication”], e é fácil entender por quê. O relatório Luntz – oficialmente intitulado “Dicionário de Linguagem Global do Projeto Israel 2009” [orig. The Israel project’s 2009 Global Language Dictionary] vazou quase imediatamente para Newsweek Online, mas até hoje só muito raramente mereceu atenção, e sua verdadeira importância ainda mão foi devidamente considerada.

Dr. Frank Luntz
Deveria ser leitura obrigatória para todos, sobretudo para jornalistas interessados em conhecer a política de Israel, por causa da lista de “Faça/diga X” e “Nunca faça/diga Y” dirigida aos porta-vozes de Israel.

Aquelas duas listas são altamente iluminadoras para que se compreenda a distância imensa que separa o que funcionários e políticos israelenses pensam e creem, e o que eles dizem; o que eles dizem é modelado por pesquisa mantida ativa minuto a minuto, para detalhar o que os norte-americanos desejam ouvir. Com certeza, nenhum jornalista deveria arriscar-se a entrevistar qualquer porta-voz de Israel sem conhecer muito bem aquele manual e ter-se preparado para contra-perguntar sobre os muitos temas – e sempre com as mesmas palavras e frases – que se ouvem hoje da boca do Sr. Regev e seus colegas.

O panfleto é cheio de saborosos conselhos sobre como eles devem modelar suas respostas, para diferentes audiências. Por exemplo, o estudo diz que:

(...) os norte-americanos aceitam que “Israel tem direito a ter fronteiras defensáveis”. Mas Israel não tem vantagem alguma em definir com precisão que fronteiras são essas. Evitem falar em fronteiras em termos de pré- ou pós-1967, porque isso só faz relembrar aos norte-americanos o passado militar de Israel. Essa expressão prejudica os israelenses, sobretudo no campo da esquerda. Por exemplo, o apoio da direita israelense a fronteiras defensáveis cai de 89% para menos de 60% sempre que vocês falam em termos de 1967.

E quanto ao direito de retorno dos refugiados palestinos que foram expulsos ou fugiram em 1948 e nos anos seguintes, e que nunca mais puderam retornar às próprias casas e terras? Aqui, o Dr. Luntz é muito sutil nos conselhos que dá aos porta-vozes israelenses; diz que

(...) o direito de retorno é questão difícil para que os israelenses falem dela com eficácia, porque praticamente toda a linguagem israelense soa muito semelhante à fala de “separados, mas iguais” dos racistas segregacionistas dos anos 1950s e dos defensores do Apartheid nos anos 1980s. De fato, os norte-americanos não gostam, não acreditam nisso e não aceitam o conceito de “separados, mas iguais”.
Projeto dedicado às população dos EUA, Alemanha, Inglaterra e França
Assim sendo, como devem os porta-vozes enfrentar questões que até o manual considera “difíceis”? Recomendam que a coisa seja chamada de “demanda” – porque os norte-americanos detestam gente que faz demandas. O manual ensina:

Digam portanto: “os palestinos não estão satisfeitos com o estado que têm. Agora, estão demandando mais territórios dentro de Israel”.

Outras sugestões para resposta israelense efetiva incluem dizer que o direito de retorno deve ser item de um acordo final “algum dia, no futuro”.

O Dr Luntz observa que os norte-americanos em geral temem qualquer imigração em massa para dentro dos EUA,

portanto falem sempre de “imigração palestina em massa para dentro de Israel” – e os norte-americanos sempre rejeitarão a ideia. Se mais nada funcionar, digam que a volta dos palestinos faria “descarrilhar o esforço para alcançar a paz”.

O relatório Luntz foi redigido logo depois da Operação Chumbo Derretido em dezembro de 2008 e Janeiro de 2009, quando morreram 1.387 palestinos e nove israelenses.

Um capítulo inteiro é dedicado a:

Isolar o Hamás, apoiado pelo Irã, como obstáculo à paz.

Israel assassina crianças jogando futebol na praia
Infelizmente, agora, quando está em curso a Operação Fio Protetor, iniciada dia 6 de junho de 2014, e nova matança de palestinos, há um problema grave para a propaganda de Israel, porque o Hamás está rompido com o Irã por causa da guerra na Síria e está completamente sem contato com Teerã. Só reataram relações amistosas há poucos dias – e por causa da invasão israelense.

Muitos dos conselhos do Dr Luntz tratam do tom e do modo de expor o pensamento de Israel. Diz que é absolutamente crucial mostrar vastíssima simpatia pelos palestinos:

Os persuasíveis [sic] não dão importância ao que você saiba, até que se convençam de que você lamenta muito, do fundo do coração, toda a situação. Mostre empatia PELOS DOIS LADOS!

Isso provavelmente explica por que tantos porta-vozes israelenses vão praticamente às lágrimas quando falam do sofrimento dos palestinos bombardeados por bombas e mísseis israelenses.

Em frase escrita em negrito, sublinhada e toda em maiúsculas, o Dr Luntz diz que os porta-vozes ou líderes políticos israelenses NÃO DEVEM, NÃO PODEM, nunca, de modo algum, justificar

o massacre deliberado de mulheres e crianças inocentes,

e devem reagir agressivamente contra qualquer voz que acuse Israel por tal crime. Vários porta-vozes israelenses esforçaram-se muito para seguir esse conselho na 5ª-feira passada (24/7/2014), quando 16 palestinos foram mortos num abrigo da ONU em Gaza.

Há uma lista de palavras e frases a serem usadas e uma lista de palavras e frases a serem evitadas. Há de tudo, p. ex.:

O melhor meio, o único meio, para alcançar paz duradoura, é alcançar respeito mútuo

O mais importante é que o desejo de paz de Israel com os palestinos tem de ser sempre enfatizado, porque é o que os norte-americanos mais querem que aconteça. Mas se se observarem pressões para que Israel realmente faça alguma paz, a pressão deve ser imediatamente reduzida; nesse caso, os israelenses devem dizer:

(...) um passo de cada vez, um dia depois do outro.

Expressões que serão facilmente aceitas como abordagem de bom senso, para a equação:

Deem-nos A TERRA, que lhes damos a paz.

O Dr Luntz cita como exemplo de “pegada israelense muito eficaz” a seguinte frase:

Quero muito particularmente falar às mães palestinas que perderam seus filhos. Nenhum pai ou mãe deveria ter de enterrar suas crianças.

O estudo admite que o governo israelense não quer, de fato, qualquer solução de dois estados, mas diz que isso não pode ser declarado publicamente, porque 78% dos norte-americanos são favoráveis àquela solução. Devem-se enfatizar sempre as muitas esperanças de que os palestinos progridam economicamente.

Israel vence a Copa do Mundo do GENOCÍDIO
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é citado com elogios, por ter dito que:

Já é hora de alguém perguntar ao Hamás: o que, afinal, estão fazendo para melhorar a vida de seu povo?!

A hipocrisia, aí, é inacreditável: é Israel, com os sete anos de bloqueio econômico que impõe a Gaza, quem reduziu Gaza ao estado de pobreza e miséria em que vive hoje.

Em todos os casos e ocasiões, o modo como porta-vozes israelenses apresentam os fatos é planejado para dar a norte-americanos e a europeus a impressão de que Israel desejaria muito a paz com os palestinos e estaria disposta a ceder para chegar à paz. Todas as evidências, e também o Manual do Dr. Luntz, sugerem que tudo aí, são MENTIRAS. Embora não tenha sido requisitado ou produzido com essa finalidade, poucos estudos mais reveladores foram jamais escritos sobre a Israel contemporânea, em tempos de guerra e paz.




[*] Patrick Cockburn (nasceu 5/3/1950) é um jornalista irlandês que tem sido correspondente no Oriente Médio desde 1979 para o Financial Times e, atualmente, The Independent. Está entre os comentaristas mais experientes no Oriente Médio; escreveu quatro livros sobre a história recente do  Iraque. Recebeu o vários prêmios por seu trabalho incluindo o Prêmio Gellhorn Martha em 2005, o Prêmio James Cameron em 2006 e o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009. Cockburn escreveu três livros sobre o Iraque: One, Out of the Ashes: The Resurrection of Saddam Hussein, escrito em parceria com seu irmão Andrew Cockburn, antes da guerra no Iraque. O mesmo livro foi mais tarde re-publicado na Grã-Bretanha com o título: Saddam Hussein: An American Obsession. Mais dois foram escritos por Patrick sozinho após a invasão dos EUA e após a sua reportagem premiada do Iraque. Escreve também para CounterPunch e London Review of Books.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A “correspondente” do New York Times, de Gaza: “Jornalismo” de inventar “contextos”

24/7/2014, [*] As’ad AbuKhalil, The Angry Arab
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Já vi essa rotina antes. Quando os fatos em campo falam contra Israel e sua imagem no mundo, os sionistas entram em pânico e põem-se a pressionar os principais jornais nos EUA.

Foi o que fizeram em 1982 e fazem sempre em todos os novos eventos das guerras e massacres israelenses. Acabam sempre arrancando promessas dos editores, de que publicarão mais ‘contextos’ e matérias ‘de contextualização’, para esvaziar de qualquer conteúdo algum noticiário sobre a realidade dos crimes de guerra e massacres israelenses.

Há dois dias, Anne Barnard, correspondente do NYTimes em Gaza, só publica as tais matérias ‘'de contexto'’.

Anne Barnard
Quando noticiou sobre a realidade em Gaza, fez bom trabalho. Mas ultimamente, são só contextos e mais “contextos”, quer dizer: só propaganda para promover os interesses militares de Israel.

Hoje, pelo Twitter, enviei a ela as seguintes perguntas:

1. − A senhora alguma vez escreveu da Síria, sobre como os rebeldes sírios operam em escolas e locais de culto?
2. − E o fato de que os rebeldes sírios usam locais civis apareceu ALGUM DIA nos jornais e na TV dos EUA para justificar que o governo sírio atacasse locais onde se abrigam civis?

O que ela respondeu, já se sabia desde antes de ela responder:

Mas é indiscutível que os militantes operam em áreas civis em Gaza. (???)

É meeeeeeeeeeeeeeesmo, Sra. Barnard?!

E onde a senhora queria que eles operassem? Na lua?! Os combatentes do Hamás são iguais aos combatentes do Hezbollah: são as pessoas que vivem em área ocupada e que se apresentam como voluntários da resistência contra a ocupação. De onde operariam?!

Deveriam talvez reunir-se, digamos, num estádio, e convidar Israel para bombardeá-los? E onde operava a resistência francesa ou a resistência argelina? De outro planeta?!

Nesse ponto, a Sra. Barnard faz uma analogia:

Algumas das táticas do Hamás são cópias das de outros grupos insurgentes, como o IRA (Exército Republicano Irlandês) e os Contras nicaraguenses.

Engraçado! Por que será que a “correspondente” do NYTimes não incluiu em sua listinha os sempre glorificados “rebeldes” sírios?!


_________________

[*] As'ad AbuKhalil (em árabe: أسعد أبو خليل) (nascido em 16/3/1960) libanês−americano  é professor de Ciência Política formado pela California State University, Stanislaus. É o autor do Historical Dictionary of Lebanon (1998), Bin Laden, Islam & America's New "War on Terrorism" (2002) e The Battle for Saudi Arabia (2004). Atualmente anima o blog, The Angry Arab News Service. Abukhalil nasceu em Tiro,no Líbano, e cresceu em Beirute. Recebeu seu bacharelado e mestrado em Ciência Política na American University de Beirute, e Ph.D. em Governo Comparativo na Georgetown University. Abukhalil é atualmente professor na California State Stanislaus. Foi, por curto período, professor visitante na UC Berkeley. Além disso, ele ensinou na Tufts University, Georgetown University, George Washington University, Colorado College, California State University Stanislaus, e Randolph-Macon Woman’s College. Descreve-se como “um ex-marxista-leninista” e “ateu secularista”. É pró−Palestina, descreve-se como anti-sionista que apoia um Estado Palestino secular. É defensor do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Critica o sionismo, a política externa dos EUA, do Irã, da Arábia Saudita e de ambos, Fatah e Hamas, nos TPO’s; e de todas as facções rivais no Líbano, incluindo o xiita Hezbollah. É altamente crítico da influência do lobby de Israel nos EUA. Em um debate televisionado que foi ao ar na TV Al-Jazeera em 23 de fevereiro de 2010 Abukhalil afirmou que o presidente dos EUA, Barack Obama, é cúmplice do lobby sionista, tanto em termos de Política Externa como de Política Interna. Abukhalil também afirmou que “Os sionistas querem nos amordaçar, de modo que não possamos fazer oposição às guerras, violência ou ódio a Israel”.

Israel bombardeia REPETIDAMENTE centros lotados de desabrigados

24/7/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Famílias fogem do GENOCÍDIO em Gaza
(24/7/2014)
The Onion [A Cebola] nasceu para ser jornal satírico. Ainda ontem, a manchete era:


Dar aos civis palestinos a chance de proteger-se na casa de parentes ou amigos que só seriam bombardeadas posteriormente, às vezes mais de 48 horas depois, é gesto que merece elogios, não condenação. De fato, essa foi das iniciativas mais bem-sucedidas da atual guerra”. Ya’alon acrescentou que, dado que havia muitos pontos a serem bombardeados nos quais os palestinos poderiam abrigar-se, Israel não se responsabilizava pela segurança e integridade física dos que optassem por permanecer em casa.

A sátira de ontem é a notícia de hoje.

Os militares israelenses em alguns casos avisaram que as pessoas de uma ou outra área de Gaza saíssem de suas casas, minutos antes de as casas serem bombardeadas ou invadidas.

Alguns palestinos tiveram alguns segundos, poucos, para sair, antes de um ataque, mas muitos saíram de casa e correram para os prédios das escolas da ONU. As escolas estão abertas especialmente para isso, e o pessoal da ONU está atendendo as famílias desabrigadas e mantendo militantes e armas fora dos seus prédios.

Mas as levas de desabrigados que correm para as escolas indicam aos israelenses a exata localização das escolas. O passo seguinte é o que se lê aqui:



Mais de 30 pessoas foram mortas e há mais de 100 feridos no ataque israelense contra uma escola da ONU em Gaza, que estava sendo usada como abrigo de emergência.

A correspondente de Al Jazeera, Nicole Johnston, falando de Gaza, disse que a escola em Beit Hanoun foi atacada na 5ª-feira (24/7/2014). Fontes disseram a Al Jazeera que mais de 30 pessoas foram mortas naquele ataque.

A Associated France Press obteve informação de funcionário da ONU, confirmando que “há grande número de mortos e feridos”.

Em entrevista à Al Jazeera, Robert Turner, diretor do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (UNRWA) em Gaza, disse que não houve alerta algum, dos israelenses, antes de as bombas começarem a explodir. Confirmou que houve mortes.

Disse que o Alto Comissariado da ONU fez contato com forças de Israel sobre uma janela pela qual evacuar a escola antes de o ataque começar.

“Estávamos ali como local previsto para abrigo de emergência” – disse ele. – “Israel foi informada do local e de quem estava ali”.

“É o quarto ataque a instalações da ONU, em três dias”.

Quatro ataques a centro de refugiados informado aos atacantes, em três dias. Quem acredita que os ataques teriam sido “acidentes”? Não acredito. O bombardeio foi assassinato premeditado de civis não combatentes identificados. É definitivamente crime de guerra intencional.

Mas os EUA continuam a encobrir os crimes de Israel. Os EUA foram o único país a votar “Não” na Comissão de Direitos Humanos da ONU ontem, em que se aprovou a investigação desses crimes de guerra que Israel comete em Gaza. Um assassino dá cobertura ao outro.
_____________________________________


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar”  ou  “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.