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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Paul Craig Roberts: “A PRESSTITUTA dos EUA, desprezível e covarde”


Sempre que Washington e sua PRESSTITUTA falam, mentem


5/2/2015, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Tradução: mberublue


Nota da redecastorphoto: No Brasil a PRESSTITUTA dos EUA é reapresentada e servilmente REACANALHADA pelo Grupo GAFE (Globo, Abril, Folha de SP e Estadão) e seus repetidores, que só fazem TRADUZIR, COPIAR & COLAR incansavelmente as mesmas MENTIRAS sem sequer se dar ao trabalho de reinterpretá-las.


As PRESSTITUTAS!
Fevereiro de 2015, dia 5. Existe uma confusão alvoroçada, um bafafá em andamento que versa sobre um jornalista norte−americano o qual contou uma história sobre estar em um helicóptero numa zona de guerra. O helicóptero teria sido atingido e foi obrigado a pousar. Não sei qual zona de guerra. Os Estados Unidos tem andado tão ocupados criando várias zonas de guerra mundo afora que há certa dificuldade em manter-se atualizado sobre todas elas, e como vocês verão, não estou interessado na história em si mesma.

Ocorre que o tal jornalista pode ter lembrado os acontecimentos de forma incorreta. Ele realmente estava em um helicóptero numa zona de guerra, mas a máquina não foi atingida nem teve que pousar. O jornalista foi acusado de ter mentido na esperança de apresentar-se como “mais experiente do que realmente é”.

O jornalista tem colegas que também trabalham na PRESSTITUTA e eles caíram para cima dele cheios de acusações. Ele teve até que pedir desculpas para as tropas. Não ficou bem claro de quais tropas estamos falando. A exigência norte−americana de que todos se desculpem por cada palavra dita me traz lembranças da antiga União Soviética, onde, conforme alegado (realidade ou não) por anticomunistas, os cidadãos soviéticos eram obrigados a criticar a si mesmos.

A National Public Radio (2/5/2015), achou que tudo isso era tão importante que o programa até tocou uma gravação do jornalista contanto a história. Para mim, parece uma boa história. A audiência do programa gostou e riu muito. O jornalista não se gabou de nenhum heroísmo de sua parte, nem se queixou de qualquer falha por parte da tripulação do helicóptero. Afinal, é normal que helicópteros caiam em zonas de guerra.

Estabelecendo que o jornalista tinha dito que o helicóptero fora atingido quando na realidade isso não se deu, a National Public Radio levou ao programa um psicanalista da Universidade da Carolina, Irvine, que seria um expert em “falsa memória”. O especialista então listou várias razões que podem levar alguém a ter falsas memórias, frisando o ponto de que não é assim tão incomum e que o jornalista muito provavelmente não passa de mais um exemplo. Porém a NPR fazia ainda questão de saber se não era possível ter o jornalista mentido para parecer um ótimo profissional. Não foi explicado porque estar em um helicóptero caindo faz um jornalista parecer ótimo, mas poucos trabalhadores na PRESSTITUTA quiseram cavar tão fundo na questão.


ESCREVEMOS O QUE VOCÊ DISSER!
GRATOS, IMPRENSA-EMPRESA
Nós jamais controlaríamos o povo sem vocês
Uma mensagem do Ministério de Segurança Interna

Agora, vamos ao que interessa. Eu estava ouvindo tudo isso enquanto dirigia, porque é menos deprimente ouvir a propaganda enganosa da NPR que ouvir os pregadores cristãos/sionistas. Na hora anterior a NPR apresentava a seus ouvintes três reportagens sobre a morte de civis nas províncias separatistas do leste e do sul ucraniano. Quando ouvi a reportagem pela primeira vez, a NPR PRESSTITUTA relatava como um hospital havia sido atingido por explosivos, matando cinco pessoas na República separatista de Donetsk. A PRESSTITUTA não relatou que esse feito seria responsabilidade das forças ucranianas (junta de Kiev), sugerindo em vez disso que poderia ser obra dos “rebeldes apoiados pela Rússia”. Não foi oferecida qualquer explicação quanto aos motivos que levariam os rebeldes a atacar seu próprio hospital. A impressão que ficou, para aquela pequena percentagem de norte−americanos que ainda sabem pensar, é a de que a PRESSTITUTA não tem permissão para dizer que os ucranianos apoiados por Washington atacaram um hospital.

Em todas as três reportagens o Secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, foi ouvido, transmitindo-se sua afirmação de que os EUA estão procurando uma solução pacífica e diplomática, mas os russos estariam bloqueando estas tentativas através do envio de colunas de tanques e tropas para dentro da Ucrânia. Na viagem de volta, ouvi por mais três vezes Kerry afirmando, através da NPR, a alegação acusatória sem pés nem cabeça sobre as tropas e os tanques russos a derramar-se pela Ucrânia. Claramente, a NPR não passa de mais uma voz a serviço da PROPAGANDA ENGANOSA sobre a Rússia invadindo a Ucrânia.

Pense um pouco sobre isso. Temos ouvido de altos funcionários do governo dos Estados Unidos, e até do presidente por meses e meses sobre as colunas de tanques russos e das inumeráveis tropas russas entrando na Ucrânia. O governo russo nega essas acusações com firmeza, mas é claro que não podemos acreditar em nada que os russos dizem, porque não podemos acreditar no que dizem os russos demonizados. Não temos permissão para acreditar neles, porque eles foram posicionados como inimigos, e os bons e patrióticos norte−americanos jamais acreditam nos inimigos.

Mentiroso Patológico
Mas... como podemos ajudar mesmo acreditando nos russos? Se é verdade a alegação de que todas essas tropas e tanques russos realmente invadiram a Ucrânia, o governo fantoche em Kiev já teria caído desde o ano passado e o conflito estaria terminado. Qualquer um que tenha um cérebro sabe disso.

Pronto. Agora chegamos ao meu ponto. Um jornalista qualquer contou uma história inofensiva e quase foi queimado vivo, forçado a pedir desculpas para as tropas por ter mentido. No meio de todo esse bafafá, o Secretário de Estado dos Estados Unidos, o Presidente dos Estados Unidos, inúmeros senadores, autoridades do Poder Executivo e a PRESSTITUTA relataram repetidamente por meses após meses que colunas de tanques e tropas russas estavam entrando na Ucrânia. Ainda assim, apesar de todas essas forças russas, os civis das províncias separatistas do leste e sul ucranianos ainda continuam a ser massacrados pelo governo fantoche que os EUA instalaram em Kiev.

Se as tropas e tanques russos são assim tão inoperantes, ineficientes, por que os comandantes da OTAN e os neoconservadores belicistas alertam sobre o terrível perigo que a Rússia representa para os países Bálticos, Polônia e Leste Europeu?

Isso não faz o menor sentido, é ou não é?

Pois bem. A questão é a seguinte: por que está a PRESSTITUTA toda em cima de um jornalista infeliz em vez de responsabilizar os Grande Mentirosos, John Kerry e Barack Obama?

A resposta é: não haverá custo para a PRESSTITUTA ao destruir um qualquer, seja lá porque razão, mesmo que apenas para se divertir, como um “atirador americano” (American Sniper, referência ao filme lançado recentemente- NT), que mata pessoas por diversão sua e de amigos, mas eles seriam botados no olho da rua se apontassem para a responsabilidade de Obama ou Kerry, e sabem disso. Mas eles têm que chamar a atenção, mesmo que seja devorando-se uns aos outros.

Não há possibilidade da existência de uma democracia sem uma mídia honesta. A democracia nos EUA não passa de uma fachada, por trás da qual se operam todas as maldades a que se inclina a humanidade. Pelos últimos 14 anos o povo norte−americano apoiou governos dos EUA que invadiram, bombardearam, ou atacaram com drones sete países, matando, mutilando e deslocando milhões de pessoas sem nenhuma outra razão que a busca de lucro e poder hegemônico. Apesar disso, não há o menor sinal de que isso tenha tirado o sono ou deixado com um peso na consciência qualquer norte−americano.

Quando Washington não está bombardeando e matando, está conspirando para derrubar governos reformistas, como aconteceu com o governo hondurenho que o governo Obama derrubou, e os governos da Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina, que o governo Obama está atualmente tentando derrubar. Não se esqueçam, é claro, do governo democraticamente eleito da Ucrânia que foi vencido pelo golpe de estado de Washington.

O novo governo grego, assim como o próprio Putin, estão na mira.

As PRESSTITUTAS nos EUA
Washington e sua PRESSTITUTA servil para justificar tudo assinalaram o governo ucraniano eleito que foi derrubado por um golpe de Washington como uma “ditadura corrupta”. O governo colocado em seu lugar consiste em uma combinação de fantoches de Washington e neonazistas que fazem questão de ostentar em suas forças militares insígnias nazistas. Mas é claro que a PRESSTITUTA americana esmera-se em não notar as insígnias nazistas.

Pare um pouco e pergunte a si mesmo porque um episódio insignificante como a mentira de um jornalista qualquer merece um estardalhaço da mídia americana enquanto as flagrantes, extraordinárias, descaradas e nuas mentiras de Kerry e Obama são olimpicamente ignoradas pela PRESSTITUTA?

Talvez você tenha esquecido o quanto são eficientes as forças militares russas. Rebusque na memória e lembre qual foi o destino do exército da Geórgia, treinado e equipado por Israel e Estados Unidos e que Washington atiçou na Ossétia do Sul. A invasão perpetrada pela Geórgia na Ossétia do Sul acabou por resultar em mortes de soldados russos de forças de paz e de cidadãos russos. Os militares russos intervieram e em cinco horas derrotaram inapelavelmente o exército georgiano, treinado e equipado pelos Estados Unidos e Israel. Nesse momento, toda a Geórgia estava nas mãos do exército russo, que recuou assim mesmo, mantendo a independência da antiga província da Rússia, apesar das mentiras de Washington, de que Putin pretendia restaurar o Império Soviético.

A única conclusão a que deve chegar qualquer cidadão norte−americano é que cada declaração do governo americano replicada pela mídia PRESSTITUTA é uma mentira ignóbil, que serve apenas para uma agenda secreta que os norte−americanos não apoiariam, se dela tivessem conhecimento.

Sempre que Washington ou sua PRESSTITUTA falam, mentem.

Nota do tradutor

[1] PRESSTITUTE é neologismo criado por Gerald Celente, através da união das palavras “press” (imprensa) e “prostitute” (prostituta), usado largamente entre articulistas para designar a mídia (imprensa-empresa) norte−americana, em sua maioria cooptada pela propaganda enganosa de Washington. Vários tradutores brasileiros a traduzem como “PRESSTITUTA”.



[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Fracasso do jornalismo e triunfo da propaganda

5/12/2014, Logan Symposium, [*] John Pilger (vídeo 20’49”)
Traduzido da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu


Mas a influência nefasta do império de Murdoch não é maior nem mais nefasta que a influência do que se conhece como “imprensa-empresa séria”. A propaganda midiática mais efetiva não se encontra nem no Sun nem no canal Fox News de Murdoch – mas nos jornais e televisões ditos “sérios”, acobertados por um halo de jornalismo liberal e pressuposto respeitável.

Quando o New York Times publicou a notícia inventada segundo a qual Saddam Hussein teria armas de destruição em massa, todos acreditaram, porque o veículo não era o canal Fox News de Murdoch: era o New York Times.



Por que o jornalismo sucumbiu tão completamente à propaganda? Por que censura e distorção são a prática padrão? Por que a BBC é, tão frequentemente, porta voz dos poderosos mais rapaces? Por que o New York Times e o Washington Post mentem diariamente aos seus leitores-consumidores?

Por que os jovens jornalistas não são ensinados a compreender as agendas dos veículos e a se contrapor a elas, denunciando a distância que separa os altos objetivos declarados e a realidade da ‘objetividade’ mais falsa? E por que não são ensinados que a essência de praticamente tudo que costumamos chamar de “imprensa-empresa dominante” nunca é informação, mas é só e sempre, poder?

Essas são perguntas que clamam por respostas urgentes. O mundo está diante do risco de grande guerra, talvez guerra nuclear – com os EUA claramente decididos a isolar e provocar a Rússia e provavelmente, em breve, também a China. Essa verdade está sendo invertida, apresentada de cabeça para baixo e pés para cima, por jornalistas – entre os quais, claro, também os que divulgaram como se fossem notícias, as mentiras que levaram ao banho de sangue no Iraque em 2003.

Vivemos tempos tão perigosos e tão distorcidos, para a percepção pública, que a propaganda deixou de ser, como Edward Bernays a chamou, “um governo invisível”. Agora já é mando autoritário perfeitamente visível. Governa sem medo de ser contraditado e seu principal objetivo é nos conquistar: conquistar para ele a nossa visão do mundo, bloquear completamente nossa capacidade para separar mentira e verdade.

A era da informação é, na verdade, a era da imprensa-empresa. A imprensa-empresa produz guerra; a imprensa-empresa censura; a imprensa-empresa demoniza quem queira; a imprensa-empresa vinga-se; a imprensa-empresa afasta a atenção dos eleitores do que a imprensa-empresa não queira que seja sabido – a imprensa-empresa é uma linha de montagem surreal de clichês de rendição e pressupostos mentirosos.

Esse poder para criar uma nova “realidade” foi construído ao longo de muito tempo. Há 45 anos, um livro intitulado The Greening of America fez furor. Na capa, lia-se:

Há uma revolução em marcha. Não será como as revoluções passadas. Dessa vez, a revolução nascerá com o indivíduo.

Eu trabalhava como correspondente nos EUA e lembro bem como, da noite para o dia, o autor – um jovem aluno de Yale – Charles Reich recebeu status de guru. A mensagem era que a ação política e o trabalho de informar a verdade haviam fracassado, e só a “cultura” e a introspecção poderiam mudar o mundo.

Em poucos anos, movido pelas forças do lucro, o culto do “eu-mesmo-ismo” já atropelara mortalmente nosso senso de ação conjunta, de justiça social e de internacionalismo. Classe, gênero e raça foram separados. Se era individualista e pessoal... era “político”. E empresa-imprensa, já então chamada “mídia”, era a mensagem.

No começo da guerra fria, a fabricação-invenção de novas “ameaças” completou o serviço de completa desorientação política para todos que, 20 anos antes, ainda teriam constituído uma oposição veemente.

Em 2003, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, respeitado jornalista investigador norte-americano. Discutimos a invasão ao Iraque, acontecida meses antes. Perguntei-lhe:

E se a imprensa-empresa mais livre do mundo tivesse denunciado as mentiras de George Bush e Donald Rumsfeld e investigado tudo que eles diziam, em vez de pôr em circulação tudo que, como adiante se viu, não passava de propaganda a mais nua-e-crua?

Lewis respondeu que:

(..) se nós jornalistas tivéssemos feito o que era nosso trabalho e nosso deverhaveria boa, muito boa probabilidade de que os EUA não tivessem feito guerra ao Iraque”.

É conclusão estarrecedora, mas apoiada por outros jornalistas aos quais fiz a mesma pergunta. Dan Rather, ex-CBS, deu-me a mesma resposta. David Rose do Observer e consagrados jornalistas e produtores na BBC, que pediram para que seus nomes não fossem divulgados, disseram a mesma coisa.

Em outras palavras: se os jornalistas tivessem feito jornalismo, se tivessem perguntado e investigado, em vez de só repetir e amplificar a propaganda que recebiam pronta, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças não teriam morrido; e milhões não teriam perdido as próprias casas; e a guerra sectária entre sunitas e xiitas não teria sido insuflada; e talvez nem existisse o famigerado Estado Islâmico.

Ainda hoje, apesar dos milhões que tomaram as ruas em protestos, a maioria das populações nos países ocidentais absolutamente ainda não tem nem ideia da escala gigante do crime que os governos ocidentais cometeram no Iraque. Menos gente ainda sabe que, nos 12 anos antes da invasão, os governos de EUA e Grã-Bretanha puseram em movimento um holocausto – negando à população civil iraquiana os meios mínimos para a sobrevivência.

Essa são as palavras do principal funcionário britânico responsável por sanções impostas ao Iraque nos anos 1990s – um sítio medieval que provocou a morte de meio milhão de crianças com menos de cinco anos, como a UNICEF relatou. O nome do funcionário é Carne Ross. No Ministério de Relações Exteriores em Londres, ficou conhecido como “Mr. Iraq”. Hoje, se ocupa com contar, afinal, a verdade, sobre como o governo britânico mentia e os jornalistas acorriam, lépidos, sempre dispostos a divulgar o mais possível toda e qualquer mentira que lhes chegasse aos ouvidos.

Alimentávamos os jornalistas com factoides que a inteligência nos passava, depois de “aprovados” – disse-me ele. – Ou os mantínhamos absolutamente longe de qualquer fato.

O principal “sentinela tocador do apito de alarme” durante aquele período negro de informação falsificada foi Denis Halliday. Então Secretário-Geral Assistente da ONU e alto funcionário da ONU no Iraque, Halliday renunciou ao cargo e à carreira, para não ter de implementar políticas que ele descreveu como “genocidas”. Halliday estima que as sanções impostas por EUA e Grã-Bretanha ao Iraque mataram mais de um milhão de iraquianos.

O que então aconteceu a Halliday é muito instrutivo. Foi apagado do mundo. Ou foi convertido em agente do mal. No programa “Newsnight”, da BBC, o apresentador Jeremy Paxman berrou-lhe:

Você não é defensor elogiador de Saddam Hussein?

Recentemente, The Guardian descreveu essa cena como um dos “momentos memoráveis” da carreira de Paxman. Semana passada, Paxman assinou contrato de 1 milhão de libras, para escrever um livro.

Os limpa-penicos da supressão do jornalismo fizeram bem feito o seu trabalho imundo. Considerem os efeitos. Em 2013, pesquisa da ComRes descobriu que a maioria da população britânica acreditava que haviam morrido no Iraque “menos de 10 mil pessoas” – fração ínfima da verdade. O rastro de sangue que vai do Iraque a Londres havia sido esfregado a golpes de “mídia”, até quase sumir.

Rupert Murdoch é conhecido como o chefão da “máfia midiática”, e ninguém deve duvidar do estarrecedor poder de seus jornais – são 127, com circulação somada de 40 milhões de jornais, e de sua rede Fox. Mas a influência nefasta do império de Murdoch não é maior nem mais nefasta que a influência do que se conhece como “a mídia mais ampla”.

A propaganda mais efetiva não se encontra nem no Sun nem no Fox News de Murdoch – mas nos jornais e televisões ditos “sérios”, acobertados por um halo de jornalismo liberal e pressuposto “civilizado”.

Quando o New York Times publicou a notícia inventada segundo a qual Saddam Hussein teria armas de destruição em massa, todos acreditaram porque o veículo não era o canal Fox News de Murdoch: era o New York Times.

O mesmo vale para o Washington Post e The Guardian, empresas-imprensa que, ambas, tiveram função criticamente decisiva no condicionamento dos seus leitores-consumidores, até que aceitassem nova e perigosa guerra fria. Todos esses veículos da imprensa-empresa neoliberal falsearam o noticiário dos eventos na Ucrânia, apresentado como se a Rússia tivesse cometido algum crime – quando, na verdade, aconteceu ali um golpe fascista liderado pelo EUA, ajudado pela Alemanha e pela OTAN.

A inversão da verdade e do fato é tão generalizada, que já nem se discutem, nos EUA, os movimentos de intimidação e provocação militar que Washington realiza contra a Rússia, nem se ouve qualquer oposição a eles. Não se ouve notícia alguma, todas suprimidas e censuradas por trás de uma campanha de geração de medo social, do tipo sob o qual cresci, durante a primeira guerra fria.

Mais uma vez, o império do mal vem nos pegar, liderado por novo Stalin, ou perversamente, por novo Hitler. Escolha seu judas e pode malhá-lo até a morte.

A ocultação dos fatos reais sobre a Ucrânia é processo dos mais completos, de blecaute de notícias de que me recordo em toda a minha vida. E acompanha a maior concentração de militares ocidentais no Cáucaso e no leste da Europa, desde o final da IIª Guerra Mundial.

A ajuda secreta que Washington deu a Kiev e às suas brigadas neonazistas responsáveis por crimes de guerra contra a população do leste da Ucrânia foi apagada do mundo. Todas as provas que desmentem a propaganda segundo a qual a Rússia teria sido responsável por abater em pleno voo um avião civil malaio com 300 passageiros foram apagadas do mundo.

E, mais uma vez, a imprensa-empresa neoliberal pressuposta séria faz as vezes de censor. Apaga fatos, nada de provas, apareceu até um jornalista para identificar um líder pró-Rússia na Ucrânia como o homem que, pessoalmente, teria derrubado o avião. Esse homem, escreveu o tal jornalista, é conhecido como O Demônio. Sujeito assustador, que apavorou o jornalista. Pronto. Está tudo investigado e comprovado.

Muitos, nas imprensa-empresas ocidentais trabalharam duro para apresentar a população de russos étnicos que vive na Ucrânia como outsiders, forasteiros em seu próprio país, nunca como ucranianos que desejam ser integrados à Federação Russa, como cidadãos ucranianos em luta de resistência contra um golpe orquestrado contra governo que eles mesmos elegeram.

O que o presidente da Rússia tenha a dizer não importa; é o vilão da pantomima que se pode malhar à vontade, sem consequências. Um general norte-americano que dirige a OTAN e é perfeita reencarnação do Dr. Strangelove, o “Dr. Fantástico” – o tal general Breedlove – reclama todos os dias de invasões russas, sem um fiapo de comprovação. É a personificação do general Jack D. Ripper, de Stanley Kubrick.

40 mil russos estariam reunidos na fronteira, fortemente armados, disse o Dr. Fantástico, digo, o general Breedlove. Pois foi o que bastou para alimentar o “noticiário” do New York Times, do Washington Post e do Observer – esse último, depois de ter-se destacado pelo empenho com que publicou, como se fosse informação, as mentiras e delírios que serviram de “base” para a invasão ao Iraque ordenada por Blair – como revelou um ex-repórter, David Rose.

Há quase que o “prazer espiritual” de uma reunião de classe. Os batedores-de-tambor de repetição do Washington Post [de O Estado de S.Paulo, da Folha de S.Paulo, da rede Globo, da rede Bandeirantes e toooooodas as unidades repetidoras pelo Brasil inteiro (NTs)] são os mesmos redatores de editoriais que declararam que a existência das armas de destruição em massa de Saddam seria “fato comprovado”.

Se você não compreende – escreveu Robert Parry – como é possível que o mundo tenha chegado às portas da terceira guerra mundial, do mesmo modo como chegou às portas da primeira guerra mundial há um século, tudo que tem de fazer, para entender, é observar a loucura que tomou contra de virtualmente toda a estrutura político-informacional nos EUA [e também no Brasil, porque por aqui não se produz noticiário internacional, só se reproduz, copiado das empresas-imprensa-agências norte-americanas (NTs)], sobre a Ucrânia. Uma falsa narrativa de bons contra maus tomou conta de tudo desde o início. E, com o tempo, tornou-se impenetrável a qualquer fato ou informação racionalmente produzidos.

Parry, o jornalista que investigou e expôs todo o caso dos “Contras” do Irã, é um dos poucos profissionais que investiga o papel crucialmente decisivo que têm as empresas-imprensa da “mídia” no que o ministro de Relações Exteriores da Rússia chamou de “jogo das galinhas assustadas” [que correm cacarejando alto, antes até de saberem o que realmente está acontecendo (NTs)]. Mas será mesmo jogo?

No momento em que escrevo esse texto, o Congresso dos EUA está votando a Resolução n. 758 que, em resumo, ordena “os EUA que se preparem imediatamente para guerra à Rússia”.

No século XIX, o escritor Alexander Herzen descreveu o liberalismo secular como “a última religião, embora sua igreja não seja do outro mundo, mas desse”. Hoje, esse direito divino é muito mais violento e perigoso que qualquer coisa que o mundo muçulmano produza, porque seu principal triunfo é a ilusão da informação livre e aberta.

Nos noticiários, países inteiros são varridos do mundo. A Arábia Saudita, fonte de todo o extremismo e do terror apoiado pelo ocidente, não é assunto – se não quando abaixa o preço do petróleo, apresentada então praticamente como associação de filantropia universal. O Iêmen sofreu 12 anos sob ataques de drones norte-americanos. Quem soube? Quem se incomoda?

Em 2009, a Universidade do Oeste da Inglaterra [orig. University of the West of England] publicou os resultados de um estudo de dez anos sobre a cobertura que a BBC dera à Venezuela. Das 304 matérias levadas ao ar, só três mencionavam qualquer das políticas socialmente mais importantes introduzidas pelo governo de Hugo Chávez. O maior programa de alfabetização em massa (que erradicou o analfabetismo na Venezuela)da história da humanidade recebeu duas linhas de comentário.

Na Europa e nos EUA, milhões de leitores e de telespectadores sabem praticamente nada sobre as mudanças dramáticas, de melhoria na qualidade de vida que foram implantadas na América Latina, muitas delas inspiradas em Chávez. Como na BBC, também as matérias publicadas no New York Times, no Washington Post, no Guardian [em O Estado de S.Paulo, na Folha de S.Paulo, na rede Globo, na rede Bandeirantes e em tooooooodas as respectivas unidades repetidoras pelo Brasil inteiro (NTs)] e no resto de toda a “respeitável” imprensa-empresa “séria” no ocidente, tudo foi sempre redigido e distribuído de má fé. Zombaram de Chávez até em seu leito de morte. E fico a pensar: como será que ensinam a fazer exatamente assim, sempre a mesma coisa, em escolas de jornalismo?

Por que milhões de pessoas na Grã-Bretanha aceitam e deixam-se convencer de que esse castigo coletivo chamado “austeridade” seria necessário?! Que seria, mesmo, recomendável?!

Logo depois do crash econômico em 2008, o que se viu exposto foi um sistema apodrecido. Por um átimo de segundo os bancos foram “noticiados” como escroques, com deveres para com o público que haviam assaltado e traído.

Mas em apenas poucos meses – exceto uma poucas pedras lançadas contra “bônus” pagos pelas empresas de roubo aos roubadores profissionais – a mensagem já mudara completamente. As caricaturas e as críticas contra banqueiros-bandidos desapareceram da “mídia” e dos veículos de massa da imprensa-empresa. E começou o tempo de glorificação de algo chamado “austeridade” – para a desgraça de milhões de pessoas comuns. Houve algum dia tunga mais ousada que essa?

Hoje, muitas das bases e fundamentos da vida civilizada na Grã-Bretanha estão sendo desmanteladas, para pagar dívida fraudulenta, a dívida dos escroques. Os cortes de “austeridade” parecem chegar a 83 bilhões de libras. É quase exatamente o total de impostos sonegados por aqueles mesmos bancos e empresas-imprensa escroques, como a Amazon britânica e o jornal britânico de Murdoch, News UK. E os bancos dos escroques estão recebendo subsídio anual de 100 bilhões de libras, em avais, garantias e seguros grátis – dinheiro suficiente para financiar toda a Saúde Pública Nacional.

A crise econômica é pura propaganda. Hoje, a Grã-Bretanha, os EUA, grande parte da Europa, Canadá e Austrália são governados por políticos extremistas. Quem fala pela maioria? Quem está construindo a narrativa da maioria? Quem oferece informação confiável? Quem organiza e preserva registros corretos de fatos reais? Não é o que os jornalistas existem para fazer?!

Em 1977, Carl Bernstein, afamado depois de Watergate, revelou que mais de 400 jornalistas e diretores de grandes empresas-imprensa trabalhavam então para a CIA. A lista incluía jornalistas do New York TimesTime e das redes de televisão. Em 1991, Richard Norton Taylor do Guardian revelou números semelhantes, sobre seu país.

Hoje já nada disso é necessário. Duvido muito que alguém tenha tido de pagar ao Washington Post e a muitos outros veículos das empresas-imprensa para que se pusessem a acusar Edward Snowden de ajudar terroristas. Duvido que alguém precise pagar os que rotineiramente ofendem Julian Assange – embora, sim, haja muitas recompensas.

Para mim, é perfeitamente claro que a principal razão pela qual Assange atraiu tanta ira, violência e inveja é que WikiLeaks pôs a nu toda uma elite política corrupta que é mantida à tona e no poder exclusivamente por jornalistas e jornalismos.

Ao inaugurar uma extraordinária era de abertura e transparência, Assange fez inimigos mortais, porque expôs o papel das imprensas-empresas, como guardiãs da corrupção. Assange tornou-se, simultaneamente, o arqui-inimigo, um alvo preferencial e, também, uma galinha dos ovos de ouro! [No Brasil TODAS as empresas do grupo GAFE (Globo, Abril, Folha de SP e Estadão)e afiliadas são guardiãs da CORRUPÇÃO e do GOLPISMO (Nrc)].

Assinaram-se contratos lucrativos para livros e para filmes Hollywoodianos, e carreiras chegaram aos píncaros da glória, nas costas de WikiLeaks e seu criador. Muita gente ganhou muito dinheiro, enquanto WikiLeaks lutava para não morrer.

Nada disso foi mencionado em Estocolmo, dia 1/12/2014, quando o editor do Guardian, Alan Rusbridger, partilhou com Edward Snowden o “Right Livelihood Award”, conhecido como o Prêmio Nobel da Paz alternativo. O mais chocante daquele evento foi que Assange e WikiLeaks foram apagados do mundo. Como se não tivessem existido. Como se fossem não pessoas. Ninguém falou em defesa do criador, do pioneiro absoluto do movimento de dar o alarme, de avisar do perigo mortal que se esconde na manipulação do noticiário pela imprensa-empresa. O homem que deu de presente ao Guardian um dos maiores furos de toda a história. E o mais importante de tudo: foram Assange e sua equipe de WikiLeaks quem, de fato – e brilhantemente – resgataram Edward Snowden em Hong Kong e o puseram em total segurança [em Moscou, onde hoje vive e trabalha]. Nem uma palavra.

O que tornou ainda mais gritante, irônica e desgraçada aquela censura por omissão, foi que a tal cerimônia realizava-se no Parlamento da Suécia – parlamento e autoridades cujo vergonhoso silêncio no caso construído contra Assange colaborou para um dos maiores golpes jamais assestados contra a justiça em Estocolmo.

Quando a verdade é substituída pelo silêncio – disse o dissidente soviético Yevtushenko – o silêncio torna-se mentira.

Esse tipo de silêncio-mentira tem de ser quebrado pelos jornalistas. Que todos olhemos nossa própria cara no espelho. Temos de chamar às falas a imprensa-empresa subalterna ao poder e ao dinheiro, e a psicose que mais uma vez ameaça arrastar o mundo à guerra.

No século XVIII, Edmund Burke descreveu o papel da imprensa como um Quarto Estado que fiscalizaria os poderosos. Não sei sequer se alguma imprensa-empresa algum dia fez tal coisa. Mas sei, com certeza absoluta, que, hoje, nenhuma faz. Acho que precisamos de um Quinto Estado: jornalismo que monitore, que desconstrua e que enfrente a propaganda e que ensine os mais jovens a defender os mais fracos e mais pobres, não dos mais ricos e mais poderosos.

Para mim, jornalismo tem de ser a insurreição do saber subjugado.

Estamos diante do centenário da Iª Guerra Mundial. Foi quando começou a glória de jornalistas e repórteres, sempre tão mais prestigiados e recompensados quanto mais dedicados ao silêncio mais acovardado. No auge do banho de sangue, o Primeiro-Ministro britânico, David Lloyd George, confidenciou a C.P. Scott, editor do Manchester Guardian:

Se as pessoas conhecessem a verdade, a guerra acabaria amanhã cedo. Mas não conhecem nem podem conhecer.

Ainda não conhecem. Mas, com certeza, já é hora de conhecerem. 


[*] John Pilger − nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Award na área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor−Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Propaganda para encobrir as atrocidades que Israel comete: Como Israel “noticia” os próprios crimes de guerra

28/7/2014, [*] Patrick Cockburn, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na viela Oco do Mundo na Vila Vudu: Os “jornalistas” e “analistas” da imprensa-empresa ocidental especialmente os vira-latas do grupo GAFE (Globo, Abril, FSP, Estado) e congêneres seguem caninamente o “Dicionário de Linguagem Global do Projeto Israel 2009” do Dr. Luntz! E não sigam...

Foto tirada dia 13/7/2014 pelo jornalista dinamarquês Allan Sorrensen, na cidade israelita de Sderot – roubada aos palestinos − perto da fronteira de Gaza): Um grupo de israelenses, reunidos para assistir ao bombardeio da faixa de Gaza como se estivessem assistindo a um jogo de futebol. Umas cinquenta pessoas, em cima de uma colina, sentados em cadeiras de jardim e algumas comendo pipocas, comentam excitados os bombardeios, aplaudindo cada explosão. “É muito legal”, diz um jovem que vive em Jerusalém, a 150 km daqui, e que veio expressamente assistir aos bombardeios; é formidável estar aqui, podem-se ouvir os trovões e ver os foguetes, é muito excitante". Enviada por Harfang.
Os porta-vozes israelenses já têm muito trabalho tentando explicar como os israelenses assassinaram mais de 1.000 palestinos em Gaza, a maioria dos quais civis, em comparação com apenas 3 civis mortos em Israel por foguetes e fogo de morteiro do Hamás. Mas pela televisão e pelo rádio e pelos jornais, porta-vozes do governo israelense hoje, como Mark Regev, parecem menos enroladores e menos agressivos que predecessores, que eram muito mais visivelmente indiferentes ao número de palestinos mortos.

Há pelo menos uma boa razão para esse “aprimoramento” das capacidades de Relações Públicas dos porta-vozes de Israel. A julgar pelo que se os veem dizer, já estão trabalhando conforme um estudo feito por profissionais, bem pesquisado e confidencial, sobre como influenciar a mídia e a opinião pública nos EUA e na Europa.

Redigido pelo especialista em pesquisas e estrategista político dos Republicanos, Dr. Frank Luntz, aquele estudo foi encomendado há cinco anos por um grupo chamado “The Israel Project” [Projeto Israel], que mantém escritórios nos EUA e em Israel, para ser usado “por todos que estão na linha de frente da guerra midiática a favor de Israel”.

Cada uma das 112 páginas do folheto é marcada com “proibido distribuir ou publicar” [orig. “not for distribution or publication”], e é fácil entender por quê. O relatório Luntz – oficialmente intitulado “Dicionário de Linguagem Global do Projeto Israel 2009” [orig. The Israel project’s 2009 Global Language Dictionary] vazou quase imediatamente para Newsweek Online, mas até hoje só muito raramente mereceu atenção, e sua verdadeira importância ainda mão foi devidamente considerada.

Dr. Frank Luntz
Deveria ser leitura obrigatória para todos, sobretudo para jornalistas interessados em conhecer a política de Israel, por causa da lista de “Faça/diga X” e “Nunca faça/diga Y” dirigida aos porta-vozes de Israel.

Aquelas duas listas são altamente iluminadoras para que se compreenda a distância imensa que separa o que funcionários e políticos israelenses pensam e creem, e o que eles dizem; o que eles dizem é modelado por pesquisa mantida ativa minuto a minuto, para detalhar o que os norte-americanos desejam ouvir. Com certeza, nenhum jornalista deveria arriscar-se a entrevistar qualquer porta-voz de Israel sem conhecer muito bem aquele manual e ter-se preparado para contra-perguntar sobre os muitos temas – e sempre com as mesmas palavras e frases – que se ouvem hoje da boca do Sr. Regev e seus colegas.

O panfleto é cheio de saborosos conselhos sobre como eles devem modelar suas respostas, para diferentes audiências. Por exemplo, o estudo diz que:

(...) os norte-americanos aceitam que “Israel tem direito a ter fronteiras defensáveis”. Mas Israel não tem vantagem alguma em definir com precisão que fronteiras são essas. Evitem falar em fronteiras em termos de pré- ou pós-1967, porque isso só faz relembrar aos norte-americanos o passado militar de Israel. Essa expressão prejudica os israelenses, sobretudo no campo da esquerda. Por exemplo, o apoio da direita israelense a fronteiras defensáveis cai de 89% para menos de 60% sempre que vocês falam em termos de 1967.

E quanto ao direito de retorno dos refugiados palestinos que foram expulsos ou fugiram em 1948 e nos anos seguintes, e que nunca mais puderam retornar às próprias casas e terras? Aqui, o Dr. Luntz é muito sutil nos conselhos que dá aos porta-vozes israelenses; diz que

(...) o direito de retorno é questão difícil para que os israelenses falem dela com eficácia, porque praticamente toda a linguagem israelense soa muito semelhante à fala de “separados, mas iguais” dos racistas segregacionistas dos anos 1950s e dos defensores do Apartheid nos anos 1980s. De fato, os norte-americanos não gostam, não acreditam nisso e não aceitam o conceito de “separados, mas iguais”.
Projeto dedicado às população dos EUA, Alemanha, Inglaterra e França
Assim sendo, como devem os porta-vozes enfrentar questões que até o manual considera “difíceis”? Recomendam que a coisa seja chamada de “demanda” – porque os norte-americanos detestam gente que faz demandas. O manual ensina:

Digam portanto: “os palestinos não estão satisfeitos com o estado que têm. Agora, estão demandando mais territórios dentro de Israel”.

Outras sugestões para resposta israelense efetiva incluem dizer que o direito de retorno deve ser item de um acordo final “algum dia, no futuro”.

O Dr Luntz observa que os norte-americanos em geral temem qualquer imigração em massa para dentro dos EUA,

portanto falem sempre de “imigração palestina em massa para dentro de Israel” – e os norte-americanos sempre rejeitarão a ideia. Se mais nada funcionar, digam que a volta dos palestinos faria “descarrilhar o esforço para alcançar a paz”.

O relatório Luntz foi redigido logo depois da Operação Chumbo Derretido em dezembro de 2008 e Janeiro de 2009, quando morreram 1.387 palestinos e nove israelenses.

Um capítulo inteiro é dedicado a:

Isolar o Hamás, apoiado pelo Irã, como obstáculo à paz.

Israel assassina crianças jogando futebol na praia
Infelizmente, agora, quando está em curso a Operação Fio Protetor, iniciada dia 6 de junho de 2014, e nova matança de palestinos, há um problema grave para a propaganda de Israel, porque o Hamás está rompido com o Irã por causa da guerra na Síria e está completamente sem contato com Teerã. Só reataram relações amistosas há poucos dias – e por causa da invasão israelense.

Muitos dos conselhos do Dr Luntz tratam do tom e do modo de expor o pensamento de Israel. Diz que é absolutamente crucial mostrar vastíssima simpatia pelos palestinos:

Os persuasíveis [sic] não dão importância ao que você saiba, até que se convençam de que você lamenta muito, do fundo do coração, toda a situação. Mostre empatia PELOS DOIS LADOS!

Isso provavelmente explica por que tantos porta-vozes israelenses vão praticamente às lágrimas quando falam do sofrimento dos palestinos bombardeados por bombas e mísseis israelenses.

Em frase escrita em negrito, sublinhada e toda em maiúsculas, o Dr Luntz diz que os porta-vozes ou líderes políticos israelenses NÃO DEVEM, NÃO PODEM, nunca, de modo algum, justificar

o massacre deliberado de mulheres e crianças inocentes,

e devem reagir agressivamente contra qualquer voz que acuse Israel por tal crime. Vários porta-vozes israelenses esforçaram-se muito para seguir esse conselho na 5ª-feira passada (24/7/2014), quando 16 palestinos foram mortos num abrigo da ONU em Gaza.

Há uma lista de palavras e frases a serem usadas e uma lista de palavras e frases a serem evitadas. Há de tudo, p. ex.:

O melhor meio, o único meio, para alcançar paz duradoura, é alcançar respeito mútuo

O mais importante é que o desejo de paz de Israel com os palestinos tem de ser sempre enfatizado, porque é o que os norte-americanos mais querem que aconteça. Mas se se observarem pressões para que Israel realmente faça alguma paz, a pressão deve ser imediatamente reduzida; nesse caso, os israelenses devem dizer:

(...) um passo de cada vez, um dia depois do outro.

Expressões que serão facilmente aceitas como abordagem de bom senso, para a equação:

Deem-nos A TERRA, que lhes damos a paz.

O Dr Luntz cita como exemplo de “pegada israelense muito eficaz” a seguinte frase:

Quero muito particularmente falar às mães palestinas que perderam seus filhos. Nenhum pai ou mãe deveria ter de enterrar suas crianças.

O estudo admite que o governo israelense não quer, de fato, qualquer solução de dois estados, mas diz que isso não pode ser declarado publicamente, porque 78% dos norte-americanos são favoráveis àquela solução. Devem-se enfatizar sempre as muitas esperanças de que os palestinos progridam economicamente.

Israel vence a Copa do Mundo do GENOCÍDIO
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é citado com elogios, por ter dito que:

Já é hora de alguém perguntar ao Hamás: o que, afinal, estão fazendo para melhorar a vida de seu povo?!

A hipocrisia, aí, é inacreditável: é Israel, com os sete anos de bloqueio econômico que impõe a Gaza, quem reduziu Gaza ao estado de pobreza e miséria em que vive hoje.

Em todos os casos e ocasiões, o modo como porta-vozes israelenses apresentam os fatos é planejado para dar a norte-americanos e a europeus a impressão de que Israel desejaria muito a paz com os palestinos e estaria disposta a ceder para chegar à paz. Todas as evidências, e também o Manual do Dr. Luntz, sugerem que tudo aí, são MENTIRAS. Embora não tenha sido requisitado ou produzido com essa finalidade, poucos estudos mais reveladores foram jamais escritos sobre a Israel contemporânea, em tempos de guerra e paz.




[*] Patrick Cockburn (nasceu 5/3/1950) é um jornalista irlandês que tem sido correspondente no Oriente Médio desde 1979 para o Financial Times e, atualmente, The Independent. Está entre os comentaristas mais experientes no Oriente Médio; escreveu quatro livros sobre a história recente do  Iraque. Recebeu o vários prêmios por seu trabalho incluindo o Prêmio Gellhorn Martha em 2005, o Prêmio James Cameron em 2006 e o Prêmio Orwell de Jornalismo em 2009. Cockburn escreveu três livros sobre o Iraque: One, Out of the Ashes: The Resurrection of Saddam Hussein, escrito em parceria com seu irmão Andrew Cockburn, antes da guerra no Iraque. O mesmo livro foi mais tarde re-publicado na Grã-Bretanha com o título: Saddam Hussein: An American Obsession. Mais dois foram escritos por Patrick sozinho após a invasão dos EUA e após a sua reportagem premiada do Iraque. Escreve também para CounterPunch e London Review of Books.