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sexta-feira, 20 de abril de 2012

“Propaganda do Kremlin?” - New York Times, olha teu rabo!


Glenn Greenwald, sobre entrevista de Hassan Nasrallah a Assange
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Glenn Greenwald
Ver também

“O programa O Mundo amanhã, de Julian Assange, criou uma tempestade da mídia ocidental, que imediatamente passou a acusar o Kremlin de operar nos bastidores do programa. Mas, nessa cruzada antipropaganda, muitos jornalistas fingem que não veem as próprias práticas” – diz o jornalista Glenn Greenwald.

O fundador de WikiLeaks nunca teve qualquer ilusão sobre como seu programa de entrevistas seria recebido, sobretudo porque Russia Today foi o canal escolhido para exibir as dez primeiras edições do programa. Julian Assange sempre soube que seria declarado “traidor” e “fantoche do Kremlin”.

Pois exatamente essa avaliação não demorou a cristalizar-se nas páginas do New York Times, em coluna de Alessandra Stanley [1], que não poupou críticas a Assange e ao canal que escolheu.

“O programa não terá audiência significativa nem mudará muitas cabeças, mas talvez sirva ao Sr. Assange, em sua agenda secundária: controle de danos” – escreveu Stanley, acrescentando que houve algo quase “atávico” na escolha da rede.

Russia Today é rede de notícias em inglês, criada pelo líder russo Vladimir V. Putin em 2005, para promover a linha do Kremlin em todo o mundo. (...) Basicamente, é plataforma improvável para um homem que faz pose de vazador esquerdista radical e defensor da livre manifestação do pensamento contra as superpotências” – lê-se no New York Times.

Glenn  Greenwald, conhecido jornalista dos EUA e colunista da revista online Salon, discorda dessa opinião, em entrevista a Russia Today.

“Por que ficaram tão ofendidos?”

Greenwald a Russia Today: “A mídia-empresa norte-americana nunca parou de amaldiçoar Julian Assange, desde que ele surgiu em cena. O que Assange fez – noticiar com transparência – é precisamente o que a mídia-empresa deveria fazer, e Assange o fez em doses generosas, muito mais que todos os veículos da mídia-empresa nos EUA, somados. Imediatamente, jornais e jornalistas puseram-se a atacar Julian Assange por ter exposto o governo dos EUA”. 

“Acusar outros de fazer propaganda é autopromoção” 

“A reputação de Assange desabou, desde que WikiLeaks sacudiu o mundo, em 2010. Para uns é herói, para outros é espião, mas atualmente é quase sempre visto como doido varrido” – escreve o New York Times.

“Seria suicídio segurar a respiração à espera de que o New York Times algum dia chame de “doido varrido” alguém que tenha poder em Washington. O ataque contra Assange e Russia Today diz muito mais sobre o jornalismo nos EUA, do que sobre os “atacados” – observa Greenwald, pelo Twitter.

Greenwald a Russia Today: “O fato de Assange estar no ar [em inglês, espanhol e árabe e, agora, também em português do Brasil], em programa transmitido por Russia Today, enlouqueceu, literalmente, ainda mais, a mídia-empresa nos EUA. Adoraram o pretexto para apontar o dedo para outros veículos e dizer “Vejam, são fantoches e instrumentos para propaganda do poder!” Porque, de tanto que jornais e jornalistas norte-americanos comportam-se exatamente como fantoches e instrumentos para propaganda do poder, todos acabam esquecendo que não fazem outra coisa além de propaganda do poder e dos poderosos. Mais que outros, o New York Times foi campeão mundial do esporte de convencer o país da necessidade de os EUA atacarem o Iraque. O modelo de jornalismo que se vê nos EUA vive de mostrar fé e fidelidade caninas ao governo dos EUA. Quero dizer: há muita hipocrisia na crítica que o New York Times publicou.

“Assange não foi ‘entrevistador solidário’”

O primeiro entrevistado de Julian Assange foi o secretário-geral do Hezbollah libanês, Said Hassan Nasrallah, que não dava entrevistas à televisão ocidental desde 2006. Apesar das críticas, muitos concordaram que, em termos jornalísticos, a entrevista foi um sucesso.

“O New York Times zomba do novo programa de Assange. De fato, Assange fez o que a TV dos EUA jamais faria: interrogar duramente o primeiro convidado de um novo programa” – comenta Greenwald, pelo Twitter.

Greenwald a Russia Today: “Foi uma entrevista sensacional. Lá estava Nasrallah, que concordou em dar a Assange um furo internacional. E, em vez de tratá-lo com reverência (como qualquer entrevistador na televisão americana teria feito), Assange falou muito duramente, quase agressivamente, nas perguntas. Perguntou a Nasrallah sobre corrupção nos mais altos escalões do Hezbollah. Desafiou o entrevistado, ao perguntar a Nasrallah por que não estava apoiando os sírios que lutam contra a ditadura de Assad. De fato, foi entrevista impressionante, em termos jornalísticos, sobretudo para um programa inaugural”.

“Tenham a santa paciência! Dizer que Assange estaria ‘na cama com o Kremlin’ – calma lá, New York Times!”

“Evidentemente, em termos práticos, o Sr. Assange está na cama com o Kremlin, mas no show da 3ª-feira disfarçou bem” – prossegue o artigo do New York Times.

Dado que Russia Today jamais é citado sem o sufixo obrigatório “canal de propaganda do Kremlin” pela maioria dos veículos de mídia norte-americanos, o assunto do dia, para muitos, foi quanto, do programa “The World Tomorrow”, teria sido escrito pela equipe do presidente Vladimir Putin, recém eleito. Russia Today é sempre apresentado nesses termos, ao público dos EUA.

Greenwald zombou, pelo Twitter: “Estou indo até o estúdio de Russia Today, para comentar a reação da mídia ao programa de Assange. Putin acaba de enviar minha pauta, por e-mail.”

Greenwald para Russia Today: “Assange criticou Nasrallah por não apoiar os sírios na luta contra a ditadura de Assad. O governo russo sempre foi aliado de Assad. A atitude de Assange, ante Nasrallah, foi diretamente oposta ao que interessaria à política dos russos para a Síria. Claro que isso dá forte credibilidade ao que Assange tem dito, sobre sua independência editorial. Quem diga o contrário disso só faz exibir-se como falso e mentiroso”.

“A regra é clara: OK, se o jornalista é pago por fabricantes de armas, por políticos norte-americanos ou pelo governo dos EUA ou da Grã-Bretanha. Pode até ser pago por Rupert Murdoch. Mas Russia Today não poderia trabalhar para o governo russo? Assange tem de ser avaliado pelo jornalismo que produz – não pelo canal que escolhe para veicular seu programa” – Greenwald tuitou.

“Os EUA estão totalmente mobilizados para processar e destruir Assange. E a Rússia lhe oferece um programa e audiência planetária. Bem faria o New York Times se ajudasse os leitores a pensar melhor sobre por que a Rússia faz o que faz. E sobre o que mostra o New York Times, quando não faz o que deveria fazer” – Greenwald completou.



Nota dos tradutores
[1] 17/4/2012, New York Times, em: “The Prisoner as Talk Show Host

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Exército boliviano se recicla


Publicado em 21/11/2010 por Mário Augusto Jakobskind

Enquanto o jornal da “ditabranda”, a Folha de S.Paulo, foi procurar nos arquivos da ditadura a ficha da Presidenta eleita Dilma Rousseff e O Globo divulgava o dossiê da ditadura, um fato dos mais relevantes na América Latina acontecia em um país vizinho do Brasil.  
O Exército boliviano, que durante anos protagonizou golpes sangrentos e alguns, como o de Hugo Banzer, nos anos 70, com o apoio da ditadura brasileira, neste ano de 2010 fez a sua opção.
Em comunicado firmado pelo general Antonio Cueto, comandante da corporação, feito por ocasião das comemorações dos 200 anos de sua criação, o Exército se declarou socialista, antiimperialista e anticapitalista. O militar assinalou que a Constituição do país promulgada em 2009 “dá lugar a que o Exército surja como uma instituição socialista, comunitária’’”. E acrescentou: “nos declaramos antiimperialistas, porque na Bolívia não deve existir nenhum poder externo que se imponha, queremos e devemos atuar com soberania e viver com dignidade”. “Também nos declaramos anticapitalistas porque este sistema está destruindo a mãe terra”.
Quer dizer, os militares bolivianos se reciclaram para um novo tempo que vive o país sob o comando do Presidente Evo Morales. As ditaduras ficaram para trás e os protagonistas responsáveis por torturas e assassinatos de representantes do povo ocupam hoje o lixo da história, o mesmo acontecendo em outros países da América Latina.  
Mas a Folha de S. Paulo e O Globo não estão nem aí. O jornal paulista empenhou ao máximo sua assessoria jurídica para conseguir o dossiê de Dilma daquele período de trevas. A jovem Dilma deu a sua contribuição na luta do povo brasileiro contra a ditadura, o que intriga a Folha de S., Paulo, que naquele mesmo período emprestava carros para a repressão. E O Globo engordava na estufa da ditadura, como diria Leonel Brizola.
O Supremo Tribunal Militar cedeu os arquivos e o jornal da família Frias se posicionou através da advogada Tais Gasparian afirmando que o fato “foi uma vitória da sociedade, mais que uma vitória da Folha de São Paulo”.
Não é por aí. A sociedade brasileira tem consciência de que arquivos do gênero conseguidos pela Folha não têm o menor valor. O que se quer saber, isto sim, é, por exemplo, quais grupos empresariais financiaram a repressão e confirmar a participação da Folha de S. Paulo naquele período de trevas. O que se quer é a divulgação de arquivos que podem ajudar a esclarecer muitos fatos daquele período, não dossiês formulados com base em torturas de presos políticos. Mas a isso o Estado brasileiro resiste.
O ano está chegando ao fim, o Brasil e a América Latina estão procurando avançar e compensar o tempo perdido por governos neoliberais e ditaduras. Há setores que a cada eleição perdem terreno, inconformados com os novos tempos. Um exemplo disso, que já pertence ao passado, foi o comportamento do candidato derrotado na última eleição presidencial. José Serra, que antes de 64 chegou a presidir a União Nacional dos Estudantes (UNE), eleito por indicação da Ação Popular com o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), deu uma guinada de 180 graus em seu currículo e se alinhou com os setores mais a direita do espectro político brasileiro. Até os integralistas tentaram sair do lixo da história manifestando apoio ao candidato tucano.
Não foi à toa, portanto, que Serra em várias oportunidades criticou duramente o governo boliviano querendo até vinculá-lo à concessão de facilidades ao narcotráfico. Utilizou argumentos infundados, mas que no fundo ajudaram os eleitores a conhecer melhor o perfil do candidato.
Mas todo cuidado é pouco, porque os setores que não se conformam com os novos tempos podem tentar de tudo para evitar que no Brasil e na América Latina haja avanços significativos que resultem em distribuição de renda, no fortalecimento do mercado interno e perda de privilégios dos setores que sempre detiveram riquezas em detrimento da maioria do povo.
Nesse contexto, o colunista Nicholas Kristof do The New York Times considerou a Venezuela uma “república bananeira”, o que valeu uma resposta imediata do embaixador da República Bolivariana nos Estados Unidos.
Para o diplomata Bernardo Alvarez o termo “’república bananeira” não é só degradante, mas tem claras vinculações com o imperialismo e não se pode aplicar à realidade venezuelana. “O termo refere-se a países pequenos, amplamente dependentes de produtos agrícolas, dominados por pequenas e incontáveis elites, servis aos interesses empresariais estadunidenses”, argumentou o embaixador. Não é o caso da Venezuela, que é conhecida mais pelo seu petróleo do que por seus produtos agrícolas e preserva a sua soberania.  
Álvarez referiu-se também a questão da desigualdade social nos Estados Unidos, que se ampliou nos últimos tempos e comparou o que acontece por lá com o que foi feito na Venezuela em dez anos com os programas sociais. A Venezuela ganha de goleada.
Como o jornal The New York Times é utilizado muitas vezes como fonte pelos colunistas de sempre, é importante o leitor destas bandas ter a informação sobre a polêmica, até para ter mais elementos para fazer o julgamento.
Em suma: vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos para ver o que nos espera nos próximos anos sob a batuta da primeira mulher eleita Presidenta deste país continente contemplado com um bilhete premiado com as riquezas do pré-sal,  avaliadas  em 10 trilhões de dólares, e não bilhões como foi informado aqui na semana anterior.
enviado por Ed Brigaboa

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

EUA: a mídia rendida ao Pentágono: PROSSEGUE o silêncio sobre os “Documentos do Iraque”

PROSSEGUE o silêncio sobre os “Documentos do Iraque” [1]

27/10/2010, Glenn Greenwald, Salon  em: More on the media's Pentagon-subservient WikiLeaks coverage

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O colunista John Burns do New York Times respondeu às (e reclamou das) críticas que lhe fizemos eu, Julian Assange e vários outros, contra o “perfil” [2] – grotesco, escrito à maneira dos tablóides sensacionalistas sobre “celebridades” do show business – de Julien Assange, e que o NYT destacou como parte central da cobertura, pelo jornal, do vazamento de documentos secretos sobre a guerra do Iraque. Em entrevista de autojustificação a Michael Calderone, do Canal Yahoo! News [3], Burns fez vários comentários que têm de ser examinados de perto:

Burns disse que não se lembra “de jamais, antes, ter sido alvo de campanha tão empenhada em ofendê-lo, agredi-lo e desrespeitá-lo”, e veio com a longa história dos seus 35 anos de serviços prestados ao jornalismo do Times. Contou que sua caixa de mensagem encheu-se de reclamações de professores das principais universidades “Harvard, Yale e MIT”. Algumas das mensagens serviam-se de “linguajar que acho [Burns acha] que aqueles professores não usam em casa, à mesa do jantar”.

Muito bom! Aí está boa notícia, dessas que nos enchem de entusiasmo e esperanças.

Pelo visto, outras pessoas também se sentiram indignadas ao constatar que o jornal que, mais que qualquer outro no planeta, tanto trabalhou para que os EUA atacassem o Iraque, anos depois, ao cobrir o mais impressionante conjunto de informações que o país continuava a ignorar sobre a mesma guerra... encarregou o seu mais celebrado correspondente de guerra e diretor da sucursal do jornal em Londres, para a inglória tarefa de ‘desvendar’ os escaninhos da personalidade de Julian Assange, apresentado, na matéria do NYT, como doente mental, pervertido, criminoso. Há muito, aí, para indignar muita gente!

Os EUA são informados, afinal, sobre mais de 100 mil mortos e sobre torturas a milhares de outros civis... e o NYT põe Burns em primeira página, para pintar retrato horrível, não da guerra, mas de Julian Assange! Imaginem só!

E, depois da chuva de mensagens indignadas que recebeu, todas protestando contra o retrato de Assange pintado por ele, Burns diz que, “de fato, são mensagens que só fazem comprovar o quanto se tornou amargo o discurso dos norte-americanos sobre as duas guerras.”

Oh! Oh! Como se... a amargura do discurso dos norte-americanos sobre duas guerras, não as guerras, fosse o problema! As pessoas estão “amargas” e “amarguradas”... sem motivo algum? Só por causa de duas guerras que se arrastam há uma década? Só porque rios de sangue de homens e mulheres inocentes estão sendo derramados e continuam a correr em vão? Só porque o Pentágono destruiu, devastou, arruinou dois países? Só porque o Pentágono disseminou pelo planeta o regime das prisões norte-americanas, de detenção e torturas, além da ocupação mais brutal? Bobagem! Por que nos deixar amargurar por tão pouco?

As pessoas que tratem, isso sim, de levantar a cabeça (e devem cuidar também de nunca escrever coisas amargas em mensagens endereçadas a John Burns).

Esse, afinal, é o único tema que realmente interessa a John Burns: John Burns.  

Fato é que o próprio Burns já explicara há alguns meses que absolutamente não havia como ele-Burns e seus iluminados e clarividentes colegas jornalistas apoiadores de guerras, quantas mais, melhor – sempre ouvidos e consultados e repetidos como especialistas que ninguém no país deveria questionar, e cujas opiniões deveriam ser seguidas sem contestação –, terem adivinhado [4] que um simples ataque ao Iraque levaria à devastadora violência e à catástrofe humanitária que se vê hoje. Ora! Ninguém nunca esperou que adivinhassem coisa alguma! Bastaria que lessem as muitas, muitas páginas que se escreveram, em todo o mundo, para alertar sobre a iminência de acontecer, no Iraque, exatamente, o que aconteceu.

Do ponto de vista de Burns, ele não “merece” insultos por e-mail, nem palavras amargas. Há aí, isso sim, uma muito amarga, sim, ironia histórica: um laureado repórter de guerra, que se lamuria, em 2010, por receber mensagens ‘amargas’, depois de ter publicado uma das colunas mais vergonhosamente enviesadas e caluniosas, mais viciosas, peça de propaganda pervertida, de destruição de reputação, que se leram no New York Times ... em vários meses.

E há mais:
O perfil de Assange que publicou, diz Burns, “é trabalho jornalístico absolutamente padrão, o mesmo padrão que usamos para qualquer história que tenha, para os EUA, importância similar àquela”. E acrescentou que “(...) o New York Times não faz jornalismo de hagiografia. Nosso negócio é oferecer aos nossos leitores o pleno contexto do qual brotam aqueles documentos” e informação confiável sobre as motivações de Assange. “Sugerir que isso seria alguma espécie de grotesco pecado de lesa-jornalismo, e pintar-me como sociopata, isso, sim, parece-me muito suspeito”.

Aqui chegamos ao xis da questão.

O que Burns escreveu sobre Julian Assange não é, de modo algum, jamais foi, “o padrão jornalístico do The New York Times”.

Quem não saiba disso, ou discorde da generalização, que encontre e exiba, por favor, qualquer artigo, um que seja, publicado no NYT e que exponha as misérias mentais, psicológicas ou de personalidade, de militar norte-americano de alta patente ou de político aliado a militares de alta patente – senador ou general ou presidente ou assessor importante, um lobbyst, que seja, aliado dos militares de alto escalão –, e que o NYT tenha publicado, com redação final costurada a partir só de diz-que-disses, boatos, calúnias e mentiras, ou opiniões buscadas, precisamente, em fontes de inimigos declarados dos militares-figurões. Não há. Nunca houve. Nunca haverá, no NYT, coluna semelhante à que Burns escreveu contra Assange, mas que centre fogo contra militar de alta patente do Pentágono.

Esse tipo de trabalho de demolição de reputação (“não está em seu juízo perfeito”, como disse, em depoimento que Burns cita sobre Assange, um rapaz de 25 que conhece Assange “de vista”) só se aplica a gente à qual os jornalistas do establishment não atribuam qualquer capacidade de influenciar os círculos do poder; pessoas sem influência direta em Washington e, sobretudo, a quem o governo dos EUA despreze.

Para a Washington-do-poder, Assange não passa de “fracassado desgraçado” [5]. O Pentágono o odeia e quer destruí-lo a qualquer custo. Assim sendo, os “jornalistas” que dependem, temem, admiram ou identificam-se com o Pentágono imediatamente adotam o mesmo ponto de vista sobre Assange e sobre seu trabalho e sobre os vazamentos. Por isso, precisamente, Burns atacou Assange tão violentamente.

Depois de publicado o meu artigo em que critiquei sua coluna, na 2ª-feira, Burns telefonou-me; não ele pessoalmente, mas o co-autor da coluna, Ravi Somaiya, que defendeu a coluna, contra o que eu publiquei. Concordei com manter a conversa off-the-record por insistência dele e assim será. Mas eu, na conversa, só fiz repetir que NUNCA HOUVE, no NYT, coluna de difamação contra figurão do Pentágono ou de Washington aliado do Pentágono, no estilo da que Burton e Somaiya assinam contra Assange.

É constatação histórica: nunca houve.

Quanto à frase de que “o NYT não faz jornalismo de hagiografia”, Burns provavelmente esqueceu o que ele mesmo escreveu sobre Sua Santidade o general Stanley McChrystal, depois de Burns haver detonado Michael Hastings pelo atrevimento de publicar na revista Rolling Stone frases do próprio general, ouvidas e gravadas, mas que voltaram, como bumerangue, contra o mesmo general falastrão. Eis o que Burns escreveu [6], ajoelhado em reverência àquele Grande Guerreiro Norte-americano:

“[o que sei] sobre o general McChrystal indica que ele é, como o artigo de Rolling Stone sugeria [7], homem de autoestima elevadíssima, confiante, pouco preocupado com convenções, mas sempre um soldado, alimentado por fé profunda nos ideais militares de “dever, honra, pátria”. Apesar de lhe ter cabido o comando no Afeganistão, que para muitos seria um cálice de veneno, o general trabalha dia e noite para resgatar a fortuna norte-americana lá investida (...) [perdê-lo] é grave infelicidade para os EUA, se se considera que foi afastado do comando um general como McChrystal, general de  coragem e decisões sempre inabaláveis (...)”.

E prossegue:

“O general George S. Patton Jr. foi considerado, em seu tempo, como o general McChrystal no Afeganistão, o melhor, o mais valoroso dos generais guerreiros dos EUA. No Iraque, pouco se sabia do general McChrystal, que lá dirigia missões super secretas, cruciais para fazermos virar a maré contra a Al-Qaeda e a guerrilha sunita, sob o comando do general Petraeus; missão que cumpriu exemplarmente, até assumir o comando no Afeganistão em junho de 2009.”

“Os jornalistas devem saber guardar suas opiniões pessoais, para preservar a visão imparcial. Mas posso dizer, sem medo de excesso, que muitos homens e mulheres que acompanharam como jornalistas o trabalho do general McChrystal como comandante no Afeganistão, ou, antes, como comandante máximo das Forças Especiais dos EUA, todos o admiravam muito. E todos se sentiram incomodados com o material publicado pela revista Rolling Stone que pôs fim a sua carreira.”

A impressão que se tem é que Burns escreveu em posição de sentido, batendo continência a uma fotografia do general. Talvez estivesse ajoelhado. O único leve sinal de algum tipo de crítica aparece como infiltrado: McChrystal “tropeçou catastroficamente” [8], ao confiar num “perdedor desgraçado”, jornalista out, excluído do establishment, não-coroado, safado, vagabundo, como Michael Hastings, que não sabe respeitar, o idiota – ou que não se rendeu –, às leis de preservação de generais que os Verdadeiros Jornalistas sempre usam nos exercícios de veneração que chamam de “cobertura do Pentágono”. E apesar de haver escrito 2.700 palavras carregadas de elogios a McChrystal, Burns não faz qualquer referência a coisinhas como o envolvimento de McChrystal no escândalo Pat Tillman, nem a tortura generalizada no Iraque em prisões sob seu comando, até que um leitor escreveu e perguntou-lhe. Então, Burns tocou nesses tópicos, o suficiente, só, para desmentir tudo. O jornalismo de Burns, sempre que escreve sobre McChrystal é exemplar, é a definição, de hagiografia jornalística. (...)

“Hagiografia” é exatamente o que faz a mídia do establishment nos EUA na cobertura dos políticos mais poderosos e dos líderes militares. E a mesma mídia reserva toda a vilania mais ativa contra os desprezados pelos poderosos de Washington. Julian Assange é hoje o odiado da vez.

A agenda da grande mídia nos EUA submete-se tão completamente à agenda do Pentágono, e a cobertura que estão dando aos documentos vazados por WikiLeads é tão pífia, vários grandes jornalistas, respeitados nacionalmente, já começaram a desmentir jornais e jornalistas, muitos deles sem omitir nomes.
John Parker, ex-repórter militar e professor do Centro Knight de Especialização em Jornalismo – Cobertura de Atividades Militares da University of Maryland, escreveu e publicou ontem uma carta excepcional, que merece ser lida “A atenção que a “grande” mídia nos EUA não deu aos “Documentos do Iraque” não deveria surpreender ninguém” , 26/10/2010, Romenesko Letters, John Parker.


Notas de Rodapé:

[1] Sobre o mesmo tema, ver também blog redecastorphoto, em; Assange – WikiLeaks, ao vivo, pro entrevistador, ontem à noite:    , WikiLeaks divulga arquivo secreto da Guerra do Iraque  e WikiLeaks: novas imagens dos crimes americanos no Iraque (em inglês). Matéria do The Independent de Londres, traduzida, no blog redecastorphoto, em: WikiLeaks: A vergonha dos EUA exposta

[2] O artigo comentado está em WikiLeaks Founder on the Run, Trailed by Notoriety  (em inglês)

[3] A entrevista pode ser vista e ouvida em:  NY Times reporter defends profile of WikiLeaks’ Assange (em inglês)

[4]
O artigo citado está em: The "nobody could have known" excuse and Iraq (em inglês)

[5] O artigo está em: Pentagon Sees a Threat From Online Muckrakers (em inglês)


[7] Comentado em: The Formula. (em inglês)

sábado, 3 de julho de 2010

FICHA LIMPA PARA A MÍDIA

Laerte Braga

O jornal NEW YORK TIMES, num determinado momento da campanha presidencial de 2008 nos Estados Unidos, publicou um editorial anunciando seu apoio ao candidato democrata Barack Obama. Desfilou as razões da atitude, anunciou sua opção.

Em momento algum o NEW YORK TIMES adulterou notícias, inventou dossiês, montou pesquisas para favorecer seu candidato, nada semelhante ao que fazem os veículos das organizações GLOBO, de VEJA, ou FOLHA DE SÃO PAULO. Tão somente tornou pública a sua posição.

Um jornal ou revista apoiar determinado candidato não implica em crime e nem o transforma em órgão mentiroso. O que faz com que a grande mídia no Brasil seja mentirosa, parte do complexo político e econômico orientado pelos interesses de banqueiros, grandes empresários e latifundiários é exatamente a falta de caráter, o fato de serem veículos comprados e compráveis. Sugerem imparcialidade que não existe para dissimular essa falta de caráter.

Há dias uma menor foi violentada em Santa Catarina por três adolescentes. Um deles filho de um dos donos da RBS, rede de televisão ligada a GLOBO e que opera no sul do País. Silêncio absoluto no JORNAL NACIONAL. Filho de diretor de redes afiliadas, ou associadas pode tudo, inclusive violentar menores.

O nome do cidadão, o pai, o amigo da GLOBO, parceiro, é Sérgio Sirotsky. O caso aconteceu na casa da mãe do rapaz. A moça foi embebedada e estuprada de todas as formas possíveis por três rapazes, dois além do filho do dono da RBS.

Foi a própria mãe do rapaz que ao abrir a porta do quarto do filho e ver ao que estava acontecendo parou a barbárie, ligou para os pais da menina e na tentativa de salvar seu filho comunicou que a filha deles estava bêbada, “sabe como é festa de adolescentes, por favor venham buscá-la”.

Silêncio absoluto no JORNAL NACIONAL.

São covardes além de mentirosos.

À época da ditadura militar um grupo de empresários paulistas montou e financiou a OBAN – OPERAÇÃO BANDEIRANTES –. Ligava grupos de repressão e terror da ditadura. Os presos que foram torturados e assassinados eram entregues às famílias em caixões lacrados, com proibição expressa de virem a ser abertos. Os velórios eram “fiscalizados” pelos militares. Um comunicado simples era emitido. Foram vítimas de atropelamento.

Os caminhões que desovavam os corpos pertenciam ao jornal FOLHA DE SÃO PAULO. Emprestava-os para essa função.

A OBAN está toda documentada em O CIDADÃO BOILESEN, em alusão ao nome do empresário dinamarquês que veio para o Brasil montá-la. O “patriotismo” dos nossos militares era comandado de fora para dentro. Batiam continência para os norte-americanos e grandes grupos e bancos europeus.

Continuam, em sua maioria, a bater continência do mesmo jeito.

Toda a barbárie e violência do regime militar foi omitida pela GLOBO. Montada com capital estrangeiro (curiosamente as primeiras denúncias vieram de Carlos Lacerda) é até hoje uma empresa operada por brasileiros, propriedade de uma família de brasileiros, mas a serviço de país e grupos estrangeiros.

Omitiu-se na campanha das diretas, no impedimento de Collor e em todas as vezes que os interesses daqueles que pagam pudessem vir a ser contrariados.

Um fato recente foi a queda de um avião da GOL, às vésperas das eleições de 2006. O avião caiu por entre 17h e 18h, morreram mais de cem pessoas, as concorrentes noticiaram com destaque, mas para a GLOBO o fato principal era um dossiê falso no qual tentava implicar o então presidente e candidato à reeleição Lula e assim favorecer o tucano Geraldo Alckimin.

Noticiar o acidente tiraria o impacto do documento mentira produzido pela organização. Como a caravana da cidadania sob o comando do BBB Pedro Bial.

Ou mesmo o acidente com um avião da TAM. No primeiro momento culparam o governo pela “falta de ranhuras na pista” e ao longo da semana se percebeu, se descobriu, que o avião estava com problemas no reverso, numa das turbinas e a companhia não fazia a manutenção adequada, além do que, havia dado problema num vôo no dia anterior.

Na sexta-feira seguinte ao acidente, como não pudessem dar a mão a palmatória, ou criticar a companhia, é anunciante, VEJA saiu com a capa afirmando que o culpado fora o piloto.

São covardes e mentirosos.

O jornal FOLHA DE SÃO PAULO publicou um currículo falso da candidata Dilma Roussef e foi publicamente advertida disso pelo próprio onmbudsman do jornal, mas manteve a mentira. Não havia erro na publicação da farsa, fora deliberada.

São covardes e mentirosos.

A Operação Harém da Polícia Federal mostra que laranjas dessas empresas, sobretudo a GLOBO, se valem de atrizes, modelos, dançarinas, para “fechar grandes contratos publicitários”. Na cama. E por um bom michê, no caso não é cachê.

Claro, as que se prestam a isso.

É essa gente que quer eleger um político venal, corrupto, agente de interesses de países e grupos estrangeiros para presidente da República. José Arruda Serra.

Se dizem imparciais.

Mas são apenas covardes e mentirosos.

Não têm compromisso algum com o Brasil, os brasileiros.

Várias organizações estão remetendo a ONU, tribunais internacionais, documentos mostrando o processo de compra da GLOBO São Paulo pelo grupo de Roberto Marinho, diante da passividade da Justiça brasileira.

A empresa foi comprada com documentos falsificados, falsificação comprovada por perícia, até com assinatura de morto. Mas fica tudo por isso mesmo.

A Justiça nada.

O processo de privatização da VALE no governo corrupto e venal de FHC foi julgado em primeira instância como criminoso, lesivo aos interesses nacionais, mas por cima, nas chamadas cortes superiores fica parado.

E o JORNAL NACIONAL e a grande mídia silenciosa. São comprados pelos donos atuais da VALE.

E assim o dia a dia desses veículos, dessas redes de tevê, rádios, jornais e revistas.

Vendem alienação. Desinformação, mentira. São pagos para isso.

Estuprar menores, fica decidido, se for filho de dono de associada, ou amigo do peito, pode sem problema, o JORNAL NACIONAL fica caladinho.

São covardes e mentirosos.

Que tal ficha limpa para a mídia?

Que tal uma discussão pública sobre comunicação? Discutir o poder de poucas famílias num setor fundamental para o processo democrático?

A maneira, por exemplo, como tratam a questão de rádios e tevês comunitárias, tentando criar toda a sorte de obstáculos para dificultar uma participação efetiva de movimentos sociais, sindicatos, nesse setor, por que não trazer a público esse discussão, redesenhar esse modelo em que a comunicação vira um latifúndio mentiroso (existe latifúndio verdadeiro?) e que permite a um apresentador de telejornal chamar o telespectador de idiota, como o fez William Bonner diante de alunos e professores de uma universidade paulista?

Ficha limpa para a mídia.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A Terceira Depressão

A Terceira Depressão

Paul Krugman*
02.Jul.10 :: Outros autores
PAUL KRUGMAN

São cada vez mais, mais fortes e mais apreensivas as vozes dos epígonos do capitalismo que alertam para os perigos económicos e as graves consequências sociais das políticas impostas pelo grande capital na sua tentativa da recuperação capitalista da crise. Sabedores dos perigos sociais e políticos de uma recuperação à custa da classe trabalhadoras procuram a quadratura do círculo: uma inexistente posição intermédia entre a recuperação á custa da classe trabalhadora ou do grande capital monopolista.


Receio que estejamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. E o custo para a economia mundial será imenso.

Recessões são comuns; depressões são raras. Pelo que sei, houve apenas duas eras qualificadas como «depressões» na ocasião: os anos de deflação e instabilidade que acompanharam o Pânico de 1873, e os anos de desemprego em massa, após a crise financeira de 1929-31.

Nem a Longa Depressão do século XIX nem a Grande Depressão, no século XX, registaram declínio contínuo. Pelo contrário, ambas tiveram períodos de crescimento. Mas esses períodos de melhoria jamais foram suficientes para desfazer os danos provocados pela depressão inicial e foram seguidos de recaídas.

Receio que estejamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. Que provavelmente vai se assemelhar mais à Longa Depressão do que a uma Grande Depressão mais severa. Mas o custo – para a economia mundial e, sobretudo, para as milhões de pessoas arruinadas pela falta de emprego – será imenso.

E essa terceira depressão tem a ver, principalmente, com o fracasso político. Em todo o mundo – e, mais recentemente, no desanimador encontro do G-20 – os governos mostram-se obcecados com a inflação quando a ameaça é a deflação, e insistem na necessidade de apertar o cinto, quando o problema de fato são os gastos inadequados.

Em 2008 e 2009, parecia que tínhamos aprendido com a história. Ao contrário dos seus predecessores, que elevavam as taxas de juro para enfrentar uma crise financeira, os atuais líderes do Federal Reserve e do Banco Central Europeu (BCE) cortaram os juros e partiram em apoio aos mercados de crédito.

Ao contrário dos governos do passado, que tentaram equilibrar os orçamentos para combater uma economia em declínio, os governos hoje deixam os déficits crescerem. E melhores políticas ajudaram o mundo a evitar o colapso total: podemos dizer que a recessão causada pela crise acabou no Verão (no Hemisfério Norte) passado.

Mas os futuros historiadores vão nos dizer que esse não foi o fim da terceira depressão, da mesma maneira que a retoma econômica em 1933 não foi o fim da Grande Depressão. Afinal, o desemprego – especialmente a longo prazo – continua em níveis que seriam considerados catastróficos há alguns anos. E tanto os Estados Unidos como a Europa estão perto de cair na mesma armadilha deflacionária que atingiu o Japão.

Diante desse quadro, você poderia esperar que os legisladores entendessem que não fizeram o suficiente para promover a recuperação. Mas não. Nos últimos meses observamos o ressurgimento da ortodoxia do equilíbrio orçamentário e da moeda forte.

O ressurgimento dessas teses antiquadas é mais evidente na Europa. Mas, em termos práticos, os EUA não estão agindo muito melhor. O FED parece consciente dos riscos de deflação – mas o que propõe fazer é: nada. O governo Obama entende os perigos de uma austeridade fiscal prematura – mas, como republicanos e democratas conservadores não aprovam uma ajuda adicional aos governos estaduais, essa austeridade se impõe de qualquer maneira, com os cortes nos orçamentos estaduais e municipais.

Por que essa virada da política? Os radicais com frequência referem-se às dificuldades da Grécia e outros países na periferia da Europa para justificar seus atos. E é verdade que os investidores atacaram os governos com déficits incontroláveis. Mas não há evidência de que uma austeridade a curto prazo, ante uma economia deprimida, vai tranquilizar os investidores.

Pelo contrário: a Grécia concordou com um plano de austeridade, mas viu seus riscos se ampliarem; a Irlanda estabeleceu cortes brutais dos gastos públicos e foi tratada pelos mercados como um país com risco maior que a Espanha, que até agora resiste em adotar medidas drásticas propugnadas pelos radicais.

É como se os mercados entendessem o que os legisladores não compreendem: que, embora a responsabilidade fiscal a longo prazo seja importante, cortar gastos no meio de uma depressão vai aprofundar essa depressão e abrir caminho para a deflação, o que é contraproducente.

Portanto, não acho que as coisas tenham a ver de fato com a Grécia, ou com qualquer visão realista sobre o que priorizar: déficits ou empregos. Em vez disso, trata-se da vitória de teses conservadoras que não se baseiam numa análise racional e cujo principal dogma é que, nos tempos difíceis, é preciso impor sofrimento a outras pessoas para mostrar liderança.

E quem pagará o preço pelo triunfo dessas teses? A resposta: dezenas de milhões de desempregados, muitos deles sujeitos a ficar sem emprego por anos e outros que nunca mais voltarão a trabalhar.

* Paul Krugman, economista galadoardo com o Prémio Nobel em 2008 é colaborador habitual do New York Times

Este texto em português, traduzido do New York Times, foi publicado no diário brasileiro Estado de S. Paulo

Tradução de Terezinha Martino e enviado por MVMeireles

O artigo original, em inglês, pode ser lido em:
The Third Depression

retirado do ODiário.Info

quinta-feira, 1 de julho de 2010

New York Times: O boom na América Latina

Economies in Latin America Race Ahead

Simon Romero, no New York Times, em 30.06.2010

Tradução do Viomundo


LIMA, Peru — Enquanto os Estados Unidos e a Europa enfrentam grandes déficits e ameaças a uma frágil recuperação econômica, esta região tem uma surpresa guardada. A América Latina, que enfrentou no passado moratórias no pagamento de dívidas, desvalorizações de moedas e a necessidade de resgates por parte de países ricos , está experimentando um crescimento econômico robusto que faz a inveja de seus parceiros nortistas.

A forte demanda da Ásia por commodities como minério de ferro, cobre e ouro, combinada com políticas em várias economias da América Latina para controlar déficits e para manter a inflação baixa, estão encorajando investimento e abastecendo a maior parte do crescimento. O Banco Mundial prevê que a economia da região vá crescer 4,5% este ano.

O crescimento recente na América Latina superou as expectativas de vários governos. O Brasil, o poder ascendente da região, está liderando uma recuperação regional depois da crise de 2009, crescendo 9% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. O Banco Central do Brasil disse na quarta-feira que o crescimento em 2010 poderia atingir 7,3%, a maior expansão da Nação em 24 anos.

Depois de uma profunda contração no ano passado, a economia do México cresceu 4,3% no primeiro trimestre e pode atingir 5% este ano, diz o governo mexicano, possivelmente superando o crescimento econômico dos Estados Unidos.

Países menores também estão crescendo rápido. Aqui no Peru, onde memórias ainda estão vivas de uma economia em frangalhos por causa da hiperinflação e de uma guerra brutal de duas décadas contra rebeldes maoistas que deixou quase 70 mil mortos, o crescimento doméstico atingiu 9,3% em abril em relação ao mesmo mês do ano anterior.

“Estamos testemunhando o que provavelmente serão as melhores condições econômicas do Peru em minha vida”, disse Mario Zamora, de 70 anos, que tem seis farmácias em Los Olivos, um bairro de classe trabalhadora ao norte de Lima, onde milhares de migrantes pobres do altiplano se estabeleceram.

A vibração se mistura com determinação em torno das farmácias do empresário. Uma loja de pizzas Domino disputa clientes com um restaurante peruano de comida chinesa chamada chifas. Mototáxis entregam pasageiros nos clubes noturnos. Competição, na forma de uma recém-chegada rede de farmácias do Chile, agora se posiciona na esquina além da principal loja [de Zamora].

Los Olivos oferece uma janela para ver o crescimento econômico que está tirando partes da América Latina da pobreza, mas exceções persistem. Na Venezuela, a falta de energia e o medo das expropriações fizeram o PIB encolher 5,8% no primeiro trimestre.

Mas a Venezuela e em menor dimensão o Equador, outro país dependente do petróleo que ficou para trás de seus vizinhos, parecem ser a exceção dentro de uma tendência regional ampla.

Mesmo países pequenos alinhados ideologicamente com a Venezuela adotaram políticas pragmáticas e estão se dando bem. Enquanto a Europa foi tomada pelo medo de contágio da crise da dívida da Grécia, a agência Standard & Poor aumentou a nota da Bolívia em maio, citando que as finanças públicas estão em bom estado.

O crescimento da América Latina reflete o aprofundamento das relações com a Ásia, onde a China e outros países estão crescendo rapidamente. A China ultrapassou os Estados Unidos no ano pasado como o maior parceiro comercial do Brasil e é hoje o segundo maior parceiro de países como a Venezuela e a Colômbia, o maior aliado de Washington na região.

Alguns estudiosos da história econômica da América Latina dizem que a recuperação robusta pode ser boa demais para durar, apontando para a política volátil de alguns lugares, a dependência excessiva de exportações de commodities e o risco embutido no crescimento do comércio com a China.

Michael Pettis, um especialista nas ligações financeiras da China com países em desenvolvimento [da Universidade de Peking em Beijing], disse que a América Latina está especialmente exposta às políticas chinesas que aumentaram a demanda por commodities, inclusive ao que parece ser a decisão chinesa de estocar essas commodities.

“Dentro da China há um debate feroz sobre a sustentabilidade desse crescimento baseado em investimento”, o sr. Pettis disse. “Estou preocupado com o fato de que poucos planejadores da América Latina acompanham o debate e a vulnerabilidade que ele cria na América Latina”.

Outros economistas, inclusive Nicolás Eyzaguire, direitor do departamento de Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional, sugerem que as baixas taxas de juros internacionais, outro fator de sustenta o crescimento da América Latina, não vão durar muito mais. Ainda assim, eles aplaudem as políticas internas adotadas para robustecer o mercado doméstico.

O Chile, por exemplo, guardou a renda das exportações de cobre quando o preço do produto aumentou no mercado internacional, permitindo assim um plano de estímulo interno para recuperação econômica depois do terremoto de fevereiro. A economia do Chile cresceu 8,2% em abril em relação ao mês anterior, o maior crescimento desde 1996.

“Desta vez, o choque positivo parece ainda melhor, já que alguns países guardaram parte do que ganharam nos anos bons”, diz o sr. Eyzaguirre.

Dentro do FMI, a recuperação econômica da América Latina se traduz em novas políticas, particularmente em relação ao Brasil, que pagou tudo o que devia ao Fundo e está em busca de fortalecer sua posição no FMI.

Com o Brasil crescendo a taxas chineses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está alimentando ambições de soft-power, com ações políticas como uma TV estatal que transmite programação para a África.

David Rothkopf, uma ex-autoridade do Departamento de Comércio no governo Clinton, apontou para dezenas de embaixadas e consulados que o sr. da Silva abriu em todo o mundo.

“Como outros países latino-americanos, o Brasil precisa melhorar sua infraestrutura e treinar mais engenheiros”, o sr. Rothkopf afirmou, “mas demonstra a ascensão de novos poderes, uma dos grandes temas deste século”.

O Peru, cujo crescimento econômico deverá superar o do Brasil dentro dos próximos anos, exemplifica os desafios para a manutenção de uma economia vibrante.

O país tem companhias como o Ajegroup, fundado durante o caos dos anos 80. Agora a empresa de refrigerantes compete com gigantes como a Coca-Cola, não apenas no Peru mas em outros países da América Latina.

O investimento estrangeiro tem entrado no Peru, a maior parte em mineração. Mas este investimento revela ao mesmo tempo a força e a fraqueza da economia. A mineração responde por 8% da atividade econômica do Peru, mas por cerca de metade da arrecadação de impostos, criando problemas se os preços das commodities cairem, diz Pedro Pablo Kuczynski, um ex-ministro das finanças.

Profundas desigualdades persistem, especialmente entre a capital, Lima, e o planalto andino e as florestas da bacia amazônica , onde facções do Sendero Luminoso se abastecem do tráfico de cocaína.

Cerca de 70% da força de trabalho ainda é informal, o que reduz o acesso dos trabalhadores a benefícios e reduz a arrecadação do governo.

Mas parte daquilo que brilha na recuperação do Peru parece pavimentar o caminho para a prosperidade duradoura. Felipe Castillo, de 60 anos, prefeito de Los Olivos, está investindo em uma nova universidade municipal que terá mensalidades baixas para atender a 4 mil estudantes. Ele recentemente visitou o prédio de 11 andares que está em construção em uma favela que aos poucos está se tornando um bairro de classe média baixa.

”Talvez os estudantes dessa instituição aprendam sobre os erros de nossa política econômica no passado apenas como dados trágicos de uma era que acabou”, disse o sr. Castillo.